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Um Longo Entendimento

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Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Eugénio de Andrade

O lançamento de CD pela Academia Brasileira de Música (ABM) deixa-me bem feliz, mormente por tratar-se de homenagem ao nosso maior compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931). Trata-se do terceiro CD dedicado inteiramente ao autor gravado na planura flamenga, sendo que os dois primeiros privilegiaram a obra de câmara com piano e o presente contempla unicamente criações para piano solo (vide site, item Recordings). Gravei-o, como o faço nestes últimos quinze anos, na mágica capela de Sint-Hilarius em Mullem, na Bélgica. Foi registrado em dois anos (Fevereiro 2006-2007), pois após o terceiro ou quarto dia de gravação de CD, previsto para lançamento em ano posterior pelo selo De Rode Pomp, aproveitava a disposição sempre solidária de meu dileto amigo, o engenheiro de som Johan Kennivé, e, projeto concluso, deixava serenamente fixadas as mensagens oswaldianas. Denominei a junção dessas peças, que penetraram os microfones instalados em Sint-Hilarius, de O Piano Intimista de Henrique Oswald. Se algumas delas contêm arroubo característico do período, seria contudo o intimismo um dos fundamentos essenciais de Henrique Oswald. No texto que segue, encarte do CD, dedico a gravação à amiga e irmã em tantas intenções, Maria Isabel Oswald Monteiro. Foi ela que, desde o primeiro encontro em 1978, quando iniciei as pesquisas, abriu-me o universo por vezes velado, mas extremamente sensível, de seu avô Henrique (vide Henrique Oswald – Nosso Grande Músico Romântico, 19/10/07). Diários, cartas e manuscritos foram amorosamente percorridos por nossos olhares e captados por nossas mentes e nossos corações. Mensalmente visitava-a no Rio de Janeiro e permanecia em seu apartamento durante dois ou três dias. Foram momentos inefáveis que vivi no convívio do casal Oswald Monteiro. O telefonema que recebi da amiga nonagenária após a recepção do CD ficará gravado em meu de profundis.
O texto que segue acompanha o encarte do CD ora lançado que pode ser encontrado na Academia Brasileira de Música, (www.abmusica.gov.br) e na Loja Clássicos (www.classicos.com.br).

O Piano Intimista de Henrique Oswald

Em seu diário de 1906 e em cartas diversas, Henrique Oswald deixa registrado desencantos motivados pela burocracia à qual sua índole era avessa. Quando em Munique para apresentação camerística, é-Ihe doloroso vislumbrar o retorno à direção do Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, onde ambiente inóspito o aguardava. Aos 54 anos, a maior parte a viver em Florença com a família, a compor e a lecionar, comungando austeridade e sonhos, Oswald evidencia seu distanciamento do aspecto prático do cotidiano. Em relatos pungentes, o compositor faz referência à criação de curto fôlego para piano, refúgio incondicional que encontra para revelar estados de alma.
A segunda metade do século XIX abrigaria com inusitada frequência um gênero musical para piano bem próximo à suíte barroca para teclado praticada entre os séculos XVII e XVIII na Europa. Seria possível supor que uma das causas tenha sido o silêncio do cravo, instrumento banido do currículo do Conservatório de Paris anos após a Revolução Francesa, o que determinaria com naturalidade a transferência de todo um repertório cravístico para o pianoforte e, consequentemente, para o piano moderno. Ter permanecido doravante no repertório dos pianistas e nas salas de aula, mesmo com a soberana forma Sonata a dominar parte do cenário musical, possibilitaria a esse repertório cravístico, praticado unicamente por pianistas, influenciar a criação da pequena peça, a formar coletâneas na primeira metade do século XIX. Talvez tenha havido, como saudosismo, a revisitação à forma suíte na segunda metade do século XIX por compositores de todos os níveis; modificada em sua estrutura, mas a fazer reviver danças e outras categorias de peças frequentadas pelos compositores do século XVIII. Mantinha-se, entretanto, a alternância entre os movimentos rápidos e os mais moderados.
Se a forma Sonata foi utilizada com plena competência por Henrique Oswald e sua obra camerística, orquestral e a destinada a instrumento solista e orquestra comprovam a maestria escritural, se a música sacro-vocal revelaria consistência criativa, se três óperas apresentam-no como um cultor do gênero, seria contudo nas composições para piano solo que o Oswald mais intimista se faria sentir. De sua pena fluem mais de duas centenas de criações para piano, da mais pueril à austeridade das Variações sobre um tema de Barrozo Netto, à virtuosidade dos seis Estudos, do Impromptu op 19 ou da Polonaise op. 34 n° 1, como exemplos. Contudo, seria em duas categorias precisas que o autor de Il Neige mais confessaria musicalmente intenções íntimas. Aquelas destinadas aos primeiros anos de aprendizado pianístico, como Machiette, Bluettes, Miniaturas, às coletâneas em forma de suítes que receberam diversas denominações: Fogli d’album, Feuilles d’album, Álbuns, ou simplesmente conjunto de peças constituindo pequenas coletâneas de três, quatro ou mais composições. Oswald presta tributo ao passado e revisita, tantas vezes, danças caras aos cravistas: Gavota, Minueto, Sarabanda. Se o século XVIII privilegiou para o teclado – mormente em França – titulações descritivas, nem por isso o compositor brasileiro deixa de lembrar-se de imagens que lhe são caras. Oswald sabe introduzir conteúdos românticos essenciais quando está a descrever musicalmente. O Eu que persiste na segunda metade do século XIX, a revelar sentimentos que podem ser exacerbados em outros compositores, tem em Oswald o comedimento, a não impedir a presença do sensível estereotipado, mas sempre intenso. Se pratica amadoristicamente o desenho, o olhar diferenciado transforma o que observa ou sente em sons ou traços.
O domínio da arte de compor é completo. Não há segredo escritural para o romântico Henrique Oswald. Ter vivido na Itália em plena efusão da ópera e das melodias contagiantes teria influenciado o compositor, pois sua inclinação para a melodia que penetra corações é imensa. Sabe o limite dessa comunicação direta, pois em nenhuma de suas criações atinge a banalidade de expressão.

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A escolha do repertório do presente CD obedeceu a critérios que possibilitam a percepção de Henrique Oswald nas várias destinações pianísticas, da simples à complexa. Sob aspecto outro, ao iniciar as pesquisas sobre o compositor em 1978, mercê do apoio incondicional da neta do compositor, Maria Isabel Oswald Monteiro, durante nossos primeiros encontros presenteou-me a dileta amiga com alguns manuscritos autógrafos. Algumas dessas obras constam do CD: Tre Piccoli Pezzi, Berceuse – a mia carissima Madre, Menuetto de Machhiette, Polonaise op. 34 n° 1 e o Estudo-Scherzo de 1902. Bem posteriormente, em 1994, Maria Isabel doaria seu acervo particular à Universidade de São Paulo.
Quando em Florença, Henrique Oswald sente-se atraído pela composição da pequena peça, que viria a atender desideratos precisos. Serviria como material didático, assim como figuraria nas audições de alunos ou serões familiares. Na pena de Oswald flui a peça de curto fôlego com maestria escritural, senso absoluto das proporções nas várias formas e sensibilidade aguda para o melodismo. Machiette (12 Piccoli Pezzi), dividida em quatro cadernos, revela a proximidade com obras primas como Cenas Infantis op. 15, de Schumann. Ambas economizam nos meios, a fim de propósitos específicos. Macchiette não apresenta ênfase a mais, multum in minimo, e tudo lá está, destinado ao encantamento. Os fascículos foram escritos nas fronteiras dos anos 70-80 do século XIX e editados.
As Variações sobre um tema de Barroso Netto datam de 1919. O compositor presta tributo ao amigo, pianista e professor, e constrói uma de suas mais significativas criações para piano. Na maturidade dos 67 anos, Oswald revela rara austeridade, e o sóbrio tema de Barroso Netto conduz a criação oswaldiana a outra possibilidade de reflexão, pois as variações já possibilitam vislumbrar o autor em direção à síntese de procedimentos.
Tre Piccoli Pezzi foram escritas em começos de Junho de 1885. Mais tarde, integrariam a pequena coletânea de seis peças Fogli d’Album op. 3, por mim gravadas em LP lançado pela Funarte em 1982. A presente opção pelas três peças vem do frescor do traço que caracteriza a reunião primeira de Oswald. A segunda miniatura, denominada Romance, terá em Fogli d’Album o título Sognando, e dela o compositor ainda realizaria uma versão para violoncelo e piano.
A pequena Berceuse dedicada à “Mia carissima Madre” data de 22 de Setembro de 1886, data cara à progenitora de Henrique. A singeleza e o mínimo material empregado revelam um profundo sentido expressivo.
Dois dos seis Estudos para piano de Oswald constam do CD. Bem diversificados, apresentam a familiaridade do autor com gênero amplamente sedimentado no século XIX. Terminado aos 23 de Janeiro de 1902, o Scherzo-Étude, verdadeiro perpetuum mobile, foi dedicado à então Mlle. Antonieta Rudge, que se tornaria uma das maiores pianistas de sua época. Obra virtuosística, contrasta com o sóbrio Étude pour la main gauche escrito em fins de Junho 1921 e dedicado à filha do compositor Alberto Nepomuceno, Mlle. Sigried. Após recital que apresentei em Lisboa (26/02/82), inteiramente dedicado a Henrique Oswald, o crítico e musicólogo Humberto d’Ávila, do Diário de Notícias, assim escreve sobre o Estudo: “Se algum dos números em programa fosse de distinguir, bastaria citar o ‘Étude pour Ia main gauche’, de 1921, para se ter a certeza da garra dum compositor capaz de escrever uma das melhores páginas da literatura do gênero.”
Das coletâneas oswaldianas para piano, uma das mais expressivas é a que reúne as Six Pièces. O compositor, em suas obras de curto fôlego destinadas ao instrumento, emprega titulação francesa, italiana ou portuguesa, a partir de fixação geográfica, múltiplas afinidades em determinados períodos, ou mesmo a origem de amigos a quem as peças foram dedicadas. Six Morceux tem todos os títulos em francês. Se Valse, Menuet e Impromptu são mais estereotipadas, o intimismo maior estaria reservado às três peças centrais – Revêrie, Berceuse e Barcarolle. Vladimir Jankélévitch, ao se debruçar sobre as criações de Gabriel Fauré, defende uma posição absolutamente aplicável a Henrique Oswald, “o Fauré brasileiro”, no entender do grande pianista Arthur Rubinstein. Berceuses, Barcarolas e Noturnos pertencem, segundo o filósofo-músico, ao universo do doce ondular. O balanço do berço ou da gôndola e a magia do sonho do Noturno pressupõem inalienável identidade. Oswald, em cada peça do álbum, revela seus segredos sonoros.
Finalizando o CD, a Polonaise op.34 n° 1, cujo manuscrito autógrafo data de 5 de Fevereiro de 1901. Igualmente dedicada à Mlle. Antonieta Rudge, a obra difere das anteriores desta gravação, pois contém elementos pomposos caracterizando a dança tão habitualmente frequentada por compositores, mormente Chopin.
Claude Debussy escreveria sobre seus Études, a dizer que não se pode abordar a maiúscula obra apenas com os dedos preparados. Diria que o mesmo se aplica à obra para piano de Henrique Oswald nesse outro conteúdo essencial, a anima. Sem a relação amorosa com esse piano intimista, tantas vezes coloquial, uma lacuna existirá. O absoluto domínio escritural e a não vinculação com o nacionalismo que emergia deram a Oswald a possibilidade de transferir integralmente para o papel pautado o seu interior, a sua noção do belo pelo belo, sem se importar com a possibilidade da plena divulgação.
Dedico este CD à Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor e filha do grande pintor Carlos Oswald. Foi ela que, desde 1978, acreditou nesse resgate que amorosamente nós ambos estivemos a realizar. É com alegria que verificamos que lentamente, uma década após, trabalhos acadêmicos foram surgindo a partir de nosso pioneirismo, o que nos dá a certeza de que Henrique Oswald permanecerá e a execução de sua obra no Brasil e no Exterior tem revelado um dos mais sensíveis compositores do caudaloso movimento romântico.

Clique para ouvir as faixas 2, 23 e 26 do CD “O Piano Intimista de Henrique Oswald”, com José Eduardo Martins ao piano.
Scherzo – Machiette Op.02
Berceuse Op.04 No.04
Polonaise Op.34

Quando mensagem tem guarida

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Na estrada por que vou
Não fujo do meu norte.

Edmundo Bettencourt

A carta ao jovem pianista (vide post de 13/02/10) propiciou número inusitado de acessos. Muitos leitores se interessaram pela problemática do amadurecimento artístico. Friso sempre que a idade não significa aprioristicamente status mais adequado para que a compreensão se dê. Se vícios adquiridos em quaisquer atividades artísticas se enraizarem, natural supor que eles recrudesçam com o decorrer do tempo, o que compromete o aprimoramento. Não obstante, se houver equilíbrio no todo de um desenvolvimento, certamente o amadurecer será fato real.
Após a publicação do blog, o jovem respondeu-me e, dias após, inseri no post a missiva eletrônica por ele enviada. Outras mensagens chegaram ao meu correio eletrônico e seis, entre inúmeras significativas considerações de leitores, transcrevo a seguir.
Um dos maiores músicos brasileiros, Roberto Duarte, regente e pesquisador, gravou inúmeros CDs no Leste da Europa contendo a obra sinfônica de Villa-Lobos. Escreveu-me a relatar sua arguta compreenção desse ato mágico, a gravação competente: “Notas na pauta, ritmos assinalados, sinais de agógica, indicações de dinâmica e instruções para a execução não bastam para que uma música exista. Falta o elemento básico: o som. Sem ele tudo aquilo que está ali escrito será apenas um lembrete, uma representação muda e sem vida do que aquela obra de arte poderá ser. Para produzir o som é necessária a figura, a presença do intérprete cantor, instrumentista ou regente. É o mediador. Sua posição, extremamente importante, entre o compositor, através da partitura (texto musical escrito), e o ouvinte (público) é difícil e delicada. Torna-se cada vez mais complexa à medida que o autor e o intérprete se distanciam no espaço e no tempo. O significado dos sinais gráficos vai se alterando com o passar das décadas e aos poucos esses sinais vão perdendo o sentido original. O artista é obrigado a um estudo cada vez mais profundo sobre a maneira de escrever dos diferentes compositores e das diversas épocas em que as obras foram criadas.
As coisas se complicam ainda mais quando o intérprete moderno (dos últimos 50 anos, pelo menos) entra em um estúdio de gravação para perpetuar as suas interpretações. É uma enorme responsabilidade, mesmo para um artista experiente. Hoje, com a fantástica difusão da internet em todas as camadas da sociedade, ouve-se de tudo: desde os grande mestres do passado até aos inconsequentes jovens talentosos, mas sem o devido preparo que se lançam ao mundo de forma completamente impensada”.
Da Califórnia (U.S.A), o leitor Paulo de Matos Machado demonstra a extensão do tema. Escreve: “Soube dos blogs do senhor professor através de um amigo que vive em São Miguel nos Açores. Dizia-me lá ele que está a ler seus textos desde o ano que passou. Acompanhei o conselho e tenho seguido semanalmente a diversidade dos posts do senhor professor. Calou-me muito ‘Carta a um Jovem Pianista’, pois o senhor professor transmite ao novel artista toda a experiência vivida, inclusive a comentar ocorrências não muito alvissareiras. Reporto-me à investida dos mosquitos durante gravações e a ganância de colega que não teve a decantação que se faz necessária para um amadurecer, a trocar a exatidão pela pressa em ‘aprender’ material para registo de Lp em apenas três dias ! O texto acabou por ser a resposta ao questionamento interior que me faço ultimamente sobre a decantada ‘idade madura.’ Acompanho integralmente o posicionamento do senhor professor quando pormenoriza a qualidade como meta maior a ser atingida, a única na verdade. Numa visão mais pragmática, ao mencionar gravações sem zelo, talvez mais não pretendesse o senhor professor do que alertar gerações em todas as áreas do conhecer. Quero parabenizar o senhor professor Martins pelos ensinamentos transmitidos”.
Idalete Giga, professora e regente coral, especialista em canto gregoriano envia-me e-mail de Lisboa, a pormenorizar a qualidade da epígrafe escolhida e a problemática do YouTube: “Quanto à ‘Carta a um Jovem Pianista – A qualidade como Destino’ a quadra do querido e saudoso Prof. Agostinho da Silva, a coroar o texto, é a síntese das sínteses do maior Tratado de Filosofia ! Que lucidez, que sabedoria ela contém ! Olhe esta, também de Agostinho da Silva, que é um hino à humildade: Descobri um novo título/ E espero que o céu mo assuma/ É ser Honoris Causa/ Em coisa nenhuma. A pintura de Deleener vem completar a quadra de Agostinho da Silva: mas vejo mais do que via/ E sonho mais que sonhava… Infelizmente, o YouTube transformou-se numa espécie de Feira da Ladra, onde aparecem pequenas preciosidades ao lado de montes de lixo. Para os jovens que ainda pulam muito e saltam muito, mas pouco vêem e menos sonham, o YouTube é uma miragem”.
De Belo Horizonte escreve-me a professora e juíza Mônica Sette Lopes: “Meu caro amigo, gostei imenso do post de hoje, por várias razões. Porque fala do tempo e de como ele nos constrói, porque fala do que é importante, dos rastros que se deve deixar, porque fala da nossa relação com os mais jovens.”
Rosana Costa, de São Paulo, comenta: “Quando você diz: A vaidade humana é incomensurável; toca-me profundamente, pois tenho notado o quanto uns se julgam superiores ao outros, a mania de subjulgar a capacidade alheia. Sua delicadeza em dizer ao Jovem Pianista que não podemos ‘atropelar’ o tempo, há sabores que necessitam do processo de maturação, o tempo sempre sábio, embora a nossa impaciência teime em querer burlar a sabedoria do mesmo”.
José Bezerra Medeiros, de Pernambuco, tem visão cética, e considera que as: “… atividades culturais dependem de um complexo envolvendo economia, estágio da sociedade, saúde e formação do povo. A cada dia, crescentemente, a massa dirigida perde o contato com o passado. Discutir qualidade não seria elitismo? Muitos dos jovens que ouvem ‘música’ imediata, mas esquecida depois de nova gritaria de sucesso, tomam sua água de coco, fumam sua maconha, fazem sexo livre, cobrem o corpo com tatuagens extravagantes e se vestem como maus palhaços. O cidadão que vê notícias sobre manifestações coletivas desse tipo de música percebe a total alienação desse povo. Professor, esse povo que vai a todo show com a participação de ‘cantores’ berrantes não pensa nem no passado e nem na qualidade. É só o presente alienado que provoca adrenalina nesse mundão de gente, e parte do povão alucinado saiu da universidade ou ainda continua nela. O Professor luta e acredita. Eu não creio em mais nada. Estamos indo para o caos dos costumes. Essa é a realidade”.
Outros mais abordaram o fulcral amadurecimento; a incógnita quanto ao tempo em que ele ocorre e se sedimenta; as cargas de toda ordem que acompanham o amadurecer; os frutos consequentes; o aprimoramento espiritual que pode surgir, a levar ao recolhimento individual sem contato com o exterior. Neste último caso, foram citados eremitas, anacoretas, carmelitas, trapistas, budistas e tantos outros, que intensificam a prática do auto conhecimento e a comunicação por meio da prece com o Poder Maior. Tornou-se evidente que as mensagens concentraram-se preferencialmente nessa busca incessante do aprofundamento, e a gravação, que foi motivo central, motivou tantas interessantes observações dela derivadas.

Many readers of my last post (Letter to a Young Pianist) deemed it noteworthy and wrote me to share their thoughts on the subject. I selected only a few of such messages – for space reasons – and they are the post of this week.

A Qualidade como Destino

H.Deleener. Técnica mista. Clique para ampliar

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Agostinho da Silva

Estava para colocar o post da semana, a abordar o instigante texto A Voz de um Livro, de Edmundo De Amicis, quando respondi a um e-mail de promissor pianista que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Ao reler o que acabara de escrever, optei por publicar os comentários sobre A Voz… na semana vindoura. Torno pública a carta eletrônica endereçada ao jovem, guardando o anonimato do remetente que estará a ler via blog.
O pianista em formação escreveu-me a dizer que colocara no YouTube gravações a apresentar suas performances. Dias após, dele recebi nova mensagem: “Quero informar que retirei do ar os clipes que havia postado no youtube.com. Decidi esperar mais um tempo e postar vídeos com qualidade mais perfeita.” A notícia fez-me lembrar situações que diariamente afligem jovens aspirantes idealistas, mas também outros, estes, irresponsáveis.

Meu jovem pianista,
O seu e-mail levou-me à reflexão. Inicialmente, acredito que você agiu bem ao retirar os vídeos do YouTube. Tem o amigo consciência do que deve ser preservado. É sinal evidente de que o jovem pianista promete ser um músico que não desmerecerá a atividade. Se de um lado há gravações extraordinárias e históricas de tantos intérpretes que permanecem como parâmetros, há também muito entulho nesse veículo de tão grande acesso. Tudo lá está. O bem e o mal sem fronteiras. O bem lá está a causar admiração, o mal também, mas a desvelar o encantamento único do irresponsável que se permitiu auto promover. Com que fim? A vaidade humana é incomensurável, meu jovem. Sob outra égide, para muitos daqueles que vêm e ouvem, público tantas vezes sem convicções precisas, essa mistura sem amálgama possível entre o que tem valor e o absoluto amadorismo passa desapercebida. E todo o mal está feito. O YouTube presta serviço inestimável ao ter em sua listagem interpretações extraordinárias, mas também um desserviço abominável quando permite a inclusão de qualquer “produto” voltado à “performance”.
O fato de deixar registros de áudio ou imagem pode camuflar um tipo comportamental que nem sempre é salutar. Li inúmeros relatos de grandes intérpretes que se arrependeram de gravações realizadas na juventude. Entenda o meu jovem amigo que nem sempre isso acontece. Há precocidades, e aí estão tantos compositores que produziram na mocidade obras definitivas, ou intérpretes que não conseguiram mais tarde as performances impecáveis do início da carreira. Mas também há incontáveis músicos que gravaram extraordinariamente do começo da atividade às fronteiras da desativação. Existem, pois, nuances quanto ao tema. Contudo, frise-se, não por outro motivo, a idade madura – seja em qual período, a abranger aproximadamente uma ou duas décadas após os quarenta anos – leva à conscientização do que deve ser levado à definitiva captação dos sons representada pela gravação. Lembre-se, ela não permite o retorno, pois representa aquilo que o intérprete transmite e deverá permanecer assim.
Estou a me lembrar dos anos 80. Gravei “historicamente” alguns LPs para a Funarte, Basf e Studio, a preservar a obra camerística e para piano solo de Henrique Oswald que estava a estudar. Momento até heróico, em que aceitei pianos em condições razoáveis, tecnologia difícil, estúdios ou salas com problemas – em um deles, durante gravações, fui devorado por pernilongos. Fez parte de minha vida. Diria que aconteceu na juventude da idade madura, pois estava lá eu com os meus quarenta e poucos anos e as gravações atendiam a período preciso, quando não faltava a determinação de apreender esse aspecto de resgate histórico.
O tempo passou. Dessas gravações não tenho saudades e nem mais as ouço, apesar de históricas, mercê das importantes obras. Deixei o tempo passar e apenas na fronteira dos sessenta anos comecei a deixar as pegadas que, entendo, mereceriam ficar registradas. O Diretor da De Rode Pomp da Bélgica, após um recital meu em Gent, disse-me que deveria começar a fixar a minha herança musical. A casa tem selo seletivo com pouquíssima tiragem, mas muito conceituada em meio específico musical. Entre gravações na Bélgica e outras na Bulgária e Portugal, lá estão 20 CDs.
Em que condições aconteceram as gravações, poderia meu jovem amigo questionar? Responderia em compartimentos. Possivelmente, a idade madura tenha proporcionado um tipo de aferição quanto à necessidade da impecabilidade em todos os sentidos – perfeição é sempre inatingível –, a obedecer os limites individuais. Há que se ter consciência plena do estágio em que as obras se situam, do repertório escolhido e das condições as melhores, a fim de que a comunhão se dê. Torna-se evidente que nem sempre o ambiente ideal de gravação é obtido. Não obstante o fato, algo deve ser preciso, ou seja, a busca pela qualidade. Essa se consegue através de denodo, disciplina e afeto em relação às obras que serão gravadas.
Estou a me lembrar de colega, pianista de méritos incontestáveis, que na década de 70 me disse que estudara três dias obras que seriam gravadas na manhã seguinte à nossa conversa. Possuidor de uma leitura absoluta, questionado por mim, respondeu-me que interesses financeiros obrigaram-no a tal façanha. Torna-se evidente que o pianista, que gravou no Exterior CDs referenciais, cedera às pressões. É aí que reside uma das encruzilhadas da atividade pianística. A concessão tem seu preço, e este é amargo ao longo da trajetória. Se você pingar uma gota de material líquido agressivo no mais requintado vinho em envelhecimento num tonel de carvalho, ele estará estragado por completo. Devemos ter sempre em mente a qualidade, pois o trigo não pode confundir-se com o joio.
De minha parte, meu jovem colega, encontrei o lugar de meus sonhos, que poderá muito bem não ser aquele de outros intérpretes. Temos de ter empatias. Um estúdio será sempre um estúdio, um teatro igualmente permanecerá a cena onde o espetáculo se dá. O local onde gravo, perdido na planura flamenga, é uma capela do século XI. Já escrevi vários textos sobre Sint-Hilarius ao longo destes três anos . O piano Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, representa o que uma Ferrari Fórmula 1 pode significar para um corredor. Colocado em baixo da torre de pedra, sob as lápides de eclesiásticos e nobres sepultados desde o início do milênio anterior, funde-se nesse amálgama físico e espiritual com as milenares pedras irregulares. Desde o cantochão até as gravações atuais, Sint-Hilarius lá está a abrigar sons dos intérpretes. Nós passaremos, mas a capela deverá continuar a ouvir tantos outros instrumentisatas e generosamente oferecer-lhe as ressonâncias. Serve para reflexão sobre a temporalidade do intérprete. A ilusão do canto das sereias. Num aspecto outro, Johan Kennivé, engenheiro de som e psiquiatra, é um dos mais importantes da Europa e sabe cuidar de maneira impecável de toda a tomada de som. Nosso relacionamento estende-se para lá de uma década, e cada projeto recebe o carinho necessário. Tornou-se amigo diletíssimo, a captar sons e reações que surgem durante as gravações.
Cada músico tem seus propósitos. Por eles será responsável. Cabe ao indivíduo encontrar o seu caminho. A única coisa que não se pode trair é a essência essencial da música. E nela, só a qualidade importa. Tenha fé em seu trabalho. Certamente resultará, pois você, além do talento, tem orientação segura. Coragem, disciplina, concentração, dedicação, humildade, gratidão aos mestres são qualidades que o ajudarão a vencer barreiras. Vá em frente, meu jovem.

No dia seguinte à publicação do post recebi e-mail do jovem pianista. Transcrevo-o:

Prezado José Eduardo Martins,
sinto-me muito honrado com suas palavras e atenção em dedicar tempo para escrever-me tão longamente uma resposta. Muito obrigado.
Concordo com tudo o que escreveu.
Realmente, o registro é algo “eterno”, que deve ser pensado e repensado, com responsabilidade. Com certeza, o Youtube está repleto de exemplos de falta de profissionalismo.
Alguns são exemplos de pura vaidade, a qual, em minha opinião, constitui a principal armadilha para um artista, pois a soberba precede a queda (como, aliás, está escrito na Bíblia Sagrada). Isso, para mim, é algo que literalmente “afeta” os artistas comprometendo a dignidade intelectual, a honestidade e a seriedade do trabalho.
Enfim, concordo com exatamente tudo o que escreveu.
Mais uma vez agradeço pela consideração e atenção.
Forte abraço.

I received an e-mail from a young pianist saying he had posted videos of his performances on YouTube, but chose to remove them a few days later and wait until the quality of his playing improves. His message was the starting point of this post, a reflection on how difficult it is to sift the wheat from the tares on a video sharing website and on how strong for an interpreter is the temptation of posting amateur videos – or even professionally made ones – of doubtful quality that potentially could be watched by a worldwide audience within a few minutes.