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Nome referencial e respeito à tradição

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus estados de alma,
tampouco a extensão de si mesmo, a auto exibição.
É dever sagrado do executante comunicar,
de maneira intacta, o pensamento do compositor
de quem ele não é mais do que intérprete.

Claudio Arrau

Sua biografia está amplamente difundida na internet. Suas execuções podem ser melhor compreendidas conhecendo-se sua evolução desde a infância, o talento excepcional, aprendizado com o grande mestre Martin Krauze (1853-1918) – um dos discípulos favoritos de Franz Liszt -, depressão, psicanálise durante cerca de 50 anos, certezas quanto ao gesto exagerado, memória prodigiosa que, a certa altura, ele coloca em dúvida. Em livro confidencial, Arrau se descortina e cresce ainda mais diante do ouvinte (“Arrau Parle – conversations avec Joseph Horowitz”. France, Gallimard, 1985). Referi-me a esse livro fundamental em blogs bem anteriores.

Martin Krause foi o professor que o guiou durante os anos fundamentais de formação, não apenas na formação técnico-pianística, mas também na seleção repertorial e na qualidade humanística. Arrau comenta: “Apenas duas moradas nos separavam. Chegava em casa do mestre às nove ou dez horas todas as manhãs. Num quarto ao fundo de sua residência havia um piano de armário. Nesse aposento estudava sete ou oito horas diariamente. Ele aparecia uma, duas, três vezes para me ouvir a estudar. À noite, após suas aulas, dava-me a aula particular que durava uma hora ou mais. Minhas refeições se davam em sua casa, quatro ou cinco vezes por dia, pois Krause não me achava forte suficientemente. Decidiu que deveria comer mais. Caminhávamos também, de meia a uma hora, todos os dias”. Talento descomunal e orientação de um dos grandes mestres da arte pianística corroboraram a edificação de Claudio Arrau.

Após a morte de seu professor Martin Krause, que igualmente agendava suas apresentações públicas, Claudio Arrau entrou em depressão. Frise-se que durante quase 50 anos teve no Dr. Abrahanson o psicanalista competente. Alain Lompech comenta sobre uma Escola pianística à qual o artista chileno estaria filiado: “A nenhuma, senão à sua própria escola, técnica forjada por Krause em função da música abordada, superada por Arrau sobre o divã do psicanalista para desatar as tensões psicológicas que entravavam o percurso de um artista único em seu século” (“Les grands pianistes du XXème” (Paris, Buchet-Chastel, 2012).

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Carl Maria von Weber, Perpetuum mobile:

https://www.youtube.com/watch?v=hR2ZVQWFD_Q

Saliento que meu saudoso professor, o notável José Kliass (1895-1970), russo de origem judaica, igualmente estudou com Martin Krause. Contava-nos a metodologia competentíssima, mas severa, do famoso mestre. Quando Arrau vinha a São Paulo, Kliass o recebia.

Considere-se que, ainda jovem, Claudio Arrau já executava algumas integrais, fato raro encontrado entre alguns fenômenos possuidores de memórias extraordinárias. Apenas para menção, em 1933-34 apresenta no México, em quinze semanas, quinze recitais diferentes. Na mesma década, em doze recitais interpretou a integral de J.S. Bach para teclado, excluindo as obras para órgão, assim como as 32 Sonatas de Beethoven. Era intérprete da integral das Sonatas de Mozart e de ciclos extensos de Schubert, Chopin, Liszt, Schumann, Weber, Brahms, Debussy e Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, as 32 Variações de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=sjcYxTASL1E

Uma das características em suas apresentações era o rigor e o respeito às mensagens contidas nas partituras. Não transigia e essa qualidade foi, erroneamente, interpretada como impessoalidade, o que não traduz a imensa autoridade nas execuções de Claudio Arrau. Poderia acrescentar, como aliás já o fiz em tantos blogs, que o guia mais autêntico para um jovem, ou mesmo adulto pianista, é aquele que exclui o livre arbítrio. Claudio Arrau jamais foi um pianista impessoal, imprimia sua interpretação com maestria e ideias claras, apenas não buscava o efeito fácil e os holofotes.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Chopin, Estudo op. 10 nº 1:

https://www.youtube.com/watch?v=l-QledBNLdM

Daniel Barenboim tem posicionamento claro ao falar sobre Claudio Arrau: “Creio que os pianistas de antanho podiam ler melhor uma partitura se comparados com os atuais, pois não se conformavam em ver o ‘p’ de piano ou o ‘c’ de crescendo. Na realidade, ‘p’ [baixa intensidade] em relação ao que vem antes ou depois no discurso musical? Isso não aparece na partitura, está na área da criação musical. Tinha-se todo um fenômeno musical para qualquer pianista, não importando sua origem ou escola. Para eles a Bíblia era o som, não o papel impresso”.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Franz Liszt, Un Sospiro:

https://www.youtube.com/watch?v=S_bVk3RMPyk

Nas conversas com Joseph Horowitz, Arrau, que tantas vezes fez questionamentos sobre vida e arte, chegara à conclusão na meia idade de que o gesto não era o essencial para agradar ao público. Restringiu-o ao máximo, a considerar que a Música era o princípio único a ser seguido. Em blog recente considerei a posição de Sviatoslav Richter, que preferia tocar nas salas basicamente só com iluminação mínima para ele e o piano, pois o público ia ao teatro para ouvi-lo e não para ver seus gestos e suas mãos. Outros tempos, diversos do atual da grande mídia, das câmeras a focalizar trejeitos e vestimentas tantas vezes bem ousadas. Civilização do espetáculo.

Nos depoimentos a Joseph Horowitz, Arrau também fala a respeito do medo do palco. Ele existe em maior ou menor grau. Tinha agendado, para récitas em Nova York, a integral das Sonatas de Mozart. Ligaria para o empresário, após ensaios em sua residência, a dizer para retirar uma das Sonatas. Ao estudar e executá-las na íntegra, sem público, repentinamente uma frase de outra Sonata teria entrado naquela que estava a executar. Dando prosseguimento aos seus estudos, o mesmo ocorreu com outra Sonata, o que o motivou a ligar ao empresário para cancelar as apresentações. Frise-se que Mozart, em suas Sonatas e Concertos, apresenta tantas vezes “fórmulas” que muito se assemelham, fazendo parte de seu extraordinário idiomático.

Essa “Bíblia do som”, de que nos fala Barenboim, foi seguida à risca durante toda a trajetória de Claudio Arrau, que nos longos depoimentos atribuiria à vaidade um dos males pelo qual o intérprete pode ser acometido. O piloto-escritor Saint-Exupéry já não professava que a vaidade não é um vício, mas sim uma doença?

A modéstia e o comprometimento pleno com a essência essencial da Música são relatados por Alain Lampech. Ao encontrar-se em Paris com Claudio Arrau, próximo dos 90 anos, este lhe pediu para marcar uma visita ao notável pianista francês Vlado Perlemuter (1904-2002), pois queria trabalhar as peças de Miroirs, de Ravel, para gravá-las: “Ouvira seu confrade executá-las em Londres, e aquela apresentação foi para ele uma revelação. Arrau pensava que ninguém compreendia essas obras como Perlemuter e ele gostaria de tocá-las para ele”.

Insere-se Arrau no seleto panteão dos grandes pianistas de antanho. Reverenciá-los é ter a consciência de que a chama da cultura erudita, da arte interpretativa dos grandes mestres do passado não pode ser extinta. Tem de ser mantida acesa.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, o final do terceiro movimento da Sonata Appassionata de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=LOeCaiu8Yok

The Chilean-born pianist Claudio Arrau (1903-1991) has been considered one of the keyboard giants of the last century. A child prodigy, at the age of ten he moved to German on a Chilean government grant to study under the musical tutelage of Martin Krause, former student of Franz Liszt, and his genius bloomed under this great teacher. A legend in his own lifetime, despite his remarkable gift Arrau was devoid of personal vanity, preaching austerity, fidelity to the score and refined emotion, without exaggerated gestures. A name to be placed in the pantheon of great masters of the past, helping keep the flame of classical music alight.

Música Clássica e racismo

A música é a linguagem do coração.
Jean-Philippe Rameau (1683-1764)

Quando o homem aprender a amar o menor ser da Criação,
seja animal ou vegetal,
ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.

Albert Schweitzer

Voltando à problemática da Música Clássica, neste segundo post abordo o recrudescimento do aspecto racial, entendendo parte da mídia que a bem mais que milenar criação e prática da Música Erudita seria arte unicamente da raça branca.

Seria possível considerar que todas as ruidosas manifestações pelo planeta, em consequência da morte cruel de George Floyd por um policial, repercutiram em desdobramentos imprevisíveis. Estátuas foram destruídas. A de Winston Churchill também quase o foi em Londres, assim como, em São Paulo, a dedicada a Borba Gato ou, ainda, o monumento de Victor Brecheret em homenagem aos Bandeirantes, inaugurado no 4º centenário da cidade. São criações que, independentemente do valor artístico, representam, através da estatuária, período histórico inalienável.

No periódico francês “Valeurs” online (22/06/2020) lê-se: “De fato, segundo relatório publicado em 2016 pela ‘League of American Orchestras’, os Negros representam 1,8% dos músicos de orquestra e os Latino Americanos, somente 2,5%. Alguns criticam igualmente a falta de ‘inclusão’ de outras obras e o fato que sejam escritas, em sua grande maioria, por compositores de origem europeia. Partindo desse postulado, o ‘San Francisco Chronicle’ recentemente lamentou que a Orquestra Sinfônica da cidade apresente quase exclusivamente composições criadas pelos homens brancos. Outras publicações da imprensa igualmente denunciaram o caráter entendido como etnicamente muito homogêneo do meio da música clássica”.

Somam-se a essas “denúncias” de racismo concernente à Música Clássica ventiladas pela “Valeurs” séries de publicações da mídia americana, inclusive do ‘New York Times’. Em suas várias matérias tem-se sobre a Música Clássica: “encobre um problema racista”, “atacar-se à sua brancura”, “extremamente branca”, “a música clássica é intrinsicamente racista”. O periódico francês completa: “Dessa maneira, a música clássica junta-se à extensa lista de instituições, pois possui uma proporção considerada pequena de pessoas de ascendência não-europeia e por isso são suspeitas de mascararem um modo de recrutamento discriminatório. Em resumo, de aplicarem uma forma de racismo estrutural”.

Pareceria bem exacerbada a ação de determinada corrente a entender também a Música Clássica como privilégio da população branca. Dos primórdios da civilização cristã, passando-se pelo Canto Gregoriano à criação musical ocidental na Idade Média, na Renascença, nos períodos Barroco, Clássico, Romântico e outros sucessivos, a feitura era realizada por europeus, brancos, e praticada tardiamente por outros povos. Não obstante, apesar de minoria, aqueles da “raça negra”, designação que constava nos livros escolares de antanho, notabilizaram-se pelo talento e tiveram e têm pleno reconhecimento mundial. Intérpretes negros da Música Clássica, mormente cantores, foram e são glorificados e a cor da pele não tem a menor influência. Eles são notáveis. Citemos Marian Anderson (1897-1993), Lawrence Winters (1915-1965) e Jessye Norman (1945-2019), como exemplos. O pianista André Watts (1946- ) é recebido pelas plateias do mundo sem discriminação. Sob outra égide, a tão decantada Música Clássica, considerada como sendo da elite unicamente, receberia o benfazejo contributo, há mais de um século, do Jazz praticado por negros nos Estados Unidos. Contudo, embora minoritários, quantos não foram os intérpretes brancos que granjearam lisonjas na prática do Jazz? Na composição, Claude Debussy (1862-1918), Ravel (1975-1937), George Gershwin (1898-1937) e tantos outros não se valeram das inovações trazidas pelo Jazz? Intérpretes brancos pianistas, trompetistas, regentes das jazz-bands e outros mais não desenvolveram seus extraordinários talentos improvisando em torno do Jazz? Sim, majoritariamente praticada por músicos negros, muitos deles rigorosamente excepcionais e admirados pelos praticantes ou ouvintes da Música Clássica.

Na contramão do exposto, o periódico francês online “Valeurs” publica em 13/07/2020 matéria sob o título “Tout le monde est terrifié: des acteurs blancs d’Hollywood dénoncent un racisme inversé”, que transmito, a integrar a exposição do tema desse post: “Sob o abrigo do antirracismo, as discriminações parecem estar de vento em popa em Hollywood… Em artigo publicado domingo, 12 de Julho, o jornal britânico ‘Daily Mail’ dá a palavra a diversos atores, autores e produtores de Hollywood. Estes últimos denunciam um ‘racismo inverso’, que visa aos membros brancos do meio cultural”. A seguir, “Valeurs” elenca uma série de atitudes e acontecimentos expressos no “Daily Mail”, entre opiniões de “alguns, explicando que se instalou um ambiente hostil a todo ‘homem branco de meia idade no show-business’, cuja carreira doravante ‘praticamente terminou’. ‘Nós só contratamos pessoas de cor, mulheres ou pertencentes à LGBT para escrever, desempenhar o papel principal, produzir, fazer funcionar as câmaras, trabalhar nos serviços de artesanato’, assim transmitiram ao ‘Daily Mail’. E prosseguem: ‘Se você for branco, você não pode se exprimir, pois será instantaneamente qualificado de ‘racista’ ou condenado por ‘privilégio branco’ ”.

O compositor francês François Servenière, que nos honra constantemente com suas observações após leitura dos blogs semanais, comenta: “Admiro o Jazz, a música negra, os ritmos cubanos, antilhanos e brasileiros advindos da mestiçagem. Em seu último post você nos fala da renovação da música clássica. Já lhe havia contado a admiração que tenho pelo extraordinário compositor e pianista Michel Camilo, nascido na República Dominicana. Meu Concerto para piano e orquestra Seasons Vertigo (1993-2007) faz parte da mesma tendência neste século, de uma mesma escola de pensamento, da mesma geração de criações do Concerto para piano e orquestra de Michel Camilo. A renovação está nessas tendências: rítmica, aberta, feliz, otimista. Só é necessário colher! O público lá estará enquanto tendências ultra contemporâneas o afugentam”.

Clique para ouvir, de Michel Camilo, o Concerto para piano e orquestra nº 1 com solo do compositor e a Orquestra Sinfônica Nacional de Lyon sob a regência de Leonard Slatkin. A recepção calorosa ao fim da apresentação revela a absoluta não discriminação racial:

https://www.youtube.com/watch?v=-TzNYJxIjfg

Ritmos afro-brasileiros tiveram e igualmente têm forte influência na denominada criação musical erudita. Três dos nomes referenciais de nossa História musical, Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1997-1986) e Camargo Guarnieri (1907-1993), incorporaram em incontáveis criações a rítmica afro-brasileira. As três obras do ilustre compositor da Bahia Paulo Costa Lima – branco nascido em 1954 – inseridas no blog do dia 4 de Julho não seriam flagrantes exemplos?

É realmente lamentável que essa mídia instigue uma situação que, curiosamente, entre os músicos da Música Clássica, que eu saiba, tem interesse secundário. O exemplo nítido, insofismável, verdadeiro orgulho para nós, brasileiros, está na figura do excepcional músico Luiz de Godoy. Teve formação essencial na Escola Municipal de Música sob a orientação do Prof. Renato Figueiredo. Posterormente estudou na Universidade de São Paulo. Tenho o privilégio de dizer que foi um de meus diletos alunos e que, após minha aposentadoria, ainda continuou parte da sua orientação em minha casa. Em concurso no dificílimo acesso como regente de um dos mais respeitados corais do planeta, os Meninos Cantores de Viena, foi aceito e durante anos viajou pelo mundo excursionando com o coral. Em Dezembro de 2016 receberia na capital da Áustria o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido a uma só personalidade do universo coral europeu. Presentemente, após pandemia, assumirá a regência da Ópera de Hamburgo.

Clique para ouvir os Meninos Cantores de Viena, vários corais juvenis de Singapura e a Orquestra Filarmônica juvenil do país sob a direção de Luiz de Godoy na interpretação da canção Home composição de Dick Lee, em arranjo de Wong Kahchun:

https://www.youtube.com/watch?v=a-ei0jwbueI

No blog anterior abordei a eclosão da Música Clássica em países do Extremo Oriente. Não poderiam essas nações vilipendiar a Música Clássica, pois música dos “brancos”, sendo eles “amarelos”, segundo os antigos manuais de ensino? Pelo menos não li nem ouvi jamais um músico do Extremo Oriente, nessas décadas pós Mao-Tsé-Tung, comentar tratar-se de música racista, pois composta e perpetuada por brancos. A China acolhe a Música Clássica, tendendo a superar o Ocidente na sua prática. O “New York Times” de 03/04/2007 aponta para essa Revolução Clássica sonora: “Com a mesma energia, força e enorme peso populacional que a tornou uma potência econômica, a China se tornou uma força considerável na música clássica ocidental. Os conservatórios estão inchados. As cidades da província exigem orquestras e salas de concerto. Pianos e violinos fabricados na China enchem os contêineres deixando seus portos”.

Creio que o debate Música Clássica e racismo está formulado em parte sob as égides ideológica e de uma atualidade convulsiva. Toda uma edificação da linguagem musical, considerando-se a Grécia Antiga, foi elaborada paulatinamente pela raça branca, como apontado acima. O cerne estaria na Educação, não na Música Clássica. Governos como o nosso, através dos tempos, jamais veem a Educação como prioridade, a ela somando-se a Saúde e a Segurança. A Música Clássica não é o problema e sim a não possibilidade de ensino para as classes menos favorecidas. Quando surge o talento, ele é aceito nos quadros da Música Clássica e a recepção é plena e entusiasta, não discriminatória. Os dois links evidenciam a recepção pública ao final das apresentações no seu mais elevado entusiasmo. Michel Camilo e Luiz de Godoy são alguns exemplos exponenciais mencionados, esperança de que, através da educação não panfletária, mas profunda; não mediática, mas com sequência segura, muitos outros possam ter uma trajetória sólida. No caso específico da “genialidade” de Luiz de Godoy, termo utilizado apropriadamente pelo compositor François Servenière, juntemos sua disciplina férrea, determinação e poder de concentração.

François Servenière tem criações que exemplificam a apreensão do Jazz, entre as quais Croissant Jazz (1999-2001) para dois pianos:

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A Música Clássica é patrimônio indelével da humanidade, para não mais dizer e, se a maioria de seus criadores são “ainda” brancos, considerando-se essa eclosão “amarela” que cultua a composição escrita pelos “brancos” através dos séculos, seria na História que se deveria buscar a origem e o conhecimento e não numa realidade atual de cunho ideológico e imediatista.

Música Clássica e racismo. A cizânia como combustível ideológico e oportunista. Acredito que a Música Clássica estará sempre de braços abertos a acolher o talento, seja ele de qual raça for. A primeira epígrafe diz tudo: “A música é a linguagem do coração”, segundo Rameau. Acrescentaria, coração não tem raça, ele pulsa.

After the killing of the black George Floyd by a white policeman, a wave of antiracist movements swept the globe and now classical music, said to be “extremely white” — written by white composers and played by white musicians — is on the receiving end of racist attitudes. The press adds fuel to the fire by pointing out the small number of nonwhite musicians on the stages. Personally I believe the heart of the issue is not classical music, but education — or lack of education. Black children from low income families have few chances of learning an instrument or even of listening to classical music. Through education talented children from the poorest backgrounds would be able to develop their potential to the full and pursue successful musical careers independently of skin color, discouraging racist attitudes.

Diminuição do público – juventude – racismo

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava
Agostinho da Silva

Insistentemente tenho pontuado, ao longo de mais de treze anos, a gradual, mas irreversível, mudança de comportamento das gerações mais jovens. Impactadas pelo advento avassalador da internet e de todas as suas ramificações, a atenção dessas novas gerações se fixa no imediato. Assim como as transformações vertiginosas das engenhocas que em curtíssimo tempo levam adquirentes desses aparelhos a desprezá-los em detrimento do novo, de maneira análoga a cultura musical não erudita se transforma e “renova-se” a cada estação e aquilo que era ouvido em certo momento é desprezado sem quaisquer ressentimentos logo a seguir. Uma ou outra “música” desse compartimento prossegue sua existência, mais como mote de “cantor ou cantora” bem conhecido, para delírio de seus aficionados.

A Música Clássica ou de Concerto tradicional é basicamente apresentada há séculos e admirada, tendo, entre seus cultores no Ocidente, preferencialmente gerações de faixa etária mais avançada. Após dias a gravar em Mullem, na Bélgica Flamenga, no início da última década, meu amigo Johan Kennivé, magnífico engenheiro de som responsável por minhas gravações desde 1999, convidou-me a ouvir no grande auditório do De Single (circa 900 lugares), na Antuérpia, a apresentação da Symfonie Orkest Vlaanderen, sob a regência do ótimo Etienne Siebens. Fiquei ao lado de Johan durante a apresentação da 3ª Sinfonia de Mahler. Chamou-me a atenção a plateia lotada. A impressão era de um extenso campo de neve… Público entusiasta, mas praticamente da terceira idade.

Artigo publicado no periódico francês online “Valeurs” aos 22/06/2020, sob o título “Trop blanche: la musique classique, nouvelle sible des antiracistes”, aponta, entre outras considerações, para a diminuição sensível do público mais jovem nos concertos. Reacende problemática que se acentua no Ocidente.

O texto inicial é claro, sem subterfúgio: “É um fato concreto: a música clássica não mais desperta interesse do grande público, ainda menos dos jovens. Estudo realizado pelo ‘National Endowment for the Arts’ indica que o público que assiste a um concerto de música clássica, a representar 13% em 1982, caiu para 8,6% em 2017. Para aqueles com menos de 30 anos a queda foi ainda maior, despencou de 27% para 9% no mesmo período. Face a essa constatação, os profissionais do setor apelam à renovação, explica o ‘Le Figaro’. E o desafio maior, segundo eles, é o de mudar a imagem de um domínio muito branco”. Segundo dados obtidos, afirma o periódico “que nos Estados Unidos a música clássica é julgada muito pouco ‘inclusiva’ e considerada como ‘privilégio’ da população branca”.

Têm interesse essas afirmações. Antes de abordar o domínio “muito branco” (tema do próximo blog), diria que, excluindo-se conjuntos ou intérpretes extremamente mediáticos, a grande maioria das apresentações de música clássica se dá em espaços pequenos, para 100 a 500 ouvintes. Nessas salas se apresentam intérpretes pelo mundo e assim mesmo há redução do público. Estou a me lembrar da sala da De Rode Pomp em Gent, na Bélgica. Comportava cerca de 150 lugares e a organização promovia mais de 120 concertos anualmente. Apresentei-me mais de dez vezes nessa sala ao longo dos anos. Conversei com muitos músicos solistas ou de câmara que se apresentavam nessas programações – belgas, franceses, russos… – tantos deles excepcionais, mas fora do grande circuito. Sentiam a diminuição física dos espaços como realidade para os não mediáticos e a presença maior de ouvintes da terceira idade. Igualmente concordavam com o progressivo desinteresse dos mais jovens pelos concertos de Música Clássica. Anos atrás, De Rode Pomp encerrou suas excelentes atividades, compostas de concertos, gravações para selo da casa e galeria de arte, La Perseveranza. Em Portugal, Bélgica e França apresentei-me em várias dessas salas menores que promovem récitas, inclusive no Museu Debussy em Saint-Germain-en-Laye, cidade natal do compositor. A sala do Museu comporta cerca de 100 pessoas e é concorrida.

O fluxo sonoro clássico ou erudito, como também é conhecido, acelera-se em países do Oriente. Não há presentemente, no grande volume de jovens oriundos da China, Japão e Coréia do Sul que têm alcançado notoriedade no Ocidente, crítica à Música Clássica como pertencente a uma determinada raça. A cada ano é mais praticada nesses países. Na China, dezenas de milhões de crianças e jovens estudam piano!!! Meu dileto amigo e fundador do Instituto URBEN, Philip Yang, há tempos falou-me algo a impressionar. Tratava-se de artigo publicado no New York Times em 03/04/2007: “O entusiasmo chinês sugere o potencial de um mercado crescente para gravações e apresentações ao vivo, enquanto que o envelhecimento dos admiradores de música erudita e a venda de discos em declínio preocupam muitos profissionais na Europa e nos Estados Unidos.

Gravações de música clássica no Ocidente, vendidas há 25 anos às dezenas de milhares, ficaram reduzidas apenas a milhares. Mais profundamente, os executivos da música clássica dizem que essa forma de arte está sendo cada vez mais marginalizada em um mar de cultura popular e novas mídias. Um número menor de jovens ouvintes americanos segue o caminho da música clássica, em grande parte devido à falta de educação musical que era comum nas escolas públicas há duas gerações. Como resultado, muitas orquestras e casas de ópera lutam para encher suas salas.

A China, com cerca de 30 milhões de estudantes de piano e 10 milhões de estudantes de violino, está em uma trajetória oposta. Agora, testes abrangentes para entrar nos principais conservatórios atraem quase 200.000 estudantes por ano, em comparação com alguns milhares na década de 1980, de acordo com a Associação Chinesa de Músicos.

O lado do hardware também explodiu. Em 2003, 87 fábricas produziam instrumentos musicais ocidentais. No ano passado, o número havia aumentado para 142, produzindo 370.000 pianos, um milhão de violinos e seis milhões de violões. A China domina a produção mundial dos três”.

E qual é o repertório estudado progressivamente desde a infância e vindo a público? O ocidental, preferencialmente europeu. No famoso Concurso Internacional de Piano Chopin em Varsóvia em 2015 viu-se, entre os cinco primeiros laureados, quatro orientais!!! Nos principais concursos internacionais de piano ou violino existentes no hemisfério norte raramente não se encontram intérpretes do Extremo Oriente entre os laureados.

Que houve diminuição de frequentadores em salas e teatros que interpretam Música Clássica no Ocidente é fato. Um deslocamento geográfico do gosto pela Música Clássica tem-se acentuado em direção ao Extremo Oriente. O número extraordinário de estudantes entusiastas já garantiria a lotação nas salas de concerto. Se a menos de duas décadas os intérpretes orientais que se deslocavam para o Ocidente vinham muitíssimo bem preparados sob o aspecto técnico-pianístico, mas tendo tantas vezes compreensões questionáveis sob o conteúdo musical, assiste-se presentemente, mormente na China, Taiwan e Coreia do Sul, à assimilação progressiva da cultura musical voltada à Música Clássica sob as várias especificações, analítica das partituras e sócio-cultural referente aos períodos históricos da criação composicional. Na China está-se distante da revolução maoísta iniciada em 1966, e que se prolongou de fato por mais de uma década, período em que a cultura erudito-musical do Ocidente foi execrada. Em pungente livro, a notável pianista chinesa Zhu Xiao-Mei narra suas vicissitudes nesse trágico período (vide blog La Rivière et son secret. 06/11/2009). Presentemente Xiao-Mei vive em Paris. O Japão estaria fora dessa realidade, pois há muitas décadas já professava com competência o repertório ocidental.

Não deixa de ser extraordinária a apreensão da Música Clássica pelo Extremo Oriente. Conservatórios, intérpretes, orquestras e salas amplas abrigando a criação musical erudita, uma das fontes essenciais da cultura humanística.

Que o jovem ocidental, hoje, basicamente busca outras manifestações “musicais” é também fato. Contudo, a Música Clássica é e continuará a ser, através da História, mesmo que a sofrer diminuição de público no Ocidente e ataques movidos por ideologias, o testemunho de que a raça humana conseguiu atingir níveis inefáveis sob o aspecto humanístico e espiritual.

Comments on the opposite directions taken by classical music in Western and Far Eastern countries China in particular in the last decades. An article published by the The New York Times in 2007 sums up the situation perfectly: “… China has become a considerable force in Western classical music. Conservatories are bulging. Provincial cities demand orchestras and concert halls. Pianos and violins made in China fill shipping containers leaving its ports”. On the other hand, younger generations in the West have grown alienated from classical music, increasingly excluded from dominant music media by financial sponsors in favor of pop-music. Spaces for soloists and orchestras dwindle since senior audiences the public that still listens to classical music today are not enough to fill concert halls. However, my belief is that classical music will continue to be, even with a drop in audience attendance and attacks fueled by ideologies in the West, the testimony that men succeeded in achieving the ineffable in terms of their cultural heritage.