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Princípio primeiro: gostar da atividade

Faz-se necessário salientar fato elementar,
pois o intérprete detém o poder essencial.
É através dele que a música existe realmente.
Ao negligenciar essa evidência
corre-se o risco de distorcer todos os problemas da criação musical.
Andrés Souris
(“Conditions de la Musique”)

O workshop que será a apresentado na Sociedade Brasileira de Eubiose nos dias 6, 8 e 13 de Março tem como propósito expor as condições ideais para que uma gravação tenha êxito qualitativo. Expus no blog anterior a premissa dessas três palestras, enfatizando desde as gravações “heroicas” em LPs gravadas no Brasil, tantas vezes em situações técnico-acústicas precárias, apesar da dedicação dos envolvidos, como o passo decisivo que me levou a apenas gravar na Europa em condições excepcionais.

Em quase todas as áreas ocorre o problema da defasagem entre o que realizamos no Brasil e o que é concretizado em países denominados de ponta. Não é demérito constatar a evidência. É realidade. São tantos os fatores endêmicos!!! Nos esportes, na área empresarial, na mídia como um todo, nas artes. Há defasagem em toda a América Ibérica e, se a qualidade excelsa tem de ser buscada, ultrapassar as fronteiras torna-se um imperativo. Quando menciono os esportes, basta verificarmos a falta de apoio de nossas entidades esportivas para com os heroicos atletas brasileiros que lutam, tantas vezes à míngua, para a realização de sonhos quase sempre impossíveis de serem realizados, mercê da incompetência e por vezes desvio de conduta de dirigentes. O futebol brasileiro, hoje ridiculamente realizado em solo pátrio, tantas vezes com público irrisório, nada mais tem a ver com a qualidade ímpar dos grandes times europeus, eivado de jogadores brasileiros talentosos que buscaram plagas melhores.

O mesmo ocorreria com as gravações. Sob outra égide, a busca sempre incessante pela qualidade é traduzida pela necessidade sine qua non de os intérpretes estarem rigorosamente preparados para o mister. Não é apenas gravar, mas sim pensar no resultado final como algo que permanecerá pelo extremo cuidado durante todo o processo, assim como pela divulgação em países afins. Qualidade atrai qualidade. A experiência gravando em três países europeus, distintos culturalmente, faz com que, nessas três palestras que serão apresentadas, métodos, espaços e técnicas diferenciadas durante o processo de gravação caminhem para um único objetivo, atingir-se o melhor nível possível.

Após a gravação da integral para violino e piano de Henrique Oswald com Paul Klinck ao violino, registro realizado na Rádio de Bruxelas em 1995 para o selo PKP, foram três outras gravações em Sófia, na Bulgária. Primeiramente os dois Concertos para dois cravos de J.S.Bach (pianos, no caso) e orquestra de câmara, a fim de completar a integral para o instrumento solo realizada por meu irmão João Carlos. Gravamos na Sala Bulgária com a direção segura de Plamen Djurov. Em pleno inverno de 1996, a temperatura chegou aos -15º. A seguir recebi o convite de Heiner Stadler, diretor do selo Labor, para o primeiro CD de uma série (“Musik of Tribute”) com vários intérpretes, toda lançada pelo selo nos Estados Unidos. Assim, gravei no verão do mesmo ano “Music of Tribute” – vol. 1, com obras de nosso grande compositor Villa-Lobos e outras de autores consagrados, que lhe dedicaram homenagens pela passagem do centenário de nascimento em 1987, e que resultaram num caderno com as partituras que eu editei na Universidade de São Paulo no ano em pauta.

A gravação de “Music of Tribute” levou à seguinte, realizada no verão de 1997, com a integral de Jean-Philippe Rameau para teclado em dois CDs. Tendo chegado três dias antes, devido à defasagem horária acentuada, preferi ficar recluso em meu quarto no Hotel Bulgária. Para tanto levei meu teclado mudo e nele estudei minhas horas antes da gravação. O primeiro piano de fato após essa preparação foi um magnífico Steinway & Sons durante as gravações, que se estenderam por três noites. Heiner Stadler, em sua vasta experiência, testou várias salas europeias para as gravações de João Carlos em torno de Bach. A Sala Bulgária, em Sófia, teve de sua parte a plena acolhida. Toda revestida de madeira e com poltronas do mesmo material. A extraordinária acústica dessa grande sala abrigou a integral de Rameau com suas harmonias ousadas, a elegância dos contornos melódicos, a magistral organização formal e… os quase 5.300 ornamentos da fantástica obra ramista. O saudoso engenheiro de som Atanas Baynov, um especialista hors concours.

Entendo o ato de gravar como uma missão. Foi André Posman, diretor da De Rode Pomp, na Bélgica, que, após dois ou três recitais em anos sucessivos em sua temporada musical na cidade de Gent, chamou-me à sua sala e disse-me “professor, chegou o momento de o senhor deixar a sua herança”. Uma relação que dura até o presente me ligaria decididamente à cidade de Gent, sede da extinta De Rode Pomp, empresa responsável pela série ininterrupta de CDs que gravaria de 1999 até 2009, sendo que outras se prolongariam até 2015 para outros selos. Em 2019 penso gravar meu último CD. Sempre lembro o grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro: “o tempo é insubornável”. Houve apenas uma exceção durante esse longo período, a gravação do CD “Viagens na Minha Terra”, unicamente com obras do notável compositor português Fernando Lopes-Graça. Gravei-o em 2003 na bela e lendária Leiria e o CD saiu sob a égide do selo Portugaler.

Num sentido abrangente consideraria três tipos de intérprete frente à gravação. Há aquele, que durante a trajetória, perpetuou o repertório por ele visitado desde os anos de aprendizado, incorporando inúmeras outras composições, todas pertencentes à tradição vigente, que remonta à segunda metade do século XVIII, mas estancando suas preocupações a partir do que foi escrito basicamente na segunda metade do século XX. Desafio sim, todavia parte considerável desse repertório já foi gravada dezenas de vezes, quiçá centenas, tantas dessas gravações realizadas por pianistas excelsos. É fato. Temos também o pianista que faz parte da lista de intérpretes das grandes gravadoras. Nesse caso, não são poucas as vezes em que ele aceita gravar repertório imposto pela empresa. Creio já ter narrado que, por volta de 2005, dias antes de uma gravação pelo selo belga De Rode Pomp, dei recital, como habitualmente fazia, com o programa que seria registrado fonograficamente na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, que remonta ao século XI. Depois do recital, jantava com músicos belgas no restaurante da De Rode Pomp, quando fui apresentado a um agente de uma das mais prestigiadas gravadoras do planeta. Esse emissário veio de Bruxelas. Assistiu ao recital e viu nas prateleiras da sede da instituição cultural de Gent a série de meus CDs. Disse-me que gostaria que eu estivesse na lista de pianistas da organização. Agradeci, mas fiz-lhe três perguntas concernentes à atuação: poderia escolher o repertório, o local da gravação e escrever o texto incorporado à caixa do CD? A resposta foi sempre não, pois a organização determinava o repertório, o local da gravação em algum ponto do planeta e o texto era da responsabilidade da empresa. André Posman, diretor da De Rode Pomp, passava pelo local, logo após essas negativas. Levantei-me, dei-lhe um beijo na face e disse – ambos sorrindo – “pour l’eternité”. Conto esse episódio pelo fato de que é fácil detectar – consideremos a grande qualidade desses intérpretes, frise-se – nesse repertório preparado açodadamente, gravado e colocado no mercado, o pouco envolvimento do contratado, mesmo que habilmente executado. Não houve a decantação necessária, o debruçar lento que leva à integração com a obra executada. Como dizia um amigo músico belga, “execuções planas”. Sob outro aspecto, é difícil para o ouvinte leigo diferenciar interpretações. Essas grandes organizações estão há tempos repertoriando integrais e para tanto têm de manter entre seus artistas aqueles confiáveis. O único problema é que, na maioria dos casos, o dirigente, big boss, durante sua trajetória como empresário de sucesso, pode ter dirigido anteriormente uma empresa voltada à alimentação, aos produtos de perfumaria, à automobilística ou sabe-se lá quais entidades de outras áreas. Importa-lhe o mercado. Uma terceira categoria, na qual me incluo, esteve ou está ligada às microgravadoras seletivas que, logicamente, lançam pequena quantidade de CDs. Na De Rode Pomp, jamais André Posman impôs programa a ser gravado. Preferenciam o repertório pouco frequentado. Para o selo gravei 12 CDs, sempre a ter como engenheiro de som Johan Kennivé, um dos mais importantes da Europa. Outros sete para selos diversos foram gravados por Kennivé, sempre na Capela Sint-Hilarius. Sobre a mística capela escrevi vários posts ao longo de onze anos de blogs ininterruptos, completados presentemente.

Quanto a essa terceira categoria, há mínima guarida por parte da mídia. Na prática, ela menospreza o desconhecido e, como a massificação é fato inconteste, quanto mais o que está a agradar perdura, mais ela divulga. Na música dita de concerto, o repertório super ventilado; na música popular, o sucesso de plantão é exaltado ad nauseam. No meu livro “José Eduardo Martins – un pianiste brésilien” (série Témoignages, Paris Sorbonne, 2012) comparava o repertório extraordinário pouco ou nada frequentado com a parte submersa de um iceberg. O grande público conhece essencialmente a ponta desse iceberg e a cultua. Juan Carlos Paz (1901-1972), notável músico e crítico argentino, era extremamente cáustico em relação a esse apego desmesurado à ponta do colossal bloco de gelo, como assim denomino. Escreve: “nefasta disciplina geradora de virtuosos que, durante trinta anos ou mais, passearam os seus repertórios chopiniano, lisztiano, beethoviniano diante de esclerosados, estáticos e estúpidos auditórios que desejam ouvir a cada dia as mesmas obras e a quem só interessa o espetáculo desportivo com que os brinda o pianista favorito”. Sua posição extrema revela contudo a perpetuação do repertório sempre repetido. Diria que as sociedades de concerto fazem esparsamente concessão (remorso inconsciente?) ao passado olvidado.

Atraiu-me, desde os anos 1970, o repertório magistral pouco ventilado ou nada frequentado. Dos 12 CDs gravados para o selo De Rode Pomp, se exceções há, como os “Quadros de uma Exposição” de Moussorgsky ou a “Humoresque” de Schumann, magistralmente gravados por pianistas relevantes, foi pelo fato de integrarem um núcleo específico, pois em contexto definido, uma ideia a entender essas obras como pertinentes a um projeto.

No terceiro e último post tratarei de aspectos interessantes que fixei na memória durante os 22 anos a gravar no Exterior. Nele destacarei a importância fulcral do engenheiro de som. Johan Kennivé, técnico inexcedível, é igualmente psiquiatra. Amalgamamo-nos. Uma segunda metáfora a lembrar o iceberg também estará em pauta.

Resuming the subject of the forthcoming talks I will give on my recording experience in Europe, I plan to comment on performers that play the same repertoire over and over again and on my choice of promoting new masters instead of offering the same alternatives year in, year out, not forgetting to mention that every choice must be paid for.

 

Workshop na Sociedade Brasileira de Eubiose e ecos do blog anterior sobre voos

Há almas que amam os sons.
Franz Liszt

Há tempos pensei apresentar, em três palestras, minhas considerações sobre a experiência acumulada durante 22 anos a gravar na Bulgária, Portugal e sobretudo na Bélgica, resultando em 23 CDs até o presente. Essa ideia ganhou corpo a partir da constatação de que cada gravação propicia uma experiência inédita, mas uma única certeza, a de que, naquele período estreito de dois ou três dias, o hic et nunc aconteça com todas as situações favoráveis.

Bem antes da primeira gravação na Europa foram cinco LPs gravados no Brasil, o primeiro em 1979, num período em que rolos de fita registravam o que era interpretado e, para a edição, o técnico usava uma lâmina de barbear!!! Neste LP havia obras de Claude Debussy, Henrique Oswald e de Tsuna Iwami, estas últimas podendo ser acessadas através do Youtube. Três outros LPs tiveram o selo FUNARTE e foram registrados num período “heroico”, assim diria, pois o ilustre presidente da instituição, o compositor Edino Krieger, estava repertoriando a produção nacional. Num álbum duplo (1983), gravamos a integral para violoncelo e piano de Henrique Oswald (o ótimo Antônio Del Claro ao cello) e, em um segundo LP, registrei obras para piano solo do compositor romântico brasileiro. No ano seguinte, para o selo BASF, gravamos o Quinteto para quarteto de cordas e piano op. 18 de Henrique Oswald (1984). Tive a colaboração de experientes músicos residentes em São Paulo. Novamente pelo selo FUNARTE (1988), contei com a colaboração de Antônio Lauro Del Claro e da virtuose Elisa Fukuda para a gravação do Trio op. 9 e da Sonata para violino e piano de Oswald. Quando menciono “heroicos tempos”, considero o esforço depreendido para que gravações fossem realizadas, quando não faltavam determinadas variantes como precariedade dos ambientes de gravação e até improvisações que surgiam no decorrer das tomadas de som. Essas gravações tiveram importância para a cultura musical brasileira, mas não podiam ser referenciais, se comparadas com as realizadas na Europa, pela própria defasagem técnica como um todo.

O acaso levou ao convite para que gravasse na Bélgica. Músicos belgas em tournée pelo Brasil visitaram a loja da FUNARTE no Rio e adquiriram os três LPs mencionados. Ficaram impressionados  com a qualidade de Henrique Oswald e meses após recebia convite para gravar em Bruxelas a integral para violino e piano com o excelente Paul Klinck ao violino. Cheguei numa sexta-feira a Gent, na Bélgica, vindo do Brasil, e à noite ensaiamos pela primeira vez. Jamais o vira antes. Estou a me lembrar de que, cinco minutos após o início do ensaio, intrigou-me sua presença, de costas a uns passos do piano, portanto sem me olhar. Perguntei-lhe, após uma pausa, qual a razão de assim agir e a resposta foi incisiva. Sinto que não há nenhuma necessidade, pois nos entendemos musicalmente muito bem. E selou-se uma amizade que perdura. No dia seguinte Paul se casava, mas das 20 às 24 horas novamente repassamos o programa pormenorizadamente. Dois dias após realizamos a gravação no Estúdio da Radio Belga em Bruxelas, entre os dias 17 e 18 de 1995.

Novamente o acaso foi responsável por ter iniciado a série de gravações na Bélgica, após ter gravado quatro CDs em Sófia, na Bulgária. O lançamento do CD com a integral das obras de Henrique Oswald para violino e piano deu-se num concerto memorável no Musiekconservatorium de Gent completamente lotado, aos 18 de Novembro de 1995. Fui o pianista do Quarteto para piano e cordas  op. 26, da Sonata para violino e piano op 36, da Sonata-Fantasia op. 44 para piano e violoncelo, do Poemetto Lirico Ofelia para soprano e piano e de algumas peças para piano solo, assim como ouvinte da extraordinária Missa a Capella cantada pelo Coral Novecanto. Após o Concerto de mais de duas horas dedicado a Henrique Oswald, fui dormir com a adrenalina altíssima, pois pensava que aquela noite única se esvaíra e que o retorno no dia seguinte a São Paulo era certeza implacável. Horas depois, colocava minha mala no porta malas de um táxi que me levaria à estação de Sint Peters, em Gent, quando ao lado para um carro e de lá sai um enorme cidadão flamengo. Era André Posman, diretor do selo De Rode Pomp. Disse-me: “Professor, estive ontem e ouvi obras magníficas. O que o senhor vai fazer?” Respondi-lhe do meu regresso. Como chego muito antecipadamente aos aeroportos, mostrei-lhe o bilhete. Retirou minha mala do porta malas do táxi, levou-me à sede da Rode Pomp e, após, ao aeroporto. Vinte segundos mais e nada teria acontecido!!! São 23 anos de uma amizade que perdura e que resultou em inúmeros CDs gravados e bem mais de uma dezena de recitais na Associação por ele presidida.

No próximo blog comentarei sobre o processo de gravação em condições excepcionais, que resultou em 23 CDs gravados na Bulgária, Portugal e, majoritariamente, na Bélgica, levando-me a propor essas três palestras que serão apresentadas na Sociedade Brasileira de Eubiose nos próximos dias 6, 8 e 13 de Março, das 17:00 às 18:30. Abordarei a preparação de repertório, a escolha do local ideal para a gravação, a qualidade do piano e a extrema competência do engenheiro de som. Serão abordados igualmente fatores extramusicais de relevante importância para que, naqueles dias precisos, todas as circunstâncias estejam rigorosamente propícias. Gravações realizadas durante mais de duas décadas serão apresentadas.

A seguir comento os Ecos do blog anterior:

Quem tem a faca e o queijo, corta onde quer.
Adágio Popular Alentejano

Como houve Ecos de “Voos que deixaram Saudades”, entendo que seria oportuno colocar algumas posições de interesse que ampliam o conteúdo de meu blog, pois todos expressos por viajantes que habitualmente atravessam oceanos ou se deslocam nesta vasta América.

O professor titular da USP Gildo Magalhães considera: “… estocada certeira! Deveria ser impresso para ficar como leitura nas salas de espera dos aeroportos…. Curioso que, enquanto escrevo, passa em movimento na tela uma tira anunciando as maravilhas da Air France…”

Eudóxia de Barros, consagrada pianista, escreve: “… de pleno acordo, e sem falar da imposição daquele maldito ar condicionado, que já me ocasionou várias  gripes fortes, tendo numa das vezes transtornado todo o roteiro de nossas férias pelo Equador, Peru e Chile; a etapa Peru teve de ser cancelada pois eu permanecia acamada num hotel, com despesas extras com médico e remédios caros. Este seu artigo mereceria publicação nos jornais, ao menos na seção de Reclamações …”.

A professora Jenny Aisenberg escreve sobre necessaires distribuídas aos passageiros e nunca olvidadas: “Fiquei a lembrar-me das amenidades que nos eram oferecidas a bordo, como os kits (contendo pequeno tubo de creme dental + escova de dentes, máscara para dormir, meias, creme de mãos, flaconete com perfume, pente, proteção auditiva etc.)  e as toalhinhas brancas, umedecidas e quentinhas, que eram distribuídas pelas atendentes antes das refeições. De bom grado eu dispensaria esses mimos em troca de um pouco mais de espaço entre as poltronas, já exíguo, hoje cada vez mais restrito”.

Maria Izabel Ramos que já viajou por todos os continentes, escreve: “Faz-me relembrar a época de ouro de nossos voos internacionais, em classes econômicas ou em outras, de 1988 a 2010, quando se viajava elegantemente de roupa social “.

O arquiteto Marcos Leite tece considerações pertinentes: “Viajei muito menos que você, mas lembro-me de uma dessas transoceânicas anos atrás, São Paulo – Rio – Lisboa, pois fui de TAP e o jantar, se não magnífico, estava absolutamente correto, o bacalhau acompanhado por meia garrafa de um honesto tinto da Bairrada. Mesmo as nossas VARIG e VASP tinham pratos apresentáveis e um serviço de bordo gentil. A sugestão de um inglês, há uns 3 ou 4 anos atrás, não foi adotada no resto do mundo, mas talvez daqui a pouco vejamos implantada por aqui: espaço em pé, como nos ônibus urbanos, para percurso com tempo inferior a uma hora. E não estranhe se te cobrarem para usar o banheiro da aeronave!”

José Monteiro é comerciante e observa fato que realmente demonstra que o passageiro é apenas um detalhe na grande engrenagem a visar ao lucro. Comenta: “Anteriormente escolhíamos o assento no avião, desde que o bilhete fosse adquirido bem antecipadamente. Hoje, as companhias, no meu caso a TAP, coloca-o no assento por elas selecionado e, se porventura você quiser alterar, tem de pagar uns bons euros. Acho um disparate”.

A frase de Magnus Bardela é curta. Revela a decadência apontada por viajantes experientes: “Voo na econômica só é aceitável com um bom sonífero”.

O compositor e regente Maury Buchala em constate ponte-aérea Paris-São Paulo escreve: “Os voos são terríveis atualmente. Sobretudo para mim, pois não tenho espaço. A comida piorou muito, graças a essas embalagens de plástico. Atualmente, até a escolha das músicas que colocam para ouvirmos, deixa muito a desejar. E quando você tem que ficar 11hs  dentro de um voo, torna-se insuportável, sendo esse o meu caso com os voos periódicos para o Brasil”.

Essas observações qualificadas apenas reiteram o conteúdo do blog anterior, realçando fatos que não foram por mim citados. Entendo vergonhoso esse capitis diminutio relativo às nossas expectativas. Há termos bem mais fortes na língua portuguesa para definir essa escalada nos preços e a retirada do mínimo conforto dos passageiros que viajam na classe econômica. Aqueles 25.000 bovinos que, retidos inicialmente num de nossos portos, seguiram após, amontoados, para a Turquia, levaram-me a reflexões. Os poderosos tomarão providências? Nem pensar. Creio que o arquiteto Marcos Leite tem absoluta razão. Ainda teremos de pagar para a utilização da exígua toilette das aeronaves. Rigorosamente estamos à mercê. Nada a fazer.

This post addresses the forthcoming talks I will give on my recording experience in Europe and all the lessons drawn from that experience, which I would like to share with others.
I also publish a selection of messages received with comments on last week’s post about onboard services in economy class. I’m not the only one to notice that airlines are engaged in a race downhill when it comes to customer satisfaction.

 

Ana Cláudia Assis interpreta repertório desafiador

É necessário insistir sobre fato elementar,
pois o intérprete detém o poder essencial,
entendendo-se que é através dele que a música existe realmente.
Ao negligenciar essa evidência,
corremos o risco de falsear todos os problemas da criação musical.
André Souris (1899-1970)
(“Conditions de la Musique”)

Durante o Simpósio “Fernando-Lopes Graça em retrospectiva”, realizado em Cascais em Dezembro último, tive o prazer de reencontrar amigos e, entre eles, a pianista Ana Cláudia Assis e o compositor João Pedro Oliveira. Ana Cláudia ofereceu-me o CD “Vertentes”, a conter obras de vários compositores contemporâneos que residem em Belo Horizonte, sendo dois visitantes. Buscou Ana Cláudia, através dessa panorâmica, trazer ao ouvinte a contribuição desses criadores de diversas tendências, mas que, na seleção proposta pela pianista, resulta num conjunto coerente.

A criação musical dita de concerto, erudita, seletiva ou clássica tem, em especial a partir da segunda metade do século XX, apresentado multiplicidade de caminhos. As transformações escriturais que ocorreram, mormente após a técnica dodecafônica, o serialismo e, mais tardiamente, o emprego de processos eletroacústicos, entre tantos, possibilitaram a presença de compositores relevantes. Muitos romperam com os padrões do passado. Para outros, a tradição “atualizada” através das conquistas verificadas em todas as áreas, não foi esquecida. Se em Portugal Jorge Peixinho, Emanuel Nunes e João Pedro Oliveira singraram caminhos oriundos de técnicas novas, nem por isso autores como Eurico Carrapatoso e Sérgio Azevedo deixam de despertar muito interesse. Sem contar o grande Fernando Lopes-Graça (1906-1994), o maior músico português do século XX, quiçá de sua história. A criação musical só é desinteressante quando as musas não visitam um autor sem talento.

Quanto ao piano, propiciou o instrumento uma série de novos procedimentos técnico-pianísticos – tantos deles oriundos da tradição -, enriquecedores nessa abordagem inusitada, sempre in progress, a que assistimos desde meados do século XX.  Poder-se-ia afirmar que o piano, apesar de recursos extraordinários, tem suas limitações, e o compositor consciente deve entendê-las, adaptando-se ao instrumento.  Nem sempre isso se verifica. Estou a me lembrar de recital que apresentei em Cardiff, no País de Gales (1996), interpretando vários compositores contemporâneos. Tive dois pianos para escolha, pois um terceiro, o melhor, estava praticamente impossibilitado devido a recital na noite anterior de pianista credenciado, que apresentou algumas obras para piano preparado, a interferir diretamente nas cordas e nos martelos, danificando-os de maneira irreversível. A Diretora do Departamento de Música da Universidade de Wales, Profª Caroline Rae, mostrou-se desolada. Lembro-me de meus tempos na USP, quando um duo pianístico, unicamente voltado à música contemporânea, pediu-me para ensaiar na sala em que dava aulas. Cedi com prazer, mas no dia seguinte cinco cordas estavam rompidas e um martelo quebrado. Tranquilamente me pediram novo ensaio, tendo eu recusado peremptoriamente. Em quase três décadas na Universidade, não me lembro de ter quebrado uma corda. Creio que é absolutamente fundamental para um pianista que se dedica à música de nossos dias ter praticado exaustivamente o repertório tradicional. Caso específico de Ana Cláudia Assis.

O CD “Vertentes”, lançado em 2017, tem a produção compartilhada de João Carreño e Gabriel Algusto. Apresenta composições de oito autores, alguns da novíssima geração.  Apesar de formações diferenciadas, constata-se uma possível “identidade” nas linguagens. As 11 faixas, ouvidas na sequência, assim permitem deduzir. Creio ser esse um aspecto positivo a evidenciar, friso, apesar de processos vários empregados pelos oito compositores. João Carreño escreve as notas e afirma: “Vertentes é a realização do desejo de explorar mais a fundo a identidade sonora da cidade que escolhi como minha casa, seus compositores, suas estéticas, seus sons”. Refere-se à cidade de Belo Horizonte. Continua: “Este álbum apresenta uma pluralidade de discursos, formas, estilos e técnicas que, postas em perspectiva através do pianismo lapidado de Ana Cláudia, cartografam os sons da capital mineira. Daqui, vertem obras que delineiam paisagens, exploram sons eletrônicos, remetem a gestualidades e compositores do passado, demarcam um caminho comum e ao mesmo tempo plural compartilhado pelos compositores jovens e por aqueles com carreira consolidada”.

Roberto Victorio abre o CD com a Sonata II (2017). Obra plena de possibilidades, “a partir da utilização e do intercâmbio de duas notações: proporcional e relativa”, segundo o autor. Nessa criação, como na maior parte das outras composições do CD, fiquei atento ao timbre sonoro, capacidade da exploração dos sons nas mais distintas camadas dinâmicas, e que, ao meu ver, é uma das constantes das obras do CD, mercê, frise-se, da qualidade da intérprete.

João Pedro Oliveira, professor titular da Universidade de Aveiro (Portugal) e da UFMG, é organista de formação e compositor de consagrada trajetória. Apresenta a obra Frozen… (Fred, Ferenc, Franz), realizando uma curiosa e bem solucionada prospecção do universo de três grandes compositores do passado: Chopin (Noturno em si bemol menor), Liszt (Rapsódia nº 2) e Schubert (lied Der Leiuermann). Apreende a contento “fragmentos” que remetem esporadicamente aos inspiradores, mas com engenhosa “metamorfose”. “Como se a música se congelasse”, afirma o autor.

A última tarde de verão, de Rafael Felício, traz resultados de interesse. Consegue amalgamar a interferência direta nas cordas do piano e utiliza igualmente sons eletrônicos. Considerem-se os efeitos de pedal em matizes de cuidadoso equilíbrio. Felício comenta que “a obra se constrói ganhando corpo e movimento sempre com o princípio de derivar um material do outro”.

Fui colega de Marcos Branda Lacerda na Universidade de São Paulo. Etnomusicólogo e compositor, Branda Lacerda tem vasto acervo de informações, pois sua tese de doutorado, defendida na Alemanha, abordou a música de Benin, na África. Curiosamente, Blue Notes, dedicada à pianista, é criação bem sofisticada que apreende várias culturas, não se descartando, consciente ou inconscientemente, segmentos que fazem lembrar determinados eteres próprios a Debussy.

Por um triz meus tímpanos não se romperam no início dessa criação de muito interesse. Creio que o piano, apesar de complexo, fica realmente minimizado, mercê da “avalanche” de sons eletrônicos flutuando entre os extremos da dinâmica. Levy Oliveira, em Por um triz, mantém tensão permanente durante todo o desenrolar da obra e a interação piano-eletrônica estabelece um amplo sentido de espacialidade.

Eduardo Campolina participa com Dois movimentos para piano solo. Como afirma, a obra bipartida tem “caráter contrastante no molde lento-rápido, muito comum na tradição ocidental”. O contraste não elimina, antes evidencia, a impressão digital do autor, possuidor de estilo definido.

Dubitável questiona os limites entre a precisão escrita e o improviso, o papel da intérprete como coautora de uma obra e a singularidade de cada interpretação de uma mesma peça”, considera João Carreño, compositor e produtor do CD. Estou a me lembrar de Três Estudos do notável H.J.Koellreutter que me foram dedicados, sendo o pianista o coautor. Essa configuração jamais permite a apresentação de uma obra construída graficamente na leitura realizada por intérpretes diferentes. Transfigura-se a partir da soberana presença da “matriz”. Carreño e a coautora obtiveram boa solução para Dubitável.

Sérgio Freire compôs De terras e raios, conseguindo resultados surpreendentes nessa transição a compreender a finitude dos sons do piano e a continuidade através dos sons eletrônicos. Essas transições estão muito bem pensadas e permitem reflexões a respeito da duração. O processo de De terras e raios propõe “sobrevida” ao discurso pianístico de maneira engenhosa.

Uma realização de mérito. Ana Cláudia Assis tem contribuído decisivamente na divulgação do repertório contemporâneo. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais e pianista respeitada, merece os maiores elogios pela contribuição valiosa que proporciona através do CD “Vertentes”.

Ao ser copiado, o link levará à breve apresentação do CD “Vertentes”, com explicações de alguns compositores e da intérprete:

https://www.youtube.com/watch?v=4HCjq_5EbIE

On the CD “Vertentes”, with contemporary classical music written by Belo Horizonte-based composers in the stunning performance of Ana Claudia de Assis, Brazilian pianist who is specialist in contemporary music interpretation and Associate Professor at UFMG – Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais in the city of Belo Horizonte.