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Santos festeja seu compositor maior

Estilo é técnica. Uma técnica serve a um só estilo, do qual é consequência.
Ou bem ou mal, com muito ou pouco estudo das técnicas
– vale dizer estilos –
de composição, acabaremos, através do trabalho constante, adquirindo, construindo nosso estilo,
nossa técnica particular para esse estilo.
Gilberto Mendes
(“Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”, São Paulo, Edusp – Giordano, 1994)

As comemorações em torno do centenário de Gilberto Mendes são motivo de orgulho para o Brasil, pois Gilberto Mendes foi sem dúvida um dos mais importantes compositores pátrios da segunda metade do século XX. Livre das amarras que o poderiam aprisionar a uma só corrente musical, Gilberto Mendes navegou por várias técnicas composicionais. Academicismo inicial, rigor dos ensinamentos aprendidos em Darmstadt, minimalismo e, a preponderar, o amor ao descortino das correntes outras, foram fatores fulcrais para a sua criatividade plena.

O Festival Gilberto Mendes que se inicia no dia 7 de Outubro em Santos traz diversificação a evidenciar as muitas facetas de Gilberto Mendes. Tenho o privilégio de abrir as festividades musicais a partir de um recital em que apresento não apenas dez criações de Gilberto, mas igualmente obras de autores que permaneceram como ícones para o compositor.

https://www.santos.sp.gov.br/?q=hotsite/centenario-gilberto-mendes

Do livro de Flávio Viegas Amoreira, ilustre escritor, poeta e crítico literário, “Gilberto Mendes – Notas Biográficas” que terá em sua segunda edição a ser lançada no dia 14 (vide programação) um artigo em que historio as 30 peças para piano que tive o privilégio de ser o dedicatário e de apresentá-las em público em primeira audição, retirei as apreciações que figuram no texto anexado à obra do autor santista e que se referem às 10 músicas programadas para o recital de abertura do importante Festival.

“Poderia dividir em dois grupos as composições que Gilberto me dedicou. Num primeiro grupo, vinte criações compostas entre as décadas de 1940-1950 e, num segundo, dez peças escritas a partir de 1985, para as quais o estímulo de minha parte provocaria a recepção plena de Gilberto. Todas têm uma história e, ao narrar, a origem das criações ficará documentada, mercê do convite do ilustre Flávio Viegas Amoreira para que escrevesse este anexo e, pela imensa admiração que ambos temos pela obra e trajetória de um grande amigo e incomensurável mestre, Gilberto Mendes.

Nas várias viagens a Santos no período de nossa docência na USP não poucas vezes visitei Gilberto. Certa vez, ao almoçar em seu apartamento indaguei-lhe sobre suas obras para piano de antanho. Disse-me sem hesitar que não se interessava por elas, pois faziam parte de uma fase remota, que estavam bem embrulhadas e guardadas em um baú. Tendo insistido, Eliane, sua esposa sempre atenta, convenceu-o a me mostrar aquelas criações. Deparei-me de imediato com o manuscrito, já bem envelhecido, da ‘Sonatina Mozartiana’, datada de 1951. Fui ao piano e decifrei-a diante do casal. Ao finalizar, Gilberto a sorrir afirmou: ‘Não é que ela é bonita!’. Fui lendo as outras obras e sugeri apresentá-las in totum no Festival Música Nova. Relutou inicialmente, mas encorajado por Eliane, aquiesceu. Interpretei-as todas em primeira audição em sua Santos, durante o referido Festival  (26/08/1991). Em seu substancioso livro ‘Uma Odisseia Musical – dos mares do sul à elegância da pop/arte-déco’ (São Paulo, Edusp, 1994), Gilberto escreve: ‘Ainda com referência ao pianista José Eduardo Martins, que já me encomendou tantas músicas, sou-lhe grato por haver tocado toda a minha obra inicial, do período de minha formação praticamente autodidata, que estava esquecida nas gavetas. Cheguei muitas vezes, a pensar em jogá-la fora. Mas alguma coisa me segurava, seria como jogar parte de minha vida, e nunca fui de rupturas com o passado’. Dessas obras, apresento habitualmente no Exterior a encantadora ‘Sonatina à la Mozart’, tendo gravado em 1996 em Sofia na Bulgária e incorporado posteriormente no CD “Retour à l’Enfance” (França, Esolem, 2019). Ao sair na Bélgica a edição da partitura, Gilberto entregou-me um exemplar com as palavras: ‘Com meus agradecimentos por esta descoberta arqueológica, e meu grande abraço sempre amigo’ (16/04/2003).

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, “Sonatina à la Mozart” na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

Foi a partir de 1985 que as ‘encomendas’ surgidas em conversas, nas quais algum evento, data comemorativa ou peça tombeau eram temas habituais, que, nasceriam dez novas criações de Gilberto Mendes, algumas integrando hoje repertórios de vários intérpretes brasileiros e do Exterior. Algumas têm o culto ao minimalismo, ‘um gosto meu pela estrutura musical estática, repetitiva’, d’après Gilberto.

Em 1985 fui o responsável por um caderno de oito composições a homenagear o notável compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931). Publicado pela USP, teria todas as composições em xerox dos manuscritos. Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Gilberto Mendes, Mario Ficarelli, Tsuna Iwami (Japão), Ricardo Tacuchian, Stephen Hartke (Estados Unidos) e Rodolfo Coelho de Souza, aceitaram a proposta. Partindo da consagrada criação ‘Il Neige’! do homenageado, Mignone comporia ‘Il Neige Encore’, Gilberto ‘Il Neige… de nouveau’ e Tacuchian, ‘Il fait du soleil’. No manuscrito autógrafo que recebi, Gilberto escreveria após o título oficial: ‘Quel froid! Mais je suis très bien chez moi… Et les pauvres, les chômeurs…’. A peça de Gilberto é minimalista, “parte do primeiro acorde de Il Neige”, como afirma Gilberto e, apresenta amplificação sonora e motívica nas diversas exposições ao longo dos compassos, através de engenhosa pedalização que leva à reverberação maior a propiciar ao todo uma concepção inusitada.  A primeira audição do caderno se deu durante o Festival Música Nova (São Paulo, MASP, 22/08/1985).

No centenário de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), coordenei a coletânea a ele dedicado, igualmente publicado nas mesmas condições pela USP em 1987. Os dez ilustres compositores convidados enviaram suas contribuições: Camargo Guarnieri, Aurelio de la Vega (Cuba-Estados Unidos), Edino Krieger, Gilberto Mendes, Ramón Barce (Espanha), Mario Ficarelli, Jorge Peixinho (Portugal), Almeida Prado, Roberto Martins, Wilhelm Zobl (Áustria). Apresentei a coleção em primeira audição durante o Festival Música Nova (São Paulo, Instituto Goethe, (23/08/1987). ‘Viva Villa!’ é possivelmente a peça para piano de Gilberto mais gravada e tocada no Brasil e no Exterior. Minimalista, apresenta vários ritmos brasileiros de índole popular utilizados por Villa-Lobos. O autor comenta: “Compus Viva Villa sobre acordes que já tinha prontos – também de um velho caderno de notas – e me pareceu ‘brasileiros’, com algo do Villa, no meu sentir’. Os segmentos não obedecem a rígidas repetições e, como último dos ritmos, Gilberto apresenta o da Bossa Nova. Perguntei-lhe o porquê. A resposta foi imediata: ‘Villa Lobos não teve tempo de vida para aplicá-lo’.

‘Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos mares do Sul’ foi composto em 1988. Gilberto escreve: ‘O pianista José Eduardo Martins me pediu para compor um estudo. ‘Um estudo?’ repeti, aborrecido, já que há muito tempo não componho peças com títulos de formas musicais. Eu não ia compor um estudo, coisa nenhuma! Mas José Eduardo não desiste fácil, muito pelo contrário. E quando menos esperava, lá vinha ele a me pedir o tal estudo, explicava que era para tocar em Potsdam e Berlim, Alemanha Oriental (naquele tempo!), dentro de uma série de estudos que ele estava encomendando a vários compositores. Um dia contra-ataquei. Só se fosse um anti-estudo, algo bem fácil, com notas de valor igual, andante… mas José Eduardo achou ótima a ideia. De fato, sem querer, eu estava esboçando uma ideia musical. E até me pareceu interessante. Não abri mão, no entanto, de deixar a coisa vaga, no próprio título, e imaginei: ‘Eisler e Webern caminham nos mares do sul..’ (São Paulo, Cadernos Musicais, Outubro, 1990). A primeira audição se deu em Potsdam na antiga DDR, no Neuen Palais Sanssouci, aos 31 de Maio de 1989.

‘Estudo Magno, ao Magno professor em sua aula Magna’. A dedicatória foi dada a uma das mais importantes criações de Gilberto para piano. Entendo o ‘Estudo Magno’ como verdadeira obra prima, que faz jus estar entre os mais significativos do gênero em termos absolutos, opinião corroborada por músicos que ouviram a criação em Portugal, França, Bulgária, Romênia, Bélgica, Inglaterra e País de Gales, centros em que apresentei a composição. Historiando, diria que numa de minhas visitas a Gilberto em sua Santos, disse-lhe que fora convidado para a Aula Magna da ECA-USP, mercê de minha aprovação como professor titular. Daria uma palestra no auditório Camargo Guarnieri seguido de um breve recital. Nasceria, pois, o ‘Estudo Magno’, cuja estreia se deu no dia 4 de Março de 1993. São inúmeras as formulações técnico-pianísticas, mormente aquelas concernentes à denominada técnica dos cinco dedos. Gravei-o na Bélgica para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

Clique para ouvir de Gilberto Mendes, Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois, na interpretação de J.E.M.:

338) Gilberto Mendes – Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois! – José Eduardo Martins – piano – YouTube

A amizade entre Gilberto Mendes e Jorge Peixinho era proverbial. Em Dezembro de 1994 Peixinho me escreve lamentando ‘a morte de nosso grande amigo Lopes-Graça’ (1906-1994), consensualmente o maior nome da criação musical em Portugal. Seis meses após era ele, Peixinho que partia. Ao saber do infausto acontecimento liguei para Gilberto. Com a voz embargada teve de desligar o telefone, em prantos. Retomamos minutos depois. Quase dois anos após a morte de Jorge Peixinho, recebi convite para recital de abertura do Orada Hansa Artística que seria realizado no Convento da Orada, em Monsaraz, no Alentejo, em Julho de 1997 e que contaria com a honrosa presença do Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio. Solicitei ao Gilberto um Estudo em homenagem ao nosso diletíssimo amigo Jorge Peixinho. Nasceria o ‘Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois’ in memoriam Jorge Peixinho, obra tombeau que foge aos ditames habituais. Preito sentido de Gilberto através de acordes em forma de coral que percorrem parte considerável do extraordinário Estudo. Elementos rápidos e metamorfoseados, caros na escrita composicional de Peixinho, entremeiam esses lentos acordes, assim como em outros segmentos, lembranças jazzísticas e da música norte-americana simpáticas aos dois compositores desfilam no percurso e, até, citação de passagem existente nos Funérailles de Franz Liszt, por duas vezes sedimentam o apreço ao amigo que se foi. Liszt está presente pois antes da criação dera recital no Museu Benedito Calixto em Santos e interpretei Funérailles. O recital em Monsaraz se deu aos 13 de Julho daquele ano. Gravei esse Estudo na Bulgária para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

‘Étude de Sinthèse’ (2004) teve origem a partir da… síntese. Conversava com Gilberto, já na sua oitava década, sobre um derradeiro Estudo. Disse-lhe que gostaria de uma criação no qual ele colocaria os acordes que mais foram sensíveis em sua produção. Mencionei Wagner, Liszt, Debussy, Scriabine… que tinham lá suas predileções. Pensei receber um Estudo vertical, mas Gilberto os horizontou em forma de arpejos que deslizam… Estudo testamentário? Pode ser, pois sereno, envolvente, generoso como seu criador. Interpretei-o em turnê pela Bélgica, gravando-o em Mullem para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

Consideraria um aspecto que ratifica a abertura de Gilberto Mendes, jamais preso a fanatismos, sejam eles ideológicos ou de tendências composicionais. Frases resumem bem o nosso entendimento e a liberdade que ele proporcionava ao intérprete: ‘A dinâmica entre ‘p’ e ‘mf’, você escolhe, menos no final que é ‘fff’. Tudo bem legato, não obstante eu não tenha feito as arcadas sobre as notas’, ao se referir ao ‘Étude de Sinthèse’. Sob outra égide, nas peças minimalistas, deu-me a liberdade em algumas delas de aumentar ou diminuir as repetições.

‘Largo do Chiado’ tem história singular. Daria recitais em Portugal comemorando 50 anos de meu primeiro recital em solo lusitano, aos 14 de Julho de 1959, na Academia de Amadores de Música em Lisboa a convite do insigne Fernando Lopes-Graça. Conversei com Gilberto e nasceria ‘Largo do Chiado’, breve homenagem do amigo. Composta em Dezembro de 2008, a peça evolui martellato uguale, senza espressione, a evocar nos compassos finais reminiscências do ‘Fado da Severa’, canção caríssima a Gilberto. A estreia se deu durante recital no Convento Nª Senhora dos Remédios em Évora aos 9 de Maio de 2009, interpretando-a a seguir em Tomar e Lisboa. Algumas das obras elencadas, assim como outras não apenas para piano, foram publicadas na Bélgica (Alain van Kerckhoven – New Consonant Music), mercê dos esforços do pianista e professor santista Antônio Eduardo.

Sempre a considerar o intérprete absolutamente necessário, mas num plano secundário em relação a obra a ser apresentada, pois transitório, entendo que determinadas criações através da história jamais viriam à luz se não houvesse o estímulo exterior, seja do intérprete ou vindo de outrem ou ainda de tantos fatores que levam o músico a compor. No meu de profundis apraz-me saber que o estímulo vingou e que fui o mensageiro temporário de todas essas trinta composições. Friso, se talento ou criatividade inexistirem, a criação se perderá no limbo da história. Pode ocorrer a permanência de um compositor durante certas décadas, mas só aqueles que conseguem ultrapassar a arrebentação, amparando-me numa imagem voltada ao mar tão amado por Gilberto, encontrarão o mar infinito. Galhardamente a obra de Gilberto Mendes navega nos ‘mares do sul’ em direção a tantos oceanos imaginários.

Rememorar essas relações musicais é um privilégio que dimensiona o entendimento compositor-intérprete. A corroborar o fato, mencionaria outras maiúsculas criações de Gilberto Mendes das quais participei como pianista: ‘Saudades do Parque Balneário para saxofone alto e piano’, ‘Canções’, ‘Longghorn para trompete, trombone e piano’, ‘Ulysses em Copacabana surfando com James Joyce e Dorothy Lamour’, ‘Concerto para piano e orquestra” e ‘Rimsky’, obra  apresentada em várias cidades da Bélgica com os integrantes do excelente Rubio Kwartet em 2003”.

J.S.Bach, “insuperável”; Franz Liszt, “fenomenal”; Claude Debussy, “fonte da música moderna”, Gabriel Fauré, “daria toda minha obra para ser o autor do Noturno nº4” e Alexandre Scriabine, “o transcendental, o misticismo eslavo contido em Vers la Flamme…”, são cinco de seus compositores eleitos e que povoavam os nossos diálogos. Completarei o recital a interpretar obras desses autores consagrados.

No próximo post comentarei o lançamento de “Gilberto Mendes – notas biográficas”, de autoria d0 ilustre Flávio Viegas Amoreira, livro que tenho o privilégio de participar escrevendo o anexo “Gilberto Mendes frente ao intérprete”. Farei parte da mesa redonda em torno do lançamento.

The city of Santos festively celebrates the centennial of the notable composer Gilberto Mendes. A Festival sponsored by the Santos City Hall will present a series of musical, literary and artistic manifestations in general. I will open the Festival by reading ten of the thirty compositions that Gilberto Mendes dedicated to me over decades of solid friendship.

 

Um dos mais abrangentes músicos de seu tempo

Primeiramente se reconhece o detalhe a ser dominado
até a submissão.
É a dificuldade que merece uma prática maior.
Por que perder tempo na prática de passagens
que podem ser tocadas perfeitamente bem?
Ferrucio Busoni
(“Important Details in Piano Study”)

Ferrucio Busoni foi um músico total. Nascido em Empoli, na Toscana, e filho de pais músicos, cedo iniciou seus estudos com o progenitor. Como menino prodígio teve a ajuda de um mecenas e passou a estudar em Viena ainda miúdo. Apresentou-se com recepção calorosa em récitas solos ou com orquestra. No efervescente ambiente vienense tocaria para Franz Liszt, que o incentivou, e também para Brahms, que o recomendou ao renomado Carl Reinecke (1824-1910), compositor e professor, uma das razões que contribuiu para sua evolução em várias áreas da música, piano, regência e composição.

Em 1886 reside em Leipzig e dois anos após, por indicação do musicólogo Hugo Riemann (1849-1919), Busoni leciona na Finlândia, país em que se apresentará dezenas de vezes e onde desenvolve sua técnica de composição. Em 1890 obtém o primeiro prêmio no concurso Anton Rubinstein nas duas áreas, piano e composição. Nesse mesmo ano leciona no Conservatório Imperial de Moscou.

Atividade pianística e composição despertam-lhe interesse. Logo após, ei-lo a lecionar no New England Conservatory em Boston, prosseguindo a brilhante carreira. Futuramente aceita o convite para ser diretor da Meister-schule no Conservatório Imperial de Viena. A atividade intensa como pianista, regente, compositor, professor e autor de textos importantes sobre a estética musical tornaram Ferrucio Busoni nome referencial. Vem a falecer aos 58 anos, legando inúmeras composições relevantes, algumas gravações fixadas nos primórdios tecnológicos e uma expressiva colaboração relativa às transcrições para piano, mormente da obra de J.S.Bach.

Em Leipzig, na juventude da idade madura, ao ouvir a execução ao órgão da Tocata e Fuga em ré menor, de Bach, é aconselhado pela mãe de seu futuro aluno Egon Petri, que se tornaria um ilustre pianista, a transcrever para piano a famosa criação do Kantor (vide blog: Egon Petri – 1881-1969 -, 08/05/2021). Possivelmente data desse período sua inclinação para com a obra de J.S.Bach, dele transcrevendo, para piano, inúmeras composições para órgão e coral que obtiveram enorme sucesso. No primeiro lustro dos anos 1950 estudei com fervor as célebres transcrições dos corais de Bach realizadas por Busoni, assim como trabalhei o Cravo bem Temperado, através da revisão minuciosa do mestre italiano. Busoni não apenas transcreveu, mas, sem perder as características primevas dos originais de J.S.Bach, por vezes propiciava determinadas intervenções.

Se Bach foi uma de suas metas, considere-se suas inúmeras outras transcrições de obras de Mozart, Cramer, Schubert, Schumann e tantos mais.

O adentrar a segunda metade do século XX “condenaria” a inclusão nos repertórios das transcrições, mormente as de Bach, realizadas por compositores expressivos como Liszt, Tausig, Siloti, Kempff, entre outros. Não houve o mesmo processo relativo às composições para cravo executadas ao piano? Nos dois casos eram consideradas despiciendas. Nas últimas décadas, tanto a transcrição como a interpretação ao piano das criações para cravo ganharam número expressivo de executantes. Quanto a estas, o insigne musicólogo François Lesure (1923-2001) já observara: “O tempo do Barroco integrista passou. A utilização de instrumentos de época deixou de ser um dogma ao qual os músicos são obrigados a aderir sob pena de serem tratados de heréticos”.

Clique para ouvir, de J.S.Bach, Prelúdio Coral, BWV 734, e de Beethoven, Escocesa, em Mi bemol Maior, na interpretação de Ferrucio Busoni (gravado em 1922):

https://www.youtube.com/watch?v=KS5JNn7CJGc

Como compositor de suas próprias criações, Busoni legou quantidade expressiva de obras a compreender inúmeros gêneros. Seu catálogo é imenso, sendo que Busoni evolui de um romantismo tardio a processos atonais. A capacidade de trabalho de Busoni tornou-se antológica. A pontuar em seu catálogo, saliente-se o monumental Concerto para piano e orquestra em Dó Maior, op. 39, em cinco movimentos, sendo que o último com a atuação de coro masculino.

Clique para ouvir, de Ferrucio Busoni, o Concerto em Dó Maior op. 39, para piano, orquestra e coro masculino, na magistral interpretação de Marc-André Hamelin acompanhado pela Lahden Kaupunginorkesteri dirigida por Osmo Vänskä:

(175) Busoni, Piano Concerto in C Major Op. 39 – YouTube

Os pensamentos de Ferrucio Busoni sobre Estética serviram a gerações. Quanto à sua preocupação com os que buscavam o aperfeiçoamento pianístico, no final da existência elaborou processos que poderiam ajudar. Em uma de suas conferências a abordar o estudo pianístico, pormenoriza-se sobre o detalhe.

Afirma:“No estudo da acentuação e do fraseado nada suplanta as obras de J.S.Bach. Porque é que Bach é tão valioso para o aluno? Esta é uma pergunta fácil de responder. É porque as suas obras são tão bem construídas que obrigam ao estudo aprofundado do detalhe. Ouvir uma nota, sua relação com outras notas, o valor proporcional do todo são propósitos que devem ser estimados pelo intérprete altamente capacitado. No meu próprio desenvolvimento como artista tem sido evidente, vezes sem conta, que minha trajetória se moldou pela observação cuidadosa dos detalhes. Todos os estudantes devem esforçar-se por apreender com muita precisão a sua própria capacidade artística. Uma estimativa errada conduz sempre a uma condição perigosa. Se eu não tivesse atendido a certos detalhes há muitos anos atrás, teria parado muito longe de qualquer objetivo preciso”.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, La Campanella, na interpretação de Ferrucio Busoni (1922):

(175) BUSONI PLAYS Liszt LA-CAMPANELLA – YouTube

Ferrucio Busoni was one of the most complete musicians in history of all time. Pianist, conductor, composer, teacher, musical thinker, reviewer and editor, Busoni excelled in all the areas multiple fields in which he worked.

O jurista Ives Gandra da Silva Martins e a revelação para poucos

Só podes ser tu se fores de tudo ou de nada.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Exclusivamente, portanto,
Para familiares, amigos e alunos,
foram escritas estas reminiscências.
Ives Gandra Martins

Poderia avocar suspeição ao redigir um post laudatório às lembranças que têm marcado a vida de um jurista, mormente sendo meu irmão. É que Ives, como jurista ímpar neste país atormentado, pautou sua existência na probidade absoluta, na batalha sem tréguas contra as mazelas que assolam há décadas nosso país. Recentemente comoveu-me ouvir de alguns dos mais importantes jornalistas brasileiros, como Augusto Nunes, Alexandre Garcia, José Maria Trindade, Guilherme Fiuza e tantos outros, menções ao meu irmão, inclusive um deles a proclamar que Ives é a figura basilar entre os juristas e que, na plena obediência ao que reza a nossa Constituição, tem a autoridade moral e jurídica para tecer críticas ao descumprimento, por parte do STF, de preceitos da Carta Magna. Ives, aos 87 anos, entende que excessos têm sido cometidos pelo Supremo Tribunal em quantidade inusitada e em uma só direção, procedimento jamais visto na história do judiciário brasileiro.

Após a morte de sua amada Ruth, vítima da Covid, com quem esteve casado durante 62 anos, Ives resolveu registrar instigantes lembranças que percorrem quase um século. Não quis ele a grande tiragem, a preferir uma edição limitada para familiares e amigos, entregando os manuscritos ao seu fidelíssimo e competente editor Cláudio Giordano.

Para um irmão que conviveu durante quase duas décadas na mesma morada de nossos pais, as qualidades humanísticas de Ives já se mostravam insofismáveis. No quarto lustro, o orador infalível já se revelava, pois após a leitura de segmento da excelsa literatura portuguesa, Sá de Miranda (1481-1558), Camões (c. 1524-1580), Padre Vieira (1608-1697), Padre Manuel Bernardes (1644-1710)…, o jovem Ives interpretava textos lidos para os nossos Pais após o jantar. Saliento que nosso Pai privilegiava a leitura dos clássicos portugueses. Nosso irmão João Carlos e eu, a seguir, tocávamos obras que faziam parte de nossos estudos pianísticos. Quanto ao José Paulo, estudou violino por pouco tempo, mas era exímio na gaita de boca, tendo ganho concurso em rádio paulistana. Dedicou-se com brilho à atividade comercial, seguindo basicamente a atividade de nosso Pai, ampliando-a. Minha convicção plena é de que a gestação do grande jurista que se tornaria Ives deu-se naqueles anos, nessas “tertúlias” em família. Impressionava-me, àquela altura, seu espírito de síntese, pois Ives conseguia traduzir em apotegmas conceituações extensas dos grandes autores.

Suas reminiscências daqueles anos inesquecíveis fazem-me pensar na leitura individual que cada um dos quatro irmãos teceu naquelas primeiras e decisivas décadas. Tardiamente elas se revelam basicamente similares, apesar de interpretações individuais diferenciadas devido às estruturas mentais distintas do quarteto. Essa assertiva só dimensiona nossos Pais, que se empenharam com sacrifícios na edificação cultural de seus filhos. Estou a me lembrar das palavras do ilustre Professor Catedrático de Direito de Família da Universidade do Minho, António Cândido, ditas em Braga, após um recital de piano que apresentei no salão nobre da Reitoria. Conhecedor da numerosa imigração de portugueses do Minho para o Brasil nas décadas fronteiriças dos século XIX e XX, entendia que meu Pai se agigantava como única figura (no singular) daquela precípua diáspora com um projeto cultural para seus futuros descendentes.

Antolha-se-me que o longo e substancioso capítulo “Reminiscências”, que aborda inicialmente os anos da infância, adolescência e juventude, faz entender todo o caminhar de Ives. Ao se casar com Ruth, em 1958, uma indissolúvel união em todos os planos se estabeleceu. Foram colegas no curso de Direito da USP. Tiveram seis filhos, dos quais três seguem com brilhantismo os caminhos fundamentados no Direito. O casal cresceu na fé católica e, com o passar dos anos, Ives deu provas dessa integral e irreversível religiosidade. Pertencer ao Opus Dei foi consequência. Insofismável a sua extraordinária carreira como jurista, professor e autor de uma centena de livros, a grande maioria versando sobre Direito Tributário, Constitucional e Administrativo, bibliografia que dimensiona ainda mais o significado de seus anos primevos. A verve poética o acompanha desde os primórdios, e os mais de mil poemas à sua saudosa Ruth o colocariam como recordista de poemas dedicados a uma só mulher em toda a história da poesia, creio eu. Apesar de ter partido há mais de um ano, Ruth continua a povoar escritos e poemas que lhe são dedicados. “Quando assim ajo, sinto-a próxima”, afirmou-me.

Em “Reminiscências de um cidadão comum” todas as recordações são autênticas e verídicas, a não ser, a meu ver, o título, pois Ives jamais foi uma pessoa comum. Todos conhecemos as qualidades que o tornaram uma das vozes mais respeitadas do Brasil.

Ives perpassa a existência no alto de sua sabedoria. Nas “Reminiscências de um Cidadão Comum” o trajeto é descrito sem traumas, sempre na ascensão. Como chegar aos 87 anos cultuado pelos letrados, políticos – mesmo aqueles que não comungam com suas convicções – e também pelo “cidadão comum”, sem jamais ter tido um ato que o desabonasse. Após a morte de nosso saudoso Pai no ano 2000, Ives é a nossa referência.

As reminiscências não excluem a menção às dezenas de homenagens que recebeu de instituições públicas e privadas ao longo da carreira, assim como a sua participação como docente no Brasil e alhures.

Ives insere quatro decálogos de sua lavra nas “Reminiscências…”: Decálogo do Advogado, Decálogo do Não, Decálogo da Convivência, Decálogo do Trabalho Ordinário. Do primeiro, extraio um parágrafo: “O Direito é a mais universal das aspirações humanas, pois sem ele não há organização social. O advogado é seu primeiro intérprete. Se não considerares a tua como a mais nobre profissão sobre a terra, abandona-a porque não és advogado”. Frases que deveriam ser o norte para a maioria dos advogados.

O meu clã visitou-o dias atrás. Uma alegria. Apesar das limitações físicas, Ives continua a ser um dos faróis a iluminar o agitadíssimo oceano que nos cerca.

Dedico-lhe, pois, uma gravação que é um devaneio na Via Láctea. Se a sua Ruth paira nas esferas, abrigada pelo Poder Maior, o sensível passeio pela Via Láctea diz tanta coisa… O ilustre compositor francês François Servenière compôs uma lírica peça a partir de “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupéry. As “Reminiscências” retornam…

Clique para ouvir, de François Servenière, “Promenade sur La Voie Lactée”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=JQDkWn1HcpQ

In his book “Reminiscences of an ordinary citizen”, the illustrious jurist Ives Gandra Martins reveals key events lived since childhood that have been fundamental in his development. At 87, respected by intellectuals, politicians and ordinary people, he has been a beacon for our family since the death of my father in 2000.