A transmissão epistolar sem subterfúgios
Todos os homens de gênio e de progresso na Rússia são e serão
eternamente condenados aos trabalhos forçados ou bêbados.
Dostoiévsky (1821-1881)
(“Os Possessos”)
A grandeza de um artista é, antes de tudo, a grandeza de sua alma.
Nesse sentido, Moussorgsky pode ser considerado de pleno direito
como um grande artista,
pois sua alma abrigava uma multidão de almas humanas.
Guéorgui Vasilyevich Sviridov, compositor (1915-1998).
Alguns leitores me solicitaram a inclusão do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881) entre aqueles que foram ativos missivistas. Tendo publicado um blog, “Cartas de Modest Moussorgsky”, aos 7 de Dezembro de 2019, volto ao tema com outros segmentos de sua correspondência. Presentemente digito Mussorgsky, grafia usual na língua portuguesa.
Suas cartas transmitem essencialmente o que ele pensa sobre as artes, música a preponderar, sobre o cotidiano, sem descartar a aspiração do homem em sua trajetória existencial. Das cerca de 300 cartas conhecidas de Mussorgsky há destinações mais frequentes, casos de Vladimir Stassov, Mili Balakirev, Arsény Golenichtchev-Koutousov e Rimsky Korsakov. Há naturalidade em se expressar, assim como originalidade conceitual desprovida de qualquer empáfia. Reiteradas vezes suas missivas traduzem discreta alegria, pessimismo, depressão, críticas por vezes sarcásticas a desconhecidos ou não, e a mudança de humor sem extremismos, evidenciando sua difícil condição. A leitura da sua correspondência revela a personalidade de Mussorgsky, mutante tantas vezes graças aos períodos críticos que viveu, levando-o à morte precoce aos 42 anos. Não obstante, há uma profunda coerência quanto à devoção aos costumes e à música de sua Rússia. Como Dostoiévsky, Mussorgsky também foi epilético e, a agravar, era dependente das bebidas de alto teor alcoólico. Não obstante toda a instabilidade física e financeira, foi um gênio absoluto. Claude Debussy (1862-1918) considerava-o o mais importante compositor entre os seus contemporâneos europeus.
O espaço a que me proponho nos blogs hebdomadários determinou escolhas e, da vasta comunicação epistolar de Mussorgsky, separei segmentos de um dos seus mais expressivos destinatários, o crítico musical, historiador de arte e ideólogo do Grupo dos Cinco Vladimir Vassiliévitch Stassov (1824-1906), assim como a quase integral missiva endereçada a um dos seus interlocutores, o poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913).
De Stasov, extraí frases da vasta correspondência mantida entre os dois grandes amigos. Em vários inícios das missivas, Mussorgsky trata-o de generalíssimo. Escreve Mussorgsky: “Diga-me por que razão, quando conversam jovens pintores ou escultores, consigo acompanhar o fio dos seus pensamentos, compreender a sua maneira de ver as coisas e os seus objetivos, e raramente os ouço falar de técnica (apenas nos casos em que é realmente necessário). Por que razão — mas é inútil dizê-lo — quando são os nossos colegas que conversam, os pensamentos vivos são tão raros, suas conversas são enfadonhas, e o que dizem cheira tanto a sala de aula: termos técnicos, jargão musical?” (1872).
“A representação artística da beleza por si só, na sua expressão material, é uma infantilidade primitiva, a infância da arte. Os traços mais subtis da natureza humana e das massas, a obstinação em agarrar-se aos territórios inexplorados e em conquistá-los: eis a verdadeira vocação do artista” (1872).
“Primeiramente, os gostos tendem a mudar; em segundo lugar, o público exige dos músicos russos obras russas, em terceiro lugar, é vergonhoso tratar a arte com fins egoístas” (26/12/1872).
“Liszt fala sem cessar dos músicos russos e relê de tempos em tempos suas obras. Que Deus lhe permita viver o maior tempo possível. Eu poderia visitá-lo na Europa e mostrar-lhe nossas novidades, mas só se o meu caro generalíssimo me acompanhasse” (23/07/1873).
“Nunca senti com tanta força que o trabalho criativo exige calma, que somente nessa condição é possível se concentrar, retirar-se para a sua torre de marfim e, de lá, observar os personagens: como eles se comportam?” (06/09/1873).
“A modéstia e a ausência de arrogância, que nunca me abandonaram e não me abandonarão enquanto meu cérebro não secar completamente dentro da minha cabeça, não satisfazem os imbecis” (06/02/1874).
Durante a composição da ópera Khovanchtchina, escreve a Stassov:
“Estou convencido de que o generalíssimo não acredita que eu tenha recebido as suas observações e propostas de forma diferente do habitual. Interrompi meu trabalho, comecei a refletir e agora, tal como ontem, há várias semanas e amanhã, tenho apenas um único pensamento: sair vitorioso desta provação e levar aos homens uma nova mensagem de amor e amizade, uma mensagem simples e vasta como a planície russa, a mensagem de um modesto músico, mas também de um combatente pela verdade da arte” (15/06/1876).
Transcrevo segmentos de uma das cartas endereçada ao poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913), autor de vários textos poéticos que serviram de inspiração para Mussorgsky, entre os quais os ciclos de melodias: Sans Soleil e Chants et Danses de la Mort. Mussorgsky faz observações de interesse que revelam características do compositor frente à sua atualidade.
A missiva ao amigo poeta foi escrita aos 3 de Outubro de 1875.
“Arséni, meu querido amigo que tanto sofre. Soube pela Katénine que você continua de cama. Há muito tempo que queria lhe escrever, mas não consegui. Não se zangue, meu amigo, estou realmente sobrecarregado. Você me escreve dizendo que não lhe dei muitas notícias e pede mais. Vou responder-lhe com um ditado: eu gostaria muito de ir para o paraíso, mas os pecados me impedem. Onde encontrá-los? Quer dizer, não os pecados, mas as novidades… Vamos falar melhor do nosso humilde mundo artístico, vamos nos isolar por algum tempo em algum recanto agradável e de lá, próximos da vida e das pessoas, mas longe dos discursos pomposos sobre o direito, a liberdade e o protesto, olhemos com coragem a vida de frente. É preciso, porque as pessoas necessitam da verdade, não de uma verdade retórica, mas autêntica. A humanidade se entrincheirou por trás do alarde de procedimentos convencionais, quase artísticos, e de formas não convencionais, de modo algum artísticas; ela se barricou ali de boa vontade, até mesmo com prazer, talvez sem volta, porque ‘o sol nunca nascerá a oeste’. Parece-me que, com muitas raras exceções, os homens, por vezes, não suportam se ver como realmente são; o desejo de parecerem, mesmo aos seus próprios olhos, melhores do que são é muito natural. Mas eis em que consiste o ardil: os artistas contemporâneos, assim como os do passado, ao retratarem os homens para os homens como melhores do que realmente são, traduzem a vida pior do que ela é. Os velhos crentes incorrigíveis repetem que isso é necessário para dar brilho às cores; os vacilantes, que oscilam como um pêndulo, murmuram que as tarefas da arte ainda não estão suficientemente claras; os radicais gritam que somente um aldrabão é capaz de criar na realidade, de maneira verdadeiramente artística, o tipo genuíno do trapaceiro. Essas três correntes podem ser facilmente conciliadas, e tal conciliação seria infinitamente mais útil do que a luta no espaço aéreo, já que a natureza não nos dotou de asas para nos mantermos ali. É muito simples; um artista não pode fugir do mundo exterior, cujas impressões se refletem até mesmo nas nuances da criação subjetiva. Só que não se deve mentir, mas dizer a verdade. Essa simplicidade é, no entanto, difícil de alcançar. A verdade artística não tolera formas preconcebidas. A vida é variada e muitas vezes caprichosa. É tentador, mas raramente possível, criar um fenômeno ou um tipo realista na forma que lhe é inerente e que nenhum artista havia utilizado até então. Neste caso, o artista não deve contar com a sua velha ama para ajudá-lo a levantar-se, para lhe dizer: ‘Mantenha-se direito’; não, ele deve levantar-se sozinho e dizer a si mesmo: ‘Tenho de me manter direito’. São estas as ideias que tenho dentro de mim neste momento, caro amigo Arséni. Ainda não sei como me livrarei delas, mas prevejo que o parto será difícil”.
É realmente extraordinária a criatividade de Mussorgsky que, apesar de uma vida com tantas adversidades provocadas pela epilepsia e a dependência alcoólica, criou uma das óperas mais importantes em termos mundiais, Boris Goudonov, ciclos de canções da maior relevância, Sans Soleil, Chambre d’enfants e Chants et Danses de la Mort e uma composição excelsa para piano, Quadros de uma Exposição.
Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, cena da coroação da ópera Boris Goudonov (2 º quadro cena II), na redução para piano de Rimsky Korsakof (1844-1908), na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&t=3s
Mussorgsky was a prolific letter-writer. In this post, I include excerpts from letters written by Mussorgsky to the music critic Vladimir Stasov and the poet Golenichev






