Navegando Posts publicados por JEM

Idalete Giga e a leitura constante dos blogs

Escrevendo ou lendo nos unimos para além
do tempo e do espaço, e os limitados braços
se põem a abraçar o mundo;
a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Agostinho da Silva

Diversas vezes escrevi sobre a notável especialista em Canto Gregoriano Idalete Giga, Diretora do Centro Ward de Lisboa. Conheci-a em 1981, pois discípula de nossa saudosa amiga, a ilustre professora Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora do Centro de Estudos Gregorianos em 1953, futuro Instituto Gregoriano de Lisboa (1976).

Quase todos os anos dou recitais em Portugal e nossos encontros são inevitáveis, prazerosos e profícuos. Há tantos temas em nossa área musical no sentido amplo e tenho a convicção de que nos enriquecemos mutuamente.

Idalete é leitora fiel de meus blogs semanais, fato que me traz alegria. A pandemia impediu-me de estar em Portugal neste 2020. Há meses não nos comunicamos. Todavia, foi uma surpresa agradável receber sua mensagem, a fazer uma síntese dos blogs que mais a sensibilizaram a partir do dedicado à grande pianista Guiomar Novaes em 9 de Maio último.

Transmito ao leitor a mensagem de Idalete Giga, como o faço com os e-mails do compositor francês François Servenière a focalizar sempre determinado post, estendendo largamente suas convicções a respeito da temática. Desta vez é Idalete que, ao opinar sobre blogs de Maio ao presente, bem focaliza essencialidades dos temas abordados.

“Sempre Querido Amigo José Eduardo,
Estive a ver o último e-mail que lhe enviei. Foi a 6 de Maio. O tempo passa muito depressa, apesar da situação de pandemia que estamos a viver. Aliás, perdemos até um pouco a noção do tempo.

Peço desculpa por ter deixado passar praticamente três meses sem lhe escrever. Fui, no entanto, lendo os seus posts, que são sempre para mim uma aprendizagem preciosa.

Já que tomo sempre algumas notas quando leio os seus textos, vou referir-me a alguns que mais me emocionaram. Fiquei encantada com tudo o que escreveu sobre a extraordinária pianista Guiomar Novaes. Que bela quadra do nosso saudoso e querido Agostinho da Silva como prelúdio do post de 9 de Maio! Congratulo-me com o querido Amigo por fazer lembrar, sobretudo aos brasileiros, essa genial pianista. Ouvi as gravações que inseriu nos posts de 9 e 16 de Maio (Rapsódia Húngara, de Liszt, Orfeu e Euridice , de Gluck-Sgambati e o Concerto para piano nº 20 em ré m, K.466, de Mozart!) . Qualquer das interpretações revela uma grande intérprete. A Melodie emocionou-me especialmente. Que expressividade, que delicadeza! Gluck choraria ao ouvi-la. Partilhei-a na minha página do facebook, bem como o Concerto de Mozart.

No seu texto de 23 de Maio , mais uma vez cita no prelúdio do post um pensamento de Agostinho da Silva, que achei profundamente filosófico: ‘Deus não se afirma nem se nega. Deus é, mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua extrema liberdade’. Gostei da entrevista que fez ao seu irmão Ives depois de todo o sofrimento por que passou no hospital e também dos dois artigos que ele escreveu. Graças ao Pai do céu, seu irmão regressou ao mistério que é a própria vida.

Ainda em Maio, o que escreveu sobre os Carnets de Saint-Exupéry revela muitos aspectos desconhecidos deste desse grande humanista.

Adorei o seu post sobre Clara Haskil. Das gravações que inseriu no Youtube e que ouvi, partilhei a Toccata em E m, de Bach. Que maravilha! Como é possível haver tanta ignorância sobre Clara Haskil e outros geniais pianistas que foram atirados para o mundo vazio do esquecimento?

As magníficas interpretações do José Eduardo de Les Tourbillons, de Dandrieu e Rameau, também as partilhei na minha página do facebook. Que desenho belíssimo do nosso querido e saudoso Luca Vitali, O giro da bailarina, a ilustrar o post. No Alentejo chamamos, ao turbilhão provocado pelo vento, um ‘espoginho’.

No post de 20 de Junho, as interpretações do pianista russo Emil Gilels são de cortar a respiração. Adorei sobretudo o Prelúdio em si m, de Bach-Siloti, e o célebre Concerto para piano nº 1, de Tchaikovsky. Interpretação vigorosa e ao mesmo tempo profundamente poética e romântica. Os temas dos vários andamentos são, aliás, belíssimos e inesquecíveis.

Fiquei impressionada com Sviatoslav Richter ao ver o documentário Enigma, de Bruno Monsaingeon. A sua interpretação da Fantasia & Fuga em Lá m, de Bach, é um monumento. Como Bach adoraria ouvir esse genial pianista. Partilhei na minha página e muitos amigos ficaram também impressionados com o virtuosismo de Richter. Ele desfaz-se em precisão rítmica! É único!

Desconhecia as obras interessantíssimas que o compositor contemporâneo Paulo Costa Lima lhe dedicou e que o José Eduardo interpreta genialmente. Pega essa nêga e chêra op. 28 e também Imikaiá op. 32 sugerem-me água em límpidas cascatas. O Ponteio-Estudo é de uma grande dificuldade interpretativa. Parabéns pelas suas interpretações! Estive a ver o link sobre o compositor e fiquei encantada. Encantou-me, sobretudo, a ligação que Paulo Costa Lima faz entre a música popular tradicional e a música erudita contemporânea.

Quanto aos posts de Julho, em que o Amigo escreve sobre as problemáticas da Música Clássica ( I e II ), a quadra de Agostinho da Silva, a preludiar o post de 11 de Julho,  ‘Não corro como corria/ Nem salto como saltava/ Mas vejo mais do que via/ E sonho mais que sonhava’ revela a profunda vivência e sabedoria dos velhos.

Creio que a diminuição de público nas Salas de Concerto é o resultado, sem dúvida, de uma Educação deficiente. Mas também se deve a uma ‘dessacralização’ do Ocidente , ou seja, ao desprezo por tudo o que é sagrado, cujo sentido se perdeu. Sendo a Música – popular e erudita, religiosa ou profana – a alma do som, a espiritualização sonora, nada disto interessa hoje aos materialistas e consumidores exacerbados de música barata , medíocre, descartável , ruidosa, que tem contribuído para a decadência da civilização. Justiça seja feita à China, que pretende mostrar ao mundo que assimilou a cultura ocidental, tendo criado centenas de Conservatórios e fábricas de instrumentos musicais…. e ultrapassa o Ocidente!

É uma distorção da mentalidade e mais uma vez uma triste ignorância considerar a Música clássica ligada ao racismo, como se a Música tivesse a cor branca, negra ou amarela. As citações que o José Eduardo menciona, uma de Rameau, ‘A música é a linguagem do coração’ e outra de Albert Schweitzer ‘Quando o homem aprender a amar o menor ser da Criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará de ensiná-lo a amar o seu semelhante’ revelam, sem dúvida, a alma da grande Música (a Mãe de todas as Artes), que é espiritual e profundamente humana.

Não sabia que Luiz Godoy (que dirige os Pequenos Cantores de Viena) tinha sido seu aluno. PARABÉNS! Adorei ouvir a obra de Dick Lee,  Home, pelos pequenos cantores de Viena, outros coros e a Orquestra Filarmónica Juvenil de Singapura. dirigida por Godoy. Partilhei na minha página do Facebook.

Também achei muito pertinente o seu texto sobre La Peste, de Albert Camus (post de 25 de Julho), em que faz a comparação com a actual pandemia que estamos a viver. As tragédias humanas continuam a repetir-se e não são coisa do passado, infelizmente. A actual pandemia tem uma relação directa com a poluição do nosso planeta, que continua a ser destruído. E os déspotas, os governos tiranos não querem ver….

Nos ecos de La Peste fiquei triste com a afirmação de Vargas Llosa, que considera medíocre esta obra de Camus. Não consigo compreender tal afirmação de um homem tão inteligente e humano como Vargas Llosa.

Quanto ao excelso pianista chileno Cláudio Arrau, basta ouvir a sua interpretação da Sonata Appassionata, de Beethoven, para não restarem quaisquer dúvidas da sua genialidade.

Depois de ler o seu post e de ouvir as gravações da pianista russa Maria Yudina, só posso agradecer esta dádiva preciosa e não poderia nunca deixar de escrever algumas palavras, embora insuficientes para expressar, com emoção, a personalidade de tão grande e genial pianista. Na verdade, ela não se enquadra em nenhum “formulário” saído da tradição. A sua filosofia de vida, o seu inconformismo, o seu despojamento perante as riquezas materiais, a sua simplicidade, bondade extrema e profunda religiosidade (era uma cristã ortodoxa convicta), o amor que nutria pelo seu povo, para quem tocava e por quem sofreu, todos estes aspectos da sua personalidade nunca poderiam conduzir Yudina a clichés interpretativos, a imitações ou à dependência fosse de quem fosse. Ela encarnava a própria Música. Por isso, as suas interpretações são únicas, pessoais, e revelam bem a alma dessa mulher extraordinária. Ela teve a coragem de enfrentar o déspota e cruel Stalin, que se rendeu à sua genialidade. Se a interpretação sublime do Adagio do Concerto nº 23 em Lá M K.488, de Mozart, fez chorar Stalin, a interpretação de  Lacrimosa, do Requiem de Mozart (incluída no Documentário russo  Alma Mater), é como uma marcha fúnebre em que Maria Yudina chora por todos os compatriotas perseguidos e mortos.

Afirmava que para ela só havia um caminho para Deus, a Arte. Para compreendermos esta afirmação da própria Maria Yudina basta ouvir a sua interpretação do Prelúdio & Fuga em Lá m para órgão, de Bach (transcrição para piano, de Liszt), num Concerto ao vivo, em 1953. É o esplendor da Beleza. Bach devia ser a sua luz, a sua inspiração. Não admira que, em Leipzig, tenha atravessado de joelhos a praça que a conduziu à estátua do grande Mestre. Emocionante.

Obrigada, querido Amigo, por nos proporcionar interpretações únicas e históricas de grandes pianistas que vieram ao mundo para torná-lo mais belo e humano”.

A mensagem de minha dileta amiga e notável gregorianista corrobora a vontade de continuar. Desde 2 de Março de 2007 ainda não deixei de publicar um sábado sequer meus blogs hebdomadários. Já escrevi que a respiração não pede férias. Continuarei até…

Clique para ouvir pelo Coro “Capela Gregoriana Laus Deo”, Natal de Elvas, Cancioneiro Alentejano. Harmonização e regência Idalete Giga:

https://www.youtube.com/watch?v=l5YnExjckwU

Idalete Giga, choral conductor and an authority on the performance of Gregorian chants who lives in Portugal, is also a longtime friend and attentive reader of my blog. What a surprise to receive a message in which she comments on each of my posts published from last May to the present. Today I share her words with my readers. Idalete is a music lover and  I believe her thoughts can deepen our understanding of the topics addressed.

A carreira singular da notável pianista russa

As relações entre autor, intérprete e ouvinte
são por vezes contraditórias. Para o ouvinte,
o intérprete e o autor se confundem facilmente,
mesmo que ele acredite distingui-los.
Na realidade, o ouvinte pouco se preocupa
com as intenções do autor e se atém àquilo que ouve,
fator este, reflexão feita, que só podemos aprovar.

André Souris
(“Conditions de la Musique”)

A trajetória da pianista Maria Yudina foge completamente daquela de qualquer outro intérprete, se considerado for o rotineiro traçado de um concertista. São tantos os acontecimentos em seu caminho que se torna difícil enquadrar Maria Yudina em um formulário tão repetitivo na maioria das biografias dos executantes, como número de países visitados, regentes afamados sob a batuta dos quais foram solistas de Concertos para piano e orquestra, exaustiva repetição repertorial, recepção crítica. Igualmente distancia-se fulcralmente do politicamente correto no que tange aparência física, dinheiro como status social, presença do empresário, fatos esses que corroboram decididamente a sua interpretação diferenciada. Maria Yudina é convicta de suas execuções plenas da leitura personalíssima das partituras, fator esse que resultaria no respeito de seus ilustres contemporâneos, compositores e intérpretes, mas também em opiniões controversas.

Ao entrar no Conservatório de São Petersburgo estudará, entre outros professores, com Leonid Nikolaiev. Em sua classe teve como colegas Sofronitsky e Shostakovich.

Primeiramente, está-se diante de uma pianista anticonformista, distante de quaisquer padrões. No final da juventude converte-se à religião ortodoxa, devota atenção especial a São Francisco de Assis, torna-se fiel aos seus princípios espirituais. Quando professora no Conservatório de Leningrado, em aula não deixava de predicar, fato que durante longas décadas motivou ações persecutórias na extinta União Soviética e que lhe acarretaria sérios problemas.

Impedida de lecionar, viveu na pobreza durante algum tempo. Lecionou em Tbilisi, na Geórgia, e mais tarde, sob influência de Heinrich Neuhaus, no Conservatório de Moscou e igualmente no Instituto Gnessine. Em 1960 foi proibida de lecionar por motivos ligados à religião e ao seu repertório, que incluía compositores contemporâneos ocidentais que professavam técnicas repudiadas na União Soviética. Poderia dar recitais, mas ficou impedida de ter suas performances gravadas. Antes de um recital, a preceder a leitura de um poema de seu amigo Boris Pasternak, fez o sinal da cruz e o ato valeu-lhe cinco anos sem poder tocar em público. Tempos de Nikita Khruschev, oposto da aceitação inexplicável que Stalin a ela dispensava. Estou a me lembrar que, estando em Moscou para participar do II Concurso Tchaikovsky em 1962, ganhei LPs com obras de Scriabine interpretadas por Vladimir Sofronitsky, falecido em 1961, assim com o Cravo bem Temperado de J.S.Bach por Sviatoslav Richter. Colegas me falaram inúmeras vezes da consagrada Escola Russa de piano, mas jamais mencionaram Maria Yudina, “ressuscitada” nessas últimas décadas. Em seu importante livro “A Arte do Piano” (1º edição russa, 1958), Heinrich Neuhaus não menciona Maria Yudina e Harold C. Schonberg, em sua obra “The Great Pianists” (1963), apenas cita seu nome sem se pormenorizar.

Fez sempre severa oposição ao regime comunista e inacreditavelmente, apesar das críticas ácidas que fazia ao próprio Stalin, jamais recebeu “castigo”, fato inusitado. Um colega russo disse-me certa vez, no início da década de 2010, na Bélgica, que não tivesse ela o respeito de Joseph Stalin teria desaparecido inexplicavelmente, como quantidade incalculável de opositores.

Alguns fatos, entre muitos na vida de Maria Yudina, merecem menção. Bem divulgado há o episódio narrado nas memórias de Shostakovitch. Refere-se ao fato de Stalin ter ouvido através da rádio o início do Concerto nº 23 para piano e orquestra de Mozart, a ter Maria Yudina como pianista. Pediu ao seu ajudante de campo que buscasse a gravação. Todavia, o concerto estava em transmissão direta. Com medo de represálias, o diretor da rádio envia alguém para contatar imediatamente a pianista. Acordaram-na no meio da noite, conduziram-na ao estúdio e uma pequena orquestra chamada às pressas já estava à sua espera. A gravação foi feita com outro regente, pois o da transmissão direta estava traumatizado com o acontecido. A execução foi gravada diretamente num LP e nele adicionaram uma etiqueta. Quando o ditador morreu, dizem que o LP estava na sua vitrola. Em outra oportunidade Stalin lhe concede um apartamento e ela quebraria os vidros das janelas, a dizer que preferia viver como os outros russos menos afortunados. Em carta a Stalin, após receber uma quantia a ela destinada, responderia que daria a importância à sua igreja para que rezassem pela alma do ditador mercê dos crimes por ele cometidos contra o povo russo. Supersticioso, Stalin a admirava, mas nunca lhe respondeu.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, o Adagio do Concerto nº 23 em Lá Maior de Mozart, K. 488

https://www.youtube.com/watch?v=6l0bsTNsnX0

Apresentar-se-ia na União Soviética e países satélites, mas jamais fora do bloco. Estando em Leipzig pela primeira vez, atravessaria de joelhos a praça que a levaria à estátua de J.S.Bach. Vestia-se de preto, não cuidava da aparência física sempre austera e tinha em suas relações de amizade artistas plásticos, escritores e arquitetos.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina (1952), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=1qWSNI_P378

Um ano mais tarde (1953), transfigura a execução e, ao vivo, destaca com incrível pujança a presença dos baixos, a lembrar sua reverberação em uma catedral.

Clique para ouvir, na interpretação gravada ao vivo de Maria Yudina (1953), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=puwboQ_zNNI

Após a queda do muro de Berlim, mais e mais a figura de Maria Yudina se agiganta. Fugindo de interpretações características da chamada Escola Russa, já observadas anteriormente (vide blogs sobre Vladimir Sofronitsky, Emil Gilels, Vladimir Horowitz e Sviatoslav Richter), em cada obra por ela executada há a nítida impressão digital. Suas interpretações fogem de qualquer ditame acadêmico. A tendência a uma espécie de “monasticismo social”, seus escritos religiosos, o despojamento total quanto à aparência física, o anticomunismo – anátema diante da Nomenklatura – não a teriam inclinado à interpretação diferenciada da obra J.S.Bach, prenúncio das ousadias propostas posteriormente relacionadas às composições do grande músico alemão empreendidas por outros pianistas? Arrojada ao tocar, demonstrando uma leitura inusitada das partituras, explorando as altas intensidades com bravura incomum, mas também tendo imensa sensibilidade no tratamento das sonoridades em piano e pianissimo e na flexibilização dos andamentos dentro de uma lógica rigorosamente individual, se tantas vezes ela foge dos ditames impostos pela convenção, nunca deixa de transmitir uma visão convincente. Exemplo claro temos na sua leitura dos Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, em que Maria Yudina encontra sua visão particular de cada quadro exposto, a chegar até a interferir no original do compositor. Nesse quesito, sobre outra égide, aproxima-se da releitura dos Quadros... realizada por Vladimir Horowitz, essa influenciada, bem possivelmente, pela transcrição para orquestra elaborada por Maurice Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, os Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, gravação realizada em 1952:

https://www.youtube.com/watch?v=u2WrmLYfkvA

Em artigo publicado no Suplemento Cultura do Estadão (“As mortes do intérprete”, 1988) escrevia que, mesmo se considerando a qualidade do pianista, interpretações que se distanciam das normas da tradição têm grande interesse, mas dificilmente servem de modelo. Maria Yudina buscou caminho interpretativo inédito e bem tardiamente outros também assim agiram. Segui-la como arquétipo na tentativa de imitá-la leva ao simulacro exemplar. Todavia, as interpretações da notável Maria Yudina são extraordinárias. Nome referencial da arte pianística.

O documentário russo “Alma Mater” bem expõe depoimentos preciosos de seus contemporâneos. Há legenda em inglês:

https://www.youtube.com/watch?v=zF03KVIsrns

This post is about the Russian pianist and teacher Maria Yudina (1899-1970), who dared challenge the Soviet State with her advocacy of modern Western composers, religious convictions and open criticism of the communist regime. Joseph Stalin‘s admiration for her talent may have saved her life, but under Kruschev things have changed and she was often forbidden of pursuing some of her musical activitiesYudina’s playing is marked by virtuosity, strength, exceptional control of dynamics, but is also highly personal, deviating from the traditional piano practices of the Russian school. Hidden behind the iron curtain during her lifetime, after the fall of the Berlin wall her name has grown in stature and now commands huge respect in the classical music world.


Nome referencial e respeito à tradição

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus estados de alma,
tampouco a extensão de si mesmo, a auto exibição.
É dever sagrado do executante comunicar,
de maneira intacta, o pensamento do compositor
de quem ele não é mais do que intérprete.

Claudio Arrau

Sua biografia está amplamente difundida na internet. Suas execuções podem ser melhor compreendidas conhecendo-se sua evolução desde a infância, o talento excepcional, aprendizado com o grande mestre Martin Krauze (1853-1918) – um dos discípulos favoritos de Franz Liszt -, depressão, psicanálise durante cerca de 50 anos, certezas quanto ao gesto exagerado, memória prodigiosa que, a certa altura, ele coloca em dúvida. Em livro confidencial, Arrau se descortina e cresce ainda mais diante do ouvinte (“Arrau Parle – conversations avec Joseph Horowitz”. France, Gallimard, 1985). Referi-me a esse livro fundamental em blogs bem anteriores.

Martin Krause foi o professor que o guiou durante os anos fundamentais de formação, não apenas na formação técnico-pianística, mas também na seleção repertorial e na qualidade humanística. Arrau comenta: “Apenas duas moradas nos separavam. Chegava em casa do mestre às nove ou dez horas todas as manhãs. Num quarto ao fundo de sua residência havia um piano de armário. Nesse aposento estudava sete ou oito horas diariamente. Ele aparecia uma, duas, três vezes para me ouvir a estudar. À noite, após suas aulas, dava-me a aula particular que durava uma hora ou mais. Minhas refeições se davam em sua casa, quatro ou cinco vezes por dia, pois Krause não me achava forte suficientemente. Decidiu que deveria comer mais. Caminhávamos também, de meia a uma hora, todos os dias”. Talento descomunal e orientação de um dos grandes mestres da arte pianística corroboraram a edificação de Claudio Arrau.

Após a morte de seu professor Martin Krause, que igualmente agendava suas apresentações públicas, Claudio Arrau entrou em depressão. Frise-se que durante quase 50 anos teve no Dr. Abrahanson o psicanalista competente. Alain Lompech comenta sobre uma Escola pianística à qual o artista chileno estaria filiado: “A nenhuma, senão à sua própria escola, técnica forjada por Krause em função da música abordada, superada por Arrau sobre o divã do psicanalista para desatar as tensões psicológicas que entravavam o percurso de um artista único em seu século” (“Les grands pianistes du XXème” (Paris, Buchet-Chastel, 2012).

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Carl Maria von Weber, Perpetuum mobile:

https://www.youtube.com/watch?v=hR2ZVQWFD_Q

Saliento que meu saudoso professor, o notável José Kliass (1895-1970), russo de origem judaica, igualmente estudou com Martin Krause. Contava-nos a metodologia competentíssima, mas severa, do famoso mestre. Quando Arrau vinha a São Paulo, Kliass o recebia.

Considere-se que, ainda jovem, Claudio Arrau já executava algumas integrais, fato raro encontrado entre alguns fenômenos possuidores de memórias extraordinárias. Apenas para menção, em 1933-34 apresenta no México, em quinze semanas, quinze recitais diferentes. Na mesma década, em doze recitais interpretou a integral de J.S. Bach para teclado, excluindo as obras para órgão, assim como as 32 Sonatas de Beethoven. Era intérprete da integral das Sonatas de Mozart e de ciclos extensos de Schubert, Chopin, Liszt, Schumann, Weber, Brahms, Debussy e Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, as 32 Variações de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=sjcYxTASL1E

Uma das características em suas apresentações era o rigor e o respeito às mensagens contidas nas partituras. Não transigia e essa qualidade foi, erroneamente, interpretada como impessoalidade, o que não traduz a imensa autoridade nas execuções de Claudio Arrau. Poderia acrescentar, como aliás já o fiz em tantos blogs, que o guia mais autêntico para um jovem, ou mesmo adulto pianista, é aquele que exclui o livre arbítrio. Claudio Arrau jamais foi um pianista impessoal, imprimia sua interpretação com maestria e ideias claras, apenas não buscava o efeito fácil e os holofotes.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Chopin, Estudo op. 10 nº 1:

https://www.youtube.com/watch?v=l-QledBNLdM

Daniel Barenboim tem posicionamento claro ao falar sobre Claudio Arrau: “Creio que os pianistas de antanho podiam ler melhor uma partitura se comparados com os atuais, pois não se conformavam em ver o ‘p’ de piano ou o ‘c’ de crescendo. Na realidade, ‘p’ [baixa intensidade] em relação ao que vem antes ou depois no discurso musical? Isso não aparece na partitura, está na área da criação musical. Tinha-se todo um fenômeno musical para qualquer pianista, não importando sua origem ou escola. Para eles a Bíblia era o som, não o papel impresso”.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Franz Liszt, Un Sospiro:

https://www.youtube.com/watch?v=S_bVk3RMPyk

Nas conversas com Joseph Horowitz, Arrau, que tantas vezes fez questionamentos sobre vida e arte, chegara à conclusão na meia idade de que o gesto não era o essencial para agradar ao público. Restringiu-o ao máximo, a considerar que a Música era o princípio único a ser seguido. Em blog recente considerei a posição de Sviatoslav Richter, que preferia tocar nas salas basicamente só com iluminação mínima para ele e o piano, pois o público ia ao teatro para ouvi-lo e não para ver seus gestos e suas mãos. Outros tempos, diversos do atual da grande mídia, das câmeras a focalizar trejeitos e vestimentas tantas vezes bem ousadas. Civilização do espetáculo.

Nos depoimentos a Joseph Horowitz, Arrau também fala a respeito do medo do palco. Ele existe em maior ou menor grau. Tinha agendado, para récitas em Nova York, a integral das Sonatas de Mozart. Ligaria para o empresário, após ensaios em sua residência, a dizer para retirar uma das Sonatas. Ao estudar e executá-las na íntegra, sem público, repentinamente uma frase de outra Sonata teria entrado naquela que estava a executar. Dando prosseguimento aos seus estudos, o mesmo ocorreu com outra Sonata, o que o motivou a ligar ao empresário para cancelar as apresentações. Frise-se que Mozart, em suas Sonatas e Concertos, apresenta tantas vezes “fórmulas” que muito se assemelham, fazendo parte de seu extraordinário idiomático.

Essa “Bíblia do som”, de que nos fala Barenboim, foi seguida à risca durante toda a trajetória de Claudio Arrau, que nos longos depoimentos atribuiria à vaidade um dos males pelo qual o intérprete pode ser acometido. O piloto-escritor Saint-Exupéry já não professava que a vaidade não é um vício, mas sim uma doença?

A modéstia e o comprometimento pleno com a essência essencial da Música são relatados por Alain Lampech. Ao encontrar-se em Paris com Claudio Arrau, próximo dos 90 anos, este lhe pediu para marcar uma visita ao notável pianista francês Vlado Perlemuter (1904-2002), pois queria trabalhar as peças de Miroirs, de Ravel, para gravá-las: “Ouvira seu confrade executá-las em Londres, e aquela apresentação foi para ele uma revelação. Arrau pensava que ninguém compreendia essas obras como Perlemuter e ele gostaria de tocá-las para ele”.

Insere-se Arrau no seleto panteão dos grandes pianistas de antanho. Reverenciá-los é ter a consciência de que a chama da cultura erudita, da arte interpretativa dos grandes mestres do passado não pode ser extinta. Tem de ser mantida acesa.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, o final do terceiro movimento da Sonata Appassionata de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=LOeCaiu8Yok

The Chilean-born pianist Claudio Arrau (1903-1991) has been considered one of the keyboard giants of the last century. A child prodigy, at the age of ten he moved to German on a Chilean government grant to study under the musical tutelage of Martin Krause, former student of Franz Liszt, and his genius bloomed under this great teacher. A legend in his own lifetime, despite his remarkable gift Arrau was devoid of personal vanity, preaching austerity, fidelity to the score and refined emotion, without exaggerated gestures. A name to be placed in the pantheon of great masters of the past, helping keep the flame of classical music alight.