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O blog como respiração

Se a inspiração quiser aparecer, sabe perfeitamente onde há-de me encontrar.
Maurice Ravel

Temos sempre de relativizar cifras. Se considerarmos a música de concerto, clássica ou erudita, espetáculos podem lotar salas e teatros de 1.500 lugares, quiçá 2.000. Um Rock in Rio leva 100.000 pessoas ou muitíssimo mais. Neste caso, música ou associação de tantas parafernálias? A realidade, contudo, é clara. Há blogs que conseguem milhões de acessos diários. Política, esporte, frivolidades têm espaços garantidos nas mentes de legiões. Também transparente realidade.

Após dez anos e seis meses de blogs hebdomadários, que jamais tiveram interrupção, publicados sempre no quinto minuto do sábado, não posso negar estar imbuído de surda alegria. Dos 50 acessos semanais no longínquo mês de Março de 2007 aos 4.000 presentes, foi um crescer a conta-gotas que em nenhum momento alterou meu prazer de escrever. Remonta à juventude esse “instinto”, desde os textos publicados em “O Arauto” do Liceu Pasteur, onde estudava. O grande escritor e poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) já tecera metáfora ao afirmar que escrevia “pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica”. No meu modesto caso é a respiração, fatalidade orgânica que não precisa de estímulo, ela existe tão somente. A não interrupção, graças às musas que jamais me abandonaram, é decorrência da certeza de que essas figuras etéreas e inspiradoras conhecem a hora determinada onde me encontrar, de madrugada diante do computador. Valho-me de Ravel. E as musas chegam na invisibilidade de suas silhuetas decantadas em prosa e verso e grafadas desde a Antiguidade. Sinto-as presentes, pois o fluxo narrativo jorra de imediato, não sem premeditação. Respirar não pede férias.

Em mais de um blog escrevi sobre respiração e pensamento. Retorno às origens. À mente sempre surgem as ideias para o blog durante treinamentos para as corridas de rua. Vontade, determinação, disciplina, concentração, alegria… Talvez sejam muitas as outras razões. Não seria a respiração cadenciada que me remete ao ritmo e ao atavismo musical? Se o olhar e a audição captam o entorno com atenção, a mente viaja amparada pelas passadas ritmadas. Nas corridas oficiais de rua ignoro temas do blog, pois outras são as atenções, ficando alerta a todo corredor que me ultrapassa, mas também, em menor número, aos que ultrapasso. Bloqueio o nascimento das ideias. Não obstante, solitário no primeiro treino pós blog publicado, naturalmente desce um tema. Organizo-o e nele não mais penso. No treino seguinte retomo-o e estabeleço até a posição dos parágrafos na mente, momento em que uma nova configuração toma vulto. Na primeira madrugada, o post desce inteiramente sem qualquer esforço. Uma breve leitura e transmito-o à nossa vizinha e amiga, Regina Maria. Descobrirá incorreções que o jato da escrita não impede que aconteçam. Na noite seguinte, ao montá-lo com as imagens pertinentes, leio para a minha Regina. Como faz diariamente, chega serenamente enquanto digito, trazendo-me capucino durante o dia e uma maçã, noite avançada. Tem ela, muitas vezes, uma observação que me escapou. Texto publicado, a amiga e professora Jenny Aisenberg, com olhar de lince, comenta o blog semanal e, por vezes, ainda encontrará alguma incorreção. Assessorando-me pois, as musas etéreas e as presentes. O nosso maior compositor romântico, Henrique Oswald, já profetizava que o pior revisor é o autor e se considerava, nessa tarefa, o pior deles. Sigo a rotina da escrita. Tem ela seus encantos. O acúmulo das décadas nos torna ainda mais rotineiros.

Preferencialmente  privilegio a Música, e aproprio-me do título do livro em homenagem ao poeta e crítico português José Gomes Ferreira (1900-1985), “Música minha antiga companheira desde os ouvidos da infância” (diário e poemas). A seguir, o cotidiano, mais pelo ato presencial, pois nada mais somos do que “observadores peregrinos”, no dizer do filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986), que tem lá suas razões ao apontar essa presença volátil do humano sobre a Terra. E vem a literatura, diria, ligação também amorosa. De Março de 2007 até o presente já foram mais de 180 livros resenhados (vide menu: Livros – Resenhas e Comentários, lista). Nesse quesito, se a música está presente, apaixona-me a literatura voltada ao desafio, às aventuras intrépidas e as narrativas de ação, mormente se o autor tiver talento. Sylvain Tesson, o andarilho francês, autonomeado vagabond (trata-se de outro conceito que não o de nossa língua), faz parte de tantos debruçamentos que me impeliram a resenhar seus livros. Portanto, o item “Impressões de Viagens”, também constante no menu, revela admiração inconteste pelas andanças no planeta, apesar de não serem as minhas revestidas de periculosidade, tampouco de intrepidez. Todavia, todas voltadas às atividades musicais, mas que sempre propiciam espaço para a observação.

Em vários blogs comemorativos mencionei a opção pela não inclusão de qualquer propaganda em meu blog. É possível que tal atitude decorra da total idiossincrasia que tenho pela sanha publicitária que desrespeita o momento do leitor, que obviamente é a leitura. Este, ao buscar um texto nos portais, é assaltado por infinidade de anúncios de toda sorte. A leitura é constantemente interrompida para que o visitante passe a deletar ao alto uma propaganda imensa, dos lados uma quantidade de outras que, em poucos segundos, são substituídas por outras mais. No centro, a reinar, um áudio qualquer precedido por outra longa publicidade. Ao ler textos na busca de noticiários ou artigos, geralmente plenos de erros gramaticais, o mouse “passeia”, a eliminar essa invasão publicitária, cujo teor sequer tem interesse. Seria esse um teste elementar para a eliminação de inimigos nesses jogos internéticos idiotizados tão em moda? Esse absoluto desrespeito tem se acelerado. Não poderia ser essa atitude, hoje “normatizada”, uma das nítidas tendências à distração do leitor, pois tudo passa a ser efêmero e a concentração se estiola. Sistematicamente perdem-se dados preciosos da Cultura: observação criteriosa, reflexão, assimilação, o gosto pela literatura cuidada e pela Música qualitativa.

Duas figuras não poderiam deixar de estar presentes nessa surda alegria, Magnus Bardela e François Servenière. Não fosse Magnus, possivelmente jamais teria a ideia de ter um blog. Já relatei várias vezes o fato de que o amigo certo dia me questionou a respeito de provável feitura de um blog. Hesitei no início, mas Magnus montou meu blog no dia 2 de Março de 2007, sem que na realidade soubesse eu de sua intenção, e me disse sorrindo: “Agora é só começar”. Ainda hoje, quando tenho algum problema técnico banal com meu blog, socorro-me junto a Magnus que, quase sempre, de sua morada soluciona essas dúvidas.  Confesso que nos meus 79 anos não mais tenho disposição para acompanhar a mutação “genética” constante da tecnologia. François Servenière, pensador e compositor de imenso talento, desde 2011 participa ativamente de meu blog. Seus comentários inteligentes, de um verdadeiro pensador, passeiam pelos mais variados temas que vão sendo publicados semanalmente. Não há uma só semana em que não me escreva, a comentar o novo blog. Quantos não foram os Ecos publicados após post que particularmente o interessou, com respostas reflexivas extraordinárias. Um autêntico partner.

Mencionaria por último Luca Vitali (1940-2013), imenso artista plástico e designer que faz parte de meu universo de afetos. Quantos não foram os posts por ele ilustrados. Sinto saudades das leituras que fazia ao meu saudoso amigo, artista absoluto que captava minha intenção e, sem que eu pedisse, um ou dois dias após me enviava um desenho singular. Almoçávamos todas as terças-feiras no mesmo lugar. Sua morte repentina, em Abril de 2013, fez-me durante alguns meses ter a sensação de que ele iria chegar para o almoço a sorrir, trazendo consigo suas ideias pictóricas destinadas a seus magníficos desenhos e telas. Luca, Servenière na França e eu formávamos um trio que cultuava as artes sem quaisquer outros interesses. Servenière e eu prosseguimos, e a concretização sonora da Série Cósmica de Luca seria traduzida na composição dos Études Cosmiques para piano, que tive a alegria de interpretar e gravar (selo francês ESOLEM, 2017).

Música, literatura e corridas preenchem meu cotidiano. Juntam-se às outras e decisivas dádivas, família e amigos. Meu profundo agradecimento ao leitor que me tem acompanhado nesse caminhar. Quantos não são aqueles que semanalmente, através do e-mail, enviam-me palavras de estímulo. Esse apoio faz bem e continuarei a escrever. Até quando…

This week my blog reached 1.000.000 visitors, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week and on how proud I am of such a large following. In this post I recall the subjects that are dear to me and the friends that give me support backstage. My thanks for all who helped me reach such a milestone.

 

 


Uma entrevista reveladora

Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estas histórias,
é para te regalar e, se possível  for, comover.
Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo
e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que,
por arder, te deslumbra os sentidos.
Miguel Torga
(Prefácio à segunda edição de “Novos Contos da Montanha”)

É bem difícil a exposição por inteiro de um artista que vive sem concessões às suas convicções mais profundas. Na área da composição musical, a não concessão aos ditames da moda  pode acarretar uma série de obstáculos, a influir positiva ou negativamente na criação. Uns criam no recolhimento, a esperar que o post mortem vanglorie suas obras – lembremo-nos de Arthur Honegger, que profetizava que a primeira qualidade de um compositor é estar morto -, outros perdem o estímulo. Os que sobrevivem, com galhardia singram mares tranquilos.

Na correspondência que mantenho com o notável compositor português Eurico Carrapatoso, solicitei ao amigo a entrevista que concedera em 2014 para o flautista Paulo Ferreira, aluno da ESPROARTE – Escola Profissional de Arte de Mirandela, e que foi integrada na sua monografia de final de curso sobre vida e obra de Carrapatoso. Falara-me desse trabalho acadêmico tempos atrás, mas escrevi-lhe a solicitar a íntegra. Na entrevista, Carrapatoso revela-se por inteiro e suas convicções sobre tendências atuais são expressas sem quaisquer receios quanto à recepção pelos contrários. Recebi-a dias atrás. Pedi-lhe autorização para divulgá-la junto aos meus leitores e fui prontamente atendido: “Como tal, é um texto originado em contexto acadêmico, desvinculado, que o meu bom amigo poderá usar no todo ou em parte, consoante a sua conveniência”. Apenas como lembrete, muitas de suas posições estão próximas das reflexões, constantemente presentes no blog, expressas pelo compositor e pensador francês François Servenière. Sob outra égide, o leitor poderá degustar o belo tratamento da língua portuguesa, com a singularidade de Trás-os-Montes.

(Paulo Ferreira) Quando surgiu o seu gosto pela composição?

(Eurico Carrapatoso) Foi depois de integrar o Coral de Letras da Universidade do Porto, em 1982. Senti um forte entusiasmo pela música de Fernando Lopes-Graça que estava a ser ensaiada. Houve um dia em que me senti compelido a verter no papel uma ideia musical. Começou aí. Foi na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto que senti pela primeira vez essa pulsão de inventar música. Foi aí também que, ensaiando o meu voo inicial na escrita de uma singela ideia coral, perdi a minha inocência musical.

Acha que as suas origens transmontanas influenciaram a sua carreira musical? E de que forma?

Sou de matriz rural. Nasci e cresci em Alvites. Recebi uma educação tradicional, no paradigma “Portugal velho” que meus pais tão bem me significaram. Desde cedo que esses valores de honestidade e de carácter enxuto, que são matriciais nos ritmos de vida do campo, se entranharam, acabando necessariamente por condicionar a minha própria mundividência. Por outro lado, o contacto diário com a paisagem transmontana, bela e austera ao mesmo tempo, tão bem cantada na poesia de Miguel Torga, ensinou-me os mistérios do tempo-longo, um dos valores que mais prezo, antídoto precioso com que fui vacinado em garoto e que me deixou incólume ao tempo-curto e manhoso da vida urbana em que vivo desde as minhas universidades. A minha música significa, desde logo, toda a minha aculturação nordestina (entenda-se transmontana, obs. JEM).

O curso em História teve de alguma forma influência nos temas das suas composições?

Com certeza. A nossa existência é como uma rocha sedimentar. Reconhecem-se-lhe as várias camadas. Se fizesse um corte transversal para colher uma amostra geológica da minha vida, lá estaria bem patente a camada universitária, com claros vestígios de felicidade e de vibrante entusiasmo. A História é, tanto mais, um pêndulo maravilhoso que me ensinou que há dois tempos fundamentais na acção humana: o tempo estrutural (tempo-longo) e o tempo conjuntural (tempo-curto). E ensinou-me a ter uma perspectiva desapaixonada das coisas, a pôr o açaime no modernismo feroz que está a ladrar de castigo desde os anos 50 do século XX, na estéril tentativa de apontar os caminhos da composição, cristalizados no cânone serial segundo os ditames de Darmstadt e do IRCAM. Esta música-poder, que entrou claramente num beco sem saída, e que nos é insistentemente impingida como o fio condutor da história e da estética, é, afinal, mais um maneirismo da história da música, ao qual se seguirá um período clássico cujos contornos, hoje, cada vez mais adivinhamos. Ainda a propósito do cânone serial, cristalizado em música-poder, e que nos é impingido no primeiro campeonato do circuito dos concertos, assisti recentemente a uma ópera de Luca Francesconi na Gulbenkian (“Quartett”), uma produção caríssima, realizada com todos os meios, com luxo asiático mesmo, exsudando gastos sumptuários. A música insistiu durante uma hora e meia nos lugares-comuns dos anos 50. Uma música que parou no tempo. Não diria que é uma música morta. Pior do que isso: é uma música entubada, em estado vegetativo. E foi de tal forma poderosa nos anos 50 e 60 do século XX que adquiriu um seguro de vida que a mantém nesse estado vegetativo até hoje, no 2º decénio do século XXI. Na sequência desta metáfora, o palco da Gulbenkian mais parecia uma sala de operações sofisticada de um hospital de luxo: lá estava o cirurgião-mor com os eléctrodos nas mãos a dizer “CLEAR!”, para fazer mais uma desfibrilação a esta música moribunda. E o coração lá bombou mais uma hora e meia, tendo seguido aquela produção entubada para outro auditório de luxo em Londres, no 1º campeonato do circuito arrepiante desta música-poder, qual temática transilvana.

O facto de ter nascido e visitar frequentemente Trás-os-Montes influencia as suas obras?

Sim. Volto a Trás-os-Montes, à fonte, sempre que posso. Não há água mais saborosa. Não há ar mais puro. E todas as vaidades se dissipam perante a queda a pique sobre o Douro, no Penedo Durão, ali, ao pé de Freixo de Espada à Cinta. A escala colossal do precipício reduz-nos à nossa insignificância. É uma grande lição de humildade.

Enquanto compositor, foi influenciado pelo trabalho de algum nome da música, em particular?

Sim, principalmente pelo exemplo dos compositores que estiveram mais preocupados em escrever música do que em escrever a sua história. A minha principal inspiração, como seria de esperar, vem dos compositores que foram ao arrepio da moda do seu tempo e, por isso, considerados conservadores. Citando dois, entre outros, verdadeiramente importantes: Bach, que mandou a moda da ópera italiana para a casota, e Poulenc, que respondeu à matilha serial com a sua maravilhosa música solar, das músicas mais olímpicas alguma vez escritas, zurzindo o lombo à canzoada com o ferro contundente da beleza.

As suas obras deixam-se influenciar por outras artes, como a pintura, poesia, literatura? Como é essa influência?

Sim. Sou sensível às outras formas de expressão artística. E tenho mesmo algumas peças que partiram de obras muito concretas: “Stigmata”, para violeta e arcos, é uma obra “après une lecture” do quadro de El Greco “O êxtase de São Francisco”; ou a mini-ópera “Marcha fúnebre para o rei Luís II da Baviera”, sobre texto extraído do “Livro do desassossego” de Bernardo Soares; ou a minha obra dilecta, “Magnificat em talha dourada”, inspirada directamente no espaço mágico da Igreja de São Roque, em Lisboa, onde pregou Padre António Vieira e onde o tempo pára; ou, mais recentemente, a “Arca do Tesouro”, sobre o conto de Alice Vieira e o “Pequeno poemário de Pessanha”, sobre poemas extraídos de “Clepsidra”, do grande poeta transmontano Camilo Pessanha, natural do concelho de Mirandela tal como eu, glória maior da poesia simbolista.

Qual é o género de composição que gosta mais de trabalhar?

A matriz essencial à qual regresso sempre, principalmente quando estou desassossegado, é a música coral a-cappella, na pureza das suas quatro linhas. Ali, estamos por nossa conta: uma mão à frente e outra atrás, nus, sem ornamentos, sem os paramentos da vaidade.

De todas as suas composições, há alguma que tenha sido inspirada na sua infância? Qual? De que forma?

Toda a minha obra foi buscar fundo no poço da minha memória dos tempos da infância passada em Alvites: terra de vista ampla sobre a serra de Bornes, Montemel, como era antigamente nomeada. O tempo tinha naquela altura um mamar doce, ao sabor das estações. Vinha o Verão com a canícula, as searas malhadas e onduladas ao vento, a cria envolta em moscas. Vinha o Outono e a sua luz imaculada, por magoados fins de dia. Vinha o Inverno mais a geada, o nevoeiro e as sementeiras a despontar. Vinha a Primavera e o rouxinol, e crescia o cabelo aos freixos e aos negrilhos. Voltava o verão com a canícula, as searas malhadas e onduladas ao vento, a cria envolta em moscas. Tudo isto, toda esta linfa cíclica que banhou a minha infância, desfila na minha música, vertida na matéria incorpórea dos sons.

Como compositor foi alvo de vários prémios. A qual dá mais relevância?

O reconhecimento público daquilo que fazemos é uma experiência grata. Por isso, todos os prémios têm a sua importância, na medida em que são um estímulo a continuar o caminho da nossa autodescoberta, na defesa das nossas convicções.

Poder-nos-ia falar um pouco do seu processo composicional?

Respondo com três citações: uma de Somerset Maugham que afirmou “Before writing, you must square out your paper and you must take measurements”; outra de Picasso: “Primeiro acho. Depois procuro”; finalmente, a resposta de Ravel à mesmíssima questão: “Estou à mesa de trabalho entre as 9:00 e as 12:30. Almoço. Volto à mesa de trabalho, onde estou entre as 14:30 e as 18:30. Se a inspiração quiser aparecer, sabe perfeitamente onde me há-de encontrar”

Muitas são as orquestras nacionais e internacionais que interpretaram as suas obras. Como se sente ao ver o seu trabalho apreciado e divulgado?

A obra musical precisa de um intermediário para acontecer, ao contrário do “David” de Miguel Ângelo ou do quadro “A Virgem dos Rochedos” de Leonardo, obras prontas a serem  fruídas sem mais intermediários. Esta dependência da música da interpretação é uma doce fatalidade, uma montanha russa de emoções, para o bem e para o mal. Para o mal, se a nossa ideia não está bem defendida. Para o bem, se a ideia está lá, conduzindo-nos tantas vezes à plenitude, numa experiência de doce comunhão, sempre que os intérpretes conseguem elevar o texto musical à quintessência. Nestes casos, a obra construída deixa de ser apenas minha. Pertence-lhes também.

Qual é o efeito que espera provocar nas pessoas quando ouvem a sua obra?

O leque da experiência humana: da comoção ao humor, do sacro ao profano, de Eros a Thanatos. E espero, fundamentalmente, libertar o ouvinte do ritual iniciático da exegese do texto musical, quase sempre de mão dada com a irritante bula explicativa distribuída à entrada dos concertos, que nos instrui sobre a forma de montar a obra na nossa cabeça. Insistir nisto? Era o que mais faltava. A arte é para todos. A simples ideia mimada e burguesa de escrever música para um grupo de elite, um público de meia dúzia de happy few entendidos, sempre me causou vómitos.

Tive a honra de interpretar duas obras do mais alto nível musical e interpretativo de Eurico Carrapatoso. As “Six Histoires d’enfants pour amuser un artiste” (sobre poesia de Violeta Figueiredo), apresentadas em 1ª audição do dia 03/11/2011 em Coimbra, e a “Missa sem Palavras – cinco Estudos Litúrgicos -”, interpretada também em 1ª audição em Gent, na Bélgica (04/05/2015) e constante do CD “Éthers de l’Infini”, lançado neste ano pelo selo francês ESOLEM.

This post is the full transcription of an interview given by the outstanding Portuguese composer Eurico Carrapatoso, part of a monograph on Carrapatoso’s works written by flutist Paulo Ferrero. The composer addresses issues of general interest, such as his sources of inspiration, influences that underlay his musical creation, his views on serial music, the recognition of his accomplishments as a composer in Portugal and abroad.

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Comunico ao leitor que em Outubro estarei na UNIBES CULTURAL, em São Paulo, para uma série de palestras com temática inédita: “O intérprete frente à gravação”. Abordarei temas como: preparação de repertório, escolha do local ideal para a gravação, qualidade do piano e competência absoluta do engenheiro de som, após 22 anos de gravações e 23 CDs gravados na Bulgária, Portugal e principalmente na Bélgica. Faixas dos CDs serão ouvidas e fatos pertinentes relatados. As palestras (09, 16 e 23/10, das 19 às 22hs) são direcionadas para músicos, jovens intérpretes que almejam gravar e público que frequenta concertos e atividades afins. No dia, 31/10, apresentarei recital para o público em geral. No programa, obras de Johann Kuhnau, Willy Corrêa de Oliveira, Gilberto Mendes, François Servenière, P.I.Tchaikovsky e A.Scriabine. As inscrições poderão ser feitas através do site http://unibescultural.org.br/cursos/viva-a-cidade/interprete-frente-gravacao/710

 

 

Uma vida dedicada à Música

A íntima união da oração e da arte,
da melodia e da palavra que canta por si própria,
ou da melodia que canta sem palavras
prolongando para além dela o que a palavra não pode dizer…
tudo é oração e arte,
a qual mais encanta, prende e eleva,
quanto mais perfeita a técnica em que se baseia a sua interpretação.
Júlia d’Almendra

O recente livro do organista Domingos Peixoto, “Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” (Lisboa, By the Book, 2017), presta tributo a uma das mais expressivas figuras da música portuguesa no século XX, Júlia d’Almendra (1904-1992). A presente obra tem preciosas colaborações de Idalete Giga (coordenação da obra) e de Mariana Rosa (coordenação de textos e recolha iconográfica). Em blog bem anterior busquei traçar um pouco do perfil musical e humano da notável gregorianista (vide “Júlia d’Almendra – Uma existência a cultuar a Música”, 19/01/2013).

Domingos Peixoto, professor e organista, realizou trabalho investigativo de imenso valor ao revelar de maneira expressiva parte do grande contributo de Júlia d’Almendra para a Música Portuguesa, mormente nos aspectos essenciais voltados ao canto gregoriano, à pedagogia específica e ao sensível impulso que propiciou à expansão do ensino de órgão em Portugal.

Sabiamente, ao dividir o livro em dez capítulos Domingos Peixoto não deixa de historiar o ensino e a prática organística em Portugal na primeira metade do século XX. Pormenoriza a importância do Conservatório Nacional (Lisboa), instituição na qual seria professor titular de órgão, evidenciando o papel do estabelecimento no cenário português. Mostra-se figura plenamente capacitada para o intento a que se propôs.

O autor, ao definir Júlia d’Almendra como personalidade maior numa verdadeira cruzada, a fim de legar ao país o que havia de mais sedimentado e hodierno em torno do órgão instrumento, comprova o esmero e cuidado da gregorianista no sentido de cercar-se de intérpretes e professores europeus, mormente os da Escola Francesa, promovendo uma verdadeira e profícua “revolução” no que tange à importância do órgão na música sacra. Como consequência, a didática aplicada ao instrumento, a formação de inúmeros organistas e a difusão por todo Portugal da criação específica. Peixoto salienta igualmente a dedicação de Júlia d’Almendra e seu empenho extremado para que nada pudesse impedir esse desenvolvimento.

Ao longo de mais de dez anos de blogs ininterruptos, tenho salientado a importância fundamental da viagem para um jovem que pretenda estudar música em país que preserva tradições e que mantém na excelência o ensino criterioso e a prática interpretativa. É mais fácil para um jovem que estagia por bom período sorver a cultura de um povo. Poderá, ao regressar, tornar-se um “embaixador” cultural do país que o abrigou para aperfeiçoamento. Mais difícil essa “prática diplomática” para um denominado jovem na idade madura, que se desloca além fronteiras para trabalhos acadêmicos, mas impregnado por fatores vários de seu país de origem, que se tornam “amarras” para  a absorção mais harmoniosa.

Júlia d’Almendra, nascida em Tráz-os-Montes (Samões-Vila Flôr), pertencia a uma família que cultuava valores voltados à tradição. Pai e irmão prestaram relevantes serviços ao país. Quando viaja para a França, a fim de aperfeiçoamento junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fá-lo já a antever a plena atuação vocacionada à música sacra, mais especificamente ao canto gregoriano. Não por acaso, defende com brilhantismo sua tese orientada pelo notável Henri Potiron, em Paris, a versar sobre a figura máxima da música francesa, Claude Debussy, encontrando ecos dos cantos gregorianos, conscientes ou não, na obra debussysta. Exemplos demonstrados por Júlia d’Almendra testemunham essa apreensão por parte de Debussy (d’Almendra, Júlia. Les modes Grégoriens dans l’oeuvre de Claude Debussy. Paris: Gabriel Enault, 1950).

Domingos Peixoto presta uma inestimável colaboração no sentido de dignificar Júlia d’Almendra, infelizmente não reconhecida como deveria ser em seu país, apesar do hercúleo empenho de sua ex-discípula e excelente gregorianista Idalete Giga. Revela-nos Domingos Peixoto aspectos marcantes nesse leque aberto por Júlia d’Almendra. Entre esses: a sua atuação como administradora, a intensa campanha voltada à divulgação competente da prática organística, a sensível qualidade na escolha dos professores que deveriam atuar nos estabelecimentos por ela criados, o Centro de Estudos Gregorianos (1953), sob o patrocínio do Instituto de Alta Cultura e o posterior Instituto Gregoriano de Lisboa (1976). Consideremos outros aspectos mais que não pertencem ao tema do livro, como o fato de ter introduzido em Portugal o Método Ward (criado por Justine Ward 1879-1975), ter criado a Semana de Canto Gregoriano em 1950, que durante muitos anos realizou-se em Fátima e hoje, em sua 66ª edição, acontece em Viseu sob a direção de Idalete Giga; a criação da revista “Canto Gregoriano”, da qual foi diretora e articulista de mérito, a corroborar a divulgação da música sacra.

Uma das grandes virtudes do livro em apreço terá sido o resultado de intensa pesquisa, a abordar Júlia d’Almendra como criadora das instituições mencionadas, decorrência da acolhida ascendente das Semanas Gregorianas na formação de cantores e regentes corais a partir de 1950. É louvável o empenho de Júlia d’Almendra na organização do Centro Gregoriano de Lisboa, na elaboração curricular e na busca sem trégua dos nomes basilares em cada área do conhecimento específico. Quando faço referência ao fato de um músico, após estágio sedimentado em países onde a cultura erudita é tradição, regressar à sua terra e se tornar um “embaixador” do país que o abrigou, tenho em mente, como exemplo transparente, Júlia d’Almendra. O estágio em França, para  elaboração de tese junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fê-la admiradora inconteste da cultura musical francesa. Entre as principais escolas organísticas na Europa prepondera a francesa, a marcar decididamente escolhas que d’Almendra faria no futuro como dirigente em Portugal. Professores do Instituto Gregoriano de Paris, do Conservatório Nacional Superior de Paris, da Universidade Sorbonne e da Escola César Franck compuseram o corpo docente do Centro Gregoriano de Lisboa, e mais tarde, do Instituto Gregoriano de Lisboa. Os nomes referenciais em França estiveram em terras lusíadas para apresentações ou permanências mais ou menos longas para cursos específicos. Peixoto enumera-os criteriosamente, a evidenciar contributos individuais marcantes, que corroboraram a edificação de uma escola organística portuguesa. Alguns desses nomes respeitáveis, tantas vezes presentes para regerem cursos durante as Semanas Gregorianas, merecem citação. Primeiramente Édouard Souberbielle (1899-1986), um dos grandes organistas de sua época, e Jean Guillou (1930-  ),  extraordinário  organista e compositor, titular emérito da Igreja de Saint-Eustache, em Paris. Estiveram a ministrar aulas e oferecer recitais Claude Bouglon, Michel Jolivet, Arsène Bedois, André Sierkierski (polonês) e titular do órgão de Saint-Médard em Paris, Pierre Doury e Gaston Litaize. Frise-se que Júlia d’Almendra levaria a Lisboa, para aulas de abertura do ano letivo e posteriores cursos, respeitáveis organistas e musicólogos franceses, como Jacques Chailley (1910-1999), que manteria durante décadas amizade profunda com a ilustre gregorianista portuguesa, Auguste Le Guennant  (1881-1972),  Norbert Dufourcq (1904-1990), Geneviève de La Salle (1904-1993),  Edith Weber (1925- ), Claude Terrase (1925-2008), neto do compositor homônimo, Germaine Chagnol (1926-2014), Pierre Gazin, um dos últimos alunos do legendário Marcel Dupré (1886-1971). Contudo, a figura mais marcante e duradoura para a sedimentação definitiva dos ensinamentos da fabulosa escola francesa de órgão foi sem dúvida Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012), que, radicado em Portugal desde 1961, esteve à testa não só dos cursos de órgão como de matérias teóricas (vide blog “Ad Memoriam – Antoine Sibertin Blanc – Um músico na acepção do termo”, 25/03/2017).

Os aprofundamentos de Domingos Peixoto conduzem o leitor às contribuições trazidas por músicos de outros países, mormente da Itália. Júlia d’Almendra receberia uma das maiores honrarias do Vaticano, a Medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”, distinção atribuída pelo Cardeal Montini, futuro Papa Paulo VI, em 1953, pelo empenho de d’Almendra em favor da divulgação da música sacra em Portugal.

Domingos Peixoto, em seu precioso livro, aborda com precisão os programas dos cursos de órgão ofertados pelas entidades dirigidas por Júlia d’Almendra no decorrer das décadas e posteriormente debruça-se sobre o órgão que a gregorianista mantinha em sua morada à Rua d’Alegria, 25, 1º andar. Vai às origens do projeto, à difícil adaptação no apartamento, qualidades e problemas do instrumento e seu destino final.

“Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” é livro obrigatório para todos que buscarem o conhecimento maior do ensino e da divulgação do órgão em Portugal na segunda metade do século XX. Gerações são tributárias do esforço maiúsculo de Júlia d’Almendra.

A título final,  diria que cheguei a interpretar  alguns corais e Prelúdios e Fugas de Bach no órgão existente na residência de Júlia d’Almendra, pois durante dez anos ficava sempre hospedado em sua morada, quando de meus recitais em Portugal. O instrumento já apresentava problemas que foram se acentuando, mas Júlia ouvia a sorrir essas obras excelsas. Nossa amizade, que se iniciou em torno de Claude Debussy – Júlia prefaciaria meu livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982) -  prolongar-se-ia até os últimos dias da notável gregorianista (1992). No Centro de Estudos Gregorianos apresentei-me sempre a tocar obras de Debussy, Estudos (integral), suítes, peças avulsas e La Boîte à Joujoux. Presente aos recitais, o notável organista Antoine Sibertin-Blanc, o ilustre crítico Humberto d’Ávila e Idalete Giga. Nosso relacionamento, na época das cartas manuscritas e dos correios morosos (ainda o são no Brasil), renderia mais de 40 missivas de Júlia d’Almendra e outras tantas minhas, assim como cartões postais. Chamava-me sempre de irmão em Debussy. Hoje essas cartas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa. Poucos meses antes de sua morte, sabedora de meus aprofundamentos em Debussy, nosso sempre tema para conversas, levou-me à sua rica biblioteca e me ofereceu todos os livros preciosíssimos sobre o mestre francês escritos na primeira metade do século XX, que adquirira durante seus estudos em Paris. Lembro-me sempre da Julinha, assim a tratava, com muitas saudades. Uma figura histórica na cultura musical portuguesa, rigorosamente impecável. Vida inteiramente dedicada à Música, sem quaisquer outros interesses.

This post is an appreciation of the book “Júlia d’Almendra e o Movimento Organístico em Portugal” that has just been released (Lisbon, By the Book, 2017). Written by organist Domingos Peixoto, it pays tribute to Júlia d’Almendra, one of the greatest musical figures of the 20th century in Portugal thanks to her actions to boost the teaching of organ music at her time. Author Domingos Peixoto, piano and organ teacher at the National Conservatory of Lisbon, is up to the task. The book is mandatory reading for those who want to know more about the history of organ music in Portugal in the second half of the last century and about Júlia d’Almendra, expert in Debussy and Gregorian chant, who so far has not received in her country the recognition a professional with her accomplishments would deserve, despite the Herculean efforts of her follower Idalete Giga, current director of the Centro Ward de Lisboa, founded by Júlia d’Almendra.