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O pensamento incisivo e arguto de François Servenière

Os adeptos do academismo formam uma casta de técnicos
para os quais o valor de toda música é avaliada pela complexidade escritural.
Para eles, por exemplo,
o canto gregoriano e a música dos trovadores
são desprovidos de interesse,
pois compreendem  uma só voz, portanto música fácil.
Para eles Bach é um acrobata do contraponto,
Beethoven um trabalhador da forma e Debussy, um hábil harmonista.
André Souris (1899-1970)
(“Conditions de la Musique”)

A epígrafe faz-me lembrar o encontro casual que tive em Londres durante Congresso sobre a obra de Claude Debussy na década de 1990. Um jovem escocês de idade madura, egresso dos bancos universitários e sabedor de meu projeto de Estudos Contemporâneos para piano, ofereceu-me um Estudo. Ao verificar a partitura, constatei que seria impossível tocá-lo, pois havia por vezes quatro pentagramas contendo escrita impossível de ser executada por um só pianista, andamentos desproporcionais, acrobacias sem nexo. Perguntei-lhe se alguma vez compusera uma Fuga. “Trata-se de forma ultrapassada”, respondeu (sic). A pronta resposta inviabilizou sequer um diálogo. Comento o episódio em meu livro publicado em Paris pela Université Sorbonne (“José Eduardo Martins – un pianiste brésilien”, Série Témoignage – 4, 2012).

Epígrafe e breve comentário antecedem as incisivas e argutas observações do compositor e pensador francês François Servenière, dentro de contexto muito próximo do que ocorre atualmente nas Universidades. Desloca-se Servenière da interpretação pianística mencionada no último post e penetra no campo da composição, duas atividades ligadas indissoluvelmente, criação e interpretação, a primeira a cumprir desiderato primordial, a segunda a desempenhar relevante tarefa, difundir sonoramente a composição. Cria-se e preserva-se. Servenière tece reflexões de muito interesse, uma visão diferenciada daquilo que entende como o artista criador. A dimensão de sua mensagem impede-me, hélas, de utilizá-la na íntegra. Portanto, segmentos essenciais apresento ao leitor.

“Eis onde me leva o pensamento após a leitura de seu post nesta manhã. O blog tem como origem a experiência de seu ex-aluno, Maury Buchala, em Paris e desperta muito interesse. A partir dele tenho sugestões, pois você aborda as qualidades necessárias para o jovem que tem de resistir ao entorno competitivo e, como acréscimo, permanecer distante do país de origem. A experiência de Maury é significativa. Todavia, em minha opinião, você baseou sua reflexão e resumiu a análise da realização artística em geral a partir de um polo da arte que o José Eduardo conhece bem, que é o desenvolvimento do intérprete através de sua formação via mestres, principalmente no Exterior.

Separemos nessa análise, a meu ver, o ‘artista intérprete’ e o ‘artista criador’. Basicamente, dois seres que têm poucos pontos em comum no domínio mental. Uma outra observação sobre o artista criador. Creio que não será o estudo das Letras que levará à carreira de escritor. O criador de artes aplicadas, como arquitetura ou escultura, deverá conformar-se com as regras acadêmicas para que suas obras se tornem viáveis, até sob o aspecto da avaliação pública. O pintor terá o reconhecimento de seu valor pelo talento, apesar de não poucas vezes ter passado pela formação acadêmica, curta ou longa, conforme sua disposição. No caso do compositor, o ato criativo resultará do fato de sentir uma força interior que, na realidade, pouco terá a ver com sua formação acadêmica. Estamos falando de algo que está acima ou abaixo de considerações.  Não será o estudo acadêmico que fará um músico escrever música, apesar de, por vezes, o conhecimento ajudar a emancipar seu espírito em direção a alturas insuspeitas. Não obstante, ele deverá seus resultados ao talento, antes de mais nada, e à sua vontade imperiosa de escrever notas e mais notas para atingir objetivos, pois seu espírito foi formatado pelos acervos advindos da família, da curiosidade, do exercício constante, do acaso, da genética… O estudo dos instrumentos, das partituras, a prática escritural, a reprodução dos modelos poderão levar o estudioso à compreensão das técnicas necessárias  e de seu universo, mas jamais lhe darão o talento da escrita. Jamais. Quantos são aqueles que estiveram nas classes de composição? Quantos saíram e mereceram  justo reconhecimento? Uma ínfima, ínfima, ínfima minoria. O real artista criador, que se exprime pelos recursos de seu tempo com todo empenho, encontrará meios e técnicas para manifestar talento e energia, na medida de suas necessidades. Poderá ou não encontrar suas técnicas na Academia. Frise-se que Mozart não fez Conservatório”. Acrescentaria às considerações de Servenière frase de Claude Debussy (1862-1918) ao se referir aos anos da juventude: “O Conservatório é sempre esse lugar sombrio e sujo que nós conhecemos, onde a poeira das más tradições permanece ainda nos dedos” (carta a  André Caplet, 25/11/1909).

Como contraponto, colocaria a posição do professor titular da USP, Gildo Magalhães, que comenta o blog anterior:

“Bela reflexão, com a qualidade que apenas a maturidade pode conferir. Dentro de campo totalmente diverso que foi o meu como engenheiro, pude também apreciar suas palavras, tendo vivido de 1973 a 74 nos EUA e de 1983 a 84 na Alemanha. Tenho, porém, alguma reticência quanto à influência da vida voltada ou não para a academia, embora eu nem pensasse na carreira acadêmica quando morei no exterior. Penso que a falta de imersão cultural no sentido amplo não depende de a carreira ser acadêmica ou não, tendo conhecido muitos ignorantes neste sentido, acadêmicos ou não, assim como grandes cultos que não tinham passado do ensino primário e outros, raros, do ambiente acadêmico”. Professor da História da Ciência na FFLECH-USP, Gildo Magalhães tem conhecimento musical praticando piano quase todos os dias.

Prossegue Servenière: “Quantos não são os grandes artistas que desistiram da Academia a fim de realizar grandes carreiras, muito superiores àquelas que poderiam desempenhar se estivessem ligados aos segredos da escolaridade acadêmica, na realidade um conforto bem perigoso para o espírito livre de um criador. Quantos professores não são, em França e alhures, pretensos grandes artistas criadores, quando se mostram continuadores do pensamento dominante, necessitando reverenciá-lo para continuar recebendo os subsídios da Instituição? No reino do pensamento único, tão típico das instâncias institucionais, há mínima salvação àqueles que buscam quebrar as regras da maioria. Se observarmos a história dos grandes artistas e criadores, os autênticos, em suas épocas romperam regras ditadas pela maioria. Fato histórico inquestionável.

Ao mencionar um verso de Camões, ‘Dos fracos não reza a História’, em post bem precedente, você focaliza os que não atingem básico patamar nesse rolo compressor da vida, que é naturalmente seletivo. Assistimos, nos meios protegidos em detrimento do bom senso, à reprodução de uma aristocracia, uma nomenklatura que vive por si só, cooptando novos escolhidos segundo seus critérios de casta reacionária (na realidade, ultraconservadora), esquecendo-se de que a modernidade é um golpe de vento para o qual as suas ideias estioladas não são outra coisa que fiapos de palha. Permaneceram na história não apenas os nomes consagrados, mas os monges copistas, os instrumentistas que perpetuaram a interpretação, os inventores… Esses personagens, que gravitam em torno de benesses, apelam aos lobistas confortavelmente instalados nos arcanos do poder para que a moderninade ‘aconteça!’. Mas, diga-se, que ela não erradique os subsídios automáticos, que chegam sem outra justificativa a não ser a de assegurar o seu viático até o último dia de uma geração que, como todas aquelas que nada compreenderam dos ares do tempo que passa, acabará esquecida pela história pelo fato de não ter percebido a evolução inexorável e contínua.

Todos os grandes artistas buscaram respostas. Esses notáveis criadores baseiam-se na ciência (básica, assim compreendida), adquirida na Academia ou não, pouco ou mais. Todavia, fizeram a viagem do interior para o exterior, da interioridade em direção a um mundo desconhecido para enfim exprimirem uma nova interioridade, uma nova dimensão. Expiração, inspiração: princípio do acordeão. Majoritariamente de maneira quase exclusiva, buscaram construir novos paradigmas, realidades, percepções, pois os métodos acadêmicos pareciam esclerosados e presos a certezas e normas. Colombo e Galileu quase acabaram nas chamas… Pobre Giordano Bruno, pobre Van Gogh, pobre Baudelaire… Gênios desprezados em suas épocas. ‘O gênio deve ser desprezado em seu tempo’, assim pregaria uma regra celeste”. Acrescentaria frase de Arthur Honegger (1892-1955) a preconizar que “a primeira qualidade de um compositor é estar morto” (“Je suis compositor”, 1951).

Servenière continua suas reflexões críticas: “Todos os maiores artistas da história não escutaram as Academias de suas épocas, mas o bom senso dos povos, seus sentimentos, seus pensamentos e suas aspirações. Em toda a face da Terra, o povo profundo impõe suas normas e seus desideratos. Os artistas maiores sentem o ar do tempo, saem de seus ateliers para sentir a passagem do vento, a sensibilidade do povo, o calor e o frio, o norte e o sul, caminham, correm, pensam e observam (como deve ser feito) a natureza. São seres ‘conscientes da existência’ e ‘imersos na vida’. Não são ‘mortos vivos’ que sofreram perfusão por parte do poder ou da Academia. Os grandes artistas percebem o l’air du temps, seja qual for a linguagem pela qual se exprimem. Os outros, os acadêmicos, os subvencionados, os seguidores, continuam no banal e no convencional, no já feito, no status quo, no imobilismo, aos pés do poder, sob a fonte dos subsídios públicos sem os quais muitos não existiriam. É uma lição que cada artista que se pretende como tal jamais deveria esquecer. Simples, é a história da arte. Não há um grande artista, um grande criador que não tenha sido menosprezado em determinado momento da vida pelas convenções de seu tempo. O artista autêntico tem por vocação destruir as convenções de sua época. É unicamente sob essa égide criteriosa que o povo, tendo conhecimento da celebridade (por vezes póstuma), entenderá a modernidade do artista. Os arcanos, minoritários em suas ‘certezas’, não terão peso face ao reconhecimento público e universal que será atribuído ao artista. As elites não fazem outra coisa que seguir o movimento, sempre com atraso, pois elas são fundamentalmente, diria ontologicamente, clientelistas. Elas seguem o movimento. Raramente são motrizes.

A arte é pois, pela sua única face criativa, a grande reveladora do que é o tempo presente face à história em seu caminho. Será necessário refutar na carreira criativa, sejam quais forem as consequências futuras, os organismos de expressão ligados ao conservadorismo representado pela Academia, a fim de melhor compreender o seu tempo, que será reproduzido na obra” (tradução J.E.M.).

As contundentes posições de François Servenière apreendem muito da realidade existente na Academia (entenda-se Universidade) e, consequentemente, naquilo que denominamos Institutos de Fomento. Mais a tecnologia avança (entenda-se, música também denominada eletroacústica), em menor escala o ensino musical baseado nos pilares da história, como contraponto e harmonia, como exemplos, é preservado na abrangência e profundidade. Minha conversa com o músico escocês mencionada no início do post é exemplo evidente. A quantidade de “laboratórios” musicais de toda ordem nas universidades – termo “chave”, atualmente –  já não seria um exemplo da distorção? Em nossas terras como em França (a partir do exposto por Servenière) haveria essa tendência voltada às benesses advindas das Instituições. Estou a me lembrar de um colega docente não pertencente às humanidades que me disse nos anos 1990 gastar mais tempo realizando relatórios de toda ordem voltados a projetos e posteriores prestações de contas do que no projeto propriamente dito (sic). A verificação dos valores de subsídios ofertados à criação musical fundamentada na eletroacústica ou tendências hodiernas, em comparação a outros destinados às diversas áreas musicais, inclusive de outras tendências da composição, já não mostraria uma constatação apontada por Servenière, mormente por se tratar da “criação” musical? Meu ilustre e saudoso amigo Gildo Soares, professor titular de Direito Internacional da USP, disse-me certa vez, em termos gerais quantos às áreas do conhecimento, que a renovação na Academia se dá de duas maneiras distintas: se o corpo diretivo for competente, buscará suprir vagas com a incorporação de docentes competentes ou ainda mais gabaritados. Ao contrário, se for medíocre, buscará ainda o mais medíocre para que este não faça frente ao status quo. Realidades.

A Academia é rigorosamente necessária. Sempre lamentei, quando integrante da Universidade, a mentalidade existente voltada ao carreirismo e à busca sem tréguas, ininterrupta, por subsídios dos Institutos de Fomento. Quando esses dois fatores ocorrem de maneira sistemática pelos docentes, acredito, todo o mal está feito. E a essência essencial? Não teria o pragmatismo da Universidade espantado a inspiração advinda das musas? Russell Jacoby (“Os Últimos Intelectuais”, São Paulo, Trajetória-Edusp, 1987) observou que o pensar livre fora dos muros da Universidade sofreu um duro revés quando docentes passaram a se preocupar unicamente com as suas carreiras nos campi universitários. Tema para mais reflexões.

Today I post comments received from two faithful readers either convicting or acquitting those who pursue academic jobs in fine arts. The French composer François Servenière draws a line between artist and creator. While the former just carries on the dominant thinking, many times depending on grants from government funding agencies, the latter refuses to ratify academic rules, subverting the conventions of a given moment in time.

 


Vontade e determinação se sobrepondo a temores

Em outros tempos, o país onde eu estava me encantou.
Não obstante, o espetáculo da natureza não é tão bom para os agitados.
A situação apenas reforça minha convicção do vazio e da impotência.
Gustave Flaubert
(“Lettres inédites à Tourgueneff”)

Retornando à pergunta arguta do amigo Rafael sobre a duração da permanência de um músico no Exterior, mas sempre a visar ao aperfeiçoamento, teríamos de considerar fatores que se estendem do genético à inquebrantável determinação consciente. Permanecer, ainda na juventude, fora de seu país não é fácil, mormente se o jovem estiver distante de tudo que possa lembrar a vivência em seu lar. Na juventude da idade madura – expressão utilizada pelo médico e psicanalista Elliot Jaques (1917-2003) – poderíamos considerar como menos turbulento um estágio longo no estrangeiro, principalmente se para aprofundamento acadêmico. Trata-se de ruptura breve ou não, raramente definitiva, pois nessa categoria já há o pressuposto de que raízes foram fincadas no país de origem, como trabalho e formação de nova família.

O caso específico do compositor e regente Maury Buchala é raro. Após finalizar o curso de quatro anos na Universidade de São Paulo sob minha orientação, seguiu para a França aconselhado por mim e lá permanece até hoje, estando a construir edificante carreira. A grande maioria dos jovens músicos que segue para regiões acima do Equador retorna após bolsas findas, necessidade imperiosa ou mesmo por desinteresse em prosseguir vivendo em circunstâncias não tão confortáveis como as do país de origem, mas principalmente pelo fato da imensa concorrência que sofrerá dos músicos nativos. É fato.

De conhecimento público a ida para a Espanha de um famoso jogador de futebol, que inclusive chegou a realizar jogos pela seleção brasileira. Poucos meses após retornou ao Brasil, a dizer que não se acostumou com a comida local, sentindo falta dos preparos culinários de sua progenitora. Tinha qualidades e poderia ter carreira meritória na Europa. Conheci jovens músicos de talento que assim procederam, nem tanto pela gastronomia pátria, mas pelas saudades, tantas vezes o grande empecilho para uma carreira almejada que se pode estiolar.

A certa altura Rafael – morador na minha cidade bairro -, aguçou-me a dizer que deveria mencionar minha história naquele autoexílio necessário para a formação. Confesso que a reflexão sobre esse passado longínquo ainda se dará neste espaço, pois terá de ser compartimentada em episódios que me marcaram. Poderia apenas mencionar fato relacionado à antecipação de meu regresso, após alguns anos em Paris, por motivos absolutamente inusitados que um dia narrarei. Perguntei hesitante à minha lendária mestra Marguerite Long (1874-1966) sobre meu futuro. Segurou-me as mãos e serenamente me disse que não mais precisaria de um guia, pois os ensinamentos transmitidos e apreendidos estavam sedimentados em minha mente. Doravante, segundo Mme Long, só dependeria de denodo, dedicação, disciplina, concentração, ampliação de repertório e muita, mas muita leitura. Fez-me bem e o regresso foi mais esperançoso. Estava para completar 24 anos.

Se considerarmos a permanência no Exterior de um jovem ou de um autoexilado nessa juventude da idade madura, há diferenças sensíveis. No primeiro caso, a influência do país em que deverá permanecer por tempo variável é decisiva. Dificilmente esse jovem deixará de captar profundamente novas culturas, costumes e preferências. Já abordei o tema em posts bem anteriores.  Se para o jovem que permanece tempo apreciável no Exterior marcas inalienáveis ficarão para sempre, tornando-o um “embaixador” cultural do país que o abrigou, basicamente o mesmo não ocorre com aqueles que se dirigem aos países acima do Equador para desenvolver trabalhos acadêmicos. Observei, ao longo de minhas décadas na Universidade, que para esses impressões ficam, mas que a influência será menos intensa, por vezes supérflua e, não raras vezes, tratada pejorativamente, mercê, talvez, daquilo que vulgarmente é entendido como “cabeça feita”. Capta-se a cultura de outros povos, mas a  estrutura mental sofre impactos não tão profundos concernentes àquilo que se está condicionado a ver e sentir. Comprovei-o através de vários testemunhos colhidos.

No campo preciso da Música, o retorno voluntário precoce ao Brasil traz uma série de problemas que poderão influenciar a trajetória futura do jovem. A formação incompleta tem consequências imprevisíveis. Utilizando-me de metáfora, estou a me lembrar de observação expressa no livro referencial de Heinrich Neuhaus (1888-1964), “L’Art du Piano” (Tours, Van de Velde, 1971). Escreve o notável pianista e professor russo sobre observação feita a um aluno: “Imagine que você tenha de ferver água em uma caçarola. Será necessário colocá-la sobre as chamas e não retirá-la antes da fervura. Todavia, você a deixa chegar a uma temperatura de 40 ou 50 graus, mas apaga o lume para fazer outra coisa qualquer. Mais tarde você se lembra da caçarola, acende o fogo novamente, esquecendo-se de que a água teve tempo de esfriar. Você recomeça a operação várias vezes, devido aos afazeres, e enfim se dá conta de que tempo precioso foi perdido”.  O regresso sem a formação adequada desestruturará a análise abalizada de uma partitura para a interpretação final. E todo o equívoco se concretiza. O fogo teria sido apagado prematuramente. Haveria neste caso outra chance de acendê-lo? Essa assertiva tem implicações na mente, pois o intérprete sentir-se-á inseguro, dado o fato de que algo na sua formação foi interrompido por determinada razão. Mais grave se não perceber que isso ocorre, pois consequências de estudos abortados serão sentidas pelo profissional incompleto. Numa ampliação dessa volta precoce, caso dedique-se simultaneamente ao magistério, mesmo que resultados aparentemente satisfatórios surjam, a essência poderá estar maculada. Experts na matéria saberão que lacunas existem. Sob outra égide, grande parte dos que buscam o aperfeiçoamento fora do país esquecem-se da formação cultural. Diria, numa metáfora não muito lisonjeira, que nesse caso é como se o jovem utilizasse viseiras. Interpelei diversos recém saídos da juventude que regressaram prematuramente e que jamais foram a um museu, tampouco exposições e que sequer tinham lido um romance ou relatos históricos e biográficos. Sem contar aqueles que não buscaram outras áreas musicais, como teoria e análise. Podem tornar-se hábeis instrumentistas, o que soa até pejorativamente. Nada a fazer a não ser lamentar.

A depender das circunstâncias, há o momento do regresso. São muitos motivos a determinar para o jovem a reintegração ao solo pátrio. Objetivos concluídos com curso determinado que chega a termo, dificuldade de manter-se no Exterior por meios próprios após curso findo, a crença no bom aprendizado que o alicerçará para a vida, a esperança em poder difundir o que aprendeu buscando, com as bases adquiridas, o autodesenvolvimento. Exemplos existem de músicos que se integram nesse grupo e que desenvolvem trajetórias muito dignas. Para os que retornam bem embasados, diria, o cozimento a que se refere Heinrich Neuhaus chegou a termo sem interrupção.

A permanência definitiva no Exterior não é comum. Pressupõe várias etapas até a tomada de decisão. Essas raridades, assim poderíamos designar, após conclusão de vários cursos, sentem que ainda falta mais. Por vezes, sem bolsas, encontram na própria atividade de músico oportunidades para a continuação de seus desempenhos. Apenas para mencionar os mais jovens, diria que o excepcional Luiz de Godoy esteve sob minha orientação pianística na USP, onde se graduou brilhantemente. Tributa reconhecimento às nossas aulas, louvando igualmente, com emocionada ênfase, o Professor Renato Figueiredo, da Escola Municipal de Música, seu mestre não só de piano, mas de vida. Findo seu curso na USP, esteve a estudar na Europa e, após concurso, tornou-se regente do mundialmente conhecido “Meninos Cantores de Viena”, tudo a indicar que permanecerá no Exterior (vide blog “Luiz de Godoy – A realização maior de um músico de imenso talento”, 24/12/2016). Sérgio Monteiro, um dos mais importantes pianistas do Brasil, aperfeiçoou-se no Exterior e hoje é professor na Universidade de Oklahoma. Comentei neste espaço algumas de suas ótimas gravações (vide blogs: “Obras para piano de Henrique Oswald” e “Transcrições para piano de Poemas Sinfônicos de Liszt”, 07/11/2015 e 18/02/2017, respectivamente). Há outros exemplos significativos de jovens que foram aceitos pelo mérito no mercado dificílimo da Europa ou dos Estados Unidos.

A pergunta do amigo Rafael tinha como origem o blog sobre Maury Buchala. Foi e ficou na França, após longo aperfeiçoamento com alguns dos mais importantes músicos da composição e da regência do país europeu. Sentiu que seu destino prendia-o a Paris. Com sacrifício venceu barreiras e hoje tem seu nome respeitado como compositor de raro talento e regente que está a desempenhar igualmente um trabalho social meritório, no caso, a ponte França-Brasil, tendo como patrocinador o SESC. Maury Buchala nunca teve a intenção de se dedicar à vida acadêmica. Talvez essa atitude, voluntária e inalienável, tenha-lhe proporcionado uma liberdade rara em seu desempenho como músico. O ilustre compositor e musicólogo belga André Souris (1899-1970) já observava que “integrantes da Academia ficaram totalmente surdos a toda música que flui naturalmente”. Referia-se à composição em seu magnífico livro “Conditions de la Musique et autres récits” (Université de Bruxelles, CNRS-Paris, 1976). Maury foi um de meus mais brilhantes alunos na USP. O notável musicólogo francês François Lesure (1922-2001), ao ouvi-lo em São Paulo tocando alguns Estudos de Chopin, ficou impressionado com as suas interpretações.

Para os que ficaram no Exterior e que frequentemente visitam o Brasil para o desdobramento de suas atividades, verifica-se que a qualidade de suas atuações, alicerçada no talento, denodo e  competência, resultou afirmativamente. Essas fixações no Exterior, neste período completamente à deriva da cultura como um todo no Brasil, são salutares. Os breves, mas constantes retornos à nossa terra não deixam de ser possibilidade de “injeção” de ideias novas e benéficas ao nosso país. É sempre profícua a vazão do conhecimento dos que permanecem no Exterior, pois não só possibilita o arejamento musical, como também incentiva jovens à missão que pensam abraçar.

Para qualquer das situações apontadas – breve permanência, estágio prolongado ou fixação definitiva – apenas uma verdade poderá conduzi-los ao desiderato: a ligação amorosa com a Música. Não sem razão, Jean-Cristophe, herói do romance homônimo de Romain Rolland (1866-1944), diria no seu leito de morte ao se referir à Música que acompanha toda a saga: ” Nós partiremos juntos, minha amiga. Fique comigo até o fim!”

On the difficulties faced by students and young professionals who leave their native countries for further qualification abroad and the determination and talent of those few who do set roots overseas, working hard to find a niche in the highly competitive US and European  markets.

 

Visão crítica competente

Prefiro antecipar o futuro a por ele ser surpreendido.
François Servenière

Preparava texto para o presente blog a respeito de pergunta arguta do amigo Rafael durante um curto: “Quais as razões de alguns permanecerem no Exterior para aprimoramento e outros não? “. Mensagens via internet saudavam um músico brasileiro praticamente desconhecido para muitos leitores. Alguns salientaram a fixação de Maury Buchala em Paris durante tantas décadas. Pouco a pouco o compositor e regente faz-se mais divulgado no Brasil através de suas atividades.

No treino de domingo último (10k), as ideias pulularam a partir da pergunta de Rafael, mas posteriormente ao acessar o computador havia mensagem do compositor e pensador francês François Servenière, parceiro em tantos posts, precisando o conteúdo do blog referente a Maury Buchala, assim como tecendo considerações sobre as Artes. Na visita precedente de Maury a São Paulo, fiz-lhe ver que um contato com François Servenière seria benéfico para os dois. Com satisfação verifico presentemente que eles mantêm profícua troca de mensagens em França.

Escreve François Servenière:
“Prazerosamente li seu artigo sobre Maury Buchala. É um músico comunicativo e talentoso. Admiro sua escrita a conter grande virtuosidade, apesar de seu universo composicional não ser o meu. Entendo suas criações formidáveis sob a égide arquitetônica, sendo uma vertente que tem guarida na França institucional. Conversei bem com Maury a respeito de problemática da criação musical em França e ele se mostrou consciente. Entende nosso amigo a abertura futura em direção a uma música mais humana, menos desencarnada, voltada aos sentimentos. Tendências da composição musical nas últimas décadas apresentam infinita capacidade em propor a escuridão. Há toda uma corrente filosófica francesa (ultra) niilista, de origem marxista-leninista, que trabalha objetivamente para o fim da história, para o caos, enquanto os povos (nauseabundos para as elites globalizadas) são muito positivos e voluntaristas, apesar da situação trágica por que passamos. Serão sempre os povos que salvarão as nações, nunca as elites, preceito bem conhecido. Os concertos promovidos pela instituição brasileira SESC em bairros nas periferias de São Paulo e dirigidos por Maury, assim como os que são realizados por seu irmão João Carlos pelo Brasil, à testa de uma orquestra filarmônica, bastariam para nos convencer de que o otimismo e a clarividência não são mais exclusividades das classes dirigentes e das elites que acreditam ter maior cultura para dirigir as nações em direção às melhoras.

Tomemos como exemplo um autor que nós dois admiramos, Sylvain Tesson. Suas narrativas são sombrias, niilistas, mas somos seduzidos por elas. Temos o prolongamento dos escritos de Finkielkraut, Onfrat, Houellebecq e outros. Aqui em França, como no Brasil, na América Latina, nos USA, os povos pouco a pouco retomam o poder, desgraçadamente nem sempre de maneira pacífica. Contudo, seriam essas revoluções verdadeiras que deverão se processar, ontológicas e inevitáveis, mercê do estado de ruína do mundo atual, piores do que a degenerescência que atingiu as civilizações ditas avançadas? Nos dias de hoje, a música, a arte em geral, o esporte corrompido pelo dinheiro e o dopping, seriam eles testemunhos probatórios da boa saúde de nossas democracias?

Faz-se necessário que as artes e a criação sejam independentes, como foram sempre desde a Revolução Francesa (era bem mais difícil antes, sem os direitos autorais), mas não em termos de apologia aos regimes, pois tornar-se-iam submissas quase automaticamente.

A luta das multinacionais (YouTube, Facebook, Apple, Amazon, Google, Microsoft, etc.) contra os direitos autorais (com a ajuda do socialismo, do estadismo, na França e fora dela) foi pedra angular para estatizar a arte de maneira ainda mais convincente. O Estado detesta a liberdade dos povos, dos indivíduos. Imprescindível para o Estado reduzir essa liberdade de maneira drástica. O resultado na França é claro e a criação artística desmoronou, tendo-se como exemplo o período liberal (1890-1930). A França não mais é um farol, como era antes nos tempos da Belle Époque que atraia artistas de todo o mundo.

Todas essa elucubrações me vêm à mente, a partir do belo trabalho que realiza nosso talentoso músico Maury Buchala nessa ponte França-Brasil. Faço votos que continue”. (tradução J.E.M.).

Entendo que ações dessa natureza, mesmo que cercadas por apoios da iniciativa privada e por vezes com estímulos do governo, podem estiolar-se tão logo a figura fulcral do conjunto ou orquestra desapareça. Se determinada Fundação tiver continuidade, a depender do carisma de um novo líder e da existência de profissionais competentes, projetos poderão vingar. A mescla da música dita de concerto com a popular tem sido o caminho de alguns conjuntos. Curiosamente, o contrário inexiste. Atualmente o espaço reservado a inúmeras apresentações populares — em suas infindáveis vestimentas “musicais” qualitativamente questionáveis — não dá margem à convivência com a música erudita. Promotores dos megaeventos são pragmáticos, voltados essencialmente ao lucro, resultado das massas que afluem a esses espetáculos e dos patrocínios que pululam, a depender da fama de grupo específico. Antolha-se-me, contudo, que a firme convicção dos dois músicos regentes terá resultado enquanto a ação perdurar, o que se afigura alvissareiro. Importa saber se o público que acorre aos espetáculos de João Carlos com a Orquestra Bachiana, como exemplo, permanecerá fiel à mensagem musical erudita. Não se pode negar a capacidade inalienável de João Carlos Martins de atrair a grande mídia brasileira, o que o torna o mais conhecido músico erudito pátrio. Apesar de propostas diferenciadas, há em João Carlos e Maury Buchala vontade, entusiasmo, determinação e, a preponderar, talento. Sob outra égide, a degradação cultural em todo o mundo, tão ventilada por Mario Vargas Lhosa em “La civilización del espectáculo”, não poderia ser uma das causas da aproximação mencionada erudito-popular, como uma estratégia de sobrevivência da música de concerto?

A próxima apresentação com Maury Buchala regendo a orquestra sinfônica de Americana dar-se-á no dia 3 de Setembro no SESC Campo Limpo, às 18:00hs. Quanto a João Carlos Martins, acaba de entrar em cartaz o filme “João, o Maestro”, narrativa em torno da vida de meu irmão.

Upon reading about conductor Maury Buchala’s performances in São Paulo working-class neighborhoods, the French composer François Servenière has sent his views on democratization of culture, contemporary trends in classical music composition in France,  freedom of artistic expression against state controlled media.  Worth reading as usual, his reflections are the post of this week.