Navegando Posts publicados por JEM

Fernando Lopes-Graça em Pauta

O ouvinte come aquilo que lhe é servido,
com apetite ou desprazer,
mas na realidade ele só se interessa
pelo repertório que está acostumado a ouvir.
Arthur Honegger
(“Je suis compositeur”)

Todas as leis da linguagem musical,
todas as regras que constituem o ‘métier’ do compositor,
nada são, se não as ligarmos à relação sonora,
à existência concreta da música executada.
André Souris
(“Condition de la Musique”)

Pensamentos contraditórios invadem-me. Tocar a magistral obra de Fernando Lopes-Graça (1906-1994), um dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX, tem sido uma das missões a que me propus, pois o compositor sempre foi um de meus eleitos. Na Europa, mais e mais Lopes-Graça ocupa espaços e recentemente (post de 05/12/2015) comentei a gravação impecável das 23 Músicas Festivas em dois CDs realizada pelo notável pianista António Rosado, assim como a edição da coleção em quatro cadernos. A discografia portuguesa anualmente tem a acrescê-la importantes registros de obras inéditas ou de regravações de obras de Lopes-Graça, realizadas por músicos portugueses de mérito. Dois volumosos compêndios foram publicados recentemente, contendo cada um 12 cadernos com centenas de cantos corais. Grava-se, publica-se em Portugal.

Tenho insistido nestes últimos anos no tópico repetição de repertórios nas salas de concerto em São Paulo. Obras desconhecidas de nosso público, sejam elas de compositores estrangeiros, românticos, modernos ou contemporâneos, que não portugueses, por vezes são apresentadas na cidade, mormente por conjuntos orquestrais. De maneira geral têm essas composições uma primeira e única audição brasileira. Seria possível entender como condescendências de quem promove e dos que interpretam, pois essas obras acabam não se incorporando ao repertório rotineiro. Contudo, é um fato real, constrangedor diria, ignorar a produção musical portuguesa, como se estivessem nossos músicos e nossas entidades a clamar, “a música de concerto de Portugal não está à altura”. Se exceções quanto às apresentações acontecem, ficam elas reservadas a esse compartimento sempre constrangedor da excepcionalidade in extremis. Pareceria ocorrer uma certa “vergonha” por parte de uma pseudo intelectualidade brasileira que prefere o relacionamento da categoria em torno de autores outros, da Europa e Estados Unidos, preferencialmente. Se na literatura elegeram Fernando Pessoa (1888-1935) e o prêmio Nobel José Saramago (1922-2010), verifica-se, quanto ao primeiro, a consagração consensual pelo planeta e, ao segundo, que a premiação tem  sempre resultado mediático e “faz bem” a tantos egos, que doravante se debruçam sobre autores “consagrados”. O poder dos holofotes é absoluto e são tantos os interesses envolvidos! Abrigar-se sob a luz é a aparência da verdade! Vitorino Nemésio (1901-1978) e Miguel Torga (1907-1995), largamente meus escritores portugueses contemporâneos preferidos, teriam essa “carinhosa” acolhida? Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e Eugénio de Andrade (1923-2005), poetas do maior mérito, são divulgados ou estudados em nossas escolas? Será possível entender que, no âmbito acadêmico, trabalhos tenham sido redigidos ou defendidos, mas sempre nessa excepcionalidade. Na música, sem contar Lopes Graça em causa, compositores como Carlos Seixas (1704-1742), Domingos Bomtempo (1775-1842), Viana da Mota (1968-1948), Luís de Freitas Branco (1890-1995), Jorge Peixinho (1940-1995), Eurico Carrapatoso (1962- ), entre outros, estão distantes anos luz das mentes de nossos músicos, tornando imperiosa a ação para conhecimento, assimilação e divulgação de preciosa produção. Por vezes a sensação que se tem é a de que a “intelligentsia” brasileira lamenta ter sido o Brasil colonizado pelos portugueses. Digo, sensação. Ao perguntar a um conhecido promotor de música paulistano, mediático e respeitado entre os pares, se conhecia outro intérprete português que não a senhora que aqui sempre se apresenta, não soube responder. Insisti em outra questão, Lopes-Graça. Sim, ouvira algumas obras que apresentei, ou seja, campo das exceções. Nada mais!

Estou a me lembrar de meu já longínquo tempo na Universidade. Havia sempre desconfiança da maioria dos colegas quanto aos compositores portugueses. Era eu o único a oferecer aos alunos obras de mérito criadas em Portugal, do barroco à contemporaneidade. Ultimamente houve o lamentável pronunciamento do último ex-presidente brasileiro na Espanha, atestando despreparo e distanciamento da cultura, pois denegriu a herança legada pelos portugueses – vindo dele, tudo é possível – , recebendo a seguir forte indignação da mídia do país europeu. Num amplo sentido, verifica-se que há voluntária corrente oculta que incentiva essa minimização, ao desprezar Portugal como agente primordial para a formação de nossas culturas. É fato. Creio também que o ambiente político e as gestões culturais e educadoras hora vigentes, hélas, tendam ao distanciamento maior, preocupados que estão mais com promoções de alguns países que mantém regimes a eles simpáticos da América Latina e da África.

É pois motivo de surda alegria e esperanças voltadas às mentes que tendem a se abrir que darei o recital no dia 30 de Janeiro na Sociedade Brasileira de Eubiose, inteiramente dedicado às obras de Fernando Lopes-Graça. A apresentação da récita será do competente músico  Walter Lourenção. Em Outubro de 2015, três dias foram consagrados à obra de Lopes-Graça no ciclo “História e Viagens”, realização da Unibes Cutural e do Consulado Geral de Portugal em São Paulo. Houve a participação da mezzo-soprano portuguesa Rita Morão Tavares e do musicólogo e Professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso.

No programa, teremos, na primeira parte, o Epitáfio para o Autor do tríptico Três Epitáfios, compostos em 1930, quando Lopes-Graça tinha apenas 24 anos. Das nove Músicas Fúnebres (1981-1991), contraponto às 23 Músicas Festivas, apresentarei duas, a finalizar a primeira parte com uma obra prima do compositor, Canto de Amor e de Morte (1961), criação que, ao ver de Jorge Peixinho e Mário Vieira de Carvalho, constitui uma cumeeira em toda a produção portuguesa. Já me referi, em blogs anteriores, à atração de Graça pelo tema morte, não em uma visão prosaica e natural, mas sob a égide da transcendentalidade, mormente em Canto

Clique para ouvir (Google Chrome ou Internet Explorer), com José Eduardo Martins, as seguintes gravações de Viagens na Minha Terra, de Fernando Lopes-Graça:

Na segunda parte apresentarei obras que evocam uma das tendências mais expressivas de Lopes-Graça, o afeto que perdurou durante toda existência pelo povo mais simples, pelas freguesias, vilarejos e vilas. Seria o contato permanente com a gente dessas localidades uma de suas temáticas primordiais. Escolhi quatro segmentos, que integram a coletânea Música de Piano para Crianças e que especificam destinações, e as célebres 19 peças que constituem Viagens na Minha Terra, obra que finalizará o recital.

Interpretar Lopes-Graça não é apenas apresentar repertório a mais. Representa cultuar um dos grandes compositores da segunda metade do século XX, praticamente ignoto em nosso país, herdeiro de tantas tradições portuguesas. Oxalá mentes se abram…

On my forthcoming recital in São Paulo next January 30, entirely dedicated to works of Lopes-Graça, the greatest composer of the twentieth century in Portugal, virtually unknown in Brazil, heir to so many Portuguese traditions. Let us hope music societies open to the urgent need to introduce audiences to new repertoire pieces ─ among them a lot of excellent music composed in Portugal from the Baroque to the present ─ instead of sticking to a narrow stream of standard works from the past.

 

 

 

 


O autor se pronuncia após resenha

Le premier qui dit la vérité doit être exécuté.
Guy Béart (1930-2015)
(Canção ‘La vérité’)

Depois da minha resenha de “Bien Faire et Laisser Blaire”, de François Servenière, recebi mensagem do autor que tem muito interesse, pois algumas outras interpretações de seu livro enriquecem o conteúdo já explicitado.

Escreve Servenière:

“Qual a razão de ter apreciado a crítica que o amigo fez de meu livro em seu blog? Pelo fato de que traduz a realidade de meu texto. Sim, meu livro tem segmentos extremos, mas nossa realidade mundial, europeia e humana atual é também extrema. Busquei apenas as causas, sem preocupação em tornar a publicação uma enciclopédia ou uma tese. Tão somente uma reflexão global, que se apoia sobre o real nessa minha faixa etária após o cinquentenário.

Não se trata de uma análise dos últimos quinze dias, mas sim uma reflexão que começou a ser delineada há 15 anos, a partir de um acervo de informações e debruçamentos acumulados em 30 anos. Meu texto pode desagradar e cada um fará seu julgamento. Quando eu falo da idiotice, não tenho ilusões, pois poderei ser alvo de críticas, como todo mundo, aliás.

A sua resenha de ‘Bien Faire Laisser Braire’ (‘Fazer bem feito e deixar ladrar ou zurrar’) está universitariamente exata. Você soube extrair as paixões existentes no livro. Qual a razão de entendermos formidáveis os livros dos grandes autores do passado, Shakespeare, Voltaire, La Fontaine, Goethe, Kant, Cervantes… (lista imensa). Por uma razão apenas: eles não mentiram sobre suas épocas. São analistas lúcidos e cruéis. E Deus sabe que correram risco de morrer graças aos seus testemunhos – ‘E sei que ela gira’ (Galileu) -. A verdade contida em suas revelações nunca agradaram a monarcas e senhores feudais, às ideologias e às circunstâncias momentâneas, aos interesses e aos lobbies, friso, nunca. Nada de novo sob o sol: no Brasil e na França, ainda vivemos esse drama, malgrado a imprensa dita ‘livre’ (hum, hum)!!! Hoje, os monarcas não matam pela verdade estampada que os desagrada, mas mantêm associações e editam leis para impedir que a verdade chegue ao firmamento.

A sua crítica é formidável, pois você vê meu livro como ele é. Na forma bruta, sem concessão, no limite, sobre a corda esticada, como afirma, se comparado às novas normas do pensamento único, que encolhe o debate à velocidade da luz. Estou a me lembrar da história do repórter ou fotógrafo de guerra. O fotógrafo de guerra tira as fotos, majoritariamente horríveis: massacres, fome, execuções sumárias… Ao voltar para casa, colocas as imagens no computador sobre photoshop para os profissionais contemporâneos. Que pensaríamos nós se essas fotos fossem retocadas para serem adaptadas para o público, para o editor, etc…, pelo dinheiro tão somente? Diríamos que ele não teria feito seu trabalho. Sinto que fiz meu trabalho.

Procurei, logicamente através de meu prisma, traduzir tudo aquilo que senti e vivi desde minhas origens. Tentei destruir nessas crônicas tudo que pudesse – programações mentais de educação e do meio social de origem cristã, da direita e da esquerda de um cristianismo por vezes comunista, rural, comercial, artístico, universitário e também voltado à medicina – alterar a crua visão da verdade e a leitura de nossa conjuntura. Reli o texto ao menos 300 vezes. Consegui, a partir de uma análise de vários anos, liberta-me daquilo que pudesse sugerir a subjetividade em detrimento do essencial, a resultar portanto a transparência da objetividade. Daí ter inserido cifras, fatos e consequências múltiplas em tantas áreas (capítulos X, XI, XV, XX). Busquei sempre colocar-me na posição de um extraterrestre que, ao chegar à Terra, descobrisse a civilização humana, a criticá-la sem piedade nem afeto, sem conluio de qualquer espécie e respeito pelas suscetibilidades individuais e coletivas. Quis sempre guardar esse olhar e afrontar o horror, mesmo que essa atitude pudesse desagradar minha genealogia, meus antepassados, pois não deixo de ser devedor de toda a herança que me legaram, sob múltiplas formas. Procurei ver sob essa casca humana protetora que constitui a cultura, o bom, o belo, o justo, deixando de lado toda programação geográfica e histórica. Eis o meu propósito, pois.

Muitas vezes ou sempre, pelo menos assim deveria ser, a bondade se encontra no de profundis de cada um de nós. Vê-se que estamos diante de uma busca incessante sem fronteiras. Meu livro, na realidade, está sempre a transmitir essas ideias. Abandonai vossas barreiras mentais!  Guardai vossas fronteiras e vossas leis para proteger vosso microcosmos como se protege um jardim, que nada mais é do que fruto de um trabalho. Todavia, abri vossos corações à alteridade, viajai! Era um pouco a filosofia do grande Maurice Ravel: “Sou um internacionalista por filosofia, mas nacionalista em arte”.

A realidade que escrevo, vivia-a, mensurei-a, tive pesadelos e noites brancas para chegar a esses mecanismos. Por vezes relâmpagos de lucidez surgiam-me em plena noite, nada de excepcional, aliás, pois ocorre a todo pensador ao refletir sobre seu mundo, sem cessar. Adquiri o hábito há anos de ter meu laptop ao lado de minha cama para apreender ao vivo a reflexão. A construção do livro foi fruto de dezenas de horas de debruçamento, a fim de compreender um mecanismo ou outro, em todos os domínios de minhas fronteiras mentais: filosofia, música, barco, navegação, montanha, ciência, etc… Como na música, foi necessário, sobretudo, não perder o fio condutor da construção mental. Criadores, autores, artistas e tantos outros, que têm a mente em ebulição, conhecem esse fulgor. Pode ocorrer no carro, sob uma ducha, correndo, sobre uma bike elíptica, no sonho, ou, in extremis, na conjunção de tantos fatores. Um espírito em vigília, um espírito que trabalha, fá-lo do primeiro ao último dia, sem cessar… A fadiga nessa busca permanente percebe-se no olhar, nos traços. O repouso basicamente não existe.

Agradeço-lhe pela crítica, longa, pensada, sem derivativos, a afrontar e a descrever meu texto na sua mais profunda autenticidade. Já previa que determinadas passagens pudessem desagradá-lo, você, cristão e humanista. Sabia contudo de sua abertura intelectual maior. Soube você extrair de seu paradigma mental razões para resenhar meu livro em seu aspecto real. Você fala das polêmicas! Bem entendido, tudo é polêmico, do grego antigo πόλεμος, pólemos (guerra). Estamos em guerra contra o obscurantismo e o totalitarismo. E, como descrevi, essa guerra é multiforme, multipolar, a encontrar sua essência nos mesmos erros e nas ideologias que quiseram pela força criar o ‘novo homem’ ou ‘nova humanidade’, os socialismo, comunismo, nacional-socialismo, islam e uma parte das tradições talmúdicas e bíblicas que não foram verdadeiramente pensamentos humanistas na origem. O fundamentalismo e seus efeitos monstruosos têm origem nesses textos. É fato e de fácil comprovação. A guerra evidentemente, contra a civilização no sentido da civilidade. Não entre as civilizações. Guerra entre bárbaros e os civilizados. É tudo.

Nós dois almejamos um só caminho, o da verdade, e ela faz mal. Não seguimos a verdade conjuntural, geográfica ou cultural, religiosa ou doutrinária, mas a verdade humana naquilo que ela tem de mais ontológico, aquela que emana das profundidades do DNA. E a música, nesse sentido amplo, não pode mentir. Ela está fora do campo ideológico, pois a música é ‘DNAdística’, mediúnica. Aqueles que pretenderam colocá-la no campo ideológico no século XX deram-se mal. Recebem no rosto o boomerang (analogia política/música).

Enfim, ontologicamente, essencialmente: por que, qual a razão de aqui estarmos, para qual propósito? Kant, Spinoza, Shakespeare, a Bíblia, o Torá, o Talmud… certamente propõem as chaves. Qual a razão para agirmos assim? Por que fazemos a guerra e a paz e, após 30 anos, refazermos ainda conflitos exterminadores, sempre invocando razões bem próximas, como exponho no subtítulo de meu livro ‘Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar acima, exceção graças à evaporação’ (a vida é um ciclo)? Sempre, sempre, malgrado a relatividade de Einstein, as mesmas causas produzem desgraçadamente os mesmos efeitos. O século XX sofreu com a sua descoberta e com sua consequência filosófica, o relativismo. Tudo passaria doravante a ser relativo e nada mais teria o valor real, diria, batalha de cínicos! Tentei provar que todas essas controvérsias eram falsas, apesar da justeza teórica sobre pontos precisos. Vivemos, mesmo que seja em forma de ondas ou de influências macro/microscópicas ou nanoscópicas, realidades. Os músicos integram essa certeza desde o nascimento da música” (tradução: JEM).

Servenière finaliza a enviar-me inúmeros aforismos pertinentes à desavença, à guerra, à discórdia, à leitura preconceituosa. Mencionaria o primeiro, bem apropriado ao conteúdo de seu livro e determinadas interpretações que dele deverão advir: “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha seu dedo” (provérbio chinês).

In last week’s post I published an appreciation of François Servenière’s book “Bien Faire et Laisser Blaire”. Today I publish the author’s comments on my review, suggesting other interpretations that only enrich the understanding of his book.

 

 

 

In Memoriam

Melodia é fundamental.
Que me perdoem os compositores
que não conseguem compor uma melodia.
É o que se canta,
onde está toda a beleza e força de expressão da música.
O dom da melodia é o dom básico do compositor.
Gilberto Mendes
(Viver a Música)

A mais profunda tristeza tive-a no meio da manhã do dia 2 de Janeiro. Estava a tomar uma ducha quando ouvi pela Rádio Jovem Pan a notícia de falecimento de Gilberto Mendes, ocorrida na noite anterior. Lágrimas se misturaram à água do chuveiro e lembrei-me após, de meu telefonema ao Gilberto, em meados de Junho de 1995, comunicando-lhe a morte repentina de nosso grande amigo, o notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995). Gilberto teve de desligar seu aparelho, pois o pranto jorrou-lhe. Gilberto Mendes, o mais importante compositor brasileiro de música clássica ou de concerto destas últimas décadas. Também o criador em atividade mais divulgado pelo mundo.

Nosso relacionamento foi pleno por mais de trinta anos, sob a égide da música, mas onde não faltou a frequência às artes, à literatura e ao bem querer em sua acepção mais transparente. Caráter impoluto, generosidade para com todos os músicos que o procuravam para aconselhamento, amigo impecável, escritor de pena fácil e competente, crítico musical arguto, marido, pai, avô extremado e amante absoluto de sua geografia no planeta, sua Santos, porto seguro que o inspirou em muitas das mais importantes criações da música clássica ou de concerto que nosso país já conheceu.

N’um escrito In Memoriam a Gilberto Mendes sempre ficariam a faltar muitos elementos substanciais. Como não abordar o compositor irreverente e denunciador das mazelas e desleixos do governo? Vila Socó, meu amor é obra instigante, que faz o ouvinte não se esquecer da tragédia que se abateu sobre Cubatão aos 25 de Fevereiro de 1984, quando dezenas de pessoas morreram carbonizadas mercê da incúria administrativa. Outras tantas obras apontaram desacertos. Denunciava também, em sua coluna mantida durante décadas em “A Tribuna”, de Santos, a incultura de administradores quanto à Cultura, mas incentivava músicos que se apresentavam na cidade, mormente os jovens, faixa etária basicamente abandonada pela “crítica” de hoje em nossas cidades. Lutou também muitos decênios pela sobrevivência do “Festival Música Nova”, por ele criado. Assinou manifestos, polemizou, criou obras permanentes e tantas mais realizações que ampliam o significado da dignidade humana…

Preferi, nesta homenagem, a inserção de artigo publicado recentemente em Portugal na Revista Glosas (nº 13), em minha coluna “Ecos d’Além Mar”, pois o núcleo temático da revista, lançada em Novembro último, foi a ele dedicado. Lembro ao leitor que, no início de 2014, Edward Luiz Ayres de Abreu, Diretor de Glosas, e eu estivemos em Santos com o objetivo de entrevistar Gilberto Mendes para a publicação mencionada.

Transcrevo na íntegra meu texto publicado em “Ecos d’Além Mar”. Foi Gilberto que me aconselhou a escrever sobre nossa relação compositor intérprete, privilegiando as obras que apresento em público de 1985 ao presente. Nesse desiderato, escrevi o que segue, a ter como epígrafe frase precisa do grande Stravinsky, um dos eleitos de Gilberto Mendes, e que dimensiona essa absoluta simbiose entre o criador e aquele que traduzirá sonoramente a criação. Gostaria de frisar que já colocara minha posição sobre essa relação, sendo o intérprete o corredor de revezamento que passa o bastão para o próximo (nova geração) e o compositor de mérito o maratonista a correr percurso sem fim. A função do intérprete é transmitir a mensagem, mas a obra qualitativa, essa, permanece na história através dos séculos (“As Mortes do Intérprete”, Cultura de O Estado de São Paulo, 24/12,1988,pgs. 6 a 8).

“Ecos d’Além Mar” (Lisboa: Revista Glosas, 2015, nº 13):

“A entidade musical apresenta, pois,
essa estranha singularidade
de conter dois aspectos de existir simultânea e distintamente
sob duas formas, separadas uma da outra pelo silêncio do vazio.
Essa natureza particular da música comanda a sua vida própria
e suas repercussões na ordem social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o executante.
Igor Stravinsky

Um dos mistérios da criação seria a ideia que leva à composição e à provável divulgação. Qual a origem do pensamento primeiro que possibilita a elaboração? Estimulada ou autogerada, a ideia, à maneira de um leque, abre-se para a criação que é destinada à formatação pautada, manuscrita ou eletronicamente. O mistério em torno desse infinitesimal instante que precede a ideia teria basicamente três vertentes: o estímulo externo, o acervo cultural do compositor ou, ainda, o acaso.

Conheci Gilberto Mendes na década de 1970, quando descia de São Paulo à sua cidade natal, Santos, para recitais de piano. Encontros apenas casuais, sem consequências maiores. Nosso relacionamento estreitou-se quando ingressei na Universidade de São Paulo em 1982, onde fomos colegas desse ano até a sua reforma em 1992. Período de grande riqueza de entendimento, pois éramos os únicos que trazíamos marmitas para o almoço às quintas-feiras, dia das aulas de Gilberto. À mesa estreitamos laços amistosos e musicais, temas recorrentes em todas nossas conversas. Durante o dia, em momentos de descontração, Gilberto ia à minha sala e continuávamos a falar sobre música. Gostava de me ouvir tocar Fauré, Scriabine, Debussy e Albeniz. ‘Daria toda minha obra para ser o autor do 4º Noturno de Gabriel Fauré’, confessou-me.

Composições nasceram de nosso congraçamento. À medida que nos aprofundávamos na enriquecedora relação, Gilberto, sempre atento aos meus pedidos, passado algum tempo trazia-me cópia de nova partitura. Apresentei-as em público e gravei diversas na Bulgária e na Bélgica. À guisa de registro, menciono a lista, toda ela originária desse entendimento compositor-intérprete: Il Neige… de nouveau! (1985), alusão à célebre Il Neige!, de Henrique Oswald (vide Glosas nº 9 – núcleo temático dedicado a Henrique Oswald); Viva-Villa, homenagem a Villa-Lobos (1987) no ano de seu centenário. Trata-se de peça minimalista e uma das mais festejadas criações de Mendes pelo mundo. Um Estudo? Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul… (1989), composta para apresentações que realizei em Potsdam e Berlim, na antiga DDR, seis meses antes da queda do muro; Outro Estudo? Ainda Ulysses (1990), versão para piano solo de Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour para dez instrumentos; Lenda do Caboclo. A Outra (1992), como lembrança de A Lenda do Caboclo, de Villa-Lobos; Estudo Magno (1993), criação apresentada em minha Aula Magna na Universidade de São Paulo. Escreve Gilberto Mendes: ‘José Eduardo, como sempre, queria um estudo para sua coleção de estudos. Compus então um Estudo Magno, procurando certa magnitude, como pedia o título, do mais simples ao mais complexo, do bem tonal para o totalmente atonal, sempre no mesmo andamento, mas aumentando gradativamente a velocidade pelo valor das notas’. A seguir compôs O Pente de Istanbul. Um Outro (Estudo?) (1995), versão para piano solo de O Pente de Istanbul para percussão. Esta e a de Ulysses em Copacabana… surgiram, pois entendi serem as duas propícias ao piano solo, sendo que o dileto amigo assim também entendeu. A seguir nasce Estudo, Ex-Tudo, Eis Tudo pois – In Memoriam Jorge Peixinho (1997), composição gerada a partir do Étude Die Reihe-Courante, de Peixinho (1992). Gilberto Mendes, ao mencionar gravações de suas obras que realizei na Bélgica e lançadas em CD pela Academia Brasileira de Música, comenta: ‘esse CD inclui ainda  Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois, também pedido por José Eduardo, com o qual homenageamos um grande amigo comum, o compositor português Jorge Peixinho’.  Ao leitor, diria que nesse Estudo Gilberto Mendes se utiliza de elementos a gosto de  Peixinho – reminiscências de Darmstadt? -, dialogando com os seus: coral a privilegiar acordes que fazem parte do idiomático do compositor santista, citações tão ao seu agrado, entre as quais  lembranças dos Funerais de Liszt – obra que apresentei em recital na cidade de Santos dias antes da criação do In memoriam ao músico nascido em Montijo – e determinadas nonchalances jazzísticas. Gilberto Mendes comporia ainda Étude de Synthèse (2004). Comenta o autor: ‘José Eduardo curte bastante o que ele chama de os seus acordes quando fala comigo e me pediu um estudo novo para tocar em concertos na Europa, mas queria que fosse feito só com os tais de meus acordes, uma sequência deles. Tive dificuldades, a princípio, pois os meus acordes, afinal, são aqueles de todas as músicas modernas, as sétimas, as nonas, da música francesa, do jazz. Mas, como sempre, obedeci, e o próprio José Eduardo deu o título, Étude de Synthèse. Uma síntese de meus acordes, pinçados das muitas músicas que lhe dediquei, equalizados numa sequência em que se ligam abruptamente, massacrados pelo implacável compasso 9 por 8, como se todos constituíssem uma só linha muito longa. Um passeio pelo meu mundo harmônico’. Largo do Chiado (2008) é uma pequena peça com citações temáticas do fado A Severa, escrita para comemoração do cinquentenário de meu primeiro recital em Portugal (14/07/1959), na Academia de Amadores de Música em Lisboa, a convite do insigne Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Apresentei Largo do Chiado na mesma sala da AAM no dia 26 de maio de 2009.

Parte considerável das obras foi destinada ao meu projeto de Estudos para piano iniciado em 1985 e que conta até o presente com mais de 80 criações específicas, vindas de todos os quadrantes. Jocosamente, Mendes escreve: ‘Já compus vários estudos para o José Eduardo Martins, que não me deixa em paz, é insaciável, sempre quer mais um”. Só não escreveu que a ideia original partiu dele, ao elogiar o projeto de seu amigo, pianista e compositor Yvar Mikhashoff (1941-1993), que solicitou e recebeu cerca de 100 Tangos provenientes de tantos países, entre os quais The Three Fathers (1984), de Gilberto. Sem esses meus apelos para que compusesse Estudos, a Música estaria certamente privada de algumas obras-primas que nasceram a partir de nosso convívio.

Certo dia, almoçando no apartamento de Gilberto Mendes, em Santos, indaguei-lhe sobre suas composições para piano escritas no passado. Disse-me que eram sem importância e que estavam todas em um baú, mas que por elas não mais se interessava. Após insistência, sua dedicada esposa Eliane abriu a grande caixa de madeira e retirou de seu fundo um pacote cuidadosamente embalado. A primeira obra que abri foi a Sonatina Mozartiana (1951). Sentei-me ao piano e toquei para Gilberto. Ao final, ele disse: “Não é que ela é bonita!”. Gilberto Mendes relata essa prospecção arqueológica: ‘…sou-lhe grato por haver tocado toda a minha obra inicial, do período de minha formação praticamente autodidata, que estava esquecida nas gavetas. Cheguei, muitas vezes, a pensar em jogá-la fora… Sempre pensei em fazer uma revisão de todas essas peças muito antigas antes que alguém pudesse tocá-las, mas acabei não tendo tempo e José Eduardo acabou tocando-as em seu estado primitivo. Para surpresa minha verifiquei que elas não precisam de nenhuma revisão’. Continua, com uma ponta de ironia: ‘Quando jovens e desconhecidos, podemos levar a maior obra-prima a um intérprete, que ele nem se dignará a olhá-la (a não ser que seja um do tipo do José Eduardo Martins). Na minha idade tenho que cuidar muito do que apresento, porque qualquer porcaria que compuser será tocada’. Todo esse passado compôs um recital inteiro, que apresentei em várias cidades: Pequeno Álbum para Crianças (1945-1952), Sonatina Mozartiana (1951), Sonata (1953), 5 Prelúdios (1945-1953), 16 Peças para piano (1949-1959). Há verdadeiras joias nessa primeira fase gilbertiana. Dessas obras apresentadas gravei a Sonatina Mozartiana em Sofia, na Bulgária, apresentando–a regularmente em recitais. Já há várias outras gravações dessa deliciosa Sonatina Mozartiana realizadas por outros pianistas nos Estados Unidos, Europa e Japão.

Nosso relacionamento estendeu-se pelo repertório camerístico e piano e orquestra, pois apresentaria em público ao longo dos anos: Saudades do Parque Balneário Hotel (piano e saxofone alto), Longhorn (piano, trompete e trombone), Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour (flauta, clarineta, trompete, sax alto, 2 violinos, viola, violão, contrabaixo e piano); Cinco canções para canto e piano; Concerto para piano e orquestra; Rimsky (quarteto de cordas e piano), obra apresentada em tournée por várias cidades da Bélgica em 2004 (Rubio strijkkwartet). Ótimos músicos participaram das apresentações no Brasil de todas as obras precedentes.

Nos estertores da vida acadêmica de Gilberto Mendes incentivei-o a fazer o doutorado direto, uma das possibilidades para a obtenção do título e que faz parte da legislação da USP. Hesitou por várias vezes, mas aquiesceu e realizou uma tese extraordinária, que foi saudada pelo júri que tive a honra de integrar. Logo após Gilberto completaria 70 anos e estaria reformado. Sua tese, modificada, foi publicada pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp / Giordano) em 1994 em primorosa formatação como livro, Uma Odisséia Musical – Dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco.

Em 2013 Gilberto Mendes, compositor que teve sempre em mente títulos curiosos, quiçá desconcertantes para suas criações, mas que levam à reflexão, escreveu uma novela curta e instigante: Danielle em surdina, langsam (São Paulo, Algol, 2013). Na rubrica Ecos d’Além Mar de Glosas nº 11 escolhi como tema o pequeno livro de Gilberto em que há a presença do autor, consciente ou inconscientemente, como observador sempre atento a reter lembranças…

Neste número dedicado ao notável Gilberto Mendes, grande compositor que sempre compôs pelo prazer de compor e que se libertaria a tempo de amarras esterilizantes, criando um estilo rigorosamente pessoal, diria, verdadeiras impressões digitais – a escuta de suas diversificadas obras leva facilmente ao autor -, crítico competente, degustador do momento presente da existência, escritor amoroso e diletíssimo amigo, fica nestes Ecos d’Além Mar meu tributo carinhoso”.

As frases de Gilberto Mendes no texto acima foram extraídas de seus livros resenhados em meus blogs semanais: Uma Odisseia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco (13/10/2007); Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevsky (04/04/2009). Quanto à mencionada Danielle em Surdina, Langsam, a curta novela mereceu também resenha em post (06/04/2013).

A menção de episódio ocorrido em Gent, Bélgica, aos 17 de Março de 2008, dá bem a medida da comunicação total de peça emblemática de Gilberto Mendes. André Posman, diretor da De Rode Pomp, pediu-me, dois dias antes de meu recital em sua sala de concertos, que fizesse na manhã seguinte da minha apresentação um recital com obras menos densas e mais curtas para colegas de escola de seus dois filhos. Aquiesci com o maior prazer. Ao executar Viva-Villa, minimalista e plena de rítmica contagiante, fez-se a magia, pois espontaneamente os miúdos subiram ao palco e a peça de Gilberto foi sendo repetida algumas vezes. No final, mais de 50 crianças dançavam com gestos os mais diversos. Alegria plena. Em blog de 2008 escrevi sobre o encantamento daquela manhã e, ao contar -lhe o acontecido, Gilberto deu boas risadas. A foto é testemunha.

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano:

À-propos, a morte de Pierre Boulez (1925-2016), quatro dias após o falecimento de Gilberto Mendes, evidencia carreiras distintas. Boulez, francês, compositor, regente e ensaísta, fundador do IRCAM e do “Ensemble Intercontemporain”, foi talvez o mais influente músico da segunda metade do século XX, homem da Instituição, como defendia. Mendes frequentou Darmstadt em seu período áureo e teve contatos com Boulez. Diferentemente do compositor português Jorge Peixinho, que seguiu voluntariamente em sua carreira aconselhamentos de Darmstadt, Gilberto, também voluntariamente, soube pouco a pouco romper amarras, e o exemplo de Viva-Villa é claro, assim como de dezenas de obras após o gesto natural. A descontração gilbertiana – não confundir com desconstrução – tornar-se-ia uma de suas características primordiais. Foi a atitude voluntária que levou a criançada ao palco.

Gilberto Mendes lega-nos um acervo composicional extraordinário. Frequentou muitos gêneros musicais, “experimentou” várias tendências, inclusive com a utilização de meios da eletroacústica. Quanto às técnicas de composição, conhecia-as, e da tradição seu passado é testemunha. Aberto às artes, apreendeu conteúdos de correntes poéticas mais hodiernas, amalgamando-as, com raro êxito, às suas estruturas musicais. Gilberto recebera das musas um fino humor, por vezes irônico, que transparecia em tantas criações a partir de titulações hilariantes. Após a aposentadoria continuamos contatos permanentes e visitei-o várias vezes para almoços que emanavam a amizade sincera. A dedicadíssima esposa Eliane viveu quarenta anos ao seu lado, “uma segunda mãe”, como escreveu Gilberto na dedicatória de Uma Odisseia Musical, com ele viajando – sempre – pelo mundo quando das apresentações de suas composições. Pude sempre testemunhar com admiração a atenção absoluta que dispensava a Gilberto, que exalaria o último suspiro em seus braços amorosos. Seus filhos do primeiro casamento notabilizaram-se em áreas artísticas. Odorico e Carlos estiveram sempre próximos do insigne compositor, prestigiando-o e promovendo-o. Sinto que perdi uma referência fundamental em minha vida. Friso, essencial. No caminho que porventura ainda terei de trilhar, sua companhia é certa, através das tantas obras que privilegiam minha trajetória e que continuarei a tocar, aqui e alhures. Conforto espiritual e estético. Gilberto, um dos meus compositores eleitos. Gratidão ad eternum

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano a peça in memoriam Jorge Peixinho:

Today’s post is dedicated to Gilberto Mendes (in memoriam), a dear friend for more than thirty years, witty music critic and writer and, in my view, one of the most important Brazilian composers ever. I am honored to have presented the world première of a great number of his works, many of them generously dedicated to me. In tribute to him, I transcribe my article published on last November’s issue of the Portuguese music magazine Glosas, largely dedicated to Gilberto Mendes.