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Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.

 

 

 

Desalento e Esperanças

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Se 2015 foi ano atribulado pelo mundo afora, há que se destacar a deterioração de tantos valores morais e culturais no Exterior e mormente em nosso país. Nem insiro a palavra ética, pois esta tem sido utilizada por todas as correntes, banalizou-se, prostituiu-se, retiraram-lhe o significado essencial. Estou a me lembrar de série de programas sobre Ética em canal estatal, faz um bom tempo. A intelligentsia de sempre, tupiniquim, discutiu durante semanas, em linguajar ex cathedra, pomposo, acadêmico e ininteligível para o leigo, os valores da ética. Alisou egos dos convidados e os efeitos, como esperados, foram nulos, pois o telespectador ficou desinformado.

O PT, ao reivindicar posições, desde sua fundação erigiu a ética como fundamento. Desnecessário estender-se sobre o tema. Desgovernos, mensalão, petrolão e tantos outros escândalos e indiciamentos aí estão para dimensionar o desvio absoluto por que prima o partido, desde 2003, quanto ao desrespeito dessa nobre palavra, ética, hoje tão aviltada. Lembremo-nos de que o lema apregoado pela presidente de plantão em seu desastroso segundo mandato foi “Pátria Educadora”. Seu criador, em recente pronunciamento na Espanha, culpa a colonização portuguesa pelo atraso da Educação no Brasil e menciona dados históricos falhos (sic). Com absoluta clareza a imprensa portuguesa revoltou-se contra essa verborragia. Teria o ex a coragem de proferir o descalabro quando do recebimento do título Doctor Honoris Causa conferido pela Universidade de Coimbra, anos atrás? Desrespeito para com a verdade, ignorância e absoluto desconhecimento do rito diplomático. Recebi mensagem de minha amiga portuguesa Idalete Giga, em que deputado europeu, indignado com a fala do ex presidente, assim teria se pronunciado: “Fazer da ignorância um exercício de erudição, é em si mesmo um paradoxo. Discorreu sobre temas que implicam estudo, com a facilidade com que trautearia um forró. E o disparate aconteceu”.

2016 aponta no horizonte. Será um ano basicamente perdido, mercê de todo o processo de impeachment que se deverá prolongar. As mais vis porfias serão travadas em Brasília entre o executivo e o legislativo, sob o olhar de um judiciário complexo no que tange às nomeações de seus integrantes, por vezes ideológicas. Após a trágica sessão do Supremo Tribunal Federal em que a Corte decidiu barrar o processo de impeachment (17/11), estabelecido pelo presidente da Câmara dos Deputados, contra a presidente atual, assim se pronunciou o ilustre Ministro do STF, Gilmar Mendes: “Existe um projeto de bolivarização da Corte. Assim como se opera em outros ramos do Estado, também se pretende fazer isso no tribunal, e, infelizmente, ontem tivemos mostras disso” (Fonte: Brasil 247, 19/12/2015). Economia, inflação, desemprego galopante, insegurança, saúde, educação, saneamento básico assustam o brasileiro. O descaso do governo pelo elementar saneamento é fator primordial da aceleração dos surtos causados pelo mosquito aedes aegypti, transmissor de outras mais pragas que não a dengue. Temos que acreditar e arregimentar cidadãos que compartilhem princípios morais, que anatematizem essa chaga que se tornou endêmica e que se alastrou, sobretudo desde 2003, a corrupção. O sistemático desvio de dinheiro nas grandes e pequenas obras, o inchaço da máquina administrativa a continuar o aparelhamento do Estado e a contagiar o orçamento pátrio, a prática vexatória do popularmente “toma cá, dá lá”, são temas do cotidiano, hélas. Há o Lava-Jato, benfazejo processo que está a desmoronar redutos e a chegar à fonte primeira do desvio de somas fabulosas. O cidadão de bem acredita nesse processo, salvaguarda ainda de nossa pobre sociedade brasileira. Oxalá permitam!!! Ano difícil está por vir.

Num aspecto mais amplo, de possível transição para períodos menos desfavoráveis, há a hipótese remotíssima, frise-se, do pronunciamento, por parte da presidente, de uma palavra apenas: renúncia. Completamente despreparada para a função que ocupa, sua fala, quando improvisada, apenas aumenta o anedotário pátrio; seus desvios sistemáticos da verdade estão acelerando seu descrédito; sua “inanição” frente à economia e ao desemprego no país; suas articulações políticas diárias para se manter no Poder a qualquer custo, tudo está a conduzi-la ao fundo do abismo, reduzindo sua aprovação pública a nível constrangedor. Saint-Exupéry, em frase notável, dizia que a vaidade não é um vício, é uma doença. Criador e a pobre criatura sofrem desse ego superdimensionado, que inviabiliza a leitura do Brasil como país de todos e não de um grupo. O projeto de não alternância do poder impede o olhar a miséria do povo, que deveria ser extinta pela ação educadora. Entregam o peixe simplesmente, em detrimento da vara, do anzol, da isca e dos mares, rios e lagoas tratados… E bastaria uma só palavra que revelaria, nessa conturbada pátria, grandeza a atenuar o descompasso da presidente. Renúncia, termo que os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado também deveriam pronunciar. Acrescentaria que a arrogância, a empáfia e a teimosia também são doenças, alargando o preceito de Saint-Exupéry. “Poderosos” desprovidos de preceitos fundamentais. Nesse tópico relativo à política à deriva no país, mencionaria recente (26/11/15) sexteto (XXVI) de meu irmão Ives Gandra, notável jurista:

“O Brasil em polvorosa
Vê política horrorosa
Em Brasília praticada.
Há muito qu’este país
Deixou o povo infeliz
À mercê da canalhada”.

2016 sinaliza as Olimpíadas no Rio de Janeiro. A organização preparou devidamente nossos atletas para o maior evento esportivo do planeta? A ouvir-se esportistas que não tiveram o acompanhamento necessário, a resposta é, decididamente, não. Assim como no futebol, devastado pela corrupção aqui e alhures de maneira vergonhosa, mercê, entre outras mazelas, de mandatos “perpétuos” de seus dirigentes. Sob a égide de permanência no cargo, há quantas décadas está na presidência do COB o mesmo cidadão? No caso, também, não há renovação e ideias arejadas não conseguem penetrar as mentes dos dirigentes. Se nas Olimpíadas, que distribuem aos vencedores das muitas categorias centenas de medalhas, as minguadas láureas que o país de 204.000.000 de habitantes receberá serão motivos de palavras plenas de lisonjas pelos mandatários, que também não têm a grandeza da renúncia. Veremos. Nem menciono super-faturamentos que virão à tona após competições, mas que já começam a pulular. Voltarei ao tema após as Olimpíadas para, infelizmente, ratificar o que acabo de escrever.

2016 deverá persistir, sempre em movimento de ascensão, na continuação do óbvio. Na música erudita, os mesmos de sempre, com raras exceções, visitarão o país. Ouviremos, com algumas ressalvas, as repetidas obras do repertório para orquestra, de câmara e solista, as óperas rotineiras. Toda uma programação que completa geralmente o círculo após, no máximo, cinco anos. A roda a fazer seu giro e a prosseguir o movimento circular. Na televisão, há canais a cabo com programas interessantes, pois a TV aberta não merece comentários, salvo, diga-se, alguns raros programas de entrevistas e de documentários. O ano vindouro deverá assistir à avassaladora avalanche dos mega-shows que chegam do Exterior com o som às alturas, entradas a preço de ouro,  e a massa informe de frequentadores erguendo os braços, agitando-os, à maneira da juventude nazista. E a cultura?

No hemisfério norte, a problemática da imigração descontrolada de muçulmanos, preferencialmente, conduz aos continentes a incerteza, o temor e a islamofobia generalizada. Períodos difíceis e assustadores estão por vir. Veremos também.

Apesar de todas as mazelas, dificuldades de toda sorte por que passa o planeta, há valores que têm de ser preservados, e a família continua a ser o epicentro que leva ao equilíbrio das mentes.

Desejo a todos os leitores que prestigiam meu blog um ano de 2016 que ao menos traga certa tranquilidade e menos incertezas. O convívio familiar e os amigos serão os bálsamos que ajudarão a todos nessa transição que custa a passar, mas passará.

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Finalizava o post quando recebo e-mails de Idalete Giga e de François Servenière, comentando o texto da semana que passou, dedicado ao Natal e tendo como epicentro bela narrativa de Saint-Exupéry. Insiro segmento da mensagem da ilustre gregorianista portuguesa e do notável compositor francês. Escreve Idalete:

“O texto de Natal que extraiu do cap. 122 da sua obra Citadelle está escrito numa linguagem metafórica que pode, na realidade, ter várias interpretações. O soldado que queria morrer pode ser cada um de nós. As imagens são constantes na linguagem que usa. Este é um dos aspectos mais deslumbrantes da Citadelle. Também concordo que esta obra foi a ‘Bíblia’ do século XX e continuará a ser neste século. Mas podemos perguntar: quem a compreende verdadeiramente na sua dimensão ao mesmo tempo humana, metafórica e espiritual?

O José Eduardo foi um privilegiado ao conhecer e ouvir pela 1ª vez, textos desta obra impar lidos pela irmã do escritor-piloto, Simone de Saint-Exupéry. E chegou a ouvir alguma gravação do próprio Exupéry?” Sim, semanalmente, naquele ano e meio a que me refiro no e-mail anterior, a irmã do piloto-escritor lia e fazia-nos ouvir gravações de Saint-Exupéry. Continua Idalete “Citadelle não é obra para ler e guardar. É um universo a descobrir constantemente. Cada vez que abrimos o livro, seja em que capítulo for, descobrimos sempre novas revelações, novas imagens, novos mundos que, por vezes, se nos deparam quase inatingíveis. E voltamos a ler e a reler até descobrirmos o sentido das metáforas”.

Servenière envia verdadeiro hino à nossa atividade de músico.

“Espírito do Pequeno Príncipe, estás lá?
Espírito da infância, onde estás?
Porque tantas mortes, concessões à ignomínia e ao inominável?
O caos das estrelas?
Olhas como elas nos iluminam desde as origens.
Uma esperança ancestral?
Não, um permanente anseio.
Olhas o céu e serás levado ao divino.
Se apenas olhares o solo serás levado ao sepulcro.
Nossa música como testemunho de um dom.
Não deixemos as trevas invadirem nossas vidas e nossas artes”

New Year and the reflections it gives rise to: political unrest and corruption in Brazil, violence, vandalism, poor quality of education and health, infrastructure deficiencies, tax burdens. In the Northern hemisphere, intolerance and invasions of illegal immigrants. Hoping that family values will not be wasted in face of the tough times ahead of us, I can only wish you all a New Year filled with some promises of a brighter tomorrow.

 

 

 

 


Tem-se que Preservar o Espírito de Congraçamento

E agora, no coração da noite como um vigia,
ele descobre que ela mostra o homem:
apelos, luzes, inquietude.
Essa simples estrela na sombra:
o isolamento de uma casa. Uma luz se apaga:
o lar se fecha sobre seu amor.
Antoine de Saint-Exupéry
(Vol de Nuit)

Dá-me prazer inserir no blog um conto de Natal nesse período onde almejamos a paz, a reunião de parentes e amigos no lar aconchegante, o destino mais ameno dos infortunados, o fim do pesadelo político que nos assola. Como bálsamo para a cristandade, o Natal é a mais bela das datas, pois evoca o nascimento de Cristo. Contos de D. Henrique Golland Trindade, arcebispo de Botucatu, e de Idalete Giga, especialmente para o blog, enriqueceram posts natalinos anteriores.

Nós elegemos nossos autores e, à medida que o acúmulo dos anos nos dá a possibilidade do conhecimento de tantas obras do passado e recentes, a aventura extraordinária da leitura mostra-se uma das mais apaixonantes de nossas vidas. Ler e reter para sempre a essência dos livros escolhidos. Das muitas centenas de livros percorridos intensa e inteiramente pelo olhar e assimilados pela mente, um número determinado de compêndios constitui nossa biblioteca essencial.

Ao longo dos anos, quantos não foram os blogs nos quais a obra de Saint-Exupéry (1900-1944) foi mencionada, tanto na interpretação de segmentos como no empréstimo de sábias epígrafes extraídas da monumental Citadelle, um dos livros referenciais de minha vida? Tenho-o à minha cabeceira, pois o fervor está presente em toda a obra, os caminhos que conduzem o homem a Deus e os valores essenciais do viver, como família, relação humana, atividade profissional e, a pairar sobre tópicos fundamentais, a responsabilidade. Não são poucos os que consideram Citadelle como a bíblia do século XX.

Saint-Exupéry em seus escritos busca menos a contundência literária e mais o aprofundamento no anseio moral. Literatura como instrumento para aperfeiçoar a civilização. Preferencia personagens atemporais. Preocupa-o o destino humano e o condicionamento do homem, como bem pondera sua irmã, Simone de Saint-Exupéry. Tive o maior privilégio de, ao correr de ano e meio, durante meus estudos em Paris, tê-la ouvido na leitura dos textos esparsos de Citadelle, que Simone organizara com outros especialistas. No apartamento de seu primo-irmão, o Baron André de Fonscolombe, todas as quartas-feiras à noite, Simone apresentava gravações feitas pelo irmão e que seriam datilografadas pela secretária do escritor-piloto nos dias subsequentes. Foram cerca de 1.000 páginas reestudadas, que deveriam compor Citadelle, que viria a público em edição primorosa (1959) após a primeira, de 1948. Trabalho hercúleo dos organizadores das oeuvres de Saint-Exupéry.

Na narrativa, constante do capítulo CXXII de Citadelle, o Natal é evocado. A pena sensível, lírica e onírica do autor capta a essência essencial da noite mágica. Há muito da parábola nas narrativas de Saint-Exupéry.  No breve e profundo relato da noite de maravilhamento que a cristandade cultua, o autor penetra num universo metafórico que lhe é sempre caro. Como mestre de um Império atemporal, herança de seu pai, Saint-Exupéry, pela voz do herdeiro imperial, escreve sobre um de seus soldados, a buscar motivação para morrer.

Eis o pungente segmento  referente ao Natal, encontrável no capítulo mencionado:

“Estou a me lembrar do soldado que desejava morrer, pois apreendera, através do canto de uma lenda nórdica que lhe vinha vagamente à memória, que em determinada noite do ano os habitantes caminham sobre a neve fofa, sob o céu pleno de estrelas, em direção às casas de madeira iluminadas. E se, após o percurso, entrares em uma sala plena de luz e colares o rosto nos vidros das janelas, saberás que a claridade vem de uma árvore. E te dirão que é uma noite que tem o gosto de brinquedos de madeira envernizada e o aroma de vela acesa. Dir-te-ão, igualmente, que os semblantes dessa noite são extraordinários. Todos esses rostos estão à espera de um milagre. E verás que todos os velhos, que retêm a respiração e fixam os olhos nas crianças, estão sujeitos ao acelerar do coração. Algo intangível e de valor inestimável percebe-se no olhar dessas crianças. Porque durante todo o ano tu edificaste sonhos, através da espera e mais, pelas narrativas e promessas, mormente tuas árias ouvidas e tuas alusões secretas e a imensidão de teu amor. E agora, tu vais retirar da árvore um objeto simples qualquer de madeira envernizada e dá-lo ao pequenino, segundo a tradição de teu cerimonial. E eis que o instante chega. Respiração suspensa de todos. E a criança tem as pálpebras semi fechadas, pois foi acordada abruptamente para o evento. E ela está lá, sobre teus joelhos com aquele odor típico de criança que acaba de ser acordada, mas que, ao te abraçar, emana algo que é fonte para o coração e sacia a tua sede. (O maior tédio das crianças é verem-se despojadas de uma fonte que lhes é inerente, mas para elas desconhecida, embora todos os que envelheceram no coração nela venham beber, a fim de reconquistar a mocidade perdida). Há uma pausa para os beijos trocados. A criança olha a árvore e tu fixas o olhar nesse seu gesto. Porque se trata de colher uma surpresa encantada, como uma flor rara que nascesse uma vez ao ano na neve.

És tu um privilegiado ao observares uma certa cor de olhos que se tornam sombrios, pois a criança abraça seu tesouro, para toda ela se iluminar no seu interior tão logo o presente é tocado, como as anêmonas- do-mar. E ela fugiria se tu a deixasses partir. E não há qualquer esperança de a alcançar. Não lhe fales, ela não mais ouve.

Essa atitude é passageira e mais leve do que uma nuvem sobre o campo e não venhas tu me dizer que ela não tem peso. Mesmo que ela fosse única recompensa de teu ano e da transpiração de teu trabalho e de tua perna perdida na guerra, e de tuas noites de meditação e afrontas e de sofrimentos suportados, eis que ela te pagaria e te maravilharia, pois tu ganhas com essa troca. Porque não há razão para raciocinar sobre o amor pela propriedade, sobre o silêncio do templo, tampouco sobre este instante incomparável.

O certo é que meu soldado queria morrer. Ele que vivera, que sob o sol e sobre a areia não conhecera qualquer árvore de luz e vagamente sabia a direção do Norte, mas ouvira dizer que determinada conquista em algum lugar pusera em risco um certo aroma de vela e uma certa cor dos olhos e que os poemas lhe chegaram tenuemente, como o vento traz o odor das ilhas. Não conheço uma razão melhor para morrer”. (tradução: JEM).

A tradução livre na segunda pessoa, a mais adequada no caso, teve que apreender “possíveis” intenções do autor, pois não raras vezes há que se prospectar num de profundis pleno de mistérios, onde a metáfora sugere interpretações várias. Se difícil foi quando da primeira edição francesa em 1948, maior aprofundamento teve a edição de 1959 (A. de Saint-Exupéry. Oeuvres. Paris, Bibliothèque de la Pleiade). A edição portuguesa data de 1996 (Cidadela. Lisboa, Editorial Presença. Prefácio e tradução: Ruy Belo).

Finalizando incluo poema recebido nesses dias, de minha dileta amiga e gregorianista portuguesa Idalete Giga. Escreveu após ver na internet foto recente de crianças em “trabalho escravo” na emergente Índia, como afirma.

Presentes de Natal

Quero pegar ao colo estas crianças
e segredar baixinho ao seu ouvido:
não chorem mais meus pequeninos
Venham comigo
Tenho uma Escola-Mágica só para vós
Vamos brincar
à cabra-cega
à macaca
às escondidas
ao pião
Vamos fazer balões coloridos
com espuma de sabão
Depois vamos descobrir
o nome das flores
das árvores
dos pássaros
que estão esperando por nós
Corram, corram, corram
Venham comigo
Não tenham medo
Não chorem mais meus pequeninos
Não chorem mais
Não chorem mais

A todos os leitores que me têm prestado generoso estímulo, desejo um Natal pleno de Paz e congraçamento.

On Christmas season, I publish a story extracted from Citadelle, by Saint-Exupéry, my bedside book. With delicacy, lyricism and dreamlike mood, he captures the magic of Christmas night through metaphors that allow different interpretations. Also included is a poem sent at the very last moment by Idalete Giga ─ a very dear friend, teacher and Gregorianist living in Portugal: simple lines dedicated to children who go through pain and suffering in the world.
To all my readers, I wish a season filled with beautiful moments and cherished memories.