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O autor se pronuncia após resenha

Le premier qui dit la vérité doit être exécuté.
Guy Béart (1930-2015)
(Canção ‘La vérité’)

Depois da minha resenha de “Bien Faire et Laisser Blaire”, de François Servenière, recebi mensagem do autor que tem muito interesse, pois algumas outras interpretações de seu livro enriquecem o conteúdo já explicitado.

Escreve Servenière:

“Qual a razão de ter apreciado a crítica que o amigo fez de meu livro em seu blog? Pelo fato de que traduz a realidade de meu texto. Sim, meu livro tem segmentos extremos, mas nossa realidade mundial, europeia e humana atual é também extrema. Busquei apenas as causas, sem preocupação em tornar a publicação uma enciclopédia ou uma tese. Tão somente uma reflexão global, que se apoia sobre o real nessa minha faixa etária após o cinquentenário.

Não se trata de uma análise dos últimos quinze dias, mas sim uma reflexão que começou a ser delineada há 15 anos, a partir de um acervo de informações e debruçamentos acumulados em 30 anos. Meu texto pode desagradar e cada um fará seu julgamento. Quando eu falo da idiotice, não tenho ilusões, pois poderei ser alvo de críticas, como todo mundo, aliás.

A sua resenha de ‘Bien Faire Laisser Braire’ (‘Fazer bem feito e deixar ladrar ou zurrar’) está universitariamente exata. Você soube extrair as paixões existentes no livro. Qual a razão de entendermos formidáveis os livros dos grandes autores do passado, Shakespeare, Voltaire, La Fontaine, Goethe, Kant, Cervantes… (lista imensa). Por uma razão apenas: eles não mentiram sobre suas épocas. São analistas lúcidos e cruéis. E Deus sabe que correram risco de morrer graças aos seus testemunhos – ‘E sei que ela gira’ (Galileu) -. A verdade contida em suas revelações nunca agradaram a monarcas e senhores feudais, às ideologias e às circunstâncias momentâneas, aos interesses e aos lobbies, friso, nunca. Nada de novo sob o sol: no Brasil e na França, ainda vivemos esse drama, malgrado a imprensa dita ‘livre’ (hum, hum)!!! Hoje, os monarcas não matam pela verdade estampada que os desagrada, mas mantêm associações e editam leis para impedir que a verdade chegue ao firmamento.

A sua crítica é formidável, pois você vê meu livro como ele é. Na forma bruta, sem concessão, no limite, sobre a corda esticada, como afirma, se comparado às novas normas do pensamento único, que encolhe o debate à velocidade da luz. Estou a me lembrar da história do repórter ou fotógrafo de guerra. O fotógrafo de guerra tira as fotos, majoritariamente horríveis: massacres, fome, execuções sumárias… Ao voltar para casa, colocas as imagens no computador sobre photoshop para os profissionais contemporâneos. Que pensaríamos nós se essas fotos fossem retocadas para serem adaptadas para o público, para o editor, etc…, pelo dinheiro tão somente? Diríamos que ele não teria feito seu trabalho. Sinto que fiz meu trabalho.

Procurei, logicamente através de meu prisma, traduzir tudo aquilo que senti e vivi desde minhas origens. Tentei destruir nessas crônicas tudo que pudesse – programações mentais de educação e do meio social de origem cristã, da direita e da esquerda de um cristianismo por vezes comunista, rural, comercial, artístico, universitário e também voltado à medicina – alterar a crua visão da verdade e a leitura de nossa conjuntura. Reli o texto ao menos 300 vezes. Consegui, a partir de uma análise de vários anos, liberta-me daquilo que pudesse sugerir a subjetividade em detrimento do essencial, a resultar portanto a transparência da objetividade. Daí ter inserido cifras, fatos e consequências múltiplas em tantas áreas (capítulos X, XI, XV, XX). Busquei sempre colocar-me na posição de um extraterrestre que, ao chegar à Terra, descobrisse a civilização humana, a criticá-la sem piedade nem afeto, sem conluio de qualquer espécie e respeito pelas suscetibilidades individuais e coletivas. Quis sempre guardar esse olhar e afrontar o horror, mesmo que essa atitude pudesse desagradar minha genealogia, meus antepassados, pois não deixo de ser devedor de toda a herança que me legaram, sob múltiplas formas. Procurei ver sob essa casca humana protetora que constitui a cultura, o bom, o belo, o justo, deixando de lado toda programação geográfica e histórica. Eis o meu propósito, pois.

Muitas vezes ou sempre, pelo menos assim deveria ser, a bondade se encontra no de profundis de cada um de nós. Vê-se que estamos diante de uma busca incessante sem fronteiras. Meu livro, na realidade, está sempre a transmitir essas ideias. Abandonai vossas barreiras mentais!  Guardai vossas fronteiras e vossas leis para proteger vosso microcosmos como se protege um jardim, que nada mais é do que fruto de um trabalho. Todavia, abri vossos corações à alteridade, viajai! Era um pouco a filosofia do grande Maurice Ravel: “Sou um internacionalista por filosofia, mas nacionalista em arte”.

A realidade que escrevo, vivia-a, mensurei-a, tive pesadelos e noites brancas para chegar a esses mecanismos. Por vezes relâmpagos de lucidez surgiam-me em plena noite, nada de excepcional, aliás, pois ocorre a todo pensador ao refletir sobre seu mundo, sem cessar. Adquiri o hábito há anos de ter meu laptop ao lado de minha cama para apreender ao vivo a reflexão. A construção do livro foi fruto de dezenas de horas de debruçamento, a fim de compreender um mecanismo ou outro, em todos os domínios de minhas fronteiras mentais: filosofia, música, barco, navegação, montanha, ciência, etc… Como na música, foi necessário, sobretudo, não perder o fio condutor da construção mental. Criadores, autores, artistas e tantos outros, que têm a mente em ebulição, conhecem esse fulgor. Pode ocorrer no carro, sob uma ducha, correndo, sobre uma bike elíptica, no sonho, ou, in extremis, na conjunção de tantos fatores. Um espírito em vigília, um espírito que trabalha, fá-lo do primeiro ao último dia, sem cessar… A fadiga nessa busca permanente percebe-se no olhar, nos traços. O repouso basicamente não existe.

Agradeço-lhe pela crítica, longa, pensada, sem derivativos, a afrontar e a descrever meu texto na sua mais profunda autenticidade. Já previa que determinadas passagens pudessem desagradá-lo, você, cristão e humanista. Sabia contudo de sua abertura intelectual maior. Soube você extrair de seu paradigma mental razões para resenhar meu livro em seu aspecto real. Você fala das polêmicas! Bem entendido, tudo é polêmico, do grego antigo πόλεμος, pólemos (guerra). Estamos em guerra contra o obscurantismo e o totalitarismo. E, como descrevi, essa guerra é multiforme, multipolar, a encontrar sua essência nos mesmos erros e nas ideologias que quiseram pela força criar o ‘novo homem’ ou ‘nova humanidade’, os socialismo, comunismo, nacional-socialismo, islam e uma parte das tradições talmúdicas e bíblicas que não foram verdadeiramente pensamentos humanistas na origem. O fundamentalismo e seus efeitos monstruosos têm origem nesses textos. É fato e de fácil comprovação. A guerra evidentemente, contra a civilização no sentido da civilidade. Não entre as civilizações. Guerra entre bárbaros e os civilizados. É tudo.

Nós dois almejamos um só caminho, o da verdade, e ela faz mal. Não seguimos a verdade conjuntural, geográfica ou cultural, religiosa ou doutrinária, mas a verdade humana naquilo que ela tem de mais ontológico, aquela que emana das profundidades do DNA. E a música, nesse sentido amplo, não pode mentir. Ela está fora do campo ideológico, pois a música é ‘DNAdística’, mediúnica. Aqueles que pretenderam colocá-la no campo ideológico no século XX deram-se mal. Recebem no rosto o boomerang (analogia política/música).

Enfim, ontologicamente, essencialmente: por que, qual a razão de aqui estarmos, para qual propósito? Kant, Spinoza, Shakespeare, a Bíblia, o Torá, o Talmud… certamente propõem as chaves. Qual a razão para agirmos assim? Por que fazemos a guerra e a paz e, após 30 anos, refazermos ainda conflitos exterminadores, sempre invocando razões bem próximas, como exponho no subtítulo de meu livro ‘Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar acima, exceção graças à evaporação’ (a vida é um ciclo)? Sempre, sempre, malgrado a relatividade de Einstein, as mesmas causas produzem desgraçadamente os mesmos efeitos. O século XX sofreu com a sua descoberta e com sua consequência filosófica, o relativismo. Tudo passaria doravante a ser relativo e nada mais teria o valor real, diria, batalha de cínicos! Tentei provar que todas essas controvérsias eram falsas, apesar da justeza teórica sobre pontos precisos. Vivemos, mesmo que seja em forma de ondas ou de influências macro/microscópicas ou nanoscópicas, realidades. Os músicos integram essa certeza desde o nascimento da música” (tradução: JEM).

Servenière finaliza a enviar-me inúmeros aforismos pertinentes à desavença, à guerra, à discórdia, à leitura preconceituosa. Mencionaria o primeiro, bem apropriado ao conteúdo de seu livro e determinadas interpretações que dele deverão advir: “Quando o sábio aponta para a lua, o idiota olha seu dedo” (provérbio chinês).

In last week’s post I published an appreciation of François Servenière’s book “Bien Faire et Laisser Blaire”. Today I publish the author’s comments on my review, suggesting other interpretations that only enrich the understanding of his book.

 

 

 

In Memoriam

Melodia é fundamental.
Que me perdoem os compositores
que não conseguem compor uma melodia.
É o que se canta,
onde está toda a beleza e força de expressão da música.
O dom da melodia é o dom básico do compositor.
Gilberto Mendes
(Viver a Música)

A mais profunda tristeza tive-a no meio da manhã do dia 2 de Janeiro. Estava a tomar uma ducha quando ouvi pela Rádio Jovem Pan a notícia de falecimento de Gilberto Mendes, ocorrida na noite anterior. Lágrimas se misturaram à água do chuveiro e lembrei-me após, de meu telefonema ao Gilberto, em meados de Junho de 1995, comunicando-lhe a morte repentina de nosso grande amigo, o notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995). Gilberto teve de desligar seu aparelho, pois o pranto jorrou-lhe. Gilberto Mendes, o mais importante compositor brasileiro de música clássica ou de concerto destas últimas décadas. Também o criador em atividade mais divulgado pelo mundo.

Nosso relacionamento foi pleno por mais de trinta anos, sob a égide da música, mas onde não faltou a frequência às artes, à literatura e ao bem querer em sua acepção mais transparente. Caráter impoluto, generosidade para com todos os músicos que o procuravam para aconselhamento, amigo impecável, escritor de pena fácil e competente, crítico musical arguto, marido, pai, avô extremado e amante absoluto de sua geografia no planeta, sua Santos, porto seguro que o inspirou em muitas das mais importantes criações da música clássica ou de concerto que nosso país já conheceu.

N’um escrito In Memoriam a Gilberto Mendes sempre ficariam a faltar muitos elementos substanciais. Como não abordar o compositor irreverente e denunciador das mazelas e desleixos do governo? Vila Socó, meu amor é obra instigante, que faz o ouvinte não se esquecer da tragédia que se abateu sobre Cubatão aos 25 de Fevereiro de 1984, quando dezenas de pessoas morreram carbonizadas mercê da incúria administrativa. Outras tantas obras apontaram desacertos. Denunciava também, em sua coluna mantida durante décadas em “A Tribuna”, de Santos, a incultura de administradores quanto à Cultura, mas incentivava músicos que se apresentavam na cidade, mormente os jovens, faixa etária basicamente abandonada pela “crítica” de hoje em nossas cidades. Lutou também muitos decênios pela sobrevivência do “Festival Música Nova”, por ele criado. Assinou manifestos, polemizou, criou obras permanentes e tantas mais realizações que ampliam o significado da dignidade humana…

Preferi, nesta homenagem, a inserção de artigo publicado recentemente em Portugal na Revista Glosas (nº 13), em minha coluna “Ecos d’Além Mar”, pois o núcleo temático da revista, lançada em Novembro último, foi a ele dedicado. Lembro ao leitor que, no início de 2014, Edward Luiz Ayres de Abreu, Diretor de Glosas, e eu estivemos em Santos com o objetivo de entrevistar Gilberto Mendes para a publicação mencionada.

Transcrevo na íntegra meu texto publicado em “Ecos d’Além Mar”. Foi Gilberto que me aconselhou a escrever sobre nossa relação compositor intérprete, privilegiando as obras que apresento em público de 1985 ao presente. Nesse desiderato, escrevi o que segue, a ter como epígrafe frase precisa do grande Stravinsky, um dos eleitos de Gilberto Mendes, e que dimensiona essa absoluta simbiose entre o criador e aquele que traduzirá sonoramente a criação. Gostaria de frisar que já colocara minha posição sobre essa relação, sendo o intérprete o corredor de revezamento que passa o bastão para o próximo (nova geração) e o compositor de mérito o maratonista a correr percurso sem fim. A função do intérprete é transmitir a mensagem, mas a obra qualitativa, essa, permanece na história através dos séculos (“As Mortes do Intérprete”, Cultura de O Estado de São Paulo, 24/12,1988,pgs. 6 a 8).

“Ecos d’Além Mar” (Lisboa: Revista Glosas, 2015, nº 13):

“A entidade musical apresenta, pois,
essa estranha singularidade
de conter dois aspectos de existir simultânea e distintamente
sob duas formas, separadas uma da outra pelo silêncio do vazio.
Essa natureza particular da música comanda a sua vida própria
e suas repercussões na ordem social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o executante.
Igor Stravinsky

Um dos mistérios da criação seria a ideia que leva à composição e à provável divulgação. Qual a origem do pensamento primeiro que possibilita a elaboração? Estimulada ou autogerada, a ideia, à maneira de um leque, abre-se para a criação que é destinada à formatação pautada, manuscrita ou eletronicamente. O mistério em torno desse infinitesimal instante que precede a ideia teria basicamente três vertentes: o estímulo externo, o acervo cultural do compositor ou, ainda, o acaso.

Conheci Gilberto Mendes na década de 1970, quando descia de São Paulo à sua cidade natal, Santos, para recitais de piano. Encontros apenas casuais, sem consequências maiores. Nosso relacionamento estreitou-se quando ingressei na Universidade de São Paulo em 1982, onde fomos colegas desse ano até a sua reforma em 1992. Período de grande riqueza de entendimento, pois éramos os únicos que trazíamos marmitas para o almoço às quintas-feiras, dia das aulas de Gilberto. À mesa estreitamos laços amistosos e musicais, temas recorrentes em todas nossas conversas. Durante o dia, em momentos de descontração, Gilberto ia à minha sala e continuávamos a falar sobre música. Gostava de me ouvir tocar Fauré, Scriabine, Debussy e Albeniz. ‘Daria toda minha obra para ser o autor do 4º Noturno de Gabriel Fauré’, confessou-me.

Composições nasceram de nosso congraçamento. À medida que nos aprofundávamos na enriquecedora relação, Gilberto, sempre atento aos meus pedidos, passado algum tempo trazia-me cópia de nova partitura. Apresentei-as em público e gravei diversas na Bulgária e na Bélgica. À guisa de registro, menciono a lista, toda ela originária desse entendimento compositor-intérprete: Il Neige… de nouveau! (1985), alusão à célebre Il Neige!, de Henrique Oswald (vide Glosas nº 9 – núcleo temático dedicado a Henrique Oswald); Viva-Villa, homenagem a Villa-Lobos (1987) no ano de seu centenário. Trata-se de peça minimalista e uma das mais festejadas criações de Mendes pelo mundo. Um Estudo? Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul… (1989), composta para apresentações que realizei em Potsdam e Berlim, na antiga DDR, seis meses antes da queda do muro; Outro Estudo? Ainda Ulysses (1990), versão para piano solo de Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour para dez instrumentos; Lenda do Caboclo. A Outra (1992), como lembrança de A Lenda do Caboclo, de Villa-Lobos; Estudo Magno (1993), criação apresentada em minha Aula Magna na Universidade de São Paulo. Escreve Gilberto Mendes: ‘José Eduardo, como sempre, queria um estudo para sua coleção de estudos. Compus então um Estudo Magno, procurando certa magnitude, como pedia o título, do mais simples ao mais complexo, do bem tonal para o totalmente atonal, sempre no mesmo andamento, mas aumentando gradativamente a velocidade pelo valor das notas’. A seguir compôs O Pente de Istanbul. Um Outro (Estudo?) (1995), versão para piano solo de O Pente de Istanbul para percussão. Esta e a de Ulysses em Copacabana… surgiram, pois entendi serem as duas propícias ao piano solo, sendo que o dileto amigo assim também entendeu. A seguir nasce Estudo, Ex-Tudo, Eis Tudo pois – In Memoriam Jorge Peixinho (1997), composição gerada a partir do Étude Die Reihe-Courante, de Peixinho (1992). Gilberto Mendes, ao mencionar gravações de suas obras que realizei na Bélgica e lançadas em CD pela Academia Brasileira de Música, comenta: ‘esse CD inclui ainda  Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois, também pedido por José Eduardo, com o qual homenageamos um grande amigo comum, o compositor português Jorge Peixinho’.  Ao leitor, diria que nesse Estudo Gilberto Mendes se utiliza de elementos a gosto de  Peixinho – reminiscências de Darmstadt? -, dialogando com os seus: coral a privilegiar acordes que fazem parte do idiomático do compositor santista, citações tão ao seu agrado, entre as quais  lembranças dos Funerais de Liszt – obra que apresentei em recital na cidade de Santos dias antes da criação do In memoriam ao músico nascido em Montijo – e determinadas nonchalances jazzísticas. Gilberto Mendes comporia ainda Étude de Synthèse (2004). Comenta o autor: ‘José Eduardo curte bastante o que ele chama de os seus acordes quando fala comigo e me pediu um estudo novo para tocar em concertos na Europa, mas queria que fosse feito só com os tais de meus acordes, uma sequência deles. Tive dificuldades, a princípio, pois os meus acordes, afinal, são aqueles de todas as músicas modernas, as sétimas, as nonas, da música francesa, do jazz. Mas, como sempre, obedeci, e o próprio José Eduardo deu o título, Étude de Synthèse. Uma síntese de meus acordes, pinçados das muitas músicas que lhe dediquei, equalizados numa sequência em que se ligam abruptamente, massacrados pelo implacável compasso 9 por 8, como se todos constituíssem uma só linha muito longa. Um passeio pelo meu mundo harmônico’. Largo do Chiado (2008) é uma pequena peça com citações temáticas do fado A Severa, escrita para comemoração do cinquentenário de meu primeiro recital em Portugal (14/07/1959), na Academia de Amadores de Música em Lisboa, a convite do insigne Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Apresentei Largo do Chiado na mesma sala da AAM no dia 26 de maio de 2009.

Parte considerável das obras foi destinada ao meu projeto de Estudos para piano iniciado em 1985 e que conta até o presente com mais de 80 criações específicas, vindas de todos os quadrantes. Jocosamente, Mendes escreve: ‘Já compus vários estudos para o José Eduardo Martins, que não me deixa em paz, é insaciável, sempre quer mais um”. Só não escreveu que a ideia original partiu dele, ao elogiar o projeto de seu amigo, pianista e compositor Yvar Mikhashoff (1941-1993), que solicitou e recebeu cerca de 100 Tangos provenientes de tantos países, entre os quais The Three Fathers (1984), de Gilberto. Sem esses meus apelos para que compusesse Estudos, a Música estaria certamente privada de algumas obras-primas que nasceram a partir de nosso convívio.

Certo dia, almoçando no apartamento de Gilberto Mendes, em Santos, indaguei-lhe sobre suas composições para piano escritas no passado. Disse-me que eram sem importância e que estavam todas em um baú, mas que por elas não mais se interessava. Após insistência, sua dedicada esposa Eliane abriu a grande caixa de madeira e retirou de seu fundo um pacote cuidadosamente embalado. A primeira obra que abri foi a Sonatina Mozartiana (1951). Sentei-me ao piano e toquei para Gilberto. Ao final, ele disse: “Não é que ela é bonita!”. Gilberto Mendes relata essa prospecção arqueológica: ‘…sou-lhe grato por haver tocado toda a minha obra inicial, do período de minha formação praticamente autodidata, que estava esquecida nas gavetas. Cheguei, muitas vezes, a pensar em jogá-la fora… Sempre pensei em fazer uma revisão de todas essas peças muito antigas antes que alguém pudesse tocá-las, mas acabei não tendo tempo e José Eduardo acabou tocando-as em seu estado primitivo. Para surpresa minha verifiquei que elas não precisam de nenhuma revisão’. Continua, com uma ponta de ironia: ‘Quando jovens e desconhecidos, podemos levar a maior obra-prima a um intérprete, que ele nem se dignará a olhá-la (a não ser que seja um do tipo do José Eduardo Martins). Na minha idade tenho que cuidar muito do que apresento, porque qualquer porcaria que compuser será tocada’. Todo esse passado compôs um recital inteiro, que apresentei em várias cidades: Pequeno Álbum para Crianças (1945-1952), Sonatina Mozartiana (1951), Sonata (1953), 5 Prelúdios (1945-1953), 16 Peças para piano (1949-1959). Há verdadeiras joias nessa primeira fase gilbertiana. Dessas obras apresentadas gravei a Sonatina Mozartiana em Sofia, na Bulgária, apresentando–a regularmente em recitais. Já há várias outras gravações dessa deliciosa Sonatina Mozartiana realizadas por outros pianistas nos Estados Unidos, Europa e Japão.

Nosso relacionamento estendeu-se pelo repertório camerístico e piano e orquestra, pois apresentaria em público ao longo dos anos: Saudades do Parque Balneário Hotel (piano e saxofone alto), Longhorn (piano, trompete e trombone), Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour (flauta, clarineta, trompete, sax alto, 2 violinos, viola, violão, contrabaixo e piano); Cinco canções para canto e piano; Concerto para piano e orquestra; Rimsky (quarteto de cordas e piano), obra apresentada em tournée por várias cidades da Bélgica em 2004 (Rubio strijkkwartet). Ótimos músicos participaram das apresentações no Brasil de todas as obras precedentes.

Nos estertores da vida acadêmica de Gilberto Mendes incentivei-o a fazer o doutorado direto, uma das possibilidades para a obtenção do título e que faz parte da legislação da USP. Hesitou por várias vezes, mas aquiesceu e realizou uma tese extraordinária, que foi saudada pelo júri que tive a honra de integrar. Logo após Gilberto completaria 70 anos e estaria reformado. Sua tese, modificada, foi publicada pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp / Giordano) em 1994 em primorosa formatação como livro, Uma Odisséia Musical – Dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco.

Em 2013 Gilberto Mendes, compositor que teve sempre em mente títulos curiosos, quiçá desconcertantes para suas criações, mas que levam à reflexão, escreveu uma novela curta e instigante: Danielle em surdina, langsam (São Paulo, Algol, 2013). Na rubrica Ecos d’Além Mar de Glosas nº 11 escolhi como tema o pequeno livro de Gilberto em que há a presença do autor, consciente ou inconscientemente, como observador sempre atento a reter lembranças…

Neste número dedicado ao notável Gilberto Mendes, grande compositor que sempre compôs pelo prazer de compor e que se libertaria a tempo de amarras esterilizantes, criando um estilo rigorosamente pessoal, diria, verdadeiras impressões digitais – a escuta de suas diversificadas obras leva facilmente ao autor -, crítico competente, degustador do momento presente da existência, escritor amoroso e diletíssimo amigo, fica nestes Ecos d’Além Mar meu tributo carinhoso”.

As frases de Gilberto Mendes no texto acima foram extraídas de seus livros resenhados em meus blogs semanais: Uma Odisseia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco (13/10/2007); Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevsky (04/04/2009). Quanto à mencionada Danielle em Surdina, Langsam, a curta novela mereceu também resenha em post (06/04/2013).

A menção de episódio ocorrido em Gent, Bélgica, aos 17 de Março de 2008, dá bem a medida da comunicação total de peça emblemática de Gilberto Mendes. André Posman, diretor da De Rode Pomp, pediu-me, dois dias antes de meu recital em sua sala de concertos, que fizesse na manhã seguinte da minha apresentação um recital com obras menos densas e mais curtas para colegas de escola de seus dois filhos. Aquiesci com o maior prazer. Ao executar Viva-Villa, minimalista e plena de rítmica contagiante, fez-se a magia, pois espontaneamente os miúdos subiram ao palco e a peça de Gilberto foi sendo repetida algumas vezes. No final, mais de 50 crianças dançavam com gestos os mais diversos. Alegria plena. Em blog de 2008 escrevi sobre o encantamento daquela manhã e, ao contar -lhe o acontecido, Gilberto deu boas risadas. A foto é testemunha.

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano:

À-propos, a morte de Pierre Boulez (1925-2016), quatro dias após o falecimento de Gilberto Mendes, evidencia carreiras distintas. Boulez, francês, compositor, regente e ensaísta, fundador do IRCAM e do “Ensemble Intercontemporain”, foi talvez o mais influente músico da segunda metade do século XX, homem da Instituição, como defendia. Mendes frequentou Darmstadt em seu período áureo e teve contatos com Boulez. Diferentemente do compositor português Jorge Peixinho, que seguiu voluntariamente em sua carreira aconselhamentos de Darmstadt, Gilberto, também voluntariamente, soube pouco a pouco romper amarras, e o exemplo de Viva-Villa é claro, assim como de dezenas de obras após o gesto natural. A descontração gilbertiana – não confundir com desconstrução – tornar-se-ia uma de suas características primordiais. Foi a atitude voluntária que levou a criançada ao palco.

Gilberto Mendes lega-nos um acervo composicional extraordinário. Frequentou muitos gêneros musicais, “experimentou” várias tendências, inclusive com a utilização de meios da eletroacústica. Quanto às técnicas de composição, conhecia-as, e da tradição seu passado é testemunha. Aberto às artes, apreendeu conteúdos de correntes poéticas mais hodiernas, amalgamando-as, com raro êxito, às suas estruturas musicais. Gilberto recebera das musas um fino humor, por vezes irônico, que transparecia em tantas criações a partir de titulações hilariantes. Após a aposentadoria continuamos contatos permanentes e visitei-o várias vezes para almoços que emanavam a amizade sincera. A dedicadíssima esposa Eliane viveu quarenta anos ao seu lado, “uma segunda mãe”, como escreveu Gilberto na dedicatória de Uma Odisseia Musical, com ele viajando – sempre – pelo mundo quando das apresentações de suas composições. Pude sempre testemunhar com admiração a atenção absoluta que dispensava a Gilberto, que exalaria o último suspiro em seus braços amorosos. Seus filhos do primeiro casamento notabilizaram-se em áreas artísticas. Odorico e Carlos estiveram sempre próximos do insigne compositor, prestigiando-o e promovendo-o. Sinto que perdi uma referência fundamental em minha vida. Friso, essencial. No caminho que porventura ainda terei de trilhar, sua companhia é certa, através das tantas obras que privilegiam minha trajetória e que continuarei a tocar, aqui e alhures. Conforto espiritual e estético. Gilberto, um dos meus compositores eleitos. Gratidão ad eternum

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano a peça in memoriam Jorge Peixinho:

Today’s post is dedicated to Gilberto Mendes (in memoriam), a dear friend for more than thirty years, witty music critic and writer and, in my view, one of the most important Brazilian composers ever. I am honored to have presented the world première of a great number of his works, many of them generously dedicated to me. In tribute to him, I transcribe my article published on last November’s issue of the Portuguese music magazine Glosas, largely dedicated to Gilberto Mendes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.