Navegando Posts publicados por JEM

Estímulo para Nova Categoria

Não force a arte, não force a vida,
nem o amor, nem a morte.
Deixe que tudo suceda como um fruto maduro
que se abre e lança no solo as sementes fecundas.
Que não haja em si, no anseio de viver,
nenhum gesto que lhe perturbe a vida.
Agostinho da Silva

É fato claro que determinada decisão somente surja após estímulo.  Seria possível entender que resoluções amadurecem a partir de simples sugestão ou até pelo acaso. Incontáveis as obras criadas através da história depois de impulso estimulante. É este incentivo que teria faltado a tantas criações que, estioladas, não chegaram à luz.

Fiquei surpreso com o número de e-mails recebidos, particularizando as apreciações que escrevi ultimamente sobre gravações. Até então não o fizera, a observar uma postura ética como intérprete frente às gravações de outros pianistas. Assim como abstive-me de escrever certas resenhas de livros que chegavam às minhas mãos enviados pelo saudoso Nilo Scalzo, e que teriam como destino o extinto suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”, assim também evito escrever em meu blog sobre livros recomendados que, às primeiras páginas, levam-me à desistência ou, então, sobre outras manifestações artísticas que não me atraem. O meu blog, ininterrupto há mais de oito anos e meio, sem qualquer apoio ou propaganda, dá-me as asas da não concessão que conduz às minhas próprias escolhas. Continuo a acreditar que a independência é sempre salvaguarda maior da consciência. Se a atitude é certa ou não, ela é pessoal e não sofre pressão alguma, sujeita unicamente à minha consciência. A lista de livros resenhados neste espaço é longa e o leitor tem acesso através do menu, no item “Livros – Resenhas e Comentários (lista)” . Todas as obras lidas pelo único motivo de querer lê-las. Nenhum outro.

Brevemente abrirei item novo, pois a guarida dos leitores a três recentes comentários de CDs entusiasma-me. Contudo, confesso, só escreverei se realmente entender tal registro fonográfico realmente inusitado quanto à interpretação, ao repertório e ao propósito ao qual se destina, entenda-se, qualitativo, sempre.

Quanto à periodização dos posts específicos e críticos relativos às gravações, tenciono escrevê-los com certa frequência, sem fixá-los no calendário, e a abranger, preferencialmente no momento atual, gravações que para mim tiveram a chama da revelação interpretativa. Refiro-me aos intérpretes do passado que mais e mais estão sendo lembrados em ótimos lançamentos e que revelam a tradição mantida em seu nível mais elevado. Se a gravação recente for de meu inteiro agrado, certamente escreverei, como o fiz para os CDs de Sérgio Monteiro, Sebastian Benda e António Rosado.

Os comentários estimulantes sobre críticas e observações recentes que escrevi sobre gravações e que chegaram à minha caixa de e-mails majoritariamente são curtos,  trazendo-me o prazer da descoberta por parte do leitor e votos de continuidade. A todos fica meu profundo agradecimento. Igualmente, minha gratidão ao dileto amigo Magnus Bardela, que há anos apontava o direcionamento a que me proponho doravante.

O CD Oswald, gravado pelo pianista Sérgio Monteiro (vide: Obras para piano de Henrique Oswald, 07/11/2015), mereceu, entre outros comentários, os de dois bisnetos de Henrique Oswald.

Escreve Thomaz Oswald:

“Temos a satisfação de fazê-lo saber de que o CD, que recebemos do Sérgio Monteiro, já foi incluído na relação (incompleta) de gravações H.Oswald, no site da família. Belíssima apreciação (blog). Obrigado. Também gostei muito do CD e dois movimentos do op. 3 estão disponíveis para audição: um no próprio site (www.oswald.com.br) e outro no mini-site do CD (através do link). A propósito, o quadro de Henrique Oswald (que está comigo) e que está no livreto interno do CD (e foi colocado por você no blog) foi por mim enviado ao Sérgio. Também gostei muito da qualidade da gravação e do resultado final do CD, assim como do virtuosismo que o Sergio imprimiu em certas passagens – principalmente no op. 3. Concordo com você em tudo”.

Sinto-me lisonjeado com as palavras da filha de minha dileta e saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor. Escreve Maria Clara Porto:

“Vi que você gostou muito do CD gravado pelo Sergio Monteiro…! Parece que é muito bonito, ainda não escutei… ele ficou feliz com sua crítica, pelo que meu primo Thomaz me passou, te nomeia ‘maior sumidade em Henrique Oswald’! E você é!”

Do excelente pianista Sérgio Monteiro recebi o e-mail:

“Obrigado pelo apoio desde o início deste projeto e pelo carinho da recomendação do CD. Espero que este contribua para a divulgação e apreciação da obra de Oswald. Aqui nos EUA, o público vem apreciando imensamente. As pessoas estão ávidas por ouvir obras novas de real beleza, e isso faz com que se abra um espaço grande para os românticos pouco conhecidos”.

Selecionei dois e-mails relativos ao comovente álbum de CDs com gravações do ilustre pianista suíço Sebastian Benda (vide Sebastian Benda – 1926-2003, 21/11/2015).

A dedicada viúva do pianista, Luzia Benda, envia notícias:

“A sua apreciaçāo detalhada sobre a interpretaçāo das obras gravadas demonstra um grande conhecimento, tanto histórico como estilístico, e também uma grande sensibilidade, reconhecendo os valores musicais e humanos inerentes à personalidade de Sebastian”.

Do compositor e pensador francês François Servenière, que frequenta meu blog sempre de maneira arguta, recebi a mensagem:

“Acabo de ler o seu artigo sobre Sebastian Benda, que eu conhecia de nome, mas nada de sua brilhante carreira. Personalidade de forte interesse e de enorme talento. Suas interpretações são magníficas, plenas de virtuosidade e de clareza. Particularmente apreciei a sua concepção agógica em In der Nacht das Fantasiestücke op. 12, de Robert Schumann. Seu domínio e pulsação rítmica na peça de Villa-Lobos, Dança do índio branco, do Ciclo Brasileiro, impressionam (links conduzem à audição dessas obras no blog acima mencionado). Causou-me impacto o percurso musical de Sebastian Benda. Há muitos artistas célebres, sobretudo hoje com a força da mídia e dos mecanismos do show business. Quantos são essenciais, quantos apreendem a fonte milenar, quantos são autênticos em seu caminhar humanístico? Espanta-me sempre a sua capacidade de encontrar e estar em contato com personalidades marcantes de nossa arte e de nossa época contemporânea. Não tenho dúvidas de que, se você tivesse vivido no começo do século XX, teria encontrado Fauré, Debussy e Ravel… Você tem o senso da verdade em arte e essa intuição permite-lhe nunca errar sobre a essência, sobre o objetivo último da música. A idolatria, permanente tentação de traição do essencial, resultado do abusivo incenso sobre artistas stars, mostra-se sempre atual, hélas. É, pois, fundamental o que o amigo faz, lembrar os exemplos dignificantes, a entender que o dinheiro é necessário, mas não pode ser o centro, apenas o meio. Quando ele se torna o eixo, a sociedade se corrompe e os povos acabam mal.

É necessário continuar ardentemente a encorajar a genealogia dos artistas essenciais, nem sempre os mais célebres, mas certamente aqueles que sustentam as principais vertentes das artes. Aquelas de que nossos sucessores continuarão a utilizar-se para aceder à excelência, esse farol potente que ilumina a humanidade” (tradução: JEM).

Sobre o último blog (“Músicas Festivas” de Fernando Lopes-Graça), duas mensagens vindas de Portugal apenas enriquecem o que foi exposto.

Sílvia Camilo, uma das organizadoras do projeto “Músicas Festivas” para piano, escreve:

“Foi com imensa alegria que recebemos a notícia deste artigo no seu blogue. Muito obrigada! Ficamos muito orgulhosos por merecer essa atenção, claro. Espero não estar enganada quando afirmo que na ‘minha’ música, a nº 2, ‘Para os 3 anos da Sílvia’ está lá, na parte mais melancólica, o ‘Epitáfio para uma donzela’, de 1930. Também acha? Vamos aproveitar para divulgar o seu blogue e website. Mais uma vez obrigada!

Um forte abraço,
A equipa das Músicas Festivas,
Sílvia”.

Quanto à semelhança das “músicas”, seria possível entender certa aproximação, pois estruturas e determinados contornos melódicos integram o idiomático de Lopes-Graça. Reinventa-os constantemente durante a efervescência criativa.

Maria Celestina Leão Gomes, Presidente da Associação Lopes-Graça sediada em Lisboa, assim se pronuncia, a esclarecer, inclusive, um dos temas marciais utilizados pelo compositor, que se encontra no link postado no blog “Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”:

“Comentários excelentes os seus. As músicas são celestiais. A inclusão de um excerto de ‘Grândola Vila Morena’ na ‘Música Festiva nº 20′ – ‘Para os 70 anos de Vasco Gonçalves’ marca bem a gratidão de um pelo outro. Dois grandes homens como que a se abraçarem numa despedida transitória e cheia de esperança. Imortalizados deveriam ser os que, com o seu trabalho, saber, talento e amor, entregam-se às coisas e causas que enobrecem as pessoas, as sociedades ou mesmo a Humanidade”.

Sobre o último blog, que abordou as “Músicas Festivas”, de Fernando Lopes-Graça, Servenière tece reflexões, como habitualmente o faz:

“Endosso sua admiração por Lopes-Graça. Evidentemente não é meu universo estético, pois ele corresponde a uma outra época, aquela situada entre 1945 e 1980. As ideias artísticas deviam lutar contra outras forças, no seu caso, o Estado Novo (1933-1974). Os tempos mudaram, mas admiro sua escrita musical, a força de suas ideias e suas articulações. Elas só são possíveis num grande mestre, mesmo que o conjunto de sua obra tenha um viés que eu diria sombrio e torturado, por vezes. Faz-me pensar em alguns pontos encontráveis na produção de Olivier Messiaen. Os dois foram submetidos a pressões que permanecem em suas criações, Lopes-Graça, monitorado durante décadas pelos agentes salazaristas e sofrendo o constrangimento das prisões; Messiaen, prisioneiro em um stalag (1940-1941). Nas situações ditatoriais que vivem certos países no curso da história, a ignomínia ronda de perto os indivíduos, sobretudo aqueles independentes, livres e solitários. A sociedade tem necessidade de encontrar bodes-expiatórios. Creio que Graça e Messiaen jamais puderam, consequência dessas horríveis condições, distanciar-se dessa realidade em suas composições e foram por elas condicionados. Como lutar contra? A arte permite dizer o inefável. Os dois mestres denunciaram os crimes a que foram submetidos através do estilo idôneo, preciso. Nossa geração e aquelas que virão deverão mostrar, até próximos cataclismos que certamente virão, que existe também um caminho iluminado e que tudo não é sombrio na vida, que existe a esperança e que a vida acaba sempre por vencer o niilismo e a morte”.

Ratifico meu agradecimento a todos os que enviaram mensagens alentadoras. Não me esquecerei da preciosa motivação.

My brief overview of music albums in recent blogs got much feedback from readers, serving as an incentive to add a new category to my posts: comments about great masters of the past or high quality present and past repertoires, sometimes forgotten nowadays. Today I transcribe e-mail messages from readers with their own views on the albums addressed in newly published posts.

 

 


CDs, DVDs e Partituras

As obras de Lopes-Graça são enigmas.
Por isso o seu fascínio aumenta com o decurso do tempo.
É extraordinária a resistência que oferecem à interpretação -
não só interpretação musical
no sentido da execução (performance),
mas também interpretação
no plano da recepção pelo ouvinte (aesthesis).
Não se deixam apreender ou captar no já conhecido.
Daí a energia que delas se vai libertando,
de audição para audição, de execução para execução.
Há sempre uma nova perspectiva que antes nos escapara,
uma nova dimensão por descobrir.
Mário Vieira de Carvalho

Não foram poucas as vezes que abordei neste espaço a obra do grande compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). O autor deixou uma produção das mais significativas, incursionando em inúmeros gêneros destinados à música instrumental, camerística, orquestral e coral, mormente à música para piano, seu instrumento eleito. Infelizmente pouquíssimo conhecido no Brasil, Lopes-Graça tem granjeado renome acentuado nos últimos anos no hemisfério norte,  que o coloca entre os maiores compositores dos três últimos quartos do século XX.

Todo autor de talento tem suas impressões digitais impregnadas em cada criação, caracterizando a identidade insofismável e o estilo. Os que permanecem na história têm essas marcas inconfundíveis. A obra do notável é distinguida logo aos primeiros acordes e toda a inventiva que se segue apenas ratifica a certeza do gênio ou do grande talento. Há a necessidade imperiosa do domínio da escrita, precedido do almejo, compartimento este onde fluem as ideias que são rigorosamente distintas em cada compositor maior. Este elege preferências, estrutura sua arquitetura musical, acalenta-a em suas vestimentas diversas, privilegiando o abstrato ou o imagético que possa insistentemente acompanhá-lo, não se descartando o acaso.

Lopes-Graça é um caso típico do amálgama. Se a austeridade voltada ao abstrato quanto aos títulos percorre um sem número de suas obras, como as seis extraordinárias Sonatas e os 24 Prelúdios para piano, numa exemplificação sumária, o olhar de Graça tem a argúcia e o ato amoroso do guardar. A observação será o motivo a impulsionar a ideia musical, a criação e o versar para o papel pautado a genialidade. Dir-se-ia, num plano metafórico, que esse olhar alia o precisão fixada pelo lince ao multidirecionamento característico do periscópio de que é munido o camaleão. Lopes-Graça apreende o au-delà da imagem, metamorfoseia um local físico, dando-lhe grandeza, perscruta a alma de personagens, dimensionando a caminhada dessas figuras queridas – familiares ou amigas – pela História. Assim agiu ao compor os dois cadernos de Natais Portugueses ou os quatro das Músicas Rústicas. Assim também procedeu ao criar Viagens na Minha Terra, a partir da leitura de livro homônimo de Almeida Garrett, ou ainda, numa expansão geográfica extrafronteiras portuguesas, Cosmorama. Assim agiria em duas coleções fundamentais voltadas aos que pulsam ou àqueles que se foram.

No substancial repertório pianístico de Lopes-Graça encontram-se duas séries antagônicas, distintas na criação, no conteúdo, na destinação e no mood. Uma reverencia a vida desde o nascimento, glorificando as núpcias e saudando companheiros de trajetória. Refiro-me às coletâneas das 23 Músicas Festivas (1962-1994) e das nove Músicas Fúnebres (1981-1991), estas  rendendo homenagem a diletos amigos e admiradas figuras que partiram. Ambas as coleções, transcendentais na feitura.

As 23 Músicas Festivas, contraste absoluto às Músicas Fúnebres, são obras de invulgar textura. Gravadas em 2012 pelo notável pianista António Rosado, que anteriormente já prestara essencial contributo à criação de Fernando Lopes-Graça ao registrar fonograficamente as oito suítes In Memoriam Bela Bartok e as seis Sonatas, aceitou o singular desafio e apresenta em magnífica interpretação a coletânea completa (2 CDs). Sempre com o incentivo da incansável Sílvia Camilo, dedicatária de uma das peças da coleção, houve por bem a organização dos CDs – produção Nuno Cardoso -, o lançamento de dois DVDs contendo, o primeiro, o magnífico recital de António Rosado, precedido da apresentação do professor Ruy  Vieira Nery, evento realizado no Centro Cultural de Belém aos 16 de Dezembro de 2012. Num segundo DVD, há entrevistas com os dedicatários, descendentes e amigos. Alguns excertos históricos, filmados com a presença de Lopes-Graça em circunstâncias do cotidiano, enriquecem o projeto, que teve o corolário representado pelas partituras impressas em quatro cadernos (AvA Musical Editions, 2012).

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para as bodas de José Pedro e da Paula”

Comecemos pela obra editada criteriosamente e com a revisão de Rosado. O texto do pianista e musicólogo João Espírito Santo elucida a divisão em quatro volumes a partir dos dedicatários. O número um, “Para crianças”, contém seis Músicas, a focalizar miúdos beirando até o primeiro lustro, e mais a intrigante Para um “canarito” recém nascido. Sílvia Camilo, filha do saudoso Viriato Camilo, é lembrada na Música 3, Para os três anos da Sílvia. O segundo volume, “Para Bodas e outros Festejos”, agrupa sete Músicas Festivas. Claude Debussy, em La Boîte à Joujoux para piano (1913), introduz a assim conhecida Marcha Nupcial de Mendelssohn, a comemorar o casamento da boneca com o soldado. Em sua 21ª peça, Para as Bodas de José Pedro e da Paula, Lopes-Graça também irá lembrar-se da consagrada marcha. José Pedro, festejado pelo compositor em seu primeiro natalício (Música 3), é-o também na dedicada à celebração que dá início ao convívio conjugal. O agrupamento do terceiro volume leva o título “No aniversário de jovens amigos”. Lopes-Graça sempre estimulou o músico emergente. Não desmente a assertiva ao se lembrar de Maria Alina, Nuno Barroso, do próprio João Espírito Santo em seus 15 anos e os 18 do também pianista Miguel Borges Coelho. Estímulo que teve consequências exitosas. Como esquecer o convite de Lopes-Graça ao jovem que eu fui para um primeiro recital em Lisboa na Academia de Amadores de Música, aos 14 de Julho de 1959? Num quarto volume, “No aniversário de velhos companheiros”, lembrar-se-á de amigos de longa data em seus natalícios, que vão dos 66 aos 90 anos de idade, caso da grande amiga e ilustre crítica e musicóloga Francine Benoît, pranteada que será na Música Fúnebre número 7, Moimento a Francine Benoît. Quanto à dedicada a Vasco Gonçalves, general que foi Primeiro-ministro de Portugal (1974-1975), Lopes-Graça recordar-se-á de Jornada, poesia de José Gomes Ferreira musicada pelo compositor e que faz parte das Marchas, Danças e Canções (Seara Nova, 1946). O tema da marcha também é encontrado na Música Fúnebre nº 3, Morto, José Gomes Ferreira, vais ao nosso lado”

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”

Músicas Festivas apresentam uma armadilha. O título poderia sugerir obras de circunstância apenas, mercê das dedicatórias, por vezes singelas, mas nunca desprovidas de razão. A coletânea tem cumeeiras da mais absoluta virtuosidade, e elas são muitas, possíveis de serem realizadas por pianistas da mais alta estirpe. A transcendência em tantos segmentos, o lirismo inerente em não poucas passagens, a puerilidade latente quando se volta à criança e o domínio absoluto e multi-direcionado de uma escrita pessoal, mas que não esquece compositores eleitos e expressamente admirados em sua pena como literato, fazem-no o nome maior da música em Portugal do século XX, quiçá de sua história.

A escolha de António Rosado para projeto tão ambicioso que resultou amplamente, não poderia ser mais adequada. Certamente um dos mais importantes pianistas de toda a trajetória do piano em Portugal, intérprete respeitado do repertório sacralizado e que tem prestado contributo insofismável, através de gravações referenciais, ao grande Fernando Lopes-Graça.

Quanto às mencionadas Músicas Fúnebres, obra de profunda austeridade, foram por mim gravadas na Bélgica (2010) para o selo PortugalSom/Numérica em álbum (2CDs) com outras composições de Lopes-Graça e lançado em 2012 em Portugal.

Finalizo a ratificar o desconhecimento quase absoluto que se tem no Brasil da monumental obra de Fernando Lopes-Graça. As Sociedades de Concerto insistem na mesmice e apenas a complacência as faz introduzir alguma obra nova que, geralmente, não será mais repetida. A profícua e importante obra coral do ilustre compositor português não frequenta repertórios e os pianistas pátrios passam ao largo por uma das mais significativas produções para piano do século XX. É preciso que mentes se abram…

This post addresses the album (two CDs and two DVDs) recorded by the great Portuguese pianist António Rosado with the 23 Músicas Festivas (Festive Pieces) composed for piano by Fernando Lopes-Graça and dedicated to friends to celebrate special occasions. Interviews with the pieces’ dedicatees or their descendants enrich Rosado’s work.

 

 

 

 

Dualidade Perigosa

Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
Há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.
Cecília Meirelles

Os terríveis acontecimentos ocorridos em Paris na noite de 13 de Novembro aterrorizaram um país que poderia até acreditar que os atos terroristas contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, aos 7 de Janeiro deste ano, pudessem ser apenas consequência de charges ofensivas ao profeta Maomé. A ação contra o semanário estava longamente urdida e o lamentável episódio já deveria ser entendido pelos mentores da tragédia como um extraordinário meio de divulgação. E o foi.  Houve comoção mundial e os milhões que acorreram às ruas testemunharam solidariedade com o povo francês. Contudo, os derradeiros passos do terror seguem uma estratégia nítida, calculada, pragmática, radical, a ter como desiderato a submissão e destruição da cultura ocidental. Deveras é o terrorismo islâmico uma ação basicamente voltada à França? É-o, na medida que o país abriga hoje vários milhões de muçulmanos e, com a imigração desenfreada que ocorre, logicamente terá essa quantidade aumentada; e é-o, se considerado for que há um número desconhecido de terroristas infiltrados em solo francês, nascidos em França, pertencentes à comunidade islâmica laboriosa e confundindo o cotidiano parisiense nos recentes casos. Inimigos ocultos provocando a catástrofe.

Tenho acompanhado diversos artigos publicados, sobretudo em França e na Inglaterra, e conversado com amigos nativos que vivem na Europa. Opiniões contrastam ao considerar o contingente oriundo da África do Norte e do Médio Oriente como pacífico. Foge das atrocidades que pululam em várias regiões, contudo não se refugiam em países muçulmanos, e há dezenas deles. Razões existem, e a primordial é a total ausência de democracia nesses países, todos sujeitos aos regimes ditatoriais. Um vídeo húngaro recente focaliza imigrantes das regiões assoladas por guerras e desajustes, fora de um comboio, todos homens da juventude madura, não aceitando garrafas de água para os passageiros, chutando-as ou jogando-as diretamente nos trilhos. Razão, continham no rótulo a Cruz Vermelha da organização humanitária. Preocupante presságio, pois demonstram a total intolerância com o símbolo do cristianismo, religião dominante na Hungria, país que os estava recebendo, ao menos de passagem. O precioso líquido não chegou às crianças, mulheres e idosos. É fato que o agigantar terrorista acentuou-se durante e após as ações desastrosas dos ex-presidentes Bush (pai e filho) e da presente e pusilânime gestão Obama. Recrudesce a tensão, acirra-se a intolerância de muitos jovens nascidos na Europa, mas muçulmanos, e de outros tantos que estão a chegar em ondas contínuas. A aceleração, sem possibilidade de estancamento a médio prazo, dessa inédita “invasão” e o recrutamento (lavagem cerebral) de milhares de crianças e jovens para atividades insanas, tanto in loco como em França e na Bélgica desnortearam o Ocidente. E o que dizer dos “estagiários” que se dirigem à Síria e ao Iraque para se juntarem aos fundamentalistas do EI. Tenho amigos diletos marroquinos e descendentes que vivem na Bélgica e se integraram muitíssimo bem ao país que os abrigou. Contudo, há os intolerantes, e a mais absoluta preocupação está a se instalar nas populações da Bélgica, da França e de outros países da Europa, como também dos Estados Unidos.

Voltando-se ao autoproclamado Grupo Estado Islâmico, está ele disperso e muitos são os aglomerados terroristas espalhados pelo norte da África e pelo Médio Oriente, o que torna bem mais difícil uma incursão terrestre. Teriam de ser muitas frentes de infantaria. A derrocada dos USA na Guerra do Vietnã (1955-1975) não foi também pelo fato de que os “inimigos” surgiam de todos os lados, inclusive cavando túneis? É só lembrarmos da grande base norte-americana de Da Nang e das incursões subterrâneas dos vietcongs, mormente à noite. Mas, no caso do EI deve haver um cérebro, um líder a difundir decisões, tanto nos extermínios de inimaginável barbárie, in loco, dos “prisioneiros” que professam outras crenças, como no doutrinamento de crianças e na “escravidão” das mulheres. Espalhar o terror faz parte dessa engrenagem que revive os períodos mais obscurantistas da história. O Boko Haram na Nigéria declarou lealdade ao EI, outros grupos que espalham o terror na Somália, no Iêmen e outras terras devem ter já professado “obediência”, o que induz a pensar nesse “cérebro” que comanda atos terroristas. Seria possível acreditar num líder com colegiado rigorosamente amestrado. Ele deve existir, tem nome. Ratificando, quantos já não são os militantes infiltrados nessa leva que “invade” a Europa, impulsionados por essas lideranças ocultas?

Em França, o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” tem sua origem no primeiro artigo da “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen”, de 1789, ano da Revolução Francesa. Explicitado bem posteriormente na “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, de 1948, também em seu primeiro artigo. Nenhum país ocidental apreendeu de maneira mais ampla o tríptico do que a própria França, que o criou. Seria possível entender que esse extraordinário lema, orgulho do povo francês, esteja hoje, devido à abertura que é característica da França, sendo uma das causas do acúmulo de atentados. As três palavras sacralizadas jamais serão captadas em sua essência essencial por fanáticos que, nascidos em solo francês, dirigiram-se às tendências aniquiladoras. A lavagem cerebral existe desde a antiguidade e, para aqueles que a ela são submetidos, ignorar quaisquer princípios humanitários e de liberdade é “lei”.

A apreciação deste lado sul do Atlântico leva-me a considerar um fato irresponsável e, sobretudo, a revelar desprezo pleno pela cultura tradicional. Após os atentados de 13 de Novembro, o jornal satírico Charlie Hebdo tem publicado charges com dizeres atestando diferenças conceituais profundas, mas provocativas, pois nestes divulgam  que, enquanto o EI tem armas, a França tem Champanhe e mulheres fáceis. Numa das secções do hebdomadário, “En Kiosque”, (18/11), há uma charge “Paris, capitale de la perversion. Faites la perversion, pas la guerre”. A charge apresenta um casal despido a sorrir e o homem a salientar o dedo médio em posição ofensiva. Não tem o semanário a procuração de notáveis franceses que forjaram a cultura do país através dos séculos, como Ronsard, Descartes, Molière, Corneille, Racine, La Fontaine, Voltaire, Couperin, Rameau, Berlioz, Delacroix, Victor Hugo, Balzac, Monet, Gaughin, Cézanne, Rodin, Matisse, Eiffel, Pasteur, Pierre Curie, Fauré, Debussy, Ravel, Verlaine, Mallarmé, Saint-Exupéry, Bernanos, Malraux, Jankélévitch e uma infinidade, friso, infinidade de grandes vultos, testemunhando que os valores essenciais franceses são outros, humanistas, artísticos e científicos e que colocam a França num patamar criativo rigorosamente singular. Sim, a mulher fácil, a perversão e a libertinagem existem em França e em todos os recantos do planeta; e o Champagne (em charge recente) é delicioso produto, mas produto. Demonstra o semanário leviandade a desprezar consequências fatais. Pseudo-humor, de mau gosto, inoportuno e reducionista. Não seriam esses os elementos fulcrais para a realização dos atos insanos terroristas, mas sem dúvida são provocativos. Estariam a evidenciar que o semanário teria perdido o rumo.

Infelizmente a França estará sujeita a futuros atos atrozes, hélas. As células cancerosas se expandem em metástase, pois no interior do país. Não há consenso quanto ao tratamento, mas ele tem de ser imediato e sem tréguas. A França sempre soube reagir, seu povo preza valores culturais, ora ameaçados. Esperemos que a presidente do Brasil, que há pouco mais de um ano, na abertura das sessões da ONU, propunha um “diálogo” com os terroristas do EI, tenha uma outra postura e se coloque à disposição, juntamente com importantes líderes de países do hemisfério norte que já se pronunciaram, para a ação conjunta, diplomática que seja. Esperemos…

The reflections of someone living on the other side of the Atlantic on the terrorist attacks last 13 November in Paris, something the press has been describing as a clash between religious extremism and free speech – a threat to the entire world, not only to France – and the deplorable provocations staged by the satirical newspaper Charlie Hebdo.