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CDs, DVDs e Partituras

As obras de Lopes-Graça são enigmas.
Por isso o seu fascínio aumenta com o decurso do tempo.
É extraordinária a resistência que oferecem à interpretação -
não só interpretação musical
no sentido da execução (performance),
mas também interpretação
no plano da recepção pelo ouvinte (aesthesis).
Não se deixam apreender ou captar no já conhecido.
Daí a energia que delas se vai libertando,
de audição para audição, de execução para execução.
Há sempre uma nova perspectiva que antes nos escapara,
uma nova dimensão por descobrir.
Mário Vieira de Carvalho

Não foram poucas as vezes que abordei neste espaço a obra do grande compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). O autor deixou uma produção das mais significativas, incursionando em inúmeros gêneros destinados à música instrumental, camerística, orquestral e coral, mormente à música para piano, seu instrumento eleito. Infelizmente pouquíssimo conhecido no Brasil, Lopes-Graça tem granjeado renome acentuado nos últimos anos no hemisfério norte,  que o coloca entre os maiores compositores dos três últimos quartos do século XX.

Todo autor de talento tem suas impressões digitais impregnadas em cada criação, caracterizando a identidade insofismável e o estilo. Os que permanecem na história têm essas marcas inconfundíveis. A obra do notável é distinguida logo aos primeiros acordes e toda a inventiva que se segue apenas ratifica a certeza do gênio ou do grande talento. Há a necessidade imperiosa do domínio da escrita, precedido do almejo, compartimento este onde fluem as ideias que são rigorosamente distintas em cada compositor maior. Este elege preferências, estrutura sua arquitetura musical, acalenta-a em suas vestimentas diversas, privilegiando o abstrato ou o imagético que possa insistentemente acompanhá-lo, não se descartando o acaso.

Lopes-Graça é um caso típico do amálgama. Se a austeridade voltada ao abstrato quanto aos títulos percorre um sem número de suas obras, como as seis extraordinárias Sonatas e os 24 Prelúdios para piano, numa exemplificação sumária, o olhar de Graça tem a argúcia e o ato amoroso do guardar. A observação será o motivo a impulsionar a ideia musical, a criação e o versar para o papel pautado a genialidade. Dir-se-ia, num plano metafórico, que esse olhar alia o precisão fixada pelo lince ao multidirecionamento característico do periscópio de que é munido o camaleão. Lopes-Graça apreende o au-delà da imagem, metamorfoseia um local físico, dando-lhe grandeza, perscruta a alma de personagens, dimensionando a caminhada dessas figuras queridas – familiares ou amigas – pela História. Assim agiu ao compor os dois cadernos de Natais Portugueses ou os quatro das Músicas Rústicas. Assim também procedeu ao criar Viagens na Minha Terra, a partir da leitura de livro homônimo de Almeida Garrett, ou ainda, numa expansão geográfica extrafronteiras portuguesas, Cosmorama. Assim agiria em duas coleções fundamentais voltadas aos que pulsam ou àqueles que se foram.

No substancial repertório pianístico de Lopes-Graça encontram-se duas séries antagônicas, distintas na criação, no conteúdo, na destinação e no mood. Uma reverencia a vida desde o nascimento, glorificando as núpcias e saudando companheiros de trajetória. Refiro-me às coletâneas das 23 Músicas Festivas (1962-1994) e das nove Músicas Fúnebres (1981-1991), estas  rendendo homenagem a diletos amigos e admiradas figuras que partiram. Ambas as coleções, transcendentais na feitura.

As 23 Músicas Festivas, contraste absoluto às Músicas Fúnebres, são obras de invulgar textura. Gravadas em 2012 pelo notável pianista António Rosado, que anteriormente já prestara essencial contributo à criação de Fernando Lopes-Graça ao registrar fonograficamente as oito suítes In Memoriam Bela Bartok e as seis Sonatas, aceitou o singular desafio e apresenta em magnífica interpretação a coletânea completa (2 CDs). Sempre com o incentivo da incansável Sílvia Camilo, dedicatária de uma das peças da coleção, houve por bem a organização dos CDs – produção Nuno Cardoso -, o lançamento de dois DVDs contendo, o primeiro, o magnífico recital de António Rosado, precedido da apresentação do professor Ruy  Vieira Nery, evento realizado no Centro Cultural de Belém aos 16 de Dezembro de 2012. Num segundo DVD, há entrevistas com os dedicatários, descendentes e amigos. Alguns excertos históricos, filmados com a presença de Lopes-Graça em circunstâncias do cotidiano, enriquecem o projeto, que teve o corolário representado pelas partituras impressas em quatro cadernos (AvA Musical Editions, 2012).

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para as bodas de José Pedro e da Paula”

Comecemos pela obra editada criteriosamente e com a revisão de Rosado. O texto do pianista e musicólogo João Espírito Santo elucida a divisão em quatro volumes a partir dos dedicatários. O número um, “Para crianças”, contém seis Músicas, a focalizar miúdos beirando até o primeiro lustro, e mais a intrigante Para um “canarito” recém nascido. Sílvia Camilo, filha do saudoso Viriato Camilo, é lembrada na Música 3, Para os três anos da Sílvia. O segundo volume, “Para Bodas e outros Festejos”, agrupa sete Músicas Festivas. Claude Debussy, em La Boîte à Joujoux para piano (1913), introduz a assim conhecida Marcha Nupcial de Mendelssohn, a comemorar o casamento da boneca com o soldado. Em sua 21ª peça, Para as Bodas de José Pedro e da Paula, Lopes-Graça também irá lembrar-se da consagrada marcha. José Pedro, festejado pelo compositor em seu primeiro natalício (Música 3), é-o também na dedicada à celebração que dá início ao convívio conjugal. O agrupamento do terceiro volume leva o título “No aniversário de jovens amigos”. Lopes-Graça sempre estimulou o músico emergente. Não desmente a assertiva ao se lembrar de Maria Alina, Nuno Barroso, do próprio João Espírito Santo em seus 15 anos e os 18 do também pianista Miguel Borges Coelho. Estímulo que teve consequências exitosas. Como esquecer o convite de Lopes-Graça ao jovem que eu fui para um primeiro recital em Lisboa na Academia de Amadores de Música, aos 14 de Julho de 1959? Num quarto volume, “No aniversário de velhos companheiros”, lembrar-se-á de amigos de longa data em seus natalícios, que vão dos 66 aos 90 anos de idade, caso da grande amiga e ilustre crítica e musicóloga Francine Benoît, pranteada que será na Música Fúnebre número 7, Moimento a Francine Benoît. Quanto à dedicada a Vasco Gonçalves, general que foi Primeiro-ministro de Portugal (1974-1975), Lopes-Graça recordar-se-á de Jornada, poesia de José Gomes Ferreira musicada pelo compositor e que faz parte das Marchas, Danças e Canções (Seara Nova, 1946). O tema da marcha também é encontrado na Música Fúnebre nº 3, Morto, José Gomes Ferreira, vais ao nosso lado”

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”

Músicas Festivas apresentam uma armadilha. O título poderia sugerir obras de circunstância apenas, mercê das dedicatórias, por vezes singelas, mas nunca desprovidas de razão. A coletânea tem cumeeiras da mais absoluta virtuosidade, e elas são muitas, possíveis de serem realizadas por pianistas da mais alta estirpe. A transcendência em tantos segmentos, o lirismo inerente em não poucas passagens, a puerilidade latente quando se volta à criança e o domínio absoluto e multi-direcionado de uma escrita pessoal, mas que não esquece compositores eleitos e expressamente admirados em sua pena como literato, fazem-no o nome maior da música em Portugal do século XX, quiçá de sua história.

A escolha de António Rosado para projeto tão ambicioso que resultou amplamente, não poderia ser mais adequada. Certamente um dos mais importantes pianistas de toda a trajetória do piano em Portugal, intérprete respeitado do repertório sacralizado e que tem prestado contributo insofismável, através de gravações referenciais, ao grande Fernando Lopes-Graça.

Quanto às mencionadas Músicas Fúnebres, obra de profunda austeridade, foram por mim gravadas na Bélgica (2010) para o selo PortugalSom/Numérica em álbum (2CDs) com outras composições de Lopes-Graça e lançado em 2012 em Portugal.

Finalizo a ratificar o desconhecimento quase absoluto que se tem no Brasil da monumental obra de Fernando Lopes-Graça. As Sociedades de Concerto insistem na mesmice e apenas a complacência as faz introduzir alguma obra nova que, geralmente, não será mais repetida. A profícua e importante obra coral do ilustre compositor português não frequenta repertórios e os pianistas pátrios passam ao largo por uma das mais significativas produções para piano do século XX. É preciso que mentes se abram…

This post addresses the album (two CDs and two DVDs) recorded by the great Portuguese pianist António Rosado with the 23 Músicas Festivas (Festive Pieces) composed for piano by Fernando Lopes-Graça and dedicated to friends to celebrate special occasions. Interviews with the pieces’ dedicatees or their descendants enrich Rosado’s work.

 

 

 

 

Dualidade Perigosa

Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
Há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.
Cecília Meirelles

Os terríveis acontecimentos ocorridos em Paris na noite de 13 de Novembro aterrorizaram um país que poderia até acreditar que os atos terroristas contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, aos 7 de Janeiro deste ano, pudessem ser apenas consequência de charges ofensivas ao profeta Maomé. A ação contra o semanário estava longamente urdida e o lamentável episódio já deveria ser entendido pelos mentores da tragédia como um extraordinário meio de divulgação. E o foi.  Houve comoção mundial e os milhões que acorreram às ruas testemunharam solidariedade com o povo francês. Contudo, os derradeiros passos do terror seguem uma estratégia nítida, calculada, pragmática, radical, a ter como desiderato a submissão e destruição da cultura ocidental. Deveras é o terrorismo islâmico uma ação basicamente voltada à França? É-o, na medida que o país abriga hoje vários milhões de muçulmanos e, com a imigração desenfreada que ocorre, logicamente terá essa quantidade aumentada; e é-o, se considerado for que há um número desconhecido de terroristas infiltrados em solo francês, nascidos em França, pertencentes à comunidade islâmica laboriosa e confundindo o cotidiano parisiense nos recentes casos. Inimigos ocultos provocando a catástrofe.

Tenho acompanhado diversos artigos publicados, sobretudo em França e na Inglaterra, e conversado com amigos nativos que vivem na Europa. Opiniões contrastam ao considerar o contingente oriundo da África do Norte e do Médio Oriente como pacífico. Foge das atrocidades que pululam em várias regiões, contudo não se refugiam em países muçulmanos, e há dezenas deles. Razões existem, e a primordial é a total ausência de democracia nesses países, todos sujeitos aos regimes ditatoriais. Um vídeo húngaro recente focaliza imigrantes das regiões assoladas por guerras e desajustes, fora de um comboio, todos homens da juventude madura, não aceitando garrafas de água para os passageiros, chutando-as ou jogando-as diretamente nos trilhos. Razão, continham no rótulo a Cruz Vermelha da organização humanitária. Preocupante presságio, pois demonstram a total intolerância com o símbolo do cristianismo, religião dominante na Hungria, país que os estava recebendo, ao menos de passagem. O precioso líquido não chegou às crianças, mulheres e idosos. É fato que o agigantar terrorista acentuou-se durante e após as ações desastrosas dos ex-presidentes Bush (pai e filho) e da presente e pusilânime gestão Obama. Recrudesce a tensão, acirra-se a intolerância de muitos jovens nascidos na Europa, mas muçulmanos, e de outros tantos que estão a chegar em ondas contínuas. A aceleração, sem possibilidade de estancamento a médio prazo, dessa inédita “invasão” e o recrutamento (lavagem cerebral) de milhares de crianças e jovens para atividades insanas, tanto in loco como em França e na Bélgica desnortearam o Ocidente. E o que dizer dos “estagiários” que se dirigem à Síria e ao Iraque para se juntarem aos fundamentalistas do EI. Tenho amigos diletos marroquinos e descendentes que vivem na Bélgica e se integraram muitíssimo bem ao país que os abrigou. Contudo, há os intolerantes, e a mais absoluta preocupação está a se instalar nas populações da Bélgica, da França e de outros países da Europa, como também dos Estados Unidos.

Voltando-se ao autoproclamado Grupo Estado Islâmico, está ele disperso e muitos são os aglomerados terroristas espalhados pelo norte da África e pelo Médio Oriente, o que torna bem mais difícil uma incursão terrestre. Teriam de ser muitas frentes de infantaria. A derrocada dos USA na Guerra do Vietnã (1955-1975) não foi também pelo fato de que os “inimigos” surgiam de todos os lados, inclusive cavando túneis? É só lembrarmos da grande base norte-americana de Da Nang e das incursões subterrâneas dos vietcongs, mormente à noite. Mas, no caso do EI deve haver um cérebro, um líder a difundir decisões, tanto nos extermínios de inimaginável barbárie, in loco, dos “prisioneiros” que professam outras crenças, como no doutrinamento de crianças e na “escravidão” das mulheres. Espalhar o terror faz parte dessa engrenagem que revive os períodos mais obscurantistas da história. O Boko Haram na Nigéria declarou lealdade ao EI, outros grupos que espalham o terror na Somália, no Iêmen e outras terras devem ter já professado “obediência”, o que induz a pensar nesse “cérebro” que comanda atos terroristas. Seria possível acreditar num líder com colegiado rigorosamente amestrado. Ele deve existir, tem nome. Ratificando, quantos já não são os militantes infiltrados nessa leva que “invade” a Europa, impulsionados por essas lideranças ocultas?

Em França, o lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” tem sua origem no primeiro artigo da “Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen”, de 1789, ano da Revolução Francesa. Explicitado bem posteriormente na “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, de 1948, também em seu primeiro artigo. Nenhum país ocidental apreendeu de maneira mais ampla o tríptico do que a própria França, que o criou. Seria possível entender que esse extraordinário lema, orgulho do povo francês, esteja hoje, devido à abertura que é característica da França, sendo uma das causas do acúmulo de atentados. As três palavras sacralizadas jamais serão captadas em sua essência essencial por fanáticos que, nascidos em solo francês, dirigiram-se às tendências aniquiladoras. A lavagem cerebral existe desde a antiguidade e, para aqueles que a ela são submetidos, ignorar quaisquer princípios humanitários e de liberdade é “lei”.

A apreciação deste lado sul do Atlântico leva-me a considerar um fato irresponsável e, sobretudo, a revelar desprezo pleno pela cultura tradicional. Após os atentados de 13 de Novembro, o jornal satírico Charlie Hebdo tem publicado charges com dizeres atestando diferenças conceituais profundas, mas provocativas, pois nestes divulgam  que, enquanto o EI tem armas, a França tem Champanhe e mulheres fáceis. Numa das secções do hebdomadário, “En Kiosque”, (18/11), há uma charge “Paris, capitale de la perversion. Faites la perversion, pas la guerre”. A charge apresenta um casal despido a sorrir e o homem a salientar o dedo médio em posição ofensiva. Não tem o semanário a procuração de notáveis franceses que forjaram a cultura do país através dos séculos, como Ronsard, Descartes, Molière, Corneille, Racine, La Fontaine, Voltaire, Couperin, Rameau, Berlioz, Delacroix, Victor Hugo, Balzac, Monet, Gaughin, Cézanne, Rodin, Matisse, Eiffel, Pasteur, Pierre Curie, Fauré, Debussy, Ravel, Verlaine, Mallarmé, Saint-Exupéry, Bernanos, Malraux, Jankélévitch e uma infinidade, friso, infinidade de grandes vultos, testemunhando que os valores essenciais franceses são outros, humanistas, artísticos e científicos e que colocam a França num patamar criativo rigorosamente singular. Sim, a mulher fácil, a perversão e a libertinagem existem em França e em todos os recantos do planeta; e o Champagne (em charge recente) é delicioso produto, mas produto. Demonstra o semanário leviandade a desprezar consequências fatais. Pseudo-humor, de mau gosto, inoportuno e reducionista. Não seriam esses os elementos fulcrais para a realização dos atos insanos terroristas, mas sem dúvida são provocativos. Estariam a evidenciar que o semanário teria perdido o rumo.

Infelizmente a França estará sujeita a futuros atos atrozes, hélas. As células cancerosas se expandem em metástase, pois no interior do país. Não há consenso quanto ao tratamento, mas ele tem de ser imediato e sem tréguas. A França sempre soube reagir, seu povo preza valores culturais, ora ameaçados. Esperemos que a presidente do Brasil, que há pouco mais de um ano, na abertura das sessões da ONU, propunha um “diálogo” com os terroristas do EI, tenha uma outra postura e se coloque à disposição, juntamente com importantes líderes de países do hemisfério norte que já se pronunciaram, para a ação conjunta, diplomática que seja. Esperemos…

The reflections of someone living on the other side of the Atlantic on the terrorist attacks last 13 November in Paris, something the press has been describing as a clash between religious extremism and free speech – a threat to the entire world, not only to France – and the deplorable provocations staged by the satirical newspaper Charlie Hebdo.

 


Pianista e Professor Notável

Mais eu avanço no trabalho artístico
mais eu percebo
que, além de todos os conhecimentos que possamos ter,
é, em última análise, a nossa concepção sonora
que influenciará de maneira a mais importante a nossa recriação.
Sebastian Benda

Não poucas vezes comentei neste espaço a respeito de intérpretes extraordinários que edificaram carreiras fora do grande circuito, da mídia e da necessidade dos holofotes. Nunca me esqueço de que, certo dia, o ilustre pianista e professor francês Jean Doyen (vide blog: Jean Doyen – 1907-1982 – A Interpretação Inefável, 31-08-2007) disse-me,  durante os estudos em Paris sob sua orientação (1959-1962), “ser um bom ou ótimo pianista não significa amar o brilho e as viagens”. Ficou gravado.

Tinha eu 17 anos e participei do Curso Internacional de Férias organizado pela Pró-Arte em Teresópolis. Estávamos em 1955. Ano em que lá compareceram, também como alunos, o saudoso Ney Salgado, Isaac Karabtchevsky, Henrique Gregory, Sandino Hohagen, Manuel Veiga, Clara Sverner, Júlio Medaglia (sucessivos anos) e tantos jovens que prosseguiram suas carreiras vitoriosas. Certo dia, ao ouvir Estudos de Chopin magnificamente interpretados, cheguei-me à janelinha de vidro da porta de uma sala de aulas e passei a escutar Sebastian Benda, pianista suíço que se radicara há pouco no Brasil. Estava a ouvir a tradição, e Benda se preparava para recital durante o Curso de Férias. Até seu regresso à terra natal em 1981, ao lado da esposa, professora e pedagoga Luzia do Eirado Dias e de seus cinco filhos músicos, dedicou-se com amor e competência à atividade musical, obedecendo a um DNA sonoro que remonta aos tempos de J.S.Bach.

Sebastian Benda deu contributo valiosíssimo ao nosso meio musical. Como pianista, atuou seguidamente em recitais solo, como solista de concertos com orquestra e como camerista. Quantas não foram suas apresentações com a irmã violinista Lola Benda? Incontáveis. Como professor, colaborou efetivamente junto às Universidades Federais de Santa Maria (Rio Grande do Sul) e da Bahia. Ao fixar residência em São Paulo, empenhou-se para o aprimoramento de nossas programações e pela formação de jovens pianistas.

Quão poucos se lembram de Sebastian Benda no Brasil, apesar de seus 29 anos aqui vividos, a contribuir com nossa “ascensão”? Louve-se a Universidade Federal de Santa Maria ao promover o Concurso para Jovens Músicos em muitas edições e a homenagear o ilustre professor da Instituição durante anos. Faz-se necessário um breve apanhado biográfico de Sebastian Benda. Nascido na Suíça, desde a infância dedicou-se ao piano e à composição. Músicos notáveis, como Arthur Honegger (1892-1955), Frank Martin (1890-1974), Alfredo Casella (1883-1947) e Joaquin Nin (1879-1949) saudaram criações do adolescente. Aos 11 anos já se apresentava com a irmã Lola em recitais solo, sendo que dois anos mais tarde ingressaria no Conservatório de Música de Genebra. Após findar seus estudos no renomado Instituto com a obtenção do “Prix de virtuosité”, a convite do extraordinário pianista Edwin Fischer (1886-1960) passaria a estudar com essa lenda do piano durante sete anos, apresentando-se inúmeras vezes com o mestre em ciclos de concertos. Iniciava brilhante carreira que o levaria a 40 países da Europa, Ásia e Américas.

Após quase três décadas no Brasil, o desencanto com os rumos que o país trilhava e a violência crescente – a família sofreu assalto – motivaram o retorno à Europa em 1981, juntamente com todos os seus. Nomeado professor na Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Graz, Áustria, tornar-se-ia Reitor até 1994. A segunda fase europeia é marcada por intensa atividade como pianista, professor de cursos de interpretação e gravações.

O álbum a conter dois CDs com registros fonográficos, que se estendem de 1961 a 1994, gentilmente enviado pela viúva do artista, privilegia autores que lhe foram caros. Toda a tradição que lhe foi passada por Edwin Fischer, e a ter como ascendentes Martin Krause (1853-1918), Franz Liszt (1811-1886), Carl Czerny (1791-1857) e Ludwig van Beethoven (1770-1827), pode ser aferida através de magistrais interpretações de Sebastian Benda. Os 33 anos que separam as gravações apenas ratificam uma notável coerência interpretativa, voltada ao absoluto rigor quanto às estruturas da escrita, liberdade sem jamais ultrapassar o limite que pode conduzir à arbitrariedade, lirismo intenso e comovente, virtuosidade natural, também sem qualquer sentido de exibicionismo. Há continuada transparência de uma personalidade que apreende a essência e revela a ligação amorosa com as obras gravadas. Realmente, dois CDs que entendo magníficos e que contêm algumas obras fundamentais do repertório para piano.

O primeiro CD apresenta inicialmente as célebres 32 Variações sobre um tema original em dó menor (1806), de Ludwig van Beethoven. Obra quase que “obrigatória” nos repertórios, mormente em meados do século XX, as brevíssimas e contrastantes variações são sempre um desafio para o pianista nessa constante mudança de moods. Benda não apenas capta a essência de uma diversificada escrita, como revela dado fundamental, o respeito à tradição, friso sempre. Reflexivas, virtuosísticas, dinamicamente bem elásticas, todas as características da obra lá estão e a gravação serve como um modelo a ser seguido, se a compararmos com outros registros impecáveis deixados por alguns de seus ascendentes.

Comovente a leitura que Sebastian Benda realiza da Sonata em Si Bemol Maior (D. 960), de Franz Schubert (1797-1828). Obra de síntese (1828), essa magistral Sonata, uma das obras essenciais da literatura pianística em todos os tempos, tem por parte de Benda uma das mais comoventes interpretações registradas, comparáveis às legadas por Wilhelm Kempff (1895-1991), Arthur Rubinstein (1887-1982) ou à contemplativa de Sviatoslav Richter (1915-1997), esta, sobretudo no primeiro andamento, Molto moderato. Se Benda tivesse apenas registrado uma só obra em sua bela trajetória, a Sonata em questão, bastaria essa gravação para fixá-lo na história da interpretação musical. O equilíbrio que o pianista evidencia em toda a longa Sonata é notável. Execução rigorosamente inefável durante o transcorrer dos quatro andamentos. Primoroso o controle do extenso e sublime Molto moderato. A concentração expressiva contida no Andante Sostenuto - a manutenção da atmosfera nos movimentos lentos é sempre um desafio – é seguida pela jocosidade do Scherzo, Allegro vivace con Delicatezza. Temos por parte de Benda o mais absoluto domínio estilístico. Allegro ma non troppo tem compreensão plena. Humor, vitalidade e modulações finamente tratadas estão presentes nesse andamento final. Friso, execução referencial para a geração que queira incorporar essa Sonata escrita no ano da morte do compositor, em que todos os atributos apreendidos da vasta produção schubertiana lá estão.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Franz Schubert: Scherzo, Allegro vivace com delicatezza da Sonata em Si bemol maior (D. 960)

Dos Tre Sonetti de Petrarca (1304-1374), Benda apresenta o 104, possivelmente o mais frequentado pelos pianistas. O artista suíço cria uma atmosfera rara, lírica e intensa, a proporcionar à excelsa obra uma leitura que faz jus à qualidade literária. Sebastian Benda comenta: “Liszt não descreve o poema, mas pinta os estados d’alma que sentiu na leitura do poema”.

Do universo pianístico de Robert Schumann (1810-1856), uma de suas mais sensíveis criações é o conjunto das oito Fantasiestücke, op 12 (1838). Pode-se aferir a identidade absoluta que Sebastian Benda tem com o compositor alemão. Uma compreensão impecável dessa dualidade soberana no pensamento de Schumann: de Eusebius, lírico, poeta e sonhador, e do arrebatado e extrovertido Florestan, personagens do ideário do possivelmente mais romântico entre os compositores. Tradição e talento singular podem ser aferidos na totalidade interpretativa da coletânea. Realmente comove a qualidade do tratamento que Benda imprime à agógica e às tantas gradações dinâmicas finamente dosadas, só possíveis, nesse nível, em um grande mestre do piano.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Os 29 anos vividos no Brasil fizeram-no integrar-se à criação de alguns compositores brasileiros. Villa-Lobos (1887-1959), Camargo Guarnieri (1907-1993) e Cláudio Santoro (1919-1989) tiveram obras presentes em recitais de Benda. Foi solista do Concerto para piano e orquestra de João de Souza Lima (1898-1982). Sebastian Benda inicia o segundo CD com algumas das mais célebres criações de Villa-Lobos: Alma Brasileira, Festa no Sertão, Lenda do Caboclo, Impressões Seresteiras e Dança do Índio Branco. Sempre defendi a posição de que a geografia pode ajudar o intérprete na execução de obras de seu país, mas jamais será determinante. Sebastian Benda soube apreender as rítmicas ricas e os moods inerentes nas composições de Villa-Lobos.  A leitura que o pianista suíço faz do repertório em apreço é intensa, plena de luminosidade, esfuziante, das mais autênticas na discografia de Villa-Lobos.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

De seu ilustre conterrâneo Frank Martin, professor e grande amigo, Sebastian Benda tem registrado, no álbum “Memoires”, oito Préludes para piano. O intérprete jamais deixou de prestar tributo à obra do compositor e gratidão ao grande mestre. Gravaria a integral para piano de Frank Martin, inclusive a Balada para piano e orquestra sob a regência do compositor. Benda se expressa sobre o mestre: “Frank Martin foi para mim não somente o compositor incomparável cujas obras sensibilizam, por sua emoção, os públicos mais diversos de diferentes continentes, mas também o mestre, o professor, o conselheiro, o amigo e, enfim, o regente de suas obras, com o qual eu tive a honra de colaborar. Martin foi um compositor que, apesar da sua constante pesquisa, não se deixou levar pelas correntes, ficando fiel a si próprio e aos seus princípios estéticos”.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Finaliza o preciosíssimo álbum “Memoires” a monumental obra do compositor russo Modest Moussorgsky (1839-1881), Quadros de uma Exposição. Interpretação maiúscula, viril, expressiva, a apresentar o profundo senso estilístico do intérprete. Da tradição austro-germânica em obras de Schubert e Schumann, Benda nos lega, sob outra égide, uma visão grandiosa dos Quadros... Referencial.

Há que se lamentar a memória supérflua que se acentua em nosso meio cultural. O Brasil teve a honra de ter em seu solo, durante quase três décadas, um artista da magnitude de Sebastian Benda, que honraria, sob outros aspectos, o país que o abrigou, casando-se com professora e musicista brasileira, tendo cinco filhos que se tornaram músicos e formando gerações de pianistas e professores no Brasil. Seu nome é pouco lembrado. Não aconteceu o mesmo com o excelente pianista e professor alemão Fritz Jank (1910-1970), radicado em São Paulo, que se notabilizou a interpretar diversas vezes na cidade as 32 Sonatas e os cinco Concertos para piano e orquestra de Beethoven, assim como pela qualidade plena no segmento acompanhamento, inclusive dialogando com alguns dos mais renomados artistas internacionais que se exibiam em nossas terras? Se a Academia abrigou estudos mais aprofundados sobre Fritz Jank, fundamental para a cultura paulistana, hélas, esses trabalhos finalizam nos arquivos das universidades e geralmente são olvidados ad eternum.

Finalizaria a dizer que nossos contatos com Sebastian Benda sempre foram cordiais. Ele e a família moraram nos últimos anos, antes do regresso à Suíça, em nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Nesse período várias vezes nos visitamos. Tivemos, Regina e eu, o prazer e a alegria de participar com Benda da série dos concertos de J.S.Bach para dois, três e quatro pianos, no Teatro São Pedro, sob a direção de Eleazar de Carvalho, na década de 1970.

Fica neste espaço meu registro a lembrar o grande músico Sebastian Benda, após ouvir o extraordinário álbum “Memoires” (Genuin classics  – Artist Consort, Germany, 2013). Frise-se, em bela apresentação e a ter encarte substancioso em inglês, alemão e português. Recomendo-o vivamente.

This post is my tribute to the great Swiss pianist and composer Sebastian Benda, who lived in Brazil from 1952 to 1981. His widow very kindly has sent me his double album Memories, with works by Beethoven, Schubert, Schumann, Liszt, Villa-Lobos, Frank Martin and Mussorgsky. Remarkable performances, with rigor as to writing structures, freedom without arbitrary choices, intense and moving lyricism, virtuosity without overplaying. A fascinating listening of an outstanding interpreter, an authority on the great art of the piano, unfortunately highly underestimated in the country he adopted for almost three decades.