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A carreira singular da notável pianista russa

As relações entre autor, intérprete e ouvinte
são por vezes contraditórias. Para o ouvinte,
o intérprete e o autor se confundem facilmente,
mesmo que ele acredite distingui-los.
Na realidade, o ouvinte pouco se preocupa
com as intenções do autor e se atém àquilo que ouve,
fator este, reflexão feita, que só podemos aprovar.

André Souris
(“Conditions de la Musique”)

A trajetória da pianista Maria Yudina foge completamente daquela de qualquer outro intérprete, se considerado for o rotineiro traçado de um concertista. São tantos os acontecimentos em seu caminho que se torna difícil enquadrar Maria Yudina em um formulário tão repetitivo na maioria das biografias dos executantes, como número de países visitados, regentes afamados sob a batuta dos quais foram solistas de Concertos para piano e orquestra, exaustiva repetição repertorial, recepção crítica. Igualmente distancia-se fulcralmente do politicamente correto no que tange aparência física, dinheiro como status social, presença do empresário, fatos esses que corroboram decididamente a sua interpretação diferenciada. Maria Yudina é convicta de suas execuções plenas da leitura personalíssima das partituras, fator esse que resultaria no respeito de seus ilustres contemporâneos, compositores e intérpretes, mas também em opiniões controversas.

Ao entrar no Conservatório de São Petersburgo estudará, entre outros professores, com Leonid Nikolaiev. Em sua classe teve como colegas Sofronitsky e Shostakovich.

Primeiramente, está-se diante de uma pianista anticonformista, distante de quaisquer padrões. No final da juventude converte-se à religião ortodoxa, devota atenção especial a São Francisco de Assis, torna-se fiel aos seus princípios espirituais. Quando professora no Conservatório de Leningrado, em aula não deixava de predicar, fato que durante longas décadas motivou ações persecutórias na extinta União Soviética e que lhe acarretaria sérios problemas.

Impedida de lecionar, viveu na pobreza durante algum tempo. Lecionou em Tbilisi, na Geórgia, e mais tarde, sob influência de Heinrich Neuhaus, no Conservatório de Moscou e igualmente no Instituto Gnessine. Em 1960 foi proibida de lecionar por motivos ligados à religião e ao seu repertório, que incluía compositores contemporâneos ocidentais que professavam técnicas repudiadas na União Soviética. Poderia dar recitais, mas ficou impedida de ter suas performances gravadas. Antes de um recital, a preceder a leitura de um poema de seu amigo Boris Pasternak, fez o sinal da cruz e o ato valeu-lhe cinco anos sem poder tocar em público. Tempos de Nikita Khruschev, oposto da aceitação inexplicável que Stalin a ela dispensava. Estou a me lembrar que, estando em Moscou para participar do II Concurso Tchaikovsky em 1962, ganhei LPs com obras de Scriabine interpretadas por Vladimir Sofronitsky, falecido em 1961, assim com o Cravo bem Temperado de J.S.Bach por Sviatoslav Richter. Colegas me falaram inúmeras vezes da consagrada Escola Russa de piano, mas jamais mencionaram Maria Yudina, “ressuscitada” nessas últimas décadas. Em seu importante livro “A Arte do Piano” (1º edição russa, 1958), Heinrich Neuhaus não menciona Maria Yudina e Harold C. Schonberg, em sua obra “The Great Pianists” (1963), apenas cita seu nome sem se pormenorizar.

Fez sempre severa oposição ao regime comunista e inacreditavelmente, apesar das críticas ácidas que fazia ao próprio Stalin, jamais recebeu “castigo”, fato inusitado. Um colega russo disse-me certa vez, no início da década de 2010, na Bélgica, que não tivesse ela o respeito de Joseph Stalin teria desaparecido inexplicavelmente, como quantidade incalculável de opositores.

Alguns fatos, entre muitos na vida de Maria Yudina, merecem menção. Bem divulgado há o episódio narrado nas memórias de Shostakovitch. Refere-se ao fato de Stalin ter ouvido através da rádio o início do Concerto nº 23 para piano e orquestra de Mozart, a ter Maria Yudina como pianista. Pediu ao seu ajudante de campo que buscasse a gravação. Todavia, o concerto estava em transmissão direta. Com medo de represálias, o diretor da rádio envia alguém para contatar imediatamente a pianista. Acordaram-na no meio da noite, conduziram-na ao estúdio e uma pequena orquestra chamada às pressas já estava à sua espera. A gravação foi feita com outro regente, pois o da transmissão direta estava traumatizado com o acontecido. A execução foi gravada diretamente num LP e nele adicionaram uma etiqueta. Quando o ditador morreu, dizem que o LP estava na sua vitrola. Em outra oportunidade Stalin lhe concede um apartamento e ela quebraria os vidros das janelas, a dizer que preferia viver como os outros russos menos afortunados. Em carta a Stalin, após receber uma quantia a ela destinada, responderia que daria a importância à sua igreja para que rezassem pela alma do ditador mercê dos crimes por ele cometidos contra o povo russo. Supersticioso, Stalin a admirava, mas nunca lhe respondeu.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, o Adagio do Concerto nº 23 em Lá Maior de Mozart, K. 488

https://www.youtube.com/watch?v=6l0bsTNsnX0

Apresentar-se-ia na União Soviética e países satélites, mas jamais fora do bloco. Estando em Leipzig pela primeira vez, atravessaria de joelhos a praça que a levaria à estátua de J.S.Bach. Vestia-se de preto, não cuidava da aparência física sempre austera e tinha em suas relações de amizade artistas plásticos, escritores e arquitetos.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina (1952), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=1qWSNI_P378

Um ano mais tarde (1953), transfigura a execução e, ao vivo, destaca com incrível pujança a presença dos baixos, a lembrar sua reverberação em uma catedral.

Clique para ouvir, na interpretação gravada ao vivo de Maria Yudina (1953), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=puwboQ_zNNI

Após a queda do muro de Berlim, mais e mais a figura de Maria Yudina se agiganta. Fugindo de interpretações características da chamada Escola Russa, já observadas anteriormente (vide blogs sobre Vladimir Sofronitsky, Emil Gilels, Vladimir Horowitz e Sviatoslav Richter), em cada obra por ela executada há a nítida impressão digital. Suas interpretações fogem de qualquer ditame acadêmico. A tendência a uma espécie de “monasticismo social”, seus escritos religiosos, o despojamento total quanto à aparência física, o anticomunismo – anátema diante da Nomenklatura – não a teriam inclinado à interpretação diferenciada da obra J.S.Bach, prenúncio das ousadias propostas posteriormente relacionadas às composições do grande músico alemão empreendidas por outros pianistas? Arrojada ao tocar, demonstrando uma leitura inusitada das partituras, explorando as altas intensidades com bravura incomum, mas também tendo imensa sensibilidade no tratamento das sonoridades em piano e pianissimo e na flexibilização dos andamentos dentro de uma lógica rigorosamente individual, se tantas vezes ela foge dos ditames impostos pela convenção, nunca deixa de transmitir uma visão convincente. Exemplo claro temos na sua leitura dos Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, em que Maria Yudina encontra sua visão particular de cada quadro exposto, a chegar até a interferir no original do compositor. Nesse quesito, sobre outra égide, aproxima-se da releitura dos Quadros... realizada por Vladimir Horowitz, essa influenciada, bem possivelmente, pela transcrição para orquestra elaborada por Maurice Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, os Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, gravação realizada em 1952:

https://www.youtube.com/watch?v=u2WrmLYfkvA

Em artigo publicado no Suplemento Cultura do Estadão (“As mortes do intérprete”, 1988) escrevia que, mesmo se considerando a qualidade do pianista, interpretações que se distanciam das normas da tradição têm grande interesse, mas dificilmente servem de modelo. Maria Yudina buscou caminho interpretativo inédito e bem tardiamente outros também assim agiram. Segui-la como arquétipo na tentativa de imitá-la leva ao simulacro exemplar. Todavia, as interpretações da notável Maria Yudina são extraordinárias. Nome referencial da arte pianística.

O documentário russo “Alma Mater” bem expõe depoimentos preciosos de seus contemporâneos. Há legenda em inglês:

https://www.youtube.com/watch?v=zF03KVIsrns

This post is about the Russian pianist and teacher Maria Yudina (1899-1970), who dared challenge the Soviet State with her advocacy of modern Western composers, religious convictions and open criticism of the communist regime. Joseph Stalin‘s admiration for her talent may have saved her life, but under Kruschev things have changed and she was often forbidden of pursuing some of her musical activitiesYudina’s playing is marked by virtuosity, strength, exceptional control of dynamics, but is also highly personal, deviating from the traditional piano practices of the Russian school. Hidden behind the iron curtain during her lifetime, after the fall of the Berlin wall her name has grown in stature and now commands huge respect in the classical music world.


Nome referencial e respeito à tradição

A obra de arte não deveria ser pretexto
para o intérprete expor seus estados de alma,
tampouco a extensão de si mesmo, a auto exibição.
É dever sagrado do executante comunicar,
de maneira intacta, o pensamento do compositor
de quem ele não é mais do que intérprete.

Claudio Arrau

Sua biografia está amplamente difundida na internet. Suas execuções podem ser melhor compreendidas conhecendo-se sua evolução desde a infância, o talento excepcional, aprendizado com o grande mestre Martin Krauze (1853-1918) – um dos discípulos favoritos de Franz Liszt -, depressão, psicanálise durante cerca de 50 anos, certezas quanto ao gesto exagerado, memória prodigiosa que, a certa altura, ele coloca em dúvida. Em livro confidencial, Arrau se descortina e cresce ainda mais diante do ouvinte (“Arrau Parle – conversations avec Joseph Horowitz”. France, Gallimard, 1985). Referi-me a esse livro fundamental em blogs bem anteriores.

Martin Krause foi o professor que o guiou durante os anos fundamentais de formação, não apenas na formação técnico-pianística, mas também na seleção repertorial e na qualidade humanística. Arrau comenta: “Apenas duas moradas nos separavam. Chegava em casa do mestre às nove ou dez horas todas as manhãs. Num quarto ao fundo de sua residência havia um piano de armário. Nesse aposento estudava sete ou oito horas diariamente. Ele aparecia uma, duas, três vezes para me ouvir a estudar. À noite, após suas aulas, dava-me a aula particular que durava uma hora ou mais. Minhas refeições se davam em sua casa, quatro ou cinco vezes por dia, pois Krause não me achava forte suficientemente. Decidiu que deveria comer mais. Caminhávamos também, de meia a uma hora, todos os dias”. Talento descomunal e orientação de um dos grandes mestres da arte pianística corroboraram a edificação de Claudio Arrau.

Após a morte de seu professor Martin Krause, que igualmente agendava suas apresentações públicas, Claudio Arrau entrou em depressão. Frise-se que durante quase 50 anos teve no Dr. Abrahanson o psicanalista competente. Alain Lompech comenta sobre uma Escola pianística à qual o artista chileno estaria filiado: “A nenhuma, senão à sua própria escola, técnica forjada por Krause em função da música abordada, superada por Arrau sobre o divã do psicanalista para desatar as tensões psicológicas que entravavam o percurso de um artista único em seu século” (“Les grands pianistes du XXème” (Paris, Buchet-Chastel, 2012).

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Carl Maria von Weber, Perpetuum mobile:

https://www.youtube.com/watch?v=hR2ZVQWFD_Q

Saliento que meu saudoso professor, o notável José Kliass (1895-1970), russo de origem judaica, igualmente estudou com Martin Krause. Contava-nos a metodologia competentíssima, mas severa, do famoso mestre. Quando Arrau vinha a São Paulo, Kliass o recebia.

Considere-se que, ainda jovem, Claudio Arrau já executava algumas integrais, fato raro encontrado entre alguns fenômenos possuidores de memórias extraordinárias. Apenas para menção, em 1933-34 apresenta no México, em quinze semanas, quinze recitais diferentes. Na mesma década, em doze recitais interpretou a integral de J.S. Bach para teclado, excluindo as obras para órgão, assim como as 32 Sonatas de Beethoven. Era intérprete da integral das Sonatas de Mozart e de ciclos extensos de Schubert, Chopin, Liszt, Schumann, Weber, Brahms, Debussy e Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, as 32 Variações de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=sjcYxTASL1E

Uma das características em suas apresentações era o rigor e o respeito às mensagens contidas nas partituras. Não transigia e essa qualidade foi, erroneamente, interpretada como impessoalidade, o que não traduz a imensa autoridade nas execuções de Claudio Arrau. Poderia acrescentar, como aliás já o fiz em tantos blogs, que o guia mais autêntico para um jovem, ou mesmo adulto pianista, é aquele que exclui o livre arbítrio. Claudio Arrau jamais foi um pianista impessoal, imprimia sua interpretação com maestria e ideias claras, apenas não buscava o efeito fácil e os holofotes.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Chopin, Estudo op. 10 nº 1:

https://www.youtube.com/watch?v=l-QledBNLdM

Daniel Barenboim tem posicionamento claro ao falar sobre Claudio Arrau: “Creio que os pianistas de antanho podiam ler melhor uma partitura se comparados com os atuais, pois não se conformavam em ver o ‘p’ de piano ou o ‘c’ de crescendo. Na realidade, ‘p’ [baixa intensidade] em relação ao que vem antes ou depois no discurso musical? Isso não aparece na partitura, está na área da criação musical. Tinha-se todo um fenômeno musical para qualquer pianista, não importando sua origem ou escola. Para eles a Bíblia era o som, não o papel impresso”.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, de Franz Liszt, Un Sospiro:

https://www.youtube.com/watch?v=S_bVk3RMPyk

Nas conversas com Joseph Horowitz, Arrau, que tantas vezes fez questionamentos sobre vida e arte, chegara à conclusão na meia idade de que o gesto não era o essencial para agradar ao público. Restringiu-o ao máximo, a considerar que a Música era o princípio único a ser seguido. Em blog recente considerei a posição de Sviatoslav Richter, que preferia tocar nas salas basicamente só com iluminação mínima para ele e o piano, pois o público ia ao teatro para ouvi-lo e não para ver seus gestos e suas mãos. Outros tempos, diversos do atual da grande mídia, das câmeras a focalizar trejeitos e vestimentas tantas vezes bem ousadas. Civilização do espetáculo.

Nos depoimentos a Joseph Horowitz, Arrau também fala a respeito do medo do palco. Ele existe em maior ou menor grau. Tinha agendado, para récitas em Nova York, a integral das Sonatas de Mozart. Ligaria para o empresário, após ensaios em sua residência, a dizer para retirar uma das Sonatas. Ao estudar e executá-las na íntegra, sem público, repentinamente uma frase de outra Sonata teria entrado naquela que estava a executar. Dando prosseguimento aos seus estudos, o mesmo ocorreu com outra Sonata, o que o motivou a ligar ao empresário para cancelar as apresentações. Frise-se que Mozart, em suas Sonatas e Concertos, apresenta tantas vezes “fórmulas” que muito se assemelham, fazendo parte de seu extraordinário idiomático.

Essa “Bíblia do som”, de que nos fala Barenboim, foi seguida à risca durante toda a trajetória de Claudio Arrau, que nos longos depoimentos atribuiria à vaidade um dos males pelo qual o intérprete pode ser acometido. O piloto-escritor Saint-Exupéry já não professava que a vaidade não é um vício, mas sim uma doença?

A modéstia e o comprometimento pleno com a essência essencial da Música são relatados por Alain Lampech. Ao encontrar-se em Paris com Claudio Arrau, próximo dos 90 anos, este lhe pediu para marcar uma visita ao notável pianista francês Vlado Perlemuter (1904-2002), pois queria trabalhar as peças de Miroirs, de Ravel, para gravá-las: “Ouvira seu confrade executá-las em Londres, e aquela apresentação foi para ele uma revelação. Arrau pensava que ninguém compreendia essas obras como Perlemuter e ele gostaria de tocá-las para ele”.

Insere-se Arrau no seleto panteão dos grandes pianistas de antanho. Reverenciá-los é ter a consciência de que a chama da cultura erudita, da arte interpretativa dos grandes mestres do passado não pode ser extinta. Tem de ser mantida acesa.

Clique para ouvir, na interpretação de Claudio Arrau, o final do terceiro movimento da Sonata Appassionata de Beethoven:

https://www.youtube.com/watch?v=LOeCaiu8Yok

The Chilean-born pianist Claudio Arrau (1903-1991) has been considered one of the keyboard giants of the last century. A child prodigy, at the age of ten he moved to German on a Chilean government grant to study under the musical tutelage of Martin Krause, former student of Franz Liszt, and his genius bloomed under this great teacher. A legend in his own lifetime, despite his remarkable gift Arrau was devoid of personal vanity, preaching austerity, fidelity to the score and refined emotion, without exaggerated gestures. A name to be placed in the pantheon of great masters of the past, helping keep the flame of classical music alight.

Desdobramentos da leitura frente à pandemia

El terror a la peste es, simplemente,
el miedo a la muerte que nos acompañará siempre
como una sombra.
Mario Vargas Llosa
(El País, Piedra de Toque, 14/03/2020)

Meses sob pressão motivada pela pandemia fazem com que a peste, esse tema recorrente ao longo da História, provoque interpretações as mais diversas. É natural que assim seja. Os séculos guardam na memória testemunhos que, ou pela escrita ou através da oralidade, são revisitados sempre que episódio marcante assim determine.

Constantemente menciono nos blogs diálogos profícuos com o amigo Marcelo, que encontrava aos sábados na feira-livre de minha cidade-bairro. Leitor assíduo dos posts hebdomadários, marcávamos um curto em um dos cafés das cercanias e discutíamos. O confinamento distanciou-me desse aprazível mercado aberto, espaço que sempre tive imenso prazer de frequentar. Já lá se vão mais de quatro meses de pleno isolamento.

Deu-se situação singular num desses dias. Marcelo toca a campainha, atendo-o com a máscara e ambos conversamos ao ar livre, sentados num banco interior e frente ao pequeno jardim de casa. Bem mais jovem, Marcelo transita protegido. Lera na manhã de sábado último o texto a comentar La Peste, de Albert Camus, e durante um bom tempo abordamos a temática e seus reflexos nesses tempos do Covid-19, pois não lera o livro e entendeu pertinente o tema.

Os blogs têm seguido uma dimensão que possibilite a leitura, se não integral numa primeira abordagem, completa após revisita. Busco escrever essencialidades sucintamente, mas entendo que, pelo alcance, outras fiquem prejudicadas. Os questionamentos de Marcelo serviram para comentá-los nesses Ecos sobre La Peste.

Suas indagações invariavelmente voltavam-se à nossa pandemia e, interpretando suas palavras, “o tema que o fez pensar numa exaustão do povo quanto ao noticiário”. Há sim semelhanças entre o conteúdo do livro e a nossa realidade. Camus estabelece em sua narrativa aspectos hodiernos frente ao flagelo que nos assola. Da revolta inicial em tempos da peste passa-se a uma acomodação, ao relaxamento e, tantas vezes, à depressão. Camus acompanha as transformações do concidadão. Anônimo, este adquire importância crucial, observado quase sempre nessa atmosfera de espanto. Na epígrafe do blog anterior já mencionara uma de suas frases: “A peste suprimira julgamentos de valor. Via-se que ninguém mais se preocupava pela qualidade das vestes ou dos alimentos que compra. Aceitava-se tudo em bloco”. Seria o que hoje definimos como efeito manada. “Não se estaria a aceitar o cansaço do povo quanto às cifras dadas com profusão e ênfase pela mídia?”. À pergunta de Marcelo diria que em La Peste esse posicionamento é claro. Hoje, à custa de informações diárias pelos veículos de comunicação, não sem antes manter o ouvinte ou telespectador em suspense, esse cidadão também se cansou, caso dele específico. Quase poderíamos não errar ao dizer que a mídia necessita desses números elevados, verdadeiro chamariz. Durante quanto tempo, exaustivamente, Mariana e Brumadinho não estiveram em pauta? O cansaço de que nos fala Camus advém do excesso de notícias que se repetem ad nauseam.

A conversa com Marcelo abordou reflexões do personagem Jean Tarrou diante de duas condenações à morte que o marcaram profundamente: a primeira, após julgamento a ter seu pai como juiz, sentenciando à pena capital um acusado e a segunda, presencialmente, ficando-lhe indelével a impressão da cena do fuzilamento de outro infeliz, quando enfatiza a ínfima distância entre o batalhão e o condenado. A construção de outro livro relevante de Camus, L’Étranger, é realizada, entre tantas implicações, na direção à guilhotina da figura central do livro, Meursault, este aparentemente indiferente frente à vida e à morte. Evidencia Camus um repúdio à pena máxima. Uma frase de Camus é decisiva: “No universo do revoltado, a morte exalta a injustiça. Ela é o supremo abuso”. Na cena final da peça teatral Caligula, a preceder o assassinato do imperador romano, Albert Camus insere em uma de suas últimas falas: “Quem ousará me condenar nesse mundo sem juiz onde ninguém é inocente!”. Em 1954 intervém a favor de sete tunisianos condenados à morte. Acrescentei que apenas em 1981 a pena de morte foi abolida em França. Estou a me lembrar de meus anos como estudante em Paris nas fronteiras das décadas de 1950-1960. Quase todas as noites tomava sopa e bebia uma taça de vinho tinto com o adorável casal de concierges do prédio onde eu morava. Mais de uma vez, Robert Orambourg, leitor diário de jornal popular, comentou episódios de execuções de condenados à guilhotina. Espantou-me o fato de que uma dessas execuções se dera poucas semanas após o julgamento de bárbaro crime. Jean Tarrou, após ter narrado ao personagem central, Dr. Rieux, o trauma que o acompanharia pela existência devido àquelas duas condenações à morte, ao sucumbir vítima da peste teria, talvez, encontrado a “santidade sem Deus”. Apesar de não acreditar em Deus, Camus não se considerava ateu. No caso de Meursault, no peristilo do cadafalso há a sua plena revolta ao receber a visita do Padre a falar que rezaria por ele.

Em nossa profícua conversa observei que, sob outra égide, a de Saint-Exupéry, Camus também apresenta, através de seus vários personagens, mensagens sobre essencialidades da condição do homem. Acrescentei que se, sob o aspecto humano, “há mais coisas a admirar do que a desprezar”; sob o lado dos periódicos flagelos nada a fazer, mas sim aguardá-los, pois vírus ou bactéria estariam sempre à espreita através dos tempos. Fui buscar o livro e traduzi para Marcelo o final contundente quanto às futuras e malfadadas pestes: “Escutando efetivamente os gritos eufóricos que vinham da cidade, Rieux se lembrou de que essa alegria estava sempre ameaçada. Sabia ele que se pode ler nos livros que o bacilo da peste não morre, tampouco jamais desaparece, mas que essa multidão alegre ignorava tal fato. O bacilo pode permanecer durante dezenas de anos dormindo nos móveis e nos lençóis, a esperar pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. Talvez dia virá quando, por desgraça e para ensinar os homens, a peste despertará seus ratos e os enviará para morrer numa cidade feliz”.

Finalmente, Marcelo disse-me que lera nesses últimos dias, num site portal conhecido, que o Prêmio Nobel de Literatura (2010), Mario Vargas Llosa, escrevera que La Peste era um livro medíocre. Disse-lhe que tinha lido o artigo publicado em El País, periódico espanhol, em sua coluna Piedra de Toque. Discordo, data venia, da posição do ilustre Mario Vargas Llosa, escritor que muito admiro, a entender inoportuno e até deselegante segmento de seu artigo Regreso al Medioevo? (14/03/2020): “La peor novela de Albert Camus, La Peste, tiene un súbito renascimento y tanto en Francia como en España se hacen reediciones y esse libro mediocre se há convertido en un best seller”. Considere-se que a afirmação se destina a uma das obras essenciais de Albert Camus, Prêmio Nobel em 1957. Opiniões, opiniões…

Once again I write about Camus’ novel The Plague, with focus on the similarities between the book and the moment we now live: tiredness, sometimes almost indifference, in face of the sensationalist media coverage of the Covid-19 pandemic, the heroism of ordinary people doing extraordinary things, the awareness – as in the final paragraph of the book -  that plagues never die, they just lie dormant waiting to take us by surprise. And, opposing this pessimism, the faint note of optimism when the novel’s main character says  “there are more things to admire in men than to despise”. Camus, the man who said he didn’t believe in God but was not an atheist, had faith in humanity after all.