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A Lembrança dos Vinte Anos de sua Morte

No entanto, antolha-se-me que todos os escritos
são mais ou menos solidários numa preocupação:
a de conceber a música para o homem,
a de tornar este o centro da arte dos sons,
que não é apenas uma demonstração acústica,
não é apenas uma pura construção intelectual,
não é apenas um ofício e uma técnica,
mas sim também,
e acaso para além de tudo isso,
um alimento espiritual, uma presença e uma mensagem vivas.
Fernando Lopes-Graça
(Proémio de “Nossa Companheira Música”)
Lisboa, Março de 1964

Sabia da efeméride (27 de Novembro), pois impossível esquecer a carta de Dezembro de 1994 de meu saudoso amigo e também notável compositor, Jorge Peixinho (1940-1995), anunciando a morte de “nosso queridíssimo amigo Lopes-Graça”, segundo suas pungentes e sofridas palavras a mim enviadas. Meses após, seria Peixinho que sofreria ataque fulminante. Dupla tragédia para a Música em tão breve espaço de tempo!

Nesses últimos dias fui contatado por duas instituições portuguesas, a Rádio TSF (Rádio Notícias), através da jornalista Rita Costa, para entrevista sobre Lopes-Graça em torno das homenagens que estão sendo tributadas ao insigne compositor. No instante preciso fixado ligaram-me por telefone, e iniciei a longa entrevista que foi concedida à também jornalista Cristina Santos. Lembranças de meus encontros com o grande músico, assim como projetos realizados em torno de sua obra magistral foram objeto de comentários vários. Falar sobre Lopes-Graça sempre me agrada muito, pois independentemente do privilégio de tê-lo conhecido, o notável compositor português é um de meus eleitos há décadas. Desde 1959, nossos encontros se davam em seu Templo Sagrado, a Academia de Amadores de Música, espaço que continuo a frequentar desde sua morte, realizando anualmente recitais quando de viagens à Europa. A Associação Lopes-Graça, por sua vez, solicitou-me um breve relato sobre o homenageado para integrar um dos painéis que serão montados no Salão Nobre da Câmara de Matosinhos (inauguração da exposição, 20 de Dezembro) e no Museu da Música Portuguesa na Casa Verdades de Faria (2015).

Poderia acrescentar que toda a sua produção composicional ou literária me entusiasma. Foi um dos raríssimos que, dedicando-se à composição, regência coral, piano e magistério, legou-nos, paralelamente, um extraordinário acervo como arguto pensador. Se ideologicamente esteve ligado às esquerdas, o que lhe granjeou dissabores enormes durante sua trajetória em pleno salazarismo, foi um puro. Tinha convicções firmes, não buscando proveito próprio. A música era sua respiração, assim como a manifestação popular simples, autêntica o era, também sem quaisquer alardes que pudessem levar à autopromoção. O Coro da Academia de Amadores de Música, laboratório perfeito para o extravasamento de tantas aspirações…

Em Portugal, significativo levantamento tem sido feito, mormente nestes últimos lustros.  Inúmeras gravações realizadas em terras lusíadas são lançadas, a difundir mais acentuadamente obras ainda inéditas. Louve-se a dedicação de tantos intérpretes portugueses nessa tarefa exemplar. Livros e artigos estão constantemente a surgir, o que demonstra que, por parte dos que fazem música e que escrevem sobre ela, não há esmorecimento. Está a faltar a inserção definitiva além-fronteiras, sempre merecida, mas que tarda.

Lopes-Graça no Brasil. Apesar das ligações do mestre com músicos brasileiros como Arnaldo Estrela, Camargo Guarnieri, Guerra Peixe e outros, pouco ou quase nada se fez para sua divulgação no país. É simplesmente lamentável. O suceder dos decênios não apresenta sinais de que um dos maiores compositores do século XX, em termos mundiais, tenha obras apresentadas entre nós. Um dos tristes exemplos estaria no fato de que meus três CDs gravados e lançados na Bélgica e em Portugal, unicamente com obras de Lopes-Graça, não tiveram merecido sequer guarida no Brasil por parte da mídia em geral. Por puro desconhecimento do compositor!!! Bater-se contra a mesmice que impera nos repertórios apresentados no Brasil, mormente referentes ao piano, é cansativo e infrutífero. Portugal “inexiste” para as “desinformadas” sociedades de concerto brasileiras. Acreditam que ter nascido em Portugal, mas a visitar repertório outro, repetitivo, frise-se, já basta, desde que o personagem venha avalizado por Sociedades de Concerto do Exterior. Sociedades, empresários e intérpretes, que se repetem para a sobrevivência através do número de sócios, lucro e presença nos palcos, respectivamente, não estariam propensos às mudanças de repertório em nossas salas de concerto. Raríssimas vezes, de maneira isolada e até nostálgica, um compositor português é lembrado em nosso país. Triste realidade. Sob outra égide, a Universidade no Brasil basicamente ignora a música portuguesa erudita ou clássica. É fato. Ter-se-ia de mudar mentalidades.

Apresento o pequeno texto que enviei para um dos painéis mencionados em homenagem ao grande músico tomarense:

Fernando Lopes-Graça, Nome Maior da Música Portuguesa

Rendo eterno tributo a Lopes-Graça, mercê de convite para meu primeiro recital em Lisboa, no dia 14 de Julho de 1959 na Academia de Amadores de Música. Nas décadas posteriores, sempre que visitava Portugal para recitais, encontrava-me com o Mestre em seu Templo, a AAM. Empatias existem ou não. O fascínio pela obra de Lopes-Graça vem da juventude e teve curva sempre ascendente. Admirava sua postura firme, inquebrantável quando convicção ideológica ou música estavam em causa. A incorruptibilidade do pensar do Músico de Tomar tornou-se lendária.

Foram as muitas fotocópias de manuscritos, sempre acompanhadas de estimuladoras dedicatórias recebidas das mãos do compositor, que me fizeram percorrer suas partituras, buscar sorvê-las em suas essencialidades e, posteriormente, gravá-las em três CDs  lançados pela Portugaler e pela PortugalSom-Numérica, a maioria das obras em registro inédito. Os livros que por ele me foram ofertados, guardo-os como bens preciosos, consultando-os com assiduidade. As constantes viagens às terras lusíadas fizeram-me completar o corpus literário do compositor.

Acredito firmemente que em breve Lopes-Graça será reconhecido com justo mérito, em termos universais, como um dos maiores mestres do século XX. Já o é, sempre o foi, falta-lhe a divulgação incisiva além-fronteiras. Sua produção enorme e criteriosa, a abordar inúmeros gêneros musicais, seu estilo definido, pois somente os grandes deixam “impressões digitais” sobre a partitura, levarão seu nome aos quatro ventos. Esforços estão sendo feitos em Portugal através de gravações, edições de partituras e consistentes estudos críticos sobre a opera omnia do compositor. Intérpretes portugueses estão a repertoriá-lo sonoramente em terras lusíadas e esse é um aspecto dignificante. Contudo, “navegar é preciso…”. Há a necessidade de o Estado fazer sua parte de maneira a não deixar dúvidas quanto às intenções. Lopes-Graça é joia rara, assim como, num paralelo, Villa-Lobos o é. Representam para Portugal e Brasil, respectivamente, seus nomes maiores.

Clique para ouvir de Fernando Lopes-Graça:

Das “Viagens na Minha Terra”:  “Em Alcobaça dançando um velho fandango”  (piano: J.E.M., selo Portugaler)

Das “Músicas Fúnebres”: “Deploração na morte de Samora Machel” (piano: J.E.M., selo PortugalSom/Numérica)

On the 20th anniversary of Lopes-Graça’s death, Portugal pays respect to the great composer with a series of events. I have been contacted by two Portuguese organizations: TSF Radio for an interview and Associação Lopes-Graça for a brief account of my relationship with him for posters that will be on display at the City Hall of Matosinhos and at the Portuguese Music Museum. I can’t help thinking how shameful it is for us, Brazilians, to ignore the works of this outstanding artist, a rare jewel that deserves to be put on a level with the greatest names of the 20th century.

 

 

 

Considerações que Vêm a propósito

Se o seu corpo estiver preparado,
a mente o levará a qualquer destino.
Nicola (amigo e maratonista)

No post do dia 15 sobre a introdução no YouTube das seis “Sonatas Bíblicas” de Johann Kuhnau inseri foto em que Elson Oktake e eu estávamos correndo em uma das tantas provas  que se realizam preferencialmente em São Paulo. Elson é um de meus gurus do pedestrianismo. Comentários houve sobre a extraordinária coletânea de Kuhnau, ora no YouTube. Um leitor, ao ver a foto esportiva, sugeriu que escrevesse um texto sobre essa atividade. Respondi-lhe que em anos anteriores já postei vários sobre corridas de rua, mas que num próximo aproveitaria para destacar a qualidade de vida que emana do exercício físico e de práticas saudáveis.

Apraz-me o fato de ter convencido alguns amigos a praticarem corrida de rua. Os que começaram não mais desistiram e engrossam o enorme contingente de atletas amadores que, regularmente, participam das provas. Carlos, ou Batoré para os adeptos da modalidade, é um deles. Trabalhando intensamente em uma sauna há mais de 25 anos, Carlos abandonou o joguinho de futebol semanal e as “bebidas” da confraternização pós-jogo. Hoje é um dos bons nas corridas de rua. Rápido, resistente, acompanha-me em quase todas as provas das quais participo e incentiva muito aquele que o motivou a essa prática salutar. Meu genro Massimo aderiu ultimamente às corridas de rua e está em pleno aprimoramento.

No domingo do dia 16 de Novembro tivemos a 11ª edição da Ayrton Senna Racing Day – Maratona de Revezamento na lendária pista de Interlagos, que ocorre uma semana após a realização das corridas de Fórmula I. Nossa equipe TA LENTOS (em anos anteriores escrevi vários posts a respeito) participaria com os oito titulares, que ficariam gravados no sugestivo desenho de nossas camisas, realizado pelo pranteado amigo Luca Vitali. Um dia antes recebi o telefonema de Shigeo, um dos integrantes da TA LENTOS, a dizer que a mãe de um dos nossos falecera e, portanto, o casal Franco e Cristina teria de ser substituído. Lamentamos o ocorrido, mas urgia pensar em dois outros corredores para completar o octeto. Vieram-me à mente Carlos, o Batoré, e meu genro Massimo. Aceitaram e completaram com galhardia a prova marcada por descidas e duas subidas, mormente a última, bem acentuada. Como dizia um dos corredores da TA LENTOS, Yuji, mais do que a corrida de revezamento, vale o congraçamento entre as pessoas. Observei as centenas de equipes e não vi uma só fisionomia que não revelasse outra reação a não ser a da alegria de lá estar a participar.

Hoje integramos duas equipes, a TA LENTOS e a Corre Brasil, a despontar nesta última nosso dileto amigo, Elson Otake, o maratonista. Os integrantes das duas equipes têm lá seus  desafios, eles em busca da redução dos tempos e eu, à maneira de um Matusalém, a buscar, ao menos, manter meu ritmo. Aos 76 anos, nas 90 provas de rua já percorridas jamais andei, mas o ritmo moderato ma non troppo leva-me sem cansaço a cumprir todas as provas. Lustros a mais, entusiasma-me o convívio com meus colegas corredores das duas equipes, todos pertencentes à juventude da idade madura, entre 40 e 50 e tantos anos.

Da França, o compositor e pensador François Servenière, sempre presente em meus posts, teve intensa atividade na juventude como alpinista, esquiador, ciclista, nadador, corredor, futebolista, velejador, guia de montanha e professor de esqui. Foi uma alegria saber que o retorno à atividade esportiva, após muitos anos, deu-se, em parte, do exemplo deste velho corredor que a cada prova envia a foto de participação para o Espace Professionnel que Servenière mantém em seu site, no qual, entre mensagens – a  grande maioria sobre música -, trocamos fotos e ilustrações. Sob outro contexto, Servenière, que pratica atualmente longas caminhadas pelas praias e montanhas, enviou-me um apanhado de seu atual estado físico, que corrobora a boa performance mental. Ratifica o amálgama mens sana in corpore sano. Ao longo da existência assisti ao majoritário distanciamento da denominada intelligentzia frente ao “banal” aprimoramento físico, como a apontar o sedentarismo como conditio sine qua non para que as musas inspirem o pensar!!! Na Universidade prepondera esse posicionamento. Fato. É pois com alegria que transmito algumas considerações de Servenière extraídas de nossa correspondência, pois evidencia o amigo sua disciplina invejável para a manutenção da forma e, consequentemente, com reflexos na sua qualidade de vida e na criação composicional sempre em ebulição.

“Fiz meus quatro quilômetros ontem como o faço a cada domingo nestes últimos três meses. Trata-se de treinamento a trotar entre as praias de Deauville e Blonville, em que sinto a prazerosa sensação já descrita por você referindo-se às ‘distâncias encurtarem’. Readquiro a forma! O mar está frio, mas eu nem me importo, pois a circulação sanguínea está em bom fluxo, assim como minha respiração. Estou em bem melhor forma do que no ano anterior e a musculatura das pernas está rígida, bem mais firme do que há tempos atrás. A cada semana, duas horas de ginástica em casa. O esporte é verdadeiramente uma atividade necessária, sobretudo em nossas atividades sedentárias ligadas aos nossos instrumentos de trabalho (piano, computador). É-nos imperativo ficar sentados horas e horas sobre cadeiras, preferencialmente apropriadas, assim espero.

Trata-se de um retorno ao esportista que fui desde a adolescência. Em 1980 fui campeão francês de futebol em competição escolar júnior. Tínhamos dois jogadores da terceira divisão nacional na equipe de Alençon. Nos jogos do torneio encontramos duas equipes com titulares de nossa idade que já integravam a primeira divisão em Lille e Rennes. Malgrado o fato, nosso coletivo durante todo o ano adquirira um grande espírito de solidariedade, daí o resultado final. Jamais duvidamos de nossa força coletiva”.

E as reflexões continuam: “O Tempo que passa não conta. Esse estado de espírito e minha retomada de forma física nestes últimos meses já estão ligados ao esporte e à descoberta de um segredo de vida para se ter uma saúde cardiovascular perfeita, que eu aprendi, aliás, pela Internet, através de um médico francês cuja teoria simples e gratuita eu aplico quotidianamente desde 1º de Julho: ‘a ducha fria’. Eis, pois, que recarrego baterias através dos raios solares, do mar, do esporte, do trotar pelas praias, da ducha fria pela manhã seja qual for a temperatura exterior. Atributos que me dão a plena forma para atacar as novas composições, desafios permanentes. Wait and see!!!”. Continua Servenière: “Antes de receber minha bike ‘turbinada’ no próximo Natal, sinto-me a cada dia mais em forma e, sobretudo, resistente. Diria, ‘esbanjo’ saúde! Incrível o que a atividade esportiva consegue! Sentia-me em declínio, pesado, cansado, deprimido, adoecendo por qualquer motivo! Neste momento, o frio invade nossa Normandia. É necessário fazer enorme esforço para enfrentar o desafio aquático ao acordar, após  cobertores aquecidos; essa obrigação moral cotidiana é bem maior do que um despertar matinal sonoro. Todavia, pouco a pouco a corrida – assim como a ginástica e a escova de dentes! -, não apenas tornou-se um  hábito, mas, graças às endorfinas reativadas, um prazer indescritível. Meu corpo rejuvenesceu 10 anos e a próxima etapa está relacionada à respiração controlada e à resistência ao esforço. Metas a serem atingidas em dois ou três anos, mas sinto que o foguete está prestes a decolar. O resto é o resto, e o moral está elevado, mercê de tantos projetos em curso e outros no campo das ideias. Sede insaciável pela vida”.

Creio que os depoimentos de François Servenière, pinçados de mensagens espaçadas pelo tempo, dão bem a medida do sentimento que todos os que praticam atividade esportiva experimentam. Daí o fato de ter mencionado que jamais vi um rosto contraído durante as corridas de rua, antes delas e depois das provas. Curiosamente, apenas nos pelotões da elite, formados pelos corredores ranqueados que buscam troféus e prêmios em dinheiro, percebo, por vezes, semblantes severos. A atividade esportiva amorosa, voluntária, descompromissada com o pódio só pode ser exercida em plena harmonia corpo e mente. Quanta verdade contém a frase sempre ironizada atribuída ao Barão de Coubertin (1863-1937), Presidente do Comité Olímpico Internacional entre 1896-1925: “O importante não é vencer, mas competir, e com dignidade”. Esse é o lema que nos satisfaz inteiramente.  As fotos de nossas equipes traduzem tantas realidades individuais e coletivas…

This post is about why I love running: the benefits for body and mind; the interaction with other runners – everybody has an advice to give, a race story to unfold -, the rush of hormones that relieve stress and make you happier. I include passages of e-mail messages received from the French composer François Servenière, who took up running recently and is already an enthusiast of the sport. To prove my point, I also publish pictures of Servenière running on the beaches of Normandy and of myself with teammates in São Paulo. Isn’t it a good way to improve our general well-being?

 

 

 

 

 

 

O Olhar de Lince e a Escrita Inteligente

Pouco nos importa o modo de expressão
que colocou em movimento a sensibilidade de um artista.
O que desejamos em troca de nossa  “incuriosidade”  respeitosa
sobre  processo emotivo
é que ele não introduza maneiras estranhas
nos modos de expressão que lhe são peculiares.
Georges Migot

Inúmeros foram os posts nos quais inseri considerações do dileto amigo e ilustre compositor e pensador francês François Servenière. A temática gravita preferencialmente em torno da Música, mas tantas vezes, devido ao direcionamento dos posts, Servenière demonstra todo seu vastíssimo acervo cultural que o torna um pensador de estirpe.

Os dois posts a respeito de “Domador de Sonhos”, de Norberto de Moraes Alves, serviram para Servenière considerá-los sob várias facetas, a partir do “sonho” como desiderato almejado. Ao considerar frase de Norberto de que não deveríamos deixar que nossos sonhos se percam no mundo das ilusões, o mestre francês observa:

“Inicialmente, o título do livro de Norberto de Moraes Alves é magnífico, pois evoca o que todos nós somos e o percurso que empreendemos pela vida tão curta como ‘domadores de sonhos’. Deles partimos e tentamos domá-los, na medida de nossas possibilidades, trazendo-os à realidade, partindo do idealismo em direção ao realismo. Acredito que os sonhos mais loucos são realizáveis, pois, como diz meu sogro, com forte pronúncia regional, aposentado e carpinteiro de profissão, portanto muito próximo das coisas da vida, ‘quando se quer, faz-se’. Sim, a vontade é a verdadeira escavadeira da vida, que torna possível as pistas de decolagem de nossos sonhos mais absurdos. Você, eu, meu pai e meu sogro somos exemplos de ‘quando se quer, faz-se’ e estamos longe de ter esgotado essa exigência de sonhos a realizar. O que mais detesto nesse mundo é a procrastinação, tão presente nos políticos clientelistas de nossos países, principalmente nos dias de hoje, que não fazem outra coisa do que surfar sobre as mentiras, que não vivem que da ficção da vida a crédito, levando nossos países à ribanceira sob o pretexto de que a dívida será o único motor das economias modernas, quando na verdade é o principal câncer. Quanto à política e seu cinismo… eu ainda sonho combatê-los, talvez contra moinhos de vento…

A sinceridade raramente casa com a popularidade e com os negócios. Para a composição, a equação do establishment é aquela de juntar-se com as aspirações do público, ou seja, de partir dos anseios deste para a criação de uma obra. A equação do autor autêntico, do artista autêntico, é partir de sua interioridade para o nascimento de uma obra que possa evidentemente encontrar sucesso e se instalar no coração e no espírito das pessoas. A prova evidente do fato das maiores obras da humanidade tornarem-se atemporais reside não somente nesse falar direto aos corações e aos espíritos do público, não fazendo abstração da exigência. Ao acoplar-nos ao desejo do povo, tornamo-nos populistas. Ao aderirmos ao excesso do princípio da exigência, tornamo-nos, inversamente, ideólogos e incomunicáveis. A melhor fórmula já não teria sido aventada pela filosofia chinesa em sua imanente verdade ‘O espírito busca sempre caminho mais longo que o coração, contudo jamais ele irá tão longe’.

Sim, eu entendo, os apóstolos da arte contemporânea pretendem que falar com o coração é vulgar e faz parir romances vendidos nas estações ferroviárias, portanto pateticamente fracos, temática e semanticamente, segundo o princípio por eles entendido como universal ‘Não se faz arte com bons sentimentos’. Norberto de Moraes Alves pretende que ‘não deixemos nossos sonhos perderem-se no mundo das ilusões’.

Sob a égide dessa frase, e para resistir ao Maelström que representa a constatação de um de seus últimos posts, ‘a arte foi invadida pela massificação, que não subsiste que através do efêmero’; é necessário criar e escrever obra que se sustente. Essa perenidade não acontece evitando-se as tentações da sedução, escrevendo-se uma música antimusical ou antissedução, mas criando, ao contrário, uma música tão ou mais sedutora do que aquela que por vezes é encontrada no estilo efêmero e no turbilhão do alto consumo. Que fique claro, essa música sedutora e envolvente tem de possuir qualidades intrínsecas de elevada condição estrutural e semântica, repleta de prazeres e de surpresas e embasada na técnica segura. Todo o material da música atual está disponível, instrumentalmente ou sob o prisma composicional. Construir uma obra que seduza, feita sob a égide hedonista, mas a responder a critérios de qualidade extrema, tornou-se exigência para o futuro da arte renovada, em todos os seus domínios. Isso é possível, pois ‘há ainda muitas obras primas a serem escritas em dó maior’. Nossos antepassados em França, Debussy, Ravel e mais recentemente  Messiaen e Dutilleux, fizeram essa façanha, como em todos os centros. Villa-Lobos, Guarnieri, Mignone e Oswald em seu país, Lopes-Graça em Portugal, assim como tantos nos países do Leste e nos Estados Unidos… Nada é impossível, tudo se pode, em todo lugar e sempre. Nada resiste ao trabalho e ao espírito.

É evidente o aspecto empresarial em torno das obras atuais mais ventiladas. Seria necessário o pouco provável retorno a um renascimento artístico, único capaz de suscitar novamente grandes obras e fazer emergir grandes artistas, certamente escondidos hoje no ‘anonimato’, como você bem lembra em seu post, artistas ligados ao preceito dos antigos atenienses – ‘verdadeiro, belo e justo’-, ontologicamente impregnados da síntese e da simplicidade.

Todos os sintomas sociais estão presentes sobre a Terra para mostrar não somente a necessidade do retorno às virtudes ‘clássicas’, mas também a vital impulsão pela busca da fé em outra coisa que não os ‘produtos de consumo correntes’ – mesmo os produtos artísticos tornaram-se de ‘consumo corrente’. Não mais satisfazem parcela da população, mas enriquecem muitos. Quanto ao espírito?

Falando dos artistas que são apresentados como modelos poderosos do show-business atual, consideremos que outros extraordinários artistas não são evidentemente promovidos a contento, ou mesmo quase nunca, apesar de não termos o recuo histórico para analisar. Leis do mercado. Contudo, mesmo nos Jogos Olímpicos aquele que sai primeiro nem sempre cruza a linha final. É a fábula do coelho e da tartaruga.

O círculo é vicioso, pois perdedores e vencedores, segundo os critérios das mídias à maneira do Maesltröm, não vivem todos num mesmo planeta. De um lado, o sucesso e meios financeiros imensos, do outro uma ausência de sucesso e meios financeiros limitados que impedem a aparição pública de obras mais exigentes e inovadoras.

Malgrado todas essas constatações, os artistas, sejam eles de geografias diferentes e de talentos e méritos vários, sejam quais forem suas linguagens, gêneros ou estilos, todos estão restritos ao idêntico paradigma, aquele do ‘hic et nunc’, que demonstraria que a posteridade tem raramente a possibilidade de reavaliar méritos e talentos ‘post-mortem’ do artista. Reconhece-se a força de uma obra também através da capacidade do artista se produzir, seja lá a qual preço. Nessas circunstâncias, não há consolação ou vitória exterior, mesmo se carreiras são feitas de repescagens permanentes e os destinos do tipo fênix, que renasce das cinzas.

É injusta, mas a lei da vida estabelece a seleção natural e esta é cega. Sem concessão. Sem ter plano preconcebido, preserva contudo os melhores, aqueles que transmitirão o bastão à geração seguinte. A natureza fixa regras aplicando-as de maneira darwinista implacável , tanto nas artes como em todas as áreas. ‘Struggle for life’ é o motor central e genérico de todas as existências sobre a Terra. A concorrência é rude, mas ela o é desde os espermatozoides. Nada mais fazemos do que continuar o processo.

Uma força imensa está presente em cada um de nós. Há aqueles que sabem aproveitá-la, dominá-la e fazer da vida algo excepcional, como existem os que passam ao largo, mesmo se considerarmos que a vida não presenteia no início as pessoas da mesma maneira. Sabe, contudo, distribuir cartas ao longo da existência, ao mérito, precisamente.

A vida não é justa ou injusta, ela é. Eis o que me levou à reflexão sobre seus dois textos em torno de ‘Domador de Sonhos’, de Norberto de Moraes Alves. Continuemos a ser indomáveis e obrigado por seus artigos sinceros e lúcidos, se bem que tristes, se considerarmos certos talentos”. (tradução: J.E.M.)

Once more I transcribe e-mail message received from the French composer François Servenière, now with his views on a subject addressed  recently: our dreams and the chances of making them come true and the difficulties to determine why so many talented artists live in obscurity, while others, maybe not so qualified, succeed in capturing media attention.