Uma cartinha para o Papai Noel e a ansiosa espera

Dizem para você que os semblantes
nessa noite são extraordinários,
pois estão à espera de um milagre.
E você vê que todos os anciões retêm a respiração,
fixando seus olhares nas crianças,
preparando-se para fortes palpitações do coração.
Algo indescritível e de valor inestimável
se passará nos olhares dessa gurizada.
Antoine de Saint-Exupéry
(Citadelle CXXII)

Desde 2008 realizo meus treinos para as corridas de rua do calendário oficial dessa atividade esportiva, que a cada ano ganha um número maior de adeptos. Quando não participo de uma prova, nem por isso deixo de treinar na minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Durante a semana os treinos se concentram em torno do Brooklin e, aos domingos, no Campo Belo.

Nos treinos dominicais passei a encontrar o pequeno José, de apenas seis anos, que passeia por uma das ruas do bairro com sua mãe, avó e bisavô. Certo dia, lá se vão alguns meses, ao passar pelo menininho José, ele me perguntou se poderia correr comigo. Deu-me sua mãozinha e percorreu uns 40 metros. Domingos seguidos esse meu trajeto teve curta distância percorrida também pelo pequeno José.

Vendo-o triste determinada manhã, perguntei-lhe a razão. Um seu coleguinha destruíra seu carro de polícia. Imagine o leitor o efeito desse acontecimento. Estava “de mal” com o coleguinha. Disse-lhe que deveria tentar as pazes com o pequerrucho, pois não é bom a animosidade já a essa altura. Como completaria seis aninhos dias após, presenteei-o com uma caixa a conter alguns carros de metal e lá estavam o carro de polícia, de bombeiros, ambulância e outros tantos.

Ultimamente o pequeno José, sempre a acompanhar bisavô, avó e mãe, ao me ver correr – parece ter olhar de lince – vem até mim em desabalada correria, dá-me a mãozinha e nossos 40 ou 50 metros ficam garantidos. Despeço-me com um abraço e retomo meu treinamento.

Num desses domingos José tinha às mãos um boneco do Batman todo articulado, medindo uns 40 cms. Perguntei-lhe se pedira algo para o Papai Noel. Respondeu-me que gostaria do Superman. Disse-lhe para escrever cartinha ao bom velhinho e que eu entregaria sua mensagem, pois era meu amigo. Meu amiguinho colocou a mão na minha barba e disse que eu também a tinha branca. Comentei que Papai Noel sabe se o menino foi bom aluno, obediente aos pais e que na cartinha ele não poderia mentir.

Uma ou duas semanas após, entregou-me a cartinha com seu desejo – mas redigida pela mãe. Fez inclusive o desenho do super-herói sonhado. Perguntou-me se Papai Noel iria atendê-lo. Respondi-lhe que dependeria do bom velhinho, mas acreditava que sim. Corremos mais umas dezenas de metros e prossegui meu treino.

Deixarei o Superman com sua mãe ou avó para que o deposite ao pé da árvore de Natal. Posso antever a alegria de meu amiguinho José.

Esse episódio me faz lembrar de uma infância feliz, que antevia o Natal e a presença certa do Papai Noel, que à meia noite em ponto tocava a campainha. Miúdos ainda, assustávamos à primeira vista, mas à medida que o velhinho em traje púrpura tradicional, gorro e outros apetrechos tirava do imenso saco os presentes para o quarteto de meninos, ficávamos hipnotizados. Como não recordar daqueles instantes inefáveis? Nessa idade edipiana ainda não imaginávamos nosso saudoso pai nesse mágico mister. Foi-se a magia desse maravilhamento, sempre precedido pelos preparativos de nossa também saudosa mãe semanas antes. O Natal, mesmo perdendo esse encantamento, mercê da imensa pressão comercial, continua a ser data maior da cristandade.

Ainda não tiraram a ilusão do garotinho José que  está ansioso para pegar, pela manhã do dia 25, seu Superman ao pé da árvore. Certamente Papai Noel vai atendê-lo. Só o bondoso velhinho da Lapônia, a avó e a mãe do menino José, o leitor e eu sabemos do desfecho.

Se hoje Papai Noel “serve” majoritariamente para fins comerciais, rememorar sua presença, que fazia bater bem mais forte nossos coraçõezinhos, afigura-se como extensão inebriante.

A todos os leitores desejo um Natal de confraternização e paz.

As a boy, Christmas night was pure enchantment, a beautifully perfect night. At midnight Santa Claus – my father in disguise – would ring the doorbell loaded with gifts for me and my three brothers. The magic of the moment now lives on only in my memory, but it is a reality to my six-year-old friend José. Usually strolling along the street with his mother and grandparents during my running routine on Sundays, he sprints in my direction when he sees me and we run some forty meters together as a rule. Little José has entrusted me with the task of handing over a letter to Santa Claus, believed to be my personal friend. First on his wish list: a Superman doll, to keep company with the Spider-Man he already has. I will make sure Santa Claus leaves Superman beneath his Christmas tree. To all my readers, I wish a Christmas filled with beautiful moments and cherished memories.

 


André Posman e um de seus promissores gêmeos

A grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir,
que fazem e não esperam ser feitos;
que são sempre voz ativa, não passiva.

O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens;
é tê-las feito.
Agostinho da Silva

Inúmeros blogs foram dedicados, desde o longínquo Março de 2007, à Bélgica Flamenga, precisamente Gent e Mullem, afetos, música e geografia. André Posman – fundador da De Rode Pomp, gravadora que lançou muitos CDs meus gravados em Mullem sob a supervisão do extraordinário engenheiro de som Johan Kennivé – jamais deixou de acalentar os programas que eu apresentava para a sua gravadora. Amante inveterado do inusitado, acolhia o repertório tradicional, mas proporcionou em sua sala de concertos recitais memoráveis, camerísticos e instrumento solo, interpretados por músicos europeus e tantos outros da Rússia, a preferenciar programação pouco frequentada, do barroco à contemporaneidade mais hodierna. Naquela sala de cerca de 200 lugares, aproximadamente, promovia cento e tantos concertos todos os anos.

Infelizmente, De Rode Pomp teve suas atividades encerradas anos atrás, como aliás muitas associações de concertos e selos seletivos europeus, esses cuidadosos, de pequenas e significativas tiragens. A indústria cultural é implacável e dificilmente organizações pequenas e voltadas unicamente à qualidade subsistem. Sempre confessei que os anos a gravar para a De Rode Pomp foram os mais felizes de minha atividade musical. André Posman, professor de história aposentado, fundador da De Rode Pomp e da galeria de artes La Perseveranza, também desativada, continua sempre um entusiasta apaixonado pelas artes. Sou-lhe eternamente grato, pois foi dele o convite para que desse anualmente recitais em sua sala de concertos a partir de 1996 e gravasse para seu prestigioso selo.

Creio já ter narrado em blog bem anterior episódio ocorrido logo após ter interpretado, em recital na sala de concertos da De Rode Pomp, os 12 Estudos para piano de Debussy, que gravaria nos dias subsequentes em Mullem. Para os recitais especiais, André oferecia ceia de quinta a sábado para frequentadores que reservavam mesas. A ceia se dava na sala da galeria La Perseveranza, sob os cuidados do grand chef Philippe. Após meu recital, jantava com amigos quando se senta à nossa mesa o representante de um selo mundial de grande tiragem. Disse-me que gostaria que eu fizesse parte da lista dos pianistas que gravam para a empresa. Fiz-lhe três perguntas: “poderia escolher o programa do CD, gravar em Mullem com Johan Kennivé – meu templo mágico e engenheiro de som de alto nível -, escrever texto do encarte? O cidadão disse-me que a empresa escolhia o programa dos integrantes da lista, a cidade para a gravação, que poderia ser na Europa, Ásia ou América do Norte, e que muitos CDs saiam inclusive sem texto a explicar o programa. Acabara de falar e meu diletíssimo André, flamengo fisicamente avantajado, passava frente à mesa. Levantei-me, dei-lhe um beijo na face e disse-lhe que nossa amizade era eterna. André sorriu abertamente e o cidadão que me convidara levantou-se polidamente e se retirou.

Estou a me lembrar da gestação de alto risco de Jamila, dedicada  esposa e colaboradora de André, que esteve meses num hospital público – excelente padrão belga – para acompanhamento. Fui visitá-la nesse difícil período. Os gêmeos, Yassine e Taha, nasceram saudáveis e desde a tenra infância revelaram dons musicais inequívocos, Taha ao piano e Yassine na clarineta, hoje saxofone. Acompanhei o desenvolvimento dos gêmeos, pois todos os anos, quando em Gent para recitais e gravações, ouvia-os e observava o rápido evoluir dos irmãos.

Frisei inúmeras vezes nesse espaço a importância da formação dentro do lar. Taha e Yassine nasceram em berço propício, pois Jamila é mãe devotada, que acompanha atentamente o desenvolver de seus filhos.

Essa ligação amorosa com Gent e diletos amigos persiste há mais de 23 anos e teve fatos marcantes. Em 1996 recebi de André a chave de sua morada. Quando chegava à Gent para atividades musicais, tinha livre acesso aos pianos da casa, inclusive à geladeira. Ficava hospedado a cento e poucos metros, na casa dos sempre amigos Tony e Tania Herbert, e dirigia-me à sala de concertos, contígua ao prédio da residência dos Posmans, para estudar durante a alta madrugada. Realmente André é figura rigorosamente singular. Quanto a Yassine e Taha, raramente encontrei jovens tão bem educados e respeitadores de valores hoje raros em nossa sociedade. E não estão numa torre de marfim, pois praticam esporte, lutas marciais e logicamente, de maneira preferencial, música no melhor sentido, instrumental e coral. Quanto aos estudos escolares, são ótimos alunos.

Vem-me à lembrança divertido acontecimento que se deu em 2008 ou 2009. Após recital à noite na De Rode Pomp, André perguntou-me se podia, pela manhã seguinte, dar um recital especial dedicado aos colegas de classe de seus gêmeos. Aquiesci com prazer e, ao tocar Viva-Villa de Gilberto Mendes, peça minimalista com muitos ritmos brasileiros, espontaneamente a gurizada subiu ao palco e começou a dançar.

Em Maio último retornei à região flamenga – creio que pela 25º vez – para recital e gravação, que se deram em Mullem. Em Gent, tive a grata oportunidade de ouvir Taha, que preparava o Concerto nº 2 para piano em Fá Maior op. 102, de Dmitri Shostakovitch (1906-1975). Pediu-me para que o ouvisse e qual não foi meu prazer ao verificar a evolução desse talentoso jovem.  Preparava-se para apresentação em Junho.

Taha estudou inicialmente com Elisa Medinila, filha de meu dileto amigo e pianista Alfonso Medinila. A seguir, com Timur Sergeyenia, pianista de vastíssimo repertório nascido na Bielorússia. Ao ser aceito no Conservatório de Bruxelas, ficou sob a orientação de Boyan Vodenitcharov e Hans Ryckelinck.

Foi pois com prazer inusitado que ouvimos, Regina e eu, pelo vídeo que me foi enviado por Lucien Posman – irmão de André e compositor de mérito, de quem dele gravei, para o selo De Rode Pomp, Le conte de l’étude Modeste, que faz parte do CD New Belgian Etudes – a apresentação de Taha Posman a interpretar o Concerto nº 2 para piano e orquestra de Shostakovitch. Tendo conhecido seus pais bem antes de seu nascimento, ouvi-lo nesse desabrochar seguro é motivo de emoção.

O Concerto nº 2 (1957) tem um caráter poder-se-ia dizer didático, e o compositor pensou em seu filho Maxime, de 19 anos, que teria realizado a primeira audição. Shostakovitch expõe um piano basicamente integrado à orquestra e durante quase toda a extensão da obra o instrumento participa, salvo em momentos precisos, mormente no segundo andamento. O primeiro, Allegro, pleno de vivacidade, possibilita ao intérprete verdadeiro prazer na execução. Bem digital, técnica dos cinco dedos, ele evolui basicamente com poucas interrupções e sua cadência apenas ratifica essa técnica digital. O segundo andamento, Andante, extremamente lírico, proporciona ao pianista a exploração de belos matizes sonoros. Quanto ao terceiro andamento, Allegro, Shostakovitch faz alusão a Charles-Louis Hanon (1819-1900), pedagogo francês, cujo método é mundialmente frequentado por todos os que iniciam o estudo de piano no que concerne à técnica dos cinco dedos, empregando algumas de suas “fórmulas” copiadas ou modificadas. No todo, a notoriedade desse jovial Concerto para piano e orquestra vem, em parte, da engenhosidade da construção, mesmo que voltada à tradição; da destreza digital e de uma esfuziante jocosidade.

O belo Concerto nº 2 de Shostakovitch tem inúmeras notáveis gravações no Youtube, inclusive a realizada pelo próprio autor ao piano. Foi um excelente desafio para o jovem Taha, que à altura tinha 17 anos. Ao longo de toda a apresentação realizada no dia 16 de Junho deste 2019, junto à Sonores Symphoniorkest Gent conduzida por Joeri van Hove, mostrou-se rigorosamente à vontade, realizando com estilo definido os três andamentos do Concerto. Se nos Allegros demonstrou maturidade invulgar no tratamento proposto por Shostakovitch quanto às passagens virtuosísticas e suas flexibilizações dinâmicas, seria no segundo andamento, Andante, que Taha Posman revelaria a presença do músico sensível que sabe conduzir a frase musical com raro cuidado. Quanto ao terceiro andamento, Taha Posman transmitiu o frescor inerente na partitura. Apesar de ter mostrado ainda uma certa timidez, antes e depois da expressiva apresentação, muito descontraída, diga-se, o que é raro nesse primeiro contato com a obra junto à orquestra, Taha Posman já é uma realidade promissora. O público que lotou o Groene Zaal, a Sala Verde da Escola Católica de Saint Bavon, testemunhou, através de longos aplausos, a convincente apresentação.

Clique para ouvir o Concerto para piano e orquestra nº 2 em Fá Maior op. 102 de Dmitri Shostakovitch, tendo ao piano Taha Posman.
Áudio e vídeo preparados por Johan Kennivé, tendo a ajudá-lo Yassine Posman.

https://www.youtube.com/watch?v=Pk-IXInukwk

Um longo e esperançoso caminho se abre para Taha. Tenho a convicção de que deverá ter brilhante carreira e será mais um pianista a manter a excepcional tradição pianística da Bélgica.

Many times I’ve mentioned in this blog my love for Belgium and for the friends I’ve made there, among them André Posman and his family. André is the founder of the label De Rode Pomp, which released most of my CDs recorded in Mullem. Unfortunately De Rode Pomp does not exist anymore, but the years I’ve recorded for this label were the happiest of my musical career. I still remember the high-risky pregnancy of Jamila – André’s wife – that culminated in the birth of the twins Yassine and Taha, whom I’ve known since babies. Now young adults, they are a result of their good upbringing: polite, responsible, productive, both having revealed an early talent for music (Taha piano, Yassine clarinet and saxophone). It was with emotion and delight that I watched the video sent by composer Lucien Posman in which Taha performs, as a soloist, Shostakovich’s Piano Concert nº 2 in F major with the Sonores Symphonieorkest Gent conducted by Joeri van Hove. In this Concert, the piano is almost integrated with the orchestra and participates virtually throughout the entire piece. Taha plays with competence and ease, confirming he is a promising young talent with a brilliant career ahead of him, in the best tradition of great Belgian musicians.

Imenso compositor a revelar interioridades

É o povo russo que eu quero pintar.
Quando eu durmo, eu o vejo nos meus sonhos,
quando me alimento, é nele que eu penso;
quando bebo, é ele que aparece em toda a sua realidade,
grande, enorme, majestoso, magnífico, sem fardo e sem disfarce.
Modeste Moussorgsky

Após comentar as vastas relações epistolares de Beethoven, Liszt e Wagner, anunciava que ainda trataria de duas outras expressivas e distintas, as de Modeste Moussorgsky (Moscou, Éditions Radouga, 1987) e as de Claude Debussy (1862-1918). Através das cartas podemos melhor entender diversificados caminhos enveredados pelos músicos em apreço.

A vida de Moussorgsky é um longo caminhar em direção ao trágico. A ascendência nobiliárquica remonta ao século XV e, apesar de uma infância sem transtornos quanto à sobrevivência, Moussorgsky foi péssimo administrador de seus bens e em sua curta existência teve reiteradas vezes a ajuda de amigos. Integrou o Grupo dos Cinco, compositores autodidatas que buscavam se expressar musicalmente voltados às tradições populares russas, sem desmerecer o romantismo, mas adequando-o aos ideais nacionalistas. Foram eles: Alexandre Borodine, César Cui, Mili Balakirev, Modeste Moussorgsky e Nikolaï Rimsky Korsakov, todos basicamente da mesma idade. Em carta a seu fiel amigo e confidente, Vladimir Stassov, Moussorgsky escreve já nos estertores da ação do grupo: “Anunciei [com toda a delicadeza de que sou capaz] a Korsinka (Rimsky Korsakov) e a Borodine que, para salvaguardar a pureza virginal do círculo, para não nos prostituirmos, tenho a intenção de dar ordens no que concerne a nosso trabalho coletivo, ao invés de recebê-las; de colocar questões e não ser obrigado a responder; tudo isso, é claro, unicamente com a permissão de Korsinka e Borodine e em nosso nome” (31/03/1872).

Na infância o pequeno Modeste sofre decisivamente a influência de duas mulheres, sua mãe, Júlia Ivanovna, que lhe dá as primeiras noções pianísticas, e a babá, essa Niania inseparável, “contava histórias que me impediam de dormir”, presente em tantas lembranças musicais e epistolares. Já adulto, Moussorgsky encontraria obstáculos para que tivesse uma vida ao menos normal. Entrega-se à bebida, sofre de epilepsia, compõe freneticamente e nem sempre é entendido por seus pares.

A atividade epistolar de Moussorgsky, dirigida aos seus colegas do Grupo e a poucos interlocutores, entre os quais se destaca o crítico Vladimir Stassov, aborda música, preocupação com o povo, desilusões, carência afetiva, solidão. No livro “Modeste Moussorgski” há também outros temas e depoimentos de seus coetâneos.

O povo, constante em seus pensamentos, está expresso em carta a Vladimir Nokolski, ao tratar de uma de suas criações mais afamadas, A Noite de São João no Monte Calvo: “Você está bem a par de minhas convicções musicais para não duvidar que me é extremamente importante reproduzir fielmente as criações da imaginação popular, sejam elas quais forem, bem entendido, no limite dos meios utilizados para a escrita musical” (12/07/1867). Assim como Dostoiewsky, Moussorgsky é um observador. Frisa esse aspecto em tantas missivas: “Observo atentamente mulheres e mujiks típicos: uns e outros me são úteis. Quantos não são os aspectos inéditos na alma russa ignorados na arte! Eles são extremamente saborosos e simpáticos… Reproduzi em imagens musicais uma parcela de minhas observações da realidade e da intenção das pessoas que me são caras, transmitindo a elas impressões acumuladas”. Carta à Lioudmila Chestakova (30/07/1868). Em outra carta a Stassov, Moussorianine (assim ele assina em tantas missivas) escreve, num prenúncio dos eventos do início do século XX na Rússia: “Patinamos no mesmo lugar enquanto o povo não puder verificar com seus próprios olhos o caminho que lhe é imposto; enquanto não puder escolher, ele mesmo, a sua senda! Benfeitores buscam ver suas glórias documentadas enquanto o povo geme e, para não o fazer, embebeda-se continuamente, mas contrariamente, gemerá ainda mais forte: nós estamos, pois, sempre lá!” (16-22, 06/1872).

Moussorgsky emana conceitos sobre a condição humana, mas luta igualmente: “Os homens evoluem e, como consequência, a sociedade humana também; a compatibilidade das exigências do homem evoluído [para seu tempo] com aquelas que lhe impõe a sociedade [igualmente para o seu tempo] representa a harmonia que buscamos, e a via em direção à harmonia passa por uma luta feroz, sejam quais forem as circunstâncias”. Carta a Arséni Golénichtchev-Koutousov (02/03/1874).

O escritor e aventureiro Sylvain Tesson define bem uma palavra russa traduzida em francês como pofiguisme: “O pofiguismo não toma emprestado nem à resignação dos estoicos, tampouco ao desprendimento dos budistas. Também não ambiciona conduzir o homem à virtude pregada por Sêneca, nem dispensar méritos cármicos. Os russos pedem simplesmente que os deixem esvaziar uma garrafa, pois amanhã será pior do que hoje. O pofiguismo é um estado de passividade interior corrigido por uma força vital. O profundo desprezo por toda esperança não impede o pofiguista de desfrutar ao máximo os sabores do dia que passa” (Dans les forêts de Sibérie).

Em carta a Stassov, Moussorgsky traça quadro relacionado à técnica composicional, comparando-a em certo ponto à culinária: “Talvez tenha medo da técnica, pois é meu ponto fraco. Muitos me defendem sobre esse capítulo igualmente. Detesto, por exemplo, o costume de cozinheiras que dizem, falando de um paté em vias de ser cozido ou, mais precisamente, comido, que sua preparação exigiu ‘um milhão de pitadas de manteiga, quinhentos ovos, toda uma quantidade de brócolis, cento e cincoenta peixes e um quarto…’ Comemos o paté e achamos delicioso, mas desde que a cozinha é mencionada, vem-nos à mente uma cozinheira ou um cozinheiro eternamente sujo, o chapéu típico, um peixe eventrado sobre um outro, muitas vezes com as tripas à mostra. Outras vezes, a imaginação sugere um avental imundo de gordura, no qual por vezes ela ou ele soa o nariz, esse mesmo avental que serve para enxugar as bordas dos pratos, fazendo-os brilhantes… Pensando assim, o paté torna-se pior. As obras de arte acabadas possuem esse aspecto de castidade a interditar tocá-las com as mãos sujas: é repugnante”.

Se já abordei o arguto senso de observação de Moussorgsky, mencione-se exemplo em que, dessa atitude, o compositor passa à prática: “Durante o trajeto de barco de Odessa a Sebastopol, havia a bordo mulheres que cantavam; à altura do farol de Tarkhankhout [onde naufragara o iate Livadia], enquanto certos viajantes começavam a sofrer enjoos, observei que duas mulheres, uma grega e uma judia, cantavam suas canções. Juntei-me a elas, que ficaram felizes e me chamaram de mestre. A propósito, tendo assistido em Odessa a ofícios em duas sinagogas, fiquei entusiasmado. Guardei dois temas hebraicos: o do cantor acompanhado pelo coral e também o executado em uníssono”. Longa carta a Stassov (10/09/1879).

Esse relato, próprio de atento observador, corrobora outros olhares de Moussorgsky, como aqueles durante a exposição de aquarelas (1874) de seu amigo Victor Hartmann falecido em 1873. O impacto levou o compositor a compor uma das obras mais emblemáticas da arte musical, os Quadros de uma Exposição para piano e futuramente orquestrados por compositores como Maurice Ravel, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone. Escreve a Stassov aos 12 ou 18 de Junho de 1874: “Meu caro generalíssimo, Hartmann ferve em minha cabeça como ferveu Boris (referia-se à também emblemática ópera Boris Goudonov); os sons e as ideias estão suspensos no ar, absorvo-os, lambuzo-me, a chegar apenas a rascunhar sobre o papel. Escrevo agora o nº 4, as ligações são boas (tratava-se das diversas Promenades, passeios que interligam os quadros). Quero findá-los o mais rápido e da melhor maneira possível. Minha fisionomia aparece nos intermédios. Acredito que está dando certo. Dê-me sua benção” (traduzido por JEM a partir da versão francesa do original russo).  Moussorgsky comporia em cerca de duas semanas uma obra-prima, e durante esse tempo, teria ficado autorrecluso.

Detenho-me nos Quadros... pois eles representam a síntese dessa atenta observação. Não seriam os temas dos dois judeus, Samuel Goldenberg e Schmuyle, inspirados em outras escutas, Tuilleries não lhe veio à mente após presenciar miúdos brincando, A Cabana sobre patas de galinha – moradia da feiticeira Baba-Yaga não traria a Moussorgsky as reminiscências dos contos de Niania, sua babá, que “o impediam de dormir”, o tema da Grande Porta de Kiev, a finalizar a obra maiúscula, não é certamente a lembrança inconsciente de Frère Jacques, considerando-se que as melodias do cancioneiro francês eram entoados por Nianias, tantas delas vindas de França, pois o idioma de Voltaire era quase uma segunda via nas classes mais abastadas russas?

Clique para ouvir os Quadros de uma Exposição na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

Modeste Moussorgsky, autor de obras imorredouras, como as óperas Boris Goudonov e Khovanshchina, ciclos de canções absolutos, Quarto de criança, Sem sol, Cantos e danças da morte, os Quadros de  uma exposição – um dos compositores preferidos por Claude Debussy e Igor Stravinsky -, sucumbiria no infortúnio, vítima, entre outras causas, do álcool e da epilepsia. Tem-se nos versos finais da canção escrita aos 18 anos, Onde estás pequena estrela: “A nuvem negra escondeu a estrela, e a menina foi envolvida pelo túmulo gelado”.

This post addresses the book “Modeste Moussorgsky et le drame musical russe – notice autobiographique, lettres, souvenirs de contemporains” (Éditions Radouga, Moscou, 1987), covering, among other subjects, the letter exchange between the Russian composer Modest Mussorgsky and a few interlocutors, among them the critic Vladimir Stassov and members of The Five, a group of composers that included Mussorgsky, Aleksandr Borodin, Mily Balakirev, Nikolay Rimsky-Korsakov and César Cui, all bound by the goal of creating a distinctive school of Russian music. In my view, the reading of Mussorgsky’s personal letters has particular importance if one wants to learn about his music, his psychological portrait, his shrewd understanding of the Russian people — something that has impacted on the music he wrote — or, in a word, the paths trodden by the composer in music and in life.