Entrevista a J.E.M.

Deus não se afirma nem se nega:
Deus É, mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua extrema liberdade.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“Do Previsível e do Imprevisível”)

Sugeri ao meu irmão, Ives Gandra Martins, notável jurista, uma entrevista para o blog semanal. Motivos vários levaram-me à ideia. Primeiramente pelo fato de que Ives sofreu recentemente uma quarta cirurgia do Divertículo de Zenker (processo endoscópico), que resultaria, mercê de consequências imprevisíveis, em uma série de adversidades ao longo de prolongada hospitalização no referencial Hospital Sírio-Libanês. Restabelecia-se das vicissitudes quando contraiu o Covid-19. Apenas como referência, acrescentaria que em 2018 fui também operado do Divertículo de Zenker por endoscopia, intervenção relativamente simples, mas que imprevisivelmente provocou uma pneumonia, a me reter durante uma semana em UTI no ótimo Hospital Santa Catarina.

J.E. – Em algum momento antes da cirurgia, devido à sua faixa etária, alertaram-no sobre decorrências?

Ives – Não houve qualquer alerta, creio que pela simplicidade da operação. Os médicos esperavam que pudesse até sair à tarde.

J.E. – Naqueles angustiantes dias em que sequencialmente o seu organismo não reagia, seu genro e eu, sempre em contato, temíamos pela sua vida. Que força interior o levou a acreditar numa recuperação e em algum momento o irmão temeu a morte? É de conhecimento público sua religiosidade. Em que dimensão a situa?

Ives – Após o procedimento endoscópico tive, algumas horas depois, uma isquemia, sendo levado de imediato para uma unidade cardiológica. Na sequência, houve uma septicemia que me deixou em coma por seis dias. O estado inconsciente leva, todavia, em alguns momentos, o paciente a delirar. No meu caso, quando saía do estado comatoso, distinguia alguns elementos da família, mas voltava rapidamente a participar do delírio, revivendo fatos históricos (2ª Guerra Mundial, independência do Brasil, a guerra de secessão, etc), que desapareciam sempre que abria os olhos. Quando saí da inconsciência, contaram-me que ficara seis dias entubado e em coma. Assim que me livrei do entubamento e fui da UTI para a Semi-UTI e depois para quarto, peguei o corona vírus, ficando mais 11 dias no Hospital Sírio Libanês. Ao todo 38 dias. Nestes momentos, o importante é não desanimar, manter o espírito aberto – sempre brinquei com a enfermagem – e manter-se a par do que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Foi o que fiz. Estou, todavia, convencido de que as orações de todos e as minhas também – assistia às missas diárias na TV quando fui liberado – levaram o médico divino a curar-me.

J.E. – Ao visitá-lo por duas vezes, não entrei no espaço em que o irmão estava na UTI, pois não me ofereceram máscara, jaleco ou avental descartável. Vi familiares e visitantes que entraram no seu espaço da UTI sem qualquer proteção. Seria uma das causas dos problemas até a contaminação pelo Covid-19?

Ives – Não creio. O mais possível é que dois dos médicos que me tratavam e que tiveram o corona, tenham-me passado.

J.E. – Durante os 38 dias hospitalizado o irmão acompanhou o início da evolução do Covid-19 no Brasil, temendo-o?

Ives – Quando peguei o novo corona vírus fiquei um pouco preocupado, mas nos 11 dias isolado não tive falta de ar, nem precisei de respirador.

J.E. – Qual a sua reação, em pleno processo de recuperação pós-operatória, ao saber da contaminação pelo Covid-19?

Ives – Não foi agradável, pois já estava internado há 27 dias, mas enfrentei, com tranquilidade, pois não havia outra alternativa.

J.E. – Tenho acompanhado as pesquisas internacionais a envolver medicamentos como Hidroxicloroquina + Azitromicina e Plaquenil. Em França, resultados concretos a partir da Hidroxicloroquina + Azitromicina têm sido reais, mormente a partir do protocolo do Dr. Didier Raoult, de Marselha. Correntes do governo francês contrariam as pesquisas alvissareiras do Dr. Raoult. O medicamento não é caro, mas precisa ser indicado por médicos, pois arbitrariamente consumido pode até levar a óbito. Dado o seu estado de saúde pré-Covid-19, esse medicamento foi-lhe administrado? Teria sido igualmente prescrito à Ângela, sua filha na foto, que contraiu o Covid-19 e já está curada?

Ives – Por lutar há 30 anos contra a artrite, tomei Plaquenil e Plaquenol durante muitos anos, que são remédios à base de Quinino. Talvez tenha havido alguma proteção pelo depósito de Quinino no corpo. No hospital, todavia, não tomei o remédio.

J.E. – Não teriam os três Poderes de se debruçar bem mais sensivelmente sobre áreas como saúde, educação, saneamento básico? O SUS, sustentáculo tênue nessa avalanche de infectados que a todo momento acorre aos seus postos, tem sofrido retração constante das verbas. Os índices estratosféricos do Covid-19 nos Estados Unidos não seriam bem inferiores tivesse o país um modelo público, tipo SUS? Não mereceria doravante o SUS uma atenção plena do governo, mormente pelo crescimento excessivo, pós-Covid-19, das classes menos favorecidas?

Ives – Passo-lhe artigo por mim escrito que saiu no Migalhas [vide link abaixo], entendendo que a união entre as três esferas da Federação seria fundamental para combater a Covid-19. Nenhum país do mundo estava preparado para enfrentar a pandemia, com “escolhas de Sofia” sendo feitas em países desenvolvidos como Itália e Espanha. No caso brasileiro, a não obediência ao confinamento tem dificultado ainda mais o combate a sua disseminação.

J.E. – Sobre a problemática confinamento-economia, quais suas perspectivas?

Ives – “É difícil dizer. Os governos estão gastando mais e recebendo menos. Se forem para um aumento da carga tributária para compensar a perda, esgotarão a sociedade e atrasarão a recuperação. Se pretenderem emitir moeda para se autofinanciar gerarão, no tempo, inflação.

A única forma seria, visto que 35% aproximadamente da carga brasileira é destinada aos servidores públicos de todas as entidades federativas e poderes, que houvesse um gesto de redução temporária de seus vencimentos, visto que está havendo redução de salários no setor privado e desemprego. Neste sentido, passo-lhe o texto de meu artigo “A omissão burocrática” publicado no “Estadão” [vide link abaixo]. O certo é que o mundo terá que repensar em nível de solidariedade e soluções econômicas e sociais a partir de agora. No Brasil, só com a redução da esclerosada máquina burocrática teremos condições de sair da crise.
Há 50 anos faço o melhor negócio do mundo: dou meia hora do meu dia assistindo uma missa e mais algum tempo entre oração, terço e poucas devoções, e recebo mais de 21h de Deus para gozar daquele dia. Nenhum banco pagou juros tão generosos, em qualquer momento da história da humanidade.

J.E. Ives enviou-me as respostas no dia 19 de Maio. Há exatamente 20 anos morria nosso saudosíssimo pai, figura emblemática na nossa formação, dias antes de completar 102 anos e um ano após nossa querida mãe. Hospitalizado, ouvi, uma hora antes do desenlace, as batidas aceleradas de um coração que batera sem cessar de 1898 ao ano 2000. Dois dias após, ouvia em uma maternidade o coraçãozinho acelerado da neta Valentina, que está a completar 20 anos. Mistérios insondáveis!

Finda a entrevista, Ives pediu-me para inserir Dumka de Tchaikowski, peça que interpretei em 1962 no Conservatório P.I.Tchaikowsky, Moscou, durante o II Concurso Internacional Tchaikovsky. Agradeço ao dileto amigo Elson Otake que atende à solicitação do irmão, introduzindo a composição no Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=S1IQtIpZCJA

“O combate ao coronavírus”

https://migalhas.com.br/depeso/326553/o-combate-ao-coronavirus

“A omissão burocrática”

https://gandramartins.adv.br/artigo/a-omissao-burocratica/

Today I publish a “conversation” with my brother, the eminent lawyer Ives Gandra Martins, who has recently been admitted to hospital for a simple and quick surgery, expecting to be discharged on the same day. However, a series of unexpected post-surgery complications — including a six-day comma and later an infection by coronavirus — kept him in hospital for 38 days. The family feared for his life, but fortunately he is already at home in a good general state. In this interview for my blog, Ives talks about his days in hospital and how his strong faith contributed to a positive attitude towards his health. As an expert tax lawyer, he also gives his views on the predicted economic and human chaos after Covid-19, stating that in Brazil, only with the reduction of its sclerotic bureaucracy the country will be able to get out of the crisis.


Recepção em Portugal nos tempos dos LPs

Le progrès en art ne consiste à l’étendre ses limites,
mais à les mieux connaître.
Georges Braque

Há tempos não apresentava Ecos, manifestações de interesse dos leitores que acompanham meus blogs. Dois comentários vindos de Portugal, escritos por amigos que não se conhecem, mas que, por incrível coincidência, abordam precisamente o contato auditivo com a interpretação de Guiomar Novaes através dos antigos LPs, fazem com que prazerosamente divulgue essas mensagens plenas de um “sabor” muito especial, nessa rememoração de tantas décadas passadas. Três outras mensagens paulistanas transmito ao leitor.

António Meneres é arquiteto e tem entre seus méritos pesquisas e divulgação no âmbito do patrimônio arquitetônico. Escreve:

“O texto que tive a ‘honra’ de receber trouxe-me à memória um antigo LP que eu muitas vezes ouvi na casa da Quinta do Romeu, fundada por meu bisavô Clemente Menéres que, com 16 anos, embarcou para o Rio de Janeiro, onde um velho parente tinha o seu negócio de ‘secos e molhados’…, expressão brasileira que aqui ninguém conhece…, e aos 17 casou-se com a filha, sua prima.

De regresso a Portugal, começou a comprar cortiça em Trás-os-Montes e lá, próximo a Mirandela, mandou construir uma bela casa que, infelizmente, sofreu um enorme incêndio e ficou em cinzas, isto em 1944… tinha eu 14 anos.

Foi construída no local outra moradia, que ainda visito, embora muito raramente.

Mas, nos anos 50, um meu tio avô, seu filho, procurava os meus conselhos de jovem arquitecto para mandar fazer melhorias nas casas dos empregados desta grande propriedade (ele, meu bisavô, foi adquirindo parcelas com sobreiros, durante a sua longa vida) e ainda hoje é a maior propriedade em Trás-os-Montes, embora extremamente fragmentada.

Mas vamos ao assunto: – quando eu regressava a casa, depois de um dia passado em cima do jeep nas aldeias próximas onde residiam alguns dos empregados, tomava o meu duche e ia para a sala, ligava o gira-discos e colocava um LP, julgo da His Master’s Voice, com o concerto para piano e orquestra nº 20 de Mozart interpretado justamente por Guiomar Novaes (quase me apetecia roubá-lo para o ouvir mais vezes no Porto, mas, como desde pequeno ouvia minha mãe dizer que era muito feio fazer isso, sempre procurei seguir esse bom conselho).

Era, de facto, o disco que sempre escolhia….eu, que não distingo um Dó de um Ré, ficava sempre deliciado, logo de início, com aquela introdução espantosa e quando o piano aparece, então eu entrava num outro mundo.

Não me sei explicar de outro modo…..sei que gostava de levar para o outro mundo este concerto, a par dos quartetos de Beethoven, um conjunto que sempre me faz pensar que só um génio pode organizar na sua mente (em especial os últimos),….o que nunca pode ouvir como nós, felizes mortais.

Pois do nº 20 tenho um LP interpretado por Svjatoslav Richter e mais recentemente em CD com a interpretação de Malcon Bilson, um pianista de que nunca tinha ouvido falar….mas julgo que deveria ter também a mensagem de Maria João Pires, gravada pela Deutsche Grammophon.

Tudo isto, repito, sem distinguir um Dó de um Ré, tal é o poder da Música dentro de mim……Como me arrependo de não ter perguntado sobre Mozart, e também sobre Schumann, ao velho Óscar da Silva, que acabou os seus dias acolhido em casa de uma sua antiga aluna e vizinha de casa de meus pais em Leça… e como eu era amigo dos filhos da senhora, sempre procurava conversar com o senhor Óscar, como sempre era tratado carinhosamente naquela casa. Óscar da Silva, aluno de Clara Schumann, disse-me que o seu exame final em Leipzig foi o também belo concerto para piano de Schumann (naturalmente, digo eu).

E, por hoje, por aqui me fico”.

Óscar da Silva (1870-1958), compositor e exímio pianista, legou uma produção onde não falta o apelo à virtuosidade. O seu idiomático técnico-pianístico estaria a atender às suas mãos, naturalmente possuidoras de grande abertura”. Em digressão a Portugal em 2009 apresentei algumas criações de Óscar da Silva.

Clique para ouvir o Concerto para piano e orquestra nº 20 em ré menor K. 466 de Mozart na interpretação de Guiomar Novaes, sob a regência de Hans Swarowsky. Gravação de 1953.

https://www.youtube.com/watch?v=TgVq3HQwWPI

Romeu Pinto da Silva, também formado em arquitetura, tendo estudado igualmente no Conservatório Nacional, teve ativa ação diretiva em várias Instituições voltadas às artes em Portugal. Chamou-me atenção o impacto simultâneo que o blog anterior causou nos dois ilustres amigos portugueses. Por sua vez, Romeu Pinto da Silva escreve:

“Fique sabendo que me emocionou muito o facto de você me ter falado da grande Guiomar de Novaes. Foi ela que, tinha eu entre 14 e 15 anos, me deu a conhecer o 4º concerto para piano e orquestra de Beethoven. Um LP de 25 cm Panthéon, que guardo religiosamente como uma autêntica relíquia e do qual  tenho cópia em CD, carinhosamente feita por mim há já muitos anos. Suponho que o meu Amigo conhece esta gravação, com a Orquestra Sinfónica de Viena dirigida pelo colossal Otto Klemperer.

O desaparecimento da Guiomar não é caso único! O que é feito do Wilhelm Backhaus e do Arhur Schnabel???

Mas…. temos agora os Trifonov’s.…..e outros quejandos…..

Estou-lhe muito grato por ter trazido até a minha ‘quarentena’ a evocação da grande Música de Guiomar Novaes”.

O arquiteto paulista Marcos Leite comenta: “Mais um belo texto e resgate da memória cultural-musical tão desprezada pelos pobres meios de comunicação. Não conheci pessoalmente Guiomar Novais nem Magdalena Tagliaferro, mas tenho com ambas ligações indiretas. Luiz Octávio, filho de Guiomar, foi amigo do meu pai, gentil e educado, recordo com pesar seu precoce e trágico desaparecimento. Quanto à Tagliaferro, minha filha foi aluna da Fundação, que infelizmente teve que encerrar suas atividades devido às dificuldades de manutenção, a despeito do empenho e dedicação da direção. Lembro ainda de gravações de ambas em discos 78 rpm originários da Casa Sotero, que era do meu avô. Situada na Rua São Bento, além de pioneira na gravação de discos, importava instrumentos musicais e partituras. Alguns anos após o falecimento do meu avô, no começo dos anos 60, a família vendeu a loja. Tempos idos…”.

Gildo Magalhães, professor titular da FFLECH, escreve: “Ótimo relembrar Guiomar Novaes! O comentário sobre o YouTube foi mordaz e certeiro!”

A professora titular aposentada da USP, Maria Stella Orsini, autora do livro mencionado no blog anterior sobre Guiomar Novaes, observa: “Que felicidade ver a sua homenagem para a nossa intérprete maior neste Dia das Mães”.

Tantas outras mensagens teceram rasgados elogios à Guiomar Novaes. Trazem esperanças.

I received many messages with comments on the previous post about the great pianist Guiomar Novaes. By coincidence, two of my Portuguese friends — who do not know each other — have written about the emotion felt when listening to Guiomar’s music in the distant days of long-playing records. Many other readers praised her talent with rapturous applause.  I have selected some of the messages and they are the post of this week.

 

 

 


Um fenômeno autêntico

Superb control of every pianistic resources.
New York Times

É ciência subir os Himalaias
E criar matemática sem fim
Mas é cultura vê-la poesia
E ter os Himalaias dentro em mim
Agostinho da Silva

Ao longo dos anos tenho insistido no progressivo esquecimento dos nomes mais significativos da arte do piano de antanho. A aferição mais exata se processa quando acessado o YouTube. Intérpretes precedidos de mídia espetaculosa, munidos de alta virtuosidade, causam forte impacto diante do público que se entusiasma com recordes a serem quebrados. Não obstante, tantas dessas interpretações são musicalmente questionáveis. Acresce-se a coreografia, que se estende das expressões faciais aos gestos excessivos, assim como, em determinados casos, às indumentárias chamativas, quesitos esses que alcançam acessos altíssimos, centenas de milhares ou milhões deles. A máquina mediática tem poderes ilimitados e, desde que o intérprete seja aceito nessa engrenagem, automaticamente a ascensão se dá. Se méritos existem, realidades também comprovam motivos da divulgação.

Tem-se uma quase absoluta concordância. Guiomar Novaes foi o nome maior na História da arte pianística do Brasil e uma das mais importantes intérpretes do século XX. A névoa que pouco a pouco encobre notáveis intérpretes do passado também recai sobre nossa maior pianista. Tanto isso corresponde à realidade que, exemplificando, a execução da Rapsódia húngara nº 10 de Liszt, considerada singular por músicos daqui e d’alhures, inserida no Youtube aos 20/07/2011, tem pouco mais de três mil acessos!!!

Clique para ouvir a Rapsódia húngara nº 10 de Liszt na interpretação de Guiomar Novaes:

https://www.youtube.com/watch?v=vnMyqIPk8Tc

Guiomar Novaes foi um fenômeno musical, desses que surgem após tempo incontável. Tantos prodígios ou se perdem ao longo da trajetória ou têm, proporcionalmente, equiparação com tantos outros menos dotados. No caso de Guiomar Novaes deu-se uma constante que apenas acentuaria qualidades. Quando se apresenta num concurso no Conservatório de Paris aos 14 anos de idade, a concorrer a duas vagas reservadas para candidatos estrangeiros, e 387 candidatos, a imensa maioria franceses, obtém o primeiro lugar. No júri, nada menos do que Gabriel Fauré Claude Debussy e Moritz Moskowski. Nessa tenra idade apresentou obras da maior importância do denominado grande repertório romântico: O Estudo em Mi, Paganini- Liszt, a Balada em lá bemol maior de Chopin e o Carnaval op. 9 de Schumann. Ao seu amigo e regente André Caplet, Debussy escreveria aos 25 de Novembro de 1909, já desvelando qualidades inalienáveis que marcariam a trajetória da pianista ao longo da existência: “a ironia habitual dos acontecimentos quis que a postulante artisticamente mais dotada entre todos fosse uma brasileira de 13 anos. Ela não é bonita, mas tem os olhos ‘ébrios de música’ e esse poder de se isolar de qualquer presença, qualidade característica tão rara do artista”.

Ao longo desses 13 anos de blogs ininterruptos não poucas vezes comento a respeito da criança prodígio, a grande maioria estiolando-se tão logo o avanço da juventude evidencia que parte substancial da interpretação do prodígio advém da instrução do professor. A observação de Debussy seria amplamente referendada durante a longeva atividade pianística de Guiomar Novaes, que, nos seus 14 anos de fato, já apresentava relação intrínseca com a música, a torná-la uma das grandes referências na interpretação dos postulados da música romântica.

Estou a me lembrar de visitas de Guiomar Novaes à casa de meus pais e de termos tocado para a ilustre pianista. Estando a estudar o Carnaval de Viena op. 26 de Schumann, fui visitá-la em sua morada e, após a execução, ouvi conselho cuja veracidade os anos apenas ratificaram. Disse-me Guiomar Novaes que o tempo traz a reflexão e que o virtuosismo é sublimado. Afirmou que havia poucos anos compreendera o real significado do famoso Carnaval op. 9 de Schumann – obra que executara ainda adolescente no concurso mencionado.

O sábio conselho vem ao encontro de suas interpretações. Ouvindo-se algumas gravações da pianista de uma mesma obra em épocas diversas observam-se approaches outros em segmentos determinados. Existe sim uma linha mestra em suas execuções, mas com flexibilizações da frase musical mais “elásticas” que o longo convívio com seu repertório provocaria. Sob outra égide, Guiomar Novaes não foi uma intelectual no sentido estrito, como Ferrucio Busoni, Alfred Cortot, Arthur Schnabel e alguns poucos mais. O conteúdo de uma partitura é observado com acuidade, mas há sempre um sentido intuitivo em suas interpretações, dir-se-ia ser o teclado a extensão de seu de profundis, sem mais.

Diferentemente de Marguerite Long, Marcelle Meyer e outras mais que penetraram o repertório de seu tempo, Guiomar Novaes singrou os mares românticos por excelência. Gravaria dois Concertos para piano e orquestra (9 e 20) e três Sonatas de Mozart; os Concertos nº 4 e 5, assim como cinco Sonatas de Beethoven e diversas obras de Liszt e de Brahms. Todavia, preferencialmente Chopin e Schumann frequentaram seu vasto repertório romântico, do primeiro gravando os dois Concertos para piano e orquestra, e as integrais dos Estudos, Valsas, Noturnos, Prelúdios e mais obras, e do segundo, o Concerto para piano e orquestra, Papillons op. 2, Carnaval op. 9, Fantasiestücke op. 12, Estudos Sinfônicos op. 13, Cenas Infantis op. 15 e outras criações mais. Pertencente a um outro universo estilístico, gravaria de Debussy o primeiro livro de Préludes.

Mais de quarenta compositores integram a lista das gravações de Guiomar Novaes, a maioria representada por peças de curta dimensão, sendo uma das exceções a Grande Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro de Gottschalk, com vários registros seus. Criações de compositores brasileiros, entre os quais Henrique Oswald, Villa-Lobos, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri, são contempladas em suas gravações.

Clique para ouvir, na interpretação de Guiomar Novaes, melodia de Orfeu e Eurídice de Gluck, na transcrição de Sgambati. A inspirada criação de Gluck tornar-se-ia uma das peças mais frequentadas por Guiomar Novaes em seus recitais como música extraprograma, o denominado encore. Postado aos 02/12/2010: 94.390 acessos:

https://www.youtube.com/watch?v=io-7CqUkuPI

A professora Maria Stella Orsini escreveu livro, adaptação de sua tese de livre-docência defendida em 1988 na USP, sob o título “Guiomar Novaes – uma vida, uma obra”. Na Universidade de São Paulo lecionou na graduação e pós-graduação da ECA. Publicado em 1992, “Guiomar – uma arrebatadora história de amor” (São Paulo, Companhia Ilimitada), apesar do texto bem adjetivado, tem interesse significativo pela documentação iconográfica, composta por fotografias, tantas delas inéditas, assim como pela vasta reprodução de críticas relevantes publicadas nos principais jornais das cidades onde Novaes se apresentou, mormente nos Estados Unidos, país em que teve consagração absoluta. Cartas e depoimentos integram o referido livro.

Ficaria a sugestão ao prezado leitor para ouvir as gravações inseridas no YouTube e certamente em outros aplicativos. Creio que o esquecimento que se está a processar, sobretudo em nosso país, onde o passado arquitetural foi destruído – a ter como exemplo São Paulo -, figuras ilustres também são descartadas. Tristemente olvida-se o que ocorreu culturalmente em nossas plagas, mercê dessa descontrolada ascensão do temporário idiotizado, imediatamente substituído por efêmero ainda mais vulgar. Estou a me lembrar de aluno que ingressou na USP nos anos 1980 para estudar música. Após ter sido aprovado, com ele conversei, pois estudaria piano. Falei-lhe de Guiomar Novaes. Jamais ouvira seu nome. Ao mencionar Magdalena Tagliaferro, outra notável pianista, desconhecia igualmente o que fizera, mas sabia de uma escola de piano com esse nome. Sinais dos tempos. Pouco a fazer.

Clique para ouvir a Mazurka em lá menor op. 17 n 4 de Chopin. Gravação, 1954. Postado em 30/08/2012: 1.810 acessos!!!

https://www.youtube.com/watch?v=ZLWY3ybrrHQ

Guiomar Novaes (1894-1979) is undoubtedly the greatest name in the history of Brazilian piano playing and widely considered one of the greatest pianists of the 20th century. A child prodigy that fulfilled early promises in adulthood, at 13 she took first place — among 387 candidates — in the entrance examination to the Paris Conservatory, with a jury composed by Debussy, Fauré and Moritz Moszkowski. Debussy was so impressed that he wrote a letter to his friend and conductor André Caplet reporting his amazement with Guiomar’s talent. She made a long and successful international career, notably in the United States. With a very large repertoire — she has recorded more than 40 composers —, Guiomar was particularly renowned for her interpretation of Chopin and Schumann. The musical score is studied with accuracy, but there is always something intuitive an elusive in her performances, as if the keyboard were an extension of her body. Despite her high-flying career, Guiomar Novaes is little remembered today, as proved by the number of accesses to her videos on YouTube, while some definitely junk videos may get thousands of hits daily. A sign of the times…