A pianista Eudóxia de Barros e a revelação por inteiro

A carreira de pianista também é muito difícil.
Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação,
esse talento, essa vontade, nada seria compensador.
A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa:
porque, material, certamente não é!
A pessoa se dedica tanto!
É uma experiência espiritual que eleva a pessoa.
A pessoa penetra naquela música,
e fica alheia do mundo por aquele período.
Acaba levitando dentro daquela música.
Maestro Henrique Morelenbaum

O que realmente importa em qualquer biografia
é o que a pessoa sente e não aquilo que fez.
Glenn Gould

Dentro das leituras existentes na ampla área musical destaca-se a biografia. Pode ser escrita pelo autor ou por outro, no caso, através de depoimentos ou material documental. Não poucas vezes a biografia adquire a roupagem de romance e todo o cuidado deve ser tomado para que equívocos não ganhem status de verdade.

Gosto do gênero biografia de músicos, mormente dos pianistas. Jamais as narrativas têm semelhanças, graças às categorias diferenciadas na abordagem.  Wilhelm Kempff  (1895-1991) narra com sensibilidade seus anos de juventude e cativa pela intensa visão espiritual (“Cette Note Grave – les années d’aprentissage d’un musicien”, Paris, Plon, 1955); Arthur Schnabel (1882-1951) aborda aspectos fundamentais relativos à interpretação e ao período em que viveu (“My life and music”, New York, Dover, 1988); Vladimir Horowitz (1903-1989) explora os muitos aspectos da carreira, comenta sobre pianistas coetâneos, evidencia suas preferências repertoriais (“Evenings with Horowitz” – entrevistas concedidas a David Dubal, New York, Citadel, 1994); Claudio Arrau (1903-1991) discorre sobre sua formação musical, carreira, repertório e, num anexo, tem longo e essencial texto em que aborda o intérprete frente à psicanálise (“Arrau Parle”, – entrevistas concedidas a Joseph Horowitz, Paris, Gallimard, 1985); Heinrich Neuhaus (1888-1964) realiza verdadeira explanação da sua metodologia de ensino, exemplificando processos técnicos, sem abandonar dados concernentes à sua trajetória de pianista e professor (“L’Art du Piano”, Tours, Van de Velde, 1971);  György Czifra (1921-1994) e Zhu Xiao Mei (1949- ) viveram experiências traumáticas. Aquele, prisioneiro dos nazistas e, após, de soviéticos durante a segunda grande guerra. Desde a infância, a trajetória pianística gloriosa teria lances dramáticos e, como toda a técnica pianística e a interpretação tiveram a mais absoluta naturalidade, pouco se refere a elas (“Des canons et des fleurs”, Paris, Laffont, 1977). Zhu Xiao Mei viveu a Revolução Cultural na China e descreve com agudeza os “campos de reeducação” onde esteve detida e sua prática digital-pianística sem piano, a visualização de fuzilamentos de seus mestres e todo o longo caminho até chegar a Paris e desenvolver carreira sólida (“La Rivière et son secret”, Paris, Laffont, 2007); Arthur Rubinstein (1887-1982), nas autobiografias “Les jours de ma jeunesse”, de 1973, e “Grand est la vie”, de 1980 (Paris, Laffont) e Magdalena Tagliaferro (1893-1986) em “Quase tudo” (Rio de Janeiro, 1979) permanecem preferencialmente nas exuberantes trajetórias, mas em abordagens nas quais as apresentações e o convívio social preponderam; João de Souza Lima (1898-1982) narra sua rica trajetória como pianista – dileto aluno de Marguerite Long -, maestro, professor e compositor (“Moto Perpétuo”, São Paulo, Ibrasa, 1982); João Carlos Martins (1940- ) esclarece seu envolvimento com a integral de J.S.Bach para teclado e os vários processos pianísticos criados, mercê de infortúnios que sofreu com as mãos (“Conversas com João Carlos Martins” – entrevistas concedidas a David Dubal, São Paulo, Green Forest do Brasil, 1999); Guiomar Novaes (1895-1979) apresenta-se em estudo multidirecionado onde não faltam depoimentos da pianista (“Uma arrebatadora história de amor” por Maria Stella Orsini, São Paulo, Editora C.I, 1992);   Glenn Gould (1932-1982) pormenoriza determinação consciente em suas interpretações, tantas delas polêmicas (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, contém inúmeros depoimentos colhidos por Otto Friedrich, Rio de Janeiro, Record, 2000); Daniel Barenboim (1942- ), pianista, pensador e maestro, tem na polivalência uma de suas marcas essenciais, evidentes em duas autobiografias (“La musique éveille le temps” e “La musique est un tout”, Paris, Fayard, 2000 e 2008, respectivamente); Marguerite Long (1874-1966), em seus livros sobre três compositores franceses fulcrais, Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, expõe não apenas o convívio com os notáveis músicos, mas aspectos interpretativos deles aprendidos (“Au piano avec Gabriel Fauré”, Paris, Julliard, 1963; “Au piano avec Claude Debussy”, Paris, Julliard, 1960; “Au piano avec Maurice Ravel”, Paris Julliard, 1971). Considere-se que as três obras de grande importância, mas escritas bem tardiamente contêm, por vezes, fatos não comprovados. Seria Janine Weil que, ao escrever uma biografia da legendária pianista e professora, levaria ao leitor sua trajetória de maneira mais totalizante (“Marguerite Long, une vie fascinante, Paris, Julliard, 1969).

Essa breve panorâmica apreende fatores essenciais para a compreensão do pianista consagrado e do longo caminho percorrido. Cada um aborda, à sua maneira, as causas que o conduziram ao reconhecimento planetário. Contudo, processos do estudo pianístico ficam por vezes nebulosos, pois estaria mais em evidência o todo do aprimoramento.

Em “Valeu a Pena? – Conversando com Eudóxia de Barros”, entrevistas formuladas e colhidas por Rosângela Paciello Pupo (Brasília, Musimed, 2016), a pianista Eudóxia de Barros narra sua trajetória desde a infância e sua vocação insofismável, demonstrada desde os tenros anos, é largamente exposta. Os estudos no Brasil, em França, nos Estados Unidos e na Alemanha deram-lhe base sólida para a carreira escolhida. Apresentou-se com recepção crítica elogiosa, em muitos países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. Carreira consolidada, pois. Contudo seria, como afirma, a sua ligação umbilical ao Brasil que determinaria durante décadas sua afirmação como pianista pátria, nitidamente ratificada. Caminho escolhido, importaria a Eudóxia expor o seu envolvimento com a Música e, ainda mais, com o piano. “Valeu a Pena?” se diferencia das biografias apontadas pela visão “regional” da pianista, voltada preferencialmente para cenário no Brasil, país que apresenta severas deficiências relativas à cultura musical erudita ou clássica. Mostra-se corajosa nesse trabalho dignificante ao levar música de qualidade aos rincões mais afastados do nosso território.

Largamente comenta todos os processos de sustentação nessa dualidade imprescindível para o intérprete, a prática e a apresentação pública. Não sem razão, no raciocínio de Eudóxia a palavra “estudo”, como necessidade imperiosa, está presente em todos os capítulos. Seria ela a chave mestra, verdadeira fixação, que levaria a pianista a se manter ativa durante tantos decênios. Disciplina espartana quanto ao estudo, preparação para as apresentações, preferência repertorial, cotidiano voltado à música, mas também ao vestuário, às relações humanas, à saúde, ao saudoso marido, o compositor Osvaldo Lacerda, e a um verdadeiro “guru”, que ainda ouve seus programas montados para apresentações a cada ano, o maestro Henrique Morelenbaum, reiteradas vezes são mencionados. Rosângela Paciello Pupo, de maneira extremamente organizada, soube orientar as “entrevistas” para que nada pudesse ficar à margem.

Consideraria “Valeu a Pena?” um livro testemunhal de ordem prática. Quantas não são as vezes que Eudóxia de Barros se expõe de maneira confidencial? Dessa assertiva vem parte do interesse do livro. Revelar-se por inteiro, a não ocultar ao leitor pormenores “laboratoriais” rigorosamente íntimos, demonstra certezas, coragem e até possibilita armadilhas. Há retornos constantes a verdadeiros “dogmas” relacionados ao mencionado estudo diário inflexível, a obedecer regras e de preferência com horários fixos; ao estudo permanente com as mãos separadas; à memorização; à colocação de dedilhados em toda a partitura, mais ainda, em cada figura da trama musical; à prática diária da técnica pura; à preparação no dia de recitais e concertos, dela fazendo parte o estudo prolongado a anteceder a apresentação; à carreira como eixo paradigmático primordial em sua vida. Exaustivamente Eudóxia responde às perguntas inteligentes de Rosângela e, em determinadas reflexões sobre música e interpretação, demonstra até franqueza constrangedora. O leitor poderia se perguntar se estaria aí uma falha. Diria que temos em seus depoimentos a mais absoluta sinceridade, o que é raríssimo entre os intérpretes em suas biografias. Essa sinceridade é porosa, faz jorrar em cada página a descoberta de Eudóxia de Barros por inteiro e não seria essa autenticidade um dos aspectos a tornar “Valeu a Pena?” um livro de forte interesse? A ausência desse desnudamento não faria falta em tantas biografias, entre as quais algumas das acima citadas?

Sob outra égide, basicamente inexiste nas biografias mencionadas o autoelogio. Por questões éticas, de modéstia – ou ausência dela -, de foro íntimo, dificilmente um intérprete em texto faz referência às suas qualidades. Eudóxia, não como vanglória, frise-se, mas como necessidade de expor suas virtudes, revela essa franqueza que pode ser apreendida como vontade de transmitir aos seus incontáveis ouvintes qualidades que eles já tinham captado e que o documental escrito apenas solidifica em suas mentes. Proliferam os superlativos voltados à excelência das oitavas, da velocidade, da compreensão e do fraseado, da memória. Todas essas exaltações transcorrem normalmente e Eudóxia transmite o que ela sente, entende e assiste ao verificar suas facilidades frente ao teclado. Quem teria essa coragem? Quanto à memória, não poucas vezes ressalta ser inadmissível a interpretação tendo-se à frente a partitura em recital solo. Nesse aspecto, entendo o conceito passível de interpretação. Nem todos tem a memória de Eudóxia e, como narra em “Valeu a Pena?”, há todo um científico trabalho para se decorar uma obra. Contudo, tem-se de ver caso a caso. O grande Sviatoslav Richter (1915-1997) confessaria que, nas últimas décadas da vida, apresentava-se com partitura à frente. Assim procedeu tardiamente Roberto Szidon (1941-2011), dessa maneira habitualmente desempenha brilhante carreira o pianista português Arthur Pizarro (1968-  ). Certamente todos tiveram ou têm as obras absolutamente digeridas e a presença da partitura serve certamente como um conforto, a fim de que nada de anormal possa ocorrer. Apenas isso. Sabe-se que ela lá está. Assisti a um sem número de excelentes pianistas na Bélgica interpretando ou integrais ou recitais com obras diversas com a partitura como ajuda. Pessoalmente, mormente nestes últimos anos, assim procedo. O grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro já afirmava que “o tempo é insubornável”.

Uma das qualidades inalienáveis de Eudóxia, exposta com insistência, é o culto à música brasileira. Revela inquestionável missão, cruzada sem trégua a que se dedica desde jovem, não apenas a cultuar compositores consagrados, como Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e seu discípulo e marido da pianista, Osvaldo Lacerda (1927-2011), mas também autores que eram desconhecidos do grande público. Dedicou-se igualmente ao repertório pátrio semi-erudito, clássico-ligeiro na visão de seu até hoje conselheiro musical, o Maestro Henrique Morelenbaum. Ernesto Nazareth (1863-1934) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) tiveram suas obras estudadas, interpretadas e propagadas pelos mais distantes rincões do país. Contam-se às centenas as cidades brasileiras visitadas pela pianista nessa hercúlea tarefa. Do clássico-ligeiro ao popular tem-se um passo e Eudóxia demonstraria em sua carreira intrínseca intimidade com a música de Zequinha de Abreu (1880-1935) ou com grupos que praticam o chôro, os denominados Chorões. Polivalência relativa à música brasileira, do erudito ao popular.

Não tendo trilhado carreira acadêmica, Eudóxia faz críticas ao trabalho dentro da universidade e suas obrigações. Crê que a sobrecarga intramuros impeça o desenvolvimento de uma carreira como a que empreendeu.

Um longo capítulo apresenta situações hilariantes pelas quais a pianista passou ao longo da carreira. Tem muita graça, realmente diverte o leitor.

Apêndices apresentam o enorme repertório de Eudóxia de Barros. Verifica-se que, após perpassar parcela das composições sacralizadas e comuns a todos os pianistas, mais e mais ela revelou esse notável trabalho voltado aos compositores brasileiros. Um mérito indiscutível. Também sua larga discografia, críticas recebidas no Brasil e no Exterior e uma instigante entrevista de seu conselheiro musical – Maestro Henrique Morelenbaum – que descreve o perfil pianístico de Eudóxia, complementam o copioso livro. Serve o depoimento do ilustre músico para evidenciar esse entendimento profícuo estabelecido entre ambos.

“Valeu a Pena?” é obra obrigatória na biblioteca de músicos e leigos, mormente dos estudantes que terão em mãos um verdadeiro vade mecum voltado ao cotidiano pianístico, do estudo à apresentação pública, a ratificar in adendo, com letras maiúsculas, a imperiosa dedicação e disciplina para que objetivos sejam atingidos. Essas palavras apenas corroboram o caminho meritório e consagrado da pianista Eudóxia de Barros.

Today’s post addresses the book “Valeu a Pena?”, a series of conversations between the Brazilian pianist Eudóxia de Barros and journalist Rosângela Paciello Pupo. With honesty and candor, Eudóxia talks about a lifetime devoted to music: the discipline required for her daily piano practice, performance preparation routines, the importance of playing from memory, choice of repertoire, recordings, her option for the promotion of Brazilian composers since the beginning of her career. In my opinion, a mandatory reading for music lovers and in special for students, since it makes clear that nothing can be accomplished without practice, discipline and hard work.

 


Um duo exemplar

Não nos tornamos poetas a partir de uma manhã primaveril,
mas sim pela exaltação do poema.
André Malraux

Quando do curso que ofereci em Goiânia sobre a obra para teclado de Jean-Philippe Rameau, em Setembro, tive o grato prazer de estar com a pianista Ana Flávia Frazão, professora da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás. Ofereceu-me DVD e CD em que apresenta, com o violinista alemão Laurent Albrecht Breuninger, obras importantes do repertório específico: Heitor Villa-Lobos, “Segunda Sonata-Fantasia”; Edino Krieger, “Sonâncias”; Henrique de Curitiba, “Sonata 87″ e  Camille Saint-Saëns, “Sonata op. 75 nº 1″.

Não poucas vezes neste espaço ressaltei a prevalência que existe de gravações realizadas em centros importantes do hemisfério norte. Há toda uma tradição voltada à arte de gravar, que vai desde a grande especialização dos engenheiros de som às salas escolhidas sob o aspecto acústico, à presença sempre de instrumentos – no caso o piano – de primeiríssima qualidade e o profissionalismo inerente a todos os envolvidos no processo. Essas também são as razões que me levam a gravar na Europa desde 1995. Não há parâmetro comparativo com o que temos no Brasil, apesar de esforços e da maior boa vontade dos envolvidos nesse mister. Sob outro aspecto, se oportunidade houver para o pianista brasileiro (no caso) estabelecer vínculos com  excepcionais instrumentistas de países onde a música erudita tem tradição e constância qualitativa, o aprimoramento se tornará mais acelerado devido, inclusive, ao ambiente e à salutar concorrência com maior número de músicos relevantes.

De há muito admiro a arte pianística voltada à música de câmara de Ana Flávia Frazão. Tive o prazer de participar do júri, juntamente com as ilustres professoras Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005) e Glacy Antunes de Oliveira, quando do ingresso de Ana Flávia na carreira docente junto à EMAC-UFG.  Já se apresentava como uma camerista de altíssima qualidade. Estudou em Goiânia com Ivana Carneiro e, na EMAC, na classe da professora Consuelo Quireze, tendo igualmente recebido a colaboração do pianista Luiz Medalha. Ana Flávia Frazão aperfeiçoou-se na Alemanha, de 1994 a 2002, como aluna da Escola Superior de Música de Karlsruhe. Na categoria Piano-Música de Câmara obteve a nota máxima no Konzertexamen.  Premiada em concursos internacionais, Ana Flávia já se apresentou no Japão, Estados Unidos, Europa, Argentina e em vários centros brasileiros.

Quanto ao violinista Laurent Albrecht Breuninger, trata-se um de instrumentista notável. Após estudos com Josef Rissin na Escola Superior de Música de Karlsruhe, aperfeiçoou-se com mestres absolutos: Henryk Szering, Ruggiero Ricci, Aron Rosand e Ivry Gitlis. Em 1997 obteve o segundo prêmio num dos mais importantes concursos do planeta, o Rainha Elizabeth, na Bélgica. Colecionou vários primeiros prêmios em outros significativos concursos na Europa e no Canadá.

Tive o grato prazer de ouvir e ver o DVD com as obras que também constam do CD mencionado. Encantou-me em todos os sentidos. Formam um duo rigorosamente entrosado e exibem, durante o transcurso do programa, todas as qualidades excelsas que encontramos nos mais destacados duos internacionais. Lirismo, virtuosismo abrangente sem jamais exceder os limites, fraseado impecável, senso profundo da agógica, da acentuação e da dinâmica, compreensão formal e estilística e, fundamental, a naturalidade sem qualquer artifício são algumas das muitas virtudes do duo.

Apraz-me considerar que Ana Flávia soube transmitir a Laurent Albrecht o gosto pela camerística brasileira. Independentemente da integral para violino e piano de Villa-Lobos, por eles gravada em 2012, constam do CD em apreço outras obras de autores pátrios significativos. Considere-se que pouco a pouco a qualitativa música de câmara brasileira penetra nos repertórios internacionais. Menciono a mesma integral de Villa-Lobos, anteriormente gravada pelo excelente violinista belga Paul Klinck com outro laureado no Concurso Rainha Elizabeth ao piano, Claude Coppens (Anvers, 1996). Em 1995 gravei em Bruxelas, para o selo PKP, a integral de Henrique Oswald para violino e piano com Paul Klinck.

A gravação de Ana Flávia e de Laurent Albrecht apreende todos os quesitos encontráveis na magnífica “Sonata-Fantasia nº 2″,  de Villa-Lobos. Uma plasticidade no tratamento da frase musical é explícita. Sob o aspecto de entrosamento, a impecabilidade mostra-se evidente entre os dois instrumentistas e corrobora a afirmação que ouvi certo dia, do renomado compositor mexicano Mario Lavista (1943- ), de que não é necessário usar um sombrero e enorme bigode para afirmar-se nascido no México. A compreensão de Laurent Albrecht da anima brasileira é integral.

Ninguém melhor do que o próprio compositor Edino Krieger (1928-  ) para opinar sobre a gravação de sua obra “Sonâncias II”: “É um privilégio para um compositor ter uma obra executada e perpetuada em CD por instrumentistas excepcionais como o violinista Laurent Albrecht Breuninger e a pianista Ana Flávia Frazão. Eles aliam à perfeição virtuosística da técnica uma compreensão musical que valoriza o conteúdo expressivo da obra”. “Sonâncias II”, composta em 1981, explora inúmeras capacidades do violino e do piano. Krieger entende-a como “uma grande cadência virtuosística em tempo livre, sem barras de compasso”. Há, em determinados trechos apontados na partitura, a intervenção livre do pianista. Sob outra égide, “Sonâncias” desenvolve-se nos limites extremos da dinâmica, mormente nos limites dos ffff dos clusters ou em momentos introspectivos nas baixas intensidades.

De Henrique de Curitiba (1934-2008) o duo apresenta a “Sonata 87″, dividida em três andamentos; “Allegro – de batuque”, “Lento e cantabile – de toada”, “Vivace – de xaxado”. A “Sonata 87″ (composta em 1987) é  estabelecida na pulsação, e a obra evolui ricamente a expor – os títulos assim demonstram -, a diversificação rítmica. Maiúscula interpretação da significativa “Sonata 87″. A versão para violino e piano deriva de composição anterior, a “Suíte Brasileira”, vertida para vários conjuntos camerísticos. Henrique de Curitiba é um desses nossos compositores que estariam a merecer divulgação maior. É triste verificar que alguns dos mais destacados criadores brasileiros são praticamente esquecidos post mortem.

A magnífica “Sonata op. 75, nº 1 em ré menor”, de Camille Saint-Saëns (1835-1921), finaliza o CD. Um dos maiores compositores do período, extraordinário pianista, primeiro verdadeiro globetrotter como músico, percorreu o mundo a tocar, inclusive no Brasil, onde se apresentou em duo pianístico com Henrique Oswald (1852-1931) aos 5 de Julho de 1899 no Salão Steinway em São Paulo. De sua vastíssima obra, destaca-se também a camerística. Compositor que percorreu parte da longa era romântica, tem inclinação ao virtuosismo não desprovido de intensa expressividade. A belíssima “Sonata op. 75 nº 1″ (1886) traduz esse envolvimento. Uma das melhores obras do período, tem todos os ingredientes para ser muitíssimo mais divulgada. Contudo, mercê dos repertórios repetitivos que se prolongam através das décadas, o público geralmente tem de ouvir a Sonata para violino e piano de Cesar Franck. Extraordinária obra, mas não única. A interpretação do duo Breuninger-Frazão da criação de Saint-Saëns é simplesmente empolgante, da mais absoluta qualidade.  O leitor poderá ouvir, ao acessar o link, o “elétrico” Allegro molto da Sonata op. 75 nº 1 de Camille-Saint-Saëns. A gravação foi realizada no interior da Escola Superior de Música de Karlsruhe, na Alemanha. Desnecessário ratificar sua qualidade.

Clique aqui para ouvir o Allegro Molto da Sonata op.75 no.1, de Camille Saint Saëns, com Laurent A. Breuninger ao violino e Ana Flávia Frazão ao piano. Gravação realizada na Alemanha, divulgada no CD “Sonâncias”.

Na longa conversa que mantive com Ana Flávia no mês de Setembro em Goiânia, após meu recital na cidade, mostrou-se ela com intenção de gravar a “Sonata” para violino e piano de Henrique Oswald, conhecedora da gravação que Paul Klinck e eu realizamos. Encorajei-a nesse sentido e vou propor-lhe uma excelente obra do período, a “Sonata Saudade”, de Óscar da Silva (1870-1958), compositor português de mérito e pianista virtuose, para compor, quem sabe, um belíssimo CD, pois há certa identidade entre as duas composições.

Aos 78 anos não mais tenho necessidade de causar melindres em afirmações. Contudo, acredito que Ana Flávia Frazão se apresenta hoje como a nossa mais representativa pianista dedicada à música de câmara, comparável, dúvidas não tenho, aos nomes mais significativos em termos mundiais. Quanto a Laurent Albrecht Breuninger, simplesmente um violinista da mais alta qualidade. Um Mestre.

My comments on the CD of the violin-piano duo formed by Laurent Albrecht (violin) and Ana Flávia Frazão (piano) with works by Camille Saint-Saëns, Edino Krieger, Henrique Curitiba and Villa-Lobos. I found it an extraordinary achievement in terms of artistry and technical qualities. The remarkable German violinist Laurent Albrecht Breuninger is a second prize winner in 1997 of the Queen Elizabeth Competition held in Brussels, and pianist Ana Flávia Frazão, first prize at the chamber ensemble competition in Kyoto in 2001, is in my view the best chamber music pianist in Brazil today.

 

 

 

Diálogo do cotidiano sobre temas diversos

Quando o espírito não se direciona naturalmente para o futuro, tornamo-nos velhos.
Gustave Flaubert

Fernando Augusto é leitor assíduo dos blogs semanais. Disse-me que os lê há mais de cinco anos. Conheci-o em uma das copiadoras universitárias nos anos 2000. Presentemente é competente tradutor de textos técnicos em inglês. Após confraternização, mercê do encontro, fomos a um café próximo de minha casa, local sempre estimulante para o fluir das ideias. Ouvi-o externar suas posições sobre meus textos. Apesar de elogios, considera muitos dos temas eruditos demais para seu gosto. Essa opinião não o impede de ir à leitura todos os sábados pela manhã. Perguntei-lhe a causa do retorno semanal ao meu blog, considerando-se a ressalva apontada, e a resposta foi pronta: “Gosto deles e me fazem bem nesse emaranhado de besteirol que lemos diariamente pela internet” (sic). Quis saber mais. Falou-me que não mais lê jornais ou revistas, tampouco assiste à TV aberta, salvo um ou outro programa da TV Cultura. Perguntei-lhe qual a maneira que empregava para estar a par do cotidiano do país e do momento político e econômico. Disse-me que através da internet e dos noticiários radiofônicos matutinos e vespertinos. Causou-me surpresa o fato de ler noticiário pela internet ouvindo música erudita pelo YouTube. Sempre há esperanças.

Voltamos à erudição. Surpreenderam-me suas considerações céticas relacionadas à derrocada progressiva de tudo o que se relaciona à cultura erudita. Discordamos num ponto crucial. Entende, com razões bem pontuadas, que o músico erudito deveria fazer concessões e que, a partir delas, o público retornaria paulatinamente. Acrescentou que, à presença dos compositores consagrados em suas obras sempre repetidas, dever-se-ia juntar um pouco da música popular de melhor qualidade. Entende salutar a prática. Através da leitura dos blogs percebeu bem que não sou de fazer concessão repertorial. Jamais o fiz e, conscientemente, sei que tenho sempre um tributo a pagar, pois composições extraordinárias, mas pouco conhecidas, a meu ver têm de ser reveladas, mas atraem poucos frequentadores. Persisto, contudo, nessa senda.

Mencionou vários fatos que o impressionaram relacionados à Educação: plano do governo anterior, que retiraria dos currículos escolares o estudo de História, tradicionalmente ensinada nas escolas, da Antiguidade à contemporaneidade, extirpando Grécia, Idade Média, Renascença, Revolução Francesa, Revolução Industrial, para mais não se estender, assim como, na literatura, apagando figuras como Camões e tantos outros luminares da literatura de Portugal. Seria simplório considerar a inexistência de ideologia clara naquelas tentativas de transformação. Comentamos algo estarrecedor, que tanto ele como eu recebemos via internet, nesses links que proliferam na tela do computador. Recebera Fernando Augusto a mensagem de uma colega de trabalho, eu de um ex-aluno uspiano que foi, durante cerca de dez anos, professor de música em Damasco, de lá tendo de retornar devido ao genocídio em andamento na Síria. O link compreendia uma entrevista de professor universitário a proferir uma série de absurdos, numa tentativa de destruir toda uma cultura linguística que herdamos de Portugal. Um viés nacionalista extremado levou o citado docente a dizer, pasmem os leitores, que a cidade de São Paulo deveria se chamar Mário de Andrade (sic), após lisonjas rasgadas ao literato e folclorista paulista. Realmente, Fernando Augusto e eu comungamos ideias bem semelhantes, considerando essas frases visionárias que tivemos o desprazer de ouvir e que demonstram a incapacidade de raciocínio isento, que contemple a História, a nossa língua e outros valores, por docente universitário.

Estávamos pois a tomar um curto em supermercado bem frequentado, há pouco comprado por outra rede. Um aspecto fulcral veio à pauta. As moças da lanchonete transitavam e eu as conheço pelo nome. Como frequento quase que diariamente o estabelecimento, vínculos se formam. Funcionários atenciosos e dedicados estão atualmente sendo substituídos inexoravelmente por outra equipe. Diariamente, rostos conhecidos desaparecem e novas figuras surgem. Processo homeopático, mas infalível! Fernando Augusto e eu abordamos o assunto e entendemos que pode até ser legal essa troca de funcionários, mas não moral. Todos, sem exceção, sentem a espada de Dâmocles sobre suas cabeças. Cruzo diariamente nos corredores do estabelecimento com amigos e conhecidos. Sem exceção, todos partilham dessa angústia por que passam muitos desses dedicados funcionários. Não conhecemos os novos patrões, mas sim o sorriso e a atenção de tantos valorosos e prestativos atendentes à espera da demissão. Alguns confessaram o drama que estão vivendo às vésperas do fim do ano. Diversas são jovens mães. O Cérebro da organização substitui os empregados, mas não poderia manter os que são eficientes e que formam legião? As novas contratações de funcionários atenderiam a quais propósitos? Muitos têm a resposta. Quando as leis beneficiam os que têm o poder de decidir, estes não estariam perdendo o essencial, a visão humanística? Disse a Fernando Augusto que escrevi blog a respeito desses jovens operosos que, com o tempo, passamos a admirar (vide blog “Mocidade de Valor – Salvaguarda da Esperança”, 15/08/2009). O amigo, apesar de não reter o nome dos funcionários, confessa que jamais foi mal atendido por qualquer um deles.

Sobre política também conversamos. Senti nas palavras do amigo uma constante já verificada em tantas posições sobre a matéria. Após a queda daquilo que o ministro do STF, Celso de Mello, definiu como “projeto criminoso do poder”, que perdurou por mais de uma década, finalizando com o impeachement da ex-presidente, vivemos um interregno delicado, mormente se for considerada a Economia do país. A denominada “terra arrasada” existe; todavia, saberão os Três Poderes ter a dignidade de abdicar de privilégios incontáveis e desnecessários? A corrupção endêmica, presente no amálgama espúrio políticos-empresas, continuará a levar o país ao abismo sem qualquer descortino? Tenhamos tênues esperanças, desde que não sufoquem, por pura “sobrevivência” da classe política, a operação Lava-Jato. Se sacrifícios houver, mas intenções forem boas, o povo brasileiro deve apoiar. As eleições para prefeito em todo o Brasil já não evidenciaram escancaradamente que um arejamento político se instaurou no país?

Finalizamos nossa prazerosa conversa falando de esportes, das Olimpíadas, das Paraolimpíadas e do futebol. Vieram à tona os gastos absurdos com toda a preparação, o desempenho modesto de nossos atletas que lutam, mas que, na maioria, têm pouquíssimo apoio, e o absurdo e vergonhoso fato de que as medalhas douradas conferidas aos vencedores estão descascando!!! A mídia ventilou esse descaso que macula o todo olímpico. Todavia, o Presidente do COB, já idoso e há décadas no poder, foi reeleito!!! Renovação às avessas!!! Quanto ao futebol, Fernando é palmeirense e sorridente. Quanto a mim, gostava desde miúdo da Portuguesa, time que conseguiu a suprema façanha, com facilidade incrível, de submergir até o fundo, agora para a série D. Série abissal, último estágio da incompetência. Chegou a Lusa ao destino a que timoneiros sem profissionalismo souberam levá-la ao longo das décadas. Série final, dela não há condições de queda maior. Não emergirá e deverá permanecer sepulta nas profundezas. Lágrimas não serão vertidas pela pequena e fiel torcida. Na lembrança de seus adeptos restará apenas a nostalgia.

Despedimo-nos com a promessa de novos encontros. Faz bem trocar ideias. Estimula o raciocínio.

On how a coffee with a friend offered a good opportunity for discussion of everyday situations concerning Brazilian current socio-economic conditions and culture.