Chapecó-Medellín, amálgama da solidariedade

Imortais somos porque o tempo é consubstancial do eterno.
Agostinho da Silva

Deixei que os dias escoassem. Assisti aos inúmeros noticiários e às pungentes homenagens prestadas aos 71 mortos na tragédia aérea na Colômbia, que vitimou não apenas a equipe de futebol da Chapecoense, mas também sua comissão técnica, dirigentes da agremiação, jornalistas, convidados e tripulação. Como milhões de brasileiros e colombianos, fui tomado pela emoção. O poeta Luiz Guimarães Junior (1844-1898), no famoso soneto “Visita à casa paterna”, já apregoava “Resistir quem há-de?”.  O desaparecimento repentino  de toda uma valorosa equipe de futebol impactou o mundo. São poucos os acidentes aéreos a vitimar um time esportivo inteiro. Através das décadas, contam-se nos dedos. A comoção planetária, graças à força das comunicações instantâneas, dimensionou ainda mais o ocorrido, pois tudo era apresentado hic et nunc. A fatalidade que se abateu sobre a equipe da  cidade de Chapecó (210.000 habitantes) foi pranteada em todos os países que praticam o futebol. Fundada em 1973, a Associação Chapecoense cresceu com disciplina, vontade, dedicação e fé em seus propósitos. Da última série do Campeonato Brasileiro (D), chegaria à série B e, ao adentrar o seleto grupo da série A, mantém-se com galhardia desde 2013, a melhorar a cada ano seu posicionamento. É fato que a população inteira da cidade torce com entusiasmo pelo time, que tem levado a admiração a todo o Brasil, mercê das façanhas que se acumulam. A campanha nesta última Copa Sul Americana de Futebol demonstrou que os bravos jogadores não se intimidaram diante de equipes do continente bem mais credenciadas. O time granjeou respeito. Foi derrotando adversários potencialmente mais fortes e se fortalecendo moralmente. Faltavam-lhe dois jogos para a possível grande conquista. O adversário, Atlético Nacional de Medellín, atual campeão da Taça Libertadores da América e, possivelmente, o melhor time do momento na América do Sul, deveria ser um contendor a levar maiores chances de vitória, sem quaisquer garantias porém, pois a Chapecoense sempre lutou com um imenso destemor, além de ter sido orientada por um experiente técnico, Caio Junior, igualmente falecido no acidente.

A final, que seria disputada na cidade de Medellín (circa 2.200.000 habitantes), na Colômbia, tinha um significado especial para os habitantes da aprazível Chapecó, pois pela primeira vez a Chapecoense disputaria a final de um campeonato internacional. Quis o destino que essa probabilidade fosse adiada e novamente a agremiação terá de travar árduas batalhas em campo para a difícil escalada em busca do nível dos sonhos.

Acompanhei toda a homenagem que o Clube Atlético Nacional de Medellín prestou à Chapecoense. Preparada a manifestação no Estádio Atanasio Girardot, da cidade colombiana, em pouco mais de 24 horas, o que se viu foi algo único e extraordinário. Àquele que desconhecesse o tributo prestado, ficaria a impressão de que tudo fora preparado meses antes. Manifestação espontânea, organizadíssima. Tendo assistido ao longo das décadas a inúmeras aberturas de Olimpíadas ou Copas do Mundo de Futebol, jamais vi e senti, no gênero, emoção maior. Cerca de meia hora após o início, comovido, disse à Regina que estávamos a ver o ineditismo a toda prova, colocando nossa sensibilidade no limite do possível. A cerimônia transcorria e autoridades se revezavam nos pronunciamentos, intermediados por desfile fúnebre da Guarda Nacional, apresentação da Orquestra de Câmara de Medellín, presença dos jogadores do Atlético Nacional, da Comissão Técnica e dos dirigentes, em profunda homenagem póstuma. Balões brancos voaram às alturas após serem soltos por crianças, paulatinamente, a lembrar cada jogador, comissão técnica, jornalistas, dirigentes e tripulação, anunciados pela linda e sensível apresentadora. Convidado, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, muito aplaudido, leu seu breve discurso, interrompendo-o várias vezes, tomado pela mais intensa emoção. Falando em espanhol – esteve asilado no Chile durante a ditadura militar -, ao final disse com a voz embargada que jamais em sua vida pública presenciara algo igual. O Ministro jamais poderia pensar que, durante uns bons minutos, os 40.000 presentes gritariam “Dá-lhe Chape”. Realmente, algo indescritível!!!   A Chapecoense e o Brasil estarão eternamente gratos ao país limítrofe por esse ato de solidariedade.

O futebol continua a ser uma das paixões de grande parte da humanidade. Algumas das principais equipes da Europa têm adeptos em todo o planeta, como Real Madri, Barcelona, PSG e Manchester United, entre outros. Um fabuloso esquema comercial, que envolve ingressos para os eventos, televisionamento, material esportivo e tantos outros itens, faz com que enorme cadeia ligada, por vezes, a estranhos propósitos, macule o verdadeiro ideal em torno da bola. As manifestações globais a envolver uma desconhecida equipe em termos mundiais, a Chapecoense, evidenciaram que, dentro da engrenagem diretiva ligada ao futebol, algo voltado à esperança e à solidariedade ainda dá mostras de existir.

Fiquemos apenas com esse lado positivo. A tragédia coletiva, a extrair de cada ser o sentimento humanístico que deveria guiá-lo em todos os atos da existência. As tragédias individuais cotidianas passam sempre ao largo. São tantas e servem apenas para vinhetas de noticiário, logo esquecidas. Chapecó e seu povo cresceram neste Brasil tão pleno de violência diária, de incompreensão e desigualdades. Oxalá a partir desse terrível acidente e da grande e inesquecível solidariedade do povo colombiano, que esteve sempre presente, possamos refletir mais sobre nossa extrema fragilidade frente ao imponderável e, no âmbito do futebol, entender o time adversário não como um inimigo, combatente a ser esmagado, mas como um oponente que se apresenta com os mesmos desideratos de vitória. Toda a irmanação vivida durante a semana, até que os corpos do infortúnio descessem às sepulturas, tem de ser uma luz de esperança para o futebol, ainda repleto dessas torcidas organizadas, chaga absoluta. Só poderíamos almejar que o exemplo vindo do amálgama das lágrimas e da chuva torrencial, no longo evento na Arena Condá, em Chapecó, durante as cerimônias fúnebres, jamais seja esquecido e que ilumine como um farol, mesmo com luz tênue, o caminho do entendimento. É necessário acreditar, ainda.

On the crash of the chartered flight near Medellín (Colombia) in which almost all players and coaching staff of the Chapecoense soccer team from Brazil, newsmen and crew members have been killed, the touching and extraordinary tribute to the victims held in Medellín and the display of solidarity among the sporting community in Brazil and throughout the world.

 

 

Tema que pode aplicar-se a inúmeras áreas


Acredito que o piano traduz uma confidência,
e esta não se grita sobre o telhado.
Désiré N’Kaoua

Há temas que extrapolam os limites de determinada área. Métodos podem diferenciar-se, mas a essência temática torna-se coesa e doutrinária a partir do enfoque abrangente que se lhe queira dar . A pedagogia relacionada a uma área do conhecimento tem com frequência vertentes que se aplicam em campos do conhecimento por vezes antagônicos.

Ao tratar, no post anterior, da crise do recital de piano solo, mormente para os intérpretes sem o abrigo de patrocinadores e das luzes dos holofotes, tópicos outros foram apreendidos nos textos que inseri anteriormente e de autoria dos notáveis músicos franceses Désiré N’Kaoua e François Servenière, pianista e compositor, respectivamente.

Primeiramente, há um aspecto que se torna mais sensível à medida que a tecnologia avança em seus multifacetados meios de comunicação. Paradoxalmente, há o progressivo desinteresse pelos padrões culturais que foram a base sólida da cultura ocidental. Désiré N’Kaoua comenta, com profunda agudeza e, hélas, ceticismo, vários dos muitos problemas que atingem o cerne da denominada música clássica ou de concerto, nas várias entrevistas concedidas recentemente para o site www.pianodoux.fr: “A história do piano ensina-nos que, no começo do século XX, a chegada de um virtuose numa capital era anunciada bem antecipadamente como um evento, as senhoras pensavam no que vestir ou mesmo encomendavam uma nova toilette para a ocasião. E hoje, é isso que ocorre?” Lembraria que Alfred Cortot (1877-1962), ao realizar tournée pelo Japão, ganhou da imperatriz uma ilha, Cortoshima, oferta rigorosamente impossível de ser dada na atualidade. Continua N’Kaoua:  “Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público reduziu-se consideravelmente. A seguir a segunda grande guerra, a maioria dos melómanos europeus não supunha sequer a ideia de inserir, no interior do vocábulo ‘música’, outra coisa que as obras de grandes criadores como Mozart, Beethoven, etc… assim como algumas belas canções populares. O jazz, já existente há decênios no outro lado do Atlântico, veio (por que não?) a ser aceito até por aficcionados sectários e a ter abrigo no vocábulo ‘música’. Evitando-se um casamento misto, tomou-se o devido cuidado de delimitar fronteiras, qualificando-se de ‘clássica’ as obras escritas pelos grandes compositores incensados através da História. Sessenta anos após, o que nós chamamos de música, e que acreditamos ser eterna, mendiga um espaço restante, drenando um público cada vez mais restrito. Os amorosos dessa música, qualificada erroneamente de elitista, encontram-se confinados em um gueto e a mídia (cuja ambição é expandir seus índices) tem dúvidas sobre o concerto, e não se aflige sobre o fato de o Requiem de Mozart ser utilizado para suporte de uma publicidade”. E sobre a alienação da juventude frente à música clássica: “Os jovens que crescem hoje são ‘acalentados’ pelos ritmos primários, que desconhecem o sentido da música. Quem virá amanhã aos concertos? Sob outro enfoque, qual a porcentagem de crianças chegadas à adolescência que continuará a estudar um instrumento, sabedores que aprender é sinônimo de esforço? É fato que os vídeos são tão mais atraentes!!!”.

O desvio de intenções, voltado às “geringonças” sempre in progressiPad, iPod, iPhones - e seus infindáveis aplicativos, está a retirar das gerações mais novas a reflexão necessária. Colados às telinhas, multidões em compulsão fixam-se nas mensagens que proliferam nessa via em expansão, o WhatsApp. Essa distração globalizada impede a concentração, a disciplina e N’Kaoua, ao mencionar que “aprender é sinônimo de esforço”, aponta para uma realidade sem retorno. Tornar-se-ia evidente que o estudo sério de um instrumento musical, independente da apreensão de toda uma estrutura contida na partitura e além dela, requer disciplina espartana para que objetivos concretos se realizem. E estariam as gerações que surgem dispostas ao “sacrifício”, quando um totus se apresenta tão mais fácil? Não teria a pianista Eudóxia de Barros, no seu livro “Valeu a Pena?”, enfatizado incontáveis vezes a necessidade do estudo diário imprescindível?

O compositor e pensador François Servenière comenta: “admiro a dimensão geopolítica de Désiré N’Kaoua (post anterior). O que mais me chamou a atenção foi justamente a análise sobre a predominância da cultura europeia, que estancaria frente à mundialização, correlativamente à predominância de um de seus instrumentos culturais e burgueses mais emblemáticos, o piano”. Servenière escreve sobre os impostos do Estado taxando abusivamente a arte. “A arte era justamente a última coisa, individual, introspectiva, íntima, talvez reputada pelos invejosos como pertencente à burguesia – nada é menos seguro -, que poderia fazer supor estar fora da soberana e implacável tutela do Estado, da lei, muitas vezes oriunda geneticamente da violência cruel e injusta dos senhores ou príncipes de antanho contra seus povos. E por que não impor as garras sobre lápis, pincéis, cadernos, cores? Violência soberana, que provocou, há não muito tempo, nossa ensanguentada revolução francesa, com suas chagas jamais cicatrizadas e que se podem abrir a qualquer momento”. Não seriam os tentáculos do Estado a taxar a Cultura como um todo, como o faz com produtos banais de consumo, uma das formas do desvio de intenções? Sob outro ângulo, a grande maioria dos dirigentes culturais desconhece o sentido da palavra Cultura, entendendo-a como entretenimento, apenas. Assim não agiu o prefeito eleito João Dória ao convidar inicialmente Boni Sobrinho para a Secretaria da Cultura, que acabaria declinando o convite, ele um nome emblemático do… entretenimento? E a Cultura erudita, que não pertence aos índices mediáticos estratosféricos, mas que é base essencial para que não percamos o norte? Teria o futuro alcaide a noção ao menos potável da abrangência da Cultura?  Servenière continua: “Pode-se entender a mundialização como parâmetro evidente da decadência do recital de piano face às grandes máquinas espetaculares, que fazem lembrar um verdadeiro Barnum nos estádios para 80.000 lugares. Como lutar contra a potência dos decibéis, dos astros do rock e da canção? Pela inteligência. Na França, país de ponta no progresso e nos excessos, temos o rap, as mídias e a televisão invasora, a vulgarização do pensamento, seja ele artístico ou político, literário ou filosófico. Os códigos milenares da pintura e da escultura foram pisoteados pelos aprendizes de Fausto, teóricos da ideologia fecal encurralados e a levar a arte à sua vibrante dimensão do caos original, o menos digno que se possa imaginar. Não, não estou a metamorfosear artificialmente, nessa atualidade consumista que não sabe a diferença entre o universal e o banal, entre a escatologia e a coprologia. Um mundo de m—- gera o que promete e idealiza”. Para tanto, Servenière apresenta link com obras tidas como “arte”, fecais gigantescas que ocupam espaços em jardins,  parques e museus do Ocidente. Mario Vargas Llosa não teria mencionado exposição em Londres onde a “obra de arte” era representada pelo material constituído por fezes de elefante?

Servenière, em sua longa mensagem, retoma o item relativo à “geopolítica ligada ao desaparecimento do recital de piano e do piano… Pode-se invocar essa posição, pois nenhuma forma de expressão tem na essência validade universal para a eternidade. A moda e os instrumentos passam. Contudo, a sociedade humana é feita de ciclos, de avanços e recuos, de fases de excessos e, como contradição, de temperança, o que me leva a lembrar frases de Franz Liszt: “Fecundar o passado pensando no futuro, eis para mim o sentido do presente”, e de Nietzsche: “O homem do futuro será aquele que terá a mais vasta memória”. Que significam essas duas frases magistrais, pensadas por dois grandes mestres do passado? Simplesmente que o indivíduo que não tem memória (histórica, artística, cultural, semântica, visual, sonora, linguística, filosófica…) não terá futuro. Vivemos atualmente um dos grandes cismas psicosociológicos da história”.

Em artigo publicado nos anos 1980 (“As mortes do intérprete”, Cultura, O Estado de São Paulo, 24/12/1988), mencionava que a gravação é a aparência da perpetuação. Escrevia: “Pense-se no piano Bösendorfer-Computer ‘SE-Grandpiano’, capaz de dar ao registro fonográfico o real absoluto, onde a inexistência física do intérprete – ou o seu fantasma – , após gravação fixada, restitui à obra exata fidelidade da execução no instrumento mesmo em que o registro se verificou”. Tive a oportunidade de gravar uma peça de Rameau num desses pianos, em demonstração numa Feira de instrumentos no Anhembi, em São Paulo, ouvindo-a após, exatamente como se estivesse a tocar, ou seja, as teclas abaixavam durante a execução e eu, em pé, só observava atônito a minha interpretação tal qual a tinha realizado. Disse-me o representante da empresa que, doravante gravada e arquivada, em qualquer momento alguém no planeta poderia ouvi-la, desde que em instrumento similar. Atônito também fiquei ao sentir a “digitação” de grandes mestres mundiais do piano em obras fantásticas, teclas sendo acionadas, por vezes em velocidades à la Usain Bolt, como no caso do fantástico pianista de jazz Oscar Peterson. Teclado em seus movimentos naturais, mas sem a figura humana, e o som real transmitiam uma estranha sensação presencial. Servenière menciona o Diskklavier da Yamaha, inventado em 1980, e vê no processo dessa “família” tecnológica, próxima à do piano Bösendorfer, um caminho distinto, “o piano do recital solo a entrar no futuro neste século XXI !!! Muitos poderão urrar, voltados que estão ao purismo. Não eu. Para mim a cultura do piano se difunde, e as performances dos mais ilustres contemporâneos estão gravadas. A geração passada recusa o processo, mas ela também recusou a informatização eletrônica décadas atrás para o órgão instrumento, processo que pode manter todos os dados arquivados pelo organista. Os puristas que não concordam utilizam em suas casas aparelhos de microondas, celulares, computadores e televisão. Doravante, o piano tem mais esse caminho e as performances dos grandes pianistas (do presente e do futuro) poderão ser escutadas em tempo real, tranquilamente, em casa. Não falo dos meios de difusão da música, graças aos aparelhos domésticos que conquistaram o mundo inteiro. A Cultura sempre teve opções outras em seu baú… Nada há que comprove a sua morte, pois, acredito, o inverso está a se produzir. Como sempre, há cumeeiras e abismos, ciclos, recuos, renascimento, novos meios de difusão, desaparecimento de modismos, novos processos artísticos. Haverá uma triagem natural no que concerne à cultura. Os povos, mesmo enclausurados em campos de concentração e de morte, sabem o que é importante ou não. Depois da enxurrada de idiotices musicais que inunda o planeta, o ouvinte retorna aos lugares onde ele sabe que encontrará a qualidade, mais do que a absurda quantidade de furor e barulho ensurdecedor. Os povos, naturalmente, sabem o que é necessário salvaguardar ou não, mesmo nos períodos de caos. Enfim, seu último post permite essas digressões filosófico-histórico-pragmáticas. Há a necessidade de retorno ao trabalho manual, necessário para certas qualidades e experiências valorizadas no passado e, como escrevia Rousseau, ‘é necessário cultivar nosso jardim’. A tecnologia virtual evolui sem limites… mas sem o contato com a terra, com o real, essa inteligência ‘retorna ao caos’. De maneira cíclica”. Não por acaso, Désiré N’Kaoua observa em sua entrevista plena de reflexões: “Ao chegar à idade próxima de meus mais de 80 anos, dividi meu tempo ora dedicado ao piano, ora à jardinagem cotidiana e aí, como faço ao ler uma obra musical, a menor folha morta sobre a terra é para mim como uma mancha sobre uma bela partitura”. (traduções: J.E.M.)

Todas essas observações de ilustres músicos e pensadores nos levam à reflexão sobre o futuro do piano. Salientaria que a tecnologia mecânico-sonora dos pianos Bösendorfer e Yamaha, mencionada acima e datada das décadas de 1980, ocupou poucas salas de concerto, mas aponta para o futuro. Sob outro aspecto, aperfeiçoamentos acrescentados aos pianos Steinway, assim como a qualidade indiscutível dos instrumentos Fazioli, levam-nos a pensar. Se, por um lado, as grandes marcas são basicamente destinadas às grandes salas de concerto espalhadas pelo planeta, mercê dos preços altíssimos, os recitais de piano solo nas pequenas salas continuarão colocando, mormente no Brasil, o pianista sempre em alerta, pois jamais saberá a qualidade do instrumento que terá de enfrentar. Um recitalista experiente poderá não se lembrar dos melhores pianos, mas jamais se esquecerá de um mau piano.

Continuo pleno de esperanças, friso.

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe excerpts of an interview given by the French pianist Désiré N’Kaoua and of an e-mail message from the composer François Servenière, both musicians giving their views on the issue of shrinking spaces for piano solo performances.

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Chapecoense (In Memoriam)

Nada sabemos a respeito de determinados desígnios. A tragédia que se abateu sobre a valorosa equipe de futebol da Chapecoense só ocorreu graças ao contrário absoluto, instantâneo, fruto do mais preciso reflexo. Ao defender com o pé direito uma bola certeira endereçada ao gol da Chapecoense, chutada por jogador do San Lorenzo, Danilo, o goleiro salvador, “São Danilo”, doravante aclamado pelos milhares de torcedores que acorreram à Arena Condá, em Chapecó, eliminava a equipe argentina e entregava a caneta àquele que redigiria, uma semana após, o atestado de óbito de praticamente toda a gloriosa equipe da aprazível e congraçadora cidade. Assisti pela Fox Sports aos dois jogos inteiros entre a Chapecoense e o San Lorenzo, esta a equipe do Papa Francisco. No instante do acontecido, o brilhante narrador Deva Pascovicci, em locução apaixonada, exaltou o milagre da defesa de Danilo, o goleiro “salvador”. Lógico, também vibrei. Pascovicci, Danilo e mais 69 atletas, dirigentes, jornalistas e tripulantes da aeronave sucumbiram.

Como sempre o faço, não me inclino a escrever imediatamente após qualquer acontecimento. Fá-lo-ei na próxima semana. A decantação elimina incertezas.

 

 

 


Aspectos relativos ao recital piano solo

É melhor debater ideias sem regulamentá-las
do que regulamentá-las sem as ter debatido.
Joseph Joubert (1754-1824)

A recepção à epígrafe do post anterior, a abordar conceitos sobre a atividade “profissional” do pianista, causou-me surpresa. Reproduzo-a: “A carreira de pianista também é muito difícil. Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação, esse talento, essa vontade, nada seria compensador. A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é! A pessoa se dedica tanto! É uma experiência espiritual que eleva a pessoa. A pessoa penetra naquela música, e fica alheia do mundo por aquele período. Acaba levitando dentro daquela música.” Os inúmeros e-mails não deixaram de louvar, sem exceção, a pianista Eudóxia de Barros em seu trabalho cotidiano em prol da música brasileira e a epígrafe em apreço de Henrique Morelenbaum.

Considerando-se pianistas de minha geração, não é difícil concluir que havia no país uma maior oportunidade para recitais de piano, com cachets pertinentes. Apenas na cidade de São Paulo o pianista se apresentava algumas vezes ao ano e com salas abrigando bom público. Quase todos de minha geração tocaram, como exemplo, no Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, no Brás, que seria consumido pelas chamas em 1966. Naquele período havia menos entraves burocráticos e as instituições, públicas ou privadas, convidavam o músico, recolhiam os impostos devidos e pagavam o que lhe era devido. Quanto aos entraves burocráticos, Eudóxia de Barros, em “Valeu a Pena?”, apresenta generosamente os passos para um intérprete conseguir dar entrada no Ministério da Cultura, a fim de obter o registro necessário e daí partir em busca de patrocinadores!!! Eudóxia de Barros comenta: “Já me aconteceu de que quando consegui o patrocinador, o prazo de validade do registro no MINC tinha expirado. Voltamos à estaca zero e daí resolvi nunca mais cuidar dessa parte tão burocrática e cansativa. Enfim, é muito complexa a intermediação entre as entidades que contratam e o pianista que precisa se atualizar com todos esses procedimentos para manter sua carreira!”. Servindo-me de várias observações pontuadas no livro “Valeu a Pena?”, a pianista Eudóxia de Barros, que percorreu centenas de cidades e Estados brasileiros, exceção a Tocantins – certamente aquela que visitou o maior número de localidades do país para recitais em teatros e auditórios -, verifica-se sensível declínio da apresentação piano solo. Factível uma das considerações, a apontar que o recital solo atualmente tem menor apelo junto às instituições e promotores, em detrimento da apresentação conjunta. Eudóxia de Barros é enfática ao observar que “as Secretarias de Cultura não vêm se interessando muito por recitais de piano. Não está fácil conseguir concertos, porque as Secretarias de Cultura, que existem aos milhares no Brasil, quase não contratam mais recitalistas. O pianista depende, sobretudo, de patrocinadores ou do SESC e SESI”. Sob outra égide, bem menos causadora de impacto no imenso Brasil, as “Grandes” Sociedades de Concerto, quando agendam um pianista pátrio – contam-se estes nos dedos de uma apenas das mãos – fazem-no prioritariamente no formato piano e orquestra.

Henrique Morelenbaum tem extrema razão ao dizer que “a recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é!” Tirando-se os que “se contam nos dedos de uma apenas das mãos”, os pianistas residentes no país sabem que os cachets são bem menores do que antanho, pois o interesse diminuiu. Se amparada pela lei Rouanet e por poderosos patrocinadores, as possibilidades se apresentam. Considere-se que a música popular e as “celebridades ‘vocais’ popularescas” têm consideravelmente uma guarida extremamente mais ampla – público avassalador em gestual uniformizado – e, em acréscimo, casos de desvios vêm a público. A decadência da arte erudita, enfatizada por Mario Vargas Llosa no livro “La Civilización del Espectáculo”, e a certeza de promotores visando à quantidade de público e rarissimamente à qualidade do ouvinte, explicariam em parte a queda dos valores eruditos. O lucro a preponderar sobre a Cultura. Antolha-se-me que, na música erudita ou de concerto, a apresentação individual de um intérprete não pertencente à “seleta” elite bafejada pelo binômio patrocínio-holofote, estará a cada ano mais restrita a público diminuto, mas geralmente qualificado. Diria, audiência de resistência. Sem o fator formado pelo binômio acima, o intérprete individual estará a buscar a “recompensa espiritual” mencionada  por Morelenbaum. Comentei, em tantos blogs, que voluntariamente muitos pianistas altamente qualificados não têm propensão a situações necessárias para serem ungidos, como a constante viagem ou o holofote que pode obliterar intenções mais dignas. Mencionei várias vezes meu Mestre em França, o pianista Jean Doyen (1907-1982), pertencente a um nível de primeiríssima elite, mas que era avesso às “badalações” mediáticas.

Para o pianista que pratica repertório conhecido do grande público, que insere composições brasileiras e, por motivos tantos, obtém patrocínios, as chances de ser abrigado pelas leis de incentivo são maiores. A realidade, contudo, é mais dramática para aqueles que, sem acesso a poderosos patrocinadores e consequente “amparo” da Lei Rouanet, insistem no piano solo em apresentações fortuitas. Se convidados por Universidades no país, têm de se sujeitar aos pro labores apenas; se lembrados por entidades particulares, ficam a mercê do imponderável. A universidade surgiria como “refúgio” de sobrevivência e possibilidade até de rumos outros, devido ao “canto das sereias” administrativo.

Considerando parcela apreciável de pianistas docentes na universidade, a hipótese de drástica desmobilização quanto à eventual carreira artística é real. São necessárias disciplina férrea e perseverança para conciliar aulas, burocracia imensa na Academia e o estudo pianístico e, nesse aspecto, Eudóxia de Barros mostra-se bem cética em “Valeu a Pena?”, justamente pelo desvio de foco. Apenas não menciona, por desconhecer possivelmente as entranhas universitárias, que incontáveis reuniões intramuros são estéreis, como, aliás, majoritariamente na vida política do país.

O consagrado pianista francês Désiré N’Kaoua – meu colega durante curso na classe da legendária Marguerite Long – afirmou recentemente, em longa e substancial entrevista para o site “Pianodoux”, que “o que eu não diria, sob pena de ser acusado de ‘tentativa de desmoralização da legião’ de pianistas, é que sou bem pessimista no que concerne ao futuro do piano, pelo menos em sua formatação de recital público. Creio que o piano está intimamente ligado ao período romântico, durante o qual ele era essencialmente vocal e não destinado a se tornar o símbolo da destreza e da percussão, tal qual o é atualmente. Outro motivo da redução do público: uma visão geopolítica da música ocidental nos revela rapidamente os gigantescos territórios que não mais estão dispostos a receber essa música essencialmente europeia, que alimentou toda a nossa existência. A rapidez dos meios de transporte e a propagação de CDs de todas as origens pelo planeta tiveram como consequência uma incrível proliferação de aprendizes-pianistas, assim como de concursos, sendo que esses oferecem uma sobrevida de curta duração ao laureado – até a aparição de um novo ungido -, abandonando-o à própria sorte, tornando o primeiro, doravante, um pianista em busca de algum concerto. Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público que os acolhe encolheu drasticamente”. Em meu livro “Témoignages – Entretien avec le pianiste brésilien José Eduardo Martins” (Paris Sorbonne, 2012), abordava o tema e dizia que, anualmente, legião de pianistas do Extremo Oriente inunda concursos internacionais de piano, habilíssimos instrumentistas, mas na grande maioria com ausência de ideias precisas e criativas.

Pareceria evidente que há mercado para a quantidade de pianistas premiados em concursos internacionais, geralmente por período curto, raramente a ultrapassar um ano. A proliferação dos certames e a quantidade de primeiros prêmios agraciados por numerosos recitais e concertos, logo após a láurea máxima, não são garantias de carreira certa. Seriam as “leis da natureza” a minimizar o laureado anterior, a fim de promover o novo talento. Proliferam os exemplos. Essa assertiva ocorre basicamente em todas as áreas. Uma quantidade mínima consegue prosseguir com uma agenda de concertos preenchida. Vários fatores envolveriam o pianista eleito nesse desenvolvimento a ultrapassar a barreira do prazo vencido: talento indiscutível, patrocinadores relevantes, contatos certos e repertório. Muitos talentos sucumbem ao day after da premiação pelo fato da limitação de repertório e da impossibilidade de, em curto prazo, edificá-lo. O mercado é implacável e a depressão pode instaurar-se.

François Servenière elabora outra metáfora àquela que apresentei no livro citado. “Em seu livro da série ‘Témoignage’, publicado pela Sorbonne, do qual fui um dos entrevistadores, você estabelece metáfora em algumas páginas sobre a existência na ponta do iceberg do repertório super frequentado e na massa submersa, escondida, do repertório pouco tocado ou nunca programado. No âmbito da interpretação, proponho outra metáfora, da montanha. Há aqueles raríssimos, que conquistaram os 14 picos himalaios acima dos 8.000 metros e tantos outros que repartem os cerca de 200 picos na faixa dos 7.000m, também no Himalaia. Virtuosidade na ascensão, perigos enfrentados, risco mortal nas duas faixas de altitude evidenciam profundo valor. Todavia, a mídia apenas projeta todos os holofotes nos ungidos que realizaram o feito do acesso aos 14 picos, as cumeeiras, o Olimpo!!! Casta à parte e poderíamos considerar normal a atitude. Diria que a metáfora relativa ao Himalaia bem se aplica à elite na música, no caso, aos pianistas. A parte submersa do iceberg ou os dificílimos picos logo abaixo dos 8.000m não contam para a mídia. Ficam nas profundezas (iceberg) e na sombra (montanha), respectivamente. Apenas a elite tem o privilégio da unção, independentemente de talentos e qualidades individuais” (traduções: JEM). O certo é que, se aqueles que tiveram acesso aos picos próximos aos 8.000m têm pouca divulgação, menos ainda os que, meritórios, não atingiram os 7.000m. Lembremo-nos que a maior altitude abaixo dos 7.000m está distante da cordilheira do Himalaia. Trata-se do Aconcágua (6.962m) na Cordilheira dos Andes. Metáforas à parte, o recital de piano fora das condições de elite está em crise.

O tema é rico, polêmico e a ele darei espaço no próximo blog, aproveitando trechos da entrevista e da mensagem dos ilustres músicos Désiré N’Kaoua e François Servenière, respectivamente, que acrescentam, inclusive, outros temas significativos relativos à interpretação.

Nowadays space for soloists dwindles as sponsors focus primarily on pop shows and, in terms of classical music, on orchestras, since grandiose shows capture more public and bring in receipts in ticket sales. Only star soloists – in special foreign ones – have a chance and audiences get more of the same, for they keep hearing the same things again and again. Winners of international competitions may become overnight superstars, but just until the next winner is chosen. Profit prevails over culture and legions of excellent soloists remain unknown because financial backers prefer a handful of celebrated performers. As Vargas Llosa announced in his book “Notes on the Death of Culture: Essays on Spectacle and Society”, high culture is dying, replaced by mere entertainment.