Mensagens contendo relevantes informações

Europam, partimque Asiae, Libyaeque per urbes
Saeviit: in Latium vero per tristia bella
Gallorum irrupit: nomenque a gente recepit.
Nec non et quae cura: et opis quid comperit usus,
Magnaque in angustis hominum sollertia rebus;
Et monstrata Deum auxilia, et data munera coeli…
Girólamo Fracastoro
(“Syphilis sive morbus Gallicus”, 1530)

A doença subjugou a Europa, espalhou-se pelas cidades da Líbia
e irrompeu no Lácio pelas terríveis guerras gaulesas,
recebendo por isso o mesmo nome desse povo. Sim, e agora?
Qual o tratamento, como combater a doença
e as angustiosas decepções dos homens;
como nos socorrermos dos deuses e dos favores dos céus? (Tradução livre)

O post anterior suscitou inúmeras mensagens. Geralmente curtas, todas, sem exceção, enfatizaram a temática escolhida pelo ilustre médico e escritor Heitor Rosa, como questionaram o “paradeiro” da edição, não encontrável em livrarias. Soube que a Livraria Cultura, via internet, é um caminho. Como estarei em Goiânia no fim deste mês para curso e recital na Universidade Federal de Goiás, encontrar-me-ei com Heitor Rosa e poderei transmitir, àqueles que me enviaram mensagens, esclarecimentos sobre “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” e “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016).

Transcrevo inicialmente a mensagem de Heitor Rosa. Foi-me importante, pois receber a opinião do autor é sempre estimulante, seja ela boa ou má. Neste caso leva ao aperfeiçoamento; naquele, ao estímulo para prosseguir.

“Vi, fascinado e imensamente alegre, seu generoso comentário sobre o Cirurgião-Barbeiro. Não adianta esconder o ego inflado provocado por uma pessoa tão excepcional e importante como você. Parece que todo o sacrifício de escrever e publicar desaparece quando me vejo como motivo de tão distinta honra no seu blog, assim como uma análise comovente. Obrigado mil vezes. Agora, vou confessar-lhe um segredo sobre um momento muito importante da história, para mim, que foi o desfecho de Helena. Como você leu, ela se feriu no pé, e a consequência foi a causa de sua doença. A descrição de seu sofrimento e posição no leito correspondem fielmente ao tétano (arqueamento do corpo, espasmo muscular etc). Pesquisei longamente como a doença era interpretada na época…(coisa do demônio). Sofri muito em castigar minha heroína e dar-lhe tal destino. A cena toda me tomou muito tempo, vários dias, pois precisava de um cenário dramático. Só depois de ouvir, altas horas da noite, o Requiem de Fauré consegui enxergar a cena. Não me foi fácil…mas quando escrevemos não somos donos da história ou dos diálogos. Você deve saber disso melhor do que eu…os mistérios da composição ou da interpretação. Obrigado mil vezes por sua cumplicidade na minha obra. Não sei bem como agradecer. Seu, fraternalmente, Heitor”.

Como o faz com absoluta assiduidade, o que me honra muito, o notável pensador e compositor François  Servenière me enviou informações preciosas sobre a atividade do cirurgião-barbeiro, reportando-se igualmente à prática farmacêutica ontem e hoje e à função precípua de um especialista da área em período relativamente recente, a não ultrapassar um século, assim como às transformações aceleradas por que passa a sociedade como um todo.

A mensagem de François Servenière testemunha a qualidade temática escolhida por Heitor Rosa, o arguto conhecimento do médico-escritor goiano no que concerne à prática e ao tratamento, mormente no período medieval, assim como o desenrolar da trama do romance baseada em tantos fatos reais. É-me sempre prazeroso divulgar as posições de Servenière relativas ao post da semana. Músico e pensador de alto nível, suas mensagens enriquecem não apenas o blog, mas trazem uma diferente luz aos temas abordados. Escreve:

“Li com atenção seu artigo sobre o livro de Heitor Rosa. Evocou-me numerosas reflexões. Adoro esse universo literário que reporta aos períodos ancestrais da medicina de campo, através dos cirurgiões-barbeiros, associação que se nos afigura hoje iconoclasta e quase sacrílega pelos que mantêm a arte médica.

Primeiramente, não me lembro de ter ouvido falar da sífilis como o Mal Francês e que o autor do terrível nome que se propagou era o célebre Hieronymus Fracastorius… Mal Francês ou sífilis, títulos de glória ou triste reputação no país do Marquês de Sade!!! Você me lembrou em seu blog. A cultura francesa é aquela do amor cortesão, mas o francês tem a reputação de sedutor vil e de marido  volúvel. Reputação confirmada pelas aldrabices de nossos políticos, a cem léguas do puritanismo dos peregrinos, os pilgrim fathers. Não obstante, italianos, espanhóis e portugueses não têm a invejar a propensão latina na arte da sedução.

Segunda lembrança evocada após seu artigo relaciona-se à música, que compus em 1993-1994 para o programa da France Télévision, ‘Au coeur des toiles’ (http://www.esolem-production.com/acd2list.html). Na lista de pinturas consagradas que deveriam ser ilustradas musicalmente figurava uma obra prima, ‘O tira-dentes’, de Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), pintura de 1754. Fui buscar minhas leituras nesse universo dos cirurgiões-barbeiros, ascendentes dos dentistas-cirurgiões (enfermeiros, cuidadores…) que, em suas épocas, eram socialmente respeitados, pois manuseavam o bisturi e a navalha com rara habilidade, sabiam igualmente ‘impor as mãos’ e, sobretudo, eram psicólogos natos e conhecedores dos enigmas da alma humana. Adeptos bem anteriores dos princípios do Método Coué”. Servenière refere-se ao  Método decorrente dos trabalhos do psicólogo e farmacêutico francês Émile Coué de la Châtaigneraie – 1857-1926. O método está fundamentado na sugestão e auto-hipnose. Prossegue Servenière: “Apreendi um detalhe instigante das práticas contidas no Método e que nós quisemos reproduzir musicalmente no audiovisual citado anteriormente. Na verdade, quando o barbeiro apertava o dente que deveria ser extraído, esse agora prático tira-dentes ordenava aos seus músicos, sempre presentes nesses lugares, que tocassem mais forte até o clímax, momento em que decidia extrair de um só golpe seco o dente condenado. Na verdade, esse aumento de volume sonoro prestava-se a duas coisas essenciais. Primeiramente, permitia ao ‘cirurgião’ desviar a atenção do paciente, pois ele operava em público sobre um estrado, no meio da praça do mercado. O paciente não mais focalizava suas dores e o pós-operatório, tampouco o stress de sua exposição pública sujeita à gozação nessa cena de ‘cinema’, pois pensava em outra coisa, descontraía-se e seu stress caía. Ao mesmo tempo, a música permitia ao auditório saber que o evento principal estava por acontecer. A música desempenhava a função de ilusão e de ilustração, como nas sessões de magia, com uma dramaturgia indo em escala ascendente até o auge.

Outra reflexão. Mais avanço em seu texto, mais ele evoca reminiscências que remontam à tradição familiar. Meu avô criava sanguessugas para fins medicinais, pois elas eram atração em sua velha farmácia (anexo foto). Meu pai e meu avô foram herboristas renomados. Essa tradição perdeu-se pouco a pouco, mercê do surgimento dos laboratórios farmacêuticos multinacionais que iriam doravante buscar muitos de seus princípios ativos na imensa floresta amazônica de seu Brasil. A tradição europeia do medicamento e do herborista se esvai gradativamente no Ocidente, apesar de ainda ser ensinada. Todavia, a caixinha de comprimidos amputou seriamente o saber do apotecário, que perderia por sua vez sua curiosidade campestre ancestral!!! O jovem farmacêutico não mais faz longas vigílias, muito menos ‘colheitas’ nas zonas rurais. Milita pelas 35 horas e se satisfaz com a situação salarial, como examinador de receitas médicas e vendedor de caixas de remédios. Menciono esses fatos, pois há membros de minha família que mantêm profissões ligadas ao tema que desenvolvemos e, para exemplificar: irmã, tio, tias, primos… Com a música e sua vasta área, temos duas particularidades importantes de nossa cultura familiar, que remonta a mais de um século!!! Diria que a propensão vital é o contato preservado com a natureza! A antítese niilista é a ignorância e a viagem em direção ao vazio do pensamento. Os limites do homem são apenas internos, psicológicos, como nós dois sabemos.

Adorei a frase latina primum non nocere (‘antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’), atribuída a Girolamo Fracastoro. Há alguns anos li o extraordinário livro de um escritor inglês sobre a peste que grassou no século XIV e que ceifou 1/3 da população europeia, que era constituída por cerca de 30 milhões de indivíduos.

Obrigado pelo post soberbamente interessante em torno do livro de seu amigo Heitor Rosa. Fez-me ativar lembranças que não se apagam”. (tradução: JEM).

Last week’s post, about Heitor Rosa’s novel “Memories of a Barber-Surgeon” got much feedback. I publish two of the messages received. The first —a great honor— from the author himself, who sends his thanks for the post and takes the opportunity to clarify us on the destiny of one of the characters of the book. The second, by the always thought-provoking French composer François Servenière, who talks about the memories the reading arouse in him, born in a family of pharmacists, and on how the tradition of herbalists has been lost in the era of great pharmaceutical labs.

 

 

 

Um romance sedutor de Heitor Rosa

Mas não se trata de um trabalho científico, acadêmico;
o que temos aqui é um romance que prende o leitor
da primeira à última página.
Moacyr Scliar

Girolamo Fracastoro (1478-1553), também conhecido pelo nome latinizado de Hieronymus Fracastorius, foi uma das mais notáveis figuras de seu tempo. Médico, humanista, poeta e filósofo italiano, Fracastoro ficaria imortalizado por suas teorias racionais sobre as doenças contagiosas que grassavam no período. O nome sífilis, difundido na época como Mal Francês vem de um de seus poemas, “Syphilis, Sive Morbus Gallicus”, de 1530. Também se debruçou sobre a peste que ceifou porcentagem altíssima das populações europeias. Deve-se a ele estudos sobre o tifo. Como astrônomo, publicou em 1538 o importante “Homocentricorum Sive De Stellis Liber”.

Resenhei há semanas o livro do médico e escritor goiano Heitor Rosa, “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016). Heitor Rosa não é apenas professor e gastroenterologista respeitado, mas também escritor de reais méritos. Pesquisador da medicina antiga, mormente a do fim da Idade Média e início da era Moderna. No blog mencionado inseri alguns dos aprofundamentos de Heitor Rosa quanto às práticas medicinais do período, tratamentos habituais onde não faltavam ervas, sementes, poções advindas dos lugares mais distantes da Terra e que, misturadas ou não, produziam lá seus efeitos paliativos. Sangrias eram comuns, a sanguessuga habitualmente utilizada.

Li com enorme interesse “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Rio de Janeiro, Bertrand, 2006), romance de Heitor Rosa. O título já é intrigante. A classe de cirurgião-barbeiro era respeitada nas comunidades. Sem o título de Doutor, o cirurgião-barbeiro desempenhava função fulcral nas cidades. Lembraria ao leitor que, em termos brasileiros, nos séculos XVIII e XIX o barbeiro desempenhava em rincões do país igualmente a função de dentista, verdadeiro “tiradentes”. A extração nos casos necessários era realizada após ingestão “anestésica” de cachaça.

O narrador criado por Heitor Rosa, Gioacchino dalla Rosa, torna-se cirurgião-barbeiro, a mesma profissão de seu pai, estuda as práticas em Londres, regressa a Verona e dá-se o encontro com Fracastoro: “Em certa manhã de maio, enquanto amolava as navalhas, ele apareceu, pedindo-me para aparar a barba e o bigode. Impossível esconder o susto. Diante de mim, encontrava-se o homem mais popular, querido e respeitado de Verona, Girólamo Fracastoro. O mais sábio”. O médico convida-o para ser seu assistente nas tantas tarefas a visar ao combate ao Mal Francês (sífilis) que assolava a Europa. Apresenta-se atrasado no dia seguinte em casa do ilustre Fracastoro, pois a cidade estava atônita com a morte de dois jovens, Romeu e Julieta!!! Fracastoro o repreende pelo atraso e doravante Gioacchino tornar-se-ia fiel auxiliar.

O romance ganha “fidelidade” em todas as narrativas nas quais procedimentos médicos, tratamento, preparação de medicamentos estão em causa. Heitor Rosa, que durante seus estudos de medicina em França e na Inglaterra interessou-se pela temática a envolver os séculos XIV a XVI, assimilou conhecimentos imprescindíveis para dar às memórias do cirurgião-barbeiro a mais abrangente “autenticidade”. Gioacchino acompanha determinados tratamentos ministrados por Fracastoro e ganha o leitor ao conhecer procedimentos empregados pelo notável médico italiano. Nos incontáveis diálogos médico-assistente, Heitor Rosa tira de Fracastoro conceito relativo à moléstia e ao tratamento: “… a moléstia é pior do que o tratamento; viste alguém morrer dele? Garanto, entretanto, que não tens a conta dos mortos pela doença. Por acaso achas que desconheço o princípio de primum non nocere? ‘Antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’. É um aforismo de Hipócrates”. Basicamente a temática gira em torno da sífilis, o Mal Francês.

Católico, Fracastoro frequenta as mais distintas autoridades eclesiásticas, devido a sua sapiência médica. Esse tema é bem conduzido pelo autor e a narrativa feita por Gioacchino acompanha Fracastoro em visita privada ao Papa Paulo III. Comparece ao Concílio de Trento. A probabilidade de a peste atingir a cidade causa um imbroglio muito bem administrado por Heitor Rosa.

Uma das maiores virtudes de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” é a sequência fidedigna. Percebe-se claramente que o autor buscou estudar pormenorizadamente a vida, os atos, a obra e os caminhos percorridos por Girólamo Fracastoro. Segui-lo em sua biografia, entrando em cena através de fértil imaginação e criatividade, foi consequência positiva. Trazê-lo aos nossos dias com o pleno conhecimento do personagem que desfilou sua competência a mais de meio milênio é tarefa difícil. Qualquer deslize inviabiliza a trama imaginária calcada na realidade vivida. Não fosse Heitor Rosa um respeitado profissional na área médica, teríamos inconsequências.

Não poderia faltar um relato amoroso. Gioacchino torna-se confidente de Fracastoro e segue a paixão do médico pela bela Helena que morreria após doença igualmente incurável àquela altura – tifo, peste, raiva?

Sob égide diferenciada na condução das tramas, não há como não associar “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” ao romance, igualmente abordando o período medieval, “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. Se o autor italiano encaminha a narrativa em área de seu domínio, Heitor Rosa, de maneira quase professoral, ensina-nos uma parcela da história da medicina através não apenas das reflexões do narrador, como a partir dos inúmeros diálogos com o mestre e médico sobre a origem das doenças que levavam à morte, por vezes, populações inteiras.

Como bem escreve o médico e escritor Moacyr Scliar (1937-2011) nas orelhas do livro: “Através de sua narrativa, somos introduzidos a um capitulo verdadeiramente extraordinário na história da medicina e da humanidade. Aprendemos, portanto, e aprendemos com emoção e prazer. Pelo que só podemos dizer a Heitor Rosa: ‘Obrigado, doutor’. Ah, sim, e ‘obrigado, escritor’ “.

Reitero o que escrevi na resenha de “O Enigma da 5ª Sinfonia”, pois os livros de Heitor Rosa deveriam ser divulgados através de nossas livrarias. Oxalá isso ocorra.

Today’s post is my appreciation of the book “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Memories of a Barber-Surgeon), written by the Brazilian doctor and University teacher Heitor Rosa. Intertwining historical and fictional characters, the story focus on the life of the Veronese doctor Girolamo Fracastoro (1478-1553) and his research on syphilis. Narrated by Fracastoro’s fictional assistant , Gioacchino de la Rosa, the enrapturing plot — with its historical truth solidly documented – makes readers dive into the ambience of 16th century Europe, unveiling its religious ideas and medical practices.

 

 

Comentários que enriquecem temas debatidos

Por mais longe que o espírito alcance,
não vai tão longe quanto o coração.
Provérbio chinês

A apresentação pela terceira vez em São Paulo da integral para teclado de Jean-Philippe Rameau interpretada ao piano teve recepção à altura dessa criação magnificente. Reitero que das apresentações anteriores, 45 e 33 anos escoaram-se. Um fato calou-me. Quando da segunda vez, uma de minhas filhas, Maria Beatriz, esteve presente. Estava ela nos seus dezessete anos, a mesma idade de sua filha Maria Teresa, que compareceu às presentes apresentações.

Atualmente Jean-Philippe Rameau é cultuado no hemisfério norte, mas ignorado em nosso país. Obra excelsa, que obteve acolhida calorosa e questionamentos a mim dirigidos sobre o porquê desse desconhecimento. Respondi que os quatro blogs destinados a Rameau no mês de Agosto buscaram esclarecer razões estranhas que regem nossa cultura musical. Recebi várias mensagens comentando as apresentações. Divulgo opiniões causadas pelo impacto que a sublime criação ramista produz. Nos posts dedicados a Rameau salientava posições de Georges Migot, François Lesure, Cuthbert Girdlestone, Philippe Beaussant e François Servenière, demonstrando a valoração que a obra para teclado do compositor nascido em Dijon adquire ao ser executada ao piano.

Primeiramente, insiro a instigante mensagem de François Servenière, que me tem honrado com inúmeras reflexões, mercê de ser o notável compositor e pensador francês um missivista vocacionado e polemista nato. Escreve a comentar frases de Debussy mencionadas no penúltimo post, assim como tece posicionamento a respeito das interpretações do grande pianista russo Grigory Sokolov, citado no mesmo blog, pelo fato, entre outros, de estar a divulgar assiduamente em recitais pelo mundo as criações de Jean-Philippe Rameau. Compara-as às que gravei na Bulgária e lançadas em CDs pelo selo belga De Rode Pomp.

“Gostaria de considerar suas oportunas citações de posicionamentos famosos do mestre de todos nós, Debussy, ele mesmo discípulo do tronco principal e de suas ramificações, que é certamente o grande compositor e teórico francês por excelência, Jean-Philippe Rameau. Explicam bem o que se pode imaginar entre duas obras, aquelas que fertilizam o futuro e aquelas que esterilizam esse devir. Esta manhã, após a leitura de seu último blog ( IV ), ouvi novamente a magnífica Gavotte et Doubles. Não nos cansamos jamais dessa música, um contínuo encantamento. O compositor de nossa época deve ter suas reservas não escutando demais essa música perfeita, pois ‘como ultrapassar o gênio musical?’. Ouço maravilhado os compositores do passado, mas fico na desconfiança, pois a perfeição do passado, paradoxalmente, é esterilizante para um criador, para seu espírito, para seu gênio… Na minha enorme discoteca, por essa razão, há certa camada de poeira…”. Nunca é demais considerar que muitos compositores hodiernos de várias tendências preferem ignorar seus antecedentes criadores, hélas.

“Teria comentários a fazer sobre as gravações de Grigory Sokolov da obra de Rameau para teclado, por você mencionado elogiosamente, e as suas. Ouvi atentamente as duas versões. Ficamos atônitos pelo contraste produzido por um mesmo texto musical sobre espíritos abastecidos por culturas diferentes. Uma, latina e sensual (a sua), que edifica uma coluna cultural sólida no convívio com costumes de seu povo tropical, mas não negligenciando a estrutura intelectual e consagrada europeia, daí a intenção de magnificar clara e nitidamente as bases sedimentadas da criação ramista; a outra, de Sokolov, nórdica e eslava, acostumada à estrutura das sociedades stakhanovistas (F.S. faz referência ao mineiro russo Alekseï Stakhanov que, em 1935, bateu recorde extraindo 102 toneladas de carvão em seis horas) por necessidade vital e que produz uma execução de sensualidade incrível, acariciante. Enorme contraste! Estamos diante de uma mesma partitura! As duas interpretações são sublimes, tanto a dele como a sua. Essa constatação nos leva a compreender que, para ter acesso a duas verdades quase extremas, o texto base pode se tornar de uma riqueza semântica inacreditável.

Sob outra égide, amo ler os compositores e os criadores do passado falarem de sua arte e de seu tempo. E, humildemente, eu me reencontro. Como Rameau e Debussy, busco minha inspiração, antes de qualquer coisa, na natureza, naquilo que nos circunda, nas estações que passam, nas mudanças climáticas. Século ou séculos de recuo e falamos dos mesmos temas, das mesmas preocupações, com os diferenciais advindos dos avanços graças ao progresso. Mas o criador deve falar a língua de seu tempo, essa é uma realidade incontornável. Entre Rameau, Debussy e nós não existem senão ‘vestimentas’ da música que mudam, as épocas se encarregando das formas e das aparências da moda, os avanços devido ao progresso. Cada espírito ressente a necessidade da transformação e da renovação permanente, esse mecanismo sendo tão natural como a passagem das estações. Qual esse elo que persiste nas obras de nossos ilustres antepassados e nas que produzimos, colocando autores tão diferentes como Rameau e Debussy ou a obra que compomos face às mesmas permanências do espírito? Rameau já teria mostrado o caminho: ‘é para a alma que a música deve falar’ ou ‘durante a composição musical, não busque lembrar as regras que poderiam escravizar seu talento’. Em nossos tempos, tabula rasa, tende-se a cortar esse tronco, essa seiva, essa essência da vida, essas raízes que contêm a verdade em seu DNA da vida… Cortá-la seria fabricar plantas fora do solo, robots sem alma, ideias que nada mais têm a ver com a terra e o céu, com a vida, pois. Clones, mortos-vivos foram fabricados. Proeza lógica do nihilismo. O contrário de Rameau e Debussy, para os quais a natureza é um fim sob o prisma intelectual e por sua fisiologia. Dessa maneira não nos enganamos sobre os fundamentos da humanidade à qual a música é destinada. Não nos esqueçamos que a beleza é uma escolha humanista.

Lembremos Rameau: ‘… a música no seu conjunto deveria ser reduzida a uma combinação de números’, MAS [...] ‘A música é a linguagem do coração’. Eis o que eu penso firmemente e minha música também. Ramistas nós somos, ramistas nós continuaremos. Ser ramista ou debussista é amar a vida, simplesmente” (tradução: JEM).

As palavras de François Servenière traduzem bem seu espírito rigorosamente não nihilista e distante de tendências em que a emoção não prepondera. Se Jean-Philippe Rameau saúda a matemática e a construção musical, seguindo as regras voltadas aos números, o caminho que o compositor abre para que ecloda a emoção, a sensibilidade, o lirismo e a poesia é evidente em suas criações. O obra para teclado e as magnificentes criações para o teatro lírico contêm centenas de exemplos dessa inundação emocional. Diga-se, René Descartes (1596-1650), no “Compendium Musicae”, já escrevia que a música foi feita para emocionar, e François Couperin (1668-1733), no Prefácio do terceiro livro de “Ordres”, (suítes) para clavecin, comenta que prefere aquilo que o emociona àquilo que o assombra.
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Na ausência de crítica escrita por músicos em nossa cidade, transcrevo e-mail recebido da competente pianista Sylvia Maltese a respeito dos recitais Rameau que apresentei nos dias 20 e 27 na Sociedade Brasileira de Eubiose, em São Paulo.

“Rameau, um autor a quem sempre admirei pela construção harmônica, pelo requinte dos ornamentos, enfim, pela reflexão intelectual, foi revelado a mim através de sua leitura e interpretação, em todo o esplendor! O compositor, que me parecia cerebral, é revelado em toda a humanidade, arte, criatividade, lirismo!!! E ele encontrou em você o intérprete! Sobretudo o seu Som! Trabalhado nos menores detalhes em seus matizes sonoros e recursos timbrísticos. O pedal fantástico, valorizando as construções harmônicas e melódicas, a apresentação de uma obra pianística sem perder nenhuma das virtudes da obra cravística, pelo contrário, enriquecendo a criação como um todo. Foi emocionante e emocionou a todos!”

Magnus Bardela completou brilhantemente o curso de música na Universidade de São Paulo. Foi meu aluno. Escreveu:

“Havia tempo que não o ouvia. Como soou bem! Percebi inflexões novas na interpretação, mais líricas até, no seu Rameau. O Debussy saiu impecável, inegável domínio que o José Eduardo tem desse universo dos sons. Já falei e volto a dizer: o amigo tem o controle da dinâmica e da agógica dos grandes nomes de ontem, algo que não se ouve mais hoje (infelizmente), constatado apenas nas gravações de Bolet, Segall, Guilles, Sanson François ou de Thierry de Brunhoff, todos pupilos de grandes mestres”.

After my two recitals with the complete keyboard works of J-P Rameau played on the piano and four posts on this extraordinary composer published throughout August, I received some messages that I want to share with my readers. The first, by the French composer François Servenière, is a long and reflective analysis of Debussy’s comments on Rameau’s works and also of my recordings of such works. The last two ones are appraisals of my recent recitals written by true musicians.