Triste Realidade

Não julgues que pensas melhor
do que todos os que te precederam:
o mais provável é que penses pior;
principalmente quando tudo te parece mais certo.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Como se não bastassem as incorreções gramaticais crônicas praticadas pelo último ex-presidente e pela atual mandatária, sem contar os deslizes diários – verdadeiros atentados à língua portuguesa – perpetrados diariamente no Planalto e no Congresso, “educadores”, engajados na elaboração da nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC), estariam prevendo para Junho a implementação de novos currículos. Após veementes protestos iniciados pelo historiador Marco Antônio Villa através da Rádio Jovem Pan e da TV Cultura, um tsunami de cerca de 10 milhões de mensagens com sugestões invadiu o site do Ministério de Educação, que doravante estaria a estudar alterações no programa educacional.

Recebi de minha amiga e colega uspiana, Profª Maria Stella Orsini, matéria publicada no “Diário de Notícias” de Lisboa no dia 20 de Fevereiro último, sob o título “Literatura Portuguesa deixa de ser obrigatória no Brasil”, com assinatura de João Almeida Moreira.

Com a mais justa razão o colunista aponta o que está a acontecer com essa proposta para alteração curricular. Se a disciplina História estava a ser mutilada de suas essencialidades, como Grécia Antiga, Império Romano, Idade Média, Renascença, Revolução Francesa, Revolução Industrial entre tantas outras, em benefício das ideologias totalitárias que se instalaram a partir da metade do século XX na América Latina e na África, há que se verificar que, desde a base escolar, as novas gerações estariam acéfalas no que diz respeito ao desenrolar da História através dos séculos.

Deve-se sempre buscar exemplos que corroborem o aprimoramento. No que se refere à literatura, seriam os expoentes máximos da língua portuguesa, como Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e inúmeros escritores enriquecedores das letras, que têm contribuído, através dos tempos, com o escrever bem, o cuidado com o estilo, o aprimoramento cultural. A não obrigatoriedade da literatura portuguesa, essencial para a formação do homem como um todo, tornar-se-ia crime educacional irreparável.

O articulista do “Diário de Notícias” historia: ” A BNCC foi criada no ano passado, na gestão do ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, entretanto substituído por Aloizio Mercadante, para estabelecer um grupo de conhecimentos e habilidades de que todos os estudantes brasileiros devem dispor na educação básica. Logo que foi conhecida do público gerou controvérsias: inicialmente, não tanto por causa da literatura portuguesa, mas sim por questões ligadas à História e à Gramática. As críticas surgiram em virtude da pouca relevância dada à história mundial, ignorando pontos considerados por educadores como de conhecimento básico, para dar ênfase às histórias indígena e africana. Outra área que mereceu reparos foi a da ausência da gramática no ensino geral de linguística”. A se considerar o DN, o Ministério da Educação já teria revisto alguns pontos críticos, mas estaria a receber sugestões via site.

A matéria publicada no DN sublinha ainda algo que deve ter chocado até os leitores minimamente cultos: “O governo do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda, é acusado de populismo e de agir de forma ideológica, ao querer privilegiar a cultura indígena e ao ser mais permissivo em relação a questões gramaticais já desde 2011, quando causou choque na classe educadora que, num manual escolar distribuído pelo MEC, fosse considerada ‘inadequada e passível de preconceito mas não errada’ a expressão, sem concordância, ‘nós pega o peixe’ “.

Sempre é bom lembrar a polêmica em torno do livro “Por uma vida melhor”, de Heloísa Ramos, publicado em 2011 e que teria sido adotado pelo MEC, no qual é apresentada a alternativa da norma popular vinda na contramão da norma culta. Como afirmou a autora em entrevista à Naiara Leão: “Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para cada situação” (“Não somos irresponsáveis”, diz autora do livro com “nós pega”. Artigo de Naiara Leão, IG Brasília, Último segundo – Educação, 12/05/2011). A articulista comenta outra afirmação da autora do livro: ” Ela acredita que, ao deixar claro que é tolerado todo tipo de linguagem, a escola contribui para a socialização e melhor aprendizado do estudante. ‘Quem está fora da escola há muito tempo é quieto, calado e tem medo de falar errado. Então colocamos essa passagem para que ele possa sair da escola com competência ampliada’, diz”. Nessa visão, a corromper por completo a norma culta, outro exemplo pareceria evidente: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. A autora explica o porquê dessa forma linguística: ” Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico (negrito da articulista). Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção para todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

A exemplificação, através do livro mencionado de 2011, apenas evidencia que se urde um desmonte progressivo da norma culta e, logicamente, com o entendimento do MEC. Tem-se um projeto absurdamente nocivo à elevação cultural de um povo. Quando se deveria buscar o aprimoramento do falar e do escrever, corrompe-se o conceito, destrói-se o passado que impulsiona o presente, rebaixa-se ainda mais a educação de um povo que estaria ávido pelo conhecimento que não lhe chega nunca, a fazer com que a “Pátria Educadora” seja até escárnio, quando deveria ser redenção.

Retirar a obrigatoriedade da literatura portuguesa dos currículos escolares antolha-se-me como uma confissão do descaso cultural, da visão ideologicamente organizada desde bancos universitários em áreas como história, filosofia e literatura. É basicamente consensual que parte expressiva dos egressos das universidades estatais, nesses segmentos apontados, busquem atuar nessa “preparação das mentes”, como bem dizia um saudoso colega da área do Direito. O projeto nas áreas da História e da Literatura apontam, num sentido claro, para a “incipiência” ou voluntária visão do nivelamento por baixo dos que a ele se atêm. Preferem ocultar o passado, única razão a explicar presente e futuro, em torno de um projeto que é propagado pelo último ex-presidente, em suas múltiplas verborragias, de que o Brasil “só″ existiria após a sua unção ao posto máximo deste país.

Numa mesma direção da esquerda obliterada pela ideologia não estaria a França socialista de François Hollande a buscar fórmula bem semelhante, ao tentar excluir dos currículos de História parte do passado que fundamenta o conhecimento,  introduzindo intensamente a cultura árabe? Estudá-la é fato, num país com milhões de muçulmanos, mas suprimir o passado!!!

No que tange à literatura portuguesa, após as 10 milhões de mensagens endereçadas ao site do MEC, segundo o DN, do Ministério sairia uma lacônica nota mencionada pelo jornal português: “No mesmo documento lê-se ainda que serão introduzidos tópicos de análise linguística em todas as etapas de escolarização – mas não há referência à reintrodução, ou não, da obrigatoriedade da literatura portuguesa”.

Mais do que um viés político e ideológico, característico dos movimentos de esquerda extremados, nos quais a Nova Ordem busca o abafamento ou a eliminação do passado, haveria um dado que me parece fundamental. O único verdadeiro líder do PT foi e continua a ser o último ex-presidente. Ungi-lo é o que faz diariamente a cúpula do Partido dos Trabalhadores a influenciar, à maneira nazista, o séquito da militância, apesar de tudo o que está a ocorrer com os desdobramentos do Lava-Jato desvelando a corrupção ilimitada. Isso é fato inconteste. Houve, há e, tudo indica, continuará a existir a permanente citação nominal ou entrelinhas por parte do  PT e do ex ao antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Também fato inconteste. A insistência ad nauseam do sr. Lula às suas próprias origens humildes, iletradas, geralmente seguidas à crítica aos que tiveram a oportunidade de estudar, “as elite”, vai ao encontro da camada que também não teve acesso aos estudos, nesses últimos governos petistas como no passado. Vídeo bem antigo revela fala do sr. Luís Inácio: “Sou muito preguiçoso, até pra ler eu sou preguiçoso. Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler” (sic). Sob outro olhar, a militância petista fidelíssima, que tem em seus quadros sindicalistas, os inúmeros integrantes dos movimentos MS…, assim como egressos das universidades e de outras camadas da sociedade, encontra nas palavras do “demiurgo” as “profecias” para incentivá-la. A repetição confere a sedimentação ideológica, e todo o conteúdo a ele agregado apenas substancia um caldo grosso de fácil de interpretação, pois messiânico, perigoso em suas intenções beligerantes – luta de classes -, tantas vezes apregoadas em mensagens que estabelecem “o” modelo “linguístico”, no caso. E qual é esse? O líder carismático inconteste, mas apedeuta contumaz, tem claudicado ainda mais em suas falas, a cometer incorreções gramaticais incontáveis, a empregar a “norma popular” – a que conhece -, aproximando-o, com intentos que pareceriam evidentes, daqueles que a utilizam. Não estaria a haver um voluntário desejo de desmonte da apregoada “Pátria Educadora”? Quantas não foram as vezes que o último ex não pronunciou palavras chulas ou de baixo calão em pronunciamentos? No domingo (6 de Março), em frente à Globo, a filha do apedeuta não fez gesto obsceno ao levantar um determinado dedo? A mesma atitude teve a neta do último ex. Transmissão através das gerações. Para alguém que esteve durante oito anos a presidir o país, palavras e gestos inadequados ferem a dignidade que deve ser mantida, mesmo após o findar do mandato público. Creio que o senhor em questão força ainda mais o equivocado recrudescimento do linguajar e, sua prole, do gesto. A  atitude do líder contamina os militantes mais acirrados que aparelham o governo. A desestruturação curricular nas áreas apontadas pelo DN é consequência dessa necessidade mimética. Daí a frase acima citada pelo jornal: “inadequada e passível de preconceito mas não errada a expressão, sem concordância, ‘nós pega o peixe’ ser interpretada pelo MEC”, hoje a ter como Ministro um ex-professor universitário (sic). Essa distorção não estaria como provocação ao letrado Fernando Henrique Cardoso, jamais esquecido pelo sr. Lula, apesar dos mais de 13 anos de seu partido no poder? FHC seria o patamar que jamais o último ex alcançaria. A insistência em mencioná-lo, sempre, é prova cabal.

Lembraria ainda, como adendo a este post, que na juventude meu saudoso pai nos fez ler, a estimular a leitura aos quatro filhos – Ives, José Paulo, JE e João Carlos – obras referenciais de Camões, Gil Vicente, Sá de Miranda, Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e tantos outros escritores e poetas portugueses para que aprendêssemos os fundamentos da extraordinária língua portuguesa, não desprezando contudo os grandes romancistas e poetas brasileiros. Sou-lhe tributário ad aeternum pelo encaminhamento literário que nos proporcionou. Aliás, como bem lembrava meu pai: “O Homem é ou não é”.

On the deliberate efforts of the Workers’ Party government to ruin the Brazilian cultural heritage in favor of ideologies that flourished from the mid-twentieth century in Latin America and Africa.

 

 

 

Comentários abrangentes a partir de uma epígrafe

A natureza e o canto dos pássaros,
são minhas paixões, meus refúgios.

Só os pássaros são grandes artistas,
os verdadeiros autores de minhas obras.

Olivier Messiaen (1908-1992)

O post publicado no último dia 20 suscitou manifestações competentes. Leitores entenderam os esforços da equipe da Revista Glosas em manter, já há alguns anos, padrão ascensional. Não é fácil o prolongamento de uma revista especializada, mormente quando a equipe evita publicidades que podem envolver comprometimento. A busca de uma pretendida excelência, almejo real, implica sacrifícios, empenho e despojamento. Ao dedicar posts à Revista Glosas, faço-o na certeza de que temos um exemplo que poderia bem ser seguido em nossas terras. Fui editor chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo (1990-2007) e sei das dificuldades na manutenção de um padrão de qualidade, apesar das pressões existentes voltadas às concessões acadêmicas, mais explicitamente ao denominado carreirismo, pois publicar é necessário e tantos são aqueles que buscam um item a mais no currículo movidos pela ascensão docente. Quando isso ocorre, padrões de excelência despencam.

As mensagens, majoritariamente curtas, louvaram a escolha das matérias de Glosas (nº 13), as justas homenagens a Gilberto Mendes, Madalena de Sá e Costa e aos quatro músicos da família Napoleão. Destes, Arthur viveria muitos anos no Brasil.

O compositor e pensador francês François Servenière uma vez mais faz-se presente através de rica mensagem, transmitida após a publicação do post sobre a Revista Glosas. Separei alguns segmentos, a partir de suas reflexões sobre a epígrafe de Fernando Corrêa de Oliveira inserida no post em questão: “A música é uma actividade do intelecto. Não foi inventada pelo Homem, foi criada com o Homem”. Imaginava que a curta sentença poderia gerar polêmica, mercê de conceituação forte, incondicional. Gerou.

“Raramente discordo de seus blogs, mas desta vez dissocio-me da epígrafe de Corrêa de Oliveira. A música não foi criada pelo homem e as duas frases do enunciado deixaram-me em dúvidas. Resultado de introspecções, tenho que a música esteja ligada ao DNA, este, produto das nuvens estelares. O tema tem sido pouco estudado pelas observações de telescópios os mais potentes. Minhas intuições estavam a me dizer que a música era produto do Universo e que a encontramos em todos os lugares onde há vida. Dizer que ‘a música foi criada com o Homem’ supõe também orgulho antropomórfico, pois os animais sabem usá-la de maneira engenhosa. Em nossa primavera, e durante todo o ano em seu país, os concertos dos vários animais nas florestas, parques e jardins deixam-nos sem voz, graças à prática do contraponto e da harmonia com a facilidade exemplar dos virtuoses. Quantas vezes, durante passeios campestres, não me sentei para ouvir essas maravilhas não escritas e com duração apropriada, respirações necessárias, discursos incompreensíveis para nós, mas que para eles, mais do que um jogo, revestem-se em verdadeira comunicação, alegria nessa observação do som repercutido e no divertimento, resultado do eco. Diria mais, uma faculdade de utilizar a técnica do revezamento orquestral que lhes é instintiva e que se torna natural ao humano nas discussões, nos cantos e nas partituras”. Observaria que são tantos os compositores que ficaram extasiados com o canto dos pássaros. Para citar apenas alguns: Clément Janequin (1485-1558), Le chant des oiseaux; Jean-Philippe Rameau (1683-1764), Le rappel des oiseaux; Robert Schumann (1810-1856), O pássaro profeta; Franz Liszt (1811-1886), São Francisco de Assis a falar aos pássaros; Igor Stravinsky (1882-1971), O pássaro de fogo; Maurice Ravel (1875-1937), L’oiseau triste; Olivier Messiaen (1908-1992), Catalogue des oiseaux. Tenho notado, ao longo das décadas, que sempre que inicio meus estudos pianísticos os canários começam a cantar. Invariavelmente. Simbiose? Osmose? Continua Servenière: “Bach não iria me contradizer quando eu sinto a base do Cantus Firmus e do Coral nesses cantos fascinantes dos pássaros. Não posso, pois, aceitar que ‘a música foi criada com o Homem’. Para mim ela precede o humano e muito antecipadamente. Sim, todas as formas documentadas e complexas de nossas bibliotecas e repertórios são fruto inequívoco do espírito do homem, sua realização. Não obstante, entendo arrogância o homem sentir-se o único inventor, sabendo-se que a complexidade da cosmologia nos precede e que nós não fazemos outra coisa que reproduzir, reconstruir e transmitir essas mensagens universais inclusas no DNA através da vida, pelas nossas observações matemáticas originárias do céu. Compreendamos que a inventiva não é o único produto de nosso espírito. Acredito firmemente que a humanidade terá surpresas no dia em que tiver a possibilidade de conhecer outras civilizações extraterrestres. Assim como a Terra não é o centro do universo, a humanidade, por consequência, não deve ser a única representante da inteligência. Trata-se de questão estatística  que deve ter uma solução certa: não somos os únicos no universo e nossa música não é, pois, ‘criação do homem’ C.Q.F.D. (aquilo que seria necessário demonstrar).

Sobre seu grande amigo Gilberto Mendes, homenageado na revista Glosas, diria que é a cruel aventura da vida que nos faz sentir a ausência dos que nos são caros. Quando Gilberto diz que Darmstadt era lugar planificado para conferências, ‘panelinha bem urdida’ entre os compositores, e que nada aprendeu nessas sessões, lembro-me bem do que diziam de Pierre Boulez em seu discurso, quando de sua admissão no Collège de France: ‘seis minutos de música, seis horas de discurso’. Para o material publicado sobre Gilberto Mendes, diria que conheço pouco suas obras, assim como criações brasileiras e portuguesas, exceções ao que encontro no YouTube e as que você interpreta ao piano. Do que eu conheço, posso afirmar que se trata de um compositor sedutor, mestre de um estilo aberto, feliz, aéreo, esclarecido, que se diverte com a música, a transparecer alegria de viver. Qual a razão de, sendo francês, sentir-me tão próximo de suas mensagens traduzidas através das composições? Tenho certeza de que pelo fato de termos o mesmo prisma. A música é uma linguagem complexa, mas como transmitir prazer a quem ouve se nós não tivermos a chama ao praticá-la, compondo. Para nós dois, compositores, e para você, evidentemente, ‘não há teoria: basta escutar. O prazer é a regra’. É o que penso”. (Tradução: JEM).

O pensamento do compositor François Servenière não foi exposto por outro motivo a não ser, primordialmente, sua inclinação clara e inequívoca voltada às manifestações da natureza e à contemplação do universo. Fino observador, passou para o papel pautado obras que traduzem essa admiração: Vertige des saisons, Promenade sur la voie Lactée, Tribulations d’un écureuil Lambda, Études Cosmiques entre outras.

Não fossem as frases do professor Fernando Corrêa de Oliveira inseridas no artigo de Glosas (13º), de autoria de Carla Nogueira e Helena Santana, não teríamos as reflexões instigantes de François Servenière. Basta uma frase para a mente viajar.

The post addressing issue nº 13 of the classical music magazine “Glosas” received much feedback, all praising the quality of the articles published. I transcribe here excerpts from the message with comments by the French composer François Servenière, in particular his thought-provoking analysis of the post’s epigraph, a quotation from Fernando Corrêa de Oliveira: “Music is an intellectual activity. It was not invented by man, it was created with man”.

 

 

 

Outras reflexões sobre o tema

O piano ou é fácil ou impossível.
Arthur Rubinstein (1887-1982)
(frase atribuída ao notável pianista)

Conversava com um amigo, músico amador, a respeito de vários temas ligados à área musical. Veio uma pergunta bem pertinente referente à interpretação e às tantas leituras diferenciadas frente à execução. Durante um curto que tomamos em nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, tentei explicar ao João Paulo algumas considerações de músicos renomados e minha posição pessoal sobre relevantes questões.

Hoje temos o YouTube a divulgar ad infinitum intérpretes de todos os níveis. Nome do compositor e título da obra servem para abertura de extenso leque que expõe um sem número de executantes para as composições consagradas, mas também vasto repertório basicamente desconhecido do grande público, tendo, logicamente, raras performances.

João Paulo quis saber a razão de a mesma obra, por vezes, ter interpretações antagônicas, mesmo se considerarmos grandes músicos a tocar. Sob outra roupagem já tratei desse tema, que se está a acentuar hodiernamente. Questão intrincada. As transformações tecnológicas que se deram a partir, sobremaneira, da segunda metade do século XX  influenciaram mais aceleradamente posturas diferenciadas frente à interpretação. Glenn Gould (1932-1982) foi um pianista que rompeu tradições expressamente, razão a acrescer à grande popularidade que o pianista canadense granjeou. Teve e ainda tem admiradores pelo mundo, mas deixou um legado rigorosamente individual. O extraordinário pianista evidencia acurada consciência em todas as suas interpretações, endossadas  em tantos depoimentos colhidos por Otto Friedrich (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, 2000). Estimulam opiniões polêmicas tributadas à sua postura frente à obra. Imitações sempre carregam viés caricato, e seu exemplo tenderia a ser único. Sob outra égide, poder-se-ia aventar até que, com o passar das décadas, a discografia de Glenn Gould possa estiolar-se, permanecendo sua herança musical como fato característico de uma época. Talvez. Numa outra leitura, não estaria a interpretação hodierna a romper as amarras da tradição, o que valeria a dizer que Glenn Gould tenda a se fixar no panteão glorioso dos pioneiros? Suposições. Os caminhos por que trilha a Cultura como um todo são imprevisíveis e a mídia sempre esteve atenta às figuras que se destacam muito acima de seus pares, mas também é iconoclasta tão logo revelações denigram esses eleitos.

Vieram a propósito, durante nosso curto, considerações de dois grandes músicos a respeito da interpretação e seus elementos integrantes, como flexibilização de andamentos, dinâmica, percepção auditiva, gestual,  “atualização” da leitura da partitura. Neste último caso, mais e mais está a ser aceita certa arbitrariedade que causa impacto. Dir-se-ia estar havendo um determinado “temor” por parte de intérpretes na manutenção da traditio. Há público caloroso, irreverente até, e concorde com a postura que faz entender a Música de Concerto, Clássica ou Erudita como parte integrante da grande transformação por que passa a Arte no planeta. Mario Vargas Llosa não deixa de denunciar sistematicamente essa ação, que provoca resultados díspares na civilização. Artistas consagrados fazem permanentemente concessão quanto ao repertório não de concerto, gravam obras de cunho popular com roupagem “erudita” e prosseguem carreiras triunfantes.

A uma pergunta de João Paulo sobre andamentos das músicas consagradas, comentei que não é difícil constatar que mais e mais intérpretes, pianistas hodiernos como tipicidade, têm dado mostras de que os tempi das obras executadas, quando rápidas, tendem à aceleração ainda maior. Por várias vezes em meus posts referi-me ao exemplo dos esportes, que encontram no cronômetro a aferição que leva às premiações. Recordes são batidos para gáudio de atletas, patrocinadores e multidões. Impossível não perceber veracidade nessa comparação. Os tantos concursos de piano espalhados pelo mundo dão mostras dessa assertiva. Habilíssimos executantes  extasiam  público e jurados através da impecabilidade da interpretação e performances, por vezes acrobáticas e alucinantes no que tange à virtuosidade. Lógico que há que se considerar tantos outros fatores, como a musicalidade, a compreensão estilística, o respeito à forma. Todavia, o jamaicano Usain Bolt e sua incrível marca de 9,58 segundos para os 100 metros rasos (Berlim 2009) é exemplo em tantas atividades. Impossível não considerar que a intensa concentração mediática em torno de recordes não produza efeitos nas mais diversas áreas. Estou a me lembrar de que anos atrás assisti a um concerto no qual os músicos finalizavam com uma obra rápida. Calorosamente aplaudidos, os intérpretes regressaram para a tradicional música extraprograma e um deles, ao se dirigir ao público, disse que tocariam essa última peça de concerto, muito conhecida, aliás, em tempo ainda mais rápido. A performance foi razoável, mas o numeroso público ao final se levantou e aos berros saudou os “virtuoses”. Outros tempos. Saí cabisbaixo. Nada a fazer. A música apenas a serviço do aplauso fácil!!!

O cronômetro a fixar Usain Bolt é exato, irreversível, mas a interpretação musical velocista pode prejudicar a transparência. Há magia e simulação que anuviam nossa percepção. Daniel Barenboim é preciso ao afirmar que o excesso de “velocidade” está contra a possibilidade da percepção auditiva. A consideração do pianista-regente-pensador tem fundamento. Basta o ouvinte comparar as interpretações da Valsa Mefisto, de Franz Liszt, nas execuções da georgiana Khatia Buniatishvili e do russo Daniil Trifonov para tirar suas deduções. Indico os links (fonte YouTube):

Clique para ouvir as duas interpretações:

Buniatishvili

Trifonov

Na de Trifonov tudo está lá extraordinariamente exposto e a compreensão da partitura é plena. Virtuosidade a serviço essencialmente da música. Na interpretação de Buniatishvili, a virtuosidade extrapola, e os dons incríveis da velocista estariam a serviço de seu impulso a visar ao impacto. Quem sofre? A diabólica criação de Liszt certamente, pois nem tudo é rigorosamente transparente e, nesse élan, passagens técnicas ficam comprometidas pela não certeza auditiva de que tudo da partitura lá esteja exatamente transcrito na execução da pianista. Vê-se que haveria, por parte de Buniatishvili, a necessidade de bater recordes. O que é mais preocupante é a recepção calorosa que a pianista recebe do “grande público”. Nunca é demais mencionar a célebre frase francesa épater les bourgeois. Falecido recentemente, Humberto Eco não considerava idiota a legião de seguidores das redes sociais pela internet? Paralelismos? Há que se pensar.

E os compositores barrocos ao piano, questionou-me João Paulo? A nossa extraordinária pianista Antonieta Rudge (1885-1974), em opinião recolhida pelo ilustre compositor Gilberto Mendes (1922-2016), faria menção às escolhas interpretativas no repertório barroco para teclado: “Lembro-me de minha professora de piano, a grande Antonieta Rudge – tive este privilégio – me dizendo que podemos tocar Bach em qualquer andamento, qualquer instrumento, de qualquer jeito, porque a música está na partitura, na sua escrita, no pensamento musical. Sua Arte da Fuga nem especifica a instrumentação. São as notas escritas no papel que devem soar na nossa mente” (“Viver sua Música”, 2014). No que se refere ao andamento, desde que se escolha um determinado, certamente.  Seria o insigne François Lesure (1923-2001) que nos ensinaria com sábias palavras: “não é o instrumento que assegura aprioristicamente a autenticidade da obra, mas o estilo do intérprete”.

Desde minha gravação da integral para tecla de Jean-Philippe Rameau executada ao piano, reitero em textos que a única tradição válida de toda a extensa criação para cravo entre os séculos XVII-XVIII vem da transmissão oral mestre-aluno, a ter como instrumentos pianoforte, inicialmente, e piano a seguir. Prolongou-se do final do século XVIII afora, pois o instrumento cravo ficou no ostracismo. Nenhum compositor que permaneceu na história escreveu para cravo durante o século do silêncio para o cravo. Essa tradição da escuta tem certamente ingredientes que podem, por vezes, alterar os tempi, mas não a essência de conquistas inalienáveis obtidas pela interpretação das obras escritas para teclado nos século XVII e XVIII executadas ao piano, como agógica, acentuações, legato e dinâmica, esta última soberana na interpretação, pois possibilitou a oitiva elástica. A afirmação de Antonieta Rudge, mencionada acima, vem ao encontro dessa liberdade que se pode dar à interpretação, desde que elementos básicos da tradição não sejam aviltados. Em situação também próxima, Daniel Barenboim escreveria: “É necessário ser muito rigoroso com aqueles tendentes ao excesso de liberdade, mas de mostrar-se bem livre com aqueles que não têm a imaginação para sê-lo” (“La musique est un tout”, 2014).

Durante mais de meia hora ficamos a conversar. João Paulo finalizaria suas compras no supermercado e eu, as minhas, já a pensar num tema para o blog.

A chat with a friend was the starting point of this post, a reflection upon some aspects of musical interpretation, in particular that of the same pieces played by different performers and how unlike they may sound. In my view, the performer is free to breathe new life into a work since the basic elements of tradition and the composer’s intentions are not betrayed.