Glosas nº 13 homenageia Gilberto Mendes

A música é uma actividade do intelecto.
Não foi inventada pelo Homem,
foi criada com o Homem.
Fernando Corrêa de Oliveira

Não poucas vezes dediquei posts à Revista Glosas, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), que, ao pormenorizar-se sobre a criação em Portugal através dos séculos, reserva sempre espaços à produção da música brasileira desde o período colonial. Infelizmente não há minimamente recíproca por parte das raríssimas publicações brasileiras, o que é motivo de louvação especial aos esforços de Glosas.

O núcleo temático de Glosas (nº 11) foi reservado ao nosso grande compositor romântico Henrique Oswald. Artigos e ilustrações enriqueceram a publicação. Em 2014, Edward Luiz Ayres de Andrade, dinâmico presidente do mpmp, disse-me que pretendiam homenagear o mais importante compositor vivo brasileiro, Gilberto Mendes. Estivemos em Santos para longa entrevista do músico ao Edward Luiz e simpático almoço no tradicional restaurante Almeida, um dos preferidos do compositor. A entrevista e outros artigos sobre Gilberto Mendes foram publicados no número que saiu em Novembro último. Infelizmente, a bela edição não chegou a ser apreciada pelo compositor, que nos deixou no primeiro dia deste ano, aos 93 anos de idade.

A entrevista concedida a Glosas revela muitas das facetas marcantes de Gilberto Mendes. Edward Luiz soube extrair conteúdos essenciais da personalidade tão encantadora do grande compositor e humanista. Têm interesse algumas respostas pontuais, que, tratadas sob outra égide em seus livros, dão a entender as amarras libertas de determinadas tendências vanguardistas. A uma pergunta de Edward Luiz “E o que significou Darmstadt em sua carreira?” (as ideias da neue musik, professadas no Festival de música da cidade alemã, influenciaram tendências da vanguarda no Brasil, mormente nos anos 1960), responde Gilberto: “Na verdade nada, porque tudo aquilo eu já sabia. Fomos atrás do que os jornais diziam, de Boulez, de Stockhausen, Berio, Nono, Ligeti… Mas, na verdade, em Darmstadt não havia aulas, eram apenas conferências. E era muito num jogo assim: Ligeti fala sobre Boulez, Boulez fala sobre Berio… – uma panelinha muito bem urdida”. A uma outra pergunta de Edward Luiz sobre transformações de sua linguagem musical, Mendes historia seus caminhos criativos, que foram vários. Em questão sobre a Bossa Nova, Gilberto observa que não há nada de novo na harmonia da Bossa Nova, pois ela “é Debussy”, mas considera “gostosinha a batidinha rítmica” daquilo que denomina “coisa essencialmente carioca, de praia, e eu também sou de praia”.

Em Glosas 13, artigos são dedicados ao notável compositor nascido em Santos: José Lopes e Silva, “No som das vibrações ultra-sónicas…”; Antônio Eduardo Santos, “Veios de uma transmodernidade” e “Um outro gesto sonoro – o teatro musical na obra de Gilberto Mendes”; Luís Salgueiro, “Gilberto Mendes – Alegres Trópicos” e, a fazer parte de minha coluna permanente em Glosas, “Ecos d’Além Mar”, “A mente aberta de Gilberto Mendes”, em que enumero todas as obras que apresentei durante trinta anos de um relacionamento intenso com o compositor.

Ascent, título de matéria substanciosa, destaca o músico polivalente português Bernardo Sasseti (1970-2012), talentoso em todas as áreas em que atuou. Glosas bem fez reservando-lhe espaço, inicialmente a reproduzir texto de Sasseti, que implica considerações sobre seus almejos. “Posso também referir que o cinema, a fotografia e a pintura, assim como a actividade de composição original para piano – a qual me dedico com assiduidade – se manifestam, directa ou indirectamente, tanto em Ascent como nas gravações que a antecedem, desde 2002 com o CD Nocturno”. Biografia bem documentada, mas não assinada, revela-nos um compositor que também se interessou pelo teatro e apresenta extensa discografia de Bernardo Sasseti. O artigo de Maria João Neves, “O sonho dos outros – A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sasseti”, tem interesse pela inserção do pensamento da escritora e filósofa espanhola (1904-1991) e a habilidade com que a autora do texto trabalha com essa aspiração de Sasseti, para quem a música “faz-me sempre sonhar”.

Comovente tributo é prestado à ilustre violoncelista portuguesa Madalena Moreira de Sá e Costa (1915-  ), a comemorar seu centenário. Um texto da homenageada discorre sobre o célebre Fado Burnay, de Eduardo Burnay, precedido por revelações artísticas da violoncelista. Madalena, irmã da ilustre pianista e professora Helena de Sá e Costa (1913-2006) e filha do renomado compositor Luís Costa (1879-1960), teve oportunidade de responder às competentes perguntas de Nuno M. Cardoso e José Carlos Araújo sobre sua longa atividade musical. Entrevista referencial. Substanciosos depoimentos de músicos, ex-alunos e amigos enriquecem ainda mais esse outro núcleo temático de Glosas, privilegiando a violoncelista portuense. Os textos têm as assinaturas de Vasco Barbosa, Isabel Delerue, Paulo Gaia Lima, Gisela Neves, Luiza Gama Santos, Jed Barahal, Jorge Rodrigues, Manuela Gouveia, Maria José Figueiredo, Elvira Archer, Piñeiro Nagy, Bruno Borralhinho, Bruno Caseirão, Ana Filomena Silva, Valter Mateus, Sofia Novo, Fernando Costa, Alberto Campos, Guilherme Cancujo.

Como adendo extra Glosas, Madalena de Sá e Costa e eu demos recital no Porto (Delegacia Regional do Norte, 7 de Janeiro de 1986), apresentando obras de Oswald, Beethoven, Debussy e Filipe Pires. Grande senhora e com memória privilegiada, pois compareceu a um recital que realizei em Braga (2011), conduzida por seu filho, a lembrar-se perfeitamente de nosso evento, que foi prestigiado pela presença de sua irmã, Helena de Sá e Costa.

O espaço a que me proponho impede-me de abordar pormenorizadamente todos os ricos temas assinados por especialistas. Nomeá-los, contudo, faz-se necessário: Luís Salgueiro entrevista o compositor Nuno da Rocha, pleno de ideias inovadoras; as “Irmandades e Ritual em Minas Gerais durante o Período Colonial” são estudadas por Maria Alice Volpi; “Lembrança(s) Suggia: Notas sobre um Espólio” remete-nos à grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, mercê do arguto olhar de Luís Cabral; “Em torno do Festival de la Canción Gallega”, José Luís do Pico Orjais elabora um breve apanhado da participação portuguesa nesse importante Festival, mormente a de obras de Frederico de Freitas; “Evocação de Santo Pinto no Bicentenário de seu nascimento”, na qual Maria José Borges evidencia atributos de compositor do século XIX de música dramática e orquestral, que mereceria maior atenção; “Os Cantos Sefardins para voz e piano de Fernando Lopes-Graça” é um texto abreviado de longo estudo analítico a ser publicado por José Maria Pedrosa Cardoso. Foi o ilustre professor vimaranense que nos sugeriu os 12 Cantos Sefardins, apresentados em primeira audição mundial em São Paulo (Unibes, 15/10/2015), tendo Rita Morão Tavares (mezzo-soprano portuguesa) e eu como intérpretes.

O substancioso artigo de J.A. Gonçalves Guimarães, “Os quatro músicos Napoleão”, tem muito interesse. O estudioso apresenta sucintamente a saga dos Napoleões, do pai Alexandre, nascido em Bergamo, na Itália (1808-1886), e dos filhos portugueses Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917). O segundo e o terceiro se notabilizariam como intérpretes e compositores, sendo que Gonçalves Guimarães se pormenoriza em Artur, menino prodígio, verdadeiro globetrotter em sua época, pois a viajar pela Europa e Américas, apresentando-se diante da nobreza e de músicos afamados que lhe rendem altos elogios. Estabelecer-se-ia no Rio de Janeiro, onde continuaria sua atividade de pianista, professor e proprietário de editora de música, obtendo grande repercussão nas várias atividades. Deve-se à editora a publicação de inúmeras obras do repertório pátrio, de Portugal e de alhures e de suas próprias composições, que mereceriam ser frequentadas pelos intérpretes. Gonçalves Guimarães, ao tratar dos irmãos, fá-lo de maneira a estabelecer um elo que sempre existiu entre eles, apesar de apenas Artur ter ficado sob a guarda do pai, que o acompanhou pelo mundo até a maioridade. Na discografia dos Napoleões menciona, entre outras gravações, peças para piano de Artur gravadas por Sylvia Maltese e Clélia Ognibene (duo), Waldelly Mendonça e Philip Martin para selos diversos. De Alfredo, cita o Concerto para piano e orquestra nº 2, pela Orquestra Nacional da BBC de Gales, conduzida por Martyn Brubbins, tendo Artur Pizarro ao piano ((Hyperion).

Rubricas de interesse e assinadas por Luzia Rocha, Pedro Cravinho, Tiago Hora, Sílvia Sequeira e pela equipe do Museu Nacional da Música completam Glosas 13.

Reitero o esforço do mpmp que faz publicar a Revista Glosas, a valorizar a música portuguesa e dando substancial espaço para a música brasileira. Ratifico que não há recíproca concernente a essa literatura específica no Brasil. Inúmeras vezes já escrevi que nosso país insiste em ignorar a música portuguesa. Intérpretes minimamente conhecem ou sequer ouviram criações de compositores portugueses e nossas publicações acadêmicas, seguindo caminho similar, passam ao largo. Estou a me lembrar de que, durante muitos anos (1990-2007), fui o redator chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo. Reservei, desde o primeiro número, cerca de 30% dos espaços para artigos de ilustres compositores, intérpretes e musicólogos em contribuições originais. Despertava e instigava a comparação. Foram mais de trinta artigos!!! Creiam os leitores, havia aqueles que me questionavam, pois gostariam de vê-la a proporcionar colaborações em “quantidade maior”, friso, de docentes e pesquisadores das muitas universidades brasileiras (sic). Nomes internacionais da maior respeitabilidade estão inseridos nos muitos números publicados até minha aposentadoria. No que concerne a Portugal, Elisa Lessa, Humberto d’Ávila, Jorge Peixinho, José Manuel Bettencourt da Câmara, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Ruy Vieira Nery e Sérgio Azevedo fazem-se presentes ao longo dos anos.

O ato efetivo de Glosas ao estender a mão, dando espaços sensíveis à música brasileira, não deveria ser incentivo para que façamos o mesmo, mormente se considerarmos a riqueza da composição portuguesa? No mínimo, Glosas, nessa abertura generosa, mostra o caminho a ser novamente seguido. Doravante haveria terra fértil?

This post is about issue nº 13 of Glosas, the voice of classical music that is the only one to cover all the countries that share the Portuguese language. This issue is very special, since a large segment is dedicated to the Brazilian composer Gilberto Mendes, who recently passed away. I also comment briefly on the remaining wide variety of topics addressed by the music magazine, in special the tribute paid to the great cellist Madalena Moreira de Sá e Costa celebrating the centennial of her birth.

 

 

A crítica política em versos do jurista Ives Gandra

Esclareço que os termos mais duros,
nos versos relacionados ao poder,
são destinados aos cidadãos já condenados.
Quanto à incompetência governamental,
apenas reitero o que escrevi
em artigos jornalísticos ou pareceres jurídicos.
Ives Gandra da Silva Martins
(Extraída da Breve Introdução à obra)

Petulância e incompetência
Há no governo de sobra,
Seu veneno, na indecência,
Lembra peçonhenta cobra.
(quarteto de 28/02/2015)

Autor de dezenas de livros a abordar áreas do Direito, o notável jurista Ives Gandra tem na poesia, desde a juventude, uma de suas paixões. Traduz-se essa verve poética num também sem número de livros em que privilegia temas essenciais do condicionamento humano, a família, o amor, o cotidiano. Não por outro motivo ocupa cadeira na Academia Paulista de Letras, um de seus orgulhos, a somar-se a tantas outras Academias que honra com seu prestígio.

Como irmão, Ives não deixa, a cada publicação, de me enviar o novel livro com simpática dedicatória ao casal. Foi com prazer que li seu novo diário, que, junto àquele neste espaço resenhado, forma um conjunto invejável (vide blog “Meu Diário em Sonetos”, São Paulo: Pax & Spes, 4 vol., 2010, 21/05/2011). O presente “Meu Diário em Sextetos”, também apresentado com o nome completo do autor, Ives Gandra da Silva Martins, tem características, diria, mais abrangentes (São Paulo: Pax & Spes, 2016). Razões poderiam explicar essa assertiva.

O jurista poeta, aos 81 anos de idade, adentra mais profundamente o benfazejo espírito de síntese, e a forma sexteto, multum in minimo, é resultado de longa decantação. Diria que arabescos são dispensados e Ives penetra na senda estreita da essência essencial. Debruça-se, a interpretar seu entorno – fundamento da existência -, sem deixar, porém, a visão mais hermenêutica – mas em termos acessíveis – dos amplos temas que afligem hoje a imensa maioria dos brasileiros. Nessa altura da vida, livre das amarras que fatalmente levam o profissional a manter convivência “politicamente correta” com adversários tantas vezes ferrenhos durante a fase mais intensa da carreira, Ives sobrevoa e vê a floresta da vida sem concessões. Não que tenha cessado a brilhante carreira como advogado, mas o tempo da dissecação de cada árvore dessa floresta passou e, vê-la do alto, após tantas conquistas, deu-lhe a sabedoria serena.

“Meu Diário em Sextetos” apresenta um sexteto para cada dia do ano e, ao fim de cada mês, duas ou três quadras. Divide-se o livro em três compartimentos preferenciais: a família-religião, o declínio físico e a crítica política. O primeiro, fulcro de uma paz advinda de seu catolicismo convicto e da família como estrutura fundamental ao equilíbrio pleno, tem em sua esposa, Ruth, o epicentro, pois tantos são os sextetos a ela dedicados que se torna nítida a união indelével. O declínio físico, que não altera minimamente o pensar em ebulição e a defesa de princípios que apoia com fervor, está presente em muitos breves poemas. Artrite, artrose, doença autoimune, nada impede que, apesar do sofrimento expresso em versos, o corajoso Ives percorra, ainda hoje, o país inteiro a pregar aquilo que entende justo, correto, honesto e voltado à democracia almejada e ao cidadão comum, sem dele selecionar ideologia. O terceiro compartimento representa a síntese absoluta das centenas e centenas de artigos ou pareceres jurídicos expostos ao longo da vida, com uma ressalva. Se tantas vezes Ives teve de se conter – assim acredito, após leitura de infindável número de artigos publicados na grande mídia através das décadas -, pela tipificação profissional e também pelo coleguismo “diplomático”, não mais o faz nos sextetos. São estes transparentes, cristalinos como a água mais pura. Aponta a corrupção, estilhaça para o leitor a incompetência deste governo que desde 2003 aí permanece. Não poupa Lula, tampouco a criatura Dilma. Uma força moral o conduz ao desvelamento pleno e com que autoridade, diria, vocação libertária!!! Seus sextetos crítico-políticos são o filtramento de tantos de seus pareceres e artigos.

Selecionei muitos deles entre os que se atêm à especificidade crítico-política e à endêmica corrupção que teve acelerada evolução após 2003. Não obedeci à cronologia, pois dia após dia os sextetos foram sendo escritos, muitos pontuais após as desastrosas medidas governamentais de 2015, ano preciso que reúne a criação poética do livro.

Sobre Dilma e Lula, não cessa de apontar a incompetência, a ignorância e até… a loucura.

Disse Dilma que vai bem
Seu governo e que também
Não mudou a sua trilha,
Ou é mentirosa ou cega,
Esta louca que navega
A “Versailles” de Brasília.

O Brasil se desfigura,
Vive só de sinecura
E da esquerda truculenta,
Quanto mais ele vai mal,
Do mundo não tendo aval,
Mais se esconde a “Presidenta”.

Foram seis meses corridos,
Os ânimos revestidos
De repulsa ao mau comando,
Com seu ar tão prepotente
E seu jeito incompetente
Dilma afunda com seu bando.

Dilma vive prepotência
Com enorme incompetência
Em governar o Brasil,
Nunca tanto se roubou,
Mas sempre faz o seu show,
Num de pólvora barril.

Todos querem Dilma fora
E a presidente não cora
Em ver o gesto do povo,
Seu fracasso é retumbante
Mas ela bem segue avante
E quer fracassar de novo.

Mais uma fala na classe,
Falando no negro impasse
Que Dilma pôs o Brasil,
Nunca vi roubarem tanto
Que a todos nós causa espanto,
Descarados, sem ardil.

Se não ladra, foi omissa,
Eis a única premissa
Neste assalto a Petrobras,
Que a Polícia Federal
Descubra a origem do mal
Pra nação estar em paz.

Dilma cai como um foguete,
Foi o Brasil seu joguete
Para afundá-lo de vez.
O povo desesperado
Não sabe para que lado
Caminhar a cada mês.

Dilma não sabe o que diz
Para a nação infeliz
Que seu governo gerou,
Desce por ladeira abaixo,
E seu governo eu bem acho
De ingovernança dá show.

Esta fala com mentira,
que do sério a mim não tira,
desta horrível presidente,
preciso ter muita fé
para que mantenha em pé
a vontade de ir à frente.

Bem afunda meu Brasil
E o povo está num barril
De pólvora a explodir.
É Dilma a mãe da inflação
E seu governo ladrão
Devia daqui partir.

Dom Pedro no dia sete,
Num gesto que se repete,
Proclamou a independência.
Há muito que este país
Passou a ser infeliz
Com Dilma na presidência.

Quanto mais a presidente
Mostra ser incompetente,
Mais luta pelo poder,
Desgraça a nação inteira,
Que segue na sua esteira,
Sem mesmo sobreviver.

Nosso país tem futuro,
Será, sem Dilma, seguro,
Pois haverá governança,
Enquanto a turba do assalto
Viver do roubo bem alto
Não há qualquer esperança.

Dilma e Lula que tristeza,
Afundaram com certeza
O meu Brasil tão querido,
Seus amigos saqueadores
São da pátria traidores
Tirando-lhes sonho e vida.

É Lula um agitador,
Tisna a sua presidência,
Parece mais “batedor”
Do que ter sido “excelência”.

Lula perde as estribeiras
Sente ser lançado às beiras
Por verdades reveladas,
Sendo quase analfabeto
Fez das palestras projeto
Com que recebe boladas.

Quanta verdade escondida
Quanta mentira vertida
Neste mundo tresloucado,
Quando se fala em PT
Tudo que sempre se vê
É o patrimônio roubado.

Este assalto permanente
De um partido indiferente
Ao que é público e privado,
Tornando seu o dinheiro,
Ganho pelo brasileiro,
Tem que ser bem apenado.

Ives Gandra insiste no termo canalha. São vários os sextetos que expõem essa categoria instalada em Brasília:

A canalha de Brasília
Que o fruto do roubo empilha,
Assaltou de todo lado
Nunca tanta podridão
Do Governo em seu porão
Foi ao povo desventrado.

O poder sempre me enerva,
É sempre a mesma caterva
Que o mantém com suas tralhas,
Os poucos de bons princípios
Desabam nos precipícios
Derrotados por canalhas.

Quanto mais vejo a canalha,
Que o Brasil tanto atrapalha,
Empoleirada em Brasília,
Eu continuo a gritar,
Com outros, para levar
O país a boa trilha.

As vezes tenho vontade.
Pois parece-me verdade
Dizer o que o povo espalha,
O poder vive do achaque,
Que ganha maior destaque,
Quanto mais se faz canalha.

O saque da canalhada,
Que jamais teve parada
Liquidou o meu Brasil,
Muitos estão na cadeia,
Outros tecem sua teia
Na busca de um bom ardil.

Em Curitiba falei,
Aborrecido com lei
Escrita pelo Supremo.
São bandidos, são canalhas
Os governantes que as tralhas
Põem no povo em peso extremo.

Sobre o Fisco e o STF:

Um difícil parecer
Eu principio a escrever
Sobre o Fisco sem moral.
Tais horríveis publicanos
Ao mundo só causam danos,
Pois dedicados ao mal.

“Longa manus”, o Supremo
Transforma seu ato extremo
Esteira do Executivo,
Se o Governo faz apelo
Nunca decide, em seu zelo,
De ser um mero adesivo.

Não poucas vezes o jurista poeta está a apontar a podridão governamental instaurada, a mentira deslavada, o inchaço da máquina pública e a corrupção à solta, endêmica, mas que teve aceleração progressiva a partir de 2003:

Todo o excesso tributário
Tem sempre um destinatário
Sustentar corrupção
E quem quer se aboletar
Sem precisar trabalhar
Nos cabides da nação.

A podridão cada dia
Tira do povo a alegria
Quanto mais é revelada.
O retrato faz-se mórbido
Pois este governo sórdido
Finge não saber de nada.

Da algibeira sempre tira
O governo uma mentira
Para o seu povo enganar.
Do roubo nada sabia,
Apesar de cada dia,
O roubo solto deixar.

Cada dia um novo saque
Merece em jornais destaque
Deste Governo malandro,
O mar de lama é tamanho,
Que não me parece estranho,
Nele descer de escafandro.

Quando vejo meu país,
Triste, abatido e infeliz
E os governantes felizes
Dá vontade de gritar
E toda a lama esfregar
Na ponta de seus narizes.

São a mentira e a promessa
Para a qual jamais há pressa,
As armas dos governantes.
Nada fazendo de novo,
Sempre sufocam o povo
Muito mais que meliantes.

Todos amigos do rei
São mais de cem mil, eu sei,
Convidados sem concurso.
Obama tem quatro mil.
É que no pobre Brasil
O roubo está sempre em curso.

Ter poder pelo poder
Mesmo sem o merecer,
É próprio do governante.
Mandar tem suas delícias,
No peculato as premissas,
O que o torna delirante.

Quanto mais podre o poder
Mais busca se defender,
Negando o mal praticado.
Ataca os acusadores
Os tornando “mal feitores”,
Pelo crime demonstrado.

Faz-se o governo malandro
E nem mesmo de escafandro
Se desce ao mar de sujeira,
Precisamos nos livrar
Desta podridão sem par
Cortando-lhe pela beira.

República e monarquia
Se comparo dia a dia,
A República falhou.
O Brasil em sobressalto
Tem a moral no asfalto,
Onde a lama é que dá show.

E em nostálgica esperança:

Apesar da incompetência
De um governo cuja essência
Foi o roubo sem limites,
Eu creio no meu Brasil
Que sob um céu cor de anil
Ao futuro faz convites.

Para o leitor de meu blog, diria que essa coleção de sextetos, a acentuar o desalento do jurista Ives Gandra, tem, como belo contraponto, a família. Evidencia nesse segmento o caráter impoluto do Homem, a dimensionar ainda mais, todas as críticas aos desvarios dos últimos desastrados governos.

My eldest brother, the prominent Brazilian jurist Ives Gandra, is also a poet with a significant number of poetry books published. The last one, Meu Diário em Sextetos (My Diary in Sestets), comprises 365 poems in sestet form, one for each day of 2015. It may be divided into three sections: family/religion, physical decline and the Brazilian political crisis. In the last one, he touches the weak spots and, without constraints, denounces the corruption, incompetence, ignorance and cynicism of the current government. I selected for this week’s post some of such verses that fulminate against political chicanery.

 

 

 

 

t.

Exemplos Dignificantes

O essencial na vida não é convencer ninguém,
nem talvez isso seja possível;
o que é preciso é que eles sejam nossos amigos;
para tal, seremos nós amigos deles;
que forças hão-de trabalhar o mundo,
se pusermos de lado a amizade?
Agostinho da Silva
(Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

Farta literatura, que remonta à Grécia antiga, aos textos bíblicos e a tantos outros ligados à morte, jamais deixou de causar perplexidade. A inexorabilidade do fim receberia interpretações as mais diversas nos vários campos do conhecimento: literatura, poesia, música, artes, religião e ciências. Mors certa, hora incerta é fato inconteste e a grande salvaguarda do homem para que continue a viver “descontraído”. Soubéssemos precisamente o instante do acontecido nossas existências seriam rigorosamente diferentes.

Três amigos queridos partiram. No dia 1º de Janeiro, Gilberto Mendes (1922), que nos deixou serenamente nos braços de sua dedicada esposa Eliane. Escrevi post a respeito do compositor (vide “Gilberto Mendes – In Memoriam” – 09/01/16), um dos maiores músicos brasileiros de música clássica ou de concerto em toda sua história. Brevemente escreverei outro post sobre Gilberto Mendes, pois a revista Glosas, de Portugal, dedicou o núcleo temático de seu último número  a essa personalidade singular e amigo extremo.

Do pranteado amigo Roberto Penteado (1934) necessitaria indicar alguns de seus múltiplos talentos. Engenheiro químico, trabalhou durante mais de 33 anos nas célebres Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo que, por muitas décadas, foi uma das mais importantes do país, um verdadeiro império. Roberto exerceria a função de diretor de várias unidades, como sabonetes, pastifício, celulose, biscoitos… Estou a me lembrar de que, já no final dos anos 1960, Roberto desenvolvera biscoito integral à base de fibras, enaltecendo vivamente suas propriedades, hoje consagradas. Pioneiro. Percorreu pela empresa e técnicos da Embrapa quase todo o Brasil. Dirigiria ainda em Curaçao uma fábrica de café solúvel. Em sociedade com firma japonesa, desenvolveu projeto de pesca em alto mar. Um dos homens mais criativos que conheci, muito adiante de seu tempo!

Amante da natureza, com ele conversávamos sobre uma de nossas paixões, o canto dos pássaros brasileiros, pois também tinha um enorme repertório guardado em sua mente. Contudo, foi mais longe, pois conhecia a fauna aquática pátria e identificava com presteza nossas árvores, nomeando-as e evidenciando suas propriedades. Fotógrafo amador, revelava as fotos sempre em branco e preto no mini laboratório improvisado em sua casa. Adorava cutelaria, tendo uma coleção de facas de todo o planeta e com arte fazia cabos para algumas. Amava jazz e, por seu intermédio, passei a apreciar a criatividade de Oscar Peterson, Thelonius Monk, Art Tatum, Erroll Garner, Fats Weller, Count Basie e tantos outros.

Sua esposa, Júlia, é dileta amiga de Regina desde a infância na então aprazível Campinas, tendo estudado piano durante anos com minha sogra, a ilustre e saudosa professora Olga Normanha. Várias vezes o casal e filhos passaram a festa de fim de ano no apartamento de meus pais, quando o congraçamento se dava. Amizade sólida.

Nunca me esqueço de seus relatos da adolescência e um, particularmente, causou-me impacto, pois o pesquisador vocacionado mantinha, no quintal de sua casa em Campinas, serpentes peçonhentas, soltando-as periodicamente para observar suas reações a anteceder o bote certeiro. A uma pergunta sobre o perigo, respondeu-me calmamente que a cobra jamais dá o bote maior do que a extensão de seu corpo. Jogava ao chão um velho chapéu e assistia a reação fulminante do réptil. A lição serviu-me, pois durante mais de dez anos (1970-80), em minhas viagens ao Vale do Paraíba aos sábados para pesquisar arte sacra popular dos séculos passados, não poucas vezes meu saudoso amigo Carlindo Pavan e eu nos deparamos com ofídios venenosos. A imediata visão do comprimento dos répteis trazia-me certezas. Enfim, Roberto era um estudioso. Suas respostas às questões formuladas vinham sempre acompanhadas da explicação científica. Após longa enfermidade, sob os cuidados da carinhosa esposa Júlia, de seus dois filhos, Gustavo e Juliana e dos netos, Roberto Penteado também nos deixou no último dia 22.

O terceiro a partir foi Walter Maria Flesch (1928), nosso vizinho desde 1971. Desenlace no dia 25. Consideremos que vizinho não escolhemos, ele acontece quase sempre pelo acaso. Razões múltiplas impulsionam determinadas pessoas a encontrar um lugar para o prolongamento da existência em novo lar. Já morávamos em nossa casa desde 1965 e o entendimento com a família Flesch, desde o primeiro dia até o falecimento do patriarca Walter, sempre esteve sob a aura da pura amizade.

Natural de Blumenau, Santa Catarina, conheceu Eneida Landsmann Jungers durante o curso de odontologia na Universidade de São Paulo. Casaram e tiveram quatro talentosos filhos, Fernando (engenheiro), Maria Cláudia (jornalista), Maria Elisa (professora) e Maria Helena (médica) e onze netos em plenas realizações. Assistimos mutuamente ao crescimento de nossos filhos e as realizações que advieram em suas trajetórias eram motivos de júbilo confesso de parte a parte. Walter e Eneida, casal de dentistas, impecáveis na educação de seus filhos, viveram amorosamente a expansão familiar.

Naqueles primeiros tempos, apenas casas existiam em nossos quarteirões. Hoje são elas raridades. Portões baixos, ausência de grades nas janelas e portas. Outra realidade. Por vezes Flesch e eu jogávamos pingue-pongue em casa do vizinho da frente, o sempre lembrado seu Chico, prática essa realizada a poucos metros do portão sempre aberto que dava para a rua! E essa diversão se dava à noite! Outros tempos. Pairava a descontração, a violência era algo raríssimo. Presenciamos o crescimento desmesurado de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Espigões se ergueram e personagens surgiram já sem laços com essa tradição que se esvaíra, pois a maioria não se enraíza, permanecendo no anonimato.

Tendo adquirido terreno em condomínio em Ibiúna, levamos certo dia nosso amigo para visitá-lo. Fizemos piquenique e a foto registra a descontração. Creio que foi em 1975. Não tendo vocação para casa de campo ou praia, vendi anos após o referido terreno.

Lembro-me de episódio que nos marcou muito. Nos anos 1970, Flesch e eu fomos convidados a visitar um loteamento no Mato Grosso do Sul. Saímos do aeroporto de Congonhas e faríamos escalas em Bauru e Três Lagoas. O avião de dois motores turboélice, ao sobrevoar Bauru, teve de abortar a descida e regressar a São Paulo, pois detectaram um problema que só poderia ser solucionado na capital. Após algumas horas reiniciamos a viagem com aterrissagem em Bauru e continuação do voo até Três Lagoas. Lá chegando, já a nossa espera estava piloto de pequena aeronave monomotor. Mostrava-se ansiosíssimo, pois com o atraso e já no final da tarde o avião teria de partir imediatamente, já que não dispunha de instrumental para voo noturno. Chegamos com certa tensão nas fronteiras da escuridão. Dormimos numa tosca construção de alvenaria e permanentemente o telhado era irrigado pelas águas de um afluente do rio Sucuruí, devido ao calor sufocante. No dia seguinte, num jipe, percorremos o empreendimento e vimos emas, pássaros tantos e até uma imensa jiboia que, assustada, mostrou-se bem ágil na fuga. Às refeições, pescado fluvial, carne de caça e ingredientes mais. Regressamos à tarde. Ficou como lembrança, nesse breve convívio, o espírito curioso de Flesch, que queria tudo saber, assim como sua proverbial tranquilidade e senso de fino humor. Ao longo das décadas, não poucas vezes lembramos com prazer essa breve, mas inesquecível, “aventura”.

Longe de serem diários nossos contatos, quando se realizavam jamais deixaram de ter o dom do congraçamento. Nossos olhares traduziam o prazer do encontro. Sabíamos separados por um muro, mas entendíamos que, se necessário fosse, o atendimento mútuo seria imediato. Jamais houve uma rusga sequer entre nós. Particularmente, meu contato com Flesch dava-se sob vários aspectos. Adorava música – pianista amador – e esse fato fez com que nossos estudos pianísticos, os de Regina e os meus, fosse qual fosse o repertório, jamais provocassem uma reclamação sequer. Logicamente, à noite estudava com o pedal abafador acionado para minimizar sonoridades.

Exatamente dez anos menos jovens do que Regina e eu, o casal sempre mostrou-se ativo, discreto e cordial. Aos domingos, Flesch, sem camisa, mesmo em dias mais frios, cuidava de seu jardim com desvelo. Domingo é dia de futebol e conversávamos sobre o esporte bretão, ele palmeirense fervoroso e eu então torcedor de um time que existiu no passado, Portuguesa.

Sinto ter perdido três referências que me eram caras. A amizade é uma dádiva preciosa e, não por outro motivo, Amigo na acepção escreve-se com A maiúsculo em Portugal. Gilberto, Roberto e Walter permanecem em nossos corações, indelevelmente.

Last January I lost three dear friends: Gilberto Mendes, Roberto Penteado and Walter Maria Flesch. Friendship is a precious gift. Writing this post recalling their full, meaningful lives and the fond moments we have shared together is a way to keep their memories alive. Though the pain has simply to be endured, they will live on through such recollections.