Quatro mensagens significativas

Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;
mas é nessa mesma maldade que devemos procurar
o apoio em que nos firmamos
para sermos nós próprios melhores
e, como tal, melhorarmos os outros.
Agostinho da Silva (1906-1994)

Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.

Maria Stella Orsini, professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”

Marisa de Jesus Martins da Costa envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:

O carroceiro

- Bom dia, senhor carroceiro!
- Bom dia, menina bonita!
- O que carrega aí?
- Carrego reciclável.
- O que é reciclável?
- É latinha, papelão, madeira, vidro…
- O que vai fazer com isso?
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.
- Cadê o cavalo?
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.
- Ensina pra ela, então! – Outro dia achei um livro no lixo.
- Livro não se joga no lixo, não!
- Quem faz isso?
- É o homem que não gosta das letras.
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.
- Massarandupió? Onde fica?
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.
- Vou perder meu amigo carroceiro?
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.

O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, Gildo Magalhães, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:

“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida…”

Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha Ângela Gandra Martins, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, in addendum, por dominar sete idiomas.

“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.

Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.

No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.

I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.

Um repertório diferenciado

É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe,
um profundo respeito, como se estivéssemos diante da própria existência.
Como se fosse uma questão de vida ou morte.
Pierre Boulez (1925-2016)

E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas.
Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012)

Após o encerramento da minha atividade pianística pública em 2023, os Encontros Musicais Privados possibilitam a continuação dos estudos, uma das razões essenciais da devoção à literatura composta para piano e da ininterrupta frequência amorosa a ela dedicada. Minha mulher Regina, pianista igualmente, enriquece a programação com autores que lhe são caros desde a infância.

O Oitavo Encontro Privado destaca inicialmente Valsas de Francisco Mignone (1897-1986), compositor que compõe, juntamente com Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993), a tríade nos nossos mais relevantes compositores nacionalistas. As Valsas de Mignone, muitas delas designadas Valsas de Esquina, referência à criação mais urbana, são encantadoras, plenas de naturalidade e lirismo. Regina mantém em seu repertório inúmeras criações de Mignone e era uma de suas intérpretes eleitas. Interpretará nos Encontros cinco Valsas do ilustre compositor.

Clique para ouvir, de Francisco Mignone, Valse élégante, na interpretação do saudoso pianista Nelson Freire (1944-2021):

https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM

Do Grupo dos Cinco, formado pelos compositores russos Alexandre Borodine (1833-1887), Modest Mussorgsky (1839-1881), Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mily Balakirev (1837-1910) e Cesar Cui (1835-1918), escolhi criações dos três primeiros.

Recentemente estudei as criações de Borodine e de Rimsky Korsakov, estreando-as neste Oitavo Encontro entre amigos. Quanto aos “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, a magnífica obra faz parte do meu repertório há décadas, tendo-os gravado para o selo belga De Rode Pomp.

A “Pequena Suíte”, de Alexandre Borodine, compositor, médico e químico, foi composta em 1870, sendo constituída de sete peças intimistas de sensível lirismo. Borodine organiza engenhosamente as criações, contrastando-as, e as duas mazurcas inseridas disso dão provas. O compositor Alexandre Glausonov (1865-1936) orquestrou a “Pequena Suíte”.

Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a “Petite Suite”, na interpretação da notável pianista russa Tatiana Nicolaïeva (1824-1993):

https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0

“O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov, é um interlúdio orquestral da ópera “O conto do tsar Saltan” e há as mais variadas versões para outros instrumentos, sobremaneira o piano.

Foram diversos posts dedicados aos “Quadros de uma Exposição” ao longo desses 19 anos de blogs ininterruptos. Uma das composições que mais aprecio, não apenas pela circunstância que motivou a criação, como pela originalidade da concepção da obra. Após forte impacto sofrido por Mussorgsky ao visitar a exposição de aquarelas de um dileto amigo recentemente falecido, o pintor e arquiteto Victor Hartmann (1834-1873), o compositor, tendo memorizado algumas das pinturas, compõe sobre forte impacto os magníficos “Quadros…”. Em autorreclusão, concentrou-se e, em cerca de duas semanas, completou a criação. Escreveria que os “Quadros…” ferviam como anteriormente ocorrera com a ópera “Boris Godounov”. Se Hartmann está presente através da “interpretação musical” das aquarelas, o compositor também se instala nos episódios da obra e o tema da “Promenade”, alterado durante a sua caminhada pela significativa mostra, poderia indicar um derradeiro tributo. Nesse transcurso, Mussorgsky se funde ao homenageado. Das dezesseis seções do “Quadros…”, dez referem-se às aquarelas e seis outras às “Promenades”. Na “Porta de Kiev”, há uma derradeira menção à “Promenade”. Das pinturas de Hartmann que inspiraram o compositor, apenas seis subsistem, pois na exposição dedicada ao pranteado muitos dos trabalhos foram vendidos. Diversos compositores transcreveram para orquestra os “Quadros de uma Exposição”, destacando-se Maurice Ravel (1875-1937) – a versão mais largamente difundida –, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Francisco Mignone, fidelíssimo ao texto de Mussorgsky. Transcrições outras foram realizadas para instrumentos solo.

Sob a égide da interpretação, algo tem se afigurado de maneira acentuada com relação aos andamentos. Nesta “Civilização do Espetáculo” em que infelizmente vivemos, como bem definiu Mario Vargas Llosa, em determinadas obras interpretadas por pianistas, indicações de andamentos propostas pelos autores têm sido progressivamente aceleradas para gáudio da maioria dos ouvintes. Essa descaracterização das recomendações dos compositores provoca a sedimentação temporária da escuta e haverá fatalmente uma outra percepção do conteúdo intrínseco de uma obra. Uma pianista superventilada mundialmente não teria dito que, em determinada composição rápida que apresenta extraprograma, o público pede sempre que a execução seja ainda mais acelerada para o deslumbramento da plateia e a “pirotecnia” da intérprete?

Os três compositores do “Grupo dos Cinco”, tendo como fundamento o culto às raízes da música russa, legaram criações que perduram pela originalidade e claros objetivos.

Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, “Quadros de uma Exposição”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

The Eighth Private Recital, following five beautiful waltzes by Francisco Mignone performed by Regina, features three composers that I have selected  from the Group of Five: Borodine, Rimsky-Korsakov, and Mussorgsky.

 

Trabalho extenuante realizado com dedicação

Escuta, escuta, tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?

Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)

Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.

Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada, após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.

Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento – fato inserido em blogs no início de 2025 – devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro approach que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.

Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.

Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.

The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.