Compositores e Filósofos, Criadores de Ideias Novas? Ou só uns Poucos

Há cinquenta anos, eu tinha contato com intérpretes,
arranjadores, inventores de melodias, orquestradores,
musicólogos, críticos, acompanhadores, improvisadores…,
mas hoje eu só encontro “compositores”!
Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas.
Serge Nigg  (1924-2008)
(“Témoignages” nº 3. Université Paris-Sorbonne, Observatoire Musical Français, 2010)

Marcos, amigo geômetra, leu o último blog em que inseri epígrafe do compositor francês Georges Migot (1891-1976), na qual observava que “a interpretação mais perigosa é certamente a ideia literária ou filosófica penetrando os meios de expressão que lhe são exteriores, na intenção absolutamente insuportável de comentá-los, como se esses meios ou processos não bastassem tão somente”. Fazia-se acompanhar por um jovem professor que se apresentou como filósofo. Imediatamente veio-me à mente o posicionamento do compositor francês Serge Nigg, que dizia que ultimamente só encontrava compositores. Durante um curto em minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, trocamos opiniões a respeito. O jovem professor de filosofia interessou-se pela epígrafe mencionada por Marcos. Perguntou-me com certa dose de um ex-catedra: “Acredita também que literatos ou filósofos não possam opinar sobre a Arte?”. Respondi-lhe que devem, mas com as reservas necessárias, pois a essencialidade da música requer conhecimento da partitura como um todo, nosso ferramental absoluto. Acrescentei  que, sem penetrar nas noções básicas da geometria, nada posso discutir com Marcos em temas afeitos à sua área.

Se houve Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Albert Schweitzer (1875-1965), Theodor Adorno (1903-1969), Vladimir Jankélévitch (1903-1985), entre os poucos filósofos que conheciam perfeitamente a trama musical, tantos outros escreveram opinando sobre música e, geralmente, sob o impacto da audição com resultados razoáveis, parciais ou negligenciáveis. Disse-lhe que me causa certo mal estar ouvir filósofos discorrerem sobre nossa área, como se essa arte sublime fosse “apenas”… uma área da cultura. Aliás, fazem-no também em relação a outras artes e à literatura. Um deles, ultimamente comparou, nesse nebuloso território da cultura voltada à leitura de autoajuda, Paulo Coelho a Saint-Exupéry, mencionando “Le Petit Prince”. Certamente desconhece “Citadelle”, monumental obra que aborda “todos os problemas do destino humano e o condicionamento do homem”, segundo Simone de Saint-Exupéry.

Nossa conversa penetraria doravante esse delicado tema. Desconfiado, o jovem professor do segundo grau de importante escola privada não concordou com algumas colocações propostas e indagou-me se tinha algum preconceito contra filósofos ou compositores. Prontamente disse-lhe que não e nomeei determinados livros que me acompanham durante as longas décadas, assim como de minha admiração confessa por tantos compositores qualitativos de nossos dias, tendo gravado e interpretado inúmeras obras desses autores contemporâneos do Brasil e do Exterior, frise-se bem, qualitativos. Lembrei-me de Serge Nigg que observa “essa vontade de aparecer custe o que custar como criador e não como simples intérprete”, frase certamente forte e responsável pela quantidade de compositores que pululam e que  enveredam  por caminhos onde lhes faltarão o ferramental necessário, a técnica e o talento. Situação similar acontece na área dos philos sophia. Como senti uma certa irritabilidade do jovem professor de filosofia, mudei de assunto e conversamos sobre o nosso triste futebol, sem tática, sem garra, sem nada e fazendo-nos saudosos de tradição irremediavelmente perdida, e também sobre a política que emana do Planalto, sem rumo sensato, imbuída de fatal binômio ideologia-conchavo e que já se faz sentir nos resultados econômico-sociais e nas tendências totalitárias divulgadas diariamente. Não da parte do amigo Marcos, mas senti que meu jovem interlocutor não gostou de meu posicionamento também nessa área. Despedimo-nos, não sem antes dizer aos dois que pensar livremente deveria fazer parte, in conditio sine qua non, de nossas atividades e de outras igualmente.

Curiosamente fui apresentado nesses últimos anos a alguns egressos da universidade que concluíram ou abandonaram os cursos de filosofia. Uns partiram para o magistério e outros singram novos rumos. Fica-me uma impressão não distante do que escreve Serge Nigg. Sentem-se filósofos e disso se orgulham. Assim como dediquei um post aos “criativos” publicitários, que majoritariamente inserem em cartões de visita ou revelam verbalmente o termo “criativo”, apropriando-se de uma palavra destinada a poucos (vide blog, 25/04/2009), o termo filósofo parece-me com uma carga enorme.  Se a etimologia da palavra remonta à Grécia Antiga, amigos da sabedoria, transformar o termo numa profissão como qualquer outra torna-o banal, sem mais, mormente acompanhando-se o transcurso da história, que reservou aos eleitos criativos do pensar as “graças das musas” enunciadas na epígrafe. Seria possível entender que presentemente um menor número de humanistas finda os cursos de filosofia. Poderia ser uma explicação para a proliferação de outros jovens que se autodenominam filósofos. Causa-me estranheza a atitude dessa nova geração de “filósofos”. Tratado como “filósofo” pela mídia, o jovem autoritário, um dos coordenadores do movimento dos sem-teto, não está a promover a desordem social através de invasões de terrenos e logradouros, depredações, passeatas a impedir o ir e vir do cidadão e mais proselitismo barato em entrevistas? Os governos federal, estadual e municipal só assistem a esses alucinantes distúrbios. Até quando?

Acredito que, no caso da filosofia, seria tão mais correta a designação professor de filosofia, pois aqueles que continuam acabam por entrar no magistério. Filósofo, a meu ver, teria de estar acompanhado de currículo verdadeiramente criativo a transpor fronteiras geográficas, tendo o postulante, no caso, teoria formadora de escola, entenda-se, aceita, divulgada e estudada pelos especialistas internacionais e não meramente provinciana e adulada na Academia, tantas vezes gueto de vaidades e de ideologia precisa. Se o leitor perguntar aos recém-formados em música-composição, filosofia e marketing poderá receber respostas claras sobre suas atuações, “sou compositor, sou filósofo, sou criativo”. E como dizia o ilustre Roberto Campos, “tudo vai mal onde tudo vai bem”.

Se o jovem professor mencionado no início do post ler este texto, acrescentaria que na composição há alguns criadores que quebraram as altas ondas que vão ter à praia, singraram  mares e são nomes referenciais no hemisfério norte e no Extremo Oriente. Villa-Lobos, Henrique Oswald, Camargo Guarnieri, Gilberto Mendes… Outros igualmente estão sendo divulgados e reconhecidos em termos mundiais pela qualidade de suas obras. Todavia, trata-se de espaço reservado a poucos. Pepitas de ouro no cascalho.

A chance meeting with a guy holding a degree in Philosophy reminded me of Serge Nigg’s words that open this post. As for myself, I’m also tired of students of philosophy or music composition who feel entitled to call themselves philosophers and composers, as if school benches were a talent factory, not just a place to hone the talent that very, very few have.

 

 

 

 

Quando a Arrogância e os Holofotes Preponderam

Porquê tolerar?
Parece-me ainda pior do que perseguir.
No perseguir há um reconhecimento do valor.
Agostinho da Silva

Estávamos no dia 9 de Julho de 1950. Meus pais levaram os quatro filhos para assistir ao jogo Brasil x Suécia em pleno Maracanã, na então bela Rio de Janeiro. Pela primeira e última vez entrei nesse gigantesco estádio e, nos meus 12 anos, vibrei com a vitória por 7 x 1 frente à equipe sueca. Ineditamente, 64 anos após, assisto pela televisão a mais um 7 x 1, desta vez contra nossa lamentável seleção. Estamos quites com os maiores resultados que obtivemos em todas as copas, para cima ou para baixo. Portanto, empatados…

Durante a Copa do Mundo preferi nada escrever sobre o tema. Filhas e netas me aconselharam a não ser o “cético” que vaticinava a derrocada desde os preparativos da seleção brasileira, mercê do ufanismo exagerado e das teorias ultrapassadas da comissão técnica de nossa equipe. Aquiesci, porém, após o Mineiratzen que jamais será esquecido por esta e futuras gerações, pensei escrever um post, ouvir comentaristas, mormente aqueles que foram jogadores consagrados. Não é de hoje que escrevo ter aprendido muito com as observações de esportistas de todas as áreas, inclusive tendo reflexos na minha atividade pianística.

Assisti aos jogos pela TV Bandeirantes, como sempre. Gosto dos comentaristas, ex-jogadores como Neto, Edmundo, Djalminha, Pedrinho, Denilson e dos locutores, bem mais competentes e naturais nos lances que se desenrolam durante os jogos, se comparados aos de emissoras da TV a cabo, muitos apenas jovens comentaristas que se expressam bem, mas sem a experiência daqueles citados. Há também os integrantes da equipe da principal rede aberta televisiva, pomposos e com ares oficiais. Contudo, interessaram-me igualmente as observações de quatro grandes jogadores internacionais campeões do mundo que compareceram com frequência aos estúdios do Sport TV. Lothar  Matthäus (Alemanha), Fabio Cannavaro (Itália), Daniel Passarela (Argentina) e Carlos Alberto Torres (Brasil) evidenciaram posições diferenciadas e de grande interesse. Carlos Alberto frisou que o problema maior de nossa seleção resumia-se num “oba, oba” nefasto que ele denunciava já há alguns anos. Creio que essa situação é fruto de um entusiasmo desmesurado da mídia; do Planalto, que frequentemente fazia-se presente em pronunciamentos para “prestigiar” e, consequentemente, colher frutos de uma eventual conquista brasileira, em exemplos grotescos como “A Copa das Copas” ou o “É Tóis”, postado recentemente pela mandatária mor do país; de Luis Felipe Scolari, técnico absolutamente ultrapassado; do ufanismo estratosférico de Carlos Alberto Parreira que proclamou, poucos dias antes da Copa, que éramos os francos favoritos; do próprio Scolari, que prometeu tanto aos brasileiros, criando nos mais incautos a sensação da invencibilidade; dos jogadores envoltos nas mais diversas propagandas; dos holofotes em altíssima voltagem e do sobrevoo dos helicópteros quando dos deslocamentos hollywodianos.

Sob outro aspecto, rádios e canais de televisão apresentavam um verdadeiro tsunami, exibindo exaustivamente durante meses publicidades banalíssimas sobre a copa, encomendadas por empresas privadas e estatais. Musiquetas pavorosas, insistentes, com textos massacrantes marcaram essa propaganda de patrocinadores os mais variados, de Bancos, a lojas que vendem “sem juros”, de revendedoras de automóveis a hotéis com “promoção”… Festival anacrônico. Em página inteira publicada no Estadão na quarta-feira, 9 de Julho, um dia após o Mineiratzen, lê-se publicidade de uma das maiores empresas do Brasil na área de alimentação: “Valeu a pena torcer. E se não deu para papar mais um título agora, nossa torcidinha tem tempo pela frente pra ver o sexto, o sétimo, o oitavo… Quem tem alma de criança nunca perde por esperar, Seleção # TE AMO JUNTINHO”. É de pasmar!!! Logo, logo a mais poderosa rede de televisão estará a conclamar “… faltam mil e tantos dias para o Copa do Mundo em Moscou” !!! E toda a lamentável distorção estará a se perpetuar!!!

Após a trajetória dos últimos anos, Scolari não deveria ser convidado a dirigir uma seleção. Técnicos com mais idade mantiveram-se atualizados. Sir Alex Ferguson (1941- ), que esteve na lista dos maiores treinadores do mundo até bem recentemente a dirigir o Manchester United da Inglaterra, é apenas um extraordinário exemplo. Scolari, Murtosa, Parreira não acompanharam a evolução técnico-tática do futebol. A acachapante derrota diante de uma Alemanha organizadíssima comprova a falta de estratégia de um trio atônito com o desenrolar do massacre infringido ao selecionado brasileiro. É só acompanhar o retrospecto de Scolari nestes últimos anos, saliento bem. Após passagem frustrada pela seleção portuguesa, com duas derrotas frente à mediana equipe da Grécia, a primeira e a última partida da Copa da Europa de 2004, não propiciando aos portugueses festejos em seu país, dirigiu despreparado o poderoso Chelsea da Inglaterra, retirando-se pouco tempo após. A seguir esteve a dirigir no Uzbequistão. A “inesquecível” condução como técnico do Palmeiras, abandonando o barco quando a equipe deslizava em direção à série B, o que de fato aconteceu, e as direções anteriores seriam motivos indiscutíveis para o arquivamento de seu nome como técnico, vencedor sim no passado, de certames no Brasil e da Copa de 2002. Esses feitos jamais serão olvidados e ficarão registrados na história do futebol pátrio. Assumir o cargo de técnico da seleção brasileira, tendo Carlos Alberto Parreira, outro desatualizado, foi temeridade a anunciar naufrágio. Sob outro aspecto, entendo profundamente constrangedora a atitude dos três, Scolari, Parreira e Murtosa, abandonando à própria sorte a seleção após o terceiro gol da Alemanha. Encolhidos em suas cadeiras, abrigados do vexame e não dando a menor possibilidade de reação à equipe pessimamente escalada para enfrentar a poderosíssima seleção alemã. Desestruturada em sua espinha dorsal, pois negligenciando o meio de campo, setor cerebral de uma equipe, tornaram-se nossos perdidos jogadores presas fáceis da blitzkrieg germânica, que atacava com rapidez, desorganizando por completo nossos setores defensivo e dianteiro. A imagem que me vinha à mente após os poucos minutos de terror, quando tomamos 5 gols, era a dos filmes sobre a segunda grande guerra em que tanques e aviões nazistas invadiam sem piedade as hostes “inimigas”. Frise-se, em nenhum instante a extraordinária equipe alemã utilizou de recursos desleais e seus jogadores demonstraram até uma certa “piedade” em relação à nossa seleção. Se quisessem forçar as blitz, teriam chegado não aos sete gols, mas certamente à maior goleada da história de todas as copas, dez, onze ou mais gols!!! A comparação com a blitzkrieg, friso, relaciona-se ao poder de ataque, pois a seleção alemã, num sentido absolutamente oposto aos nazistas, foi certamente a mais simpática, comunicativa e generosa entre todas que estiveram no país. Que o diga o Estado da Bahia, onde se hospedaram. Legaram ao simpático povo baiano a sede que planejaram e construíram.

Considerando a decisão de alguns técnicos, como Fabio Capello (Rússia), Cesare Prandelli (Itália) e outros que não estou a me lembrar, após os 7 x 1 contra os alemães o mínimo que Scolari e a Comissão Técnica poderiam fazer seria anunciar a pronta demissão após o jogo deste sábado. Veremos. Mas fica a pergunta cruel, temos hoje algum técnico no Brasil ao nível dos experientes europeus ou mesmo argentinos? Falam de Tite. Campeão Mundial Interclubes em 2012 pelo Corinthians. E depois? Sucumbiu com o mesmo time no campeonato brasileiro do ano seguinte. Muricy foi tímido e não preparou convenientemente o Santos para o desastre de 4 x 0 frente ao Barcelona, também a disputar o Mundial Interclubes. Internacional de Porto Alegre e o Atlético Mineiro deram vexame ao serem derrotados nas semifinais desse certame em outros anos, também mal orientados nas retas finais. Sob outra égide, os técnicos das seleções da Colômbia (José Pekerman) e do Chile (Jorge Sampaoli) são da Argentina e levaram as equipes por eles dirigidas a avançar na Copa do Mundo como jamais acontecera anteriormente para os dois países. Argentinos eram os dois que decidiram a Liga dos Campeões da Europa neste 2014. Teríamos a humildade de convidar um excelente técnico europeu? Para a Confederação Brasileira de Futebol e para o ego de nossos treinadores seria impossível pensar em técnico do país vizinho. A seleção dos Estados Unidos teve a treiná-la um dos maiores jogadores da Alemanha em passado recente, Jürden Klinsmann, e cumpriu com dignidade sua participação na Copa.

Sob outro contexto, gostaria de salientar que a não realização das eliminatórias pela seleção do Brasil como país sede, resultou situação aparentemente tranquila, mas péssima no que concerne à presença permanente da tensão em jogos decisivos. Quem sedia a Copa tem a participação garantida. Contudo, eliminatórias significam atividade constante e testes essenciais para jogadores que despontam ou não estão glorificados pelos holofotes. Cria-se uma equipe base que, durante mais de um ano, terá de pontuar para se garantir entre os primeiros nas eliminatórias. Jogadores entram com adrenalina lá em cima pela expectativa dessa pontuação, apresentam-se frente às hostis torcidas de outros países sul americanos nos chamados jogos de volta. Essa participação é o peristilo do que poderá acontecer numa copa. Todavia, livre das eliminatórias, teve nossa seleção como jogos extras partidas amistosas sem qualquer interesse futebolístico. Em se tratando do Brasil, a CBF busca seleções por vezes insignificantes de países longínquos para pelejas que só buscam o lucro e, logicamente, nem os jogadores têm a adrenalina alterada, tampouco esses jogos são lembrados. Quantos não foram os mergulhos abissais no mar da corrupção que a CBF realizou nessas últimas décadas envolvendo, entre outras estranhas negociações, esses jogos “caça-níqueis”? Nada, mais nada é capaz de modificar as estruturas corroídas da CBF.

Assim como o dia 16 de Julho de 1950 jamais será esquecido, o célebre Maracanazo, também o dia 8 de Julho ficará na memória, o Mineiratzen, nos textos, nas conversas de botequim, no cotidiano sob todas as formas e nesse imaginário nostálgico do sofrido povo brasileiro. Preparado para as fotos que seriam divulgadas ad nauseam, caso vencêssemos a Copa, certamente o Planalto silenciará sobre o desastroso match frente aos alemães. Silenciará também sobre obras inacabadas nos entornos dos estádios e na infraestrutura, sobre os gastos estrondosos das grandes arenas e, infelizmente, sobre os gigantescos e belíssimos elefantes brancos que ficarão plantados em Manaus e Cuiabá. Nada a fazer neste país à deriva. “O povo tem memória curta”. Acredita o Planalto que logo as nuvens cobrirão todo o infortúnio. Nada a fazer. As eleições batem à porta.

Post Scriptum:

O texto entrou aos cinco minutos deste último sábado. Corroborando o que se lê em meu blog, porém com a acuidade e o olhar mais aprofundado de um dos maiores locutores e comentaristas que o Brasil conhece, Flávio Araújo, insiro excerto da “Coluna” que recebi, publicada em site especializado no dia 14/07/2014.

“O país do futebol de outrora é hoje a pátria da corrupção, onde as mãos largas dos políticos se fecham em busca do poder a qualquer preço e pelo maior tempo possível. O futebol muito fez pelo Brasil em tantos anos de conquistas, mas chegou o momento de abrirmos os olhos desse povo hoje enganado em todos os sentidos. Seja pelos políticos produzidos pelos marqueteiros para mentir em busca de votos, seja pelo falso ufanismo imperante nas tevês. Quem não via que o Brasil não tinha time para ganhar a Copa? Só os cegos globais”.

After Brazil’s 7-1 defeat by Germany in World Cup semi-final, a humiliation on epic scale, I raise some considerations about the sad situation of Brazilian football today.

 

Música e Literatura em Período Efervescente

A interpretação mais perigosa
é certamente a ideia literária ou filosófica
penetrando os meios de expressão que lhe são exteriores,
na intenção absolutamente insuportável de comentá-los,
como se esses meios ou processos não bastassem a eles mesmos
em suas manifestações artísticas.
Georges Migot – compositor francês (1891-1976)

Os dois posts anteriores suscitaram mensagens eletrônicas e conversas informais com leitores atentos. Uma das perguntas que guardei referia-se à básica ausência do tema romantismo, em sua essencialidade, frise-se, nos debates acadêmicos, pois quando focalizado torna-se evidente o viés histórico, estético, social e ideológico. Atributos como emoção, sentimento, afeto e… coração passariam ao largo das discussões.

Mencionaria o livro referencial de Russel Jacoby (vide post “Os Últimos Intelectuais” – Realidades bem Próximas. 21/03/2009), em que o autor defende a ideia de que o desaparecimento da boêmia, que propiciava a reunião em torno de uma mesa descontraída de escritores, poetas, artistas e intelectuais, sustou a criatividade. Emergiam desses encontros os grandes conceitos que, sem intenções maiores, seriam aceitos, resultando normas e estéticas que passariam naturalmente, em princípio, a vigorar na sociedade. Acrescentaria que o espírito romântico na primeira metade do século XIX em França contempla essa visão mais “leve”, e o salão aristocrático, uma outra atitude frente à descontração do pensar, tem alguma semelhança, paradoxalmente, com a mesa de boêmia. Russell Jacoby enfaticamente acredita que o recolhimento do acadêmico universitário ao campus tenha sufocado o livre pensamento, pois o professor estaria preocupado com a sua sobrevivência e com a ascensão na carreira.

Outros leitores comentaram as citações de autores que escreveram sobre música, do século XIX a meados do século XX. Argumentaria que, apesar de farta literatura mais recente a respeito do período, onde desponta um excelente livro do pianista e musicólogo Charles Rosen (1927-2012) -  (“The Romantic Generation”, Harvard University Press e traduzido sob o título “Geração Romântica”, São Paulo,  Edusp, 2000), a apreensão de autores franceses que viveram o período ou posteriormente desvelaria o cerne da essência romântica através da tradição propiciada pela leitura ou pela oitiva. Como a focalização dos posts teve propósito específico, as posições desses críticos, musicólogos e musicógrafos franceses do passado encontram, pois, minha explicação devida para que a inserção se dê. Tenho imensa precaução quando me deparo com “análises” hodiernas sobre o período, utilizando seus autores ferramentas que prosperam durante certo período, para estiolarem-se tão logo outro ferramental surja. É fato da contemporaneidade, acalentado prioritariamente pela Academia.

Reflexão igualmente sensível sobre a eclosão desse “eu” interior está expressa pelo extraordinário musicólogo espanhol Adolfo Salazar (1890-1958) – (vide Resenhas e Comentários no menu).  Afirma sobre os primeiros decênios da “instauração” do romantismo: “A partir desse momento, o músico que não tenha um assunto pessoal que possa ser contado será um músico estéril.  A grandeza de sua obra estará relacionada com o modo segundo o qual passa a descrever a identidade de sua paixão com a paixão que move o Universo. L’Amor che muove il sole e l’altre stelle” (1941).

O posicionamento do compositor e pensador francês François Servenière, logo após o post de 21 de Junho último a respeito do romantismo a eclodir naquela primeira metade do século XIX em França, apenas ratifica todas as observações que foram assinaladas nos dois posts anteriores. Transmito-o aos leitores: “O romantismo não é uma época, mas um estado de espírito. O romantismo vivia no espírito dos humanos antes da fixação temporal no século XIX. Apenas deu-se nome a essa impregnação do espírito humano através dos séculos.  Continua a persistir sob quaisquer pressões e continuará no presente e no futuro. O romantismo está centrado sobre o extravasamento  dos sentimentos humanos, o “eu” permanente de cada ser confrontado com um outro. Não acredito que esse estado de espírito possa desaparecer no coração dos homens e das mulheres e, por extensão, nas obras criadas pelos humanos. Trata-se de uma permanência do espírito humano. Enquanto homem e mulher existirem, suas canções, suas grandes músicas, seus filmes, suas fotos, suas obras de arte e seus livros continuarão a falar do que é o epicentro da vida humana: a relação com o outro, os sentimentos, o amor. Não se trata de uma opinião, mas de um fato. Por que a música e a arte contemporânea são tão pouco populares? A razão é simples. Elas não falam mais do amor. Tentemos escrever uma canção de amor ou uma berceuse com o material da música contemporânea! Impossível. Seria como tentar construir uma casa de bonecas com cimento armado ou um vaso de porcelana com vigas metálicas. Resultado, essa arte não mais dialoga com o coração de homens e mulheres. O romantismo, como estado de espírito, nada tem de intelectual ou de científico como definição de uma época, pois não deveria ser datado, tampouco fixado a uma época determinada, pois fala ao coração dos homens e externa a emoção. Se as obras ditas contemporâneas têm sido tão secas em expressão, é porque os sentimentos foram proibidos de se manifestar. Há vida no deserto? Não! A vida existe em torno dos poços, de determinados pontos e cursos de água, em torno das ‘lágrimas da Terra’. Sem água não existe vida. Sem lágrimas, ausência de sentimentos e de relações afetivas. A Terra chora para nos alimentar. Quando o homem não mais versar lágrimas, estará distante da conformidade da Criação, do Universo. Nesse estado, os homens são inúteis para os outros. Vangloriam-se, sentindo-se superiores à natureza da qual eles saíram e que recusam. Tornam-se secos, estéreis e deixam de suprir os outros. Parece-me uma lógica fundamental” (tradução: JEM)

A mensagem de François Servenière, assim como o pensamento do filósofo Henry Beer mencionado no post de 21 de Maio, apenas consolidam o verso de Dante Alighieri citado por Adolfo Salazar. O espírito romântico que também poderia ser entendido como eterno: L’Amor che muove il sole e l’altre stelle, último verso do “Paradiso” (XXXIII, 145) da “Divina Commedia”.

The last two posts about Balzac’s “Illusions Perdues” and the French Romanticism in the first half of the 19th century had so much e-mail feedback from readers that I resume the subject once more, this time addressing some of the key issues raised by readers.


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