Caminhos do Eterno Desafio

Quando escalo uma montanha
me sinto mais próximo de Deus.
Vitor Negrete

Vitor me avisou que não tinha medo da morte.
Ficava triste por ser filho único justamente por causa disso:
se ele morresse, o que aceitava como natural
dado o esporte que praticava e seu grau de envolvimento com ele,
causaria muita tristeza aos seus pais.
Marina Soler Jorge

Continua desde a adolescência meu fascínio pelos intrépidos aventureiros que neste planeta deparam-se com os mais difíceis desafios no mar, na terra e no ar. A ideia que leva à concretização de feitos heróicos por parte dessa parcela infinitesimal de visionários teria origem em exemplos familiares, reais, literários ou, presentemente, através da multiplicidade de documentários estimulantes. O homem a buscar seus limites físico-mentais. Desde o livro que meus pais me ofereceram nos meus 10 anos (Wilhelm Treue. A Conquista da Terra, Rio de Janeiro, Globo, 1945), o tema da aventura passou a ser recorrente e, desde então, em períodos especiais, não deixo de me “aventurar” nessas histórias vividas por tantos corajosos sonhadores, muitas vencedoras, outras trágicas. É também uma maneira de intermediar outras leituras de minha área, e esses interregnos sempre foram prazerosos.

Escrevi  diversos  posts sobre tentativas e conquistas na cadeia montanhosa do Himalaia, desde a heróica e trágica missão de George Mallory e Andrew Irvine (1924) ao buscarem o cume do Everest à chegada de Edmund Hillary e Tensay Norgay (1953), assim como outros êxitos e infortúnios. Contam-se às muitas dezenas aqueles que deixaram a vida indo ao encontro dessas moradas dos deuses. Em termos brasileiros, dediquei um post a Waldemar Nicklevicz que, tendo atingido mais de uma vez o Everest, conseguiu subir ao topo do K2, possivelmente a mais temida montanha do planeta. Minha filha Maria Beatriz, sabedora de meu encanto pela leitura das narrativas dramáticas nas montanhas, entre as quais a de Maurice Herzog (Annapurna, São Paulo, Companhia das Letras 2001), Jon Krakauer (No Ar Rarefeito, São Paulo, Companhia das Letras, 2002), Thomaz Brandolin, (Everest: Viagem à Montanha Abençoada, Floresta, L&PM, 2002) e outros tantos relatos, presenteou-me há alguns anos com livro que me interessava, a história de Vitor Negrete, excepcional esportista voltado às aventuras desafiadoras. Somente nessas últimas semanas tive o imenso prazer de ler Espírito Livre – Da Transamazônica ao Everest, escrito por sua esposa, Marina Soler Jorge (São Paulo, Editora Três, 2008).

Vitor Negrete é o exemplo típico do herói idealizado desde a antiguidade. Sua vida justificou plenamente, através da aventura com riscos acentuados e da ação generosa como homem, a figura do herói cujo destino já estaria traçado. A leitura de Espírito Livre, apesar do relato não desprovido de intensa emoção da autora, revela Vitor Negrete nas mais variadas atividades. Ei-lo  realizando com dois amigos a travessia da Transamazônica de bicicleta; a participar da Ecomotion Pro na Costa do Dendê; disputando o Mundial de corrida de aventura na Nova Zelândia, assim como em tantos outros desafios. Como bem assinala Marina Soler, ” a escalada era apenas uma das paixões de Vitor Negrete”.

A vida do grande montanhista Vitor Negrete, paradigma para tantos esportistas que buscam na aventura a motivação maior, poderia ficar circunscrita à própria atividade desafiadora. Contudo, o que tornou singular a sua existência extrapolou as altitudes e direcionou-se às ações humanitárias relevantes, entre as quais o projeto pela preservação digna dos quilombolas no Vale do Ribeira. No relato de Marina não faltam alusões à generosidade do esportista de absoluta vocação, que entendia “involuntariamente” sua passagem pelo planeta como um maravilhamento, pois tudo que o cercava ganhava a aura fraterna. Amizades, projetos, sonhos pareceriam ser acalentados por Vitor Negrete como algo natural, sem traumas possíveis.

A atividade como montanhista foi notável. As diversas subidas a outros picos ficariam minimizadas pela relação que teve com duas das mais temidas montanhas: Aconcágua (6959m) e Everest (8848m). Escalou o mais alto cume das Américas, ascendendo-o pelo maior número de vias, sendo que a mais perigosa delas, a Face Sul, juntamente com seu amigo de tantas aventuras, o também notável Rodrigo Raineri. O relato de Marina Soler não deixa dúvidas quanto às difíceis condições enfrentradas. Em um dos paredões da Face Sul encontraria os corpos de alpinistas brasileiros que pereceram após avalanche…. Igualmente guiou Ana Elisa Boscarioli em sua primeira tentativa ao cume do Aconcágua e dessa experiência a montanhista, que atingiria posteriormente tantos outros cumes, inclusive o Everest, não se esqueceria.

Se o relato de Marina Soler menciona as duas subidas ao teto do planeta, em 2005 e 2006, a primeira com tubos de oxigênio e a segunda a pleno pulmões, o encontro da morte durante a descida, aos 19 de Maio de 2006, bem evidencia esse “namoro”, consciente ou não, com o trágico, ingrediente característico de tantos heróis.

Vitor Negrete, ao atingir o topo do Everest, deixaria gravado em vídeo depoimentos pungentes. Algumas de suas frases: “Eu tô no ponto mais alto do planeta… Eu acabo de me tornar o primeiro brasileiro a pisar neste lugar sem utilizar oxigênio suplementar sem a ajuda de sherpa neste dia da escalada. Eu escalei sozinho, e foi animal. É muito difícil. Eu tô muito, muito cansado. Inclusive eu preciso descer logo, mas eu queria dedicar esta escalada ao Rodrigo Raineri, meu parceiro… Hoje o clima tá ruim, tá ventando e é prudente eu sair daqui logo porque mais de 80% dos acidentes ocorrem na descida. Hoje, enquanto eu subia, eu vi vários corpos desta temporada… Aí Caco (amigo dileto)! Consegui mais uma vez cara! … Então eu subi aqui, cara, esta montanha, muito por você, pela Marina, pelos meus filhos”.

Na descida, Vitor Negrete encontraria a morte. Pareceria estar contrário ao mors certa hora incerta. Seu companheiro Raineri escreve: “Dawa encontrou o Vitor a 8.500 metros, debilitado, com dor no peito, sem as luvas e bastante confuso. Começou a descer, mas estava difícil carregá-lo. Então Dawa acionou Pechumbi, nosso outro sherpa que havia subido do ABC para o acampamento 3 para tentar ajudar. Os dois conseguiram chegar com o Vitor na barraca do 3 à meia noite do dia 18 e continuaram a tentar reanimá-lo, hidratando-o com suco morno, que ele conseguiu beber, e ministrando oxigênio. Porém, ele não resistiu e, às duas horas da madrugada do dia 19 de maio (horário do Nepal), Vitor faleceu”. O pungente depoimento de Raineri ratifica o sentido épico da tragédia. O que o fez ascender as últimas dezenas de metros, solitário e sem tubos de oxigênio, verdadeira temeridade? A leitura do inconsciente será sempre um mistério. Tantos sinais a apontarem  cautela, entre eles o roubo de equipamentos e mantimentos seus e de Raineri da barraca dos alpinistas nesse caminho em direção ao topo, já não seriam suficientes para abortar a investida? A intrepidez fê-lo não desistir. Todos os riscos estavam traçados, faltando apenas a possibilidade da infausta estatística aumentar. Disso Negrete tinha consciência, mas a vontade de ser o primeiro brasileiro a subir ao cume do Everest sem tubo de oxigênio falou mais alto do que o teto do planeta. Atingiu o objetivo, mas o Poder Maior veio buscá-lo.  Em Espírito Livre, os depoimentos finais dos pais de Vitor Negrete, Roma Pytowski e Sílvio Negrete, não seriam a certeza de que o filho cumpriu uma missão, a dimensionar em plano transcendente as inéditas escaladas? São palavras simples, despojadas, que retratam Vitor na essencialidade dos escolhidos.

Tantos sucumbiram na escalada rumo ao Everest, mormente na descida. Contudo, permanecem na memória os poucos que pereceram como ato inédito. Vitor Negrete será sempre lembrado, e sua morte redentora após missão cumprida é o símbolo do heroísmo autêntico, imaculado. A pedido dos familiares e amigos, os sherpas cobriram seu corpo com  pedras. Permanece nas alturas. Fim supremo para um herói das montanhas.

This post is about the book Espírito Livre (Free Spirit), written by Marina Soler, wife of Vitor Negrete, the Brazilian mountain climber who died on the Everest in 2006. The book tells us about some of his adventures: reaching the top of Mount Aconcagua, the highest peak in South America; summiting the Everest twice; crossing the Trans-Amazonian highway on a bicycle, competing in the Adventure Racing World Championship in New Zealand. As Marina puts it, “climbing was just one of Vitor Negrete’s passions”. In 2006 he reached the summit of Everest without supplementary oxygen, but could not make his way down and died on 19 May at Camp 3. The book is the story of a man endowed with great courage and a generous heart, a hero for his special achievements.

 

 

 

Quando uma Foto Traz Reminiscências

Ser mestre não é de modo algum um emprego
e a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes;
ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo;
e o que importa, no seu juizo final,
não é a ideia que fazem dele os homens do tempo;
o que verdadeiramente há-de pesar na balança
é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.

O professor deve sempre aparecer ao seu discípulo
como uma pessoa de cultura perfeita;
por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir
para lhe dar uma base moral inabalável,
sem subserviências nem compromissos.
Agostinho da Silva

Estava a folhear velho álbum que não era visitado há décadas, quando me surpreendo ao ver uma foto tirada circa 1956 por meu saudoso pai. Nela estão alunos e ex-alunos do insigne professor de piano José Kliass.

Nascido na Rússia e de origem judaica, José Kliass (1895-1970) estudou em seu país e mais tarde no Stern’s Conservatório, em Berlim, com o extraordinário professor Martin Krause, que foi discípulo e secretário particular de Franz Liszt. A reputação de Krause era enorme e com ele estudaram, entre outros, Edwin Fischer e Claudio Arrau. Após Berlin, estudou curto período em Paris, antes de radicar-se definitivamente no Brasil após a Iª Grande Guerra.  Tendo-se fixado em São Paulo, Kliass apresentou-se inúmeras vezes como pianista, decidindo-se posteriormente pela didática. Tardiamente, foi professor convidado por certo período na Brigham Young University, nos Estados Unidos.

Se considerada for a lista de seus alunos que tiveram brilhantes carreiras, acredito não ter havido nenhum professor dessa dimensão em nosso país. Sereno, tranquilo, José Kliass era um mestre de profunda cultura humanística, poliglota, tendo desenvolvido uma técnica própria que transmitiu a gerações de alunos. Desse seu método de ensino poderia apontar a preocupação com a forma, estilo e sonoridade; o estudo do legato e da substituição dos dedos sobre uma mesma nota; do peso, cuja origem se localiza nos omoplatas e que desliza pelo braço, ante-braço, mãos, a finalizar na ponta dos dedos, ou seja, toda a estrutura corpórea superior como fator decisivo para a sonoridade plena a preencher os espaços; das gradações do pedal. Importava-lhe o resultado sonoro, a partir, seria lógico entender, da prévia preparação técnico-digital. Recordo-me que as primeiras aulas que tive com o grande mestre, aos 14 anos, foram centralizadas unicamente no relaxamento muscular. Quando sentiu em mim a ausência de qualquer contração, colocou-me diante do teclado, a dizer: “Agora vamos entrar no universo sonoro”, frase que compreenderia com o passar dos anos. Quando menciono ter sido José ou Joseph Kliass aquele que teve sob sua tutela o maior número de notáveis pianistas que desenvolveram carreiras consistentes, não estou a negligenciar nomes importantes da didática pianística, a começar pelo ilustre Luigi Chiafarelli (1856-1923), mestre de Antonieta Rudge (1885-1974), Guiomar Novaes (1894-1979)  e Souza Lima (1898-1982). Teve o Brasil, no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, professores da maior competência, que souberam edificar um sólido conceito através de alunos que se tornaram pianistas consagrados. Contudo, o que chama a atenção é essa quantidade-qualidade de pianistas  orientados por José Kliass através das gerações. Citaria: Bernardo Segall (1911-1993), Estelinha Epstein (1914-1980), Yara Bernette (1920-2002), Anna Stella Schic (1925-2009), Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005), Lídia Simões, Isabel Mourão, Mercês da Silva Telles, Ney Salgado, Jocy de Oliveira, Glacy Antunes de Oliveira… Pianistas e outros músicos foram aconselhados pelo grande mestre. Meu irmão João Carlos e eu estivemos durante seis anos sob sua tutela pianística.

A cada ano sofremos mais acentuadamente o impacto da mídia. O fato de José Kliass não ter jamais se preocupado com a divulgação de seu nome, que espontaneamente era conhecido por todos os músicos respeitados do país, fez com que o tempo se ocupasse de ocultar a extraordinária contribuição por ele prestada ao ensino do piano no Brasil.

Lembro-me que a intensa relação que mantinha com os maiores pianistas e outros músicos da época tornava quase que “obrigatória” a presença deles em recepções que José Kliass promovia quando das tournées desses artistas pelo Brasil. Foi em casa do mestre que pudemos conhecer pessoalmente Claudio Arrau, Walter Gieseking, Wilhelm Backhaus, Arthur Rubinstein e tantos outros nomes referenciais da arte do piano, assim como regentes, cantores, violinistas, compositores. Villa-Lobos, Christian Ferraz, Gerard Sousay, Edouard van Remortel são alguns nomes que me vêm à mente.

As audições que promovia em sua residência ou em casas de alguns mecenas da música em São Paulo eram muito concorridas. Sempre apresentava o discípulo e tecia algumas considerações sobre as obras que seriam interpretadas.

Recordo-me de que inúmeras vezes, após a aula, quando pela manhã, o professor e sua esposa Lídia me convidaram para almoços informais, momentos raros em que o aluno só fazia perguntas sobre música e o mestre serenamente respondia. Quantos não foram os livros que o professor Kliass me emprestou para que, após a leitura, fizesse uma série de perguntas? Teria sido desse período minha inclinação pela pesquisa e pelas obras pouco ventiladas, pois, se estudei tantas criações consagradas, quantas não foram as composições que aprenderia de autores não frequentados a partir do entusiasmo do mestre?

Foi, assim, um prazer rever essa antiga foto tirada na residência do Prof. José Kliass após uma das concorridas audições de piano que se realizavam, geralmente, todos os meses. A leitura dessa imagem, tirada há mais de meio século, dá a medida dessa afluência competente. Alunos e ex-alunos do mestre lá estão presentes. Ao fundo podemos notar, à esquerda, Ney Salgado, e à direita, o compositor recentemente falecido, Osvaldo Lacerda. Bem ao centro, da esquerda para a direita, Lídia Kliass, Lídia Simões, Yara Bernette, Odette Faria, Jocy de Oliveira, Clara Sverner. No primeiro plano, eu e meu irmão, Pietro Maranca e Marina Brandão. A segunda foto é do início de 1955, após meu recital em Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro.

Se as denominadas Escolas de Piano deixaram de ter no Brasil a aura que mestres reverenciados e competentes de outrora conseguiram conquistar em contexto sócio-cultural totalmente outro, mais ainda a figura de José Kliass se apresenta de maneira insofismável. Sob aspecto outro, a própria aura do pianista virtuose perderia o brilho. Impensável hoje o presente que o grande pianista francês Alfred Cortot (1877-1962) ganhou da Imperatriz do Japão em 1952, a ilha Cortoshima (em japonês, Cortot significa “solitário na illha do sonho”). Não há mais tapetes vermelhos a esperarem os intérpretes nos portos. Homogeneizou-se a carreira de pianista, pois hoje são incontáveis os que percorrem o planeta, tantos deles oriundos do Extremo-Oriente e quase todos egressos de concursos que possibilitam breves holofotes a tantos virtuoses, luzes essa dirigidas a cada ano a novos vencedores dos incontáveis concursos internacionais de piano. Executam majoritariamente as mesmas obras conhecidas do Sistema, obedecendo in totum o que fazem os pianistas já estabelecidos na carreira. Pouco a fazer! Mas o piano mantém um depositário repertorial que o torna único entre todos os instrumentos. Repertório conhecido ou oculto. Buscar a sua expansão deveria ser propósito, não imposição. Um manancial generoso está à espera de intérpretes que queiram trilhar essa senda mágica. A vontade como salvaguarda.

This post is a tribute to José Kliass, the Russian-born Jew who studied with Martin Krause, a pupil of Franz Liszt. Settling in São Paulo after the First World War, he had a very important school of piano and formed a legion of successful pianists. My brother and I studied with him for six years. Through Kliass’ links with outstanding masters throughout the world, his students had the chance to meet at the receptions held at his home in São Paulo names like Claudio Arrau, Walter Gieseking, Arthur Rubinstein, Villa-Lobos, Christian Ferraz, Gérard Sousay, Edouard van Remoortel, among others. Reserved, averse to the limelight, his exceptional contribution to piano teaching in Brazil has been neglected and his name almost forgotten.

 

Tema Recorrente

Biblioteca é um silêncio cheio de vozes
que se libertam e nos envolvem
sempre que abrimos as páginas de um livro.

Retornar às categorias repertoriais fez-se necessário após instigantes frases em um dos últimos e-mails do compositor  e pensador François Servenière. Nossa correspondência sobre os temas mais variados atingirá, brevemente, as cinco centenas de páginas!!! Comentários de obras musicais, interpretações, leituras, situação política, cotidiano. Um músico que tem o olhar multidirecionado.

Escrevia eu a respeito dessa necessidade interior de buscar o novo, não desprezando jamais o passado. Numa comparação metafórica, comentara que a repetição repertorial por parte de um intérprete pode ser equiparada à consulta repetitiva aos mesmos livros em uma biblioteca. Sendo esta a extensão de parte fundamental do que foi escrito, voltar-se durante toda a existência às obras sedimentadas nas primeiras quatro ou cinco décadas poderia representar uma estagnação do pensar. É lógico que essa visão crítica entende que tantos são os fatores que induzem o intérprete a ter de repetir ad infinitum o repertório solidificado: Sistema, acomodação, excesso de apresentações, atendimento ao grande público já preso ao tradicional, empresários, sobrevivência… A busca direcionada ao novo tem lá suas “regras” e o inusitado pelo inusitado pode resultar, tantas vezes, numa grande decepção, pois quantas não são as obras que, sepultadas, assim deveriam permanecer ad aeternum.

Escreve-me Servenière, a observar : “agradeço-lhe ter-me citado em um dos posts sobre a necessidade do viajante, tanto em corpo como em espírito. Creio que essa curiosidade insaciável, que o faz aumentar seu repertório sem cessar, ano a ano, é da mesma ordem que a necessidade do compositor ao criar sempre obras novas, como a do arquiteto em querer sentir  novo projeto, tão logo um finalizado. Você tem razão ao dizer que os intérpretes que não aumentam seu capital repertorial dirigem-se à facilidade, tantas vezes por motivos  relacionados à carreira e às mídias. É tão mais tranquilo e vendável executar ‘N’ vezes as obras musicais estandardizadas!”.

Retorno à biblioteca, pois a alusão teve guarida. Ao comentar com o amigo Fábio, disse-me ele que costuma frequentar bibliotecas e fica impressionado com a diversidade. “Quantas vidas para conhecer uma ínfima parte!”, comentou. Nada mais exato. Voltar-se aos clássicos da literatura ou das tantas áreas do conhecimento é imprescindível, mas há que se abrir os horizontes. Não por acaso a epígrafe deste post foi colocada. Tirada da capa de rosto de pequena publicação da Universidade do Minho, referente à magnífica Biblioteca Pública de Braga, a exibir, entre outras raridades, cerca de 400 obras do século XVI, contém a frase profunda sabedoria. Quando o ilustre amigo e arquiteto António Menéres, em post bem anterior,  refere-se à nossa lembrança e intimidade com o livro já lido, não elimina, antes consolida, sua enorme curiosidade de conhecer novas páginas em outros compêndios. Escreve: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir advinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para facilitar outros e novos convívios”. Considere-se que esse retorno não representa o cotidiano, pois esse maravilhamento vem desse “sempre que posso…” Em termos musicais, a repetição repertorial deixa de ser esse sempre que posso, para se transformar na rotina, mesmo que as obras insistentemente tocadas pertençam, a depender de cada intérprete, a um vasto catálogo aprendido e assimilado décadas atrás. O problema não estaria na quantidade de composições, mas no ato da não renovação.

Livro e partitura são gêmeos e pertencem ao inefável universo do conhecimento. A constante renovação, sem que se percam as amarras com acervo adquirido, tem um componente de aventura. Buscá-la significaria desvelar criações que estarão a propiciar uma infinidade de outras aventuras mentais: o porquê dessa obra ignota ter tão grande importância; os caminhos do compositor para chegar a determinado inusitado escritural; a relação do autor com coetâneos que tiveram a ventura da divulgação. O que pode ocorrer de mágico é, por vezes, depararmo-nos com verdadeiras obras primas. E elas existem. São tantas as ainda desconhecidas! Sob aspecto outro, quantas não são as criações que estão a surgir, sempre. No caso do contemporâneo, quão não são também os compositores panfletários que se auto ungem como “profetas” e que têm obras “aclamadas” por contingente infinitesimal de acólitos, que por vezes beiram o ridículo? Mormente no “universo” eletroacústico, quantidade incomensurável de obras subvencionadas por entidades as mais diversas tiveram uma única apresentação, quiçá umas pouquíssimas, antes de mergulharem em gretas abissais e lá esquecidas, até voluntariamente, por seus autores?

Continuo com minhas elucubrações, mormente pelo fato de estar a estudar uma significativa criação do ilustre compositor português Eurico Carrapatoso. Escreveu ele ultimamente uma Missa sem Palavras (cinco estudos litúrgicos para piano) para o meu já extenso caderno de Estudos Contemporâneos, iniciado em 1985. Dedicada In Memoriam a seu progenitor, que estaria a completar o centenário, a obra, com duração aproximada de 20 minutos, encanta-me. Há segmentos onde plana verdadeira magia criativa. A sua estréia se dará em Évora aos 2 de Junho, no belíssimo convento Nª Senhora dos Remédios, sob o patrocínio do Eborae Musica. Ainda teremos muito a falar dessa Missa.

Passado e presente. A incrível missão de um intérprete, verdadeira dádiva, é poder, durante a existência, navegar por mares conhecidos, mas sempre a sonhar com o que pode existir além da linha do horizonte.

Going back to the subject of performers that play the same repertoire over and over again, depriving audiences of a new and unique musical experience, I believe it is rather healthy – for the growth of both performers and public –  to promote new masters instead of offering the same alternatives year in, year out.