Apresentação do Dr. César Nogueira

Crê com todo o teu ser;
só assim terás atingido o máximo da dúvida.
Agostinho da Silva

A apresentação de meu livro “Impressões sobre a Música Portuguesa” deu-se em Coimbra aos 3 de Novembro último. Entre os ilustres professores doutores que se pronunciaram a respeito durante a cerimônia de lançamento, César Nogueira, musicólogo e regente coral em Coimbra, leu seu texto e acaba de envià-lo via internet.  À gentileza do gesto do pesquisador, soma-se a sua anuência, a meu pedido, para que inserisse a arguta apresentação em meu blog. Publico-a pois,  pelo fato, in adendo, de que durante vários meses, mercê da indicação dos competentes Professores Doutores João Gouveia Monteiro e José Maria Pedrosa Cardoso, o Dr. César Nogueira esteve à testa das revisões de um livro que tem cerca de 60 exemplos musicais, mormente em dois artigos analíticos. Se o prefácio do notável musicólogo e Professor Catedrático Mário Vieira de Carvalho sobrevoa a engajada literatura contida, analisando-a impecavelmente sob a égide de uma realidade que existe, hélas, nas culturas luso-brasileiras, o Dr. César Nogueira penetra em campo hermenêutico mais pragmático e pormenoriza determinados textos. É com prazer, pois, que partilho com meus leitores o texto de apresentação do competente  músico.

“Começo por agradecer à IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, pela oportunidade e a honra que me concedem de, aqui, hoje, participar na apresentação de IMPRESSÕES SOBRE A MÚSICA PORTUGUESA, Panorama, Criação, Interpretação, Esperanças.

Permita-me o autor, Sr. Professor José Eduardo Martins, pianista e musicólogo, iniciar a minha exposição, com uma primeira impressão, que ficou da leitura atenta do seu livro. Assim, não na forma, mas na substância, a obra parece-me claramente organizada segundo duas posturas distintas assumidas pelo autor. Numa, o Senhor Professor fala de si, como homem que também é músico. Na outra, respeita a atitude do músico que também é homem. Não se trata de enquadrar os textos destas duas classes distintas em partes físicas diferentes na organização textual já que estas duas posturas manifestam-se, entrecruzadas, em toda sua a narrativa. Na primeira, José Eduardo Martins deixa transparecer os traços fundamentais das raízes familiares, da formação e as linhas de conduta da sua personalidade no convívio com as múltiplas individualidades que se foram cruzando consigo. Apresenta-nos, aí, passagens plenas de afecto e de sensibilidade que vão construindo, no leitor, uma espécie de lastro onde se instala a ideia da vontade de conhecer, também, este brasileiro tão aportuguesado ou, vice-versa, este português – com a sua licença – tão abrasileirado. Dos testemunhos de José Eduardo Martins, fica-nos a ideia que, este homem, conheceu todo o meio musical português dos últimos 50 anos. Júlia d’Almendra, João de Freitas Branco, Sequeira Costa, Tânia Achot, Ivo Cruz (pai e filho), Lopes-Graça, Jorge Peixinho, Vieira Nery, Mário Vieira de Carvalho e Pedrosa Cardoso são alguns dos nomes que perpassam nos seus escritos, detendo-se mais nuns do que noutros, evidentemente. Destaco, neste registo – diria eu – assumidamente intimista, o texto: ‘A transparência através das cartas’, onde se evidencia a amizade, ‘em Debussy’, com a pedagoga e ‘debussysta’, Júlia d’Almendra.

De todo modo, em qualquer das duas posturas, é tanto o respeito e, mesmo, o amor pela música portuguesa e pelos seus cultores locais, que, em José Eduardo Martins, de facto, cumpre-se – não só neste seu livro mas, especialmente, na sua vida – um pouco da, sempre adiada, aliança cultural permanente entre Portugal e o Brasil. É bem sabido que todos temos desaproveitado, sistematicamente, esse património intangível mas muito real, que radica na circunstância de dois povos partilharem uma mesma língua, e tudo o mais, de comum, que esta condição comporta. José Eduardo Martins e a sua vida são a excepção a esta regra determinista e implacável que teima em separar o que é junto por nascimento e natureza. A este desígnio refere-se Mário Vieira de Carvalho, no prefácio a ‘Impressões Sobre a Música Portuguesa’, quando afirma, cito: ‘É neste contexto que a singularidade de José Eduardo Martins se agiganta. Ao longo de mais de cinquenta anos, não se limitou a manter e expandir contactos, a promover intercâmbios, como já o tinham feito Lopes-Graça e Jorge Peixinho ou, por exemplo, Gilberto Mendes. Foi muito mais além. Dedicou-se de uma forma continuada à investigação da música portuguesa’. E mais adiante, acrescenta, relativamente à postura de alguns intérpretes portugueses, mais alheios à produção composicional nacional: ‘Poucos ousam escapar ao cânone hegemónico nas salas de concerto ou na produção fonográfica: como se o intérprete precisasse do prestígio do cânone para se sentir ele próprio prestigiado enquanto intérprete, e a música portuguesa fosse um sacrifício, um ónus, que não valesse a pena’.

Ora, para José Eduardo Martins, a música portuguesa vale a pena e, é sobre a sua postura enquanto músico e sobre a maneira como esse músico intérprete se manifesta e reflecte sobre as suas opções estéticas e técnicas pianísticas que aqui me vou deter. E, posto este ponto prévio, que me ajuda a melhor encontrar o caminho desta intervenção, tomo a liberdade de destacar – pelo conteúdo eminentemente musicológico, na área da interpretação, da estética e da análise musical, diria eu, pura e dura – os textos sobre Carlos Seixas, Francisco de Lacerda e sobre Fernando Lopes Graça. Evidencio, ainda, um rico e bem fundamentado ensaio académico sobre interpretação: ‘Interpretação Musical frente à Tradição – Piano como Modelo’, embora, sobre ele, dada a escassez de tempo, não possa deter-me mais do que afirmar que é uma excelente peça de reflexão estética sobre a arte de interpretar reportório pianístico. Quando, atrás usei a expressão ‘pura e dura’, pretendi deixar claro que a linguagem usada, em alguns destes textos é marcadamente técnica, e a ela não terá fácil acesso o leitor menos informado nas coisas da música e, até, em concreto, se não existir alguma experiência e conhecimento básico no campo do que especificamente respeita às questões do que poderíamos chamar ‘pianismo’ ou, mais genericamente, como o próprio autor diz, ‘tecladismo’.

Assim, a título de exemplo, quando o autor alude à ‘técnica consagrada dos cinco dedos’ para, com isso, fazer valer a tese de que o piano herdou e desenvolveu aspectos técnicos e estilísticos do cravo – instrumento praticamente esquecido durante o século XIX – vale aqui lembrar que o uso do polegar foi uma conquista evolutiva da técnica do teclado e que, em 1716, em L’ART DE TOUCHER LE CLAVECIN, François Couperin defendia, ainda, o uso de se passar o 3º dedo por cima do 2º ou do 4º evitando, assim, utilizar o polegar! A generalização do uso do 1º dedo teria ainda de esperar. Em França, citando Patrick Montan, terá sido Jean-Philipe Rameau o primeiro a defender o uso deste dedo, tratando-o ainda, inicialmente, pelo seu nome anatómico e não pelo número ‘1’ com que mais tarde se rotulou. De igual modo, quando José Eduardo Martins compara Seixas com o Scarlatti, é preciso ter noções de leitura musical e perceber tipos distintos de textura. Diz o autor, e parece-me bem, que o discurso do compositor de Coimbra apresenta traços de uma certa irregularidade técnica e musical, sendo difícil, ao executante, antever, como em Scarlatti, o percurso do fraseado. Reside aí, também, parte do encanto e da qualidade do compositor – não é previsível, numa época em que, paradoxalmente, a previsibilidade era a componente estética do conforto mental. Digamos que Carlos Seixas ‘não vai’ para onde, naturalmente, as nossas mãos e dedos acham que ‘deveria ou poderia ir’. Ora, não é fácil fazer sentir isto a quem não conheça um teclado! Contudo, o modo como o discurso é organizado – simples e sem excessos estilísticos supérfluos – e porque as ideias são claras e, note-se, bem sustentadas pela experiência prática, o difícil revela-se fácil de explicar e de entender.

Mas José Eduardo Martins não se fica por estas observações meticulosas, naturalmente mais caras a pianistas e cravistas. Aventura-se, sem receios nem preconceitos, na defesa e fundamentação das teses que sustentam o uso de instrumentos modernos na performance da música antiga. E fá-lo com propriedade dando exemplos felizes da consagração desta ideia – grandes pianistas, de sempre, não tiveram pejo em ler Scarlatti, Rameau ou Bach e só um certo fundamentalismo conservador é que não vê, não só a ausência de desvantagens como os benefícios que esta prática pode conquistar. Sobre Seixas, José Eduardo Martins mostra-nos as suas primeiras impressões através do contacto com a pianista polaca Felicja Blumental cujas gravações dos cravistas portugueses impressionaram muito positivamente Santiago Kastner, primeiro estudioso do compositor conimbricense. Esse contacto precoce com o compositor barroco português parece ter representado uma marca indelével de tal modo forte que José Eduardo Martins jamais deixaria de tocar, gravar e a estudar Carlos Seixas e toda a envolvente que a interpretação pianística de um barroco convoca, como muito bem se evidencia em ‘As Sonatas para Teclado de Carlos Seixas Interpretadas ao Piano’.

Francisco de Lacerda – uma espécie de ‘Um Açoriano em Paris’ à portuguesa e, segundo Bettencourt da Câmara, o primeiro compositor impressionista português – em boa hora abandonou os estudos preparatórios de Medicina, no Porto, para estudar música e abraçar uma carreira de nível internacional, principalmente como regente de orquestra. José Eduardo Martins, nos capítulos: ‘Francisco de Lacerda – O Açorianismo Universal’ e ‘Claude Debussy e Francisco de Lacerda: correspondências sonoras’, enquadra as opções estéticas do compositor da Fajã da Fagueira no contexto dos ousados ventos de mudança da Paris de fins de oitocentos e princípios de novecentos. As abissais diferenças sociais e culturais entre S. Jorge e Paris podem comparar-se aos radicais antagonismos entre os ensinamentos conservadores da Schola Cantorum que frequentou na cidade das luzes e os atrevimentos radicais da estética do tempo protagonizadas por um Satie, um Debussy ou um Ravel. Imagine-se o choque para quem, nos dizeres de Bettencourt da Câmara ‘O murmúrio das vagas e o soprar da brisa fresca foram os seus primeiros mestres de música’! Mas esse choque foi muito bem resolvido por Lacerda. Do concerto de hoje ficámos, (ou) ficaremos, com essa mesma impressão! Sem dúvida marcado pela presença de Debussy, José Eduardo Martins lembra-nos, não só mas também, da opção de Lacerda pelo miniaturismo nas suas ‘Trente-six Histoires Pour amuser les enfants d’un artiste’, sem dúvida, uma das marcas de estilo do compositor francês. Particularmente no artigo dedicado à comparação entre Debussy e Lacerda, José Eduardo Martins desce ao pormenor músico-interpretativo mais recôndito só possível ao grande especialista que é, também, neste campo, como intérprete e como musicólogo.

Lopes-Graça aparece referenciado neste livro em nove capítulos. Cinco desses capítulos são dedicados especificamente ao compositor de Tomar e à sua obra. O autor mostra um conhecimento profundo da obra de Lopes-Graça e lança pistas, mais uma vez muito endereçadas a um público especialista, sobre critérios interpretativos na obra pianística, assim como descreve aspectos analíticos do maior interesse e oportunidade sobre o compositor e pianista, introdutor do modernismo em Portugal. Em ‘Alguns Aspectos do Idiomático Técnico Pianístico e da Escritura Composicional em Quatro Obras Essenciais de Fernando Lopes-Graça’, a profusão de citações musicais, com a colagem no texto de excertos de partituras da obra de Lopes-Graça, requer, por parte do leitor, mesmo daquele mais familiarizado com arte da música, grande concentração e empenho. Diria que é um texto não para se ler, mas para se estudar.

Não poderia terminar sem mencionar o artigo onde José Eduardo Martins evoca a publicação recente, também pela Imprensa da Universidade de Coimbra, de ‘História Breve da Música Ocidental’. Trata-se de fazer a justiça merecida à obra, de investigador, musicólogo e professor, de José Maria Pedrosa Cardoso que, no resumidíssimo volume, consegue traçar as linhas mestras da história da música ocidental, tarefa apenas possível a quem pode, pelo profundo conhecimento, separar o essencial do acessório sem cair, ainda assim, nas malhas do banal fácil e já mais do que suficientemente repetido até à exaustão. Mas a proposta literária de Pedrosa Cardoso não é, neste livro, a de um resumo condensado. A escolha dos títulos dos capítulos revela, por si só, estar-se, realmente, perante uma outra maneira de ver e de classificar os tempos da música no tempo e, desse modo, revela-se aqui uma nova história já que história não é só a verdade mas sim, e principalmente, a interpretação da verdade.

O livro de José Eduardo Martins não é só um livro. É um livro e um CD com 40 faixas de música interpretada pelo autor. Acaso não houvesse já razões de sobra para a justificação desta edição, só o facto de se acrescentar a possibilidade de ouvir a música sobre a qual se falou, representa uma originalidade valiosa pelos grandes benefícios que transporta.

Felicito, de novo, autor e editora pela obra lançada.

Obrigado.

César Nogueira”

Acabara de finalizar o post, quando recebo do ilustre Professor Henrique Manuel S. Pereira, da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto), o comentário sobre meu livro. Compartilho-o com o leitor, que poderá acessá-lo clicando no link:

http://guerrajunqueiro.wordpress.com/2011/12/14/impressoes-sobre-a-musica-de-junqueiro/

This week’s post is a transcription of the introduction to my book on Portuguese music that was released by the Coimbra University Press last November. This introduction was written by Professor César Nogueira, musicologist and choral conductor in Coimbra.

 

Fênix? Até Quando?

Mais n’espère rien de l’homme
s’il travaille pour sa propre vie
et non pour son éternité.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle – VI)

Se há cidade que nada preserva, esta é São Paulo. Os poderes estatal e privado, que sempre andaram de mãos dadas, ao longo das décadas conseguiram deitar abaixo o que restaria para as novas gerações ao menos entenderem nosso passado. Vergonhosa foi a destruição paulatina da Av. Paulista, hoje uma avenida descaracterizada. Há falta de unidade nos prédios, que não obedecem ao mínimo de básica simetria, imundície crônica das calçadas que fizeram dela um “falso brilhante”, insegurança para o transeunte…  O que parece evidente é que o cartão postal a apresenta preferencialmente à noite, pois as luzes disfarçam problemas e, nessa situação, a  Avenida tem lá sua beleza.

Estou a me lembrar dos velhos casarões que representavam parte de um período preciso da trajetória da cidade. Durante o biênio 1954-55, em que estudei à noite no liceu Eduardo Prado, a fazer esquina com a Rua Pamplona, ao sair da escola por volta das 23:30h caminhava sem pressa pela Avenida Paulista até bem perto do Instituto Pasteur. Era prazeroso esse caminhar. Frondosas árvores, postes com a iluminação antiga, casarões majestosos… De lá pegava o bonde, após este contornar a Brigadeiro Luís Antônio, e ia até o cruzamento da Av. Domingos de Moraes com a Av. Rodrigues Alves. Geralmente descia a pé por esta avenida até a casa onde morávamos, a pouco mais de 50 metros da atual Av. Dante Pazzanese, no Ibirapuera. O que sobrou das Avenidas Paulista e Angélica? Pouquíssimos exemplos, quase todos em estado sofrível. São exemplos que proliferam pela cidade. O poder econômico, sempre em conluio com as estranhas aprovações públicas, já pouco tem para destruir. Para quem teve consciência da cidade com pouco mais de um milhão de habitantes, só lembranças…

Quando insisto em considerar minha cidade bairrro, Brooklin-Campo Belo, a cada dia mais transformada em canteiro de prédios sempre mais altos, é por sentir ainda lampejo do passado existente. Alemães que para cá vieram, ainda na primeira metade do século XX, fizeram construir moradias com estilo que encontramos no sul do país. Muitas delas já deram lugar aos edifícios, a cada ano erigidos em maior altura.

Foi na década de 50 que meu pai comprou um terreno amplo em frente à Estrada de Santo Amaro, mais tarde Avenida, hoje uma das mais movimentadas vias da cidade. Construiu algumas casas que foram vendidas e, sobretudo, a morada da família, que ficaria concluída em fins de 1957. Pensava ele abrigar sob o mesmo teto todos os filhos e dependentes, sonho impossível. Apesar desse aspecto visionário, meus irmãos Ives, João Carlos e eu lá moramos, já casados, por breve período. Naquele período, basicamente nada existia no bairro. Inúmeros terrenos baldios e ruas sem pavimentação, mormente após duas ou três quadras da Avenida Portugal em direção ao Rio Pinheiros, assim como fossas sépticas e poços domésticos nas residências. Nesse segmento do bairro via-se imenso brejo com terra escura, que se encharcava no período das chuvas.

No piso inferior da grande casa não havia janelas que dessem para a avenida. A imensa sala de visitas tinha-as voltadas para as laterais da moradia. Tendo conhecido um artista plástico italiano que passava por São Paulo – infelizmente não nos lembramos de seu nome -, nosso pai contratou-o para fazer um grande mural em mosaico com motivos musicais, já a pensar em futuro Conservatório a ser dirigido por João Carlos e por mim, vontade que nunca se realizaria, por motivos vários concernentes às trajetórias diferenciadas dos irmãos.

O mural ficou pronto no momento da inauguração da casa. Era motivo de muita curiosidade. Na residência que abrigava sete pianos, sendo três de concerto na sala principal, meus pais realizaram inúmeros recitais, deles sempre com a participação de João Carlos e a minha, assim como audições de piano de nosso professor José Kliass. Lá se hospedaram os portugueses Fernando Lopes-Graça (compositor), Sequeira Costa (pianista), Ivo Cruz (compositor), Manuel Ivo Cruz (regente), a pianista francesa Maria Therèse Fourneau e tantos outros. Figuras ilustres da música brasileira, como Guiomar Novaes, Antonieta Rudge, Madalena Lébeis, Camargo Guarnieri, Eleazar de Carvalho, Souza Lima, o compositor argentino Alberto Ginastera e tantos mais frequentaram a grande morada.

Com o passar dos anos e dificuldades que nossa mãe passaria a sentir ao subir escadas, os pais se mudaram para a região da Paulista e lá permaneceram. A casa foi alugada e, desde o primeiro inquilino, cobriram com massa e tinta o grande mural-mosaico. Locatários se sucederam e novas pinturas sobre a pintura trataram de mais ainda tornar o mural “soterrado”. Com a morte de nossos pais, a casa foi finalmente vendida. Alugada há anos para a Academia Brasileira de Arte (ABRA), escola que presta relevante papel junto à comunidade com seus cursos especializados e exposições, novamente a parede aludida recebeu novas pinturas.

Laerte Galesso é meu amigo e dirige a ABRA. Encontramo-nos muitas vezes, seja em exposições de pintura – uma delas do excelente Luca Vitali, que tantas ilustrações criou para meu blog – ou pelas ruas de nossa cidade-bairro. Desde 2007 menciono ao Laerte a existência daquela obra de arte oculta, mural que apenas em uma antiga foto parcial era conhecido. Disse-lhe que seria necessário resgatá-lo. Neste 2011, Laerte empreendeu com seu irmão Evaldo a retirada das muitas camadas de pintura. Quase que diariamente compareci a essa exumação, que necessitou de acurada sensibilidade por parte de Evaldo. Com formão sensível conseguiu retirar, com rara habilidade, as muitas camadas de pintura, sem destruir mínimo segmento do grande mural. Finalmente, após trabalho sereno, árduo, mas sem a pressa que elimina o bom desempenho, conseguiram os irmãos revelar o mural-mosaico, realizado em 1957, mas encoberto desde o começo dos anos 70.

Como era intenção de nossos pais transformar a casa em um Conservatório, o grande mural de 12m por 3m exibe motivos do universo da música: lira, alaúde, dançarinos - extremamente bem elaborados - e, a preponderar, um imenso teclado perpassado pelo pentagrama, a preconizar os futuros de João Carlos e o meu.

Neste dia 9 de Dezembro haverá a reinauguração. Parte de uma história relativamente recente, mas que fora apagada, retorna em plena pujança. A ABRA está de parabéns, e a comunidade da cidade-bairro poderá doravante ter diante dos olhos uma obra artística especial. Façamos votos para que vândalos, que infestam a cidade, não a destruam. Oxalá não a importunem. Votos também para que outro tipo de destruidores do passado da cidade, as incorporadoras, não tentem adquirir, com a avidez que lhes é peculiar, essa morada hoje com seu mural-mosaico, uma obra de arte recuperada da cidade-bairro Brooklin-Campo Belo.

In the fifties my father commissioned from an Italian artist a mosaic mural to adorn the facade of our home in São Paulo. The years went by, my parents moved into an apartment, the property was rented and the mural – a tribute to the arts, displaying dancers, a lyre, a lute and a giant keyboard – was covered by layers of cement and paint. The current tenant is ABRA  (Brazilian Academy of Art), a school of arts. The director, at my suggestion, agreed to restore the mural, and it will be re-inaugurated on 9 December. A work of art recovered and offered as a gift to the community.

E Findamos a Digressão

O Outono se expande no hemisfério norte. Faz-se sentir através da paisagem arborizada, mas a ter preferencialmente folhas caducas e poucas perenes. Sentimo-lo no percurso Tomar-Guimarães, antes da chegada a Braga. Desde a infância constitui minha estação escolhida. Se as flores primaveris encantam no despertar de longo período, seriam os tons dourados das follhas das árvores,  anunciando o longo inverno, que mais me impressionam. À medida que o carro desliza pela auto-estrada, caminhos plenos de folhas podem ser vistos. No Bom Jesus de Braga, na bela morada dos diletos amigos Teotónio e Maria Teresa Santos onde ficamos, à altura do início da célebre e longa escadaria a exibir em suas laterais, progressivamente, as capelas devocionais, de maneira mais acentuada as cores outonais podem ser sentidas. As colinas vislumbradas da morada abastecem o olhar atento. A cada dia transfiguram-se na luminosidade, pois as árvores estão a se desnudar. O solo, mormente quando raios de sol incidem obliquamente, revela todo o esplendor dos tons da serenidade, que se modificam à mais tênue brisa sobre as folhas secas. São em terra o que os Reflets dans l’eau, de Debussy, traduzem sonoramente.

Em Braga o recital teve características extraordinárias. A competente e dedicada professora Elisa Lessa coordenou uma apresentação diferenciada. Teve como colaborador o impecável Rui Feio e alunos da muito bem estruturada Escola de Música, que apresenta uma arquitetura plena de brilhantes soluções. Organizaram uma cuidadosa exposição e foram encontrar tanto em meu site, como em outros arquivos, fotos da trajetória musical amorosa do intérprete. Creio que a relação de afeto seja o primordial impulso que me leva a sempre prosseguir. Conseguiram atingir o âmago de meus 73 anos. Em um dos corredores da Escola, colocaram os cartazes alusivos. Jamais acontecera antes e me emocionei, principalmente por ter meu saudoso pai nascido no Distrito de Vila Verde, mas registrado àquela altura, nos estertores do século XIX, em Braga.

Não houve data show, tão bem preparado pelo professor Pedrosa Cardoso, por motivos técnicos, mas o público reagiu extraordinariamente às obras apresentadas. Após a récita e a sessão de autógrafos de meu livro, lançado no início de Novembro pela Imprensa da Universidade de Coimbra, a professora Elisa Lessa ofereceu um jantar carinhoso na Escola. Como o recital começara às 18:00h, eis que, vinda do Porto com seu filho, chega à Escola por volta das 20:00h a notável violoncelista Madalena Sá e Costa, irmã da saudosa pianista e professora Helena Sá e Costa. Completaria 96 anos no dia seguinte, mas fez-se presente ao recital que acabara de ser realizado, pois tanto ela como seu filho, arquiteto Luís, equivocaram-se quanto ao horário. Com memória prodigiosa, lembrou-se com pormenores de nossa apresentação em Janeiro de 1986 na cidade do Porto, na Delegação Regional do Norte, onde realizamos um recital que marcou. Lembranças vieram, inclusive, do programa interpretado com empolgação. Obras de Beethoven e Luís Filipe Pires. Findo o jantar, em cumplicidade com Elisa Lessa, levamos Madalena Sá e Costa ao auditório. Uns poucos nos acompanharam. Primeiramente, saudei-a ao piano com o “Parabéns a você” e toquei Rameau, Carlos Seixas e ainda uma obra de Fernando Lopes-Graça. Regina, que adentrara à sala, sob minha insistência homenageou-a com uma Sonata de D. Scarlatti e Saci, de Villa-Lobos, completando com um “Parabéns a você” bem mais incrementado do que o meu, este, um simples coral. Uma noite a não ser esquecida.

No dia seguinte houve a última apresentação. Deu-se em Póvoa de Varzim. Organizado pela Escola de Música, tão bem dirigida pelo professor e regente José Abel Carriço, o recital teve lugar no Auditório Municipal. Um magnífico piano de concerto Fazioli, tão raro nas salas pelo mundo devido à diminuta produção esmeradamente artesanal, estava à minha disposição. Realmente um instrumento que reage às mais sensíveis intenções. Um público atento acompanhou com entusiasmo o repertório apresentado durante toda a tournée. E mostrou-se receptivo ao livro “Impressões sobre a Música Portuguesa”.

O balanço dessa peregrinação musical tem aspectos altamente positivos. Estou absolutamente convicto de que o repertório inusitado merece a guarida necessária. Continuo a insistir perante os prezados leitores de meu blog. Os ouvintes gostam dele, a depender de como os organizadores que conhecem a arte musical  promovem o evento e também, em estado sine qua nom, da maneira como ele é apresentado. É lógico supor – a constante está a demonstrar através dos tempos a assertiva – que agentes não versados em música, mas nos resultados financeiros, não têm apreço pelo novo, passado ou presente. Insistem na mesmice e empobrecem mentes, que se fossilizam na repetição. O “novo histórico” é revelador e mostra ao homem a riqueza de talentos privilegiados, que souberam compor na perfeição, mas permaneceram ignotos. Nunca é demais insistir.

Sob outra égide, a minha devoção à música para piano de Portugal, como a de nosso país em segmentos que elegi, continuará. Ainda há repertório não divulgado de raro valor. O manancial lá está, depositado em coleções particulares, em bibliotecas ou museus. Esse debruçar jamais exclui a atração pela contemporaneidade e uma das grandes alegrias que tenho como intérprete é poder revelar obras de hoje. Se François Servenière e Eurico Carrapatoso, dois notáveis compositores, integraram tematicamente o repertório da tournée que ora finda, outros autores, de Portugal, do Brasil e alhures, estarão a me interessar. Dar sentido à vida nessa revelação que se renova anualmente é realmente uma dádiva.

A digressão para 2012 já está a ser pensada. Como habitualmente faço, com exceção do recital em Coimbra, precedido da apresentação do livro na presente turnê, deverei começar por Lisboa. O Templo de Lopes-Graça, a Academia de Amadores de Música, onde dei meu primeiro recital aos 14 de Julho de 1959, a convite do compositor Lopes-Graça, continua perenemente a ser “o meu primeiro e virginal abrigo”, parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior.

For the last three weeks I’ve been writing about my concert tour in Portugal. This is the last post of the series, covering the recitals held in Braga and Póvoa de Varzim.