Acadêmico Honorário

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Mais custa quebrar rocha do que escavar a terra;
mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou.
A grandeza da obra é quase sempre devida
à dificuldade que se encontra nos meios a empregar.

Agostinho da Silva

O nosso gênio maior, Heitor Villa-Lobos, fundou, aos 14 de Julho de 1945, a Academia Brasileira de Música, a seguir as estruturas da Academia Francesa. Seus quarenta Acadêmicos são figuras de relevo em nosso meio musical nas áreas composicional, interpretativa e musicológica.
Reunir-se em torno de uma Academia é prática antiga que remonta, em moldes outros, à Antiga Grécia. Seria, contudo, a partir do século XVI que a Europa viu nascer as Academias constituídas de ilustres personalidades na áreas literária, artística e científica. A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1896 e teve como primeiro Presidente Machado de Assis.
Após várias reestruturações, passou a Academia Brasileira de Música a contar com quarenta membros efetivos. Dos mais de 100 Acadêmicos que por lá passaram, destaquem-se as figuras de compositores extraordinários como Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Lorenzo Fernandes; os notáveis membros intérpretes Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Antonieta Rudge, Arnaldo Estrela, Magdalena Lébeis, Iberê Gomes Grosso e musicólogos da estatura de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Cleofe Person de Mattos, Renato Almeida. Após a gestão do ilustre compositor Ricardo Tacuchian, atualmente preside a instituição o consagrado violonista Turíbio Santos.
Sob outra égide, mormente nessa duas últimas décadas, a Academia Brasileira de Música tem se destacado num profícuo aprofundamento de resgate de nossa memória musical, salientando-se publicação de partituras, edição de CDs contendo o repertório pátrio, organização da respeitada Revista Brasiliana e a realização de concertos e conferências, tendo como fulcro a criação, interpretação e o pensar a música brasileira de várias tendências. A instituição cultural não tem fins lucrativos.
Foi pois com surpresa e alegria que recebi a informação da ABM a respeito do título de Acadêmico Honorário que me seria oferecido. Anteriormente, dois músicos da maior competência haviam recebido a homenagem: Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005) e Gilberto Mendes (1922- ). Na data prevista, de 16 de Novembro apresentarei, palestra – O intérprete frente ao repertório musical brasileiro – hesitação, complacência, vontade - e recital com obras de Henrique Oswald, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, H.J.Koellreutter, Jorge Peixinho (Villalbarosa em homenagem a Villa-Lobos) e Ricardo Tacuchian. Brevemente o texto da palestra estará inserido no item Essays de meu site.
Ao mencionar como subtítulo da palestra um tripé fundamental, hesitação-complacência-vontade, responsável em parte pela inserção de nossa rica produção composicional no cenário nacional e do Exterior, fixo-me preferencialmente na criação pianística. Mas, sob outro contexto, os termos podem servir a todos gêneros musicais. Seria constrangedor afirmar que basicamente nosso repertório não é conhecido, mas é triste realidade. A ponta de um iceberg faz ver o pouco que é frequentado por nossos intérpretes. Sim, há inúmeros pianistas que cultuam, aprofundam-se na busca incessante de nossas riquezas, mas a grande maioria contenta-se com a ponta citada. E a visão dessa extremidade privilegia umas poucas obras de Villa-Lobos – sempre as mesmas –, outras poucas de Camargo Guarnieri – alguns Ponteios, as Danças Brasileiras – e outras mais de Francisco Mignone em suas deliciosas Valsas de Esquina. A opera omnia de Villa-Lobos é frequentada por alguns pianistas mantendo-se Camargo Guarnieri e Francisco Mignone numa constrangedora penumbra, apesar do valor incontestável desses dois monumentos de nossa história e da dedicação de pianistas respeitáveis. O que se ouve, quando se ouve, do repertório pátrio é praticamente estruturado em obras marcadas e reiteradas. Dir-se-ia que a mesmice quanto ao “grande repertório” internacional se repete no que se refere à nossa produção. Intérpretes corajosos tem buscado o resgate da criação de nosso passado – aquela não visitada – de Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Lorenzo Fernandez, Frutuoso Viana, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro e, sob outra égide, Ernesto Nazareth, mas são exceções. Há inclusive executantes que heroicamente têm como único desiderato em suas trajetórias a interpretação de nosso preciosíssimo acervo. É fato, mas a mídia procura ignorá-los. E todo o mal está feito. Mencionar alguns desses intérpretes fatalmente faria com que me olvidasse de outros, daí generalizar desempenhos por vezes descomunais. Apreendi a lição quando indaguei ao compositor e bom amigo Sérgio Vasconcellos Corrêa – acadêmico efetivo da ABM -, a respeito de seu nome não figurar numa lista onde constavam vários autores mais hodiernos. Sorridente, respondeu-me: “eu integrava o final da frase … outros”. Se verificado for o conjunto da composição mais contemporânea, escrito nestes últimos 50 anos, tem-se verdadeira desolação no quesito apresentação pública. O ouvinte poderá ler na programação a inserção de uma ou outra obra, mas a submersão se torna quase que imediata. Tantas substanciais produções atingem uma ou poucas mais apresentações e deslizam para as profundezas.
Sob pressão do Sistema, a necessidade de sempre se ouvir as mesmas composições de autores selecionados, o adolescente e o jovem têm na hesitação fator fulcral. Essa atinge o repertório pátrio, que não faz parte do sempre denominado “grande repertório”. A hesitação é fruto do desconhecimento. A repetição ad nauseam das mesmas obras faz com que esse mesmo jovem não hesite ao escolher Mozart, Beethoven, Chopin ou Liszt, mas, frise-se, sempre a insistir no que todos tocam. É até humano, se considerado for o quesito comparatividade entre intérpretes. Procedimento, infelizmente, solidamente enraizado. Da hesitação advém a complacência, um estágio até certo ponto mais grave do que a hesitação. É quando o intérprete ainda em formação estuda por que tem de estudar nossa música, e o professor, benevolente, escolhe aquilo que ele tem de ensinar, o repetitivo.
Somente com vontade será possível quebrar a enferrujada corrente da escuta repetitiva. Contudo, haverá necessidade de força hercúlea para rompê-la. A vontade será o estímulo a levar o intérprete a se dirigir ao nosso romantismo tão negligenciado, buscar no prolongado movimento nacionalista obras de mérito ainda não visitadas e a ter a coragem de enfrentar o repertório brasileiro mais hodierno, mesmo que ouvidos de um público não acostumado mostrem-se obstruídos numa primeira fase, resultado da inércia do Sistema.
A longa convivência com tantos compositores de mérito deu-me a certeza de que há que se incentivar ainda bem mais acentuadamente a cultura da escuta do inusitado, não só do passado, em estado de hibernação em nossos arquivos, mas também da música qualitativa que está sempre a jorrar das mentes de nossos compositores. Torna-se necessária a permanência de criações extraordinárias no repertório efetivo, destinadas que serão ao esquecimento, após a “aparência” da perenidade representada pela “primeira audição”. Se o intérprete não abandonar essa sedimentação na complacência, a criação estará em seus dedos apenas superficialmente, sem ocupar os espaços da mente e do coração. E todo o mal para a nossa preservação musical estará feita.
Todos nós temos nossos limites. Dentro de suas fronteiras é sempre possível vislumbrar outros horizontes. O fato de ter percorrido substanciosa fatia do repertório internacional super divulgado até os anos 1970 fez-me modestamente entender que não apenas o inusitado do Exterior, mas o que permanecia em nosso solo mereceria um olhar diferenciado. Notáveis intérpretes tinham percorrido o caminho e outros já estavam a trilhar essa senda. Serviram-me de exemplo. Novas composições pátrias do passado ou as que me chegam às mãos ainda com a tinta fresca de compositores de mérito são lidas e executadas com aquilo que denomino relação amorosa. Seria possível acreditar que a honra de me tornar acadêmico honorário junto à tradicional Academia Brasileira de Música tenha advindo desse trabalho diuturno de um artesão da música que, aos 72 anos, ainda vislumbra novos sons a conquistar e que serão desvelados nessa estrada sem volta.
Se o piano representa meu pulsar, o texto reflexivo dele faz parte. Amálgama. Se livros já publiquei, foi contudo o blog, mormente após minha aposentadoria, que passou a integrar parte de meu pensar. E que assim continue. Em tantos textos a música brasileira lá está, a ser integrante de meus afetos. Seria possível entender que os escritos tenham corroborado a generosa indicação de meu nome para a homenagem em apreço.
Do programa do recital abreviado, devido a extensão da palestra, diria que apenas o Estudo (1897) de Henrique Oswald (1852-1931) não teve a intensa ligação compositor-intérprete. Qual não é o prazer de um músico ao olhar para trás e verificar que o redescobrimento de Henrique Oswald por ele empreendido a partir de 1978, mercê do apoio incondicional da neta do compositor Maria Isabel Oswald Monteiro, tenha gerado após minha tese de doutorado junto ao Departamento de História Social da FFLCH da Universidade de São Paulo em 1988 mais de dez teses no Brasil e no Exterior? As gravações de LPs no Brasil e CDs na Bélgica com obras de Oswald nestes últimos trinta anos apenas ratificaram a ligação que tem de ser amorosa com a obra.

Estudo nº 1. Hans-Joachim Koellreutter. Clique para ampliar.

Quanto às outras composições, diria que, ao encomendar ou convidar um compositor para uma viagem temática, o intérprete torna-se cúmplice, integra a criação, está nas entrelinhas pautadas. Isso ocorreu desde sempre na história da música. Estou a me lembrar de Gheorghi Arnaoudov, excelente compositor da Bulgária, que após meu recital em Sófia disse-me que escreveria uma obra especialmente para as minhas mãos. Meses depois recebia um magnífíco e dificílimo Estudo Et Iterum Venturus (1997) onde o “arsenal” técnico-pianístico e uma apreensão do universo timbrístico lá estavam depositados.
Gilberto Mendes, compositor, pensador e fraternal amigo, abdicara de seu passado para piano conservado em um baú. Insisti. Abriu-o e de um pacote amarelecido pelo tempo encontrei um tesouro. Hesitou em dizer que “aquilo” não tinha importância. Sentei-me ao piano e li Sonatina à la Mozart de 1951. No final sorriu, a dizer: “não é que ela á bonita”. Meses após, apresentava em recital esse maravilhoso passado constituído por cerca de 20 peças. A Sonatina gravaria na Bulgária. Editada na Bélgica, já está disseminada em recitais e CDs pelo mundo, dedilhada por outros pianistas. Solicitei ao saudoso e dileto amigo, o insigne compositor Francisco Mignone (1897-1986), uma composição para tocar em terras lusíadas numa apresentação que privilegiaria Portugal-Brasil. Escreveu Adamastor, O Gigante das Tempestades (1979), inspirado em Camões. Recebi com emoção o manuscrito autógrafo e a peça, como anteriormente acontecera com Il Neige de Nouveau. Fazem parte de meus afetos. No programa do recital na ABM, Estudo para José Eduardo I (1991), do tríptico de H.J.Koellreutter, o primeiro músico a receber o título de Acadêmico Honorário da Academia. Compositor e dedicatário fazem parte da criação, pois o autor indica e o intérprete participa do ato, ao ter a sua própria visão de uma proposta configurada. Como escreve Koellreutter: “O Estudo para José Eduardo é uma obra aberta, um ensaio (essay), um experimento artístico destinado à verificação da validade de uma grande parte de conceitos sugeridos pela nova imagem do mundo, na área da estética musical”. Seguindo rigorosamente o esquema montado por Koellreuter, jamais a obra tem a mesma estrutura em meus dedos, pois temos, paradoxalmente, uma criação que pode se alterar com o passar do tempo, a não ser que esteja notada. Essa “mutação” permite-me realizar outros caminhos na complexa proposta. Se estruturada por outro pianista, certamente o Estudo de Koellreutter será rigorosamente diferente. A peça de outro saudoso amigo, o notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995), foi composta para o caderno que coordenei como tributo ao centenário de nascimento de Villa-Lobos, ocorrido em 1987, publicado pela Universidade de São Paulo. Dez autores do Brasil e do Exterior participaram. Villalbarosa é a homenagem de Peixinho. Por fim, o Estudo Avenida Paulista, em que o notável Ricardo Tacuchian apreende a pulsação sem limites da megalópole que é São Paulo. É possível ouvir o cosmopolitismo paulistano nessa visão também estressante da cidade. A magia de Avenida Paulista vem, entre outras virtudes, dessa captação. No YouTube, o prezado leitor poderá ouvi-la, com imagens da famosa avenida.
Roland Barthes, ao ingressar no célebre Collège de France, disse que não sentia honra, tampouco orgulho, mas prazer. Não seria esse o verdadeiro termo, pois há muito de lúdico nesses momentos que estou a viver, somando-se à palavra emoção ? Bem haja !!!

The Brazilian Academy of Music was founded in 1945 by the composer Heitor Villa-Lobos and its 40 members are outstanding figures in the Brazilian music scene. It was thus an honor to me to know that I will be nominated an Honorary Member, a title only conferred twice before. On 16 November in a ceremony at the Academy auditorium in Rio de Janeiro I will give a brief oral presentation (The Interpreter and the Brazilian Repertoire – Hesitation, Complacency, Will) followed by a recital with works by Henrique Oswald, Gilberto Mendes, Francisco Mignone, H.J. Koellreutter, Jorge Peixinho and Ricardo Tacuchian.

Trabalhar em perene nocaute

Desenho de Luca Vitali. Clique para ampliar.

Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer…
Vicente Celestino

Minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, não deixa de surpreender. Cada vez mais populosa, prédios insanamente construídos, buscando alturas cada vez mais elevadas, após aprovações estranhas do poder público. Quão mais altos, maiores os lucros, e nada se faz para coibir essa desenfreada festança. A transformação traz populações de todos os quadrantes da urbe desestruturada, pois há a necessidade de suprimento humano, não apenas para serviços domésticos, como para os incontáveis escritórios e empresas que se aglomeram desorganizadamente sob o aspecto urbanístico.
Estava a tomar meu curto e a ler um interessante livro que reposiciona o conceito do erro, quando Tadeu, frentista de um posto das imediações, cumprimenta-me alegremente. Convidei-o para tomar um café. Atendeu-me, a dizer que teria de ser rápido, pois regressaria ao labor. À certa altura perguntou-me se morava há muito tempo no bairro. Respondi-lhe que, no mesmo quarteirão, há 52 anos, não descontando os anos passados no Exterior a estudar. Como estavam a reparar as tubulações do posto de combustíveis em que trabalha, indagou-me sobre as condições do passado. Foi o bastante para surgir em minha mente a figura do Zé, o da “Sirose”, o homem das manilhas subterrâneas.
Nos anos 50-60, basicamente inexistiam edifícios no bairro. Casas, estabelecimentos comerciais simples pelas esquinas, uma Av. Santo Amaro com trânsito até modesto e, a partir da Av. Portugal, um quase grande charco que se estendia até o Rio Pinheiros. Poucas residências, muitas ruas ainda não asfaltadas, a ausência de serviço de esgoto e a presença constante, ao entardecer, de grandes aranhas que vinham das áreas mais baixas, assim como ratazanas avantajadas. As moradias eram cercadas por portões de não mais de metro e meio e não havia grades em portas e janelas, pois vivia-se outra realidade.
O Zé da “Sirosi” era um ex-presidiário – jamais consegui extrair dados sobre seu passado – que perambulava pelo bairro a prestar todo tipo de serviço relacionado a encanamentos, sobretudo aquele das águas e materiais orgânicos que chegavam às fossas sépticas. Sim, naqueles tempos só existiam esses reservatórios nas casas. Serviam como depósito de tudo que descia pelas manilhas de barro. Periodicamente, caminhões providos de grossas mangueiras retiravam da fossa todo o material sólido e outros mais que subiam à superfície dessas enormes caixas cilíndricas sob a terra, provocando uma nectarização pouco agradável. Sorumbático, discreto e de poucas palavras, Zé mostrava-se entendido no processo todo até a fossa séptica e nunca demonstrou animosidade quando a trabalho.
Zé da “Sirosi” era pois o “cara” das cercanias a tudo entender, apesar do estado precário de equilíbrio em dias determinados. Encharcava-se de bebida durante os fins de semana, e quase sempre, quando realizava um trabalho em uma das casas, surgia no início dos dias úteis meio nocauteado e, tantas vezes, com os olhos entumescidos em decorrência de brigas com “amigos” ou outros personagens. Sentia-se um derrotado, mas quando sóbrio era de extrema habilidade e bom senso nas observaçõs concernentes aos encanamentos. Percebia a presença de problema relacionado a entupimento, como os índios dos filmes de faroeste americano antecipando a chegada da cavalaria, dos bandidos ou dos mocinhos. Pedia silêncio, deitava-se e, orelha voltada ao chão, ouvia a “correnteza” ou auscultava o ponto da obstrução. Sem pestanejar, munido de picareta ou formão, chegava ao estrangulamento. E não errava. Após, introduzia um longo cabo de ferro dentro da tubulação e desobstruía o entupimento com competência.
Como jamais abordou o longo período prisional, pouco falava durante o trabalho. Após a labuta “especializada” ficava irreconhecível, mas percebia-se em seu olhar uma surda satisfação pelo dever cumprido. Era bom naquilo que fazia. Por várias vezes tentei penetrar naquela muralha mental. Só apreendi que chegara ao fim do caminho segundo ele, pois nada mais esperava da vida. Certa vez perguntei-lhe sobre a desmesurada bebida dos fins de semana e sobre a possibilidade de diminuir a ingestão de tanta cachaça. Respondeu-me que era sóbrio durante a semana, pois tomava apenas poucas porções da pinga, devido ao trabalho, mas que de sexta-feira a domingo esquecia-se do passado, do mundo que o cercava e da vida
e bebia duas garrafas de aguardente, o que o levava à total alienação. Você sabe que não terá chance, afirmei-lhe. “O dotô falô que tô cum sirosi no figdo. Tá como vrido quebrado. Num tem jeito não”. Expressava-se com simplicidade e sempre de maneira reservada.
Pobre Zé. Soube naqueles tempos, através do barbeiro Samuel, um português que conhecia toda a vizinhança, que o Zé morrera assassinado numa das brigas, durante a alta embriaguês. Não foi a cirrose a responsável final, mas o descaso total de nossos governantes que jamais preparam o preso para a readaptação à sociedade, desde sempre. Seria bem possível imaginar que, reeducado intramuros, o Zé da “sirosi” pudesse encontrar um caminho digno fora de nosso abominável sistema prisional, um dos mais absurdos do planeta.
Tadeu, o bom funcionário, ouviu a história do Zé da “sirosi”. Como bom cidadão, antes de se despedir, confessou-me: “Se o conhecesse, poderia ajudá-lo”. Os bons exemplos sempre surgem desse povo anônimo que labuta, paga impostos altíssimos e não tem retorno por parte dos governos. Enraíza-se, cada vez mais profundamente, a irracionalidade dos homens que dirigem este Brasil de tão grandes desigualdades. Hoje já não são soltos os Zés, mais legião deles, pois as prisões estão abarrotadas. Poucos conseguem a readaptação quando a âncora familiar os apoia, tantos outros são coptados pela chaga da humanidade, a droga, que, hélas, está a levar a civilização a um outro nocaute.

Relato Competente e de Interesse

Molde original da mão de Chopin feito por Clésinger (Museu Carnavalet). Clique para ampliar.

Me vint aussi la consolation d’être délié de mes entraves,
comme si toute cette chair racornie
je l’avais échangée dans l’invisible ainsi que des ailes.
Comme si je me promenais, enfin né de moi même,
en compagnie de cet archange que j’avais tellement cherché.

Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle, chap. XLV)

Foram inúmeros os e-mails recebidos sobre o post de 9 de Outubro. Agradeço a solidariedade dos leitores que externaram apoio e votos de pronto restabelecimento. Chega-se a uma idade em que a intervenção cirúrgica corresponde a um desabrochar de esperanças e essa ideia é estimulante, mormente se a operação é realizada nas mãos, fulcro maior da comunicação musical com o ouvinte. Felizmente tivemos, após a cirurgia de 5 de Julho, uma lenta e cuidadosa preparação para o primeiro recital, que se realizou no último dia 27 de Outubro na Casa de Portugal de São Paulo, a fazer parte do excelente curso O Som de Portugal ministrado pelo ilustre professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso.
Entre os e-mails, um deixou-me perplexo, não apenas pela dimensão, como pela clareza ao tratar de episódios que podem, eventualmente, levar um pianista ao mal que me acometeu nos dois polegares, sendo que o da mão esquerda já em processo de recuperação após a cirurgia.
François Servenière (1961- ) é compositor de sólida formação, produção diversificada e meritória, e pensador, algo incomum entre os músicos, geralmente não afeitos à linguagem escrita literária. Em seu site pode-se aferir sua rica atividade musical (www.francois-serveniere.com), ou em outra via (http://www.youtube.com/EsolemProduction). Anteriormente entrara em contato comigo, mercê das já 40 músicas por mim gravadas e inseridas no YouTube. Tem tecido comentários de absoluta competência, pois teve muito boa formação pianística. Costuma realizar, quanto aos meus textos do blog ou dos Essays, a conhecida tradução automática, que, apesar de falhas acentuadas, leva o leitor a compreender razoavelmente do que se trata. Quanto a mim, busquei traduzir as considerações do compositor.
Servenière observa, em depoimento que deveria ter guarida entre os instrumentistas: “Li com muito interesse o post sobre sua operação do polegar da mão esquerda. Você relata uma experiência com a qual muitos pianistas atuais se confrontam, notadamente aqueles cujo repertório destina-se ao século XX. Somando-se à virtuosidade beethoviniana e lisztiana do século XIX, os compositores acrescentaram um nível técnico suplementar, entre os quais o relacionado às aberturas dos dedos e às escalas dodecafônicas, que não são muito naturais no teclado às mãos formadas na tradição.
Intérpretes japoneses disseram-me que minhas obras Rhythmics and Repetitives, que tocaram em recital e gravaram em CD, são tão difíceis como aquelas de Charles-Valentin Alkan. Não sei se é um cumprimento ou uma reprimenda”. Alkan (1813-1888), compositor francês de origem judaica, notabilizou-se por ter escrito obras de extrema dificuldade técnico-pianística. Privou da amizade de Franz Liszt (1811-1886). Prossegue Servenière: “Quando nós escrevemos música, nunca pensamos no martírio dos intérpretes, jamais nos problemas de saúde e no fim cirúrgico que surgirá um dia ou outro por força das circunstâncias, obrigando-os a uma ginástica tão antinatural, tão pouco ortopédica”. Lembrei-me incontinente de duas obras de compositores belgas que deveriam integrar a magnífica seleção que constitui o CD New Belgian Etudes, lançados pela Rode Pomp em 2004, onde dez dos mais expressivos autores belgo-flamengos estão representados, sendo algumas das composições, transcendentais. Os dois Estudos em apreço extrapolavam, e muito, a utilização limite – se assim podemos definir – do posicionamento das mãos, tamanha as atrozes dificuldades que se apresentavam. Foi árdua a edificação interpretativa, mas no ato da gravação constatei, só naquele momento, e não no recital dias antes, que as obras não vingariam tão grandes foram os impecilhos “criados” pelos autores, a meu ver a beirar a arbitrariedade. Havia o exagero pelo exagero exposto por dois compositores de talento e respeitados, mas… Abortei-as, apesar de terem sido a mim dedicadas. Recebi os cumprimentos do engenheiro de som Johan Kennivé e de Alphonsus Medinilla, amigo, professor e pianista que compareceu às gravações em Mullem, no coração da Flandres. Entenderam-nas desproporcionais. Exemplifica bem o não pensar de determinados compositores nessa fronteira que sempre está exposta, mas que deveria ser ultrapassada de maneira coerente. Continua Servenière “Os compositores só pensam na música. Estudam a técnica dos instrumentos, mas estão de tal forma persuadidos de que os intérpretes de música são símios universais, que não terão nenhuma dificuldade em tocar esta ou aquela passagem, convencidos inclusive, a partir da história da evolução das técnicas instrumentais, de que todas as dificuldades acabaram por ser dominadas, não dando pois a menor atenção à problemática, sendo o fato hoje flagrante. Aos intérpretes a função de se ‘virarem’ com aquilo que lhes é apresentado ! O pior, virou norma !” François Servenière, após citar um desses colossos técnico-pianísticos da atualidade, afirma: “Quando os compositores vêem isso, indagam-se naturalmente que a técnica que presenciam é a última fronteira, a configurar-se pois o limite extremo da virtuosidade para o qual se faz necessário compor, escrever. É triste, mas é a realidade que se nos antolha.
Sob outra égide, estaria programada na cabeça dos compositores, uma mudança que os obriga a ultrapassar essa última fronteira. É isso necessário? Não se poderia instaurar uma moratória sobre a guerra técnica na música, assim como sobre as armas de destruição maciça? Durante muito tempo eu me formulei a questão. É evidente que a música, como toda linguagem, tantas vezes sofre essa lei do ‘toujours plus’, como escreveu o jornalista francês François de Closets. Mostra-se necessário sempre ultrapassar o que foi feito ontem e os artistas que não participam do jogo sofrem consequências.
De minha parte, decidi, na minha carreira de compositor, não continuar a seguir o ‘sempre mais’. Estava a haver no meu interior combate com determinadas armas da escritura, às qual eu renunciei posteriormente, conduzido que fui, àquela altura, a não mais escrever de acordo com meu coração, mas uma música para épater la galerie. Escrevi essa profissão de fé em meu site, sob a frase ‘François Servenière is a french composer, born in 1961’”. Há toda uma explicação a respeito desse novo caminhar em direção a uma linguagem na busca daquilo que ele denomina a essência essencial da música. Nessas ricas observações, Servenières ainda diria “Eu conheço hoje os limites que me imponho no nível da escritura, mas fiz-me ‘respeitar’ pelos meus pares e pelos intérpretes por ter composto obras muito difíceis para piano (Rhytmics and Repetitives) ‘que não apresentarão mais qualquer problema aos pianistas daqui a cinquenta anos’, segundo as palavras de François-René Duchable. Sim, é seguramente necessário para me fazer respeitar como compositor, mas seria imperativo no absoluto? Eu não saberia responder. É obra do passado, eu a compus, eu escalei meu Everest, mas há 14 ‘8.000’ sobre a Terra, penso eu, apesar de tudo…”

Molde original da mão de Franz Liszt (Museu Franz Liszt). Clique para ampliar.

A cirurgia do polegar e suas implicações, motivadas, em parte, por excessos que representaram parcela de meu repertório reservado à apresentação de mais de 120 obras contemporâneas em primeira audição, seria o pretexto para o instigante depoimento desse excelente músico, compositor e pensador francês. Conclui Servenière, a observar a nova senda a percorrer: “Eu aspiro agora escrever belas coisas e meu ideal é atingir a pureza escritural de Gabriel Fauré e Ennio Morricone na música, a perfeição das formas de Brancusi na escultura, a ingenuidade onírica de Paul Gauguin na pintura, a simplicidade de Antoine de Saint-Exupéry ou de Ernest Hemmingway na literatura, o todo inspirado na filosofia de Baruch Spinoza. Contudo, sempre sendo fiel ao meu estilo e à minha personalidade, logicamente… É assim que vislumbro meu futuro como compositor.”
As palavras de François Servenière são contundentes. Acrescentaria, à guisa de subsídio, que assim como uma corrida artificialíssima no computador torna o tempo para os 100 metros rasos estabelecido pelo fenômeno Usain Bolt irrisório, sob outra égide as “conquistas” dos compositores voltados à eletroacústica e a tantas outras designações sempre em mutação, podem, para os mais talentosos, criar a imagem de que os andamentos e as dinâmicas são infinitos. Ao escreverem para um instrumento, em visitas temporárias, haveria essa possibilidade de analogia. Recordes terão de ser batidos, mas o “compositor” corre o risco, muito mais frequentemente do que se imagina, de ver sua obra apresentada em uma primeira e única performance. É só conferir programações especializadas nessa área.
Bem disse o Dr. Heitor Ulson que a atividade do pianista baseia-se em algo anti-natural, mas o intérprete se adaptou aos obstáculos que foram, paulatinamente, colocados à sua frente. Seria possível acreditar que, hélas, outras categorias degenerativas das articulações dos dedos surjam no futuro. À Ciência Médica, o desafio perene de saber enfrentar problemas novos.

I received many e-mails commenting on my hand surgery and wishing me a quick recovery. One of them — from the French composer François Servenière — was very special. Impressed by his knowledge of the subject and sensible remarks, I translated his message in its entirety, turning it into this week’s post and hoping his words will find their way into other musicians’ minds.