Um Compositor de Exceção

Capa do CD a ser lançado no dia 27/10/10. Clique para ampliar.

Encarna Carlos Seixas um estilo individual,
um estilo e uma estética portugueses,
diferentes da arte italiana, francesa, alemã, inglesa, espanhola ou polaca.

Santiago Kastner

The composers who have “made it”
into the repertoire since the mid 1800s,
from Josquin to Bartok,
have not done so merely because their music is of high quality,
but because it has had powerful support.

J. Peter Burkhouder

A História da Música nem sempre contempla, como mereceria ser, o verdadeiro talento. Pode ele permanecer como um verbete apenas nos grossos compêndios, e pouco se faz no sentido de ser dado o devido lugar ao ilustre personagem. Há aqueles que se mantêm submersos durante séculos e que, ao serem redescobertos, causam estupor. Mas nem essa surpresa é salvaguarda para uma obra ser divulgada e interpretada. Outros fatores, possivelmente mais cruéis, impedem a circulação das composições em escala maior. Já mencionei várias vezes o fator geopolítico, a interferir na propagação de criações de autores do maior nível, que têm na penumbra um destino infortunado. Mercado a fazer valer o que “deve” ser ouvido, agentes e a submissão comprometedora de intérpretes frente à situação tornam o quadro desolador.
O curso O Som de Portugal que estará a ser realizado entre os dias 25 e 29 de Outubro na Casa de Portugal de São Paulo, ministrado pelo ilustre professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso, terá no dia 27 às 20 horas, após uma das conferências, meu recital a abordar uma panorâmica da música portuguesa. A Casa de Portugal e o Banco Banif tiveram a iniciativa de lançar um CD unicamente com música portuguesa. Após reuniões mantidas com o Prof. José Jorge Peralta e o Senhor António Reis Cardoso dos Santos representando ambas as Instituições, respectivamente, optamos por CD dedicado ao grande compositor conimbricense Carlos Seixas (1704-1742). O selo belga para o qual gravei álbum duplo com Sonatas expressivas do autor aquiesceu, e selecionamos 17, que integram o presente CD. É possível pois, através dessas Sonatas, compreender-se o enorme contributo de Carlos Seixas para a música portuguesa e universal. O texto foi confiado ao professor visitante Pedrosa Cardoso e a masterização para tal empreendimento ficou a cargo da Sun Trip. A Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal da tradicional cidade generosamente permitiram a reprodução das belas medalhas inseridas na capa e no fundo de caixa do CD.
Apesar do redescobrimento de Seixas nos anos 30, empreendido pelo notável musicólogo Santiago Kastner que, após ter a percepção histórica do imenso músico português, conseguiu ver suas Sonatas editadas na Alemanha pela B. Schott’s Söhne (2 volumes, 1930-1935), e bem tardiamente, 105 Sonatas pela Fundação Calouste Gulbenkian em Portugal (3 volumes, 1980-1992), e considerando-se o empenho da grande pianista Felicja Blumental, que gravou em meados do século XX inúmeras Sonatas de Seixas e outras obras de cravistas portugueses (vide Felicja Blumental – A Permanência Através de Horizontes Desbravados, 13/12/08), o compositor continua, imerecidamente, divulgado a conta-gotas. Uma injustiça se perpetra, inclusive através das mentes dos pianistas portugueses mais festejados fora das fronteiras lusíadas, que insistem em ignorá-lo, não propositadamente, assim gostaria de pensar, mas movidos pela pressão dominadora do mercado, que só reverencia o repertório repetitivo. Pouco a fazer. Outros intérpretes, mais fixados em Portugal, têm dado valor expressivo à muitas obras de Seixas, executando-as e buscando as gravações. Tenho absoluta convicção que muitas das Sonatas de Carlos Seixas para teclado não estão, a rigor, abaixo da qualidade de seus ilustres coetâneos, mormente Domenico Scarlatti (1685-1757). Algumas dessas criações seixianas ultrapassam inclusive, na ousadia, o extraordinário compositor napolitano que viveu alguns anos em Lisboa a servir a corte portuguesa e a privar da amizade de Carlos Seixas.

Capa do álbum duplo lançado pelo selo belga De Rode Pomp em 2004. Clique para ampliar.

Para o CD, o texto do encarte, redigido por Pedrosa Cardoso dimensiona Carlos Seixas no seu tempo. A inserção de parte considerável do escrito se faz necessária, pois pensada por um sensível estudioso do compositor coimbrão: “O nome de Carlos Seixas é um dos mais registrados na discografia portuguesa e corresponde a um compositor que viveu apenas 38 anos na primeira metade do século XVIII. No seu tempo viviam nomes cimeiros do barroco musical, tais como A. Vivaldi (1678-1741), J. S. Bach (1685-1750) e G. F. Haëndel (1685-1759). Estes compositores não se encontraram pessoalmente, mas suas obras não passaram despercebidas e serviram mesmo de modelo mútuo. O italiano Vivaldi morreu em Viena e muitos dos seus concertos foram publicados na Holanda. Haëndel, coetâneo e quase conterrâneo de Bach, afirmou-se na Itália e nacionalizou-se inglês. Bach copiou e ‘parodiou’ muita música de Vivaldi e admirou a música do seu coevo Haëndel.
Na mesma época, e provavelmente sem conhecer aqueles nomes, Carlos Seixas nasceu e estudou em Coimbra, nunca tendo saído de Portugal. À sombra da Sé Velha e da Universidade, teve apenas por mestres seu pai, o organista titular proveniente de Tomar, e Fr. Nuno da Conceição, um trinitário lisboeta, lente de música e Mestre de Capela da Universidade. Herdando o cargo do pai aos 14 anos, emigrou pouco depois para Lisboa onde, aos 16 anos, tornou-se organista da Igreja Patriarcal. Sua troca do Mondego pelo Tejo só se pode explicar pela sua ânsia de horizonte: a música, como outras artes, estava a fazer de Lisboa uma grande capital europeia: ali haviam chegado já vários músicos italianos, entre eles Domenico Scarlatti, o famoso mestre da capela papal, que trocou Roma por Lisboa, certamente à custa de condições salariais de exceção, graças ao poder mecenático de D. João V e, indiretamente, ao ouro do Brasil.
O jovem Seixas chegou, convenceu os melhores, assimilou as correntes estilísticas da Europa e venceu como executante e compositor. Barbosa Machado, que o conheceu de muito perto, fala de uma produção excepcional, que se perdeu na sua maioria, certamente devorada pelo terremoto de 1755. Mesmo assim, Carlos Seixas é um dos maiores vultos do período barroco português e um dos mais notáveis na história da música em Portugal. Para além de três significativas composições para orquestra e algumas excelentes peças corais, conhecem-se dele mais de uma centena de sonatas para instrumento de tecla. Algumas dessas sonatas, também chamadas tocatas, parecem adequadas ao órgão; outras, todavia, têm claramente carácter de música para outros teclados. Atribui-se habitualmente esta produção de Seixas ao cravo, instrumento que o jovem compositor deve ter praticado e ensinado na sociedade aristocrática de Lisboa; contudo, o carácter expressivo de algumas daquelas sonatas parece sugerir o clavicórdio ou até o fortepiano, como defende José López-Calo. De resto, as sonatas de Carlos Seixas, longe de dependerem, ou mesmo imitarem, a vasta e preciosa produção de Domenico Scarlatti, apresentam geralmente um estilo personalizado que, acusando de certo modo a tradição organística ibérica, possuem características inovadoras, sobressaindo não apenas o pendor para o estilo galante de muitas delas, mas sobretudo a sua dimensão de sonata em vários andamentos, com a inclusão frequente do minueto”.
Urge a divulgação maior da obra para tecla de Carlos Seixas. Apesar das vaticinadoras palavras de Santiago Kastner em seu livro sobre o compositor (Carlos de Seixas. Coimbra, Coimbra Editora, 1947), o músico conimbricense continua não devidamente visitado em Portugal e no mundo. Escreve Kastner: “Quer a arte de Seixas ser manuseada com afecto e delicadeza. A querençosa bonança, a transparente boniteza desta música pode ser enquadrinhada com o gosto requintado do ‘connaisseur’ ou do provador selecto. Não é, a de Seixas, música para brutamontes, zânganos ou materialistas, outrossim, não pode servir aos que procuram brilho exterior, sensação, ‘thrill’ americano, cascada de sonoridades caleidoscópicas ou arranques emocionais de dionísica veemência. Não ! O mundo seixiano é mais recatado, mais propenso aos matizes pequenos e subtis. Com amor nos devemos aprofundar na frágil e sensível alma deste singular músico, decifrar as suas sonoras configurações, escutar as suas Sonatas, tal qual gozamos a contemplação de ternas miniaturas e preciosas iluminuras. E muita luz e alegria nos dará tamanho cravista, génio à sua maneira. E prestando atenção, saberemos algo acerca da alma musical portuguesa”.
O prezado leitor poderá ouvir, através do YouTube, seis Sonatas de Carlos Seixas que integram o CD em apreço, e a qualidade absoluta da escrita do grande mestre português poderá ser detectada.

In 2004 I recorded in Belgium a double CD entirely dedicated to the keyboard sonatas by Carlos Seixas (1704-1742), the great Portuguese composer born in Coimbra. From this CD I selected 17 sonatas for another CD, sponsored by the Banif Bank and Casa de Portugal in São Paulo. It will be released on 27 October after my recital at the Casa de Portugal. The CD booklet was written by the Portuguese musicologist José Maria Pedrosa Cardoso.

Divulgação Imperiosa

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A Música é poesia incorpórea.
Guerra Junqueiro

Durante almoço com o Presidente da Casa de Portugal de São Paulo, Dr. Júlio Machado Rodrigues, o esclarecido dirigente perguntou-me à certa altura a respeito da possibilidade de um curso sobre a música erudita portuguesa, a ser realizado naquela casa. Lembrei-me incontinente de José Maria Pedrosa Cardoso, Professor da Universidade de Coimbra, que estava naquela oportunidade a oferecer em várias universidades e instituições portuguesas um curso denominado O Som de Portugal, em cinco profícuas palestras. O Dr. Júlio Rodrigues não vacilou e, ao telefone, solicitou datas à sua secretária. Logo após, ligava para o ilustre professor em Oeiras, Portugal, e agendávamos a última semana de Outubro (25-29). Habituado à lentidão dos processos acadêmicos de cursos semelhantes junto aos institutos de fomento, espantei-me com tal agilidade. Antes das despedidas, o Presidente fez-me um desafio, pois gostaria que desse um recital durante a semana do curso, unicamente a tocar o repertório erudito de Portugal, do barroco à contemporaneidade. Aquiesci.
Estivera por várias vezes com Pedrosa Cardoso durante o mês de Maio, durante a longa tournée pianística que realizei pelas terras lusíadas, ele sempre em trânsito, pois a realizar seu curso, eu a dar meus recitais em outras cidades. Apreendi, da parte de frequentadores do curso de Pedrosa Cardoso, que suas palestras atraíam a atenção dos ouvintes não apenas pela notável erudição do professor, como também pela clareza na exposição e empatia com o público. A carreira acadêmica musical de Pedrosa Cardoso é de expressão. Recentemente aposentou-se junto à Universidade de Coimbra, onde foi docente e coordenador da área de música dos cursos de Estudos Artísticos, desenvolvendo atividade inédita. Quando da resenha que escrevi sobre sua obra de síntese (vide “História Breve da Música Ocidental” – José Maria Pedrosa Cardoso, 31/07/10), apontava para a expressiva trajetória do professor e musicólogo, autor de livros referenciais, abordando preferencialmente a música nos séculos XVI e XVII em Portugal. Notável contributo.

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O Som de Portugal será, possivelmente, a primeira apresentação mais pormenorizada em São Paulo da história da música em terras lusíadas. No primeiro encontro, Som antigo, som eterno, Pedrosa Cardoso deverá tratar de conceitos específicos, a discutir Música Portuguesa ou Música em Portugal, música sacra, a ter o canto gregoriano espalhado em mosteiros e catedrais, e a música profana representada pelas Cantigas de Amor e as de Santa Maria. O período medieval estará pois em evidência. No segundo, a ter sugestiva temática, O som do Império Sonhado, o professor aprofundar-se-á na música perpetrada nas igrejas, nos palácios e na rua. Período efervescente, em que centros de intensa produção musical se espalharam pelas terras lusíadas. Haverá um tópico referente à transmissão dessa música para o Brasil. Em O Som da Vaidade Barroca, ter-se-á o detalhamento da posição de Portugal frente à modernidade do período. A figura de D.João V emergirá com todo o grande incentivo que o Rei deu às artes, mormente à música. Abordará a teatralidade musical e as grandes realizações no período. Não faltará a lembrança à exceção, a modinha luso-brasileira. Seria contudo durante o período romântico, O Som Triste do Romantismo Português, que Pedrosa Cardoso apreende razões sociais, mercê em parte dos horizontes liberais que minimizariam a criação portuguesa. Inclui o fado. Estaria Portugal a buscar a música nacional? A finalizar a breve visitação à História da Música de Portugal, o ilustre palestrante focalizará O Som Controverso da Atualidade. Os subtítulos são instigantes “A hesitação musical entre o moderno e o antigo nos princípios do século XX. Estado Novo, música nova? Instituições, folclorismo, fugas para a frente. Novas perspectivas na vida musical portuguesa. Casos de vanguarda e pós-modernismo em Portugal”.

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Do recital, agendado para o dia 27 às 20 horas, constarão apenas autores portugueses. A panorâmica privilegiará cinco compositores da maior relevância em Portugal, a captar a abrangência temática proposta pelo Prof. José Maria Pedrosa Cardoso. Carlos Seixas (1704-1742) é o notável mestre que compôs obras para cravo, coro e orquestra. De suas mais de cem criações para teclado, muitas delas nada ficam a dever ao seu coetâneo ilustre, Domenico Scarlatti (1685-1757). Serão apresentadas seis Sonatas significativas, que constam, aliás, do CD a ser oferecido pelas entidades patrocinadoras no dia do recital. Do álbum duplo lançado na Bélgica pelo selo De Rode Pomp, extraímos 17 Sonatas do compositor conimbricense, representante maior do barroco português. Também pelo selo De Rode Pomp gravei as Trente-Six Histoires Pour Amuser les Enfants d’un Artiste, de Franscisco de Lacerda (1869-1934), compositor nascido nos Açores e que foi amigo de Claude Debussy. Detecta-se mútua influência entre os dois autores. De Lacerda apresentarei 12 histórias selecionadas da coletânea mencionada. Tem-se em António Fragoso (1897-1918), o compositor que, pelo enorme talento e inteligência, poderia tornar-se uma figura preciosíssima para a cultura musical portuguesa. Morreu jovem, aos 21 anos. Fora visitar a família na aldeia da Pocarica, no Concelho de Cantanhede, e teve o infortúnio de chegar quando eclodia em cheio sobre as localidades vizinhas e o seu rincão, a terrível gripe espanhola. Em cinco dias sucumbiriam António e seus três irmãos, Maria do Céu, Carlos e Maria Isabel (leia-se, de Leonardo Jorge, António Fragoso – um génio feito saudade. Município de Cantanhede, 2008). De António Fragoso interpretarei a expressiva Petite Suite. Fernando Lopes-Graça (1906-1994) pode ser considerado o nome maior da música portuguesa em toda a sua história. São inúmeros os posts anteriores em que o grande músico foi tema. Compositor extremamente criativo, tem obras destinadas a gêneros os mais diversos. Pensador, ideólogo, deixou obra literária imensa que perdurará, mercê da insofismável qualidade. Do mestre nascido em Tomar apresentarei seis peças extraídas das Viagens na Minha Terra, título homônimo do famoso romance de Almeida Garret. A finalizar o recital, chegaremos à contemporaneidade através de obra ímpar de Jorge Peixinho (1940-1995), Estudo V Die Reihe Courante, composição maiúscula escrita em 1992 e da qual tive o privilégio de ser o dedicatário (vide Um Estudo para Piano de Jorge Peixinho – Estudo V Die Reihe Courante. 13/06/09).
Entendo da maior importância para leigos, estudantes e músicos a frequência a essa primeira iniciativa abrangente musical erudita oferecida pela Casa de Portugal de São Paulo com o apoio do Banco Banif, ambas as entidades cada vez mais a compreender a função da Arte Luso-Brasileira como fator agregador e de difusão cultural.

Sponsored by the Banif Bank and coordinated by Casa de Portugal in São Paulo, a course entitled “The Sound of Portugal” will be given from 25 to 29 October by the musicologist and Professor of the University of Coimbra José Maria Pedrosa Cardoso. It will cover the different periods of the Portuguese music history, from the Medieval days to the present. On 27 October after the lecture I will give a piano recital solely with works by Portuguese composers. Trying to mirror the thematic route proposed by Pedrosa Cardoso, I have chosen authors from the Baroque to the present: Carlos Seixas, Francisco de Lacerda, Antonio Fragoso, Fernando Lopes-Graça and Jorge Peixinho.

Frente ao Inevitável

Radiografia pré-operatória. Seta a indicar a articulação da base do polegar esquerdo. Clique para ampliar.

O estudo de piano necessita prolongados esforços.
Esses não implicam lutar contra a natureza.
Uma mão normal é feita para tocar piano
e todo pianista que não compartilha dessa convicção
é indigno de sua arte.

Marguerite Long (Le Piano de Margueite Long)

Ao estudar a integral dos Estudos para piano do grande compositor russo Alexander Scriabine (1872-1915), apresentando-a em 1977, deparei-me com um problema singular, a quase total inexistência da passagem do polegar em sua opera omnia para o instrumento. Ter-me debruçado sobre a totalidade da produção de Scriabine levou-me a considerar hipóteses que mereceram um laudo médico sur le tard.
No início dos anos 80 conversei com o Prof. Dr. Heitor Ulson, competente especialista de cirurgia da mão, sobre um mal do qual Scriabine teria sofrido em sua mão direita (1890), o que o impossibilitou, durante certo período, de tocar com as duas mãos e, posteriormente, utilizar de maneira a mais econômica possível a chamada passagem do polegar. O cirurgião aventou a possibilidade de o compositor russo ter sofrido do mal de De Quervain, síndrome descoberta por Fritz de Quervain (1868-1940), cirurgião suíço, mal este descrito em 1895 (tenossinovite do extensor e abdutor do polegar). Para artigo que redigi para revista especializada francesa, o Dr. Ulson escreveu esclarecedora nota de rodapé, a posicionar sua teoria (Quelques Aspects Comparatifs dans les Langages Pianistiques de Debussy et Scriabine. In: “Cahiers Debussy”, Paris, Centre de Documentation Claude Debussy, nouvelle série, nº 7-1983, pgs. 24-37). Apreendi através de colegas pianistas que mestres russos acataram nossas teorias e admitiriam posteriormente que não havia sido detectada até então essa particularidade do técnico-pianístico em Scriabine, ou seja, a sua quase que absoluta rejeição à passagem do polegar e, paradoxalmente, o emprego acentuado de grandes aberturas da mão direita e da esquerda (esta por analogia) em sua extraordinária criação. Sob aspecto outro, as citações bibliográficas voltadas à suposta inflamação da mão direita e datadas do final do século XIX ainda perduravam. A causa da provável inflamação, segundo consenso, foi provocada por estudos pianísticos excessivos. O jovem Scriabine teria sido, inclusive, tratado com óleo de rícino e frequentado estância termal.
Em meados dos anos 90 – à época, a beirar os sessenta anos – comecei a sentir dores nas articulações da bases dos polegares. Aconselhado por amigo, consultei reumatóloga conceituada. Após examinar pormenorizadamente minhas mãos, disse-me que já tocara muito em minha vida, sugerindo que, doravante, o ideal seria tocar apenas para meu deleite. Com a maior serenidade !!! Escusado dizer que levantei-me, paguei a consulta e deletei por completo o vaticínio contra natura de minhas intenções e índole.
Durante os estudos pianísticos observava, progressivamente, o mal se avantajar. Consultas abalizadas com o ilustre Dr. Heitor Ulson, primo irmão de minha mulher Regina, resultavam sempre no esclarecimento a levar-me à certeza da intervenção cirúrgica. Fatalmente ela iria ocorrer. Tivera experiência outra quando, no final dos anos 80, o Dr. Ulson me operou de uma tenossinovite estenosante (dedo em gatilho), com amplo sucesso. Contudo, no mal que progredia nos polegares, eu só sabia protelar. Gravações no Exterior desde 1995, recitais com repertórios tantas vezes a solicitarem um limite sonoro extremo nas altas intensidades eram precedidos por fortes doses de anti-inflamatórios cada vez mais poderosos. Mas, com receio da intervenção, persistia em evitar o inevitável.
Foi após a gravação dos dois CDs na Bélgica e da longa tournée em Portugal em Maio último que o processo chegou ao limite. Dores e inchaço, mormente na região do polegar da mão esquerda. Algumas obras do extraordinário Lopes-Graça exigiam sessões longas de grande impacto e num processo técnico-pianístico em que as mãos permanecem em ampla abertura. Ao regressar, radiografias apontavam para a imperiosa necessidade de cirurgia reconstrutiva. A inflamação da base da articulação dos polegares, denominada Rizartrose, lá estava instalada, a não sugerir sofismas. Acatei o competente diagnóstico e agendamos à operação para o dia 5 de Julho último. Tinha a certeza da escolha do cirurgião. Decisão irrevogável. O médico Heitor Ulson, Prof. Dr. do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNICAMP, Coordenador da Área de Cirurgia da Mão e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Cirurgia da Mão, teria a acurada atenção que o tornou respeitado no Brasil e no Exterior.
Para a elaboração de um post elucidativo para leigos, músicos e médicos, solicitei ao cirurgião um laudo esclarecedor, inclusive com imagens, tanto da radiografia como do ato cirúrgico. As fotos tiradas durante a cirurgia podem causar impacto, daí ter, para a ilustração em menor formato, inserido uma tarja azul sobre a área que estava sob intervenção cirúrgica. Se o prezado leitor se interessar, poderá clicar sobre a imagem para visualizar a foto ampliada sem tarja. Contudo, não recomendo essa vizualização àqueles mais sensíveis. Friso, o post só foi feito com a mútua anuência do paciente e do cirurgião. Aliás, o ato cirúrgico, que foi bem documentado, é parte da apresentação que o Dr. Heitor Ulson fará durante o XIº Congresso da Confederação Internacional da Sociedade de Cirurgia da Mão, a ser realizado entre os dias 30 de Outubro a 5 de Novembro em Seul, na Coréia do Sul.
Eis o precioso depoimento:
“Atendendo a seu pedido sobre o procedimento cirúrgico a que tivemos a honra de submetê-lo recentemente, passo a considerar os fatos mais relevantes: Inicialmente, a afecção – assim chamada de ‘osteo-artrose da base do polegar’ (Rizartrose) – é bastante frequente, acometendo principalmente as mulheres em torno ou após a menopausa. Entretanto, não poupa os homens e está em ascensão, pois as faixas etárias mais elevadas são crescentes em todo o mundo. Vivemos mais e nos desgastamos mais! Estes ‘desgastes’ ou alterações degenerativas também são influenciados por fatores genéticos, hormonais, ocupacionais e ainda por outros, menos conhecidos. Quando o estágio de desgaste da superfície cartilaginosa da junta é avançado, ocorre atrito das partes ósseas expostas, produzindo cada vez mais dor e limitação funcional correspondente ao polegar que, sozinho, representa 42% da função da mão. Assim, ou nos adaptamos temporariamente à situação dolorosa – que tende a progredir de forma variável na intensidade e velocidade, porém quase sempre para pior – ou procura-se tratamento médico-cirúrgico.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Há várias décadas os cirurgiões especialistas da área procuram resolver essa situação aflitiva e os métodos variam bastante, indo de operações sobre partes moles ou articulares, com ou sem próteses. Para os casos onde há demanda de movimentos mais amplos, variados e, se possível, indolores, a técnica cirúrgica por mim preferida é a biológica, esta usando tecidos do próprio paciente. Reconstroem-se ligamentos após a ressecção parcial do osso ‘doente’ (trapézio) e introduz-se em seu lugar uma porção de massa muscular da eminência tenar, que servirá de coxim amortecedor das pressões exercidas na ‘nova’ junta, quando forem realizadas as diversas modalidades de pinça entre o polegar e os demais dedos. O pós-operatório costuma ser tranquilo, com imobilização temporária em tala gessada – 3 a 4 semanas – apenas envolvendo polegar e punho, ficando livres os dedos para uso parcial da mão. A reabilitação no geral completa-se com o importante auxílio de terapeuta da mão, sendo bem tolerada, durando 5 ou 6 semanas com sessões semanais e podendo ser necessário o uso de órtese à noite para a manutenção da posição correta. Anexo, para melhor ilustrar, uma radiografia pré-operatória da articulação da base do seu polegar esquerdo, recém-operado (trapézio metacarpiano) e que facilmente demonstra o grau de desgaste já avançado. Incluo também demonstração da técnica, utilizando-se a massa muscular tenar como ‘almofadinha’ a preencher o espaço ampliado da junta após a remoção dos tecidos ‘doentes’. No seu caso, tem sido importante a sua total colaboração para a obtenção do resultado funcional precoce. Nem sempre, contudo, encontramos tal determinação, a qual certamente o tem levado a retomar os seus estudos, enfrentando teclado com agilidade, precisão e duração, o que muito surpreendeu pelo resultado. Finalizo, caro José Eduardo, profícuo concertista, pesquisador, professor acadêmico e importante difusor internacional de autores brasileiros, parabenizando-o pelos seus resultados.” Heitor J. R. Ulson Ortoclínica Manus e Hospital Samaritano São Paulo, SP e-mail: ortoclínicamanus@ig.com.br

Polegar em recuperação. Cicatriz em destaque. Foto: Elson Otake. Clique para ampliar.

A reabilitação se processa. Dois dias após a cirurgia, com faixas e tala gessada, já dedilhava com o conhecimento do médico, com muita dificuldade e dores evidentes, cinco minutos diários. Foi assim durante todo o longo mês de Julho, com aumento progressivo do tempo até meados de Agosto. Abdiquei nesse período dos treinos e corridas, seguindo orientação estrita do cirurgião. Uma queda poderia por tudo a perder. Preparei-me progressivamente para o recital a fazer parte do Curso O Som de Portugal, que será oferecido na Casa de Portugal de São Paulo e a ser ministrado pelo ilustre musicólogo e professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso, entre os dias 25-29 de Outubro. Será o tema do próximo post. O recital do dia 27, unicamente dedicado à música portuguesa, não terá obras de forte impacto – sonoridades altíssimas -, pois a paciência e a esperança na recuperação completa, que deverá acontecer dentro de seis a sete meses segundo o especialista, apontam para o caminho da prudência.
Em Fevereiro será a vez do polegar da mão direita. E a saga continua…

For many years I’ve been suffering from rhizarthrosis, a chronic and progressive wear of the cartilage of the joint at the base of the thumb. I’ve always postponed surgery, but the extreme exposure of my hands due to the piano practice made it unavoidable: I could no longer stand the pain. This post is a detailed account of the surgical technique used on my left hand three months ago and of the post-surgery treatment given by the doctor himself, the hand surgery specialist Dr. Heitor Ulson.