Literatura sobre Arte Sacra no Brasil

É um inútil desperdício de tempo
celebrar a memória dos mortos
se não nos esforçamos em exaltar
as obras que deixaram.

Monteiro Lobato

Paulistinhas, terracota - séc. XIX -  foto: J.E.M.

Alguns estudiosos debruçaram-se, no século XX, sobre a temática da Arte Sacra Brasileira. Por analogia, poderíamos avocar a frase de Miguel Torga, que afirmou que um escritor, aos escrever algo significativo, fá-lo tendo em conta toda uma legião de escritores que o precederam. Com Eduardo Etzel ocorreria o mesmo. Estudou em profundidade a bibliografia pertinente à Arte Sacra no Brasil. Quatro aspectos fundamentais, contudo, diferenciam-no de ilustres ascendentes: ter sido cirurgião torácico e psicanalista, apreender a temática através da pesquisa de campo, preferenciar basicamente a Arte Sacra Popular, persistir no aprofundamento durante cerca de trinta anos. A medicina ofertou-lhe o amplo conhecimento anatômico e a psicanálise, os meandros que levam ao inconsciente; a pesquisa de campo aguçou, mercê do embasamento anterior, o sentido da análise do objeto de estudo, ampliando o leque das hipóteses e das certezas; a área pesquisada fê-lo captar as manifestações da Arte Sacra de tendência não erudita; a persistência dimensionou a qualidade da pesquisa. Estes atributos atestariam o patamar ímpar em que sua obra sobre a Arte Sacra Brasileira posiciona-se.
A longa trajetória inicia-se a partir de Imagens Religiosas de São Paulo. Apreciação Histórica (São Paulo, Edusp-Melhoramentos, 1971, 302 págs), levantamento de parcela considerável da Arte Sacra Popular do Vale do Paraíba. Nesse percorrer extensa região, Etzel colhe material, seleciona-o, compara-o e estabelece hipóteses que as evidências transformariam em verdades com o decorrer do tempo. Há mapeamento de toda a região. Notável a perspectiva que imprime às paulistinhas – pequenas esculturas feitas em barro cozido sobre base oca, para não racharem devido à temperatura alta, e modeladas a partir de fôrmas – a procurar nessas peças anônimas traços que porventura identificassem o autor. Em muitas delas, marcas inalienáveis, seja na pintura, nos pormenores ou, raramente, na data fixada em baixo-relevo no interior da peanha vazada, levariam à revelação do santeiro, embora sem nome. Impressiona-se com outras diminutas esculturas da imaginária, realizadas em nó de pinho pelos escravos e seus descendentes. O livro, antecâmara de estudos futuros a respeito de santeiros populares, já apresenta algumas poucas imagens de alguns autores identificados. Outras peças religiosas, como oratórios e crucifixos, enriquecem a obra.

Esculturas em Nó de Pinho - 3cm a 15cm, séc. XIX - foto: J.E.M.

Quando escreve a seguir O Barroco no Brasil. Psicologia e Remanescentes em São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (São Paulo, Edusp-Melhoramentos, 1974, 312 págs.), seria possível entender que a característica não erudita da arte sacra do Vale do Paraíba tenha influenciado Etzel na busca do Barroco brasileiro menos ventilado. Dirige-se a regiões onde essa manifestação estilística sofreu menos os eflúvios da riqueza proporcionada pelo ouro e pela cana-de-açúcar. Pesquisando em pequenas localidades das áreas visitadas, depara-se muitas vezes com soluções autógenas de artistas e artesãos que, sem o aprofundamento exegético “erudito”, criaram soluções ímpares para imagens religiosas. Apesar do curto período aurífero em Goiás, como exemplo, as manifestações do barroco, palavra sempre em pauta na pena do autor, tiveram características sui generis como contributo à Arte Sacra no Brasil. Barroco pobre e despojado, mas original em suas soluções. Tardiamente, Goiás encontra um artista de grande mérito: José Joaquim da Veiga Valle (1806-1874). As várias fases por que passou São Paulo são abordadas, assim como os Estados do Sul. Por todos os lugares, Etzel realizou pesquisa documental aprofundada antes de formular hipóteses.

Nossa Senhora com Menino - terracota. Dito Pituba, séc. XIX. Foto: J.E.M.

Em Arte Sacra Popular Brasileira. Conceito-Exemplo-Evolução (São Paulo, Edusp-Melhoramentos, 1975, 174 pgs.), Eduardo Etzel focaliza com precisão um tema determinado. Após considerações relativas ao título, à inter-relação cidade campo e à função do santeiro junto à comunidade, dedica-se a um em especial, Benedito Amaro de Oliveira, o Dito Pituba (1848-1923) de Santa Isabel, cidade a poucos quilômetros de São Paulo. Investiga a criação, os porquês de uma produção imensa e a genialidade de Pituba surge por inteiro. Soube empregar os mais variados materiais para a elaboração de imagens, crucifixos e oratórios: madeira, argila que servirá à terracota, couro, arame, tampinha de garrafa, caixas de vinho, de óleo ou de bacalhau importados. Também encontrou outras soluções rigorosamente inéditas, como a utilização de pregos para a fixação da peanha à imagem. Etzel aprofunda o estudo e compartimenta as fases da produção do santeiro conforme a feitura, analisando os porquês.

Oratório e Imagens, Dito Pituba, séc. XIX - foto: J.E.M.

Ao escrever J.B.C. Um Singular Artista Sacro Popular – A Obra Transcende o Homem (São Paulo, CESP, 1978, 63 págs. mais anexo iconográfico), Etzel presta homenagem a José Benedito da Cruz (1877-1934), pedreiro, marceneiro e pintor nascido em Paraibuna, e que trabalhou na região de Mogi das Cruzes reformando ou pintando capelas e fazendo imagens. Notável o detalhamento do estudioso quanto à igreja matriz de Taiaçupeba (Capela do Ribeirão). J.B.C., que deixava nas obras sua assinatura, ou iniciais, pintou 10 capelas, confeccionou retábulos e viveu dessa atividade de santeiro popular. Etzel capta seus traços, encanta-se com a puerilidade de suas pinturas e de sua imaginária e novamente formula hipóteses para a criação de obra tão singular.
Imagem Sacra Brasileira (São Paulo, Edusp-Melhoramentos, 1979, 157 pgs.) é bem definido pelo autor, no prefácio, como um guia para que o amador possa apreciar o que existe exposto em museus e coleções, e para auxiliá-lo, se porventura pretender adquirir uma peça, desviando-o das fraudes que grassavam e que, infelizmente, continuam a existir. Distingue a imagem erudita da popular, examina sucintamente esculturas sacras com pleno domínio e nesse “resumo” percebe-se que “o” livro sobre a Arte Sacra estava a ser preparado. E este surgiria um lustro após.
A publicação de Arte Sacra – Berço da Arte Brasileira (São Paulo, Melhoramentos, 1984, 256 págs.) merece, entre a opera omnia do autor voltada à temática, posição absolutamente ímpar. Corolário de todo o caminhar. Etzel defende, sempre a apresentar provas, a Arte Sacra como origem primeira de nossa arte, mercê da chegada dos padres, no século XVI, às terras brasileiras, a difundirem o culto católico: “ o resultado dessa ação missionária, cuja arma principal foram os templos com a melhor riqueza artística possível nas circunstâncias locais, tornou-se a Arte Sacra o berço, o começo e a raiz única da arte brasileira…” A posição firme do autor estende-se pelos sete capítulos, a abranger grande área do território brasileiro. Busca, nos inventários dos séculos XVII e XVIII, provas para suas teorias. Como exemplo, no capítulo destinado às missões jesuíticas no sul do país, após pouco encontrar em Sete Povos das Missões, com os templos e a imaginária destruídos depois da Guerra Guaranítica, vai ao Paraguai, onde traços marcantes ainda existem nas missões locais. Pertinentemente ilustrado, o livro é extraordinário por seu todo. À resenha que escrevi, publicada no “Cultura” de “O Estado de São Paulo” (nº 215, ano IV, 22/7/84, pág. 10), Eduardo Etzel, aos 78 anos, escreve-me carta de Minas Novas (28/7/84), onde estava a fim de estudar mais profundamente Anjos e Divinos na Arte Sacra do Brasil: “Palavra que até chorei… Sempre tive a impressão de ser marginalizado pela nossa ‘inteligentzia’ que não me levava a sério. Você botou os pontos nos ii e registrou o fato. Sem modéstia acho que foi justo e preencheu uma expectativa que para mim era necessária.”
Poder-se-ia afirmar que, nos três derradeiros livros sobre Arte Sacra Brasileira, Etzel penetra profundamente temáticas enraizadas em nossa cultura: Nossa Senhora do Ó. História-Iconografia-Características Brasileiras (São Paulo, Bovespa, 1985, 79 págs.), Anjos Barrocos no Brasil – Angelologia (São Paulo, Kosmos, 1995, 92 págs.) e Divino – Simbolismo no Folclore e na Arte Popular (São Paulo, Kosmos, 1995, 180 págs.). No primeiro, como afirma, estuda “a fascinante iconografia de Nossa Senhora da Expectação, também chamada do Ó, a Virgem Mãe às vésperas do nascimento de Jesus Cristo”; no segundo, aprofunda-se na simbologia dos anjos na Arte Sacra Brasileira, investigando a curiosa dualidade relativa à feitura erudito-popular, assim como a presença do masculino e do feminino dessa manifestação em nossa imaginária; no Divino, documenta largamente, através da História, o culto permanente à terceira pessoa da Santíssima Trindade. Foi um prazer ter sido convidado por Eduardo Etzel para escrever o Prefácio, finalizando-o: “ Desconhecer a contribuição de Eduardo Etzel, única no desvelamento dos segredos que cercam a criação sacro-popular brasileira, é negar o conjunto monolítico mais expressivo e enriquecedor de nossa literatura específica. A partir dele, as trevas que envolviam a criação sacro-popular estão a se dissipar. E sempre há a esperança….”

Eduardo Etzel: an account of my friendship with Eduardo Etzel, thoracic surgeon, psychiatrist and humanist, who introduced me to the universe of the Brazilian religious art. A summary of each of the books he wrote on this subject.

A Valorização do Humanismo

Estuda o teu trabalho e realiza-o,
trabalhando como um Hércules.

Thomas Carlyle

Eduardo Etzel

Eduardo Etzel (1906-2003) foi um homem extraordinário, figura das mais marcantes que conheci. Médico por formação, tornou-se um dos pioneiros da cirurgia de pulmão no Brasil. Em um período em que a tuberculose grassava impune, desenvolveu técnica reverenciada por seus coetâneos. Um de seus discípulos, o célebre Dr. Eurípedes Zerbini, que realizou o primeiro transplante de coração no Brasil, considerava-o seu primeiro mestre na arte cirúrgica. Operava em São Paulo e também, nos finais de semana, no Sanatório Vicentina Aranha em São José dos Campos, assistindo as comunidades mais carentes. O arguto senso anatômico, unido à vocação de observador e pesquisador, teriam desenvolvido em Eduardo Etzel a admiração pela arte sacra popular, pois estava clinicando na região do Vale do Paraíba, riquíssima nessa manifestação. Com o advento dos antibióticos e dos quimioterápicos e conseqüente queda vertical da importância da cirurgia da tuberculose, formou-se psicanalista ortodoxo e durante décadas desenvolveu essa atividade. Paralelamente ao trabalho como psicanalista, dedicou-se também às pesquisas de campo relacionadas à Arte Sacra Popular. O quadro mostrar-se-ia perfeito. O médico a entender a anatomia do corpo humano, o psicanalista a penetrar o de profundis dos pacientes. Esta somatória prepararia Eduardo Etzel para outro ato inédito, ou seja, o de ser também pioneiro no desvelamento, através da pesquisa de campo, da Arte Sacra Popular do Brasil, coletando rico material e escrevendo livros antológicos sobre a especialidade. Parte de seu acervo está hoje depositada no Museu de Arte Sacra de São Paulo e no Museu de Antropologia de Jacareí, no Vale do Paraíba.
Conheci-o de maneira inusitada. Meu sobrinho, Roberto Vidal da Silva Martins, e eu freqüentávamos periodicamente o mercado da “Breganha”, como é chamada a feira de Taubaté aos domingos. Certa vez, deparei-me com pequenas imagens de barro cozido bem antigas, uma datada de 1836, e o fato intrigou-me. Tendo encontrado num alfarrabista Imagens Religiosas de São Paulo ( São Paulo, Melhoramentos Edusp, 1971), fiquei encantado com a precisão, o rico material iconográfico e o conhecimento profundo do autor, Eduardo Etzel, sobre a matéria. As peças que vira assemelhavam-se a algumas existentes no livro. Após a leitura, procurei na lista telefônica o número do autor e liguei, apresentando-me como um admirador. Soube que assistira a um meu recital. Convidou-me para jantar em sua casa no dia seguinte com minha mulher e uma profunda amizade entre dois casais nasceria desse encontro. Vendo meu interesse, disse-me que passaria ao já “discípulo” conhecimentos adquiridos. Isto em 1975.

Nossa Senhora da Expectação ou do Ó - Terracota - Dito Pituba, séc XIX

Durante dez anos, percorri aos sábados, juntamente com meu saudoso amigo Carlindo Pavan, a região de Santa Isabel, Parateí, Igaratá, Nazaré Paulista e Itaquaquecetuba, subindo morros, penetrando em pequenas matas, descampados e riachos, a usar botas devido às serpentes que por vezes encontrávamos, na pesquisa prioritária dos traços que o extraordinário santeiro popular Benedito Amaro de Oliveira, o Dito Pituba (1848-1923), deixara na região. Isto só foi possível graças às indicações precisas a mim transmitidas por Eduardo Etzel que, aos 70 anos, já não sentia o mesmo vigor para continuar com essas marchas que se estendiam das 8 da manhã ao anoitecer. Etzel acreditou sempre que apenas o entendimento a partir da pesquisa de campo possibilita ao que a ela se dedica visão mais abrangente do objeto estudado, pois a área pesquisada está impregnada do ambiente que levou ao ato criativo e da vivência do devoto, destinatário da imaginária. Naqueles anos foram encontradas, em casas dos humildes homens do campo, criações de Dito Pituba, paulistinhas anônimas (imagens em terracota pintadas e com a base vasada), nós de pinho (pequenas peças de devoção esculpidas por escravos e seus descendentes), oratórios, crucifixos e outros mais objetos de culto. Muitos, abandonados em santas-cruzes, espécies de “capelinhas” à beira de estradas, onde os devotos largam imagens quebradas ou semidestruídas.
Aos domingos à tarde visitava o Dr. Eduardo, como o chamava, e um universo se abria. Pacientemente ensinou-me a arte da restauração, que consistia basicamente em limpeza, retirada de repinturas com o maior cuidado, colagem de fragmentos quebrados, preenchimento esporádico com gesso pedra, alisamento com lixas especiais e cuidadoso retoque. Para esse mister, Eduardo Etzel desenvolvera técnica própria, prática, segura e de resultados. Disse-me que alguns procedimentos vieram da larga experiência como cirurgião. Não poucas vezes ficávamos surpresos com a descoberta na pintura original, após várias camadas retiradas, das iniciais do santeiro ou mesmo a data de feitura. Durante esses anos privilegiados fui analisado sem o saber. Metodologia sui generis. Etzel conseguiu “restaurar” tantos outros fragmentos de meu passado nessas conversas em torno da imaginária sacra popular.

Em fins de 1977, realizávamos, com ampla aprovação do Professor Pietro Maria Bardi, uma exposição no MASP com obras de Dito Pituba por nós recolhidas em períodos diferentes. Nos anos que se seguiram, continuamos esse trabalho de recuperação, verdadeira ourivesaria. Após o exaustivo restauro, tomávamos um lanche preparado pela sua inseparável companheira Kitinha, seguido de sessão de leitura de suas pesquisas, que resultariam em tantos livros fundamentais à bibliografia da arte sacra no Brasil.
Tardiamente, escreveu também outras obras: o polêmico Escravidão Negra e Branca. O Passado através do Presente (São Paulo, Global, 1976), em que lança olhar singular sobre os séculos de escravidão, que continua existindo com outra roupagem; a autobiografia Um Médico do Século XX Vivendo Transformações (São Paulo, Nobel-Edusp, 1987, 236 pgs.), no qual o analista busca respostas a partir da interpretação de episódios ocorridos desde a infância; Filosofando com o Miró (São Paulo, Ateliê, 2000, 271 pgs.), interessantíssimas reflexões, espécie de “solilóquio”, tendo seu fox-paulistinha Miró como fiel ouvinte. Contudo, são seus excepcionais livros sobre arte sacra que definitivamente estarão a perenizar o grande humanista. Sobre este conjunto monolítico, inigualável no Brasil, farei comentários no próximo post.

Em torno de um Centenário (II)

Mon existence d’ailleurs n’est pas drôle.
Les affaires ne se raccommodent point, au contraire.
La résignation est venue; mais par moments elle
a des absences, et alors je rumine amèrement le passé
et je songe à la crevaison. Puis je me remets à la pioche.

Gustave Flaubert (carta a Ivan Tourgueneff)

Escritos de Camargo Guarnieri a J.E.M. - anos 60

Esse período parisiense enriquecedor teria, como conseqüência, seis cartas do compositor a mim dirigidas, cartão postal enviado de Washington e carta ao ilustre músico da então União Soviética, Aram Katchaturian, tendo sido eu o portador quando de viagem a Moscou em Abril de 1962. Trechos mereceriam ser citados, mas a publicação das missivas na íntegra não se torna possível, pois envolvem personagens ainda vivos. Fica contudo evidente o estilo coloquial do compositor e seu desejo de ajudar e encorajar o jovem estudante.
Villa-Lobos falecera recentemente, no final de 1959, e estudava eu algumas obras para uma apresentação comemorativa. Entre elas, Chôro nº 5, Alma Brasileira. Ouvindo-me, imaginou criar pequena obra in memoriam. Surgiria Homenagem a Villa-Lobos, mais tarde integrando o caderno de Improvisos. Em carta de 2 de Abril de 1960, Guarnieri me escreveria: “ A ‘Homenagem a Villa-Lobos’ já terminei. Estou lhe mandando uma cópia, com os Ponteios. Fiquei contente com essa obra. Vamos ver se você gosta do trabalho, assim tocará bem.” Na mesma missiva, pede-me para entrar em contacto com nossa amiga comum, a notável pianista grega Vasso Devetsi: “ Diga, por favor, à Vasso que já comecei a copiar o ‘Concertino’. Assim que estiver pronta, mandarei uma cópia que prometi a ela.” Sobre Kleusa de Pennaforte, observaria: “ O concerto em Milão foi um sucesso. A Kleusa cantou como um anjo. Foi um prazer. Ela já está em Paris? Escreva-me contando. A Kleusa é uma das cantoras mais inteligentes que conheci em toda a minha vida.” E conclui: “ Lembro-me sempre daí com saudades. Agora, estou aqui, não adianta viver Paris…”.
Na carta de 16 de Maio, comenta: “Recebi hoje uma deliciosa carta da Vasso! Ela é mesmo um encanto. Fala muito de você e com entusiasmo!” Mostrando uma outra faceta, a de ter amizade por pessoas das mais variadas condições, escreve: “ Mande-me o nome certo do ‘concierge’. Vou lhe fazer uma surpresa mandando selos da inauguração de Brasília. Não diga nada a ele.” Nessa, e na carta de 21 de Junho, trata da documentação visando a uma bolsa, que por fim consegue através do Ministro da Educação Clóvis Salgado, de quem era assessor musical: “Sua bolsa já foi autorizada pelo Ministro. Você já é bolsista. Aproveite o mais que puder.” E o cansaço por obra finda: “Minha vida está mal, mal, muito mal. Única coisa que me consola é o trabalho. Terminei minha obra para o concurso Ricordi. Ontem acabei a orquestração. Não tenho feito outra coisa: trabalho, trabalho sem parar. Escrevi a obra em um mês e quatro dias. É tempo recorde, não acha? É o meu meio lucrativo. O resto vai mal, muito mal.”
Aos 24 de Outubro, outra carta, acusando o recebimento da minha, datada de 28 do mês anterior: “ O seu silêncio me fez pensar numa viagem estratosférica ou interplanetária, mas agora vejo que você continua entre os viventes desta pobre terra…”. Sobre sua produção: “Atualmente estou trabalhando na minha 4ª Sinfonia. Espero terminá-la até o fim deste ano. Aquilo que já escrevi agrada-me! Espero continuar com o mesmo fôlego.” Pede-me comunicar à Kleusa preparar a “Sêca” e os “Três Poemas Afro-Brasileiros” pois, se for à Paris para dirigir a Orquestra da Rádio Difusão Francesa, gostaria de tê-la como solista.
A bolsa comunicada na missiva de Junho só seria oficializada no ano seguinte, como afirma na longa carta de Janeiro de 1961. Nesta, tece comentários sobre a endemia político-cultural brasileira que, infelizmente, não tem até hoje vacina confiável: “Deveria estar com as malas prontas para a França, pois teria concerto com a Orquestra da Rádio Difusão Francesa, no dia 2 de Fevereiro. Tive que adiar porque não consegui que o Ministério das Relações Exteriores me pagasse as viagens ida e volta. Se eu fosse jogador de futebol então tudo seria mais fácil! Héllas!”. Desenvolve o tema em outro segmento: “Estamos num período de esportes. Só se fala em boxe, tênis e outras maneiras de desenvolver os músculos dos braços e das pernas. Para o cérebro ainda não se pensou quase nada. É uma lástima ! Mais é verdade.” Acusa o recebimento de outra carta de Vasso Devetzi, em que a pianista faz elogios ao jovem estudante e, logo após, comenta: “…ter sido eleito, por unanimidade de sua Congregação, Diretor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Confesso que não queria aceitar pois bem sabia o trabalho estafante que teria. Enfim, todos queriam e eu cedi. Aquilo está uma verdadeira bagunça. Tenho trabalhado como louco. Imagine que aquela escola esteve 13 anos sob intervenção judicial. Foram 13 anos de completo abandono. Agora estamos tratando de federalizá-lo. Já conseguimos que o Juscelino mandasse uma mensagem à Câmara Federal, por isso estamos muito esperançosos que logo São Paulo terá uma escola à altura de seu progresso.”
Na última carta, datada de 10 de Agosto de 1961, Guarnieri, inicialmente comunica que regressara de viagem: “Estive nos Estados Unidos, de onde lhe escrevi. Quando voltei, me casei, e assim é que estou muito feliz…” Como sempre, estimula-me a continuar os estudos com afinco: “ Soube, pelo Sequeira Costa, que há dias me escreveu, do resultado do Concurso Marguerite Long. Você não deve esmorecer. Continue estudando e progredindo, isto é o importante. Você é um pianista de grande talento, que pela inteligência e honestidade de trabalho atingirá o alvo desejado. O fato de não ganhar um primeiro prêmio não é razão para esmorecer. Quando mais não seja, um concurso sempre traz progressos, isso pelo esforço que se faz pelo desejo de vencer. O Sequeira Costa me diz que o aconselhou a ficar mais tempo na Europa. Ele tem toda razão.”
Aos 15 de Março de 1962, Guarnieri escreve uma carta de recomendação ao ilustre compositor Aaran Katchaturian, entregue em Abril. Em Junho retornava ao Brasil e nossos contactos continuaram durante alguns anos, tornando-se mais esporádicos devido a muitas razões, até comuns para nós dois: trabalho intenso, família com crianças para criar.
A convite de Camargo Guarnieri, toquei sob sua direção, à frente da Orquestra Sinfônica da USP (OSUSP), o Concerto para teclado de Carlos Seixas, nos dias 17 e 19 de Março de 1983. Em 1985, fiz um convite a Guarnieri para que escrevesse uma obra para piano em homenagem ao grande compositor romântico brasileiro Henrique Oswald, destinada a um caderno a abrigar oito composições de autores de valor e editado posteriormente pela Universidade de São Paulo. Aceitou com prazer e compôs uma bela peça, Momento nº 7. Outras poucas vezes estive em seu estúdio à Rua Pamplona. Em fins de 1992, a Universidade prestou uma homenagem a Camargo Guarnieri. Alunos e professores tocaram algumas de suas obras. No peristilo da morte, que ocorreria no ínício de 1993, o músico ficou muito comovido. Poucos anos após, sua viúva, Vera Sílvia Guarnieri, num ato de generosidade e grandeza, doou todo o acervo do grande compositor à Universidade de São Paulo, pois ele fora durante muitos anos regente titular da OSUSP. Todo esse preciosíssimo material está hoje depositado no Instituto de Estudos Brasileiros, IEB, no campus da Cidade Universitária. De minha parte, enquanto estive mais ligado a um dos programas de Pós-Graduação da USP, fui orientador de três dissertações de mestrado e uma tese de doutorado dedicadas à obra de Camargo Guarnieri. Uma das dissertações, praticamente estruturada, ficou inconclusa com o falecimento da orientanda e boa intérprete da obra do compositor, a pianista Cynthia Priolli.

Camargo Guarnieri, anos 50 - foto: José da Silva Martins

Esse é um simples tributo a um dos mais importantes vultos da Cultura Brasileira de todos os tempos, com quem tive o privilégio de contactos tão marcantes em período fundamental de nossas vidas.


These articles are a tribute to the outstanding Brazilian composer and conductor Camargo Guarnieri in the year of his birth centennial. I recollect his friendship with my parents, the music lessons he gave to my brother and I at his home in São Paulo, the period we shared the same apartment in Paris, when I was there for advanced studies with Marguerite Long and Jean Doyen, and the many letters we exchanged after his return to Brazil.