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Praça José da Silva Martins

Sou um homem altamente realizado
e muito abençoado por Deus. Vivi em três séculos:
dois anos no século 19 (pois nasci em 1898),
todo o século 20 e o início do século 21.
Há, até entre amigos e parceiros literários,
uma campanha denominada:
“José da Silva Martins – 111 anos”.
Deus é quem sabe…
José da Silva Martins
(Introdução de “Breviário de Meditação”)

Meu pai foi um sábio. Uma figura humana que deixou saudades pelos exemplos de vida, dedicação à família, impoluta condução durante a longa existência, tenacidade e projeto cultural ímpar para os quatro filhos. Em post bem anterior considerava a opinião do ilustre professor catedrático de Direito da Universidade do Minho, Dr. António Cândido de Oliveira, que me confessou ter sido nosso pai o único imigrante que, ao deixar Braga, veio ao Brasil, formou família e teve projeto cultural claro para os quatro filhos. Deixou-nos aos 19 de Maio de 2000, mercê de uma queda que o levou ao coma, dias antes de lançar mais um de seus livros, “Breviário de Meditação”. Morreria três semanas antes de completar 102 anos! Já dediquei um blog ao meu pai bem anteriormente. Tenho saudades dele.

Adorava poesia e memorizou ao longo da existência cerca de 300 poemas, alguns extensos, como a integral participação dos três prelados em “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, “O melro” de “A velhice do Padre Eterno”, de Guerra Junqueiro, sonetos, sextetos, quadras e tantos mais gêneros, a preferenciar autores portugueses, mas com quantidade apreciável de sonetos brasileiros em seu repertório. A todo esse manancial poético retido por nosso pai somava-se seu profundo interesse pela música clássica ou de concerto que nos levou, João Carlos e eu, ao estudo de piano desde a infância.

Aos quatro filhos adolescentes, Ives, José Paulo, J.E. e João Carlos, numa disciplina espartana, era confiada uma resenha de capítulo de grande autor da língua portuguesa para que fizéssemos o resumo em uma página apenas, diariamente. Corrigia-a, orientava-nos quanto ao estilo e atribuía notas. Dizia o velho pai que o espírito de síntese é um dos maiores atributos do homem. Ao fim de cada mês sua apreciação resultava em bônus que nós quatro convertíamos em livros de nossa escolha. No último sábado do mês íamos até as livrarias do centro, Francisco Alves e Saraiva, ávidos para concretizar preferências. Seus milhares de LPs nos ajudaram na formação do gosto, a reconhecer estilos, a apreciar e distinguir interpretações. Os quatro filhos à noite ouvíamos um LP sem conhecer a capa do disco e tínhamos de descobrir autor e obra. Inestimável contribuição à nossa formação cultural, processo basicamente ausente nos tempos internéticos atuais e na decadência cultural em termos mundiais. A mundialização e os interesses econômicos levaram o jovem ao consumo generalizado, resultando no desvio de objetivos claros, da disciplina, do método e, por que não, da perseverança.

Durante mais de 60 anos nosso pai representou firma francesa de essências e matérias primas para perfumaria. Filhos realizados, iniciou a carreira literária aos 86 anos. Seu primeiro livro, “Sabedoria e Felicidade”, prefaciado pelo notável poeta Menotti del Picchia, granjeou-lhe posição no Guiness Book como o autor mais idoso a penetrar a seara literária.

O pai frequentou durante muitos anos a “Pensão Jundiaí”, tertúlia acadêmica entusiasta que se reunia uma vez ao mês, às terças-feiras, em determinado restaurante. Por lá passaram Paulo Bonfim, Geraldo Vidigal, Lygia Fagundes Telles e tantas outras figuras expressivas. Em todas as reuniões, como decano do grupo, recitava um poema memorizado durante o mês. Dizia ele “ajuda-me a não perder a memória”.

Um dos frequentadores da “Pensão Jundiaí” foi o Prefeito Celso Pitta, que admirava o vigor do pensar de José da Silva Martins. Com o seu falecimento em 2000, o Prefeito ligou para meu irmão Ives, a dizer que iria propor à Câmara o nome de uma praça em homenagem ao nosso pai. Isso se deu e quatro placas foram colocadas na pequena praça que se situa na confluência das avenidas Juscelino Kubitschek e Nações Unidas. Com o tempo as placas desapareceram e a praça pouco a pouco foi sendo degradada, pois estava ao lado de imenso terreno aviltado, ocupado e que, após tantas tratativas, tornar-se-ia o magnífico Parque do Povo. A região toda modernizou-se e atualmente a praça fica quase que paralela aos fundos do enorme Shopping Iguatemi JK.

Num desses últimos domingos estive a passear pelo Parque do Povo com meu genro Massimo e uma das netas, Valentina. Ao passar a pé pela praça que levava o nome de meu pai, verifiquei que ela também fora “saneada”, havia bancos, vegetação cuidada e… ausência das placas. Massimo tirou uma foto do sogro e da Valentina, sem as placas ao fundo, motivo que me levou a escrever ao irmão Ives, a fim de que entrasse em contato com o Prefeito João Dória. Fi-lo, mostrando-lhe o histórico. Minha desconfiança ficava restrita à ausência das placas, que poderia suscitar à Câmara Municipal a indicação de um novo nome, salvo melhor juízo, quando de fato e de direito a praça tem nome. Ives Gandra, como já fizera outrora com os ex-prefeitos Kassab e Haddad sem o mínimo retorno, entrou em contato com o atual alcaide que, diga-se, tendo outra dimensão sócio-cultural, respondeu-lhe prontamente.

Chamou-me a atenção a mensagem do Prefeito João Dória ao Ives, pois finalizava a dizer que esperava que monitorássemos o andamento do processo. Nem precisou, tão imediatas as providências tomadas pela Prefeitura.

Qual não foi nossa surpresa, cerca de quinze dias após, ao verificar que as placas haviam sido colocadas, e saber que mensagem, ao Ives, do Chefe de Gabinete da Presidência do CET, Clodoaldo Pacce Filho, ratificava com fotos a presença das placas: Praça José Silva e, em letras menores, Praça José da Silva Martins. Considerando-se que nos oito anos anteriores houve silêncio por parte dos responsáveis, é admirável a pronta ação do Prefeito João Dória.

Entreguei ao meu dileto amigo Pedro Flesch Fortes, que trabalha na Prefeitura, no setor Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, o livro de nosso pai, “Breviário de Meditação”, já mencionado. Fará chegar às mãos do Prefeito João Dória. Fica neste espaço o agradecimento de nossa família pelo pronto gesto a restaurar a homenagem a uma figura singular na vida de nossa cidade.

Espero que o Google Maps insira em suas indicações de ruas e logradouros, àqueles que buscam orientação, o nome da Praça José da Silva Martins, atualmente ausente. Certamente ocorrerá.

When my father died in 2000, the then city mayor paid a tribute to him by giving his name to a public square. With time the place deteriorated and the nameplates simply disappeared. My family has been trying for the last ten years, without success, to replace them. In the meantime, the surrounding area has changed, this time for the better, with high-class office towers, a luxury shopping mall and the nearby Parque do Povo, an urban park inaugurated in 2008. The small square is clean and well kept. And the story had a happy ending, since the new mayor, João Dória, who took office on January 1st, took the matter in his own hands and the missing nameplates are back in place as if by magic.

 

 


São tantos os que acreditam!

A tudo pese.
Pense.
Agostinho da Silva

O último blog suscitou uma série de mensagens, principalmente daqueles leitores que veem na atividade esportiva o caminho para uma vida mais saudável. Mensagens curtas, estimulantes e solidárias.

O amigo, arquiteto e corredor Marcos Leite enviou-me mensagem em que ratifica seu entusiasmo pelas corridas de rua: “Me senti correndo ao seu lado e escutando sua voz. Delícia de texto, especialmente para quem teve o prazer de acompanhá-lo nos treinos permeados de um bom papo. A convite do nosso amigo e vizinho Cláudio Zuccolo, fizemos a São Silvestre na turma da pipoca (termo utilizado para os que não se inscrevem, mas participam. Nota JE) Mas, exagerados como sempre, aquecendo parte da viagem de ida à Paulista, mais os 15 km da prova, ainda voltamos correndo pelos jardins com direito a um suco de melancia no clube Pinheiros, num total de perto de uns 28 km. Foi bem divertido e, contrariando o ‘sacrificado’ Drauzio, muito prazeroso. Que continuemos 2017 fazendo nossos treinos e corridas com alegria e gosto”.

O competente personnal training, Edgar Barbosa Correa, que nos assistiu, Regina e eu, durante mais de um ano, hoje residente na Flórida, escreveu: “Morando aqui nos EUA, procuro ler notícias boas do Brasil. Uma delas encontrei lendo seu blog. Você continua com o mesmo entusiasmo pelas corridas de rua e acredito que alguns recordes virão. Confesso que isto me deu um ‘up’ para continuar correndo com temperaturas abaixo de zero”.

Como sempre o faz, o compositor e pensador francês François Servenière não se restringe ao fato em si e parte para divagações, verdadeiro “tema com variações”, gênero tão praticado na criação musical. Escreve:

“Seus artigos raros sobre corrida me dizem muito. Fui um adepto ferrenho das corridas pelas praias entre 20 e 35 anos. Fiz uma longa pausa de 15 a 18 anos do período em Paris ao retorno à província. Só recomecei nestes últimos dois anos em consequência de vários problemas que poderiam ter consequências físicas sérias como stress, excesso de sedentarismo e aumento de peso. Maus hábitos, na realidade. Atualmente pratico meus exercícios na bicicleta elíptica essencial, alternando com musculação com halteres, assim como caminhada acelerada de 2×500 metros para levar Tom (7 anos) à escola, antes de iniciar meu trabalho musical no novo estúdio nessa recente moradia.

O Esporte: a magia de nos sentirmos em boa saúde, mesmo que o inverno esteja forte neste ano pelos nossos lados. Prefiro-o às horríveis chuvas gélidas de outono. O frio úmido é meu maior inimigo. Posso suportar sem dificuldades temperaturas secas de 20-30º abaixo de zero, enquanto 0º torna-se para mim insuportável em tempo úmido.

Parafraseando Haruki Murakami, inserido como epígrafe em seu blog, diria que o esporte nos permite virtualizar nosso corpo. Isso feito, temos a impressão de ser uma pequena nuvem, plena de endorfinas. Na realidade, somos por elas incentivados por nossas próprias possibilidades antidores. Mas isso é bom. Sou dependente dos esportes, deles não podendo prescindir. Mesmo em pleno inverno, levanto-me e em três minutos já estou na minha bicicleta elíptica, sentindo-me conectado com a vida.

Não sei se um dia retornarei às corridas, mas quando vejo a sua forma e a do atleta francês (104 anos) que acaba de bater o recorde mundial da hora (na sua faixa etária) em bicicleta sobre pista, essa semana em França, ratifico a certeza de que o esporte é uma magia da qual não devemos nos privar, a fim de viver mais tempo.

Sob outro aspecto, será necessário organizar as aposentadorias na França e alhures, pois a prática esportiva permite o prolongamento da vida de maneira incompatível com a organização daquelas previstas após a segunda grande guerra. Na verdade, na época as pessoas paravam de trabalhar aos 65 anos, mas não tinham esperanças de sobrevida após cinco anos inativos. Hoje na França vemos aposentados viverem 40 anos após cessarem o trabalho em carteira… Trata-se de uma guinada absoluta, que terá de ser estudada a fundo. Aos 50-60 ou mais, sentimo-nos em plena forma”. O projeto da Reforma da Previdência do Brasil não estaria a apontar por caminho imprescindível a ser trilhado?

Servenière continua: “Vendo as fotos de seu último post verifico que todos têm a postura e a descontração, demonstrando pleno entusiasmo, mercê do esporte. Partilho de seu sentido de solidariedade relacionado aos atletas que sofrem percalços durante as provas, resultado da atividade esportiva que merece por vezes esforços monstruosos. Há sempre nesses momentos precisos um sentimento de ajuda que não encontramos nas atividades das cidades superpovoadas, onde os mecanismos da vida social são naturalmente voltados ao egoísmo sem limites, o struggle for life a cada dia mais violento e bárbaro.

Face à natureza e ao esforço, os humanos buscam se ajudar. Presenciei inúmeras vezes – em minhas escaladas nas montanhas, velejando no mar e nos lugares de frio intenso – esse espírito solidário entre participantes de atividades afins. Penso como você a respeito da maratona, atividade desumana. Apesar de ter caminhado inúmeras vezes de 25 a 40km em menos de um dia, sentia menor desgaste, graças à marcha lenta. Todavia, essa atividade esportiva tinha um tributo a pagar, e minhas pernas nos dias subsequentes sofriam o resultado do esforço despendido. Foi essa a razão de, quando a correr, jamais ter ultrapassado os 25km. Impressionam-me as suas 130 corridas realizadas após os 70 anos e o despertar às 4:30 da manhã quando das provas oficiais”.

François Servenière tem razão ao afirmar esse lado inumano da maratona. Hoje essas provas de 42km estão espalhadas pelo planeta e o número de adeptos cresceu, sendo que, nas consagradas, há a necessidade de o atleta amador apresentar índices compatíveis em competições similares menos importantes. Vem da Grécia Antiga a lenda que rezava ter Filípides, soldado, atleta e doravante mensageiro, percorrido distância compatível de Maratona a Atenas, a fim de anunciar a vitória contra os persas em 490 a.C. Morreria exausto, após transmitir a informação. Somente em 1896, nos Jogos Olímpicos, homenagearam Filípides ao incorporarem a distância. Que não é natural o atleta amador percorrer a distância de 42km + 195ms, não é. Os treinamentos têm de ser intensos e o desgaste, enorme. Drauzio Varella, ao mencionar corredores que estavam a participar de suas agendadas maratonas, menciona semblantes “miseráveis”, “destruídos”. Pergunta-se: vale a pena, para que tamanho esforço, o que se pretende provar?

Permaneço nos meus 10 a 15km. Sinto-me à vontade e treino regularmente com o mais intenso prazer. Frise-se que 10km é a distância considerada clássica entre as corridas. Não teria tudo a ver com o gênero de música à qual me dedico?

Further thinking on the topic of running, this time through messages from readers with comments on my post on road races. Some say they feel encouraged by my posts, something I am very proud of. All agree physical activities help us meet people and are essential for our physical and spiritual well-being.

 

Elas continuarão neste 2017

Os pensamentos que me ocorrem
quando estou correndo são como nuvens no céu.
Nuvens de tamanhos diferentes.
Elas vêm e vão, enquanto o céu continua o mesmo de sempre.
As nuvens são meras convidadas que passam e vão embora,
deixando o céu para trás.
O céu existe ao mesmo tempo que não existe.
Possui substância e ao mesmo tempo não.
E nós meramente acolhemos essa vasta expansão
e nos deixamos embriagar.
Haruki Murakami
(“Do que eu falo quando eu falo de corridas”)

“E as corridas de rua. Você as abandonou?”. Marcelo é amigo e morador na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Encontramo-nos várias vezes na feira livre aos sábados e nos vários supermercados das cercanias. Respondi que continuo a treinar e a participar das inúmeras corridas de rua que hoje proliferam em São Paulo e cidades vizinhas, sempre com enorme prazer. Disse-lhe que a sua pergunta era provocativa e que não ficaria indiferente ao tema.

Realmente continuo a participar das corridas de rua. No ano que passou foram 20. Se considerarmos que a inscrição para as provas pressupõe preparação, diria que, num ano de 50 e tais semanas, as participações até que foram expressivas. Atendo-se aos três treinos semanais – dois quando há corridas -, temos cerca de 150 percursos de 8 a 12km durante o ano, individuais ou junto à multidão de adeptos. Mesmo em turnê pela Europa não deixo de treinar, até quando as temperaturas estão lá embaixo. Em 2015 cheguei a correr em prova de 10k na cidade de Ninove, na Bélgica.

Escrevi em anos anteriores que jamais vi um rosto contraído ou mal humorado antes e depois das provas de rua, exceção ao pelotão que sai à frente e que busca superar tempos e ganhar troféus. Diria, quem compete tem a adrenalina em índices altos e vê o corredor ao lado como alguém a ser superado.

Faço galhardamente parte da turba que está a correr despreocupada, buscando a ratificação de princípios que regem a qualidade de vida. Todos se sentem “companheiros” no percurso a ser vencido. Um exemplo pode ser presenciado habitualmente quando um corredor cai ou sente qualquer desconforto. Há sempre os bons samaritanos que abdicam de seus tempos para acudir o infortunado. Já fui mais de uma vez socorrista nessas ocasiões. Não sei se o pelotão de atletas profissionais ou semi profissionais age dessa maneira, pois não apenas não estou lá na frente para comprovar, como também esses corredores pensam nos prêmios e nos troféus, o que é lógico.

Acumulo alguns troféus, não pelo desempenho, mas graças à idade. Numa corrida de rua na aprazível cidade de Louveira (72km de São Paulo) estava para retornar à nossa cidade juntamente com meus companheiros nessas provas, Batoré e Peninha, quando, por megafone, anunciaram meu nome. E veio o troféu do mais idoso!!! Nas organizadíssimas corridas do Circuito da Longevidade, patrocinadas pela Bradesco Saúde, já foram vários troféus relativos à classificação na faixa etária e como um dos três mais longevos. Não deixa de trazer grande alegria.

Desde 1952, tenho muitos álbuns contendo recortes de jornais, críticas e programas musicais que contam o longo caminho que ainda não findou. Igualmente guardo álbuns das corridas desde 2008. Já são cinco preenchidos. De cada corrida arquivo o número de peito, foto comprada das inúmeras empresas que colhem milhares de imagens dos corredores e o tempo final. Num desses dias revi-os e pude observar o paulatino aumento dos tempos para percursos como os 10k. “O tempo insubornável”, de que nos fala Guerra Junqueiro, testemunha por escrito esse declínio, que não me incomoda. Continuo a chegar entre os corredores do último terço de inscritos, mas curiosamente à frente de algumas centenas ou, em determinados casos de quantidade expressiva de corredores, de milhares. Isso não importa. Satisfaz-me a alegria contagiante que emana desse clima mágico representado por essa atividade esportiva que cresce de maneira geométrica no Brasil e no mundo.

Resenhei dois livros sobre corridas de rua, um do grande escritor japonês Haruki Murakami (vide blog de 19/02/2011) e outro do médico Drauzio Varella (vide blog de 03/10/2015). Li com grande prazer as duas obras, pois pormenorizam toda a evolução que os levou a percorrer maratonas. Já escrevi anteriormente que a maratona (42.2k) continua a ser desafio a ser vencido por quantidade expressiva de corredores de rua, sendo a meia maratona (21.1km) a etapa necessária de aprimoramento. Logicamente, pormenorizar-se nessas distância significaria ainda atingir o Nirvana. Todavia, a insaciabilidade humana já aumentou limites quilométricos, e provas de 100k ou até 180k já estão se tornando alvo para adeptos especiais, os ultramaratonistas. Essa assertiva leva à conclusão de que a temática futura buscará distâncias sempre acentuadas e literatura afim será produzida para interesse de leitores ávidos no algo a mais. Porém, metas em ascensão não trazem benefícios à saúde. Isso é comprovado. Um bom companheiro de corridas, que participava de provas de 10 a 100k, sofreu infarto do miocárdio ao final de um longo percurso e quase se foi. Meses após, retornou às corridas de apenas 10k e com “orgulho” exibiu a enorme avenida traçada em seu peito! A maratona já é, a meu ver, desde a intensa preparação, um exagero para o humano.

No dia seguinte ao nosso encontro, Marcelo entrega-me recente artigo intitulado “Feliz 2017″ (Folha de São Paulo, 24/12/16), de Drauzio Varella. O famoso médico estranhamente desconstrói a essência de seu livro “Correr” e o título da crônica em apreço. Emana conceitos desestimuladores. Escreve: “Corro maratonas há 23 anos. Acordar mal-humorado às 5h, vestir calção e calçar tênis, resignado, é parte de minha rotina, como examinar doentes ou tomar banho”. Alguns parágrafos abaixo prossegue: “Quando você, leitor, ouvir alguém que se gaba de acordar louco para fazer exercícios, não fique complexado: é mentira. Como eu sei? Se existisse tal disposição eu a teria sentido pelo menos uma vez nos últimos 23 anos. Para mim, levantar da cama e começar a correr sempre foi sacrifício; todas as vezes, sem uma exceção sequer” (sic). Algumas considerações: Varella generaliza uma experiência particular. Utilizando-me do mesmo raciocínio, em sentido inverso, diria que todos os corredores que conheço – alguns maratonistas e ranqueados – praticam a atividade com prazer. De minha parte, jamais acordei mal-humorado, por vezes às 4h, nas 130 corridas desde 2008, portanto iniciadas aos 70 anos, após um câncer que quase me levou aos anjinhos. Todas as manhãs, mesmo em dia de corridas, realizo com prazer meus 20 minutos de ginástica, assim como meu saudoso pai, que se sentia rejuvenescido ao praticar seus exercícios matinais até pouco antes de sua morte aos 102 anos. Jamais correr foi sacrifício para mim e para os que eu conheço. Quando, às 5 ou 5:30h, meu companheiro de corridas, Carlos ou Batoré, chega à minha porta vindo de bairro distante e estampa um grande sorriso pleno de alegria, ouço sua frase em voz alta, “mais uma professor!!!”. Seguimos energizados para as provas em São Paulo ou cidades próximas. A testemunhar esse prazer enorme do avô, minha querida neta Ana Clara escreveu mensagem quando da centésima corrida. Inserida no post de 28/08/2015, publico-a novamente, pois comove-me sempre:

“Vovô querido, muito me orgulha ver estas fotos e ser testemunha desta conquista que vai além da primeira corrida com três dígitos. Não são somente 100 corridas. São 100 vezes que você acordou antes do sol nascer. São 100 vezes que você se inscreveu com vontade de superar mais um obstáculo. São 100 vezes que você foi dormir pensando que uma nova história te esperava no dia seguinte. São 100 vezes que você se preparou no dia anterior (com os alfinetes na camiseta, com a garrafa d’água, a toalha e a camiseta extra). São 100 vezes que você alcançou a chegada. São 100 vezes que você foi admirado pelos demais corredores pela sua idade e perseverança. São 100 vezes que você chegou em casa satisfeito por mais uma missão cumprida. São 100 vezes que o ‘talento’ percebeu que não estava tão lento assim. São 100 vezes que você se orgulhou da escolha de começar a correr. São 100 vezes que você salvou fotos, as imprimiu, e colou juntamente com o número da corrida no álbum. São 100 medalhas. São 100 corridas SEM desculpas ou desistências. São 100 vezes que você acordou determinado a lutar pela vida. Não pude estar presente nestas 100 corridas, tendo participado de duas delas, mas tenha certeza que você recebeu 100 aplausos, 100 sorrisos e 100 momentos de orgulho da sua querida neta. Esta foi minha singela homenagem ao meu queridíssimo avô! Te amo! Parabéns de novo!”. Confesso que, se sentisse, sequer uma vez, sacrifício ou enfado, não correria, como também não me dedicaria horas a meu estudos pianísticos.

Portanto, prezados leitores, continuarei a percorrer distâncias compatíveis com minha idade (78). De 10 a 15km, acho plausível. Se chegar aos 80 anos, espero ter escrito um livro sobre a experiência saudável nessas distâncias e relatar algumas figuras que me são essenciais como exemplos, estímulos e amizade. Pormenorizar-me-ei em Elson Otake, o maratonista, responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 gravações que realizei no Exterior e conselheiro impecável quanto às corridas; Nicola, que, aos 82 anos, foi meu primeiro guru, e que realiza semanalmente treinos de 20 a 30km nas serras perto de Campos do Jordão; Antônio Lopes, fenômeno físico, que aos 89 anos participou de maratonas e ainda completa as meia maratonas. Soma em seu currículo mais de 700 corridas de rua!!! Encontro-o em quase todas as provas de 10 ou 15km!!! Escreverei sobre Edgar Barbosa Correa, excelente personal trainer que me orientou durante ano decisivo e que hoje mora definitivamente, com sua esposa Melina, igualmente personal, nos Estados Unidos Por fim, terei capítulo sobre Carlos, vulgo Batoré, amigo e companheiro de todas as corridas.

Marcelo ainda perguntou o que eu considero o benefício maior. Respondi-lhe que o bem estar é resultado fulcral, inclusive para meu estudo de piano; que durante os treinos solitários ligo o automático e passadas e respiração se amalgamam, deixando para a mente a elaboração dos quase 530 posts já publicados no blog. “Eles” se organizam na mente e, de madrugada, no silêncio possível, descem serenamente para o teclado do computador. É isso, meu caro Marcelo.

This post explains why I love running: the benefits for body and mind: the interaction  with other runners – everybody has an advice to give, a race story to unfold -, the rush of hormones that relieve stress and make your happier. Running has never been a burden: on the contrary, it is something I always do with pleasure, even if it includes solo practices three times a week alone with my thoughts, getting up at dawn rain or shine on runnings days – occasionally travelling long distances -, taking care of my form, breathing, and pace. But I love the camaraderie of my teammates and of other runners, checking how I have done in my age division and, as a fringe benefit, the increased energy brought by regular exercise.