Navegando Posts em Cotidiano

Não há como evitá-los

Lembra-te que, para ser útil à humanidade,
o pensamento deve traduzir-se em ações.
Não tomes sobre ti novos deveres para com o mundo;
porém, daqueles que já te encarregaste,
desempenha-te perfeitamente,
entenda-se,
os deveres definidos e razoáveis que tu próprio reconheces
e não os deveres imaginários que porventura
alguém pretenda impor-te.
J. Krishnamurti

Foram três blogs dedicados às corridas de rua e às reflexões e comentários de leitores sobre o tema. Decididamente, elas fazem parte de minha vida e me trazem grande alegria e prazer. Periodicamente o tema retorna ao blog, mormente quando fato inusitado assim pede. Se minha digitação percorria o teclado nessas últimas semanas na tentativa de passar ao leitor todo esse envolvimento, não estava alheio aos gravíssimos problemas que nos assolam e que têm sido debatidos por profissionais abalizados. Mais a operação Lava-Jato se aprofunda, mais intensamente temos a certeza de um projeto inescrupuloso de poder que há mais de uma década está a deixar o país completamente à deriva, mercê da endêmica corrupção agigantada e da má governança. As democracias consolidadas têm como constante a alternância do poder, que no mínimo gera arejamento, apesar de alguns problemas vitais permanecerem. Todavia, a intenção do aparelhamento definitivo de um país não se dá. Desgraçadamente, a ânsia da perpetuação de um partido no poder que já deu água desde os primórdios está a levar o país ao impasse. Os planaltinos de plantão nunca negaram o desejo de permanecer décadas no poder. Expressamente.

Sob outro aspecto, como não se indignar com a grande invasão migratória do Oriente Médio e da África do Norte rumo à Europa, via Mediterrâneo, graças às ditaduras e ao fanatismo ideológico e religioso? Assiste-se “passivamente” ao extermínio indiscriminado de vidas e a destruição de propriedades público-privadas, assim como de monumentos arqueológicos. Numa outra situação, a corroborar as tragédias, a  implacável natureza a provocar secas aterradoras. Tempos difíceis, quiçá de insolúvel acerto. Estou a me lembrar de texto que li nos anos 1980, escrito pelo ilustre historiador inglês Eric Hobsbawn (1917-2012). Dizia que, passadas as primeiras décadas do século XXI, o hemisfério norte estaria inteiramente invadido pelos povos do hemisfério sul, Europa e América do Norte como destinos. Verdadeira profecia! A atualidade assiste com estupefação a essa realidade! Fome, ação de ditadores sanguinários, guerras e guerrilhas sob a égide de intolerância religiosa ou diferenças étnicas. O Médio Oriente totalmente convulsionado, a maior parte da África fadada às batalhas fratricidas. A barbárie como rotina. Hobsbawn apresentava razões, se bem que, àquela altura, o acelerado e pandêmico terrorismo ainda não se mostrava aterrador.

A fazer parte sistematicamente de meus blogs, os comentários de François Servenière testemunham a leitura atenta e enriquecedora. Esse olhar distanciado, vindo da Normandia, tem dois méritos incontestáveis, o talento do compositor e pensador francês e, necessariamente, uma visão outra dos fenômenos que estou constantemente a narrar. Nessa última mensagem, Servenière aborda dois temas, a alucinante migração que tem o Mediterrâneo, de fantásticas tragédias desde a Antiguidade, como palco atual, para outra categoria de desgraça, o total desprezo que os poderosos têm pelos infortunados sob seus jugos. Como bálsamo retorna em seu e-mail à atividade esportiva. Escreve:

“É sempre motivo de alegria a publicação de meus comentários em seu blog, após tradução. Interessam-me muito os seus temas hebdomadários, pois os assuntos que você aborda são essenciais e focalizam problemas de nossa sociedade mundial em sua essência atual. Na realidade, todos os países hoje estão interconectados pela mundialização. Não seria difícil compreender que as sociedades sigam as mesmas direções e sofram os efeitos de idênticos atavismos…

Todos nós ficamos horrorizados esta última semana pela foto da infortunada criança síria sobre uma praia da Grécia. Tínhamos a impressão de que ele dormia, alongado na posição em que Tom (filho pequeno de Servenière) dorme sobre seu leito. Ficamos arrasados. Essa emoção correu mundo. Que injustiça para esses países, suas famílias e seus pequeninos! Que irresponsabilidade também, da parte dos governantes, sempre cruéis ditadores que não deixam outra opção a não ser a fuga em massa das populações, pois, no afã de se perpetuarem, preferem ver cidades, vilas e aldeias completamente destruídas! Que irresponsabilidade também desses inescrupulosos traficantes de homens fazendo-os atravessar sobre embarcações da miséria, muitas vezes por somas, a partir de informações publicadas, que chegam a 10.000 euros por pessoa! Tudo isso é loucura, é apocalíptico! Devemos acolher essas pessoas na Europa, é certo, mas tendo de tomar cuidado para que esses alucinados da Daesh (Estado islâmico, organização jihadista que proclamou em Julho um califado entre o Iraque e a Síria) não se misturem aos infortunados fugitivos, apesar de certamente ter havido infiltrações. Já é o caso dos Bálcãs, a 1.000km de Berlin e pouco mais de Paris. Horror à vista, se não houver a necessária união europeia para erradicar o flagelo.

Retornando ao esporte e ao seu artigo, estamos diante de uma das mais belas atividades do planeta. Se cada um de nós pensasse no mens sana corpore sano evidentemente haveria menos guerras e conflitos.

Todos, sem exceção, podem e deveriam fazer esporte ou alguma atividade artística. Evidentemente uns pouquíssimos se tornarão Usain Bolt ou Renaud Lavilenie, Arthur Rubinstein ou Vladimir Horowitz. Mas cada um pode alcançar a felicidade simples que consiste em atingir seus próprios limites, tanto nos esportes como nas artes. Na música, como exemplo, nós dois iniciamos o caminho ainda crianças, sem outro ferramental que nossas visões, nossos sonhos, nossas possibilidades, pois tivemos a chance de ter pais compreensivos, o que, na realidade, deveria ser sempre uma constante.

Estamos atados a essas aspirações, como você menciona em seus textos, uma vontade i-na-ba-lá-vel acoplada ao nosso corpo para a realização de nossos sonhos mais íntimos. O esporte e a arte integram e desenvolvem essa vontade. Não somos seres excepcionais, longe disso. Mas trabalhamos para a realização de nossos ideais, convencidos de que as únicas barreiras que tínhamos em nossas vidas estavam em nossas cabeças e não no exterior. Compreendido esse paradigma, todas as portas estarão abertas, necessário apenas abri-las. É tudo!

O esporte e a arte são verdadeiramente espaços propícios a todos, que permitem ultrapassar barreiras físicas, psíquicas, sociais, éticas, religiosas… “. (tradução: JEM).

Para o leitor, diria que essa última concentração de posts sobre as corridas buscou mostrar esse lado tão benéfico da prática esportiva, independentemente de eu estar a praticá-la. Se as mensagens caírem em solo fértil, o objetivo terá sido alcançado. O refúgio junto à família, à música e à corrida é necessário para o provável equilíbrio da mente.

Regressando ao desastre ético, moral, político e econômico que assola o Brasil nessas governanças do século XXI, sem uma almejada esperança, pois terra quase arrasada, ao cidadão laborioso, que trabalha com seriedade e que cultua valores sacralizados como a família, a moral e a solidariedade – tão inerentes no povo brasileiro -, dedicar-se com entusiasmo às tarefas diárias, sejam elas de quais áreas dignificantes forem, mostra-se como o caminho desse acreditar, ainda.

In today’s post I transcribe message from the French composer François Servenière, in which he addresses with great acuteness the uncontrolled mass migration of refugees to Europe – a serious political question with global dimensions – and stresses once more the importance of sports and music as ways to refresh our soul in moments of crisis.

 

 

 

Bastam duas Frases

Para mim, correr é tanto um exercício como uma metáfora.
Correndo dia a dia, colecionando corridas,
pouco a pouco elevo meu patamar,
e cumprindo cada nível aprimoro a mim mesmo.
Haruki Murakami

Há mais de trinta anos frequento a mesma feira livre na minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Anos atrás escrevi blog a respeito das feiras ao ar livre onde o congraçamento se dá, mercê da frequência semanal das mesmas pessoas. O passar dos anos é sentido nas transformações físicas e no desaparecimento de alguns feirantes que aprendi a estimar – Miguel, Dirce, Walter… -, mas a relação feirante-freguês continua através da história do mercado ao ar livre, sempre amistosa, quiçá calorosa, o que se torna prazeroso para os que se habituaram a frequentar as tantas barracas espalhadas por ruas e calçadas.

Gilberto é um dos assíduos frequentadores. Conheço-o há mais de dez anos. Arquiteto, alegre e descontraído, lê meus blogs e de bate-pronto perguntou-me a respeito de duas frases do último. A primeira, a epígrafe do treinador e professor Nuno Cobra: “Será preciso muita disciplina, força de vontade e controle sobre as próprias emoções para calçar o tênis e arranjar um tempo”. Quanto à segunda, apenas disse ter gostado, mas não se recordava. Trata-se de frase em que encerro o blog: “Importa apreender momentos da existência e vivê-los com intensidade”.

A frase do preparador físico e professor Nuno Cobra, respeitadíssimo profissional tanto no Brasil como alhures, extraída de seu ótimo livro “A Semente da Vitória” (São Paulo, Senac, 70ª edição, 2004), traduz a essência essencial para que cheguemos à prática esportiva. Sem disciplina, concentração, determinação e vontade, nada, realmente nada se consegue a envolver a prática esportiva ou atividade em quaisquer áreas. A frase de Nuno Cobra tem interpretação bem próxima à de Dráusio Varella em seu livro de muito interesse, “Correr” (São Paulo, Cia. das Letras, 1ª edição, 2015): “Existe sofrimento mais atroz do que deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador, vestir o calção, a camiseta e calçar o tênis para sair correndo?”. Presentemente é uma de minhas leituras, que se traduzirá em resenha dentro em breve.

O problema maior para aquele que inicia a prática esportiva é o esmorecimento. Tantos conheci que aderiram entusiasmados ao exercício físico de qualquer ordem, mas, indagados meses após, confessam a desistência. Há poucos dias conversava com minha neta Valentina (15) e o tema central era o desafio, seja ele onde estiver, nos sonhos ou nos desideratos mais objetivos. Dizia-lhe que, ao realizarmos na mente determinada proposta após ponderadas reflexões e, ao se ter uma meta a ser alcançada, nosso olhar já direcionado não se deve desviar. É aquele o objetivo a que nos propusemos e faremos os esforços, dentro de nossos limites, para alcançá-lo. O ato de correr pode conter o impulso romântico e sonhador do desafio e do risco. As muitas medalhas que Valentina e sua irmã Emanuela (12) obtiveram no nado sincronizado a nível estadual e nacional só vieram através desse “… deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador”, como afirma Dráusio Varella. A apresentação pianística condigna frente ao público só acontece se vier precedida de laborioso e permanente estudo concentrado a lhe dar sustentação. No meu caso, a prática vem desde meus nove anos de idade.

Quanto à última frase do blog precedente, busquei evidenciar que há momentos especiais que devem ser vividos com intensidade. São eles que,  contrapondo-se a outros menos ou nada favoráveis e até sem interesse, dão o contraponto da existência. Momentos bons, presencialmente dimensionados,  possibilitam o entusiasmo para projetos em curso, convívio familiar e social,  e enriquecem nossa vida, permanecendo no recôndito da memória para serem ativados quando lembranças afloram.

François Servenière, sempre esse parceiro extraordinário, pois amigo, compositor de grande mérito, pensador e escritor (brevemente terá livro publicado), pondera sobre a prática esportiva após a leitura do blog precedente. Escreve sobre o que se pode deduzir da existência a partir dos 40-50 anos. A reflexão surge: “O tempo decorre e sentimos que ainda pouco vivemos, observando que nada de verdadeiramente essencial foi feito! A vida parece tão curta e já caminhamos tanto”. Essa é uma posição bem comum na atualidade e que pode levar à depressão. Servenière  particulariza: “Cruel perspectiva quando a única escolha possível é a de se dedicar ao esporte e à atividade psíquica natural para o reencontro com a juventude perdida devido às ocupações múltiplas e nem sempre fundamentais. ‘A la recherche du temps perdu…’ Quanto tempo perdemos nos engarrafamentos nessas cidades superpovoadas… Quanto tempo perdido ao sermos obrigados a escutar o barulho das megalópoles ou tantos outros dissabores! São centenas de dias, muitos anos acumulados! Stress, tempo rigorosamente inútil que escapa pelos dedos e que nos leva às doenças!

Sim, a corrida e o esporte nos conduzem à essência de nós mesmos, à própria condição de vida que é respirar, olhar, ver, observar, produzir, mas também sonhar. Isso impede que fujamos de toda espécie desse maelstrom improvável que é a vida moderna. Não seria essa a razão de nossa leitura com avidez dos livros de Sylvain Tesson? Ele compreendeu tudo. Certo, ele é solitário, escritor de sucesso e essa condição lhe permite viver… Mas seu exemplo é primordial. Cessemos de viver que de expedientes e relativismos, de acessórios e do superficial, retornemos à essência essencial. Encontramo-la no esporte e na corrida, essa ligação entre o céu e a terra e nós no meio. Somos então verdadeiros deuses. E sabemos disso graça ao sorriso espontâneo em nossos semblantes e ao bem estar consequente!”. (tradução: JEM). Essas sábias considerações de Servenière implicam  a manutenção da prática esportiva como uma possibilidade para o autoaperfeiçoamento. Podemos, através dela, melhor entender a complexa máquina humana, que será nossa companheira durante toda a existência. A proverbial e tão utilizada citação latina, mens sana in corpore sano, é a síntese das sínteses desse amálgama que deve ser voluntário e amoroso. Sem essa harmonia absoluta um elo estará rompido. Mais do que o ato da prática esportiva, importa entendê-la como indispensável contributo para o nosso equilíbrio físico, espiritual e profissional. Meta difícil, mas possível para aqueles que se dispuserem a tanto. É só acreditar.

Further thinking on the topic of running, this time with focus on the need of discipline, concentration and determination in order not to give up regular physical activities. Just think they improve our health, help us meet people, make friends and decrease depression. They are essential for our physical, professional and spiritual well-being

Uma Emoção a Mais: a Recepção das Mensagens

Será preciso muita disciplina,
força de vontade e controle sobre as próprias emoções
para calçar o tênis e arranjar um tempo.
Nuno Cobra

O post sobre a centésima corrida de rua teve comentários de aficionados pela modalidade esportiva e de leitores que me prestigiam ao longo da existência deste blog. Tive prazer imenso ao ler mensagens que transmitem o estímulo apreendido a partir dessas considerações sobre qualidade de vida. Alguns voltaram-se às práticas esportivas após blogs em que periodicamente comento determinada corrida. Pessoalmente, iniciei as corridas quando um casal, Marcos e Ruth, que corriam pela minha cidade-bairro, vendo-me caminhar e dar pequenos “tiros” (pequenas distâncias com ritmo mais acelerado), incentivaram-me, aconselhando procedimentos básicos. Era o ano de 2006 e a minha saúde estava sub judice. A consequência já narrei aos leitores no decorrer dos posts, e hoje a corrida de rua faz parte de minha vida.

Selecionei seis mensagens. As duas primeiras de incentivo, sendo que a de minha neta Ana Clara (23) levou-me às lágrimas. Duas outras, em que modestamente sinto-me “responsável” quanto ao estímulo transmitido através de minha prática nessa atividade de atleta amador, acrescido da faixa etária que não pode ser negligenciada. As duas últimas de solidariedade, pois de companheiros de passadas nas tantas corridas de rua.

Magnus Bardela, sempre mencionado em meus posts, escreve: “Mais do que conquistar as ruas e corridas, você tem o privilégio de ter, entre os seus, o verdadeiro congraçamento de amor e admiração”.

A mensagem de Ana Clara, muito mais do que o incentivo, traduz a bela alma de minha querida neta: “Vovô querido, muito me orgulha ver estas fotos e ser testemunha desta conquista que vai além da primeira corrida com três dígitos. Não são somente 100 corridas. São 100 vezes que você acordou antes do sol nascer. São 100 vezes que você se inscreveu com vontade de superar mais um obstáculo. São 100 vezes que você foi dormir pensando que uma nova história te esperava no dia seguinte. São 100 vezes que você se preparou no dia anterior (com os alfinetes na camiseta, com a garrafa d’água, a toalha e a camiseta extra). São 100 vezes que você alcançou a chegada. São 100 vezes que você foi admirado pelos demais corredores pela sua idade e perseverança. São 100 vezes que você chegou em casa satisfeito por mais uma missão cumprida. São 100 vezes que o ‘talento’ percebeu que não estava tão lento assim. São 100 vezes que você se orgulhou da escolha de começar a correr. São 100 vezes que você salvou fotos, as imprimiu, e colou juntamente com o número da corrida no álbum. São 100 medalhas. São 100 corridas SEM desculpas ou desistências. São 100 vezes que você acordou determinado a lutar pela vida. Não pude estar presente nestas 100 corridas, tendo participado de duas delas, mas tenha certeza que você recebeu 100 aplausos, 100 sorrisos e 100 momentos de orgulho da sua querida neta. Esta foi minha singela homenagem ao meu queridíssimo avô! Te amo! Parabéns de novo!”. A alusão ao talento deve-se a uma das equipes da qual faço parte, a TA LENTOS. A outra é a Corre Brasil.

De Portugal chega-me mensagem da prezada amiga Maria Celestina Leão Gomes: “É uma honra sentir, mesmo à distância, um amigo dessa grandeza, destemido, arrojado e perseverante!!! Adorei a reportagem da 100ª Corrida de Rua. Tanto as palavras como as imagens. A tua alegria, estampada no rosto, conseguiu envergonhar-me. Há tanto tempo que ando para encetar corrida ou natação com regularidade, mas, porque sozinha, perco o entusiasmo e vou sempre deixando para as calendas gregas todo o material que coloquei no saco de desporto. Contudo, o teu espírito de luta há de dar-me força para esta inércia pessoal, que tenho trocado pelas várias lutas colectivas. Se não arranjar tempo em setembro, certamente que iniciarei em outubro, mesmo sem acompanhante. Que bom teres ultrapassado um período tão duro da tua vida. Hoje és um Homem Novo. Parabéns e continue com essa determinação. Como a distância não permite um apertado abraço, envio-te um platonicamente – Grande Herói”.

François Servenière, compositor e pensador francês, parceiro contínuo de meus blogs, poliesportista na juventude, confessou-me em e-mail bem anterior que retornou à prática após meus textos periódicos sobre as corridas. Sinto-me deveras honrado. Tem interesse seu relato, pois Servenière comenta suas “transformações” corporais, com reflexo nítido na mente criativa, após a retomada: “Queria felicitá-lo pela centésima corrida de rua, sobretudo pelo fato que desconhecia de que você iniciou essa atividade física aos 70 anos. É impressionante! Endosso tudo o que está relatado em seu blog. A corrida ou a atividade física são necessárias nessa incessante luta contra o stress, as doenças, o envelhecimento e a vida difícil de nossa época. Ignorei esses sinais no meu corpo durante os principais anos de minha vida profissional, obcecado que estava pela performance musical a desenvolver. O corpo vingou-se. Estava eu completamente desolado, pois fui da juventude, aos 35 anos, um formidável esportista, como você bem sabe: meia maratona, natação, esqui extremo, caminhada pelas montanhas, alpinismo e windsurf… Após, a vida, a profissão de músico e a família foram prioridades. Morava em Paris. Retornei ao campo após 20 anos desse ritmo alucinado, pois não o suportava mais, e certamente sucumbiria. Tantos outros artistas tomaram esse rumo, não aguentando mais a pressão imbecil.

Não mais faço treinos a correr e não farei, como você, corridas de rua, tampouco natação, movido pelo fato de ser relativamente pesado e ter pernas de esquiador e caminhante das montanhas. Se correr, meu peso sobrecarrega as articulações, mormente em solo duro. Felizmente encontrei imenso prazer com esse famoso aparelho transport (Elíptico), com o qual realizo 90′ de caminhada diariamente, 45′ de manhã e 45′ à noite, sem choques, harmoniosamente.

Logicamente não tenho a comunhão social que lhe é característica em suas corridas de rua, mas quanto ao esforço físico, entendo-o idêntico. Sempre fui um solitário, mesmo nas minhas caminhadas pelas praias. No meu aparelho posso programar dificuldades, arritmias. Realizo ainda 10 minutos de alongamento pela manhã e à noite, com movimentos de crawl e aquele movimento de braços que você me relatou em certa mensagem, ou seja, os dedos das mãos nos ombros, muito eficaz para a respiração e para as espáduas.

Comprei meu aparelho Elíptico no começo de Junho. Parece-me que ele faz parte de minha vida desde sempre. Estou bem menos estressado, muito mais feliz, pois reencontro minha juventude perdida e consigo subir as escadas de quatro em quatro degraus. Dentro de um ano estarei em melhor forma. Há vinte anos não sentia esse real prazer que é resultado da prática esportiva.

O exposto é razão primordial para que compartilhe totalmente do seu entusiasmo pela corrida de rua. Quem sabe, quando as crianças crescerem e os encargos familiares se tornarem menos pesados, recomeçarei a correr pelas praias, como há 25 anos. Adorava todo esse ambiente em torno da atividade física. A idade não é, evidentemente, um problema e você é um exemplo singular. Só a vontade é a chave desses milagres”. ( Tradução: JEM ).

Elson Otake, maratonista competente, conselheiro impecável, jamais se furtando à observação que conduz à boa postura, velocidade e relaxamento. Foi Elson que me introduziu em sua equipe tão cordial, a Corre Brasil. Escreveu-me: “Somos testemunhas de que as corridas aproximam as pessoas, fiz muitas amizades diletas por conta dessa atividade, inclusive a sua. Foi com prazer que compartilhamos alguns treinos e corridas. (Campo Belo, Brooklin, Descobrimento, Pico do Jaraguá, Mooca, Shopping D, Parque do Carmo, Louveira, etc.). Pude compartilhar também parte das minhas experiências e conhecimentos adquiridos, como escolha do tênis e sua higienização sem imersão na água, hidratação durante a corrida, gel de carboidrato diluído em água, eventual suporte de sites de internet de corrida, etc. Desde que nos conhecemos, evoluímos no número de corridas, na qualidade da corrida, na experiência, nos novos lugares que conhecemos (no Brasil e no Exterior), nas novas amizades e nos novos conhecimentos da atividade. Acompanhei a evolução dos seus registros de corrida com resultados, números de peito e fotos, além do seu quadro de medalhas e espero conhecer a sua futura sala de troféus. Senti uma ponta de orgulho quando fiquei sabendo que minha indicação para você correr a prova do circuito da Longevidade de Campinas gerou como fruto seu merecido troféu. Considero-me mais saudável do que quando comecei a correr. Conheço melhor o funcionamento do meu corpo e suas limitações. As lesões e contratempos foram cuidadosamente tratadas e me fazem valorizar ainda mais cada treino e cada nova conquista. Espero chegar na sua idade podendo ainda desfrutar dos benefícios da corrida com saúde. Na nossa idade o importante não é correr mais rápido e sim a quantidade de corridas com qualidade, saúde e diversão”.

A centésima primeira corrida de rua foi consequência. Deu-se no dia 23 de Agosto na 10ª Corrida de Rua Juventus, na Mooca (10k). Mais acentuadamente, entendo-a como a mais bem organizada prova de São Paulo em todos os aspectos, inclusive nos brindes, uma quase cesta básica!!! Estava no meio da prova quando o caro amigo Luís Eduardo Brandão Machado chega ao meu lado e corremos juntos até o final. Tirou algumas fotos durante nosso percurso. Ao terminar, disse-lhe que escreveria o Ecos da centésima corrida, pois recebi muitos e-mails, o que me alegra muito. As fotos por ele enviadas vinham acompanhadas do depoimento de um partner de tantas provas, generoso nas passadas, pois onze anos mais jovem, corre mais rápido do que o decano da equipe Corre Brasil, mas prazerosamente realiza o percurso ao meu lado.

“Conheci José Eduardo em corridas de rua, somos parceiros sempre que nos encontramos, isto é, corremos juntos, ou do começo ao fim ou quando o encontro durante o trajeto. Temos um jeito parecido de participar destas provas de rua, ambos encaramos como um passatempo que, além de fazer bem à saúde, reúne pessoas do bem. Admiro muito o José Eduardo, em seus 77 anos é um jovem de corpo, alma e espírito, sempre sorrindo, mostrando uma vontade sem igual, de dar inveja aos mais jovens”.

Continuarei a correr até não sei quando, pois o curso da vida tem seu ritmo e duração individual precisa. Importa apreender momentos da existência e vivê-los com intensidade.

O blog entra sempre aos cinco minutos dos sábados. Abri pela manhã e encontro mensagem da dileta amiga e professora Jenny Aisenberg. Transcrevo-a, pois comunga com minha reação frente à mensagem de minha neta Ana Clara: “Que alegria para um avô receber uma mensagem como essa! Ter um neta como essa! Ana Clara é um ser único! Sua admiração, sua ternura para com o avô…como é comovente! José Eduardo, caro amigo, obrigada por partilhar comigo esse momento de puro encantamento!

This week I publish messages from readers with comments on my road race nº 100. Many say they have started to exercise regularly encouraged by my posts, something I am very proud of. A special mention to my eldest granddaughter, Ana Clara, whose message touched me to tears and actually says a lot about the kind of person she is.