Navegando Posts em Cotidiano

Perder-se a Identidade

O vício não é outra coisa que poder mal empregado.
Saint-Exupéry
(Citadelle – cap. XVI)

Recebi em uma mensagem foto instigante, mas recorrente. Exibia família reunida em torno de uma avó em momento de visita. Todos os personagens estavam consultando seus aparelhos que um dia foram apenas celulares ou telemóveis, hoje multi-nomeados, sempre com nomes mutantes, graças à tecnologia in progress e rapidamente assimilada pelos frequentadores dessas “engenhocas”. Apenas a avó, sentada e incrédula, aguardava certamente algum contacto com seus familiares. Se o número desses aparelhos, dos simples àqueles cada vez mais sofisticados, aumenta geometricamente e ultrapassa o número de habitantes do país, simplifica-se a comunicação, ora instantânea, e acentua-se um profundo fosso cultural que só tende a crescer. Mario Vargas Llosa, em “La Civilización del Espectáculo”, denuncia com ênfase essa realidade.

Verifica-se, sob outro contexto, a ansiedade das novas gerações relacionada ao acesso às novidades que pululam. Termos envolvendo meios eletrônicos de comunicação, como tablets e smartphones, e aplicativos como facebook, linkedin, whatsApp, twitter, instagram, Skype… fazem parte do linguajar dessa juventude que, com extrema habilidade, inteira-se de todos os avanços da área. Perco-me nesse processo, pois apenas sei e entendo a palavra celular nessa dualidade, fazer e receber ligações.

Recentemente o estudante Camilo, que mora na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, disse-me: “o celular é duas vezes jurássico, palavra e utilidade”. Fiquei a pensar e, na realidade, cada vez mais esse termo perde a eficácia, mantendo-se contudo quando nos pedem os números de telefone residencial e o de celular. Em nossa conversa, concordou com minhas observações quanto ao rápido e inexorável desmonte da língua portuguesa graças às abreviações sem nexo de textos e palavras. Há nítido empobrecimento do raciocínio de seus frequentadores, pois as mensagens codificadas, apenas para transmitir o que quer que seja, retira daquele que manuseia esses aparelhos qualquer possibilidade de conteúdo mais abrangente. Quem recebe a mensagem faz parte da engrenagem que só tende a crescer. Seja num ponto de ônibus, no aeroporto, em um consultório ou qualquer outro espaço, grande parte das pessoas está fixada em seus aparelhos. Contei-lhe que nesta semana fui fazer exames rotineiros. Os oito pacientes à espera de serem chamados estavam “plugados”. Realidade triste. Ao final, disse ao Camilo que, nessa atualidade virtual, o jurássico sou eu. Descontração.

Nos últimos dias assisti a um noticiário televisivo. Alunos de uma escola, entre 14 a 16 anos, eram entrevistados a respeito de “neologismos” fabricados nos corredores. Tinham a convicção de que as palavras que “criavam” – e delas se vangloriavam -, tinham de vigorar doravante, em detrimento dos termos reais existentes, que têm a acompanhá-los origem que remonta aos gregos e romanos. Consideravam-nas palavras “caretas”. Falavam com a mais absoluta naturalidade e os colegas aplaudiam. Uma leitura superficial na tela mostrou-me a maioria com seus objetos de comunicação instantânea. Realidade da desesperança.

O compositor e pensador francês François Servenière teceu comentários a respeito de foto anexada ao e-mail denominado “Visita a avó″. Como penetra fundo nesse caminho sem volta, transmito ao leitor suas observações:

“Tão significativamente realista a foto da avó e sua família! Quando vemos zumbis nos transportes públicos, perguntamos qual a razão para que o ser humano tenha necessidade de um cérebro entre duas orelhas… A tecnologia e a máquina distanciam-nos dos contatos humanos, resultando numa triste realidade. Temos a impressão de nos tornar mais livres, mais poderosos, mais autônomos. Clássica ilusão, pois se considerado for o humano como uma ilha, entretanto vive ele para os outros e dos outros, seus semelhantes. Há certamente um fenômeno de correlação inversamente proporcional entre a evolução tecnológica das sociedades e a capacidade de empatia. Mais o homem volta-se à tecnologia, mais ele se torna independente da força de trabalho de seu vizinho, de sua ajuda, de sua complementaridade social e profissional. O início do fenômeno não remonta à nossa época, pois ele é tão velho como as primeiras manifestações do homem no planeta. Não obstante o fato, o problema tende a se acelerar de maneira exponencial com a revolução das comunicações. Certos autores veem o futuro do homem conectado eternamente sobre um leito, não vivendo que por procuração sob fones de ouvido, a transmitir a realidade virtual, como no filme Matrix…

Consideremos essas maquininhas terríveis, que deveríamos utilizar somente para a comunicação real, positiva, e não imposta pelas firmas mundiais e suas publicidades invasoras, prenhes de jogos imbecis e debilitantes. Chegaremos à conclusão de que essa empresas obrigam-nos a pensar e a reagir segundo normas e esquemas, e pouco a pouco modeladoras do cérebro das novas gerações desde a mais tenra idade.

Em minha casa o celular estará sob controle até o final do curso colegial, no mínimo. A utilização do computador pelos meus filhos tem sido mais racional e a leitura dos verdadeiros livros, obrigatória. Sob outro contexto, mercê da publicidade e da adesão em termos mundiais, esses aparelhos estão custando muitíssimo e comumente entram em pane. Essa legião perdeu o contato com os livros, isso é certo.

Há dias estive em Caen e procurei um cabina pública (no Brasil temos o orelhão), pois estava sem o telemóvel. Percorri a cidade inteira em busca de uma cabina e nessa Caen, que mantinha uma em cada esquina, nada mais existe. Acabou a era dessas cabinas públicas. Fiquei estupefato. A cabina telefônica tinha uma vocação democrática, pois cada um podia ter acesso segundo suas necessidades. Quando jovem, era meu único meio de me comunicar com a família. Distorção democrática: os sem teto e os esquecidos pela sociedade estariam obrigados a ter celulares? Nem de  um mínimo abrigo têm eles a possibilidade!

Confesso, amo a tecnologia, desde sempre. Todavia, nos tempos atualíssimos o mundo caminha a cada minuto mais aceleradamente. Envelheço, certamente… (Servenière tem apenas 54 anos!!!). Quero continuar um bio, não me tornar um robô, um clone ou um zumbi. Um dia a máquina dirá para essa multidão espalhada pelo planeta: ‘façam isso, façam aquilo’, ‘matem seu vizinho que não está conectado, ele é recalcitrante, não obedece à matriz’. A legião obedecerá como um cordeirinho. Não eu. Jamais serei um escravo. Muitos já o são, como esses que estão na foto que você me enviou. Ao longo dos próximos 10, 20, 30, 50 anos, quem terá a coragem de abandonar essa dependência infernal?”. ( Tradução: JEM).

Que essa revolução é sem volta, todos sabemos. Perguntas ficariam sem resposta: caminhamos para a destruição do humanismo? A cultura tradicional colocada em xeque-mate, sobreviverá? O mental, mercê do “desprezo” pelos valores do passado, está a sofrer mutação sempre mais aceleradamente em direção a outros valores efêmeros. A sociedade como um todo é levada ao consumismo sem freios que provoca, de um lado a pseudo satisfação, e sob outro manto, enriquece os que produzem um infindável número de mercadorias que seduzem. Enquanto interesses abjetos existirem, corrupção sem limites sendo praticada impunemente pelo Estado e fora dele, “vaidade não como vício, mas como doença” (segundo Saint-Exupéry), manutenção do Poder não importando os meios, nosso país continuará à deriva, sem vislumbre, assim como tantos outros dessa instável América Latina, eivada de regimes ditatoriais bisonhos e sanguinários. Creio que o problema não residiria na eterna disputa ideológica voltada ao Poder. Há que se repensar o Homem. Nele estão pergunta e resposta. Essa reinvenção passaria pelo edificar valores hoje negligenciados: Moral, Ética, Verdade e a compreensão, sem quaisquer demagogias, do Próximo.

This post reflects on how mobile devices are disrupting human to human communications: people speak and write in a “new language” and have more – but apparently less meaningful – relationships.

 

 

Quando a amizade Transcende

Aquele é bom,
tudo reza bem dele.
Adágio popular açoriano (Faial)

Foram vários os e-mails. Geralmente breves, traduziam a apreensão da mensagem contida no blog anterior. Uma pergunta merece resposta: “Qual a razão de um distanciamento tão grande durante tanto tempo?” Respondo a Rafael da Silva. São tantas as circunstâncias que nos tornam reféns de determinados bloqueios!!! Ao acabar o curso de Direito, sabia que não iria advogar, pois não tinha vocação, apesar de ter captado tantos ensinamentos. Minha vida é a música, desde a tenra infância, e sabia que um difícil caminho iria trilhar. Família constituída, tive que, por longo período, dedicar-me simultaneamente à atividade outra de sustento, sem declinar de estudos pianísticos, pesquisas e apresentações públicas. Ao entrar na Universidade de São Paulo, a dedicação foi exclusiva à Música. Esse longo período “sedentário” – viagens ao Exterior eram de curta duração, mas sempre ligadas à atividade musical – distanciou-me de Amizades essenciais, sem que, porém, deixasse de nelas pensar com afeto.

Meu colega na Universidade de São Paulo, o ilustre professor Gildo Magalhães, escreveu algo fundamental. “Crônica tocante, suspeito que mais velhos, como eu, podem apreciá-la na sua inteira singeleza e sinceridade”. Realmente, foi da geração que já ultrapassou o cinquentenário que mensagens chegaram. Observação aguda.

Já mencionei que meu dileto amigo, há tempos partner de tantos blogs, o compositor e pensador francês François Servenière, tem olhar de lince. Ao ler na Normandia, na manhã do último sábado, o blog recém-publicado, transmitiu mensagem significativa. Em torno de Gabriel Meirelles de Miranda, Servenière ergue um hino ao entendimento. Ei-lo:

“Magnífica a frase ‘Nós, homens, verdadeiros deuses’. Concordo inteiramente com as palavras de seu amigo Gabriel. Deus, na minha concepção, é a metáfora forjada pelos homens desde a antiguidade para expressar a riqueza interior que cada um de nós pode atingir através da corajem, da fé na existência, do trabalho, da empatia, do amor, da amizade…

Lendo o seu magnífico texto, dedicado ao seu amigo distante no tempo e no espaço, mas tão próximo no coração, pensei nos membros de minha família, ilustres farmacêuticos ou médicos, do campo ou de hospitais parisienses, que dividiam os mesmos valores e as mesmas práticas relacionadas à clientela de várias camadas sociais. O blog me fez lembrar de meu avô, Rémy, que, jovem farmacêutico, esteve no hospital de Verdun entre 1914 e 1918, em plena primeira Grande Guerra, tornando-se assistente de cirurgia e, após, cirurgião, por falta de pessoal e forçado pela lei, pois os estropiados tombavam aos milhares. Os mortos não eram o problema maior, centenas de milhares – milhões, no final da guerra -, mas os feridos que, ultrajadamente impossibilitados, tinham de ser ‘reabilitados’ para, talvez, retornar à frente do combate.

Ouvi de meu médico, Dr. Jean-Paul le Cam, especialista em medicina tropical, tendo exercido a função na África do Sul e na Inglaterra, que foi nesses lugares, verdadeiros açougues de guerra, que se forjou a técnica de cirurgia reparadora da qual o mundo de hoje é tributário. Quando li seu texto pensei nesses heróis da medicina. Meu pai foi um desses, pois doentes deslocavam-se 30km, na alta madrugada, dirigindo-se à sua farmácia, única onde podiam obter socorro ou medicamentos. Nada comparado aos pósteros que têm sobretudo vocação para cifras e  otimização do tempo de trabalho. Desgraçadamente, a Idade de Ouro desse espírito está bem longe da visão monetarista de hoje. E, garanto-lhe, ela existiu e teve ilustres representantes.

Chamou-me a atenção um outro trecho de seu texto. A sua formação em Direito na Faculdade de Pouso Alegre, que lembrou-me a que tive em Ciências Econômicas. Não seria esse outro olhar humanístico a permitir a reflexão sobre a sociedade e nossa arte, fruto das ciências humanas fundamentais que tivemos de abordar nessas Escolas? Para mim, foi um desvio – um pouco para provar que nessa área não encontraria meu caminho – antes de aprofundar-me no objeto vocacional, a música. Aliás, recebi todo o apoio familiar para a escolha definitiva. Certamente você o recebeu ambém.

Desde minha infância tive contato intenso com a prática médica. O amor e a empatia pela humanidade, encontráveis em tantos médicos abnegados, é um bálsamo e eu senti essa atmosfera nos anos que se estenderam pela juventude. Para mim, um engenheiro matemático que não fala ao coração dos homens é um mau profissional. Mesmo um mecânico que ama o ofício compreende melhor o motor do carro quando este começa a funcionar.

Admiro os que praticam farmácia e medicina, pois são eles engenheiros do corpo (e do espírito, tantas vezes) tendo a capacidade de captar pelo simples olhar e transmitir ao paciente os cuidados necessários a serem tomados bem antes da decisão de um receituário. Quando entro num consultório médico ou farmácia – sei que é sensação generalizada dos pacientes -, sinto-me já quase diagnosticado pela escuta e pela capacidade do médico vocacionado de sentir vibrações. Tudo lá está. A empatia é a vibração que se sente do outro, seu pulsar, sua energia e suas ondas. Sensações que podem ser negativas. Os músicos conhecem bem a simpatia, essa maravilha da ressonância que permite a todos os instrumentos ressoarem entre eles. A orquestra é um exemplo, tão dificilmente podendo ser reproduzida pela informática, quase impossível, artificialmente. Não somos diferentes dos instrumentos, mas somos sim, instrumentos de comunicação viva. Simpatia, empatia, quantas semelhanças! Consequência direta, o efeito placebo. O verdadeiro médico generalista é assim. Inocula confiança no corpo do paciente e este deve encontrar muitas vezes seus medicamentos ‘internos’ para salvar-se.

Artistas, filósofos e místicos são médicos da alma. Salvam os seres pela beleza e pela evocação do melhor da alma humana, materializada pela frase de seu amigo Gabriel Meirelles de Miranda: ‘Nós, homens, verdadeiros deuses’. Tudo está dito. Tudo está no fundo de nosso coração, no nosso de profundis capaz de criar compartimentos encantadores, desses que corroboram o salvamento do espírito e da alma nos momentos mais sombrios: ‘a beleza salvará o mundo’ (Dostoievsky, certamente).

Quando li seu texto pensei em meus ascendentes, que disseminaram esse mesmo estado de espírito nas suas regiões de influência, tal qual seu amigo Gabriel. Leva-me a pensar na sábia frase do cantor Sting, que eu espero não trair nesta mensagem: ‘Para mudar o mundo, é necessário começar ao seu redor’. Essas personagens públicas de que falamos são exemplos. A nós retomarmos essa flama e a herança como nossos meios e ferramentas. Mas sempre com o mesmo espírito. Atitude absolutamente contrária à mentalidade que dissemina o ódio, a discórdia e a guerra.

A medicina também tem seus aspectos sombrios, desenvolve formas de pesquisa para necessidades militares com o desiderato precípuo de matar o mais rapidamente possível o maior número de indivíduos. Parte dessa sombra da humanidade devemos combater a partir de nosso espírito positivo em  nossas atividades musicais. O compositor armênio Aram Khatchaturian tem fabulosa e célebre citação, que considera como objetivo ‘uma música que seja bela em si, nem grande nem pequena, mas simplesmente bela, aberta, expansiva, que traduza a felicidade de viver. Há muita feiura e desesperança no mundo para que não as deixemos invadir nossa arte’.

Finalmente, não há acaso em nossos posicionamentos artísticos respectivos, desenvolvidos comumente em nossas linhas hebdomadárias. Fomos influenciados, numa vasta comparação, pelos mesmos tipos de pessoas, pelos mesmos professores, pelos mesmos artistas e os mesmos praticantes da medicina… Todos eles nos falaram simplesmente de uma empatia pela vida e pela humanidade. Generosidade, amor, amizade. Valores que prazerosamente compartilhamos.

O que de mais precioso do que essa prática que também comungamos, o elogio da lentidão!!! Gostaria de terminar meu e-mail semanal a comentar seus blogs por uma observação desses dois rostos na foto do post sobre seu grande amigo Gabriel e que exprimem, simplesmente, felicidade e bondade. Eis o que é ‘realizar-se na vida’ “. (tradução: J.E.M.)

The last post about friendship received much feedback. This week I mention some e-mails from readers on the subject and transcribe passages of a long e-mail from the French composer François Servenière about friendship and also about his family, reminding us that he was born into a family of altruistic doctors and pharmacists, so distant from the business-minded approach of today’s professionals.

 

 


Amizade que Desafiou Tempo e Distância

Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem.
Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor:
o que temos pelos outros.
De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos.
E é por isso talvez que a grande amizade e o grande amor
são aqueles que dão sem pedir,
que fazem e não esperam ser feitos;
que são sempre voz ativa, não passiva.
Agostinho da Silva

Em Portugal, não por outro motivo, quando se quer grafar o nome do verdadeiro amigo, escreve-se com A maiúsculo. A dádiva da amizade sempre esteve além de uma percepção cotidiana. O Amigo é, existe, e tempo e distância não obliteram a intensidade do afeto.

No capítulo CCXIX de “Citadelle”, de Saint Exupéry, essa obra monumental que, no dizer de sua irmã, Simone de Saint-Exupéry, “aborda todos os problema da destinação humana e do condicionamento do homem”, o autor conta a história de dois amigos jardineiros que trabalhavam com espírito fraterno, encontravam-se sempre para o chá ao entardecer, trocavam confidências e ideias sobre plantas. Diálogo em poucas palavras. Quando passeavam juntos olhavam flores, árvores e o céu. Gestos com a cabeça eram o suficiente para a compreensão da fauna e da vida. Certo dia, um mercador contratou um deles para juntar-se à sua caravana por algumas semanas apenas. Mas vicissitudes mil levaram-no aos confins do mundo. Separados, não tiveram mais contato. Decênios se passaram e o jardineiro sedentário recebeu um dia carta de seu velho amigo. Emocionado, apreende o breve escrito: “Esta manhã podei minhas roseiras”. Três anos se passaram e o jardineiro a pensar na distância separando-o do amigo e em como responder à sua carta. Enfim, seu amo encontra um emissário que poderia ser portador da resposta, que atravessaria desertos e mares até seu amigo ausente. Dias a rabiscar e a rasurar a mensagem, que chega enfim a termo. Feliz, entrega ao amo. Dizia apenas: “Esta manhã, eu também podei minhas roseiras”.

Conheci Gabriel Meirelles de Miranda no final dos anos 1960. Médico e cirurgião em Pouso Alegre, Minas Gerais, Gabriel é uma das mais ilustres figuras da cidade. Foi aos recitais de piano que dei no Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre, a convite da professora Horma Valadares. No início dos anos 1970 prestei vestibular para curso na Faculdade de Direito do Sul de Minas e durante anos, até  a conclusão em 1975, frequentei semanalmente a cidade, pois as aulas eram oferecidas às sextas-feiras à tarde e à noite e aos sábados pela manhã. Ao todo, 18 aulas!!! Viajar de carro naquele período era uma aventura, pois a Fernão Dias oferecia apenas uma pista, curvas mal planejadas, acostamento por vezes inexistente, asfalto pleno de crateras. Como acréscimo, ausência do cinto de segurança que passaria a ser obrigatório a partir de 1994. Todos os anos alguns alunos perdiam a vida nessa perigosa viagem. Optei pelo Direito, pois créditos em música que obtivera em Paris não eram aceitos àquela altura nos recentes cursos universitários em São Paulo. Gostei do curso de Direito que me deu, primeiramente, condição de entrar na Universidade de São Paulo em 1982, lá permanecendo até 2008. Apesar de jamais ter exercido a profissão de advogado, em Pouso Alegre adquiri bases jurídicas que me foram úteis, e dezenas e dezenas de pareceres emiti na USP quando, a convite de vários reitores, integrei algumas das mais importantes comissões da Universidade.

Essa premissa pessoal faz-se necessária. Naqueles anos em que cursei a Faculdade, quase todas as sextas-feiras, após as aulas, por volta das 23h45min, o Dr. Gabriel, como sempre foi chamado em Pouso Alegre, estava a me esperar para irmos comer uma pizza. Tranquilo a fumar seu cigarrinho, andar lento, fala serena, Gabriel ensinou-me, sem o saber, a entender a vida “pausadamente”. Mostrava-me, ao narrar episódios de sua vida desde a infância, uma outra maneira de compreender o outro. Jamais o vi intranquilo. Quantas não foram as vezes em que, na pizzaria, ficávamos silenciosos. Estar juntos era por si só motivo de alegria interior. Nossas confidências tinham o dom da viagem mental. Imaginávamos um mundo ideal.

Descende de notáveis médicos que permaneceram na história mineira: seu avô, Olinto Deodato dos Reis Meirelles, foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e prefeito da capital mineira de 1910 a 1914; seu pai, médico ilustre também, Custódio Ribeiro de Miranda, responsável pela construção do hospital Samuel Libânio em Pouso Alegre e prefeito da cidade de 1951 a 1956.

Na cidade mineira, Gabriel Meirelles de Miranda teve toda uma vida dedicada à medicina. Inicialmente, trabalhou com seu pai no hospital Samuel Libânio, onde não apenas exerceu a atividade, como foi diretor durante cinco anos.  Especialista em cirurgia geral, clínica geral, pediatria e obstetrícia, seu diagnóstico preciso granjeou-lhe reputação inconteste. Na Faculdade de Medicina da Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí assumiu a cadeira de cirurgia geral. Sua dedicação à medicina fê-lo continuar até fins de 2010 o ensino na cadeira de professor de Ginecologia!!!

Estou a me lembrar de que Gabriel atendia pacientes no consultório montado em sua casa. Causava-me admiração a diversidade daqueles que o procuravam, dos vários níveis sociais. Gabriel dispensava a mesma atenção, não se importando com patamares sociais. E sempre com a mesma serenidade. Ele, como bom samaritano, a atender tantos doentes sem buscar a menor remuneração. Sim, ela existia na única forma de gratidão dessa gente simples: um frango, ovos, legumes, frutas, uma lágrima. Confessava-me que essas oferendas simbólicas representavam o que de mais precioso o sofrido paciente podia oferecer. Eu, já naqueles anos de reestruturação, contava-lhe meu desiderato voltado à divulgação de obras excelsas, mas escondidas. Dizia-lhe, nos meus trinta e poucos anos, que tinha consciência de um tributo a pagar, mas correria o risco. E corri sem me arrepender, apesar do preço saldado. Gabriel encorajava-me.

Convivi com sua esposa, a saudosa Aparecida, e com seus cinco filhos adoráveis. Regina acompanhou-me algumas vezes e a amizade familiar frutificaria. Aos sábados, antes de regressar a São Paulo, passava por sua casa para me despedir e não foram poucas as oportunidades em que almocei junto aos seus. Sob outro aspecto, quando, por motivos vários – a ausência de um professor ou a infausta morte de um colega na fatídica estrada – não havia aula, ia à sua morada e estudava no piano da edícula.

Findo o curso de Direito, retornaria à Pouso Alegre para o casamento de sua encantadora filha, Maria Leonor, com o jovem médico José Carlos, hoje professor e diretor do Instituto de Patologia José Carlos Corrêa. Umas poucas vezes mais encontrei-me com Gabriel, quando vinha a São Paulo visitar um de seus filhos. Almoçávamos e trocávamos confidências, como sempre. Passaram-se decênios e um silêncio se fez. Não é raro o fato entre grandes Amigos. Distância, atividades tantas não provocaram névoas. Restaria para sempre o afeto da amizade inquebrantável.

O acaso tornou possível o acesso de seu telefone em Pouso Alegre através de bom amigo que mora em Jaguariúna, Mário Sérgio Mariottoni, pois seu irmão é médico na cidade mineira. Após uma distância temporal incomensurável, cerca de 40 anos, telefonei-lhe. Imediatamente Gabriel, com firmeza, disse meu nome. Dupla emoção. Tanto para dizer… vontade mútua de um encontro. Deu-se. Seus netos marcaram jantar em São Paulo, na morada de um deles. Encontrei Gabriel nos seus 92 de idade. Nossos olhares traduziram no silêncio bem mais do que as palavras. Muita comoção. Noite mágica a não ser esquecida. Uma certeza ficou desse “primeiro” encontro. Naquela noite, juntos, nós dois podamos nossas roseiras.

P.S. Ao acessar dois links o leitor poderá conhecer essa figura extraordinária, simplesmente Gabriel, como sempre quis ser chamado.

Dr.Gabriel – “Nós, homens, verdadeiros deuses”

TVFuvs: Homenagem ao Dr. Gabriel Meirelles de Miranda

On the priceless gem of friendship and my bond with Gabriel Meirelles de Miranda, a doctor I knew in the city of Pouso Alegre in the sixties, a deep relationship that time and distance did nothing to diminish.