Navegando Posts em Cotidiano

O Texto como Respiração

Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou eu quem tem de traçar o caminho;
com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros.
Agostinho da Silva

Aos dois de Março de 2007 nascia o primeiro post publicado no blog. Já comentei anteriormente que nada teria acontecido não fosse uma observação de meu ex-aluno Magnus Bardela. No final de Fevereiro daquele ano, após conversa amistosa a rememorar fatos,  ele – que frequentou durante quatro anos minha classe de piano na USP, formando-se brilhantemente -, propôs-me a construção de um blog. Hesitei instantaneamente, mas a argumentação de Magnus foi convincente e dias após, sem que eu soubesse, durante conselhos que me dava sobre internet, construiu o blog, dizendo-me: “Está pronto, é só inserir seus textos”. Atônito, ainda hesitei, mas aos 2 de Março “Praeambulum” dava início ao caminhar com os leitores.

Mencionei várias vezes que a não interrupção desde 2007 jamais foi um problema. Certo dia o amigo Daniel Marcos me questionou “Você não se dá férias, ao menos um mês?”. A resposta foi imediata: “Nunca dei férias para minha respiração”. O ato de escrever, de  estudar piano ou de correr faz parte desse respirar, cotidiano ativo. Quanto aos blogs, a não interrupção uma semana sequer (o post entra aos sábados às 00h05min) durante esses oito anos é fruto do pensar enquanto realizo treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, já mencionado em tantos blogs anteriores. A aceleração cardíaca age sobre os neurônios e as ideias fluem com naturalidade. Focalizado um tema, é só desenvolvê-lo na primeira madrugada e o texto desliza, corrente. Problemas técnicos adiaram por um ou dois dias uns poucos textos.

A pressão de ter de escrever tantos caracteres para a uma determinada publicação em tempo previamente fixado não daria resultado em meu caso particular. Essa liberdade não me impõe restrições quanto à dimensão, quiçá conteúdo. Observando os pássaros, dificilmente eles obedecem a roteiros, salvo os pombos – mormente o pombo correio ou as aves migratórias. A temática simplesmente acontece e tem acontecido sem interrupção. Música, sempre, cotidiano e suas surpresas, resenhas de livros que me atraem, impressões colhidas durante viagens e que se processam no de profundis, tardiamente quantas vezes. Diria que a observação “viajar é olhar”, da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser interior. Todos os impactos que diariamente vivemos se acumulam e ficam numa espécie de álbum interior, pleno de figuras e observações. Basta um impulso, sugestão que seja, e aquela determinada página escondida no álbum interior ressurge por inteiro. “Viajar é olhar”, seja externa ou internamente. Meu celular é daqueles jurássicos, só recebe ou transmite ligações. Nada mais. Certa vez em que minhas netas se divertiam tirando fotos e selfies com aparelhos sofisticados, disse à Emanuela, a menor, que iria tirar uma foto mental simulando uma foto com tão antigo celular. Pôs-se a rir. Horas após, enviei-lhe e-mail com a imagem de meu celular e escrevi: “feche os olhos e lembre-se daquele momento, pois ele está gravado em sua mente”. Valeu como descontração, mas Emanuela guardou o episódio.

Raramente visito o universo nebuloso da política, mormente nestes últimos anos em que a mentira é vendida como verdade e a corrupção enlameia o cotidiano. Por vezes, sem o desejar, emito considerações. Jornalistas que costumo frequentar pela leitura ou escuta radiofônica têm exercido com competência a denúncia como alerta, o confronto como dialética necessária e saneadora. Há esperanças. O país não se submeterá à primazia que está a fazer sucumbir democracias latinas. Não merece.

Temas fluem e nosso universo depende invariavelmente dos tópicos atrativos. Eles lá estão. Buscamo-los à maneira de um peregrino que, ao caminhar, pormenoriza-se naquilo que já está “pré-moldado” em sua mente. Sim, há o acaso. Não o desprezo, nunca.

Para que a sequência não tenha sofrido uma interrupção sequer ao longo dos tantos sábados, há a necessidade de querer. Meu saudoso e sábio pai nos ensinou básicos princípios que serviram aos quatro filhos: disciplina, perseverança, constância, concentração e fé naquilo em que acreditamos. Esses tópicos foram aplicados diferentemente pelos irmãos de sangue, a depender da visão individual das coisas.

Nada teria acontecido não fosse Magnus ter pressentido a ideia. Continuava a reter textos mentais em ebulição permanente, como sempre, desde meus primeiros anos. A memória tem esse poder mágico de manter o que os olhos viram externa e internamente, amalgamar olhares sem perder a precisão e, quando acionada, revelar por inteiro experiências vividas. O arquivo mental é uma de nossas dádivas maiores.

Este blog não existiria sem colaboradores dedicados que, ao longo destes anos, jamais hesitaram em ajudar-me, ignorante que sou dessa parafernália tecnológica a todo instante renovada. Difícil, nos meus 76 anos, acompanhar essas transições rápidas, sempre em direção a uma outra inovação. Desisti. Conheço o básico do básico e, graças aos amigos diletos, supro a não atualização internética.

Regina Pitta, Magnus Bardela, François Servenière, Elson Otake e Luca Vitali (in memoriam). É um privilégio tê-los a me dar suporte em esferas distintas. Desde o primeiro post, minha dileta amiga e vizinha, Regina Pitta, lê os textos e faz revisão impecável. O compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931) escreveria ao seu amigo, Furio Franceschini, que o pior revisor é o autor e, entre esses, era ele o pior. Assertiva. O texto flui  num impulso nas madrugadas e as duas ou três leituras não são suficientes para sanar gralhas (assim os portugueses definem incorreções) que parecem querer se ocultar. E como se escondem!  É humano. Regina passa a lupa, mercê de seu conhecimento de nossa gramática. Quando dúvidas pairam, recorre à Filologia. Sinto-me seguro. Após as devidas correções e sugestões – nem sempre aceitas, mas é bom ter uma outra opinião -, escreve um resumo em inglês, devido aos leitores acima do Equador que me honram com a leitura dos blogs, traduzidos sofrivelmente pelo programa do Google.

Magnus tem sido meu guru internético. Foi ele que me ensinou o que sei, isso em 2003. Só não aprendi mais por total descaso com a aceleração infalível da tecnologia. O básico possibilita-me o convívio com teclado e tela e os acessos que consigo atingir. Quando um impasse surge, é Magnus que me socorre, pois de seu computador pode acessar o meu e sempre, até agora, tudo se resolveu. Mente privilegiada a deste amigo que diariamente envia-me gravações fabulosas que dia a dia têm enriquecido o bom lado do YouTube, a contrastar com o besteirol que infesta esse meio de comunicação.

Elson Otake, não diretamente ligado ao meu blog, tem sido o responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 músicas por mim gravadas no Exterior. Preciosista, tem o dom da concisão e suas montagens são louvadas aqui e alhures. Maratonista, em muitas corridas de rua abdica de sua velocidade para correr ao meu lado. Um estímulo.

François Servenière. Compositor e pensador francês de altíssimo mérito, Servenière privilegia-me com mensagens de extraordinário teor. Nossa correspondência, nascida em 2008, é abastecida semanalmente. Todos os posts têm sua leitura acurada. Se a tradução Google tem tantas falhas, Servenière consegue sempre apreender a essência dos blogs e seus comentários enriquecem meus textos, pois o amigo insere leituras paralelas e reflexões profundas sobre o tema. Tão ricas são suas mensagens que o considero, hoje, um partner de meu blog. O leitor tem acompanhado, através dos Ecos, que ele está sempre presente. Fundamental é a possibilidade de novo olhar de um autêntico intelectual francês. Estimula a comparação, faz-nos apreender aspectos que por vezes nos passam desapercebidos. Privilégio.

Rendo tributo ao meu saudosíssimo amigo e extraordinário artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Durante anos, Luca foi colaborador dedicado. Tantas vezes mencionei que o amigo tinha um lápis no cérebro. Ao conhecer um texto, um ou dois dias após enviava-me um desenho alusivo ao tema. Alguns eram charges de humor bem refinado. Faz-me muita falta o convívio semanal que mantinha com Luca. Arte era nosso assunto fulcral. François Servenière, ao ver as ilustrações da magnífica Série Cósmica (acrílico sobre tela) do artista, ficou tão impactado que escreveu sete Études Cosmiques para piano e, após a partida de Luca, mais um Estudo, Outono Cósmico. Em Abril voltarei ao tema, pois deverei gravá-los na Bélgica juntamente com Estudos Contemporâneos de outros compositores.

A família. Sem a harmonia que nos faz unidos indelevelmente, confesso que dificilmente conseguiria empreender trajetórias. Ela me traz a serenidade necessária. Epicentro essencial.

Se já ultrapassamos os 600.000 acessos, devo esse estímulo unicamente aos leitores que têm prestigiado minha coluna. Continuarei. É o que sei fazer.

This week my blog completes eight years of nonstop work, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor.

 

 


São Tantas as Reclamações contra a Prefeitura!

But tree, I have seen you taken and tossed,
And if you have seen me when I slept,
You have seen me when I was taken and swept
And all but lost

That day she put our heads together,
Fate had her imagination about her,
Your head so much concerned with outer,
Mine with inner, weather.

Robert Frost (1874-1963)

O último blog resultou opiniões contundentes. São Paulo tem convivido, como nunca antes, com a certeza, não a dúvida. Qualquer aguaceiro mais forte e o cidadão já imagina a derrocada infalível de árvores, arbustos ou galhos espalhados pela cidade. A imagem pós-chuva é sempre desoladora. Quando não a árvore inteira, partes dela ficam espalhadas pelas vias. Qualquer chuva leva invariavelmente ao apagão de um sem número de semáforos e o caos se instala em muitas vias. Passadas as águas, buracos se apresentam como consequência de pavimentações superficiais. Os contribuintes pagam impostos altíssimos e nenhuma devolução à altura em forma de serviços públicos acontece.

São Paulo está a sofrer grave crise hídrica. Tivessem os governantes se preocupado décadas atrás, estaríamos livres da emergência. Certamente 2015 será um ano de forte racionamento. Não há como ser diferente. Contudo, apesar do vocabulário nem sempre preciso, pois tangenciado, o governador do Estado vem a público, sempre, e não nega responder à mídia, ou seja, às perguntas que todos nós estamos a pensar sobre a escassez. Não é o caso do alcaide de São Paulo que, seguindo velha tática daquele que o criou para as eleições de 2012, oblitera-se nos momentos de dificuldade, não se apresentando em nenhum momento de crise forte. Já se tornaram lendários os oportunos “desaparecimentos” do criador. Tragédias naturais, escândalos como mensalão e petrolão não tiveram e não têm, respectivamente, por parte do criador a posição firme, a entrevista a não deixar nenhuma dúvida. Essa atitude de se furtar em momentos decisivos, até plausível na idade edipiana, quando em jogos infantis, tornou a criatura o discípulo perfeito, que desaparece do embate tão logo sua presença antolha-se imprescindível. O tergiversar pareceria algo bem estudado pelo criador e as criaturas dele emanadas.

Vital Vieira Curto, empresário português, assim escreve: “Li com atenção seu texto sobre esse problema que é a queda de árvores. Compartilho totalmente da sua opinião. Paralelamente, você também entrou na preocupação do atual prefeito, que é a construção das ciclovias. Este tema me incomoda muito, pois estou vendo enorme preocupação com a pintura das ruas de vermelho, sem maior utilidade, como você já disse. Eu, que transito por São Paulo, vejo como enormes buracos proliferam nas ruas, sem qualquer providência da parte do poder municipal. A nossa imprensa ainda não destacou esse terrível contrassenso. Faço a seguinte pergunta: será que algum jornalista ou mesmo político se debruçou sobre o custo dessas faixas pintadas? Será que isso não poderá estar alimentando a geração de recursos para alguma finalidade menos correta? A implantação de novos faróis também é estranha. São colocados novos faróis, mas não se preocupam com a sua coordenação, conseguindo dificultar o fluxo do trânsito ainda mais. É muito curioso que esses serviços citados sejam de responsabilidade de uma secretaria municipal que está sob o comando de um notório político, que teve na última eleição três candidatos pertencentes à sua família. Será que esse fato sugere existência de qualquer coisa estranha? Certamente eu não posso responder, mas seria importante que alguém investigasse”.

François Servenière nos escreve com outro enfoque sobre o problema, possivelmente por viver em outras latitudes “A França começa a sair do entorpecimento e a Bélgica é atingida, como previsto. Fez-me bem ler seu blog e verificar que nós não somos o umbigo do mundo, com nossos pequenos problemas sociais e cenas terroristas. Ver também que todas as desgraças do planeta não são relatadas pela imprensa mainstream ocidental que nos inunda.

Essa árvore extraordinária que ilustra seu blog (segunda imagem do blog anterior) e que tombou como símbolo dessa pujança vegetal dos trópicos. Uma árvore secular, que dá ao homem a consciência de se ancorar na história natural não escrita. Sou como você. Tudo que se relaciona à natureza me emociona. Encostar os dedos em uma árvore é como apreender a natureza em seu caminho pela história. Encostar a orelha em uma árvore, da mesma maneira que se faz contra uma coluna de catedral para captar o tempo que passa, a natureza em sua lenta trajetória, ritmo quase imperceptível à inteligência humana. Portanto, ao longo da vida humana, a árvore cresceu e não percebemos essa transição. Charles Baudelaire poetizava: La nature et ses vibrants piliers comme les cathédrales…”.

A seguir, Servenière aborda a força da natureza, que inúmeras vezes é imprevisível, tornando o homem inerte. Em São Paulo e no Brasil os acontecimentos trágicos e de violência inaudita poderiam sempre ser previstos se houvesse vontade política, o que realmente não acontece. As tragédias há poucos anos atrás, na temporada de chuvas nas serras do Estado do Rio, onde sucumbiram cerca de 1.000 pessoas, poderiam ter sido evitadas não fosse a ocupação desordenada. Outras tantas acontecem no Brasil mercê do descaso governamental e da corrupção, que jamais esteve em nível tão elevado desde 2003. A quantidade desmesurada de queda de árvores ultimamente na cidade deu-se em grande parte pelo descaso da prefeitura, que tem sistematicamente negligenciado a prevenção necessária. É fácil apontar árvores que poderão cair brevemente, causando transtornos ou mesmo tragédias. As fotos que ilustram o blog mostram um flamboyant inclinado com galhos imensos – mais parecem troncos – atravessando um terreno privado. Fica próximo ao 27º DP no Campo Belo. Continua a crescer e, para a queda, é só questão de tempo. A prefeitura, neste caso e em outros milhares espalhados pela cidade, ignora. Irresponsabilidade, descaso e abandono, palavras tão próximas!!!

François Servenière exercita sua posição frente ao irreparável “Que podem os homens e suas organizações, as municipalidades, contra as forças da natureza? Na França, cada um rejeita a responsabilidade pelas catástrofes naturais, essencialmente imprevisíveis, malgrado os computadores e os programas de previsão, sempre, sempre, friso, sempre falhos. É a fatalidade! Senão entramos na sociedade futurista ‘Minority Report’, idealizada por Philip K. Dirk (1956), onde os assassinatos poderiam ser previstos mercê da ajuda dos precogs, capazes de antever o que poderá acontecer. Isso é desejável? O homem nada pode contra a natureza que, de seu lado, não se importa. O certo é que o homem não controla o futuro, tendo dificuldade em obter previsões meteorológicas confiáveis durante a semana. Sua cidade é imensa e os problemas só podem ser da mesma dimensão, como posso constatar através do seu blog. Quanta complexidade a administrar!!! Suas fotos são belas e emocionam. A grande falsa seringueira lembra-me, mas em dimensão mais dionísica, a imensa aubépine no centro da praça da Catedral de Bayeux, cuja lenda reza que Joana D’Arc chegou a acariciar seu tronco. Obrigado por seu texto, que me faz sair de nossas preocupações umbilicais”. (tradução J.E.M.)

No blog anterior nego o slogan da atual prefeitura, “fazendo o que tem de ser feito”, pois as essencialidades foram abandonadas pelo presente burgomestre em detrimento de superficialidades e populismo. Houvesse respeito do alcaide pelas centenas ou milhares de muitas de nossas árvores em fase final, pois encerrados seus ciclos vitais, determinaria que diariamente, durante todo o ano, fossem extirpadas aquelas que necessitam de tal procedimento. A grande maioria vive sob torturante garrote, que lhe tolhe o pleno desenvolvimento, sufocando-a, enfraquecendo-a, sem poder levar a seiva das raízes sufocadas às ramificações e, fatalmente, condenando-a à inexorável queda. Passarão os raros aguaceiros que estão caindo sobre São Paulo e, certamente, o tema poderá ser arquivado no Edifício Matarazzo. A mídia, tão criticada pelo partido que ora ocupa o prédio mencionado, não pode deixar cair no esquecimento a queda de mais de 1.000 árvores. Será sua missão cobrar atitudes, pressionar para que haja constante vigilância e atenção às nossas árvores. Oxalá isso ocorra.

In this week’s post I transcribe messages received from the Portuguese businessman Vital Vieira Curto and the French composer François Servenière, with different views on the problem addressed in the last blog: street trees knocked down by inclement weather.

 

O Descaso de uma Prefeitura que não Faz o que Tem de ser Feito

Se, destas ervas que se devoram umas às outras,
eu fizer uma árvore que uma alma única anime,
então este ramo aproveitará da prosperidade do outro ramo
e toda a árvore será apenas colaboração encantadora e expansão ao sol.
Antoine de Saint-Exupéry  (“Citadelle”, cap. XIII)

Confesso meu amor incondicional pelas árvores, que nos proporcionam a visão da vida renovada a cada ano quando das ramificações, florações, farta distribuição de frutas, despojamento ao perderem suas folhas, fato este que atinge nem todas as espécies, mormente nos trópicos. Em flor, anunciam a esperança; douradas, prenunciam a hibernação inexorável, mas não desprovida de encantamento. Elas estimulam a constatação do belo. Sabemos que abrigam os ninhos das aves, que nos fazem antever o maravilhamento. O canto dos pássaros é música no seu estado mais puro, intransferível.

Não foi o acaso, tampouco os curtos aguaceiros torrenciais que se abateram sobre São Paulo nestas últimas semanas, os únicos causadores naturais da queda de mais de 1000 árvores, tantas delas frondosas!!! A administração da prefeitura deve ser apontada como responsável primordial pela hecatombe vegetal que destruiu veículos, muros, grades, moradias e rede elétrica, sem contar o profundo caos que proporcionou ao trânsito da já tão convulsionada cidade, mercê também dos alagamentos.

Estou a me lembrar de que, desde a década de 1990, um belíssimo flamboyant, cuja inclinação se acentuava, foi denunciado à prefeitura por moradores da rua onde moro. Foram anos de pedidos, protocolos e o governo municipal silenciava. Só após a aparição de funcionários da prefeitura, para podarem outra gigantesca árvore próxima, conseguimos convencê-los da queda iminente ao descascarmos alguns centímetros do flamboyant, que exibia em seu interior um desfilar de cupins.  Poucas semanas após – não sem antes enviarmos carta protocolada com o nome desses funcionários que atestaram a veracidade da causa -, equipe especializada, trazendo serras e demais ferramentas, cortou a árvore para nossa tristeza, mas também sensação de alívio. Extirpar o belo leva-nos à ambígua reflexão.

O que mais causa indignação na população de São Paulo é o descaso absoluto num tema tão importante como a arborização da cidade. Dir-se-ia que o atual alcaide basicamente se preocupou com as ciclovias e com ocupações de determinados terrenos e prédios. Aquelas, praticamente vazias durante os dias de semana, estas últimas trazendo conturbações acentuadas. Quanto às bikes, a argumentação autoritária esbarra na topografia, pois  São Paulo não tem a configuração de países planos como Bélgica e Holanda, e nossa superfície é completamente irregular. Consultei um sem número de trabalhadores de serviços os mais variados e jamais um deles, friso, moradores que são da periferia abandonada pelo poder público, adotaria a bicicleta como meio de transporte nas deslocações pela urbe, mesmo que tivessem de deixá-la em um terminal. Unanimidade quanto ao precaríssimo, tortuoso e perigoso trajeto de suas moradias até o ponto final de ônibus. Isso é fato, mas não influenciaria a obstinação do burgomestre em ver implantadas em sua administração 400km de ciclovias. A imprensa insistiu em divulgar matérias sobre o equívoco voltado às bicicletas, que não sensibilizaram o atual plantonista do Edifício Matarazzo. Atualmente a sede da prefeitura tem como tema as ciclovias e ciclofaixas que estão sendo instaladas na Av. Paulista, o que se traduz em erro fundamental devido ao afluxo diário dessa via, à redução da pista de carros, à dificuldade que tal medida trará às ambulâncias que por lá circulam e que atendem alguns dos principais hospitais da cidade. Um burgomestre a ser esquecido.

Desviar-se do tema árvore fez-se necessário, devido à importância desmesurada que foi dada para os caminhos da bike. Não vejo como dissociar a desatenção para com as árvores e a supervaloração da bicicleta. Devido à falta de chuvas durante prolongado período em 2014, não pareceu relevante à prefeitura abordar a temática que compreende  avenidas, ruas, praças e parques paulistanos, pois a ameaça mostrava-se distante. Não obstante, à maneira de um vulcão não extinto, as árvores crescem, pouco espaço encontram para o enraizamento e detonam calçadas e muros. Quantas delas estão nesse estado na cidade? As fotos que apresento evidenciam que o pior continuará a acontecer fatalmente. Vidas humanas serão ceifadas, veículos e propriedades danificados e o obsoleto sistema de eletrificação destruído. Para agravar a situação, a Eletropaulo também tem estado omissa em dezenas de casos, como destaca a mídia como um todo. Dezenas de milhares de árvores entrelaçam-se com os fios elétricos e quando uma delas cai, geralmente leva consigo fiação, quiçá postes. O caos se instala e assistimos, nesse período de chuvas, a determinados apagões prolongados (dias, em tantos casos) que trouxeram o desencanto aos habitantes de São Paulo. Alagamentos em pontos conhecidos da cidade provocaram o desespero de inúmeros motoristas. Muitos deles perderam seus carros, levados pela enxurrada.

Um dado pareceria preciso e sempre passou ao largo das mentes de nossos governantes. A maioria das muitas espécies de árvores da cidade não é adequada aos pavimentos das calçadas. Quantidade delas foi plantada décadas atrás, quando não havia a expansão imobiliária que causou desordenamento ou diminuição das calçadas, estreitamento da área subterrânea para expansão das raízes, levando-as à superfície. Essas últimas reagem à ofensa e conseguem estourar a pavimentação, as sarjetas e os muros. Culpa dessas belas espécies? Não, apenas falta de planejamento e de substituição das mais velhas por outras que melhor se adaptem às condições atuais. A queda das árvores no passado deveu-se em parte ao descaso, mas atinge o limite máximo nessa atual administração, preocupada que está majoritariamente com as ciclovias, ciclofaixas, ocupação de prédios e a cracolândia – para lá não levou o príncipe Henry, da Inglaterra, no intento de mostrar aquilo que consideraria um “cartão postal” da cidade (26/06/2014)?

Conhecendo mais a minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, e correndo por tantas ruas quando de meus treinamentos, posso verificar com tristeza o descaso administrativo. Nos dias após chuvas mais contundentes este corredor amador tem de driblar por vezes ramos, galhos ou troncos, pois impossível correr em linha reta em tantas ruas. Um absurdo!!! Responsáveis públicos autorizam seus funcionários a podas mínimas em belíssimas árvores,  condenadas e impróprias para nossos passeios, e não a retirada delas, desde que já tendo em mente a pronta substituição por outras apropriadas e que melhor se adaptem à grande maioria das calçadas, hoje tão reduzidas. Centenas ou milhares estão doentes e incontáveis, atacadas por cupins.

Disse-me certa vez um funcionário público aposentado que, entre as preocupações em que um governante não quer nem pensar, duas são fundamentais: a rede de esgoto e as árvores. Dezenas de milhares delas necessitariam ser extirpadas. Essa extração não rende votos, é também certo. Não obstante, a quantidade absurda de árvores caídas não sensibiliza minimamente o alcaide? Estaria a aguardar a passagem da temporada das chuvas para procrastinar mais uma vez? As fotos que ilustram o post são o testemunho da ausência. Tivéssemos um prefeito responsável, nessas semanas assoladas pela hecatombe das árvores e pelos alagamentos provocados em grande parte pela falta de manutenção das bocas-de-lobo, far-se-ia presente diariamente nos pontos críticos, estimulando equipes de funcionários, dando alento à população indefesa, confortando os lesados e mostrando intrepidez. Semanas sem sequer um pronunciamento à altura. Temas tão menos urgentes povoam o pensamento do alcaide de plantão. Isso é fato.

Árvores serão retiradas a atender protocolos tantos? Houvesse planificação, diariamente equipes da prefeitura estariam extirpando as incontáveis condenadas, substituindo-as imediatamente por outras, que se adaptariam à difícil estrutura de calçadas que tendem a sufocar as mais frondosas. Não há segredo, é só planejar. São tantas as espécies que não causariam problemas futuros! O período de estiagem está próximo e urge planificar.

Um exemplo dessa procrastinação está na falsa seringueira (ficus elástica) semi centenária situada no reduzido canteiro central da Av. Santo Amaro, próxima às ruas Jesuíno Maciel e sua continuação, a rua Guararapes. Gigantesca, ultrapassou os limites do canteiro hoje intransitável. Suas raízes aéreas em contato com o solo, transformam-se em troncos auxiliares, ajudando a suportar o peso da falsa seringueira. Sua cúpula se estende por toda a largura da avenida. Nestas últimas chuvas torrenciais um galho bem avantajado caiu sobre um ônibus, danificando-o. Se fosse sobre um  motoqueiro, poderia tê-lo ceifado. Vê-se que, apesar de esplendorosa – pode ser vista por satélite no Google Maps! -, ultrapassou e muito o conceito do razoável.  Se cair, o estrago será devastador. A prefeitura nada faz a não ser podas homeopáticas, esporádicas e que motivam piadas dos moradores.

A partir de Abril as chuvas deverão certamente rarear. O alcaide, nos meses de estiagem, estaria empenhado em promover uma blitz para a remoção das árvores velhas, contaminadas, inclinadas perigosamente ou inadequadas para o espaço em que se situam? Pouco provável. Infelizmente, nem o cidadão comum estará preocupado com o que se passa dentro de um vulcão, só atentando ao problema tão logo o magma seja expelido.

This post addresses the tragedy of street trees in São Paulo. While the city mayor sticks to his commitment to implement 400 km of bike path in a not naturally bike-friendly city (São Paulo is hilly, overcrowded with cars and motorcycles and drivers have little or no patience with cyclists) – trees are abandoned to their fate: no pruning, no removal of dead branches or of diseased plants. As a result of such disregard, intense summer storms with wind guts that have hit São Paulo knocked down about a thousand trees in less than a month, dragging down power lines, destroying private and public property, leaving residents in the dark and drivers without traffic lights. The usual summer storms accompanied by the usual negligence: no one cares what goes on inside a volcano until lava explodes out of its vent.