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Amizade que Desafiou Tempo e Distância

Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem.
Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor:
o que temos pelos outros.
De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos.
E é por isso talvez que a grande amizade e o grande amor
são aqueles que dão sem pedir,
que fazem e não esperam ser feitos;
que são sempre voz ativa, não passiva.
Agostinho da Silva

Em Portugal, não por outro motivo, quando se quer grafar o nome do verdadeiro amigo, escreve-se com A maiúsculo. A dádiva da amizade sempre esteve além de uma percepção cotidiana. O Amigo é, existe, e tempo e distância não obliteram a intensidade do afeto.

No capítulo CCXIX de “Citadelle”, de Saint Exupéry, essa obra monumental que, no dizer de sua irmã, Simone de Saint-Exupéry, “aborda todos os problema da destinação humana e do condicionamento do homem”, o autor conta a história de dois amigos jardineiros que trabalhavam com espírito fraterno, encontravam-se sempre para o chá ao entardecer, trocavam confidências e ideias sobre plantas. Diálogo em poucas palavras. Quando passeavam juntos olhavam flores, árvores e o céu. Gestos com a cabeça eram o suficiente para a compreensão da fauna e da vida. Certo dia, um mercador contratou um deles para juntar-se à sua caravana por algumas semanas apenas. Mas vicissitudes mil levaram-no aos confins do mundo. Separados, não tiveram mais contato. Decênios se passaram e o jardineiro sedentário recebeu um dia carta de seu velho amigo. Emocionado, apreende o breve escrito: “Esta manhã podei minhas roseiras”. Três anos se passaram e o jardineiro a pensar na distância separando-o do amigo e em como responder à sua carta. Enfim, seu amo encontra um emissário que poderia ser portador da resposta, que atravessaria desertos e mares até seu amigo ausente. Dias a rabiscar e a rasurar a mensagem, que chega enfim a termo. Feliz, entrega ao amo. Dizia apenas: “Esta manhã, eu também podei minhas roseiras”.

Conheci Gabriel Meirelles de Miranda no final dos anos 1960. Médico e cirurgião em Pouso Alegre, Minas Gerais, Gabriel é uma das mais ilustres figuras da cidade. Foi aos recitais de piano que dei no Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre, a convite da professora Horma Valadares. No início dos anos 1970 prestei vestibular para curso na Faculdade de Direito do Sul de Minas e durante anos, até  a conclusão em 1975, frequentei semanalmente a cidade, pois as aulas eram oferecidas às sextas-feiras à tarde e à noite e aos sábados pela manhã. Ao todo, 18 aulas!!! Viajar de carro naquele período era uma aventura, pois a Fernão Dias oferecia apenas uma pista, curvas mal planejadas, acostamento por vezes inexistente, asfalto pleno de crateras. Como acréscimo, ausência do cinto de segurança que passaria a ser obrigatório a partir de 1994. Todos os anos alguns alunos perdiam a vida nessa perigosa viagem. Optei pelo Direito, pois créditos em música que obtivera em Paris não eram aceitos àquela altura nos recentes cursos universitários em São Paulo. Gostei do curso de Direito que me deu, primeiramente, condição de entrar na Universidade de São Paulo em 1982, lá permanecendo até 2008. Apesar de jamais ter exercido a profissão de advogado, em Pouso Alegre adquiri bases jurídicas que me foram úteis, e dezenas e dezenas de pareceres emiti na USP quando, a convite de vários reitores, integrei algumas das mais importantes comissões da Universidade.

Essa premissa pessoal faz-se necessária. Naqueles anos em que cursei a Faculdade, quase todas as sextas-feiras, após as aulas, por volta das 23h45min, o Dr. Gabriel, como sempre foi chamado em Pouso Alegre, estava a me esperar para irmos comer uma pizza. Tranquilo a fumar seu cigarrinho, andar lento, fala serena, Gabriel ensinou-me, sem o saber, a entender a vida “pausadamente”. Mostrava-me, ao narrar episódios de sua vida desde a infância, uma outra maneira de compreender o outro. Jamais o vi intranquilo. Quantas não foram as vezes em que, na pizzaria, ficávamos silenciosos. Estar juntos era por si só motivo de alegria interior. Nossas confidências tinham o dom da viagem mental. Imaginávamos um mundo ideal.

Descende de notáveis médicos que permaneceram na história mineira: seu avô, Olinto Deodato dos Reis Meirelles, foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e prefeito da capital mineira de 1910 a 1914; seu pai, médico ilustre também, Custódio Ribeiro de Miranda, responsável pela construção do hospital Samuel Libânio em Pouso Alegre e prefeito da cidade de 1951 a 1956.

Na cidade mineira, Gabriel Meirelles de Miranda teve toda uma vida dedicada à medicina. Inicialmente, trabalhou com seu pai no hospital Samuel Libânio, onde não apenas exerceu a atividade, como foi diretor durante cinco anos.  Especialista em cirurgia geral, clínica geral, pediatria e obstetrícia, seu diagnóstico preciso granjeou-lhe reputação inconteste. Na Faculdade de Medicina da Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí assumiu a cadeira de cirurgia geral. Sua dedicação à medicina fê-lo continuar até fins de 2010 o ensino na cadeira de professor de Ginecologia!!!

Estou a me lembrar de que Gabriel atendia pacientes no consultório montado em sua casa. Causava-me admiração a diversidade daqueles que o procuravam, dos vários níveis sociais. Gabriel dispensava a mesma atenção, não se importando com patamares sociais. E sempre com a mesma serenidade. Ele, como bom samaritano, a atender tantos doentes sem buscar a menor remuneração. Sim, ela existia na única forma de gratidão dessa gente simples: um frango, ovos, legumes, frutas, uma lágrima. Confessava-me que essas oferendas simbólicas representavam o que de mais precioso o sofrido paciente podia oferecer. Eu, já naqueles anos de reestruturação, contava-lhe meu desiderato voltado à divulgação de obras excelsas, mas escondidas. Dizia-lhe, nos meus trinta e poucos anos, que tinha consciência de um tributo a pagar, mas correria o risco. E corri sem me arrepender, apesar do preço saldado. Gabriel encorajava-me.

Convivi com sua esposa, a saudosa Aparecida, e com seus cinco filhos adoráveis. Regina acompanhou-me algumas vezes e a amizade familiar frutificaria. Aos sábados, antes de regressar a São Paulo, passava por sua casa para me despedir e não foram poucas as oportunidades em que almocei junto aos seus. Sob outro aspecto, quando, por motivos vários – a ausência de um professor ou a infausta morte de um colega na fatídica estrada – não havia aula, ia à sua morada e estudava no piano da edícula.

Findo o curso de Direito, retornaria à Pouso Alegre para o casamento de sua encantadora filha, Maria Leonor, com o jovem médico José Carlos, hoje professor e diretor do Instituto de Patologia José Carlos Corrêa. Umas poucas vezes mais encontrei-me com Gabriel, quando vinha a São Paulo visitar um de seus filhos. Almoçávamos e trocávamos confidências, como sempre. Passaram-se decênios e um silêncio se fez. Não é raro o fato entre grandes Amigos. Distância, atividades tantas não provocaram névoas. Restaria para sempre o afeto da amizade inquebrantável.

O acaso tornou possível o acesso de seu telefone em Pouso Alegre através de bom amigo que mora em Jaguariúna, Mário Sérgio Mariottoni, pois seu irmão é médico na cidade mineira. Após uma distância temporal incomensurável, cerca de 40 anos, telefonei-lhe. Imediatamente Gabriel, com firmeza, disse meu nome. Dupla emoção. Tanto para dizer… vontade mútua de um encontro. Deu-se. Seus netos marcaram jantar em São Paulo, na morada de um deles. Encontrei Gabriel nos seus 92 de idade. Nossos olhares traduziram no silêncio bem mais do que as palavras. Muita comoção. Noite mágica a não ser esquecida. Uma certeza ficou desse “primeiro” encontro. Naquela noite, juntos, nós dois podamos nossas roseiras.

P.S. Ao acessar dois links o leitor poderá conhecer essa figura extraordinária, simplesmente Gabriel, como sempre quis ser chamado.

Dr.Gabriel – “Nós, homens, verdadeiros deuses”

TVFuvs: Homenagem ao Dr. Gabriel Meirelles de Miranda

On the priceless gem of friendship and my bond with Gabriel Meirelles de Miranda, a doctor I knew in the city of Pouso Alegre in the sixties, a deep relationship that time and distance did nothing to diminish.

 

 

 

 

 

 

 

O Texto como Respiração

Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou eu quem tem de traçar o caminho;
com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros.
Agostinho da Silva

Aos dois de Março de 2007 nascia o primeiro post publicado no blog. Já comentei anteriormente que nada teria acontecido não fosse uma observação de meu ex-aluno Magnus Bardela. No final de Fevereiro daquele ano, após conversa amistosa a rememorar fatos,  ele – que frequentou durante quatro anos minha classe de piano na USP, formando-se brilhantemente -, propôs-me a construção de um blog. Hesitei instantaneamente, mas a argumentação de Magnus foi convincente e dias após, sem que eu soubesse, durante conselhos que me dava sobre internet, construiu o blog, dizendo-me: “Está pronto, é só inserir seus textos”. Atônito, ainda hesitei, mas aos 2 de Março “Praeambulum” dava início ao caminhar com os leitores.

Mencionei várias vezes que a não interrupção desde 2007 jamais foi um problema. Certo dia o amigo Daniel Marcos me questionou “Você não se dá férias, ao menos um mês?”. A resposta foi imediata: “Nunca dei férias para minha respiração”. O ato de escrever, de  estudar piano ou de correr faz parte desse respirar, cotidiano ativo. Quanto aos blogs, a não interrupção uma semana sequer (o post entra aos sábados às 00h05min) durante esses oito anos é fruto do pensar enquanto realizo treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, já mencionado em tantos blogs anteriores. A aceleração cardíaca age sobre os neurônios e as ideias fluem com naturalidade. Focalizado um tema, é só desenvolvê-lo na primeira madrugada e o texto desliza, corrente. Problemas técnicos adiaram por um ou dois dias uns poucos textos.

A pressão de ter de escrever tantos caracteres para a uma determinada publicação em tempo previamente fixado não daria resultado em meu caso particular. Essa liberdade não me impõe restrições quanto à dimensão, quiçá conteúdo. Observando os pássaros, dificilmente eles obedecem a roteiros, salvo os pombos – mormente o pombo correio ou as aves migratórias. A temática simplesmente acontece e tem acontecido sem interrupção. Música, sempre, cotidiano e suas surpresas, resenhas de livros que me atraem, impressões colhidas durante viagens e que se processam no de profundis, tardiamente quantas vezes. Diria que a observação “viajar é olhar”, da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser interior. Todos os impactos que diariamente vivemos se acumulam e ficam numa espécie de álbum interior, pleno de figuras e observações. Basta um impulso, sugestão que seja, e aquela determinada página escondida no álbum interior ressurge por inteiro. “Viajar é olhar”, seja externa ou internamente. Meu celular é daqueles jurássicos, só recebe ou transmite ligações. Nada mais. Certa vez em que minhas netas se divertiam tirando fotos e selfies com aparelhos sofisticados, disse à Emanuela, a menor, que iria tirar uma foto mental simulando uma foto com tão antigo celular. Pôs-se a rir. Horas após, enviei-lhe e-mail com a imagem de meu celular e escrevi: “feche os olhos e lembre-se daquele momento, pois ele está gravado em sua mente”. Valeu como descontração, mas Emanuela guardou o episódio.

Raramente visito o universo nebuloso da política, mormente nestes últimos anos em que a mentira é vendida como verdade e a corrupção enlameia o cotidiano. Por vezes, sem o desejar, emito considerações. Jornalistas que costumo frequentar pela leitura ou escuta radiofônica têm exercido com competência a denúncia como alerta, o confronto como dialética necessária e saneadora. Há esperanças. O país não se submeterá à primazia que está a fazer sucumbir democracias latinas. Não merece.

Temas fluem e nosso universo depende invariavelmente dos tópicos atrativos. Eles lá estão. Buscamo-los à maneira de um peregrino que, ao caminhar, pormenoriza-se naquilo que já está “pré-moldado” em sua mente. Sim, há o acaso. Não o desprezo, nunca.

Para que a sequência não tenha sofrido uma interrupção sequer ao longo dos tantos sábados, há a necessidade de querer. Meu saudoso e sábio pai nos ensinou básicos princípios que serviram aos quatro filhos: disciplina, perseverança, constância, concentração e fé naquilo em que acreditamos. Esses tópicos foram aplicados diferentemente pelos irmãos de sangue, a depender da visão individual das coisas.

Nada teria acontecido não fosse Magnus ter pressentido a ideia. Continuava a reter textos mentais em ebulição permanente, como sempre, desde meus primeiros anos. A memória tem esse poder mágico de manter o que os olhos viram externa e internamente, amalgamar olhares sem perder a precisão e, quando acionada, revelar por inteiro experiências vividas. O arquivo mental é uma de nossas dádivas maiores.

Este blog não existiria sem colaboradores dedicados que, ao longo destes anos, jamais hesitaram em ajudar-me, ignorante que sou dessa parafernália tecnológica a todo instante renovada. Difícil, nos meus 76 anos, acompanhar essas transições rápidas, sempre em direção a uma outra inovação. Desisti. Conheço o básico do básico e, graças aos amigos diletos, supro a não atualização internética.

Regina Pitta, Magnus Bardela, François Servenière, Elson Otake e Luca Vitali (in memoriam). É um privilégio tê-los a me dar suporte em esferas distintas. Desde o primeiro post, minha dileta amiga e vizinha, Regina Pitta, lê os textos e faz revisão impecável. O compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931) escreveria ao seu amigo, Furio Franceschini, que o pior revisor é o autor e, entre esses, era ele o pior. Assertiva. O texto flui  num impulso nas madrugadas e as duas ou três leituras não são suficientes para sanar gralhas (assim os portugueses definem incorreções) que parecem querer se ocultar. E como se escondem!  É humano. Regina passa a lupa, mercê de seu conhecimento de nossa gramática. Quando dúvidas pairam, recorre à Filologia. Sinto-me seguro. Após as devidas correções e sugestões – nem sempre aceitas, mas é bom ter uma outra opinião -, escreve um resumo em inglês, devido aos leitores acima do Equador que me honram com a leitura dos blogs, traduzidos sofrivelmente pelo programa do Google.

Magnus tem sido meu guru internético. Foi ele que me ensinou o que sei, isso em 2003. Só não aprendi mais por total descaso com a aceleração infalível da tecnologia. O básico possibilita-me o convívio com teclado e tela e os acessos que consigo atingir. Quando um impasse surge, é Magnus que me socorre, pois de seu computador pode acessar o meu e sempre, até agora, tudo se resolveu. Mente privilegiada a deste amigo que diariamente envia-me gravações fabulosas que dia a dia têm enriquecido o bom lado do YouTube, a contrastar com o besteirol que infesta esse meio de comunicação.

Elson Otake, não diretamente ligado ao meu blog, tem sido o responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 músicas por mim gravadas no Exterior. Preciosista, tem o dom da concisão e suas montagens são louvadas aqui e alhures. Maratonista, em muitas corridas de rua abdica de sua velocidade para correr ao meu lado. Um estímulo.

François Servenière. Compositor e pensador francês de altíssimo mérito, Servenière privilegia-me com mensagens de extraordinário teor. Nossa correspondência, nascida em 2008, é abastecida semanalmente. Todos os posts têm sua leitura acurada. Se a tradução Google tem tantas falhas, Servenière consegue sempre apreender a essência dos blogs e seus comentários enriquecem meus textos, pois o amigo insere leituras paralelas e reflexões profundas sobre o tema. Tão ricas são suas mensagens que o considero, hoje, um partner de meu blog. O leitor tem acompanhado, através dos Ecos, que ele está sempre presente. Fundamental é a possibilidade de novo olhar de um autêntico intelectual francês. Estimula a comparação, faz-nos apreender aspectos que por vezes nos passam desapercebidos. Privilégio.

Rendo tributo ao meu saudosíssimo amigo e extraordinário artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Durante anos, Luca foi colaborador dedicado. Tantas vezes mencionei que o amigo tinha um lápis no cérebro. Ao conhecer um texto, um ou dois dias após enviava-me um desenho alusivo ao tema. Alguns eram charges de humor bem refinado. Faz-me muita falta o convívio semanal que mantinha com Luca. Arte era nosso assunto fulcral. François Servenière, ao ver as ilustrações da magnífica Série Cósmica (acrílico sobre tela) do artista, ficou tão impactado que escreveu sete Études Cosmiques para piano e, após a partida de Luca, mais um Estudo, Outono Cósmico. Em Abril voltarei ao tema, pois deverei gravá-los na Bélgica juntamente com Estudos Contemporâneos de outros compositores.

A família. Sem a harmonia que nos faz unidos indelevelmente, confesso que dificilmente conseguiria empreender trajetórias. Ela me traz a serenidade necessária. Epicentro essencial.

Se já ultrapassamos os 600.000 acessos, devo esse estímulo unicamente aos leitores que têm prestigiado minha coluna. Continuarei. É o que sei fazer.

This week my blog completes eight years of nonstop work, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor.

 

 


São Tantas as Reclamações contra a Prefeitura!

But tree, I have seen you taken and tossed,
And if you have seen me when I slept,
You have seen me when I was taken and swept
And all but lost

That day she put our heads together,
Fate had her imagination about her,
Your head so much concerned with outer,
Mine with inner, weather.

Robert Frost (1874-1963)

O último blog resultou opiniões contundentes. São Paulo tem convivido, como nunca antes, com a certeza, não a dúvida. Qualquer aguaceiro mais forte e o cidadão já imagina a derrocada infalível de árvores, arbustos ou galhos espalhados pela cidade. A imagem pós-chuva é sempre desoladora. Quando não a árvore inteira, partes dela ficam espalhadas pelas vias. Qualquer chuva leva invariavelmente ao apagão de um sem número de semáforos e o caos se instala em muitas vias. Passadas as águas, buracos se apresentam como consequência de pavimentações superficiais. Os contribuintes pagam impostos altíssimos e nenhuma devolução à altura em forma de serviços públicos acontece.

São Paulo está a sofrer grave crise hídrica. Tivessem os governantes se preocupado décadas atrás, estaríamos livres da emergência. Certamente 2015 será um ano de forte racionamento. Não há como ser diferente. Contudo, apesar do vocabulário nem sempre preciso, pois tangenciado, o governador do Estado vem a público, sempre, e não nega responder à mídia, ou seja, às perguntas que todos nós estamos a pensar sobre a escassez. Não é o caso do alcaide de São Paulo que, seguindo velha tática daquele que o criou para as eleições de 2012, oblitera-se nos momentos de dificuldade, não se apresentando em nenhum momento de crise forte. Já se tornaram lendários os oportunos “desaparecimentos” do criador. Tragédias naturais, escândalos como mensalão e petrolão não tiveram e não têm, respectivamente, por parte do criador a posição firme, a entrevista a não deixar nenhuma dúvida. Essa atitude de se furtar em momentos decisivos, até plausível na idade edipiana, quando em jogos infantis, tornou a criatura o discípulo perfeito, que desaparece do embate tão logo sua presença antolha-se imprescindível. O tergiversar pareceria algo bem estudado pelo criador e as criaturas dele emanadas.

Vital Vieira Curto, empresário português, assim escreve: “Li com atenção seu texto sobre esse problema que é a queda de árvores. Compartilho totalmente da sua opinião. Paralelamente, você também entrou na preocupação do atual prefeito, que é a construção das ciclovias. Este tema me incomoda muito, pois estou vendo enorme preocupação com a pintura das ruas de vermelho, sem maior utilidade, como você já disse. Eu, que transito por São Paulo, vejo como enormes buracos proliferam nas ruas, sem qualquer providência da parte do poder municipal. A nossa imprensa ainda não destacou esse terrível contrassenso. Faço a seguinte pergunta: será que algum jornalista ou mesmo político se debruçou sobre o custo dessas faixas pintadas? Será que isso não poderá estar alimentando a geração de recursos para alguma finalidade menos correta? A implantação de novos faróis também é estranha. São colocados novos faróis, mas não se preocupam com a sua coordenação, conseguindo dificultar o fluxo do trânsito ainda mais. É muito curioso que esses serviços citados sejam de responsabilidade de uma secretaria municipal que está sob o comando de um notório político, que teve na última eleição três candidatos pertencentes à sua família. Será que esse fato sugere existência de qualquer coisa estranha? Certamente eu não posso responder, mas seria importante que alguém investigasse”.

François Servenière nos escreve com outro enfoque sobre o problema, possivelmente por viver em outras latitudes “A França começa a sair do entorpecimento e a Bélgica é atingida, como previsto. Fez-me bem ler seu blog e verificar que nós não somos o umbigo do mundo, com nossos pequenos problemas sociais e cenas terroristas. Ver também que todas as desgraças do planeta não são relatadas pela imprensa mainstream ocidental que nos inunda.

Essa árvore extraordinária que ilustra seu blog (segunda imagem do blog anterior) e que tombou como símbolo dessa pujança vegetal dos trópicos. Uma árvore secular, que dá ao homem a consciência de se ancorar na história natural não escrita. Sou como você. Tudo que se relaciona à natureza me emociona. Encostar os dedos em uma árvore é como apreender a natureza em seu caminho pela história. Encostar a orelha em uma árvore, da mesma maneira que se faz contra uma coluna de catedral para captar o tempo que passa, a natureza em sua lenta trajetória, ritmo quase imperceptível à inteligência humana. Portanto, ao longo da vida humana, a árvore cresceu e não percebemos essa transição. Charles Baudelaire poetizava: La nature et ses vibrants piliers comme les cathédrales…”.

A seguir, Servenière aborda a força da natureza, que inúmeras vezes é imprevisível, tornando o homem inerte. Em São Paulo e no Brasil os acontecimentos trágicos e de violência inaudita poderiam sempre ser previstos se houvesse vontade política, o que realmente não acontece. As tragédias há poucos anos atrás, na temporada de chuvas nas serras do Estado do Rio, onde sucumbiram cerca de 1.000 pessoas, poderiam ter sido evitadas não fosse a ocupação desordenada. Outras tantas acontecem no Brasil mercê do descaso governamental e da corrupção, que jamais esteve em nível tão elevado desde 2003. A quantidade desmesurada de queda de árvores ultimamente na cidade deu-se em grande parte pelo descaso da prefeitura, que tem sistematicamente negligenciado a prevenção necessária. É fácil apontar árvores que poderão cair brevemente, causando transtornos ou mesmo tragédias. As fotos que ilustram o blog mostram um flamboyant inclinado com galhos imensos – mais parecem troncos – atravessando um terreno privado. Fica próximo ao 27º DP no Campo Belo. Continua a crescer e, para a queda, é só questão de tempo. A prefeitura, neste caso e em outros milhares espalhados pela cidade, ignora. Irresponsabilidade, descaso e abandono, palavras tão próximas!!!

François Servenière exercita sua posição frente ao irreparável “Que podem os homens e suas organizações, as municipalidades, contra as forças da natureza? Na França, cada um rejeita a responsabilidade pelas catástrofes naturais, essencialmente imprevisíveis, malgrado os computadores e os programas de previsão, sempre, sempre, friso, sempre falhos. É a fatalidade! Senão entramos na sociedade futurista ‘Minority Report’, idealizada por Philip K. Dirk (1956), onde os assassinatos poderiam ser previstos mercê da ajuda dos precogs, capazes de antever o que poderá acontecer. Isso é desejável? O homem nada pode contra a natureza que, de seu lado, não se importa. O certo é que o homem não controla o futuro, tendo dificuldade em obter previsões meteorológicas confiáveis durante a semana. Sua cidade é imensa e os problemas só podem ser da mesma dimensão, como posso constatar através do seu blog. Quanta complexidade a administrar!!! Suas fotos são belas e emocionam. A grande falsa seringueira lembra-me, mas em dimensão mais dionísica, a imensa aubépine no centro da praça da Catedral de Bayeux, cuja lenda reza que Joana D’Arc chegou a acariciar seu tronco. Obrigado por seu texto, que me faz sair de nossas preocupações umbilicais”. (tradução J.E.M.)

No blog anterior nego o slogan da atual prefeitura, “fazendo o que tem de ser feito”, pois as essencialidades foram abandonadas pelo presente burgomestre em detrimento de superficialidades e populismo. Houvesse respeito do alcaide pelas centenas ou milhares de muitas de nossas árvores em fase final, pois encerrados seus ciclos vitais, determinaria que diariamente, durante todo o ano, fossem extirpadas aquelas que necessitam de tal procedimento. A grande maioria vive sob torturante garrote, que lhe tolhe o pleno desenvolvimento, sufocando-a, enfraquecendo-a, sem poder levar a seiva das raízes sufocadas às ramificações e, fatalmente, condenando-a à inexorável queda. Passarão os raros aguaceiros que estão caindo sobre São Paulo e, certamente, o tema poderá ser arquivado no Edifício Matarazzo. A mídia, tão criticada pelo partido que ora ocupa o prédio mencionado, não pode deixar cair no esquecimento a queda de mais de 1.000 árvores. Será sua missão cobrar atitudes, pressionar para que haja constante vigilância e atenção às nossas árvores. Oxalá isso ocorra.

In this week’s post I transcribe messages received from the Portuguese businessman Vital Vieira Curto and the French composer François Servenière, with different views on the problem addressed in the last blog: street trees knocked down by inclement weather.