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Depoimentos tardios de ex-alunos

Malgrado a diversidade de temperamento dos grandes virtuoses franceses, é possível observar em todos certas características comuns. Pianistas tão diferentes uns dos outros como foram Planté, Diémer, Pugno, Risler, Saint-Saëns, Delaborde, estavam unidos por um secreto parentesco de técnica e de estilo, feito de clareza, de leveza, de comedimento, de elevação e de tato. O toque francês é lúcido, preciso, destacado. Se ele se compraz por vezes na graça mais do que na força, sempre a guardar o equilíbrio e o senso de proporção, ele não cede a nenhum outro sob a relação da pujança, da profundidade e da emoção interiores.
Marguerite Long
(“Le Piano”, 1959)

Neste segundo blog exemplificarei, através dos inúmeros depoimentos de ex-alunos dos grandes intérpretes-professores franceses, as várias particularidades rememoradas por aqueles, que apenas corroboram a existência de uma coluna mestra da Escola Francesa de piano em suas inúmeras vertentes, aplicadas por professores tão distintos em suas atuações. Ficaria evidente o olhar diferenciado dos homenageados frente à carreira, à ação didática e mesmo em relação ao método individual de estudo de cada um deles, focalizado nos depoimentos. Estarão no blog presente os que nasceram até 1910 e, num terceiro, os nascidos após essa data.

Se o exposto na epígrafe traduz a essência da Escola Francesa de piano, seria contudo o acréscimo, resultado das inúmeras vertentes, que lhe daria a consistência e a diversidade da praxis pianística, mormente nas gerações a partir da segunda metade do século XX. Como exemplos, se é exato entender que dois pianistas rigorosamente coetâneos, Marguerite Long (1874-1966) e Alfred Cortot (1877-1962), tenham sido tão antagônicos em suas apreensões da técnica pianística, como imaginar que os outros 48 pianistas-professores elencados em “Les Légendes…” pudessem ter perfeita identidade? Seriam os contributos advindos através dos contatos pessoais, auditivos e através do conhecimento de outras Escolas, preferencialmente as da Alemanha e da Rússia, que enriqueceriam ainda mais a consagrada Escola Francesa, sem diminuir sua importância e identidade. Nesse fluxo de intercâmbio, quantos não foram os atributos da Escola Francesa captados fora das fronteiras do país? Um dos méritos do projeto de Catherine Lechner-Reydellet foi justamente o de evidenciar, através daqueles que sorveram ensinamentos dos mestres, a pluralidade do técnico-interpretativo-pianístico.

Mercê do espaço a que me proponho para os blogs semanais, mencionarei os homenageados mormente na apreensão diferenciada dos processos técnico-interpretativos. Como temos um elenco extraordinário de grandes intérpretes-professores comentados por seus ex-alunos, pouparei adjetivos, apenas nomeando os ilustres mestres e sintetizando seus métodos.

A primeira estudada pela autora, Marie Jaëll (1846-1925), através de suas pesquisas teve papel fundamental no aprimoramento do toucher, ou seja, da qualidade do toque da ponta dos dedos sobre o teclado, com seus trabalhos visando “a ultrapassar o estágio do instinto para se chegar ao conhecimento”, segundo o texto da Biblioteca Nacional de Estrasburgo utilizado no livro em questão. Sob outra égide, observo que o croata-argentino, Juan Vucetich (1858-1925), foi pioneiro na utilização das impressões digitais para fins de identificação. Marie Jaëll colhia as impressões digitais dos alunos em cartões sobre as teclas para chegar a conclusões que perduraram, não apenas para a Escola Francesa como também para outras alhures. Claude Debussy, em carta ao seu editor Jacques Durand (01/09/1915), comenta a pedalização excessiva como recurso a encobrir a falta de técnica, mencionando favoravelmente os estudos gráficos de Maria Jaëll, que “trata os pianistas sem indulgência”.

A epígrafe bem evidencia a conceituação de Marguerite Long, que teve influência decisiva na arte pianística francesa. O pianista Désiré N’Kaoua escreve sobre a mestra e apresenta fatos inéditos. Uma das frases bem instigantes de Madame Long, relatada por N’Kaoua: “Compreendo que vocês sejam tentados pelos concertos de Tchaikovsky e Rachmaninov, mas não são essas obras que os ensinarão a tocar, pois o verdadeiro piano apreende-se com Mendelssohn e Weber”. Em meu blog “Marguerite Long – livros e método didático” (18/04/2020) comento parte da pedagogia de Madame Long.

A pianista Idil Biret discorre sobre os ensinamentos de Alfred Cortot, expondo com espírito de síntese os princípios de ensino do mestre, entre os quais: “ser sempre fiel ao texto em sua exatidão, às nuances, à frase musical, à utilização dos pedais; ser honesto e modesto na relação com a música; trabalhar para atingir a técnica transcendente; analisar a partitura sabendo diferenciar o essencial e o secundário; fugir das interpretações estereotipadas e das más tradições; saber se escutar; servir à música”. Também há um blog recente que escrevi sobre o pianista, “Alfred Cortot e a poética inefável” (29/02/2020).

Armand Ferté (1881-1973) e Lazare Levy (1882-1964) sedimentam processos que serão utilizados pela geração logo a seguir. Désiré N’Kaoua observa preceitos de seu mestre Lazare-Lévy: “era ferozmente contrário à articulação exagerada dos dedos, destacando o papel relevante do antebraço e do pulso. Dizia para que jamais perdêssemos o interesse pelo som produzido enquanto este não fosse substituído pelo som seguinte, e que tocássemos com os nervos e não nervosamente”.

Blanche Selva (1884-1942), após dados biográficos expostos por Lechner-Reydellet, é contemplada pela autora com excerto do livro “Blanche Selva, naissance d’un piano moderne” (Lyon, Symétrie, 2010). No desiderato de ampliar o repertório – multidirecionado, no caso – dos alunos para que conhecessem a real diversidade, escreveria: “Acredito que esse método nos livrará de uma escola de virtuoses preocupados apenas com efeitos pessoais, num repertório tedioso e restrito, se considerarmos a longa carreira de um virtuose. Pianistas formados nessa fonte serão sempre inimigos confessos de qualquer obra nova que necessite um esforço de compreensão ao qual seus espíritos acomodados se recusam”. Blanche Selva publicaria uma série de livros de grande valia a respeito da técnica e da interpretação. Apresentou a integral de J.S.Bach para teclado, as 32 Sonatas de Beethoven e a primeira audição da Suite Iberia de Isaac Albéniz, obra que lhe é dedicada.

Seria igualmente N’Kaoua a escrever sobre Jeanne-Célestine Blancard (1884-1972). Segundo ele, o ensino da mestra podia ser definido como uma cultura aprofundada do sentido tátil: “Não deixe jamais um dedo sobre uma tecla sem saber exatamente o que faz esse dedo sobre essa tecla no momento preciso”.

Idil Biret escreveria também sobre Madeleine de Valmalète (1899-1999), sua professora quando ainda menina, e Nadia Boulanger (1887-1972), salientando vários episódios inéditos colhidos durante o convívio. Escreve: “Lembro-me das aulas sobre um só compasso, na busca de atingir independência total entre diferentes linhas, evitando assim os falsos acentos graças à observância das nuances indicadas. Nadia Boulanger exigia ainda uma análise rigorosa das obras com o objetivo de interpretá-las com rigor e conhecimento”. Estou a me lembrar de ter estado na morada da lendária Nadia Boulanger em Paris, 36 Rue Ballu, e ter tocado três peças de Debussy (Reflets dans l’eau), Roger Ducasse (Étude) e Guarnieri (Tocata). Um seu conselho foi definitivo. Disse-me que, na condução da dinâmica, do pppp mais ínfimo ao limite sonoro mais intenso, ffff, residia um dos segredos fulcrais da interpretação abrangente.

Yves Nat (1890-1956) recebe rasgados elogios de Camile Roy, a dizer que “o mestre bondoso e aberto ao próximo fazia com que a Verdade Musical parecesse tão simples”. Acrescenta que “o grande mestre russo Heinrich Neuhaus, ao conhecer as gravações de Yves Nat, observou que jamais alguém soube transmitir O Grande Tempo Musical como ele”.

Clique para ouvir, na interpretação de Yves Nat, as Cenas Infantis, de Robert Schumann:

https://www.youtube.com/watch?v=Wf6CD-C-RzI

Sobre Marcel Ciampi (1891-1980), Marie-Cécile Milan escreve: “Espírito vivo e dinâmico, obrigava-nos a edificar rapidamente as obras para erigir o repertório. Sabia que a interpretação ainda não estava a contento, mas para ele era essencial desenvolver o repertório e progredir. Dava-nos as grandes linhas da interpretação”.

Magda Tagliaferro (1893-1986), brasileira com dupla nacionalidade, é descrita pelo pianista de origem libanesa Billy Eidi. Exalta as masterclasses, uma das atividades da mestra, e observa que “ela transmitia o essencial de sua pedagogia, Eloquência e Gosto, ou seja, o que é mais raro e difícil de transmitir e adquirir”.

Catherine Lechner-Reydellet apresenta traços biográficos de Youra Guller (1895-1980), pianista que teve uma vida plena de atribulações e desacertos, mas considerada de grandes méritos. Peter Feuchwanger narra suas impressões marcantes relativas à personalidade e à arte de Youra Guller.

A respeito de Marcelle Meyer (1897-1958), Catherine Lechner-Reydellet utilizou extratos da correspondência do compositor Francis Poulenc, reunida, escolhida, apresentada e anotada por Myriam Chimènes (Francis Poulenc, correspondance 1910-1963, Fayard, 1994). Dediquei-lhe um blog, mercê de minha profunda admiração pelas suas gravações (“Marcelle Meyer – a redescoberta merecida”, 06/03/2007).

Clique para ouvir, na interpretação de Marcelle Meyer, Gavotte variée, de Jean-Philippe Rameau:

https://www.youtube.com/watch?v=7PKAFOhVZ4Q&list=LLhYYrfiaz2uLpEj2nQXxjFg&index=450

Jean-Marc-Savelli, em seu depoimento sobre Yvonne Lefébure (1898-1986), comenta um aspecto basilar da ação e da meticulosidade da mestra: “Ela era inesgotável nos aspectos energia e sabedoria. Após a aula sentia-me esgotado. Com o recuo do tempo, compreendi a sua busca para extrair o melhor de seus alunos. No fim de um curso de mais de uma hora tínhamos trabalhado não mais de duas ou três páginas”.

Sobre Robert Casadesus (1899-1972) escreve Désiré N’Kaoua, a salientar uma particularidade do mestre de que jamais se esqueceria: “Antes que eu toque analisemos o que você sentirá e, sim ou não, você me considerará um bom pianista… Saiba que um grande pianista jamais será deselegante se você cometer erros ou outras falhas, pois sabe como é difícil tocar bem! Sob outra égide, se você tentar convencer o seu merceeiro, ele vai rir de suas falhas”. A esposa de Robertt Casadesus, Gaby Casadesus (1901-1999), pianista que se apresentaria tantas vezes com seu marido, recebe o olhar de Philippe Bianconi: “o trabalho com o som, a busca da grande linha, a recusa do efeito fácil, e ao contrário, o máximo expressivo na sobriedade”.

Vlado Perlemuter (1904-2002) é pormenorizado pela pianista Danielle Laval, que, entre tantas observações, salienta: “Suas exigências em matéria de repertório eram seguidas à risca por todos os alunos. Um Prelúdio e Fuga de J.S.Bach, um Estudo de Moskovsky ou de Chopin quinzenalmente, acrescidos de peça do repertório a ser executada em quatro semanas. Apresentava dedilhados a serem escolhidos em comum acordo, sempre com muita clarividência”.

Clique para ouvir, na interpretação de Vlado Perlemuter, São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas, de Franz Liszt:

https://www.youtube.com/watch?v=QFy5FBvAYiE

Jeanne-Marie Darré (1905-1999) tem, no depoimento de Gérard Parmentier, revelações de interesse concernentes à sua disciplina pessoal, que buscava passar aos alunos, a depender de suas qualidades. Não atendia chamadas telefônicas no período da manhã. “Repassava diariamente durante duas horas, em tempo moderado, os 24 Estudos de Chopin, dedicava-se mais uma hora e meia à denominada técnica pura em sua abrangência e mais outra hora e meia para passagens complexas de obras de seu repertório”, comenta Parmentier.

Désiré N’Kaoua menciona um dado relevante sobre Lucette Descaves (1906-1993): “Possuía no mais alto nível as qualidades do bom pedagogo, acolhendo com solicitude os alunos que lhe pediam conselhos”.

Monique Haas (1909-1987) recebe de Chantal Jacquet frase que resume a aplicação técnica a partir da partitura: “para ela, a técnica se forjava através das obras do repertório”.

Lélia Gousseau (1909-1997), no depoimento do pianista e compositor búlgaro Émile Naoumoff, é lembrada através de vários conselhos da mestra, mormente daquele dirigido aos alunos para que estudassem em teclados pesados, a fim de que, nas apresentações em piano de concerto, cujos teclados são bem equilibrados, tudo fluísse facilmente.

A musicista Anne Grapotte comenta a visão diversificada de Henriette Puig-Roget (1910-1992), pianista e organista. Para a professora, o intérprete teria de ser totalizante: leitor preciso à primeira vista, improvisador, aberto a funções para ampliar o conhecimento, como tocar durante sessões de filmes mudos, acompanhar ao piano o Cancan francês para aprimorar a rítmica, trabalhar o piano (redução de orquestra) e voltar-se à música contemporânea. Puig-Roget admirava e adotava princípios da Escola Alemã.

Éliane Richepin (1910-1999) é apresentada através de recepção crítica efusiva.

Foi um privilégio ter sido convidado para escrever sobre meus mestres Jacques Février (1900-1979) e Jean Doyen (1906-1982). Sobre Février comento, entre outros atributos inalienáveis do mestre, o senso da frase musical e sua flexibilidade, a noção plena do rubato – uma experiência definitiva para mim -, por ele concebido desde a acontecer em pouquíssimos compassos, como a ter uma longa extensão. Era rigoroso nessa aplicação “métrica”, tornando-a paradoxalmente espontânea. Dizia abertamente que ninguém realizava rubatos como Arthur Rubinstein. Mercê de um temperamento nervoso, por vezes excedia-se em aulas coletivas na Academia Marguerite Long ou mesmo nas aulas particulares. Como minha tutora era Madame Long, a quem quinzenalmente apresentava obras do repertório por ela proposto, pedi para que me indicasse um outro assistente para acompanhar meus estudos. Indicou-me Jean Doyen, com quem tive plena empatia. Extraordinário pianista e professor de qualidade ímpar. Seu repertório era colossal. Assim como Monique Hass, considerava que, após os anos de aprendizado, a técnica se desenvolve nas infindáveis propostas contidas no imenso repertório. Para ele, cuidar do acabamento exemplar da frase musical era fundamento. Transmitia com a mais absoluta naturalidade a qualidade do toucher. Antes de recitais e concursos internacionais, Jean Doyen sugeria que trabalhasse igualmente com uma pianista refinada, Marie-Thérèze Fourneau (1927-2000), sua antiga aluna, que me ensinou a buscar o mistério da música além da partitura.

Clique para ouvir, na interpretação de Jean Doyen, Gaspard de la Nuit, de Maurice Ravel (gravação de 1937):

https://www.youtube.com/watch?v=H_sjZb0UfrI

No terceiro e último post sobre “Les Légendes Françaises du piano”, abordarei os pianistas-pedagogos nascidos de 1912 até 1952, todos falecidos.

The previous post addressed the book “Les Légendes Françaises du Piano”, by the French pianist, teacher and writer Catherine Lechner-Reydellet. The work is a tribute to fifty legendary masters of the French piano school in the last century all of them deceased , showing, through testimonies of former students, the legacy they have left to the performers that succeeded them. In today’s post I return to Lechner-Reydellet’s book, quoting words of the ex-students about the great French pianists-teachers born until 1910, with focus on their pedagogy and performance practices. The masters of the piano born from 1912 to 1952 will be the subject of a third post.

Através dos depoimentos de seus ex-alunos

O estudo de piano necessita longos esforços.
Não obstante, eles não consistirão em lutar contra a natureza.
Uma mão normal é feita para tocar piano
e todo pianista que não partilha essa convicção é indigno de sua arte.
Marguerite Long
(“Le Piano”)

Catherine Lechner-Reydellet, pianista e professora de ensino artístico no Conservatório Regional de Música de Grenoble, tem dons outros de escritora, poetisa e, sobretudo, de investigadora musical a desvendar caminhos. Entre seus livros sobre música, dois foram resenhados neste espaço: “Messiaen, L’empreinte d’un géant” (I e II, 10 e 17/11/2018) e “Traité de technique musicale pour tous” (02/02/2019). No presente livro, a autora aprofunda-se em tema que lhe é caro e que, sob outra égide, está desenvolvido em “La Grande École française du piano” (2014). No desiderato de dar a conhecer as metodologias didáticas de 50 relevantes pianistas franceses que desempenharam, concomitantemente à atividade pianística, o professorado competente, Lechner-Reydellet buscou nos depoimentos de ex-alunos, que se destacaram em suas futuras atividades musicais, as observações obtidas em sala de aula, majoritariamente no Conservatório de Paris. Nesse sentido, deu liberdade aos convidados de não apenas enveredarem na estrita visão didática, nos processos técnico-pianísticos aplicados pelos mestres, como na interpretação e escolha repertorial. Permitiu-lhes comentários sobre caraterísticas pessoais do professor, sua integração com os futuros pianistas, seu humor, sua afirmação como pianista e didata.

Catherine Lechner-Reydellet explica os propósitos de “Les Légendes Françaises du piano” (France, Aedam Musicae, 2020) na nota introdutória: “Consagrado à memória dos pianistas franceses do século XX, o livro tem como vocação descobrir como os artistas de hoje foram influenciados pelas figuras de ontem, e resgatar a herança dos mestres do passado legada aos grandes intérpretes que os sucederam. Parte ao encontro de testemunhas da história das ‘lendas francesas’ para descriptografar a técnica dos ‘antigos’, sua captação pedagógica, sua maneira de transmitir o saber”.

Primeiramente, impressiona o número de relevantes pianistas que representaram a Escola Francesa e que tiveram carreiras consagradas no mundo. O debruçamento sobre dezenas de pianistas-professores evidencia que alguns deles são notoriamente conhecidos mundialmente e outros, destacados intérpretes que, mesmo sendo respeitados, não granjearam a divulgação merecida por vontade pessoal ou por motivos vários. Catherine Lechner-Reydellet, antes do testemunho desses ex-alunos que se notabilizaram nas várias ramificações da arte musical, explana com propriedade o perfil do homenageado. O leitor tem a oportunidade de apreciar todos os personagens “lendários”, mormente aqueles menos conhecidos do grande público, todos já falecidos. Se Alfred Cortot (vide blog: Alfred Cortot e a poética inefável, 29/02/2020), Marcelle Meyer (vide blog: Marcelle Meyer – A redescoberta merecida, o6/03/2007) , Marguerite Long (vide Marguerite Long – permanecerá na história, 11/04/2020 e Marguerite Long – Livros e método didático, 18/04/2020), Yves Nat, Vlado Perlemuter, Jeanne-Marie Darré, Yvonne Lefébure, Robert Casadesus, Jean Doyen (vide blog: Jean Doyen – A interpretação inefável, 31/08/2007), Monique Haas, Pierre Sancan, Yvonne Loriod, Samson François, Brigitte Engerer, entre alguns mais, são sempre lembrados pelos aficionados, o pormenorizar pianistas menos ventilados, mas excelentes, revela por parte da autora a determinação do resgate necessário de luminares da Escola Francesa de Piano. Dois que tiveram dupla nacionalidade estão presentes: Magda Tagliaferro, a grande pianista e professora brasileira que obtivera a nacionalidade francesa, e o notável Aldo Ciccolini (ítalo-francês).

Clique para ouvir, na interpretação de Jeanne-Marie Darré (1905-1999), a Toccata de Saint-Saëns:

https://www.youtube.com/watch?v=ZJMi_DD0b5s

“Les Légendes françaises du piano” é uma verdadeira enciclopédia, a desvelar pormenores da denominada Escola Francesa de piano em sua linha mestra, mas a conter vertentes. Determinadas palavras serviram durante décadas para definir o técnico-pianístico francês: clareza, jeu perlé, articulação digital, desvio de excessos interpretativos, pedalização quase sempre econômica, som que se poderia considerar como “característico” da Escola Francesa e tantas outras. Todavia, dos 50 pianistas-professores, não poucos sofreram influências de outras tendências, como a da Escola Alemã e certamente a da Escola Russa. Essa combinação de metodologias de ensino aplicadas por cada pianista-professor, mormente no Conservatório de Paris, é desvelada criteriosamente pelos testemunhos de ex-alunos de maneira não unânime, mas com inúmeras concordâncias. Não fosse o levantamento hercúleo de Lechner-Reydellet, o olvido implacável seria definitivo para pianistas-professores menos ventilados em França.

Os contributos testemunhais por vezes se atêm a mais de um professor. É o caso específico do excelente pianista Désiré N’Kaoua, meu colega em Paris, que se debruça sobre sete homenageados com quem teve a oportunidade de estudar. Outros mais comentam dois ou três mestres. Considere-se que alguns pianistas-professores receberam mais de um testemunho a enriquecer a qualidade de ensino, pois apresentam olhares diferentes sobre a metodologia do didata. Yvonne Loriod, notável pianista e professora, esposa do compositor Olivier Messiaem, é retratada pela autora a partir de excerto retirado de seu livro acima mencionado sobre o ilustre músico. Frise-se que todos os colaboradores desenvolveram proficuamente suas carreiras. Tive o privilégio de escrever sobre dois de meus mestres, Jean Doyen e Jacques Février. Marguerite Long, com quem estudei, foi pormenorizada por N’Kaoua em diversos dados inéditos.

A riqueza de “Les Légendes françaises du piano” vem dessa captação de elementos diversos. A partir de uma coluna mestra estabelecida através da denominada Escola Francesa de pianoforte-piano, alicerçada desde as primeiras décadas do século XIX, seus epígonos, nascidos nas décadas finais daquele século — exceção à Marie Jaëll (1846-1925) —, souberam transmitir seus conceitos essenciais a uma plêiade de expressivos pianistas pedagogos: Marguerite Long (1874-1966), Alfred Cortot (1877-1962), Armand Ferté (1881-1973), Lazare-Lévy (1882-1964), Blanche Selva (1884-1942), Jeanne-Célestine Blancard (1884-1972) Nadia Boulanger (1887-1979), Yves Nat (1890-1956), Marcel Ciampi (1891-1980). Dessa coluna mestra didática, vertentes surgiram em consequência prioritariamente das individualidades, contudo sem haver olvido das orientações de antanho. Desses mestres, como não se lembrar dos contributos extraordinários deixados através da publicação de métodos e tratados pianísticos criados por Marguerite Long, Alfred Cortot, J.-Célestine Blancard e sobretudo, mercê da extensão qualitativa, as referenciais obras de Marie Jaëll e Blanche Selva que serviram de esteio aos pósteros?

Em seus depoimentos, os ex-alunos não têm nem poderiam ter um discurso unânime sobre a decantada Escola Francesa de piano, o que demonstra pluralidade. Esse fato evidente revela, entretanto, que os quesitos básicos técnico-pianísticos persistiram. Os métodos com exercícios e estudos fundamentais para o aprimoramento da técnica seriam basicamente os mesmos. A aplicação do ensino a visar à virtuosidade, essa sim, estaria a depender da personalidade de cada pianista-professor. Quanto ao repertório, estende-se basicamente de J.S.Bach aos compositores modernos, preferencialmente franceses. E seria nesse conjunto repertorial que alguns conceitos sobre a Escola Francesa de piano estariam ampliados, mercê dos depoimentos sobre a aplicação didático-metodológica. As declarações daqueles que viveram o aprendizado e aperfeiçoamento em sala de aula estendem e enriquecem a conceituação que se tem da Escola Francesa, universalizando conceitos antes enraizados.

Numa visão abrangente, a maior parte dos pianistas-professores franceses lembrados estudou com seus antecessores no Conservatório de Paris e a maioria dos depoentes foi premiada nessa Instituição de ensino. Sob outra égide, os 50 intérpretes focalizados, tantos os sobejamente conhecidos como aqueles igualmente competentes, mas menos divulgados, exerceram a atividade de intérpretes dentro do território francês, na Europa, nas Américas, mormente a do Norte, e por vezes no Extremo Oriente. Seria evidente a troca de informações e a assimilação por muitos deles de processos aplicados em terras outras.

Clique para ouvir, na interpretação de Samson François (1924-1970), L’Isle Joyeuse de Claude Debussy:

https://www.youtube.com/watch?v=evU5ubgtRXA

Duas pianistas relevantes que se notabilizaram, mormente pelas pesquisas sobre a técnica pianística, Marie Jaëll (1846-1925) e Blanche Selva (1884-1942) integram a preciosa lista e os textos a elas pertinentes foram extraídos de publicações da Bibliothèque National de Strasbourg e das Éditions Symétrie, respectivamente.

Clique para ouvir, na interpretação de Blanche Selva, o tríptico Prelúdio Coral e Fuga de César Franck, (gravação de 1928):

https://www.youtube.com/watch?v=IdlM-nK8ppM

Em um segundo blog serão tratados aspectos desenvolvidos em sala de aula e comentados por ex-alunos, quando a diversidade de ensinamentos – apesar de um eixo paradigmático da Escola Francesa existir -, faz-se sentir.

The pianist, pedagogue and writer Catherine Lechner-Reydellet has already had two of her books commented on in my blog. Today I write about her new work, “Les Légendes Françaises du Piano”. In her own words, the book intends to find out how artists of today have been influenced by those of yesterday and to rescue the heritage that great masters of the 20th century bequeathed to the performers that followed them. It does so through the testimony of former students of fifty masters of the distinctively French piano style, trying to decode their techniques, their way of transmitting knowledge, the pedagogical pianistic lineage they helped establish. The classroom experience of such witnesses, all of them great interpreters in their own right, improves our knowledge of the so-called French piano school, also unveiling the influence on some of the legendary teachers of new approaches to technique and interpretation borrowed from other national schools of piano.

 


Desdobramentos da leitura frente à pandemia

El terror a la peste es, simplemente,
el miedo a la muerte que nos acompañará siempre
como una sombra.
Mario Vargas Llosa
(El País, Piedra de Toque, 14/03/2020)

Meses sob pressão motivada pela pandemia fazem com que a peste, esse tema recorrente ao longo da História, provoque interpretações as mais diversas. É natural que assim seja. Os séculos guardam na memória testemunhos que, ou pela escrita ou através da oralidade, são revisitados sempre que episódio marcante assim determine.

Constantemente menciono nos blogs diálogos profícuos com o amigo Marcelo, que encontrava aos sábados na feira-livre de minha cidade-bairro. Leitor assíduo dos posts hebdomadários, marcávamos um curto em um dos cafés das cercanias e discutíamos. O confinamento distanciou-me desse aprazível mercado aberto, espaço que sempre tive imenso prazer de frequentar. Já lá se vão mais de quatro meses de pleno isolamento.

Deu-se situação singular num desses dias. Marcelo toca a campainha, atendo-o com a máscara e ambos conversamos ao ar livre, sentados num banco interior e frente ao pequeno jardim de casa. Bem mais jovem, Marcelo transita protegido. Lera na manhã de sábado último o texto a comentar La Peste, de Albert Camus, e durante um bom tempo abordamos a temática e seus reflexos nesses tempos do Covid-19, pois não lera o livro e entendeu pertinente o tema.

Os blogs têm seguido uma dimensão que possibilite a leitura, se não integral numa primeira abordagem, completa após revisita. Busco escrever essencialidades sucintamente, mas entendo que, pelo alcance, outras fiquem prejudicadas. Os questionamentos de Marcelo serviram para comentá-los nesses Ecos sobre La Peste.

Suas indagações invariavelmente voltavam-se à nossa pandemia e, interpretando suas palavras, “o tema que o fez pensar numa exaustão do povo quanto ao noticiário”. Há sim semelhanças entre o conteúdo do livro e a nossa realidade. Camus estabelece em sua narrativa aspectos hodiernos frente ao flagelo que nos assola. Da revolta inicial em tempos da peste passa-se a uma acomodação, ao relaxamento e, tantas vezes, à depressão. Camus acompanha as transformações do concidadão. Anônimo, este adquire importância crucial, observado quase sempre nessa atmosfera de espanto. Na epígrafe do blog anterior já mencionara uma de suas frases: “A peste suprimira julgamentos de valor. Via-se que ninguém mais se preocupava pela qualidade das vestes ou dos alimentos que compra. Aceitava-se tudo em bloco”. Seria o que hoje definimos como efeito manada. “Não se estaria a aceitar o cansaço do povo quanto às cifras dadas com profusão e ênfase pela mídia?”. À pergunta de Marcelo diria que em La Peste esse posicionamento é claro. Hoje, à custa de informações diárias pelos veículos de comunicação, não sem antes manter o ouvinte ou telespectador em suspense, esse cidadão também se cansou, caso dele específico. Quase poderíamos não errar ao dizer que a mídia necessita desses números elevados, verdadeiro chamariz. Durante quanto tempo, exaustivamente, Mariana e Brumadinho não estiveram em pauta? O cansaço de que nos fala Camus advém do excesso de notícias que se repetem ad nauseam.

A conversa com Marcelo abordou reflexões do personagem Jean Tarrou diante de duas condenações à morte que o marcaram profundamente: a primeira, após julgamento a ter seu pai como juiz, sentenciando à pena capital um acusado e a segunda, presencialmente, ficando-lhe indelével a impressão da cena do fuzilamento de outro infeliz, quando enfatiza a ínfima distância entre o batalhão e o condenado. A construção de outro livro relevante de Camus, L’Étranger, é realizada, entre tantas implicações, na direção à guilhotina da figura central do livro, Meursault, este aparentemente indiferente frente à vida e à morte. Evidencia Camus um repúdio à pena máxima. Uma frase de Camus é decisiva: “No universo do revoltado, a morte exalta a injustiça. Ela é o supremo abuso”. Na cena final da peça teatral Caligula, a preceder o assassinato do imperador romano, Albert Camus insere em uma de suas últimas falas: “Quem ousará me condenar nesse mundo sem juiz onde ninguém é inocente!”. Em 1954 intervém a favor de sete tunisianos condenados à morte. Acrescentei que apenas em 1981 a pena de morte foi abolida em França. Estou a me lembrar de meus anos como estudante em Paris nas fronteiras das décadas de 1950-1960. Quase todas as noites tomava sopa e bebia uma taça de vinho tinto com o adorável casal de concierges do prédio onde eu morava. Mais de uma vez, Robert Orambourg, leitor diário de jornal popular, comentou episódios de execuções de condenados à guilhotina. Espantou-me o fato de que uma dessas execuções se dera poucas semanas após o julgamento de bárbaro crime. Jean Tarrou, após ter narrado ao personagem central, Dr. Rieux, o trauma que o acompanharia pela existência devido àquelas duas condenações à morte, ao sucumbir vítima da peste teria, talvez, encontrado a “santidade sem Deus”. Apesar de não acreditar em Deus, Camus não se considerava ateu. No caso de Meursault, no peristilo do cadafalso há a sua plena revolta ao receber a visita do Padre a falar que rezaria por ele.

Em nossa profícua conversa observei que, sob outra égide, a de Saint-Exupéry, Camus também apresenta, através de seus vários personagens, mensagens sobre essencialidades da condição do homem. Acrescentei que se, sob o aspecto humano, “há mais coisas a admirar do que a desprezar”; sob o lado dos periódicos flagelos nada a fazer, mas sim aguardá-los, pois vírus ou bactéria estariam sempre à espreita através dos tempos. Fui buscar o livro e traduzi para Marcelo o final contundente quanto às futuras e malfadadas pestes: “Escutando efetivamente os gritos eufóricos que vinham da cidade, Rieux se lembrou de que essa alegria estava sempre ameaçada. Sabia ele que se pode ler nos livros que o bacilo da peste não morre, tampouco jamais desaparece, mas que essa multidão alegre ignorava tal fato. O bacilo pode permanecer durante dezenas de anos dormindo nos móveis e nos lençóis, a esperar pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. Talvez dia virá quando, por desgraça e para ensinar os homens, a peste despertará seus ratos e os enviará para morrer numa cidade feliz”.

Finalmente, Marcelo disse-me que lera nesses últimos dias, num site portal conhecido, que o Prêmio Nobel de Literatura (2010), Mario Vargas Llosa, escrevera que La Peste era um livro medíocre. Disse-lhe que tinha lido o artigo publicado em El País, periódico espanhol, em sua coluna Piedra de Toque. Discordo, data venia, da posição do ilustre Mario Vargas Llosa, escritor que muito admiro, a entender inoportuno e até deselegante segmento de seu artigo Regreso al Medioevo? (14/03/2020): “La peor novela de Albert Camus, La Peste, tiene un súbito renascimento y tanto en Francia como en España se hacen reediciones y esse libro mediocre se há convertido en un best seller”. Considere-se que a afirmação se destina a uma das obras essenciais de Albert Camus, Prêmio Nobel em 1957. Opiniões, opiniões…

Once again I write about Camus’ novel The Plague, with focus on the similarities between the book and the moment we now live: tiredness, sometimes almost indifference, in face of the sensationalist media coverage of the Covid-19 pandemic, the heroism of ordinary people doing extraordinary things, the awareness – as in the final paragraph of the book -  that plagues never die, they just lie dormant waiting to take us by surprise. And, opposing this pessimism, the faint note of optimism when the novel’s main character says  “there are more things to admire in men than to despise”. Camus, the man who said he didn’t believe in God but was not an atheist, had faith in humanity after all.