Navegando Posts em Literatura

Romain Rolland – a longa gestação de um romance

Pareceu-me sempre que a Arte
deveria proporcionar essa alegria,
necessária para suportar a vida cotidiana,
tão dura para uns, tão morna para outros.
Todavia, quanto tempo será necessário
para que transpareça, através de um acorde,
a ideia da bondade e do desinteresse que o inspira.
Claude Debussy
(carta a Romain Rolland, 11/05/1904)

Indubitavelmente é fora de dúvida
que a considerável obra de Romain Rolland
só pode ser simpática a todos os artistas,
em particular, aos músicos.
Claude Debussy
(carta a Arthur Cantillon, Fevereiro, 1913)

Encontrei meu amigo Marcelo a fazer compras no supermercado próximo à minha morada. De imediato diz ter ouvido o primeiro movimento da Sonata Hammerklavier na interpretação de Désiré N’kaoua e que gostara imenso da criação de Beethoven, apesar de, como leigo, entendê-la bem “abstrata”, conforme afirmou. Marcelo observou que, pela segunda vez em pouco tempo, insiro epígrafes de Romain Rolland. Diz haver lido anos atrás um volume de seu famoso romance “Jean-Christophe”. A extensão da obra impediu-o de prosseguir a leitura. Perguntou-me se eu já havia lido o romance. A resposta afirmativa e o breve diálogo despertaram em mim o interesse de abordar sucintamente o monumental romance de Romain Rolland, o que agradou a Marcelo.

Romain Rolland (1866-1944) foi uma das figuras mais brilhantes de sua época. Francês, foi escritor, romancista, dramaturgo, ensaísta, biógrafo, memorialista e musicógrafo. Humanista, não poucas vezes teve suas posições entendidas como não patrióticas, mormente durante a primeira grande guerra, o que lhe valeria dissabores. Intelectuais mais nacionalistas viam-no como tendente a observar o conflito de forma não engajada e dúbia aos interesses da França. As posições, que se tornaram públicas, fizeram inclusive com que a Academia da Suécia, que lhe atribuíra o Prêmio Nobel de literatura em 1915, sensível às pressões, somente entregasse o prêmio desse ano em 1916.

Dividirei o tema “Jean-Christophe” em dois posts, o primeiro a salientar a importância da “Introdução” tardia do livro, redigida pelo autor em Villeneuve-du-Léman na Páscoa de 1931, e o segundo a comentar as impressões que me calaram fundo em ambas as leituras, tão espaçadas no tempo. “Jean-Christophe” está dividido em 10 tomos, publicados de 1904 a 1912 na formatação de feuilleton (romance em série) pela revista Cahiers de la quinzaine, sendo que uma segunda edição do primeiro tomo, L’Aube, foi impressa pela Librairie Paul Ollendorf de Paris (1906).

A “Introdução” revela uma das características do pensar de Romain Rolland, o humanismo. À sociedade do espetáculo em que se vive nessas últimas décadas, as palavras introdutórias para uma edição tão distante (1931) da primeira publicação podem parecer anacrônicas. O narrador tem agora consciência da trajetória vitoriosa de seu herói pelo mundo, através de tantas traduções de seu livro. O apego à figura por ele criada se metamorfoseia e, nomeando-se “pai”, se a visse “com os costumes os mais variados” teria dificuldade de reconhecê-lo. Romain Rolland, ao revelar identidade plena com o personagem consagrado pelos leitores através das décadas e seu afeto por Jean-Christophe do berço à morte, fato reiteradas vezes mencionado, expõe-se por inteiro: “O Jean-Christophe que eu carregava em mim, como uma mulher o seu fruto”. Tão distante da marcante dedução do notável escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923), que, no prefácio à segunda edição de “A velhice do Padre Eterno”, escreveria: “Um livro atirado ao público equivale a um livro atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se não o for, também não verterei uma lágrima”.

Romain Rolland confessaria, à guisa de introdução: “O pensamento de Jean-Christophe abrange mais de vinte anos de minha vida. A primeira ideia data da primavera de 1890, em Roma. As últimas palavras escritas datam de Junho de 1912. Encontrei esboços de 1888, enquanto aluno da École Normale Supérieure de Paris. Christophe me era uma segunda vida, escondido aos olhos exteriores, onde eu retomava contato com o meu eu mais profundo”. Seria a partir de 1900 que, “…inteiramente livre e em solilóquio com meus sonhos, minhas armas da alma, lancei-me resolutamente sobre a torrente”. A primazia pelo projeto é notória, ao afirmar: “Jamais uma obra foi tão totalmente organizada no pensamento como Jean-Christophe, antes que as primeiras palavras fossem jogadas sobre o papel”, fato que ocorreria aos 20 de Março de 1903. Se o herói já fazia parte do pensar de Romain Rolland, não mais o abandonaria durante a longa gestação: “Em dez anos, nenhum dia passou sem a sua presença. Ele não tinha necessidade de falar. Ele estava lá”. Romain Rolland tem consciência de que Jean-Christophe tem sua trajetória “numa época de decomposição moral e social na França”. Elenca a seguir as condições de um chefe. Jean-Christophe é moldado para a missão de herói, mas seria ledo engano entendê-lo como figura mitológica. Para Romain Rolland, como definira em relação a Beethoven: “Chamo de heróis somente aqueles que foram grandes pelo coração”. A contemporaneidade de Beethoven com o personagem idealizado no romance estaria presente mormente nos primeiros anos de Jean-Christophe, fixados nos três primeiros livros (L’Aube, Le Matin, L’Adolescent), pois nos outros sete adquire seu papel pessoal pela história e se universaliza. Contudo, seria possível apreender Beethoven a “sobrevoar” em tantas passagens nos livros subsequentes. Romain Rolland descreve o pós-edição: “Jean-Christophe não é mais, em nenhum país, um estrangeiro. Das terras mais distantes, das raças as mais diversas, da China, do Japão, da Índia, das Américas, de todos os povos da Europa chegaram homens dizendo: ‘Jean-Christophe é nosso. Ele é meu. Ele é meu irmão. Ele é meu’ “. Em 1883, no alvorecer das ideias visando à edificação do herói, já apregoava a insistência, a repetição como necessidade de ser compreendido ao dar significado ao personagem: “E se, para melhor penetrar seu pensamento, será útil que você repita as mesmas palavras, repita, insista, não busque outras palavras! Que nenhuma palavra seja perdida! Que seu verbo seja ação! São princípios que eu reivindico ainda hoje contra a estética contemporânea”.

Romain Rolland confessa ter escrito notas, fragmentos esboçados, encaminhando Jean-Christophe, nos livros finais, para a difícil senda dos heróis revolucionários partícipes dos movimentos que explodiram na Alemanha e na Polônia. Abortou a ideia de estender a saga, mas acredita não ter colocado um ponto final na narrativa. “O fim de Jean-Christophe não é um fim, é uma etapa. Jean-Christophe não acaba. Sua morte é um momento do Ritmo, uma expiração do grande sopro eterno… Ele terá morrido cem vezes, ele renascerá sempre, ele combaterá sempre, ele é e continuará o irmão dos homens e das mulheres livres de todas as nações, que lutam, que sofrem e que vencerão”. E como última frase, o autor relembra em 1931 seu herói: “Um dia eu renascerei, para novos combates…”.

O fervor de Romain Rolland pode ser sintetizado em seu testemunho: “Eu não escrevo uma obra literária. Eu escrevo uma obra de fé”.

Today I write about the French novelist, playwright, musicologist, essayist and great humanist Romain Rolland (1866-1944) — Nobel prize winner for Literature in 1915 — and his masterpiece, the ten-volume epic novel “Jean Christophe” (published from 1904 to 1912), in which the author expresses his views on music, social matters and his love of mankind. I will divide the post into two parts, the first stressing the importance of the belated introduction to the book (only written in 1931); the second commenting on the deep impressions the book made on me after two reads.

“Memórias”

Da margem, eu fazia sinal ao balseiro que conduzia a balsa até a margem oposta, chamando-o com um gesto suplicante.
Pois a Vida, em mim, ardia por partir para a viagem da existência.
Rabindranath Tagore (“Memórias”)

Sem ser a obra mais divulgada do poeta, romancista, compositor, cantor, dramaturgo e pensador Rabindranath Tagore, “Memórias” foi lida durante esta pandemia por motivos até afetivos. Após a morte de meu saudoso pai, José da Silva Martins (1898-2000), herdei uma parte de sua imensa biblioteca, intensamente consultada pelos quatro filhos sob a orientação do progenitor. Entre os livros de autores caros a ele, como Camões, Dante, Cervantes, Descartes, Pascal, La Rochefoucauld, Krishnamurti, Renan, Annie Besant, Maurice Maeterlinck, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Oliveira Martins, João Ameal, Pandiá Calógeras…, fiquei também com as “Memórias” de Rabindranath Tagore. Mui recentemente, ao manejar uma das estantes, ao fundo figurava o livro de Tagore. Ricamente encadernado, causou-me surpresa a dedicatória dos quatro filhos à nossa saudosa mãe, Alay Gandra Martins (1907-1999), por ocasião de seu aniversário aos 16 de julho de 1947. Os quatro, por ordem cronológica, assinaram seus nomes e sobrenomes completos!!! Ofertávamos à mãe dois livros, sendo o outro Anna Karenina, de Leon Tolstoi. Outras épocas, em que a leitura fazia parte essencial do cotidiano.

Rabindranath Tagore foi figura ímpar na cultura da Índia, mais precisamente, bengali. Apesar do pouco conhecimento que temos da cultura hindu, sua obra literária, difundida pelo mundo, teve calorosa recepção no Brasil e recebeu admiração de nossos poetas e escritores, entre os quais a notável Cecília Meireles, que teria sofrido influência em sua lírica vertente. Os acadêmicos Abgar Renault e Guilherme de Almeida foram dois de seus tradutores diretamente do inglês, assim como Ivo Storniolo. Em 1913 Tagore receberia o Prêmio Nobel de Literatura.

Tagore teve inúmeras obras traduzidas para o português. “Memórias” (Rio de Janeiro, José Olympio, tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira, 1946), a abranger a infância e juventude do autor, é particularmente sensível, pois no Brasil uma de suas criações, “As mais belas histórias” editada em 1954, teve até 1970 mais de 100 edições e esteve presente nas escolas primárias do país.

Fixar-se na infância após décadas acumuladas merece os maiores cuidados, à pas du loup, para que a narrativa não adquira lamentável fantasia. Metaforicamente, Tagore expõe no prólogo essa revisita ao longínquo passado: “Quando viajamos por uma estrada, pouca atenção damos ao pouso em que nos detemos à beira do caminho, mas com o cair da noite, antes de encontrar descanso na última hospedaria, se volvemos o olhar para as cidades, para os campos, rios e colinas percorridos na manhã da existência, temos, sob a luz crepuscular, a visão de um conjunto dos mais pitorescos. Foi assim que contemplei meu passado e o que vi me fascinou”.

Nas Memórias, Tagore constrói parte da narrativa numa incessante citação à sua morada. Ao que se depreende, viviam muitos integrantes da família e o poeta teve inúmeros irmãos, louvados em vários segmentos. A casa em que morava deveria ser grande, pois reiteradas vezes Tagore se refere a um terceiro pavimento e a aposentos que não podiam ser visitados pelos menores.

A veia poética é patente desde a infância e aos oito anos já surgiam as primeiras incursões, apesar de confessar nada ter aprendido com seus professores em sala de aula. Contrariamente, desfilam nas Memórias incontáveis mestres particulares, poetas ou amigos com quem aprenderia línguas, literatura e poesia. A eles exibia seus poemas e cantares. Esse aprendizado teve a cumplicidade de seu pai e seu testemunho é claro: “Até seus últimos dias me foi dado observar que ele não criava embaraços à nossa independência”. Leitor inveterado, Rabindranath comenta: “No nosso tempo, líamos de fio a pavio todos os livros que nos caíam nas mãos”. A considerar sua vocação, Tagore, ainda criança-adolescente, ouvia conselhos de mestres e, na ausência de elogios, tinha a convicção de que “nada poderia conter o impulso que me impelia em minhas tentativas literárias”. O convívio com o texto escrito ou com os poemas lidos ou cantados fá-lo, ao redigir as memórias, conceituar o mal maior literário: “O defeito mais grave em literatura não está no estado d’alma que se expressa, mas sim na expressão imperfeita desse estado”.

Tem interesse a posição de Tagore sobre música e palavras, pois foi autor de centenas de cantos. Comenta: “A arte da música vocal tem suas funções especiais e seus traços individuais. Quando associada à palavra, estas não devem prevalecer-se disso para dominar a melodia, da qual são apenas um veículo. Se o canto é belo por si mesmo, que necessidade há de se recorrer às palavras? A música começa onde as palavras acabam. Sua força reside na região do inexprimível, pois só ela pode dizer o que as palavras não dizem.”

Clique para ouvir, de Rabindranath Tagore, Shanganagagane Ghor Ghanaghata, interpretada por Neelanjana Dutta:

https://www.youtube.com/watch?v=cMbWxLUH74M

Desde os tempos de miúdo Rabindranach sente-se um cultor da natureza. O maravilhamento é crescente. Paisagens, céu, rios, árvores e, perene, a interpretação da luminosidade a incidir sobre tudo que observa. De um dos terraços, ou através dos vãos do parapeito da certamente imensa morada da família, contempla e escreve. Visitando seu irmão e cunhada às margens do Ganges, comenta: “Eis-me assim de novo às margens do Ganges! Repetir-se-iam aqueles dias e noites inefáveis, cheios de um langor feliz e de ardente inspiração, junto às águas que corriam espumosas por sob a sombra fresca das matas ribeirinhas. O céu luminoso de Bengala, a brisa do sul, o rio, aquela majestosa indolência, aquele eterno lazer a estender-se de um horizonte a outro, da terra verde ao azul do céu, tudo isso me era oferecido como um banquete de beleza e poesia, onde eu poderia saciar à vontade minha fome e minha sede. Sentia-me como que envolto nos braços de uma mãe”.

A respeito do outono escreve: “É o outono que amadurece meus versos, como amadurece o trigo para o semeador; é o outono que enche meus celeiros de radiosos lazeres e derrama sobre meu espírito, liberto de qualquer fardo e deliciado com as canções e histórias que inventa, uma alegria sem causa”. Nas viagens que realizou à região himalaia, primeiramente com seu pai, após com um de seus irmãos, esta última às colinas do Darjeeling, guardaria lembranças: “Quando do alto das montanhas relancei o olhar em torno de mim, senti, no mesmo instante, que perdera minha nova forma de visão. Todo o mal fora ter julgado que o mundo exterior poderia proporcionar-me maior soma de verdade. O rei dos montes podia varar o firmamento com o seu pico sem ter nada para oferecer-me, ao passo que o divino Semeador de dons podia, num abrir e fechar de olhos, transformar numa resplandecente miragem a mais obscura das ruelas”.

Ainda jovem empreende sua primeira estada na Inglaterra, mencionada várias vezes, não só pela forte influência política e militar em seu país natal, positiva e negativamente, mas igualmente pelos laços de amizade que estabeleceu.

Ao final de “Memórias”, uma crítica ácida relacionada à Índia: “Num país em que o espírito de separatismo impera de modo supremo, e onde mil barreiras ínfimas se erguem entre os cidadãos para dividi-los, esse premente desejo de participar da grande vida coletiva tem por força de ficar insatisfeito”.

Durante muitos anos, Rabindrenath Tagore e Mahatma Gandhi (1869-1948) tiveram debates sobre muitos temas como política, nacionalismo e tantos outros, nem sempre concordantes.

O exemplar de “Memórias” de Rabindranath Tagore, com minha assinatura em 1947 em dedicatória à minha saudosa mãe, repousou nas estantes durante 73 anos, a aguardar a leitura de um dos quatro signatários. Ao lê-lo nesta pandemia, mais evidente ficaria configurada a transformação gigantesca, infelizmente através de processo não favorável, da formação cultural desde a infância. A observação do belo, a permanência da amizade, a prática prazerosa da leitura, o respeito e a admiração pela natureza e o por ele denominado Semeador esvaíram-se nestas últimas décadas, mas ainda há aqueles que cultuam esses valores.

A revisitação às primeiras décadas através do olhar da maturidade revela por parte de Tagore que sua infância, já mergulhada no sonho poético, resultou no notável personagem da literatura da Índia. “Memórias” é livro referencial, que se soma às grandes reminiscências da história da literatura mundial.

When my father died in 2000 I inherited part of his immense library. Among the books, “Memórias” (My Reminiscences) by the Bengali poet, novelist, playwright, composer, singer, painter and  Nobel laureate for Literature (1913) Rabindranath Tagore (1861-1941). I confess I’ve decided to read it by sentimental reasons, after seeing the dedication my three brothers and I wrote to our mother on her birthday in 1947, but the book was definitely worth reading. Written in Tagore’s maturity, these are delightful  memories of childhood in a bygone era. With the wisdom of the past, the author teaches us the importance of appreciating beauty, the value of friendship, the pleasure of reading, the respect for nature, the relevance of a spiritual connection with our surroundings. An absorbing book to be added to the great reminiscences of world literature.

 

A releitura de livro referencial do neurologista Julius Flesch (1871-1942)

Os músicos e os pintores
são entre todos os artistas
os mais exaltados e os maiores entusiastas.
Já vimos artistas enlouquecerem
e diversos médicos fazerem menção à musicomania.
Bernardino Ramazzini (1633-1714)
(“De Morbis Artificum Diatriba” – 1700)

Logo após a cirurgia do dedo em gatilho a que fui submetido, sob a competência plena do Dr. Heitor Ulson, especialista em cirurgia da mão, estava a visitar lombadas de livros que me foram preciosos nas décadas bem anteriores, quando me deparo com um exemplar que recebi das mãos de saudosa amiga e boa pianista, Elza Klebanowski. Li-o no primeiro lustro da década de 1960 e várias anotações permanecem. O tema pós-cirurgia era apropriado e reli com inusitado prazer, quase 60 anos após, o livro do Dr. Julius Flesch, neurologista nascido na Hungria, mas a ter sua vida profissional em Viena, “Maladies Professionnelles et Hygiène du musicien” (Paris, Payot, 1929), tradução francesa do original publicado em 1925 sob o título “Berufskrankheiten der Musiker”, que se tornaria um clássico.

O neurologista Dr. Julius Flesch nasceu na Hungria, viveu em Viena, vindo a falecer vítima do holocausto no campo de concentração de Trostinets, perto de Minsk na Bielorrússia. Foi irmão de respeitado violinista, Carl Flesch.

“Maladies Professionnelles…” aborda os muitos acometimentos que afligem os músicos através dos séculos, a partir dos conhecimentos existentes nas primeiras décadas do século XX. De muito interesse, entre os temas tratados e referentes aos cantores e instrumentistas, expõe os vários sintomas, tratamentos e cirurgias, de maneira direta e objetiva. A escrita bem didática faz o leitor se inteirar de acometimentos que, após um século, ainda pertencem à lista dos incômodos que músicos sofrem, sendo que alguns tratamentos não caducaram.

Já na apresentação o Dr. J. Flesch é enfático, a exemplificar que trabalhadores e pilotos tinham de passar por consulta para aferição das condições físicas. Não se exigia o mesmo de um ingressante em uma instituição de ensino musical. A nítida propensão a males irreversíveis não era aferida e, por vezes, esse músico podia ver encerrada sua atividade precocemente, fato a acarretar possíveis graves consequências, inclusive mentais, como explana. Curiosamente, quase um século após perdura a desatenção específica ao músico que presta vestibulares.

Dividido em duas partes, “normal” e “desordens patológicas”, o autor compartimenta cada parte em capítulos expressos, abordando basicamente quase todos os problemas que acometem o músico.

Na primeira parte, diria descritiva, o Dr. Flesch enfatiza os problemas de ordem muscular e os esforços característicos para cada atividade do músico prático, inserindo calorias perdidas diferenciadas para cada atividade, do canto ao instrumento e, nesse quesito, a evidenciar diferenciações dessas calorias em executantes de instrumento de sopro, de cordas ou pianista. Escreve: “Os músculos normalmente trabalham de maneira econômica e empregam pouco oxigênio. Um instrumentista tocando e trabalhando sua interpretação sem economia desperdiça oxigênio e a pressão sanguínea, o trabalho respiratório e cardíaco aumentam. A consequência é o cansaço prematuro”.

Sobre a audição, descreve os malefícios que um resfriado pode causar motivado “por germes que atingem as cavidades nasais, a faringe e a trompa de Eustáquio”. Recomenda ao músico considerar seriamente esse problema, que pode ter consequências.
Ao considerar a memória, observa o denominado ouvido absoluto de nascença ou através de influência musical desde a infância. Menciona como exemplo o tzigano húngaro puro sangue que, desconhecendo os sinais musicais, toca tudo de ouvido e afina seu instrumento sem se preocupar com os outros músicos da banda”. A respeito da memória, estima que os olhos e a audição sejam bem mais eficientes do que a memorização mecânica, frisando que na juventude a apreensão é bem mais presente através da escuta e que, com o passar dos anos, a fixação visual tem maior relevância.

Após discorrer sobre aspectos físicos perceptíveis de um cantor, o Dr. Flesch entende reconhecer elementos propensos à atividade. Analisa as várias funções corpóreas, pescoço, língua, cordas vocais, laringe, tórax, pulmões, musculatura respiratória, abdômen. Percorre parte do corpo humano, explicando as várias ações de cada órgão para a boa condução da voz. Comenta impedimentos como a capacidade reduzida respiratória, tendências às secreções e frisa bem que o cantor deve evitar o tabaco, justamente num período histórico de plena expansão tabagista.

O neurologista explana sobre as aptidões musicais do músico, hereditárias ou adquiridas. Menciona exemplos na história em que filhos de músicos se tornaram grandes compositores e outros casos em que não há exemplos de músicos ou aficionados ascendentes. Contrapõe a essa dualidade teorias de estudiosos que entendem ser “o acaso a dirigir todo ser para uma determinada atividade profissional”, conceito não professado pelo Dr. J. Flesch.

Nessa primeira parte do livro, o autor considera as mãos da criança frente ao piano e sua cuidadosa abertura para maior alcance tecladístico. Observa inclusive o banco, que “deve ser suficientemente grande para os deslocamentos das mãos em passagens pianísticas transcendentais”. O neurologista tem como principal desiderato nesse longo segmento a descrição objetiva, física e didática das funções mecânicas de um intérprete, voz e mãos. Curiosamente, observa em 1925 uma atração natural do cego para o instrumento órgão. O transcorrer das décadas evidenciou diversos casos de organistas cegos.

A segunda parte, “Distúrbios patológicos”, trata dos temas relativos aos males que afligem o músico. De interesse o fato de que, apesar de toda a evolução da medicina, muitas práticas relacionadas ao tratamento são ainda válidas.

Inicialmente aborda a presença da câimbra muscular, possível quando de estudos forçados, tanto da voz como das mãos. “Deve-se entender que a câimbra muscular provém em certos casos de um ‘treinamento’, de um dedilhado anormal, em resumo, de um defeito de ordem técnica”. Estende suas observações relativas às câimbras a outros instrumentistas, particularizando a ocorrência: organistas, flautistas, clarinetistas, trompistas, violinistas e violoncelistas. Para cada especialidade instrumental, um tipo de sintoma. Entende a contração devido à falha durante a formação, mas não descarta a neurose, “seja frente às dificuldades técnicas de uma obra ou ao medo do palco. Pesquisando-se, há a possibilidade de que a origem seja de ordem nervosa primária e de ordem física”. Recomenda interrupções e relaxamento, “repouso diário mais ou menos prolongado, acompanhado de banhos quentes. Um professor capaz poderá resolver esses problemas. Por vezes a causa pode ser encontrada nos problemas vasculares ou em alterações das glândulas sudoríparas”.

Quanto aos males do instrumentista, o autor comenta desde problemas como calosidades nas pontas dos dedos dos executantes dos instrumentos de cordas a males nos cotovelos. Para os pianistas atingidos por distúrbios mais graves sugere até cirurgias, explicando-as. Considera com certo otimismo certas preservações: “Numa idade avançada, período em que a deformação das articulações senis envenenam a alegria de viver para quantidade de músicos instrumentistas, constatamos porém que tantos podem apresentar durante muito tempo uma mobilidade relativamente bem conservada dos dedos”. O autor discorre sobre a sudorese a atingir violinistas e pianistas, de preferência no período da puberdade ou após tratamento de pele, por ele denominado eczema de suor. Elenca quantidade extensa de produtos, pomadas, pós e massagens.

Pertinentes as observações mencionadas em “Les Maladies…” concernentes à parte inferior esquerda do maxilar do violinista. “Alterações são produzidas pela pressão permanente do maxilar sobre parte do violino, produzindo queratose”. Aborda a barba e seu crescimento podendo interferir de maneira pouco confortável para o violinista, criando até pústulas. Indica tratamento. Para o flautista observa a formação de eczemas no lábio inferior. Quanto ao trompetista, são outros os males decorrentes. Um comentário do Dr. J. Flesch nessas décadas iniciais do século XX serviria de alerta: “Tomei conhecimento de observações de médicos especialistas que por vezes constataram, ao nível dos lábios do executante de instrumentos de sopro, a presença do cancro sifilítico. Prudente se torna a não utilização de instrumento de pessoa estranha”.

Preocupa-se o autor com problemas advindos de males nos ouvidos e na visão, que podem inviabilizar as atividades do músico intérprete. Pormenoriza três categorias: a diminuição progressiva devido à idade e a problemas outros advindos durante a existência. Há também a possibilidade dos “dois ouvidos perceberem simultaneamente e de maneira diferente sons idênticos, o ouvido doente a ter a percepção desses sons numa altura mais ou menos elevada em relação ao ouvido são”. Em uma terceira, diplacusia monoauricular, o ouvido afetado percebe sons ‘acoplados’. Comenta: “o maior número de afetados pela ‘falsa audição’ ouve os sons acima do que deveria”. Lembremos que, nos anos finais da existência, o notável pianista Sviatoslav Richter foi afetado pelo mal, que o impossibilitou de continuar a carreira (vide blog: Sviatoslav Richter – 1915-1997, 27-06-2020). Quanto à visão, deixa um alerta no longínquo 1925, ao pormenorizar problemas degenerativos graves não considerados relevantes na infância e que podem inviabilizar no futuro a atividade do músico.

Ao retornar ao canto, observa: “Os cantores e cantoras profissionais ocupam lugar especial no que tange às ‘doenças profissionais’. Mais do que qualquer outra profissão, a atividade do cantor está ligada a uma saúde boa. Enquanto são capazes de exercer a profissão, têm eles saúde particularmente excelente. Não é um acaso, pois a causa tangível é a utilização energética que o cantor faz da sua voz; influencia favoravelmente toda a atividade do organismo, mormente a própria voz e a respiração”. Distingue “o cantor do cantor ‘verdadeiro’ (certamente o que estudou e tem a voz dita impostada plena. Obs. JEM), que canta sempre com pressão atmosférica relativamente elevada. Resulta a vibração enérgica das cordas vocais, sem a qual a voz não atinge a intensidade desejada”. A seguir elenca uma quantidade de males de que é acometido o cantor, pois são inúmeros os órgãos que estão implicados na emissão da voz desse cantor “verdadeiro”. Denomina o capítulo dedicado aos cantores “Perturbações mórbidas da voz do cantor”.

No decorrer do livro, o neurologista se aprofunda nos males que podem angustiar o músico e que seriam as psiconeuroses, apresentando uma série de tratamentos aplicados no período.

Sobre o regente de orquestra tem posição de interesse: “Quanto às perturbações que atingem de preferência a saúde dos regentes, a experiência me ensinou que, entre esses distúrbios, está a neurastenia cerebral (neurose devido a um esgotamento intelectual) resultante de temperamento impetuoso, sanguíneo, que se manifesta de várias maneiras: mal estar, descontentamento e uma espécie de desacordo interior”.

O autor ainda se estende sobre problemas que perturbam o músico em determinada fase da existência, como o AVC (acidente vascular cerebral), sigla da medicina hodierna, que teve outras conceituações durante parte considerável do século XX. O livro expõe dados de suma importância sobre a educação musical, a frisar a necessidade da presença da ética, da moral e da estética na formação integral do aprendiz.

Consideremos as fontes bibliográficas abrangentes a partir de meados do século XIX. Posições pessoais do neurologista Dr. Julius Flesch, embasadas pela vasta literatura específica, foram os motivos da difusão do livro referencial.

“Maladies Professionnelles et Hygiène du Musicien” é obra a ser lida e observada também sob o prisma da cultura humanística. Perdeu-se, com as especializações através das últimas décadas, a visão enciclopédica e holística. O especialista submerge à força do detalhamento tantas vezes obsessivo, relevante e indispensável, mercê dos extraordinários avanços da medicina, mas insuficiente nessa caminhada do homem pela história.

Excepcionalmente o blog da próxima semana será publicado aos 0:05 do dia 25, quinta-feira, Natal, data maior da cristandade.

In 1925, Dr Julius Flesch, a neurologist from Vienna, wrote a book about the professional diseases of musicians (Berufskrankheiten der Musiker). In the sixties, I had the opportunity to read the French translation, published in Paris in 1929 (Maladies Professionnelles du Musicien et Hygiène du Musicien). The recent surgery I underwent on my trigger finger led me to a second reading. Despite the extraordinary advances in medicine, many treatments still persist. Considering people’s preference for specialization nowadays, the encyclopedic and holistic vision of Dr. Julius Flesch, almost a century ago, should be emphasized.