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Albert Camus (1913-1960)

A peste suprimira julgamentos de valor.
Via-se que ninguém mais se preocupava
pela qualidade das vestes ou dos alimentos que compravam.
Aceitava-se tudo em bloco.
Albert Camus
(“La Peste”)

Em carta ao pensador Roland Barthes, que tecera críticas a La Peste, Albert Camus responde aos 11 de Fevereiro de 1955: “La Peste, que eu gostaria que fosse lida através de várias perspectivsas tem entretanto, como evidente conteúdo, a luta da resistência europeia contra o nazismo. A prova é que esse inimigo, que não é nomeado, todos o reconhecem e em todos os países da Europa. Acrescentemos que uma longa passagem de La Peste foi publicada sob a ocupação, numa coletânea de combate, e que essa circunstância por si só justificaria a transposição que realizei. La Peste, num sentido, é mais do que uma crônica da resistência. Seguramente não é menos”. Ao mencionar a resistência, fá-lo por ter sido, entre outras atribuições como escritor, romancista, dramaturgo, ensaísta, um jornalista militante comprometido com a Resistência Francesa. Elaborado de 1939 a 1943, portanto do começo ao pleno desenrolar da 2ª Grande Guerra, Camus, em entrevista à revista Servir em 1945, diria: “Não sou filósofo. Não creio suficientemente na razão para acreditar em um sistema. O que me interessa é saber como se pode caminhar quando não se crê em Deus ou na razão”. Roger Quilliot, que estabeleceu textos e anotações para a edição de obras de Albert Camus da Bibliothèque de la Pléiade (Paris, Gallimard, 1962), observa que La Peste “…nos oferece enfim uma visão de um mundo sem futuro nem finalidade, um mundo de repetição e homogeneidade, onde o próprio drama cessa a dramaticidade e onde os homens se definem menos por sua ação, sua fala e seu peso físico do que pelo seu silêncio, sua sombra e sua reação diante dos desafios da existência”.  Apesar da temática necessariamente levar a tantas situações niilistas, há uma centelha de esperança no ser humano, como afirma Camus: “… aprendemos no turbilhão dos flagelos que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”.

A morte trágica de Albert Camus aos 4 de Janeiro de 1960, comentada amplamente pela imprensa e por amigos franceses, despertou-me o interesse por suas obras, mormente as narrativas e romances. Estudava em França àquela altura e li quase em seguida, em tiragens econômicas, L’Étranger, La Peste, La Chute et l’Exil et le Royaume. Ao longo da existência reli L’Étranger e La Chute, livro este que sempre me pareceu enigmático, merecedor de mais leituras.

O Covid-19 despertou no planeta um interesse maior por La Peste. Se realmente a essência essencial decorre do exposto por Camus em sua resposta a Roland Barthes, outros alcances da obra podem ser compartimentados na abrangência de flagelo representado pela peste circunscrita ou pela pandemia mundial. A tipificação geográfica caracteriza a cidade de Oran por volta de 1940, às margens do Mediterrâneo, terra de afeto do autor naquele período da Argélia Francesa, seu berço natal.

A morte de milhares de ratos que saem das entranhas do subsolo das casas, dos encanamentos e das bocas de lobo para agonizar nas ruas, calçadas e corredores provoca a seguir a peste bubônica nos humanos, transmitida pelas pulgas desses roedores. Em La Peste, no peristilo do flagelo a mídia questionava o poder municipal: “Nossos edis já não teriam sido avisados do perigo representado pelos cadáveres desses ratos?”.

O surgimento da peste muda completamente a vida dos habitantes, que veem os portões da cidade se fechar, isolando-a do mundo exterior. Ninguém mais sai nem entra em Oran com seus de 200.000 habitantes, segundo o autor em sua obra de ficção. Os moradores passam a assistir à morte crescente de seus concidadãos. Nesse trágico quadro, são poucos os personagens narrados pelo escriba que, ao final do livro, se revela como sendo o personagem central, o Dr. Bernard Rieux. Ele os acompanha em suas aspirações, esperanças, desalentos, generosidade, solidariedade, desprendimento, mas também má conduta e sobretudo, no caso mais específico do cidadão anônimo, “a ignorância que acredita tudo saber”. Os personagens ignotos reagem de acordo com as circunstâncias: temor, ansiedade, aceitação da peste, desalento, resignação frente à morte e júbilo final com o flagelo debelado. Durante a peste os roubos se avolumam: “Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram pilhadas. Difícil supor serem atos premeditados. A maioria das vezes, uma súbita ocasião levava as pessoas, até então honradas, a ações repreensíveis, que seriam imitadas a seguir”.

A edificação de La Peste foi lenta. Camus pesquisa obras fundamentais que tratam da peste na Europa e na Ásia dos séculos XI ao XIX. Seu conhecimento prévio substancia realidades de endemias que assolaram a região anteriormente e tornam, sob outro aspecto, verossímeis suas interpretações de determinadas agonias, como a do filho do juiz Othon ou de seu amigo Jean Tarrou. Este, acamado em casa do médico, torna-se uma das últimas vítimas da peste. Albert Camus, nessas inusitadas duas longas narrativas, transmite ao leitor a evolução do início à fatalidade, a descrever as mínimas reações. Faz-me lembrar outra leitura, a de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro”, do ilustre médico e escritor Heitor Rosa, ao relatar pormenorizadamente outras agonias durante o século XVI devido à sífilis e ao tétano e a ter Girolamo Fracastoro (1478-1553) como personagem central.

Episódios que se repetem nas epidemias ou pandemias através dos séculos contêm certas constantes. Em La Peste, parte considerável daquilo que se está a sentir com a pandemia do Covid-19 lá está presente na imaginada peste de Oran: descaso inicial dos governantes frente ao flagelo anunciado, minimizando-o como irrelevante e passageiro, e mais: isolamento, lockdown, máscaras, legião de médicos e enfermeiros dedicados que se extenuam nessa luta sem descanso, cidade vazia, distanciamento, temor, agonia do infectado, tentativas para se encontrar “o” remédio, aproveitadores, acúmulo de mortos nos cemitérios. “A peste como abstração era monótona”, escreve o narrador. “Muitos coveiros e enfermeiros, primeiramente oficiais, a seguir improvisados, morreram da peste. Impressiona o fato de não faltarem homens para essa tarefa”.

Se considerarmos a pandemia que se está a viver nesse 2020, La Peste pareceria retratar situações multum in mínimo limitadas a Oran, que se expandem avassaladoras na atualidade. Personagens do enredo desempenhariam duplo papel, se consideradas forem guerra e pandemia. Teriam semelhança com outras que o nosso cotidiano expõe, assim como com outras durante a resistência na Segunda Grande Guerra ou outras mais advindas.

Bernard Rieux, narrador, médico responsável e humanista está sempre propenso a atender os infectados, atitude que, transposta em pleno 2020, exemplificaria a legião de médicos, enfermeiros e ajudantes que têm labutado nesses tempos do Covid-19. “Em todos os exércitos do mundo, à falta de material, substituem-se por homens. Todavia, faltam-nos homens também”. Alguns poucos voluntários e abnegados juntam-se ao médico durante o percorrer da narrativa. Tarrou “é exemplo que pode compreender tudo e que sofre”, segundo o amigo Rieux. Tarrou também redige suas observações e ajuda Rieux em suas difíceis tarefas. Será um dos últimos a sucumbir, ele que buscava uma empírica santidade sem Deus. Joseph Grand, funcionário público, tenta escrever livro, mas a buscar a perfeição da primeira frase, dela não passa. Será o primeiro a se curar da peste. Suas aparições chegam a dar uma pitada de humor contido à narrativa. O padre Paneloux tem várias aparições e seus dois sermões ao longo da peste têm apreensões diferenciadas. Inicialmente tonitruante, após presenciar a longa agonia do filho do juiz Othon tem uma outra percepção do flagelo. “Sim, o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração”.  A figura de Raymond Rambert ocupa vários espaços no livro.  Jornalista  temporariamente em Oran, nela fica retido pelo confinamento obrigatório. Após muitas tratativas para burlar o lockdown a fim de encontrar a amada, entende o devotamento do Dr. Rieux e se engaja na ajuda ao combate do mal. Estudiosos veem nele um resistente tardio durante a ocupação nazista. Após a abertura dos portões da cidade, sua amada o reencontra. Castel, médico como Rieux, representaria hoje a legião de cientistas na busca de uma vacina. O juiz Othon, que perde seu filho frente à peste, engaja-se na luta empreendida por Rieux. Também foi visto como um resistente tardio. Outros mais figurantes cruzam o caminho de Rieux, mas um é intrigante: Cottard, personagem que tentara o suicídio, mas propenso a atividades suspeitas. Desagrada-lhe o fim da peste e essa atitude foi entendida como a de um collaborateur em tempos da ocupação nazista. Enlouquece e é preso.

Considere-se em La Peste o tributo ao afeto, seja através da ausência, caso do jornalista Rampert separado da amada pelo fechamento dos portões da cidade, seja pelas várias situações afetivas no cotidiano dos personagens que cruzam os caminhos do Dr. Rieux ou, finalmente, no episódio da abertura plena da cidade, nos encontros daqueles que estiveram separados. Camus enfatiza o afeto, vivifica-o, dá-lhe sentido, a justificar a afirmação “há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”. (Tradução: J.E.M.).

Situações intrigantes envolvem Camus com a temática julgamento em tribunal e execução física. Em L’Étranger seria o personagem principal, Meursault, que, julgado por ter assassinado um árabe, é executado. Em La Peste, Tarrou, em longa confidência ao médico Rieux, carrega um trauma em duas situações: ao assistir seu pai, juiz, condenar um acusado à pena máxima e ao presenciar, em outro momento, o fuzilamento de outro condenado.

A atemporalidade de La Peste leva o leitor a entender que, na essência, o homem não se desvia do atavismo. Frente ao flagelo, mais acentuadamente acertos e desvios de procedimentos se fazem sentir. Albert Camus em suas obras expõe esses comportamentos. Com raro sentido de observação. O Prêmio Nobel, tão discutido em tantas escolhas, foi conferido em 1957 ao escritor. Inquestionável.

My comments of the book “La Peste” (The Plague) by Albert Camus. Written from 1939 to 1943 — in the midst of the Second World War — and published in 1947, the novel follows the inhabitants of the Algerian city of Oran during a fictional outbreak of bubonic plague. According to Camus’ own words, the novel could be read on several levels, but its most obvious allegory deals with the pestilence of Nazism and the German occupation of France. Each moment in history has its own reading. For us, in the year 2020, the novel seems to be a warning of the dangers posed by infectious diseases at any time. The constants are the same then and now: authorities’ unwillingness to accept the early signs of the epidemic, quarantine, lockdown, face masks, people dying in droves, plague profiteers, expressions of solidarity, the heroism of medical workers, the search for a cure. No wonder coronavirus has made Camus’ novel a bestseller again.

 

 

 


A gênese de inúmeras conceituações

Dans la vie on n’a jamais le temps…
(Carnets V – 2 )

Si je supprime l’arbre je supprime
les messages que je puis recevoir.
(Carnets III – 123)
Saint-Exupéry

A leitura dos Carnets (Paris, Gallimard, 1999 – 1º edição, 1975) de Saint-Exupéry poderia desconcertar leitores assíduos do piloto-escritor. Redigidos entre 1936 e, possivelmente, 1942, durante a ebulição de Terre des Hommes (1939), e a anteceder Pilote de Guerre (1942), Le Petit Prince (1943), Lettre à un otage (1943-1944) e Citadelle, obra póstuma, os Carnets apresentam uma série de reflexões sobre o condicionamento do homem frente à História. A conviver com a obra literária de Saint-Exupéry, constantemente revisitada, mormente Citadelle, a leitura bem tardia dos Carnets foi-me reveladora de outras mais reflexões do autor.

Os Carnets, sob uma ótica, têm viés que pode desorientar o leitor; sob outra égide revelam na acepção o pluralismo de Saint-Exupéry, a sua abrangência humanista à antiga, pois seu pensamento perpassa literatura, política, ideologias, economia, religião, assim como temas não abordados em sua obra literária, como física e mecânica. Essa visão do mundo sob várias facetas poderia ser comparada ao multidirecionado pensar durante o iluminismo em pleno século XVIII em França.

Na introdução de Pierre Chevrier tem-se o modus faciendi desses Carnets: “Saint-Exupéry tinha consigo, no bolso interior de sua vestimenta, uma caderneta encadernada em couro macio, na qual consignava suas reflexões as mais diversas. É fácil detectar, durante a leitura desses apontamentos, aqueles que lhe servirão como aide-mémoire para trabalho posterior, outros que ele desenvolvia para clarificar seu próprio pensamento ou mesmo vários que surgiam como uma exclamação”. Os Carnets foram escritos tantas vezes em situações incômodas, como em voo ou em carro, o que fez com que algumas palavras se tornassem ilegíveis.

Os textos inseridos nos Carnets não foram escritos para ser publicados, diferentemente de outro recentemente resenhado neste espaço, Une très légère oscillation, de Sylvain Tesson, nitidamente pensado para publicação. Esse descompromisso dos Carnets com o futuro, se sob um aspecto faz fluir reflexões inúmeras vezes sem continuidade ou frases isoladas, sob outra égide, mercê da prolixidade temática, não incita à leitura de maneira sequencial. Há temas precisos voltados a áreas de conhecimento de Saint-Exupéry, como mecânica, física, matemática, economia e salários, política num período de transformações sensíveis pré-Segunda Guerra e seus primórdios, temas tratados com terminologia apropriada, distanciando-os do leitor habituado aos seus romances e narrativas. Para desconhecedores de determinadas dessas áreas, voltadas a experimentos de ordem mais “técnica”, a leitura pode tornar-se ininteligível. Não tendo ligação com romances que tiveram plena aceitação, há, nos Carnets, reflexões não continuadas que estarão metamorfoseadas em seus livros, mormente em Citadelle.

Desfilam na Agenda e nos cinco Carnets que integram o livro – cada Carnet com as reflexões numeradas -, vários personagens, a grande maioria desconhecida hoje, mas que faziam parte de um amplo cotidiano, presencial ou não, do autor.

Entre as numerosas conceituações, muitas sem continuidade, considera, através de sua visão humanista, que políticos não têm de “fundamentar conceitos, pois esse é trabalho do espírito e através dele a humanidade caminha”.

Entende similaridade entre domínio espiritual e intelectual e que “uma civilização oferece ordenamento na natureza e no homem. Uma civilização oferece a riqueza do coração”. Essa junção de valores humanistas percorrerá toda sua obra literária.

A se orientar por princípio basilar negligenciado, mormente em nosso país, observa que “o povo não pede a realização de sua vontade, mas sim de ter direito à educação, à compreensão”.

Para músicos, preferencialmente pianistas, Saint-Exupéry explana longa conceituação sobre destinação da riqueza a um carro de luxo e a um piano de cauda: “A aristocracia do dinheiro não coincide com a aristocracia verdadeira. As reformas sociais devem se ater à renovação de certa aristocracia, como também dispor uma economia que permita consumir tudo. Se é chocante comprar-se um piano de cauda face a um morador de rua que passa fome, não significa o fato que a compra de um piano não seja infinitamente digna do homem. Primeiramente será necessário permitir ao morador de rua comer, sim, mas não agir demagogicamente a impedir a compra de pianos de cauda. De fato, tem-se não uma solução econômica, mas um retorno moral que infelizmente se prende à noção mesma de grandeza, de luxo, de dignidade e de elevação espiritual. A distribuição de pianos de cauda para moradores de rua resultaria zero (um franco por homem e a cada ano…) e é bom que se conserve numa sociedade esse móvel de emulação, essa esperança ou, mais exatamente, essa imagem da grandeza humana. Os membros de um povo que possuem uma rainha têm um pouco do sangue real correndo em suas veias,”.

Inúmeras reflexões sobre sistemas políticos estão inseridas nos Carnets. Reiteradamente Saint-Exupéry retorna ao tema, o que demonstra sua preocupação no peristilo da 2ª Grande Guerra. Também pormenoriza-se nas várias categorias de classes sociais. Essas reflexões, por vezes repetitivas em apontamentos distanciados, refletem a tensão vivida no período.

Segmentos maiores ou menores que compõem os Carnets propiciam, por vezes, reflexões curtas à maneira de aforismos, essa sentença breve que encerra a síntese de uma reflexão. A menção a alguns faz-se oportuna:

O instinto de identidade é mais forte do que aquele de conservação.

Do homem eu não me pergunto ‘qual o valor de suas leis’, mas ‘qual é seu poder criador’.

Por que a verdade conceitual leva-me a verificar a verdade da observação? (Entre Newton e o louco há pouca diferença).

Assim são as leis da natureza.  Primeiramente a ordem, que é a “expressão” da natureza.

Psicanálise. O homem quer formular aquilo que sente. Se não formula, ele inventa os atos.

Trata-se de saber se eu prefiro o homem livre ou não – mas eu prefiro o homem que é livre.

Depreende-se dos Carnets a propensão para a busca, “visionária” talvez, de uma igualdade. Se condena a ganância pelo lucro no sistema capitalista, faz também duras críticas ao socialismo. Esse pensar liberto de amarras não o torna indiferente. Se questiona tantas vezes, em outras mais reflexões posiciona-se e nesse redesenho cresce o pensador voltado à problemática do destino do homem e de sua condição. A leitura dos Carnets torna-se instrumento relevante, a corroborar o entendimento de suas obras literárias, mormente pelo fato de estarmos diante de fragmentos ou esboços. (tradução: JEM)

Comments on the book “Carnets”, by the French writer and aviator Antoine de Saint-Exupéry, made up of fragments of notes and thoughts not thematically linked, often jotted down on-the-go and saved in a leather bound pocket journal Exupéry carried with him. The author being a multi-faceted talent, such notes cover a wide range of topics: literature, politics, economics, religion, as well as technical subjects, like physics and mechanics. Not intended for publication, they served as an “aide-mémoire” for the author himself, with some ideas developed later in his fiction. Though just fragments, the Carnets are a useful reading for a better understanding of Saint-Exupéry’s literary work.

 

 


Entrevista de raro interesse

A mundialização devia estar feliz.
Ela é uma dama das camélias: infectada.

O vírus é a flor do mal
crescendo ao contato do mundo interior e exterior.

Sylvain Tesson
(Entrevista: “Que ferons-nous de cette épreuve?”)

Meu dileto amigo, compositor François Servenière, enviou-me recente entrevista do aventureiro e escritor Sylvain Tesson a tecer reflexões sobre o confinamento devido ao COVID-19. A entrevista, concedida a Vincent Tremolet de Villers e publicada inicialmente no Le Figaro aos 19 de Março último, teve outra edição pela Gallimard em Tracts de crise, nº 23.

Uma das qualidades de Sylvain Tesson em suas entrevistas é a agilidade de raciocínio, quase sempre coerente e original. A larga experiência que adquiriu em suas andanças pelo mundo, que resultaria em uma bibliografia considerável (vide no menu: Livros,   Resenhas e Comentários – lista), faz com que, da inquietação pelo confinamento, Tesson passe a refletir sobre o significado dessa exclusão social, assim como a respeito do humano diante do COVID-19. Frente às seis perguntas do entrevistador, o escritor se posiciona com clareza.

Primeiramente entende que a ultramundialização terá avaliação efêmera no futuro. Acredita que, desde a queda do muro de Berlin, o materialismo e a banalização das relações humanas via internet fazem com que “o digital complete a uniformização”.  A partir dessas premissas, Tesson caracteriza aspecto fulcral: graças às reações rápidas impostas pela mundialização, fomos levados ao “fique confinado”, algo impensável anteriormente. Tem dúvidas sobre o pós-COVID-19, passado o que ele denomina pangonligate, referente à possível transmissão por pangolins ou morcegos.

Tesson comenta a posição do catastrofista, que faz parte dessa atração do homem pela morbidez. “Para certos profetas da catástrofe, não há necessidade de inventar o futuro, nem de suavizar a análise, tampouco de se lançar inteiramente na conservação daquilo que se mantém. O infeliz fundamentalista anuncia o inferno de Bosch, mas estoca patês. Muitos esfregam as mãos e dizem: ‘Nós bem que avisamos!’ Não perceberam que o pontapé inicial partiu de um pequeno animal parecido com um panzer vestido por Paco Rabane”. Instado pelo entrevistador sobre quais conselhos poderia dar de seu confinamento, Tesson acrescenta: “Você percebeu a nossa chance? Durante quinze dias o Estado assegura a mordomia de nosso confinamento forçado. Há um ano, parte do país queria derrubar o Estado. De repente, tem-se consciência: é mais agradável sentir uma crise na França do que na Curlândia Oriental. O Estado se revela como Providência que não exige devoção. Pode-se cuspir sobre ele, mas ele virá socorrê-lo”.

Tesson observa dado relevante que faz toda a diferença nesse confinamento forçado, a vida interior que parte da humanidade desconhece: “Tenho compaixão pelos que passarão dias longe de um jardim”. A pensar possivelmente no letrado com acesso à cultura como ideal, considera essa compaixão estendida “àqueles que não amam a leitura e que ‘não têm a menor noção que um Rembrandt, um Beethoven, um Dante ou um Napoleão existiram’, como escreve Stefan Zweig no início do Jogador de xadrez”.

Crítico mordaz de aspectos da tecnologia voltados à imagem nas telas, seja ela televisiva ou através das engenhocas que invadiram o planeta, mormente neste século, afirma: “Abram os livros. Diante de uma tela vocês estarão duas vezes confinados!” Insiste em outro segmento da entrevista: “Tomamos consciência de evidências esquecidas. Citemo-las: Ficar em casa não significa detestar seu vizinho. Os muros são membranas de proteção e não blindagens hostis. Eles são perfurados por portas e podemos escolher abri-las ou fechá-las. Ler não significa se aborrecer”.

Insiste nesse tema da nocividade da alienação motivada pela fixação do homem atual nesses avanços tecnológicos: “Nós, humanos do século XXI, seguimos bem desfavorecidos nesse desafio que nos é proposto. A nova ordem digital-consumista habituou-nos a temer o vazio. A revolução digital é um fenômeno hidráulico. Internet e vaso sanitário, preenchem o espaço vacante em alta velocidade. O tubo tem sede. É necessário fluir! De repente, o confinamento impõe uma experiência do vazio. Não se deve, contudo, agir como preconiza a conexão integral: preencher tudo com qualquer coisa.” Em “Une três légère oscillation” (vide blog, 28/03/2020), o autor, sob outro olhar, comenta essa realidade. Necessário verificar que não se trata de elitismo quando Tesson sugere a leitura, assim como o acesso à cultura artística, musical, filosófica acima mencionada, através da citação de expoentes nessas áreas. O vazio viria da desinformação, da impossibilidade de o homem moderno se ater a aspectos da cultura humanística pelo massacre diário, através do baixíssimo nível de parte substancial das programações televisivas, dos sites portais e dos aplicativos das engenhocas digitais mais evidentes, que desconsideram quase completamente a cultura dita erudita, enaltecendo o lixo da imagem, dos costumes, da linguagem, atentados que desvirtuam as mentes.

Nesse período com desfecho imprevisível, em que se assiste mortos sobrepostos em valas coletivas, ouçamos de Alexandre Scriabine o Poema Trágico op. 34 na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=K0k7wUwHAn8

Tece elogios rasgados aos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde vestidos de branco, comparando-os àqueles que há dois anos atrás correram sérios riscos debelando o fogo da Catedral de Notre-Dame. Diz: “O heroísmo não mudou de definição: sacrifício de si mesmo. A nação se conscientiza de que dispõe desses dedicados servidores, que aceitam salvar ou morrer”.

Frente à reconciliação interior ou não, Tesson se posiciona: “Que faremos  após essa prova? Como sou ingênuo, acredito que os passageiros do trem cyber-mercantil chegarão a um aggiornamento.  As civilizações estabeleceram-se sobre alguns princípios: separação, reclusão, distinção, singularização, enraizamento. Confinamento, pois. Decênios foram suficientes para varrer esses conceitos em nome de uma ideologia: o globalismo igualitário preparatório à grande liquidação. A propagação massiva do vírus não é um acidente. É uma consequência”.

Tesson considera que a mundialização inevitável “não é irreversível e que a nostalgia pode propor novas direções!”. Finaliza: “ Diante da pretensa inevitabilidade das coisas, o vírus do fatalismo possui seu álcool-gel: a vontade. ‘Caminhemos’ é finalmente um maravilhoso slogan, uma vez ultrapassada essa fase”.

Verifica-se que as preocupações de Sylvain Tesson aproximam-se dos atos da grande maioria das populações atingidas pelo COVID-19. O leitor deve lembrar-se da cantoria solidária de italianos da Lombardia, epicentro do vírus na Itália, que saíam às varandas para cantar, inclusive o seu Hino Nacional. Faz lembrar tantas narrativas existentes em livros, relatos históricos, romances e poesias, nas quais grupos que seriam exterminados cantavam hinos religiosos ou pátrios. Heroísmo pré-morte certa, instantes a anteceder a tragédia.

Quanto às leituras ou atividades culturais outras, como as que menciono em termos individuais no blog precedente, dependem da formação. Para famílias onde impera harmonia, mesmo que não haja essa vocação para a leitura, assistimos pelos noticiários a tantas sugestões de atividades criativas,  inexistentes antes da pandemia, mas que unem o núcleo familiar. Sob outra égide, acentuou-se o número de separações ou, no limite máximo das incompreensões, a cifra relativa ao feminicídio. O convívio permanente entre paredes, que pode ser enfadonho para tantos, tem levado à fatalidade.

Em termos de Brasil, desassistido pela enorme classe política, o que não dizer do empobrecimento educacional, a levar moradores das favelas, das comunidades, daqueles sobre palafitas, a viverem aglomerados, basicamente sem possibilidades de reflexão mínima quanto ao mal que os atinge?

Tem carradas de razão Sylvain Tesson ao dizer que “Uma disparidade imediata se revela. Alguns têm vida interior, outros não”. Nossa classe política tem interesse em solucionar ao menos problemas práticos elementares para minimizar o desalento, a desesperança e a desassistência aos desfavorecidos? Se atiram migalhas, são apenas migalhas. Saberia a grande maioria dos integrantes dos três Poderes o que significa vida interior?

Clique para ouvir o Coral Jesus Alegria dos Homens de J.S.Bach na transcrição de Dame Myra Hess. Piano: J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ

Comments on an interview given by the French writer and adventurer Sylvain Tesson and published by “Le Figaro” of last March 19. Tesson talks about his quarantine days in Paris in times of Covid-19, an experience he turns into a chance to muse over the meaning of social exclusion in the outbreak of the virus across the world, the impact of digital technologies in our lives, the world once the virus has been controlled.  As usual, Tesson’s acute intelligence and the originality of his ideas make this interview well worth reading.