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Suas lembranças tardias de três compositores fundamentais

C’est la musique souveraine
qui nous fait entrevoir les vrais dimensions de l’homme.
Georges Duhamel (1884-1966)

Após comentários resumidos no blog anterior sobre a notável pianista Marguerite Long ao longo de sua carreira de intérprete, no que concerne a colaboração da artista não apenas como intérprete essencial dos maiores compositores do período como na divulgação de suas obras, abordarei sua contribuição literária.

Tardiamente Marguerite Long legaria suas recordações do convívio musical e amistoso com três dos principais compositores franceses desde a segunda metade do século XIX: Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937). Seria possível entender que, após tantas décadas passadas, a memória privilegiada de Mme Long pudesse, por vezes, fantasiar alguns episódios. Um eminente musicólogo francês apontou-me determinadas alterações na narrativa da pianista que, sem falsear a essência essencial do pensamento, teriam sido inseridas com o propósito de evitar a aridez do texto. Assim sendo, a escrita tem sempre um caráter agradável, até em segmentos que denotariam a presença de situações conflitantes. Poder-se-ia acrescentar que essas “alterações” ficariam mais evidentes nos diálogos travados entre a pianista e interlocutores. Sob aspas, muitas décadas após, o instante do acontecido pode ter sido “romanceado”, sem contudo  modificar o essencial.

Primeiramente debruça-se sobre Claude Debussy (“Au Piano avec Claude Debussy”, Paris, René Julliard, 1960). Desfilam em suas páginas, quantidade de testemunhos de músicos relevantes, sendo que se pormenoriza nos encontros com Debussy no segundo semestre de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, aos 25 de Março de 1918. Debussy se encontrava em Saint-Jean-de-Luz, no “chalet Habas”, já em pleno declínio físico. Para a cidade se locomoveram três pianistas célebres: Ricardo Viñez, Joaquin Nin e Marguerite Long. Debussy escreve ao seu editor Jacques Durand em Setembro: “… entretanto, tenho a chance de estar num lugar distante onde não os ouço”. O eminente François Lesure comenta: “Lendo-se ‘Au piano avec Debussy’, de Marguerite Long, tem-se a impressão de que, durante sua estadia no chalet Habas, Debussy se ocupou prioritariamente em trabalhar com ela. Nas 169 páginas de seu livro insere tantos outros testemunhos entre as raras sessões que o músico lhe dispensou” (Claude Debussy. France, Klincksieck, 1994). Seria possível entender que décadas acumuladas tenham superdimensionado esses encontros, que na realidade existiram, mas não na dimensão apregoada, e dos quais Mme Long extrairia certamente dados preciosos que sedimentaram suas interpretações das criações de Debussy. Acredito que a contribuição maior de “Au piano avec Claude Debussy” decorra das observações interpretativas da autora sobre obras fundamentais do compositor.

Anteriormente a Debussy, Marguerite Long entrara em contato com a criação de Gabriel Fauré sem ao menos tocar até 1902 qualquer de suas composições. Revelado, Fauré e a admiração pela sua obra permanecerão por toda a existência. Como relata em seu livro, foi um dos mestres franceses do período, Antonin Marmontel, que a fez entrar em contato com as criações de Fauré e, no primeiro encontro com o compositor, interpreta a 3ª Valse-Caprice. Comenta: “Toquei a 3ª Valse-Caprice. Gabriel Fauré me escuta, atento, inquieto sem dúvida por ouvir pela primeira vez a jovem intérprete. Compreenderia ele desde o início o fervor que me animava? A alma-irmã que palpitava sob os dedos da jovem musicista? Sentiria ele que um ser, apreendendo de instinto o sentido secreto de sua música, dispunha-se a aprofundar sua obra e fazê-la ser conhecida e compreendida? Ao acabar a execução, ele parecia de tal maneira contente que  me senti recompensada e feliz”.

Em 1907, Marguerite Long estreia a Ballade de Fauré para piano e orquestra – versão da original para piano, op. 19 -, que será a obra a encerrar a bela carreira de Mme Long aos 3 de Fevereiro de 1959. Marguerite Long traça em seu livro uma síntese biográfica tardia de Fauré, de interesse para os estudiosos, certamente tendo colhido informações ao longo do convívio musical com o compositor. Relevantes os seus testemunhos sobre o círculo de amizades de Fauré. Convidada pelo músico, torna-se professora do Conservatório Nacional. Sob outro aspecto, não se furta de narrar os esforços acadêmicos, apesar de várias promessas, para que não fosse nomeada professora titular do Conservatório. Muitos anos se passaram para que enfim obtivesse o cargo. Houve desavenças com Gabriel Fauré dirimidas nos estertores da existência do compositor.

“Au piano avec Gabriel Fauré” tem capítulos preciosos nos quais a autora se debruça sobre a obra do mestre, a orientar a interpretação. Pormenoriza-se em algumas peças, exemplificando. Técnica, estilo, interpretação, memória e outros quesitos também são abordados.
Clique para ouvir o 6º Nocturne de Gabriel Fauré op.63 na interpretação de Marguerite Long:

https://www.youtube.com/watch?v=_PVNtMQ5THY

Insiro o 4º andamento da gravação histórica do Quarteto nº 2 em sol menor op. 45 de Gabriel Fauré. Os outros três instrumentistas foram luminares no período: Jacques Thibaud (violino), Maurice Vieux (viola) e Pierre Fournier (violoncelo). A gravação é plena de uma intensidade emotiva singular. Marguerite Long encerra seu comentário no libreto que acompanha o LP, lançado inicialmente em 78 rotações: “Uma palavra ainda sobre o Quarteto em sol menor. Foi ele gravado no dia 10 de Junho de 1940. Pela manhã, os alemães invadiram a Holanda. Partimos para o estúdio angustiados. Sentia a plena aflição de Thibaud: seu filho Roger combatia na linha de frente. Durante a gravação nossa emoção estava no limite e creio que essa gravação oferece uma imagem fiel. Na manhã seguinte Roger Thibaud morria heroicamente”.

Clique para ouvir o quarto andamento do Quarteto em sol menor op. 45Allegro molto,  de Gabriel Fauré

https://www.youtube.com/watch?v=B9X7ms040Tk

“Au piano avec Maurice Ravel” (Paris, Julliard, 1971) encerra o tríptico consagrado aos três maiores compositores franceses desde meados do século XIX, que se juntam ao extraordinário Camile Saint-Saëns, músico que Marguerite Long conheceu bem, interpretando suas obras, mas que não teve uma relação tão próxima como a estabelecida com Fauré, Debussy e Ravel. Tem-se, nessa homenagem a Ravel, a imensa colaboração do Professor Laumonier, que, admirador confesso do compositor, após a morte da pianista e sabedor de seu grande interesse em completar o tríplice tributo, recolheu os textos já escritos por Mme Long e terminou o livro, não sem a colaboração de músicos e aficionados pelo compositor e pela intérprete. O livro tem interesse. Há vários episódios pormenorizados e conhecidos, mas considere-se a apreciação das principais obras para piano do compositor a servir de orientação aos intérpretes.

Ao escrever “Le Piano” (Paris, Salabert, 1959), Marguerite Long lega aos estudantes, professores e pianistas uma obra de síntese. Conhecedora de basicamente todos os métodos relativos à técnica pianística, a autora não apenas apresenta exercícios novos, como realiza uma súmula de procedimentos de tantos que se dedicaram ao mister:  Charles-Louis Hanon, Louis Benoit, Beringer e outros mais. Nesse “resumo”, em poucas páginas, métodos precedentes, alguns caudalosos, são reduzidos a formulações práticas. No longo e substancioso prefácio, escreve: “Essas páginas destinam-se em princípio aos pianistas já com certo desenvolvimento ou mesmo àqueles que buscam a alta virtuosidade. Que estes não se sintam indignos de seus talentos diante dos conselhos por vezes elementares que se seguem”. Uma outra frase relevante: “O estudo de piano necessita longos esforços. Todavia, esses não consistem em lutar contra a natureza. Uma mão normal é feita para tocar piano e todo pianista que não compartilha dessa convicção é indigno de sua arte”. Tem-se pois uma “enciclopédia” de exercícios a facilitar o aprendizado, bem mais prático do que o realizado por Alfred Cortot, “Principes Rationelles de la Técnique Pianistique”, método de grande mérito, mas complexo. Marguerite Long perpassa em “Le Piano” parte essencial da técnica pianística tradicional.

Relembrar os grandes mestres do passado é imperativo. Foram eles que legaram aos pósteros as diretrizes da arte do piano. Cultuá-los enriquece nosso conhecimento musical. Saber as origens.

In this post I comment on books written by the outstanding French pianist Marguerite Long. Later in life, after her working and personal association with three of the great French composers of all times, she wrote “At the piano with Debussy”, “At the piano with Fauré” and “At the piano with Ravel”, books of reminiscences with musical examples to discuss the interpretation of their works. She also wrote “Le Piano”, an exercise book with a synthesis of techniques sampled from many sources, along with new exercises by the author herself, a master of the French style piano playing.

 

 

Um diário de Sylvain Tesson


Um diário íntimo é uma operação de luta contra a desordem.

Ganha-se ao se confessar pessimista,
É uma maneira ser profético.

Sylvain Tesson

Foram 16 livros de Sylvain Tesson resenhados ou comentados neste espaço, desde 2011. Na grande maioria, admirava a intrepidez de Sylvain Tesson, suas andanças e travessias majoritariamente solitárias, assim como sua visão personalíssima dos locais e seus costumes, levando-o a deduções tantas vezes de muito interesse.

Após o acidente sofrido aos 20 de Agosto de 2014, ao cair de uma altura de dez metros na tentativa de “escalar” uma casa em Chamonix, sofrendo trauma craniano e várias fraturas – acidente que o levaria ao coma induzido durante oito dias -, marcas inalienáveis permaneceram em sua face.

Sylvain Tesson já granjeara ampla repercussão antes da queda. Tive o prazer, por mero acaso, de estar presente no lançamento de um de seus livros em livraria parisiense (S’abandonner à vivre. Paris, Gallimard, 2014), sete meses antes do acidente.

Restabelecendo-se, a notoriedade foi acrescida. Entrevistas, palestras e mais livros surgiram. Seria possível entender que a etapa das grandes e perigosas aventuras, quase sempre só pela imensidão deste planeta, propiciou ao aventureiro hiper inteligente, a descrição dos locais percorridos com o olhar do observador atento, para quem o mínimo pormenor interessava. O solilóquio teria possibilitado o afloramento da narrativa criadora. Confessaria que foi longo o período de grandes riscos. Em L’Axe du Loup (blog 28/05/2011), Éloge de l’Énergie Vagabond (blog 16/03/2013) e Dans de Forêts de Sibérie (blog 01/03/2014), Tesson revelar-se-ia por inteiro, mormente nesse último livro. O isolamento em cabana às margens do lago Baikal em pleno inverno fez aflorar o de profundis em tantas passagens. Após o acidente houve transformações. Em Berezina – en side-car avec Napoléon (blog 10/06/2017), vemo-lo em extraordinária aventura não solitária, mais como um narrador que presencialmente, durante o longo percurso, conta a trágica retirada de Napoleão de Moscou em direção a Paris. Em outra aventura, atravessou transversalmente a França do sudeste ao noroeste, por vezes acompanhado por amigos. Se sob um aspecto essa narrativa tem interesse em Sur les Chemins Noirs (blog 03/02/2018), sob outro há a insistência na revisita ao trauma sofrido. O lançamento de Notre-Dame de Paris – Ô Reine de Douleur (blog 06/07/2019) atenderia a nítido interesse editorial, logo após o lamentável incêndio. Mas há uma revelação: Sylvain Tesson se converte, ele que incontáveis vezes subiu até as torres da catedral, certamente seu local emblemático. Calaram-lhe fundo as chamas destruidoras. Un été avec Homère (07/09/2019), após estadia no Mar Egeu, é reverência in loco, àquele que Tesson considera como o maior poeta da História.

Une très légère oscillation (France, Équateurs, 2017) é escrito em forma de diário, que se estende de Janeiro 2014 à primavera de 2017. Diário arguto que perpassa as observações do autor que, nesse período, escreve sobre política francesa, Estado Islâmico, incontáveis viagens pela Europa e Extremo Oriente, percursos “mais responsáveis”, quase todos por via aérea, naturalmente. O Diário tem a riqueza de não ser monotemático. O multidirecionamento do pensar leva Tesson, por vezes, a se fixar em aforismos, muitos deles tendentes à reflexão.

Observação sarcástica em um de seus apontamentos: “Devido ao emburrecimento ao qual é levado aquele que mergulha nos programas televisivos, é saudável saber que a invenção da telinha veio após as conquistas da agulha de costura ou da imprensa, cujas respectivas descobertas não teriam sido possíveis se a televisão tivesse preexistido”. Não poupa a internet: “Os propagandistas da internet me deixam atordoado. Que talento! Eles chamam de ‘novas tecnologias desmaterializadas’ esses aparelhos que nos deixam encoleirados, nos domesticam, nos hipnotizam”. A crítica à tecnologia levada ao excesso, estende-se à observação que tira da legião de turistas a fotografar a Torre Eiffel: “Não mais haverá narrativas de viagem, ninguém recebe o espetáculo diretamente. O que farão com todas essas imagens que roubam a possibilidade de uma emoção orgânica? Pode-se lá meditar acionando as teclas dessas engenhocas? Que mal o mundo fez para que seja fotografado dessa maneira? Só as crianças, os velhos e os pássaros olham com seus próprios olhos. São os únicos que guardarão recordações”. Estou a me lembrar de minha primeira visita ao Louvre no final de 1958. Determinado momento estava em frente à Monalisa. Fiquei a olhar meio decepcionado, mercê de tamanha divulgação que a obra de Leonardo da Vinci granjeou e granjeia. De repente assustei-me com um barulho de passadas rápidas e barulhentas. Eram turistas japoneses que ficaram em frente ao quadro, tiraram fotos em segundos e retiraram-se como haviam chegado, ruidosamente. Tesson ainda afirmaria: “O que é o progresso tecnológico? É o progresso, em nós, da certeza de que temos necessidade crucial de coisas inúteis”. Apesar de posições por vezes radicais, aos 47 anos Tesson, apreenderia a realidade, a entender que a essência da absorção das tecnologias, verdadeira hipnose em processo extremamente rápido, faz com que o surgimento de outras, mais avançadas, induza à continuação do estado hipnótico. Nada a fazer.

Ao comentar diferenças entre a cinematografia americana e russa, observa: “O filme americano implanta suas proezas técnicas. O filme russo substitui a falta de meios pela profundeza do tema. Para o primeiro, o espetáculo, para o segundo, o propósito. Um se prende aos efeitos especiais, o outro tece reflexões sobre as causas (da dor). A intensidade de uma obra não reside no fato do acúmulo da alta definição: ainda precisa haver algo a ser alcançado nesse mister. Na literatura, a preciosidade de uma caneta tinteiro não resultará em uma obra-prima. No cinema, nenhum drone elevará o valor de um filme”. Nessa temática, em outro apontamento do diário, Tesson observa: “As árvores são ‘pessoas’, como dizia Derzu Uzala, o pequeno caçador da Sibéria Oriental tornado eterno herói pelo escritor Vladimir Arseniev”.

No Diário, alguns aforismos têm interesse:

O único inconveniente do desaparecimento da humanidade é que não haverá ninguém para se alegrar pelo acontecimento.

Vantagem do alpinista: no cume, não temos vergonha de dar meia-volta.

Poluição: hálito das massas.

“Revolução Cultural” deveria ser um pleonasmo.

Outono, o perigo amarelo.

Internet: arma de fogo nas mãos de uma criança.

Paradoxo: não sou capaz de me autocriticar.

Suíça: teria medo de viver em um país com prefixo do suicídio.

Saara: viver num país onde há todas as razões para se enforcar e nenhuma árvore para fazê-lo.

Álcool: Depois da crise epilética, fui proibido de beber. Na realidade não queria me embebedar, mas regar a alma, essa planta tão vivaz.

O Diário de Sylvain Tesson, iniciado meses antes do acidente, estendendo-se de Janeiro de 2014 à primavera de 2017, tem forte dose de ironia arguta, de um pofiguismo, palavra russa tão utilizada pelo autor em obras anteriores e não no presente livro, sem tradução para o francês, tampouco para português. Segundo ele, “designa uma atitude face ao mundo absurdo e à imprevisibilidade dos fatos”. Quase todos os temas recorrentes nesse debruçamento sobre si mesmo, após atenta observação, reiteram seu discurso cáustico tantas vezes, outras tantas de humor singular. Deu-me prazer a leitura.

Um amigo me enviou, de Paris, La Panthère des neiges, livro de Sylvain Tesson publicado em Outubro de 2019 pela Gallimard. Postado àquela altura, não chegou às minhas mãos. Sobre livros e CD não recebidos, mercê de nossos correios, comentarei no próximo blog. Uma lástima.

Comments on the book “Une Très Légère Oscillation”, written from 2014 to 2017 by the adventurer, geographer and writer Sylvain Tesson. Written as a journal or diary entries, Tesson muses over a variety of issues, such as  French politics, the Islamic State, consumerism, technological society, travel stories. A varied menu presented with Tesson’s usual originality, sharpness, irony, and also humor, particularly in the aphorisms section. It gave me pleasure to read it.

 

 

A austeridade a serviço da interpretação excelsa

 

Creio que os mais árduos estudos, o talento mais autêntico
e a aplicação mais séria não bastam,
se a vida inteira não for orientada na direção da meditação.
Edwin Fischer

Foram dois episódios que corroboraram a atenção maior a esse grande pianista, mestre e regente. Estudava em Paris e, ao completar 21 anos, amigos que trabalhavam no escritório de uma grande empresa de matérias-primas para a indústria da perfumaria, da qual meu pai era representante em São Paulo, o que fez com que eu morasse durante meu estágio no andar superior, com direito a um piano e uma sala de banho, ofereceram-me um LP com a gravação de Edwin Fischer do Concerto nº 5 (Imperador) para piano e orquestra de Beethoven. Almoçava com os funcionários da empresa na cantina do escritório. Momentos a não serem esquecidos. O LP, ouvido inúmeras vezes na interpretação extraordinária de Edwin Fischer, estimulou-me a estudar o Concerto, o que o fiz sob a orientação do ilustre pianista e professor Jean Doyen.

Em uma segunda oportunidade, o ilustre pianista português Sequeira Costa, com quem também estudei na capital francesa todos os Estudos de Chopin, louvava constantemente um de seus mestres, Edwin Fischer. Quando no Porto para recital violoncelo-piano com Madalena Sá e Costa (07/01/1986), sua irmã, a notável pianista e professora Helena Sá e Costa, falou-me com ênfase das qualidades inalienáveis de seu mestre Edwin Fischer.

Nascido na Suíça, Edwin Fischer foi um dos mais destacados pianistas de seu tempo, numa linha diferenciada dos grandes pianistas românticos. Cultor de J.S.Bach, afirmou sobre a obra do compositor: “É o logos, a última destinação de todo ser que se incarna em suas composições. Como um homem pode criar uma tal totalidade, alguma coisa tão definitiva e também tão atemporal?”

Edwin Fischer foi um árduo crítico daquilo que se chamou “estilo de época”, mormente em relação à interpretação das obras originalmente escritas para cravo, mas executadas ao piano. Entrevistado por Bernard Gavoty (Edwin Fischer – Les Grands Interprètes. Genève-Monaco, René Kister, 1954), Fischer expõe o que pensa: “Não a um Silbermann (cravos do século XVIII) em detrimento daquilo que vos oferece um Steinway (piano de concerto); não exija de uma pluma, que arranha um fino fio de aço, a sonoridade generosa e redonda de um martelo feltrado interrogando docemente uma corda enrolada por cobre, com dois metros de extensão e esticada sobre uma tábua harmônica longa como uma mesa de cozinha”. Como regente corroborou a divulgação das obras de J.S.Bach.

Clique para ouvir a Fantasia cromática e fuga de J.S.Bach, uma das mais emblemáticas criações do Kantor para teclado. Edwin Fischer realiza uma extraordinária interpretação ao piano, austera, mas não desprovida de grande intensidade emotiva. O tratamento amplo da dinâmica na fantasia e o rigor no tratamento e na condução das vozes na fuga atestam a presença do Grande Mestre do teclado.

https://www.youtube.com/watch?v=KhkYxELjVq0

Edwin Fischer também se tornaria intérprete referencial das obras de Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann e Brahms. Ao longo dos 13 anos de blogs ininterruptos, quando abordo aspectos interpretativos, saliento sempre que são as execuções desses grandes mestres do passado que, imbuídos da tradição, repassam-na aos pósteros. Continuo crítico às interpretações plenas de artifícios nessa civilização do espetáculo que privilegia a cena, o gestual, a expressão facial em “êxtase” e repleta de contorções. Câmeras acompanham os mínimos movimentos. Não seriam esses elementos, por si só, fatores essenciais de um descuido daquela que deveria ser a primordial preocupação, a passagem fiel da mensagem?

Neste ano em que se comemoram os 250 anos de nascimento de Ludwig van Beethoven, transcrevo texto basilar de Edwin Fischer de como penetrar em seu universo sonoro: “Achar-me-ão talvez presunçoso, mas tenho a impressão que nos tornamos muito refinados, muito cultivados! Sabemos hoje de maneira precisa como Beethoven queria que se fizesse isso ou aquilo. Temos edições nas quais há três páginas de explicação para uma página de música. Somos capazes de distinguir o Beethoven que ouvia daquele já surdo… Tão sábios! Não obstante, os vulcões que o atormentaram no seu trabalho de fazer nascer, os sóis que o iluminaram, os gritos que despedaçaram seu coração – tudo isso não mais nos emociona. Todavia, é justamente nessa direção que é necessário buscar as fontes da interpretação. Esqueça o piano, esqueça o estilo, a educação, o saber e busque Beethoven! Transforme seu piano em órgão, em violino, em instrumento de sopro, em tímpano – mas, sobretudo, faça com que ele cante! Conduza à luz viva todo o mundo mergulhado no império das sombras! Deixe-se levar ao reino da imaginação, onde habita o espírito de Beethoven!”

Clique para ouvir a Sonata nº 8, op 13 de Beethoven (Patética):

https://www.youtube.com/watch?v=wSCUmAgp4Ms

Ouvindo-se as gravações de Edwin Fischer da maturidade ficaria transparente sua observação sobre esse estágio, respondendo a uma pergunta de Bernard Gavoty, que ouvira o pianista ao vivo como solista do Concerto nº 4 de Beethoven: “Mudamos com a idade! Se você me ouvisse na minha juventude – tempestuoso -, certamente teria dado risada! Um dia, Richard Strauss apontou meu erro, reprimindo-me pelo fato de não tocar sobriamente o começo desse Concerto e delicadamente observou: ‘Porque tanta empolgação? Deixe apenas seu cartão de visita…’ Compreendi desde então”.

Quanto a Mozart, Fischer tinha real prazer de tocar suas obras quando recebia amigos íntimos.

Seria contudo, de maneira maiúscula, a presença das criações de J.S. Bach não apenas em sua atividade pianística como também na de regente de mérito. Foi o primeiro a gravar a integral do Cravo Bem Temperado nos anos 1930 e até nossos dias seu trabalho tem-se mostrado modelo de absoluta apreensão dos 48 Prelúdios e fugas que compõem os dois livros da monumental obra.

Entre seus alunos, destacam-se: Thierry de Brunhoff, Daniel Barenboim, Paul Badura Skoda, Reine Gianoli, Évelyne Crochet e Alfred Brendel. Este último confessaria que foi Edwin Fischer quem mais o influenciou.

Bernard Gavoty, nesse convívio com Edwin Fischer, escreve suas conclusões: “Felicito-o por não ser um virtuose como os outros, quero dizer, um caixeiro viajante que faz a volta ao mundo com sua valise de amostras à mão. Felicito-o igualmente pela dedicação que concedeu à música de câmara, a esse repertorio sublime, diverso e inesgotável. Ao sucesso, você preferiu a glória de seus deuses eleitos; ao seu repouso, a alegria do público. Você é pródigo no meio de parcimoniosos; puro em uma época onde prepondera a habilidade; lírico em um tempo em que nos sentimos estéreis; grande em um século onde se vê pequenez… É bom, é bonito.”

De minha parte, sempre admirei esses mestres do passado que entenderam, guardando as inerentes individualidades, que a interpretação tem continuidade através da observância da tradição. Como metáfora, poderíamos entender as rupturas que se têm acentuado nessa civilização do espetáculo, como barragens a alterar o curso natural de um rio com consequências imprevisíveis. E estas já se mostram. Contudo, ainda há aqueles que preservam a tradição, caminho seguro para conhecermos a origem originária de um determinado período da história da composição e de seus criadores.

Nesses tempos terríveis do COVID-19, ouvir interpretações desses mestres, que mantinham uma relação distinta com a música, é um bálsamo para o espírito.

The Swiss-born pianist and conductor Edwin Fischer (1886-1960) is one of the most celebrated classical musicians of the 20th century, an outstanding interpreter of Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Shumann and Brahms. His complete recording of Bach’s The Well-Tempered Clavier is to date considered exemplary. Fischer’s concern has always been to show the brilliance of the composers he played rather than his own. As for me, I’ve always admired the austerity of the great masters of the past, respectful of tradition and the inner spirit of the music they were playing.