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Europam, partimque Asiae, Libyaeque per urbes
Saeviit: in Latium vero per tristia bella
Gallorum irrupit: nomenque a gente recepit.
Nec non et quae cura: et opis quid comperit usus,
Magnaque in angustis hominum sollertia rebus;
Et monstrata Deum auxilia, et data munera coeli…
Girólamo Fracastoro
(“Syphilis sive morbus Gallicus”, 1530)

A doença subjugou a Europa, espalhou-se pelas cidades da Líbia
e irrompeu no Lácio pelas terríveis guerras gaulesas,
recebendo por isso o mesmo nome desse povo. Sim, e agora?
Qual o tratamento, como combater a doença
e as angustiosas decepções dos homens;
como nos socorrermos dos deuses e dos favores dos céus? (Tradução livre)

O post anterior suscitou inúmeras mensagens. Geralmente curtas, todas, sem exceção, enfatizaram a temática escolhida pelo ilustre médico e escritor Heitor Rosa, como questionaram o “paradeiro” da edição, não encontrável em livrarias. Soube que a Livraria Cultura, via internet, é um caminho. Como estarei em Goiânia no fim deste mês para curso e recital na Universidade Federal de Goiás, encontrar-me-ei com Heitor Rosa e poderei transmitir, àqueles que me enviaram mensagens, esclarecimentos sobre “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” e “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016).

Transcrevo inicialmente a mensagem de Heitor Rosa. Foi-me importante, pois receber a opinião do autor é sempre estimulante, seja ela boa ou má. Neste caso leva ao aperfeiçoamento; naquele, ao estímulo para prosseguir.

“Vi, fascinado e imensamente alegre, seu generoso comentário sobre o Cirurgião-Barbeiro. Não adianta esconder o ego inflado provocado por uma pessoa tão excepcional e importante como você. Parece que todo o sacrifício de escrever e publicar desaparece quando me vejo como motivo de tão distinta honra no seu blog, assim como uma análise comovente. Obrigado mil vezes. Agora, vou confessar-lhe um segredo sobre um momento muito importante da história, para mim, que foi o desfecho de Helena. Como você leu, ela se feriu no pé, e a consequência foi a causa de sua doença. A descrição de seu sofrimento e posição no leito correspondem fielmente ao tétano (arqueamento do corpo, espasmo muscular etc). Pesquisei longamente como a doença era interpretada na época…(coisa do demônio). Sofri muito em castigar minha heroína e dar-lhe tal destino. A cena toda me tomou muito tempo, vários dias, pois precisava de um cenário dramático. Só depois de ouvir, altas horas da noite, o Requiem de Fauré consegui enxergar a cena. Não me foi fácil…mas quando escrevemos não somos donos da história ou dos diálogos. Você deve saber disso melhor do que eu…os mistérios da composição ou da interpretação. Obrigado mil vezes por sua cumplicidade na minha obra. Não sei bem como agradecer. Seu, fraternalmente, Heitor”.

Como o faz com absoluta assiduidade, o que me honra muito, o notável pensador e compositor François  Servenière me enviou informações preciosas sobre a atividade do cirurgião-barbeiro, reportando-se igualmente à prática farmacêutica ontem e hoje e à função precípua de um especialista da área em período relativamente recente, a não ultrapassar um século, assim como às transformações aceleradas por que passa a sociedade como um todo.

A mensagem de François Servenière testemunha a qualidade temática escolhida por Heitor Rosa, o arguto conhecimento do médico-escritor goiano no que concerne à prática e ao tratamento, mormente no período medieval, assim como o desenrolar da trama do romance baseada em tantos fatos reais. É-me sempre prazeroso divulgar as posições de Servenière relativas ao post da semana. Músico e pensador de alto nível, suas mensagens enriquecem não apenas o blog, mas trazem uma diferente luz aos temas abordados. Escreve:

“Li com atenção seu artigo sobre o livro de Heitor Rosa. Evocou-me numerosas reflexões. Adoro esse universo literário que reporta aos períodos ancestrais da medicina de campo, através dos cirurgiões-barbeiros, associação que se nos afigura hoje iconoclasta e quase sacrílega pelos que mantêm a arte médica.

Primeiramente, não me lembro de ter ouvido falar da sífilis como o Mal Francês e que o autor do terrível nome que se propagou era o célebre Hieronymus Fracastorius… Mal Francês ou sífilis, títulos de glória ou triste reputação no país do Marquês de Sade!!! Você me lembrou em seu blog. A cultura francesa é aquela do amor cortesão, mas o francês tem a reputação de sedutor vil e de marido  volúvel. Reputação confirmada pelas aldrabices de nossos políticos, a cem léguas do puritanismo dos peregrinos, os pilgrim fathers. Não obstante, italianos, espanhóis e portugueses não têm a invejar a propensão latina na arte da sedução.

Segunda lembrança evocada após seu artigo relaciona-se à música, que compus em 1993-1994 para o programa da France Télévision, ‘Au coeur des toiles’ (http://www.esolem-production.com/acd2list.html). Na lista de pinturas consagradas que deveriam ser ilustradas musicalmente figurava uma obra prima, ‘O tira-dentes’, de Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), pintura de 1754. Fui buscar minhas leituras nesse universo dos cirurgiões-barbeiros, ascendentes dos dentistas-cirurgiões (enfermeiros, cuidadores…) que, em suas épocas, eram socialmente respeitados, pois manuseavam o bisturi e a navalha com rara habilidade, sabiam igualmente ‘impor as mãos’ e, sobretudo, eram psicólogos natos e conhecedores dos enigmas da alma humana. Adeptos bem anteriores dos princípios do Método Coué”. Servenière refere-se ao  Método decorrente dos trabalhos do psicólogo e farmacêutico francês Émile Coué de la Châtaigneraie – 1857-1926. O método está fundamentado na sugestão e auto-hipnose. Prossegue Servenière: “Apreendi um detalhe instigante das práticas contidas no Método e que nós quisemos reproduzir musicalmente no audiovisual citado anteriormente. Na verdade, quando o barbeiro apertava o dente que deveria ser extraído, esse agora prático tira-dentes ordenava aos seus músicos, sempre presentes nesses lugares, que tocassem mais forte até o clímax, momento em que decidia extrair de um só golpe seco o dente condenado. Na verdade, esse aumento de volume sonoro prestava-se a duas coisas essenciais. Primeiramente, permitia ao ‘cirurgião’ desviar a atenção do paciente, pois ele operava em público sobre um estrado, no meio da praça do mercado. O paciente não mais focalizava suas dores e o pós-operatório, tampouco o stress de sua exposição pública sujeita à gozação nessa cena de ‘cinema’, pois pensava em outra coisa, descontraía-se e seu stress caía. Ao mesmo tempo, a música permitia ao auditório saber que o evento principal estava por acontecer. A música desempenhava a função de ilusão e de ilustração, como nas sessões de magia, com uma dramaturgia indo em escala ascendente até o auge.

Outra reflexão. Mais avanço em seu texto, mais ele evoca reminiscências que remontam à tradição familiar. Meu avô criava sanguessugas para fins medicinais, pois elas eram atração em sua velha farmácia (anexo foto). Meu pai e meu avô foram herboristas renomados. Essa tradição perdeu-se pouco a pouco, mercê do surgimento dos laboratórios farmacêuticos multinacionais que iriam doravante buscar muitos de seus princípios ativos na imensa floresta amazônica de seu Brasil. A tradição europeia do medicamento e do herborista se esvai gradativamente no Ocidente, apesar de ainda ser ensinada. Todavia, a caixinha de comprimidos amputou seriamente o saber do apotecário, que perderia por sua vez sua curiosidade campestre ancestral!!! O jovem farmacêutico não mais faz longas vigílias, muito menos ‘colheitas’ nas zonas rurais. Milita pelas 35 horas e se satisfaz com a situação salarial, como examinador de receitas médicas e vendedor de caixas de remédios. Menciono esses fatos, pois há membros de minha família que mantêm profissões ligadas ao tema que desenvolvemos e, para exemplificar: irmã, tio, tias, primos… Com a música e sua vasta área, temos duas particularidades importantes de nossa cultura familiar, que remonta a mais de um século!!! Diria que a propensão vital é o contato preservado com a natureza! A antítese niilista é a ignorância e a viagem em direção ao vazio do pensamento. Os limites do homem são apenas internos, psicológicos, como nós dois sabemos.

Adorei a frase latina primum non nocere (‘antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’), atribuída a Girolamo Fracastoro. Há alguns anos li o extraordinário livro de um escritor inglês sobre a peste que grassou no século XIV e que ceifou 1/3 da população europeia, que era constituída por cerca de 30 milhões de indivíduos.

Obrigado pelo post soberbamente interessante em torno do livro de seu amigo Heitor Rosa. Fez-me ativar lembranças que não se apagam”. (tradução: JEM).

Last week’s post, about Heitor Rosa’s novel “Memories of a Barber-Surgeon” got much feedback. I publish two of the messages received. The first —a great honor— from the author himself, who sends his thanks for the post and takes the opportunity to clarify us on the destiny of one of the characters of the book. The second, by the always thought-provoking French composer François Servenière, who talks about the memories the reading arouse in him, born in a family of pharmacists, and on how the tradition of herbalists has been lost in the era of great pharmaceutical labs.

 

 

 

Um romance sedutor de Heitor Rosa

Mas não se trata de um trabalho científico, acadêmico;
o que temos aqui é um romance que prende o leitor
da primeira à última página.
Moacyr Scliar

Girolamo Fracastoro (1478-1553), também conhecido pelo nome latinizado de Hieronymus Fracastorius, foi uma das mais notáveis figuras de seu tempo. Médico, humanista, poeta e filósofo italiano, Fracastoro ficaria imortalizado por suas teorias racionais sobre as doenças contagiosas que grassavam no período. O nome sífilis, difundido na época como Mal Francês vem de um de seus poemas, “Syphilis, Sive Morbus Gallicus”, de 1530. Também se debruçou sobre a peste que ceifou porcentagem altíssima das populações europeias. Deve-se a ele estudos sobre o tifo. Como astrônomo, publicou em 1538 o importante “Homocentricorum Sive De Stellis Liber”.

Resenhei há semanas o livro do médico e escritor goiano Heitor Rosa, “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016). Heitor Rosa não é apenas professor e gastroenterologista respeitado, mas também escritor de reais méritos. Pesquisador da medicina antiga, mormente a do fim da Idade Média e início da era Moderna. No blog mencionado inseri alguns dos aprofundamentos de Heitor Rosa quanto às práticas medicinais do período, tratamentos habituais onde não faltavam ervas, sementes, poções advindas dos lugares mais distantes da Terra e que, misturadas ou não, produziam lá seus efeitos paliativos. Sangrias eram comuns, a sanguessuga habitualmente utilizada.

Li com enorme interesse “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Rio de Janeiro, Bertrand, 2006), romance de Heitor Rosa. O título já é intrigante. A classe de cirurgião-barbeiro era respeitada nas comunidades. Sem o título de Doutor, o cirurgião-barbeiro desempenhava função fulcral nas cidades. Lembraria ao leitor que, em termos brasileiros, nos séculos XVIII e XIX o barbeiro desempenhava em rincões do país igualmente a função de dentista, verdadeiro “tiradentes”. A extração nos casos necessários era realizada após ingestão “anestésica” de cachaça.

O narrador criado por Heitor Rosa, Gioacchino dalla Rosa, torna-se cirurgião-barbeiro, a mesma profissão de seu pai, estuda as práticas em Londres, regressa a Verona e dá-se o encontro com Fracastoro: “Em certa manhã de maio, enquanto amolava as navalhas, ele apareceu, pedindo-me para aparar a barba e o bigode. Impossível esconder o susto. Diante de mim, encontrava-se o homem mais popular, querido e respeitado de Verona, Girólamo Fracastoro. O mais sábio”. O médico convida-o para ser seu assistente nas tantas tarefas a visar ao combate ao Mal Francês (sífilis) que assolava a Europa. Apresenta-se atrasado no dia seguinte em casa do ilustre Fracastoro, pois a cidade estava atônita com a morte de dois jovens, Romeu e Julieta!!! Fracastoro o repreende pelo atraso e doravante Gioacchino tornar-se-ia fiel auxiliar.

O romance ganha “fidelidade” em todas as narrativas nas quais procedimentos médicos, tratamento, preparação de medicamentos estão em causa. Heitor Rosa, que durante seus estudos de medicina em França e na Inglaterra interessou-se pela temática a envolver os séculos XIV a XVI, assimilou conhecimentos imprescindíveis para dar às memórias do cirurgião-barbeiro a mais abrangente “autenticidade”. Gioacchino acompanha determinados tratamentos ministrados por Fracastoro e ganha o leitor ao conhecer procedimentos empregados pelo notável médico italiano. Nos incontáveis diálogos médico-assistente, Heitor Rosa tira de Fracastoro conceito relativo à moléstia e ao tratamento: “… a moléstia é pior do que o tratamento; viste alguém morrer dele? Garanto, entretanto, que não tens a conta dos mortos pela doença. Por acaso achas que desconheço o princípio de primum non nocere? ‘Antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’. É um aforismo de Hipócrates”. Basicamente a temática gira em torno da sífilis, o Mal Francês.

Católico, Fracastoro frequenta as mais distintas autoridades eclesiásticas, devido a sua sapiência médica. Esse tema é bem conduzido pelo autor e a narrativa feita por Gioacchino acompanha Fracastoro em visita privada ao Papa Paulo III. Comparece ao Concílio de Trento. A probabilidade de a peste atingir a cidade causa um imbroglio muito bem administrado por Heitor Rosa.

Uma das maiores virtudes de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” é a sequência fidedigna. Percebe-se claramente que o autor buscou estudar pormenorizadamente a vida, os atos, a obra e os caminhos percorridos por Girólamo Fracastoro. Segui-lo em sua biografia, entrando em cena através de fértil imaginação e criatividade, foi consequência positiva. Trazê-lo aos nossos dias com o pleno conhecimento do personagem que desfilou sua competência a mais de meio milênio é tarefa difícil. Qualquer deslize inviabiliza a trama imaginária calcada na realidade vivida. Não fosse Heitor Rosa um respeitado profissional na área médica, teríamos inconsequências.

Não poderia faltar um relato amoroso. Gioacchino torna-se confidente de Fracastoro e segue a paixão do médico pela bela Helena que morreria após doença igualmente incurável àquela altura – tifo, peste, raiva?

Sob égide diferenciada na condução das tramas, não há como não associar “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” ao romance, igualmente abordando o período medieval, “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. Se o autor italiano encaminha a narrativa em área de seu domínio, Heitor Rosa, de maneira quase professoral, ensina-nos uma parcela da história da medicina através não apenas das reflexões do narrador, como a partir dos inúmeros diálogos com o mestre e médico sobre a origem das doenças que levavam à morte, por vezes, populações inteiras.

Como bem escreve o médico e escritor Moacyr Scliar (1937-2011) nas orelhas do livro: “Através de sua narrativa, somos introduzidos a um capitulo verdadeiramente extraordinário na história da medicina e da humanidade. Aprendemos, portanto, e aprendemos com emoção e prazer. Pelo que só podemos dizer a Heitor Rosa: ‘Obrigado, doutor’. Ah, sim, e ‘obrigado, escritor’ “.

Reitero o que escrevi na resenha de “O Enigma da 5ª Sinfonia”, pois os livros de Heitor Rosa deveriam ser divulgados através de nossas livrarias. Oxalá isso ocorra.

Today’s post is my appreciation of the book “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Memories of a Barber-Surgeon), written by the Brazilian doctor and University teacher Heitor Rosa. Intertwining historical and fictional characters, the story focus on the life of the Veronese doctor Girolamo Fracastoro (1478-1553) and his research on syphilis. Narrated by Fracastoro’s fictional assistant , Gioacchino de la Rosa, the enrapturing plot — with its historical truth solidly documented – makes readers dive into the ambience of 16th century Europe, unveiling its religious ideas and medical practices.

 

 

Heitor Rosa e seus contos hilariantes

Então
os sinos irromperam
de alegria
no teu místico voo.
Idalete Giga
(“O Canto da Palavra”)

Heitor Rosa, um sábio, antes mesmo de ter enveredado pela literatura. Professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade de Goiás, ocupou cargos acadêmicos relevantes. Renomado hepatologista brasileiro e autor de inúmeros artigos significativos para publicações científicas de sua área, Heitor Rosa não se restringiu unicamente à medicina. O imaginário, após os horários de uma atividade profissional que prossegue exitosa, levou-o a viagens as mais extraordinárias pela história das práticas médicas, tratamento e posologia. Estudou profundamente ervas e poções utilizadas, mormente  a partir da Idade Média. A sabedoria de Heitor Rosa expande-se de maneira elástica, chegando às práticas mais hodiernas da medicina.

Considere-se que parte considerável desse precioso acervo, que corrobora o conhecimento acumulado durante séculos, encontra-se empoeirada em quantidade enorme de compêndios sobre procedimentos médicos  variados, que permanecem quase sem visitação nas Bibliotecas espalhadas pelo mundo. O desconhecimento e a não frequência a essas raridades tornam inviáveis, na atualidade, compreendê-los em sua abrangência graças à diminuta divulgação. Antolha-se-me que, em  quase todas as áreas, o descaso pelo passado oblitera irremediavelmente a análise precisa do presente.

Conheci Heitor Rosa em Goiânia. Quando na cidade para recitais ou curso estudo em seu apartamento, no piano diariamente frequentado por sua esposa, a professora da Escola de Música e de Artes Cênicas da UFG, Consuelo Quireze Rosa. Conversas com o prezado amigo são riquíssimas nas tantas temáticas abordadas, pois não temos limites nesses diálogos prazerosos. Escritor dos bons, ofereceu-me há anos dois livros referenciais, “Memórias de um Cirurgião Barbeiro” (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2006) e “Julgamento em Notre Dame” (São Paulo, Livronovo, 2009). O primeiro, já lido com todo interesse, espero resenhá-lo ainda neste ano. Nesta última viagem a Goiânia, para participar do VIº Simpósio de Musicologia promovido pela EMAC-UFG, presenteou-me com livro bem anterior, “O Enigma da 5ª Sinfonia” (São Paulo, Ecrituras, 2000).

O debruçamento de Heitor Rosa sobre práticas cirúrgicas, processos de manipulação de medicamentos e instrumental utilizado enriqueceu seu imaginário. Seria possível também entender que as ideias concernentes às narrativas tenham estimulado a pesquisa. Há sempre mistérios a envolver a criação.

Em “O Enigma da 5ª Sinfonia” Rosa apresenta contos, por vezes hilariantes e plenos de humor. Essa alternância conduz o leitor à vontade de continuar a penetrar nas histórias que se sucedem. Frise-se, o médico consagrado está presente em muitos dos contos, não fisicamente, mas a  transmitir seu conhecimento da história da medicina, aplicando-o aos vários personagens, alguns grandes figuras do passado, em situações relativas aos possíveis males que porventura tenham sofrido.

Pleno de humor, o conto “Fiat Lux”, a envolver um suposto cálculo na bexiga de Sir Isaac Newton (1642-1727). Jocoso o fantasioso diálogo com o médico instado a consultá-lo em 1726, mercê de hipotética incontinência urinária do notável cientista, matemático, físico, filósofo, astrônomo, teólogo e alquimista. Insiro parte dessa conversa:

“- Sire, estou certo de que tendes cálculos.
- Isso todo mundo sabe, eu vivo de cálculos. Não vieste de tão longe para dizer-me isso.
- Quero dizer na bexiga…
- E é grave?
- Com mais observação posso calcular a gravidade.
- Não sejais pretensioso. Quem calcula a gravidade sou eu e já fiz isso há vinte anos atrás.
- Está bem. Vou fazer uma fórmula para os vossos cálculos e ficareis sem dores.
- Não. Vós não entendestes nada. As fórmulas resultantes dos meus cálculos já foram publicadas. Sabeis realmente quem sou?
- Acho que quem não entendeu fostes vós, senhor. Estou querendo segredar-vos que tendes uma pedra…
- Se viestes aqui pensando que eu tenho o segredo da pedra filosofal, estais perdendo o vosso tempo, amigo, e sendo impertinente.
- Sois obsessivo, senhor. Desde que aqui cheguei não me deixais concluir o pensamento,  pois há vários minutos tento dizer que tendes uma pedra na bexiga e quero formular um remédio para vossas dores.
- Por que não dissestes claramente? Por vezes eu não sei distinguir as leis da minha natureza daquelas da natureza universal e posso confundir as palavras”.

No desenrolar do conto em apreço, Heitor Rosa demonstra todo um conhecimento das práticas  e medicações àquela época empregadas.

Não menos hilariante o conto que empresta título ao livro, “O Enigma da 5ª Sinfonia”. Partindo de um pequeno tratado sobre percussão clínica de 1761, de autoria do médico austríaco Leopold Auenbrugger, Rosa percorre algumas décadas e “está” em Viena a narrar o diálogo de  médicos a respeito do precioso tratado e o diagnóstico que poderia advir em doenças do tórax e do abdome. Enfim, ei-los diante de Ludwig van  Beethoven (1770-1827), que estaria a sofrer de problemas no abdome. Novamente transcrevo segmento do conto em que o suposto Dr. Rosen (!!!) demonstra o cuidado que levaria ao diagnóstico:

“Minha mão esquerda estava espalmada sobre o abdome, enquanto que um dedo da mão direita martelava firme e ritmicamente sobre um dos dedos espalmados. Os sons iam aparecendo e mudando de timbre à medida que novas áreas iam sendo percutidas. O som maciço nos flancos denunciava uma provável presença de hidropisia, enquanto que do centro da barriga ecoavam os sons de um tambor, acusando a presença de gases nos intestinos. Percuti novamente a área e fui subitamente interrompido por uma ordem imperiosa e angustiada.

- Pare! disse Beethoven. Pare, não quero mais sentir este som.
- Perdão, mestre, não tive a intenção de provocar-lhe dor.
- Eu não estou sentindo dores… Ou melhor, minha dor é outra. Eu disse que não quero mais sentir os meus sons.
- O senhor quer dizer que ouviu os sons?
- Não, para ouvir os meus sons eu não preciso escutá-los.
- Não entendi. Mas por que devo interromper o exame? Não compreendo…
- O senhor não sabe e nem deve compreender. Oh! Deus, estas batidas, estes sons batendo à minha porta. É assim que o destino bate à porta?
- Bem, eu não sei… mas não tinha a intenção de incomodá-lo.
- Não é o senhor que me incomoda, é o destino.
- Mas o que tem o destino a ver com meu exame?
Pareceu-me que ele delirava, tal a reação incontrolável que minhas pancadinhas provocaram no mestre.
- Basta, doutor Rosen O senhor não sabe o que está dizendo e nem vou explicar-lhe.
Beethoven vestiu a sua camisa e sem uma palavra dirigiu-se ao piano na sala contígua, sentou-se e decididamente tocou: Sol, Sol, Sol, Mi bemol”.

O narrador, Dr.Rosen, demonstra seus conhecimentos ao transcrever a receita adequada: “Prescrevi-lhe uma poção de ratânia, para tomar às colheradas, e gotas de ipecacuanha. Valeram-me os medicamentos que trouxera de Paris. A medicina francesa enriquecera-se bastante com o conhecimento médico das plantas exóticas com propriedades medicinais, trazidas das mais remotas regiões da terra; essas novas aquisições e suas formulações já podiam ser estudadas na Pharmacopée Royale Galenique et Chymique“. As inúmeras viagens ao Exterior, inclusive estágios prolongados em centros médicos renomados, foram essenciais a Heitor Rosa em seus aprofundamentos sobre a história da medicina.

O conto se desenrola e, para a primeira audição da “Quinta Sinfonia”, o Dr. Rosen foi convidado. Ficaria extasiado ao ouvir o “resultado” das suas batidas percussivas no abdome do compositor e… revindicaria a coautoria temática.

Gargalhei durante a leitura do conto “Regresso ou regressão?”, no qual um comerciante com total idiossincrasia por voos enfim consulta um psicanalista. Todo o transcorrer da narrativa em que o consultado Saul Divino é tratado pelo médico Godofredo, as regressões através do hipnotismo que o levam primeiramente aos tempos de Santos Dumont e, numa segunda sessão, aos de Leonardo Da Vinci, são simplesmente de imensa imaginação.

O auto,  “O achatamento do monte Paschual”, peça em um ato, apresenta com a comicidade necessária e com o conhecimento histórico prévio de Heitor Rosa, a navegação de Pedro Álvares Cabral, desvio da rota e muitas surpresas. Entre os personagens principais: “Pedr’Alvarez Cabral, Capitão Pero Escolar, Pedro Vaz Caminha, Luis Camoens, Frei Henrique Coimbra e o Sururgião”.

“Houve um tempo em que não havia juízes em Israel e cada um fazia o que lhe desse na cabeça ou o que julgasse melhor. Mas depois houve um tempo em que havia juízes. Uma pessoa se tornava juiz por um dos três caminhos: por escolha do povo, por autoaclamação ou por desígnio divino”. Heitor Rosa, em “Juízes Finais”, conduz um longo julgamento de juízes em tempos bíblicos, perante o Sumo Sacerdote Jabeslão e o grupo de anciãos, a resultar na absolvição de todos. Induziria o leitor a traçar paralelismos…

Os dois últimos contos, curtos, mas engraçadíssimos, levam-nos a conhecer Creusa “… que entrou em nossa vida por acaso, ou melhor, só porque precisávamos de alguém que arrumasse a casa”. Creusa, de 120 quilos, estabanada, destruiria, na arrumação e na ausência do “patrão”, dois manuscritos do século X como papel velho, retiraria todos os livros da biblioteca, recolocando-os ao seu critério, passaria bom bril em todos os CDs a fim de limpá-los e… cantava, ou melhor, “gargarejava”.

A nossa vida cultural está às avessas. São os holofotes que “determinam a qualidade” e não o valor intrínseco de um autor. Em todas as áreas culturais. São divulgados ad nauseam autores que, na realidade, têm a “auréola” da mediocridade. Conhece o Brasil Heitor Rosa? Editoras mais representativas no Brasil publicam seus livros? Nada a fazer nesse universo mediático nivelado rigorosamente por baixo.

This post comments on the book “O Enigma da 5a. Sinfonia” (The Enigma of the 5th Symphony), written by the gastroenterologist Heitor Rosa. A serious researcher of medical practices from the past, his stories with fictitious and historical characters blended together completely captivate readers with conciseness, humor and imagination, at the same time giving a lesson on medicine history. It’s time to shed light on this talented and highly underestimated writer whose books deserve better promotion and marketing.