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Idalete Giga e a intimidade poética

A música é poesia incorpórea.
Guerra Junqueiro

Todo o meu ser
é embalado
pela Mãe-Natureza
que canta baixinho
sempre mais baixinho
até me adormecer
Idalete Giga

Idalete Giga está sempre a me surpreender. Conheci-a em Lisboa no início dos anos 1980, quando assistente da saudosa e notável gregorianista Júlia d’Almendra (1903-1992). Não poucas vezes estive na Igreja de Santo Antônio em Lisboa e tanto como coralista, sob a direção da mestra, como a substituí-la, pude aferir o profundo senso de plasticidade musical durante o encantamento de inefáveis cantos gregorianos. A amiga esteve sempre presente aos meus recitais em Portugal, desde aqueles longínquos anos. Estreitou-se a amizade, estendida através dos anos à minha mulher Regina, filhas e netas. A semana em que passou em nossa casa durante tórrido verão em Fevereiro último ratificou a admiração pelo talento multidirecionado da musicista-poetisa (vide Idalete Giga – Visita que Marcou, 22/02/2014). Sua sátira para três jograis, Zoprotikaviform e o Reino da Quantidade, teve recepção calorosa em meu clã.

Acompanhar Idalete em sua fala sempre inflamada tanto no amor absoluto à música, como na crítica ardorosa à corrupção que infesta Brasil e Portugal, corroendo-os nas entranhas, surpreende o interlocutor. Idalete é sempre incisiva em suas posições, mercê de uma irretocável condução na existência. Íntegra. Paradoxalmente, a amiga, quando conduzida pelo devaneio à arte da poesia, transfigura-se, e essa metamorfose se dá de maneira surpreendente. É possível entender que essa alentejana da gema encontre sua tebaida na planura do Alentejo, na aldeia de Ciborro, lá se refugiando do entulho de toda espécie que as grandes cidades despejam sobre o cidadão diariamente. Céu translúcido, planura e horizonte infindo, silêncio, “asa protetora que me envolve”, segundo a poetisa em seu poema “Hino ao Silêncio”. Esses elementos integram um vasto acúmulo de sensações que foram somadas em camadas homogêneas, a formar o todo da harmonia. O amor ilimitado pela natureza tem sido substância essencial para a musicista-poetisa, exemplificado pela regente coral impecável em sua condução do Coro Capela Gregoriana Laus Deo e através da veia poética emergindo como magma vulcânico. No “Hino à Natureza” a poetisa não professaria seu amálgama absoluto? “Hoje/quero/apertar na alma/a Natureza toda/num abraço Infinito”.

Idalete não se utiliza do ferramental da pontuação. A ausência de vírgulas e pontos seria uma temeridade não fosse a autora especialista ilustre do canto gregoriano. Tem-se a fluência própria e a disposição dos poemas navega nas plácidas ondulações sonoras e vocalizadas. Transfere para seus poemas a magia flutuante e a “pontuação” se integra à respiração. Idalete tem a sabedoria da condução da frase que em todos os poemas segue seu curso melódico e sereno. Se utilizada, a rima tornar-se-ia amarra. As palavras apreendem o maravilhamento do canto. “Cantar é moralizar o som”, no conceito de Guerra Junqueiro.

A leitura de “Canto da Palavra” (Lisboa, Chiado, 2014) transporta aquele que percorre os singelos poemas de Idalete ao universo onírico e imaculado. Inexiste subterfúgio, tampouco a intenção de agradar, contudo a seduzir e muito o leitor.

Poder-se-ia afirmar que as longas sendas trilhadas por Idalete levaram-na ao que de mais sensível existe nas terras do Alentejo e a fizeram perpassar em versos experiências captadas pelos sentidos. A alma da poetisa vibra em consonância com as gradações depreendidas da terra, do mar, da luz, do espaço. A leitura, a obedecer a disposição dos conceitos, emana sonoridades, ritmo e respiração. Das profundezas do Alentejo apreende o significado do isolamento em “Alentejo Profundo”:

O Alentejo
é a pura solidão
total
vestida de silêncio

O Alentejo
é um mar
de sobreiros a sangrar
magoado
de profunda nostalgia

O Alentejo
é um choro de menino
abandonado
é um grito ancestral
estrangulado
perdido
no Infinito.

Em torno do mistério alentejano nunca desvelado por inteiro desfilam sentimentos da autora, em êxtase na sintonia contemplativa. Idalete em seu mundo metafórico torna lírico o rude, o inóspito quiçá,  dando-lhes a interação com o belo. O observar a entender a metamorfose da terra. Impossível não compartilhar todo o processo de transformação ofertado pela poetisa. O Alentejo irmana-se à Terra Prometida, ao Shangrilá dos sonhadores.

Pintora das palavras, Idalete filtra a luminosidade alentejana. Nada escapa ao olhar ávido do lirismo das cores: “Ao longe/muito ao longe/quase a perder de vista/uma faixa de luz rósea/a esmaecer/cingia o horizonte” em “Crepúsculo”, ou “A brancura das flores de esteva/ iluminando/o roxo rosmarinho/o amarelo vivo/das giestas/languidamente curvadas/à beira do caminho” do poema “Aquarela da minha infância”. Há sempre a pulsar uma alvura espontânea, característica dos autênticos. No silêncio, tão presente em tantos poemas como sereno leitmotiv, Idalete encontra luminosidade e “Hino ao Silêncio” testemunha a afeição pelo inaudível “És a Luz/transparente/onde me encontro/a asa protetora/que me envolve”.

Idalete tem plena empatia pela onomatopeia. Senti esse seu afeto sincero e natural nas muitas viagens que, ao longo dos anos, fiz com a amiga de Lisboa a Évora para recitais de piano, que apresento anualmente no Convento Nossa Senhora dos Remédios, promovidos pelo Eborae Musica, sob a dedicada direção da Profª Helena Zuber. Sons e ruídos não lhe escapam. Sensibilizava-me o seu maravilhamento ao ver cegonhas aninhadas nas torres de transmissão. Inundava-a entusiasmo  juvenil. Sob outro contexto, o canto dos pássaros têm efeito de sedução e Idalete deixa-se encantar. Emulação integral com os cantos de seu Coro Gregoriano Laus Deo, que flutuam nas naves das igrejas onde se apresenta. No poema “Aves Canoras”, a poetisa desvela-se por inteiro:

Pequeninos
deuses alados
vestidos
de graciosidade
e de leveza

Dádiva Divina
do Criador à Amada Mãe-Natureza

Sábios
Mestres cantores

Excelsos improvisadores
de ritmos incontáveis
e sons encantatórios

Músicos do céu

Símbolos vivos
do Espírito liberto
do peso da Terra

Idalete se refugia em seu mundo interior e essa viagem ao insondável torna-a sensível e, ao revelar frutos desse recolhimento, faz-nos entender parte de seus segredos. Em “Canto Breve” revela: “Por isso me escondo/no silêncio/na solidão acompanhada/e na nudez/da minha irreverência/e rebeldia”. As incursões no desconhecido ancestral e sobrenatural fazem parte do todo voltado ao silêncio e ao olhar interior, que descobre passados atemporais. “Morri de Saudades” é pungente exemplo:

Correm-me nas veias
sangue nómada

Fui cigana e cigano
noutras vidas

Morri de saudade
de solidão
amarga e doce
em eternas chegadas
e partidas

Em sua sabedoria, Idalete tem o dom do recato. Não se expande, não busca a sedutora e tantas vezes traiçoeira divulgação. Reconhece seu espaço e admira os bons, aqueles que deixaram exemplos em suas áreas através do saber e das qualidades intrínsecas. Presta homenagens em poemas despojados a Olivier Messiaen, Jorge Peixinho e à poetisa maior alentejana, Florbela Espanca, que foi fruto de um substancioso ensaio no livro “Mulheres do Alentejo na República” (vide post 28/01/2012). Essa pequena grande mulher da planura alentejana vive para a entrega plena ao Belo, à Música, à Poesia, à Amizade, ao próximo. Discretamente finaliza no poema “Nada sei”: “A alma e o coração/segregam-me baixinho/Ama e sonha/Ama e cria/Ama e confia”. Idalete Giga permanecerá.

On the book “O Canto da Palavra”, written by the Portuguese musicologist, choral conductor, poetess and also my personal friend Idalete Giga. In free verses, the poems are principally associated with nature, landscapes and sounds of her native Alentejo, carrying readers to a dreamlike and immaculate universe, at the same time unveiling the author’s inner feelings and reflecting on universal themes.

 

 


“Prefácio à  Segunda Edição” de “A Velhice do Padre Eterno”

A crença é como o luar que nas trevas flutua;
A razão é do céu o esplêndido farol:
Para a noite da morte é que Deus nos deu lua…
Para o dia da vida é que Deus fez o sol.
Guerra Junqueiro
(“A Velhice do Padre Eterno” – (quadra de “Aos Simples”)

Conversava com minha dileta amiga Jenny Aisenberg sobre epígrafes inseridas no blog semanal. Chegamos a Guerra Junqueiro (1850-1923) e às diversas citações que faço de seus livros. Ao comentar a respeito de uma de suas obras primas, “A Velhice do Padre Eterno”, falei-lhe do prefácio para a segunda edição, datado de 1887, e publicado postumamente (Porto, Lello,1926). Estudos aprofundados foram feitos sobre esse prefácio, mormente concernentes às argumentações de Junqueiro quanto às críticas que recebeu quando da primeira edição do livro. Teria dito ao seu amigo Luís de Oliveira Guimarães “Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente”. Ater-me-ei ao texto introdutório às críticas que o autor recebeu, rebatidas com argumentações que clareiam seu pensamento quanto às intenções de “A Velhice do Padre Eterno”. Nesse, que entendo como preâmbulo, Junqueiro fixaria “doutrina” sobre seu pensar a respeito da obra conclusa, julgamento alheio, qualidade, temporalidade de um livro impresso, valor e mediocridade, podendo-se aferir conteúdo precioso nos muitos parágrafos. As Artes agradecem a lucidez desse texto inequívoco, que anatematiza a obra sem mérito iluminada temporariamente pelos holofotes. Aspecto fulcral que tenho há longos anos debatido neste espaço relaciona-se à perenidade de uma criação. O pouquíssimo qualitativo perdurará. Sob outra égide, aprofundamentos que se acentuam têm provocado a emersão de obras de absoluto valor rigorosamente desconhecidas.

Guerra Junqueiro, escritor, poeta, jornalista, alto funcionário público, político e colecionador de obras de arte, foi em vida o mais popular poeta português. “A Velhice do Padre Eterno” é uma de suas mais importantes e difundidas criações.  Teve longa gestação e seria publicada em 1885. Ao ser difundida, houve forte reação do clero português.

Em blog bem anterior já abordáramos o grande literato através da musicalidade que emana de seus poemas (vide “A Música de Junqueiro – A Música para Junqueiro”, 03/07/2010).

Do longo “Prefácio à segunda edição”, datado de 1887, exibirei o segmento que antecede as considerações específicas da “Velhice do Padre Eterno”. Guerra Junqueiro não é apenas um grande mestre da língua portuguesa, como um pensador de alta estirpe. No presente, em que a escrita e a fala têm sido tão ultrajadas em nosso país, por vezes deliberada e intencionalmente pelos senhores da política, que não tiveram a humildade de ao menos conhecer seus rudimentos, o texto que segue é o exemplo do respeito à língua mãe. Sob outra égide, Guerra Junqueiro frequenta com maestria o universo metafórico, jamais no sentido da erudição pela erudição, mas a substanciar argumentações.

“Nunca discuti, nem jamais discutirei com quem quer que seja, o valor literário duma obra minha.

Um livro atirado ao público equivale a um filho atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se o não for, também não verterei uma lágrima.

Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim.

Contudo, desde o momento em que ponho as minhas ideias à venda em todas as livrarias, equiparo-me a qualquer produtor que manda os seus produtos para o mercado.

Com uma diferença, no entanto: O artífice e o industrial podem encher de reclames bombásticos, de elogios próprios as esquinas das ruas ou a quarta página das gazetas. É esse o seu interesse. O artista, pelo contrário, perante os aplausos  ou perante as inventivas, deve manter-se absolutamente digno e silencioso. É esse o seu dever. Um poeta não é um marceneiro.

Enquanto a crítica, no uso dum legítimo direito, avalia livremente os meus versos, julgando-os ou ótimos ou medíocres ou detestáveis, eu, em vez de ir para os jornais defender a minha obra, provando que ela é uma maravilha e o seu autor um homem de gênio,  acho um bocadinho mais sensato e mais útil esquecer-me do livro feito para me lembrar unicamente do livro a fazer. Cortada a seara e recolhido o trigo, arrotea-se o campo e semeia-se de novo.

Cheio de luz ou cheio de sombra, alegre ou triste, que importa o dia de ontem? É um cadáver. Deixá-lo em paz. Pensemos no dia que há de vir, fitando o azul na direção da aurora. Só os viandantes exaustos é que se sentam de tarde à beira das estradas, medindo em silêncio, melancolicamente, o caminho percorrido.

Nós, os que temos ainda força, não descansemos um minuto. O dia é breve e a jornada é longa. E os que quedam, contemplativos, a olhar para trás, ficam muitas vezes, como a mulher de Loth, empedernidos em estátua.

A nossa obra é o nosso monumento. Não o cerquemos de grades de ferro, com sentinelas armadas para o proteger, nem desperdicemos a existência a dourá-lo constantemente de novo a ouro fino, a brunir-lhe as asperezas com o esmeril dulcíssimo do amor próprio e a sacudir-lhe as teias de aranha irreverentes com um espanador olímpico, feito de grandes caudas de pavão.

Ao contrário. Levantemos a nossa obra com toda a coragem, ao ar livre, na praça pública, sem muros que a vedem e sem granadeiros que a defendam. Batam-na os ventos, crestem-na os sóis, lasquem-na os raios, a ferrugem que a vermine, a lama que a conspurque e os cães que a mordam. E depois de exibida assim durante vinte ou trinta anos a todas as admirações e a todos os insultos – desde as coroas da apoteose até aos coices dos onagros – depois de lhe terem passado por cima o gelo de trinta invernos e o fogo de trinta estios, então, e só então, meus amigos, é que poderemos averiguar com segurança se o nosso monumento para a imortalidade era de bronze ou era de zinco, era de mármore ou era de gesso.

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, vêem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for a distância, mais imperceptíveis se irão tornando.

Não falo de mim, porque não sou vaidoso nem orgulhoso. A vaidade é o orgulho dos imbecis e o orgulho é a vaidade dos gênios. Ora eu francamente não pertenço a nenhuma dessas categorias. O triunfo, o aplauso público, a rajada de incenso não têm o dom de me embriagar. Não me estonteia o cérebro a vulgar monotonia das grandezas literárias.

Alexandre Dumas, nos últimos tenebrosos meses de sua vida, teve uma noite um pesadelo mortal, um pesadelo trágico.

Sonhou que no alto de um Himalaia monstruoso estava, soberba e resplandecente, a estátua vitoriosa, a estátua de ouro dum ídolo enorme. A estátua era a dele, e o pedestal, o Himalaia – as suas obras. De repente, num segundo, a grande montanha esboroou-se como uma montanha oca de pedra pome ou de caliça, e a estátua do ídolo, que não era de ouro mas de barro, partiu-se e esfarelou-se também, ficando sepultada debaixo dos escombros efêmeros do seu próprio pedestal.

E o sonho realizou-se. Alexandre Dumas, de quem Michelet dizia que era umas das forças da natureza: Alexandre Dumas, cuja glória atroadora encheu o mundo durante um quarto de século, hoje, tem sido um gigante, pode passar sem se curvar, que passará à vontade, por baixo das pernas de Balzac. Um cresceu, o outro diminuiu.

Ah! Quantos e quantos pseudo sublimes artistas duma hora, ex grandes gênios dum semestre, não têm assistido em vida ao enterro de 4ª classe da sua imortalidade, aos pobres e mesquinhos funerais da sua glória, que velha, calva, desdentada, coroada de louros secos e rosas tristes de boião de farmácia, foi dentro de um lençol de misericórdia para a vala comum, para o cemitério anônimo do esquecimento e do desprezo!

Os séculos são as montanhas do tempo. Cordilheira imensa, cordilheira titânica sem fim e sem princípio! E nos topos alcantilados e inacessíveis de cada um desses Horebes monstruosos ficam apenas, com o correr das idades, meia dúzia de gênios, faróis inextinguíveis, archotes crepitantes, incêndios imorredouros que, resplandecendo de montanha em montanha, de século em século, nos deixam estender os nossos olhos curiosos pela caverna profunda do passado, pelo abismo da noite, o insondável cemitério da vida que se chama a História!

Enquanto a nós, Shakespeares das nossas comarcas, Dantes do nosso concelho, Homeros da nossa freguesia, podemos estar perfeitamente descansados acerca do destino que nos espera. Somos uma via láctea de constelações da qual, volvidos meia dúzia de séculos, restará quando muito meia dúzia de pirilampos.

E é por estas considerações, duma imensa humildade cristã, que eu, apesar de ser incontestavelmente o primeiro poeta da minha terra – Freixo de Espada à Cinta – nunca discuti, nem discutirei com quer que seja, o valor literário de uma obra minha.

No entanto, como nisso não há imodéstia, estou sempre pronto a discutir imparcial e tranquilamente os princípios de filosofia, as ideias gerais, os pontos de vista críticos que serviram de base fundamental para qualquer dos meus livros.

Daí este prefácio”

Guerra Junqueiro, que permaneceu pela qualidade da opera omnia, segue num segundo momento a analisar a recepção crítica desfavorável à primeira edição de “A Velhice do Padre Eterno” e a rebatê-la.  Pormenoriza-a, sem faltarem ceticismo, livre arbítrio, humor sombrio e até desilusão altiva. Apesar do anti-clericalismo, Deus e o Cristo são constantes nesse turbilhão de ideias criativas. A sua formação católica não se faz negar.

In this post I transcribe part of the preface of the book A Velhice do Padre Eterno (The Old Age of the Eternal Father), by the Portuguese poet Guerra Junqueiro (1850-1923), a series of satiric and anticlerical poems criticizing conservatism and the Church. However, what interested me in particular was the first part of the preface, in which Junqueiro discusses with absolute clarity and perception the issue of mediocre and meritorious works, stating that only the latter will stand the test of time.

 

 

 

“Um Líder Vitorioso”

Eu imagino o que São Paulo não faria hoje
se tivesse à sua disposição uma rádio, uma televisão,
um jornal escrito, uma revista,
os meios de comunicação modernos, atuais, a informática, a internet…
O que ele não teria feito se tivesse ao alcance das mãos
também esses meios de comunicação que temos hoje.
Dom Odilo Scherer  – Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo
(comentário publicado em 24 de Janeiro de 2013 pela TV Aparecida)

A figura de Paulo de Tarso é fascinante sob todos os aspectos. Originário de Tarso (hoje Tarsus, Turquia), viveu aproximadamente de 8 a 64-68, quando morre em Roma. De implacável perseguidor dos primeiros cristãos tornar-se-ia um dos santos mais cultuados pela Igreja Católica Apostólica Romana e pela cristandade ao longo da história. Foi também um dos primeiros e mais esclarecidos seguidores dos ensinamentos do Cristo, apesar de não ter integrado a geração de discípulos que teve diretamente contacto com Jesus. Catorze são as “Epístolas” a ele atribuídas, umas poucas de autoria questionada. É-nos facultado conhecer São Paulo igualmente através do “Atos dos Apóstolos”. Através dessas fontes independentes, que basicamente se completam, podemos ter a edificação do extraordinário personagem.

Se Paulo de Tarso ou São Paulo é um dos mais estudados santos da Igreja, sob outro aspecto haveria sempre a possibilidade para outras interpretações no que concerne à sua vida e à extraordinária divulgação da fé cristã. A vastíssima bibliografia estaria sempre in progress, pois novos estudos, olhares diferenciados continuam a enriquecer realidades e estimulam também a lenda, quando propagada pela oralidade.

Betho Ieesus se propôs a uma difícil tarefa. Escrever um livro sobre Paulo de Tarso, a salientar o aspecto de liderança e poder mental do apóstolo. Tarefa árdua, que mereceria um aprofundamento necessário junto às fontes históricas, a fim de que a figura de São Paulo não fosse adulterada. Cumpriu brilhantemente essa missão personalíssima. Durante cinco anos, sob o olhar cuidadoso do Padre Zezinho, SCJ, debruçou-se sobre a literatura existente, a buscar apoio para seu livro bem original na abordagem.

Para quem conhece Betho Ieesus nada parece impossível. Arquiteto e engenheiro de áudio competente – o que é raríssimo no Brasil – , violonista, compositor e poeta, Betho surpreende literariamente mais uma vez. Seu instigante livro de poesias, “A Casa de Vidro”, teve resenha neste espaço (vide blog 30/04/2011).

Como trazer para os nossos dias a figura de Paulo de Tarso, o nosso São Paulo – apóstolo dos gentios – que deu nome à nossa hoje sofrida e mal tratada megalópole? Fazê-lo mais perto de nós, apreender a essência espiritual e prática das “Epístolas” e dos “Atos” sem fixar amarras e tecer elucubrações o que tornaria, por consequência, qualquer incursão teológica ou acadêmica plena de armadilhas. Já não escreveria que “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6)? As “Epístolas” de São Paulo têm a característica da clareza e da compreensão, sem que se busque na hermenêutica soluções alheias ao espírito no qual o santo tanto acreditava. Fatos e textos espirituais de um homem apaixonado pela causa, imbuído de um ideal absolutamente religioso, frise-se, escritos no contexto da época, mas de dimensão atemporal.

“O Incansável Paulo de Tarso – Um Líder Vitorioso” (São Paulo, Loyola, 2014) tem como prefaciante meu irmão, o notável jurista Ives Gandra Martins, que afirma que o livro de Betho Ieesus “historicamente é irreprovável”. E o é pelos caminhos traçados pelo autor. Betho percorre a biografia do santo, da infância à decapitação em Roma. Diria que, à maneira de um viajante que percorre estrada litorânea, o grande mar está sempre à vista. Betho Ieesus traduz e interpreta a trajetória de Paulo de Tarso, caminhando ao seu lado, a buscar, na própria escrita descontraída, humanizar ainda mais – se isso fosse possível – a figura do apóstolo. Seu texto tem a vestimenta de um romance histórico, sem o ser realmente. É claro, objetivo, sincero e agradável. A narrativa de Ieesus tem no preciso momento o esclarecimento epistolar de São Paulo, a fim de que dúvidas não pairem. Se o seguir as longas viagens de Paulo de Tarso testemunha o conhecimento, não poucas vezes o autor, como em uma pausa para balanço, reconstrói o perfil do santo “Paulo foi fundamental, mas não foi o único que se sacrificou; tampouco pode-se atribuir a ele a exclusividade na ‘fundação’ do cristianismo. Ele fez parte de um exército imenso de lutadores martirizados, muitas vezes anônimos. Um exército de paz em que todos nós ainda podemos nos alistar”.

Betho Iesus justifica o porquê do subtítulo, “Um líder Vitorioso”. À guisa de informação, mencionaria algumas das inúmeras qualidades de São Paulo atribuídas pelo autor: “Sabia motivar e inspirar as pessoas; desenvolvia laços afetivos com elas; tentava acordos até o fim (judeus em Roma); mesmo recluso, não parava de articular seu ideal; respeitava as leis e o direito alheio; tinha uma rotina de trabalho com disciplina; liderava pelo exemplo; estava presente nas assembleias, criando um corpo comum ligado a ele, não se isolava na liderança; era generoso no perdão; dividia seus discípulos em equipes funcionais; sabia delegar, confiar e cobrar; sabia que teria que deixar uma sucessão à altura e a preparava para a obra não morrer; admitia derrotas como ensinamentos e era otimista”.

Têm interesse os “recortes” que Ieesus aplica em segmentos essenciais. Facilita para o leitor a compreensão histórica: O Papel das Mulheres, Tradições Culturais e Falsificações, Roubos, Extravios. Essas “caixas” posicionam-se em momentos precisos da leitura.

“O Incansável Paulo de Tarso” é livro para ser apreciado em sua essência. O texto claro, direto, comunicativo, descontraído, mas não desprovido de competência, ajuda-nos a entender, sob enfoque original, a figura extraordinária de Paulo de Tarso, São Paulo. Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book O Incansável Paulo de Tarso (The indefatigable Paul of Tarsus), written by Betho Ieesus, who is also poet, musician, sound engineer, architect… A result of five years of sound research, it addresses – with the use of light language – life and work of Paul of Tarsus, or St. Paul,  Apostle to the Gentiles, from his birth to his beheading in Rome, and the lesson of courage, persistence and faith of one of the greatest religious leaders in the history of Christianity.