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“Um Líder Vitorioso”

Eu imagino o que São Paulo não faria hoje
se tivesse à sua disposição uma rádio, uma televisão,
um jornal escrito, uma revista,
os meios de comunicação modernos, atuais, a informática, a internet…
O que ele não teria feito se tivesse ao alcance das mãos
também esses meios de comunicação que temos hoje.
Dom Odilo Scherer  – Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo
(comentário publicado em 24 de Janeiro de 2013 pela TV Aparecida)

A figura de Paulo de Tarso é fascinante sob todos os aspectos. Originário de Tarso (hoje Tarsus, Turquia), viveu aproximadamente de 8 a 64-68, quando morre em Roma. De implacável perseguidor dos primeiros cristãos tornar-se-ia um dos santos mais cultuados pela Igreja Católica Apostólica Romana e pela cristandade ao longo da história. Foi também um dos primeiros e mais esclarecidos seguidores dos ensinamentos do Cristo, apesar de não ter integrado a geração de discípulos que teve diretamente contacto com Jesus. Catorze são as “Epístolas” a ele atribuídas, umas poucas de autoria questionada. É-nos facultado conhecer São Paulo igualmente através do “Atos dos Apóstolos”. Através dessas fontes independentes, que basicamente se completam, podemos ter a edificação do extraordinário personagem.

Se Paulo de Tarso ou São Paulo é um dos mais estudados santos da Igreja, sob outro aspecto haveria sempre a possibilidade para outras interpretações no que concerne à sua vida e à extraordinária divulgação da fé cristã. A vastíssima bibliografia estaria sempre in progress, pois novos estudos, olhares diferenciados continuam a enriquecer realidades e estimulam também a lenda, quando propagada pela oralidade.

Betho Ieesus se propôs a uma difícil tarefa. Escrever um livro sobre Paulo de Tarso, a salientar o aspecto de liderança e poder mental do apóstolo. Tarefa árdua, que mereceria um aprofundamento necessário junto às fontes históricas, a fim de que a figura de São Paulo não fosse adulterada. Cumpriu brilhantemente essa missão personalíssima. Durante cinco anos, sob o olhar cuidadoso do Padre Zezinho, SCJ, debruçou-se sobre a literatura existente, a buscar apoio para seu livro bem original na abordagem.

Para quem conhece Betho Ieesus nada parece impossível. Arquiteto e engenheiro de áudio competente – o que é raríssimo no Brasil – , violonista, compositor e poeta, Betho surpreende literariamente mais uma vez. Seu instigante livro de poesias, “A Casa de Vidro”, teve resenha neste espaço (vide blog 30/04/2011).

Como trazer para os nossos dias a figura de Paulo de Tarso, o nosso São Paulo – apóstolo dos gentios – que deu nome à nossa hoje sofrida e mal tratada megalópole? Fazê-lo mais perto de nós, apreender a essência espiritual e prática das “Epístolas” e dos “Atos” sem fixar amarras e tecer elucubrações o que tornaria, por consequência, qualquer incursão teológica ou acadêmica plena de armadilhas. Já não escreveria que “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6)? As “Epístolas” de São Paulo têm a característica da clareza e da compreensão, sem que se busque na hermenêutica soluções alheias ao espírito no qual o santo tanto acreditava. Fatos e textos espirituais de um homem apaixonado pela causa, imbuído de um ideal absolutamente religioso, frise-se, escritos no contexto da época, mas de dimensão atemporal.

“O Incansável Paulo de Tarso – Um Líder Vitorioso” (São Paulo, Loyola, 2014) tem como prefaciante meu irmão, o notável jurista Ives Gandra Martins, que afirma que o livro de Betho Ieesus “historicamente é irreprovável”. E o é pelos caminhos traçados pelo autor. Betho percorre a biografia do santo, da infância à decapitação em Roma. Diria que, à maneira de um viajante que percorre estrada litorânea, o grande mar está sempre à vista. Betho Ieesus traduz e interpreta a trajetória de Paulo de Tarso, caminhando ao seu lado, a buscar, na própria escrita descontraída, humanizar ainda mais – se isso fosse possível – a figura do apóstolo. Seu texto tem a vestimenta de um romance histórico, sem o ser realmente. É claro, objetivo, sincero e agradável. A narrativa de Ieesus tem no preciso momento o esclarecimento epistolar de São Paulo, a fim de que dúvidas não pairem. Se o seguir as longas viagens de Paulo de Tarso testemunha o conhecimento, não poucas vezes o autor, como em uma pausa para balanço, reconstrói o perfil do santo “Paulo foi fundamental, mas não foi o único que se sacrificou; tampouco pode-se atribuir a ele a exclusividade na ‘fundação’ do cristianismo. Ele fez parte de um exército imenso de lutadores martirizados, muitas vezes anônimos. Um exército de paz em que todos nós ainda podemos nos alistar”.

Betho Iesus justifica o porquê do subtítulo, “Um líder Vitorioso”. À guisa de informação, mencionaria algumas das inúmeras qualidades de São Paulo atribuídas pelo autor: “Sabia motivar e inspirar as pessoas; desenvolvia laços afetivos com elas; tentava acordos até o fim (judeus em Roma); mesmo recluso, não parava de articular seu ideal; respeitava as leis e o direito alheio; tinha uma rotina de trabalho com disciplina; liderava pelo exemplo; estava presente nas assembleias, criando um corpo comum ligado a ele, não se isolava na liderança; era generoso no perdão; dividia seus discípulos em equipes funcionais; sabia delegar, confiar e cobrar; sabia que teria que deixar uma sucessão à altura e a preparava para a obra não morrer; admitia derrotas como ensinamentos e era otimista”.

Têm interesse os “recortes” que Ieesus aplica em segmentos essenciais. Facilita para o leitor a compreensão histórica: O Papel das Mulheres, Tradições Culturais e Falsificações, Roubos, Extravios. Essas “caixas” posicionam-se em momentos precisos da leitura.

“O Incansável Paulo de Tarso” é livro para ser apreciado em sua essência. O texto claro, direto, comunicativo, descontraído, mas não desprovido de competência, ajuda-nos a entender, sob enfoque original, a figura extraordinária de Paulo de Tarso, São Paulo. Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book O Incansável Paulo de Tarso (The indefatigable Paul of Tarsus), written by Betho Ieesus, who is also poet, musician, sound engineer, architect… A result of five years of sound research, it addresses – with the use of light language – life and work of Paul of Tarsus, or St. Paul,  Apostle to the Gentiles, from his birth to his beheading in Rome, and the lesson of courage, persistence and faith of one of the greatest religious leaders in the history of Christianity.

 

 

 

 

Posicionamento que Merece Atenção

Inútil comentar que aqueles que têm em conta a Academia
tornaram-se totalmente surdos a qualquer música natural.
Formam uma casta de técnicos para os quais
o valor de toda a música se mede através da complexidade da escritura.
Para eles, o canto gregoriano e a música dos trovadores não têm interesse,
pois comportam uma só voz , resultando música fácil.
André Souris (1899-1970)

Ao considerar a proliferação de compositores e filósofos, baseando-me na observação de Serge Nigg (1924-2008),  primeiro músico francês a compor obra dodecafônica em França, na qual frisava que a partir de certo momento só era apresentado a compositores, pois “todos” assim se intitulavam, observei que, ao longo da última década a preceder minha aposentadoria em 2008, cada vez mais frequentemente alunos cursando ou egressos dos cursos de música-composição e filosofia pronunciavam-se como compositores e filósofos. Mais penetram em elucubrações a partir das tendências multidirecionadas da composição e do pensar, mais acentuadamente tentam diminuir as definitivas contribuições de compositores que permanecerão. André Souris, autor da epígrafe, menciona J.S.Bach, Beethoven e Debussy como alguns exemplos, “vítimas” de determinadas correntes “composicionais”. No pensar filosófico, Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues (vide blogs 21/03/2009 e 14/08/2010, respectivamente) já sinalizavam  empáfias similares às apontadas.

Quanto à música, seria possível constatar que a ascensão dos meios eletroacústicos, que não necessariamente implicou qualidade dos “compositores”, camuflou capacidades, em parte embaçando-as por “falta” de parâmetros de julgamento, levando à multiplicação de autores. Dezenas e dezenas de compositores têm obras selecionadas para as Bienais de Música Contemporânea aqui e alhures. Serge Nigg observa: “Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas”. Seria isso crível?  Como bem intuía  o grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro (1850-1923): “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável”.

O compositor e pensador francês François Servenière escreveu-me após a leitura do blog de 5 de Julho, a considerar vários fatores influentes nessa multidirecionada diversidade de meios de composição da atualidade. Sente em França o peso de tendências institucionais corroborando a edificação de”mitos” inacessíveis, ininteligíveis para a grande maioria daqueles que labutam em áreas como música e filosofia. Elegem-se oráculos de suas gerações e assim são tratados pela mídia “especializada”. Extraí segmentos de sua longa mensagem.

“Para retornar ao tema de seu blog, só posso, infelizmente, pensar como você. ‘O hábito não faz o monge’ e os estudos de composição, como os de filosofia, não tornam aspirantes a  compositores ou filósofos realmente capazes. O tempo se encarregará da decantação, se  houver. A sequência de minha vida musical revelou-me uma verdade imanente: O melhor gramático não faz automaticamente um artista, um compositor, um escritor ou um filósofo. Para que o artista ou o pensador flua há a necessidade de outra flama, que implica a compreensão  íntima e a partilha das forças do Universo em si. Não nego que as matemáticas constituem uma das forças que arquitetam a música e o Universo, se bem que música e Universo existam antes das matemáticas, estas relativamente recentes. Todavia, tenho a mais extrema reserva em relação aos compositores que entram na música pelas matemáticas. Diria mesmo que, se eles entram por essa porta, não encontrarão aquilo que procuram, como no caso do ‘albergue  espanhol’ (lugar por onde passam pessoas de diversas procedências). Os compositores que vivem a acrescentar sons e notas, sob pretexto da infalibilidade de modelo matemático (o caso da série aplicada a todos os parâmetros musicais é um dos maiores equívocos teórico-musicais, a mais extrema incompreensão do material original da música), apenas produzem dramas acústicos e desentendimento literário para os ouvidos do público.

No ato de compor, jamais pensei nas matemáticas, jamais, mesmo considerando ser meu espírito rigoroso e matemático. Sob outro prisma, sempre estive em concordância com recomendações de Debussy, bem antes de conhecer suas frases e conselhos históricos. Nunca deixei de pensar no prazer. Fui por ele guiado. Permanentemente me perguntava como Debussy deveria fazê-lo no ato da composição: ‘Se você quiser levar o prazer aos seus ouvintes, torna-se absolutamente necessário  começar por ter prazer ao compor’. Desde que sentia o prazer desaparecer de minha partitura, eliminava a passagem ‘não prazerosa’, sem qualquer remorso. Por várias vezes fiz ligações ou junções pela técnica composicional pura, pela sintaxe teórica e as cadências. Todavia, permanentemente as aperfeiçoava da mesma maneira que o pedreiro faz junções artísticas ao manusear belas pedras ou um marceneiro realiza cuidadoso encaixe para associar dois bonitos pedaços de madeira entalhados. Após muitos anos de labor, creio ter chegado a um êxtase que bem antes, numerosos compositores excelsos sentiram, como Gabriel Fauré. É o momento em que concluo que teria dificuldade em ensinar música teórica, tantos são os termos e ‘teorias’ agregados de ordem acadêmica que surgem nessas novas tendências, ininteligíveis para o público no resultado final, a composição.

Cheguei a um ponto onde a música sai de meu cérebro (como sempre, mesmo nos tempos de juventude, quando a ausência técnica freava o processo criativo, evidentemente) diretamente sobre a partitura, sem interface acadêmica. Nenhuma outra reflexão sobre a técnica musical aparece no ato criativo, só ‘o prazer como regra’ a guiar meu mouse e meus dedos a partir do comando cerebral. Essa regra é minha condutora e sempre o foi. Ao contrário dos teóricos, a prática (práxis), o material a ser trabalhado, limado, recortado, lapidado, interessava-me. Única razão de viver na música, nela pensar. Recusei funções docentes na Universidade de Rouen e na École Nationale de Musique em Laval. Entendia não ser o ensino meu caminho primordial.

Quando você aborda esses temas, apreendo fortemente seu ponto de vista, que me parece essencial e central. Assiste-se hoje em França a figuras institucionais em postos de poder se atribuírem títulos (de glória) de compositores, de ‘criativos’ que, na realidade, não merecem. Justificam esses títulos e postos por seus magistérios no Collège de France, o cume do ensino no país para todas as ciências enquanto que suas músicas convencem um número bem pequeno de ouvintes. Eis um caminho tortuoso evidente do sistema atual, que encoraja não somente esse tipo de carreira, mas também provoca o desvio da verdade ‘eu sou um compositor’ ou sou um ‘filósofo’,  pelo razão de se ter estudado nas grandes instituições do mais alto nível  (o status de compositor considerado um pouco como  função administrativa, com intenções de luta para a ascensão social e profissional em direção ao ápice, quando o essencial seria o desenvolvimento da mente criativa). Considerem-se igualmente os modelos típicos de carreiras mediáticas maiores, mas duvidosas sob o aspecto essencial da arte, só obtidas pelos portadores de diplomas e títulos e saberes de toda ordem. Essa situação para compositores, filósofos, escritores… O sistema demonstra, pois, que basta ser o melhor gramático para ser adulado como o melhor artista institucional. Onde estão as obras mestras? Busca-se sempre! E aí reside o profundo, manifesto e trágico erro. Vemos estranhos sábios, e a música (a verdadeira, a linguagem do coração) desaparece pouco a pouco de seus propósitos musicais institucionais. ‘Atentem para a minha música inteligente’, dizem eles! ‘Os senhores não a compreendem, e eu vou explicá-las durante seis horas, pois’. ‘Sim, ela é inteligente, mas ela não me causa qualquer efeito, ela não me diz nada’, responde em coro o público. ‘O que importa’, respondem os compositores institucionais, ‘se o povo não ama nossa música, nossos propósitos ou nossa ideologia, mudemos o povo, divulguemos, divulguemos nossas obras sem cessar, até que o povo nos compreenda’… E eis que nos sentiríamos num Stalag ou Goulag, ou nas escolas de reenquadramento mental das ditaduras ou mesmo tendo de engolir o Pequeno Livro Vermelho, sem compreender o que realmente está escrito, recitando à maneira pavloviana propostas que não nos interessam.

O relativismo colocado em evidência pela mídia, mais a ideologia e o marketing institucional, estabelecem o mesmo nível para todas as obras. É um equívoco, evidentemente. Não obstante, os indivíduos e os povos, desde que tenham meios, direcionam-se para os melhores produtos, para as ofertas mais qualificadas, mesmo as culturais. Não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo, e o ‘Clair de Lune’ de Debussy é aceito em quantidade apreciável de filmes. Não se trata de problema de cultura ou de ensino. Cada indivíduo é tocado pelo que é bonito, e isso está inscrito na alma dos seres vivos desde o momento que  tiveram acesso ao primeiro por do sol. A arte é solar! Não sem razão as civilizações mais expressivas do planeta tiveram o sol como Deus (Egito, Atenas, Roma, Europa…). Sol, água e o Belo. Metaforicamente, temos num plano inverso a sombra, o escurecimento, a morte, o niilismo, a frieza técnica e matemática, a supressão da vida nas obras, o risco da perda da identidade.

A política e as artes do século XX omitiram aspectos vitais da arte e da política. Retiraram a alegria, a felicidade, o partilhar, a dança, o prazer de viver e de respirar… e pariram não apenas os piores crimes da humanidade, como tiveram necessidade de bunkers para proteger suas ‘obras’ e sua ‘ciência superior’.

Eis minha prosa desta manhã, que se junta de maneira visceral e espontânea à sua, cultivada, talentosa, plena de experiências profundas e sensíveis, mas não divergente da minha. Não poderia ter um outro discurso diante das situações pelas quais você passou com esse jovem professor de filosofia que se diz ‘filósofo’. Tudo que escrevo sobre a música se aplica igualmente à área desse jovem. Como eu te compreendo!!!”  (Tradução: J.E.M.).

Às observações sensíveis sobre a composição soma-se o desvirtuamento que se amplia, em termos brasileiros, na área da filosofia. Se apontamos Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues, que denunciam desvios do pensar direcionados a estranhos holofotes, como não mencionar três casos típicos oriundos dos bancos universitários. “Filósofos” em pauta: uma vocifera ódio visceral contra a classe média, outro incita a invasão da propriedade privada e outra mais estimula o vandalismo. Casos recentes. Os dois primeiros de São Paulo e o terceiro do Rio de Janeiro. Se pensarmos que o último ex-presidente aplaudiu a fala em que a classe média mereceu frases descabidas e, sob outro aspecto, também tem vociferado em linguajar tantas vezes chulo a proclamar o “ódio” que a oposição teria ao seu partido, muito fácil entender que essa palavra não é pronunciada pela dita oposição. Reflexões, apenas reflexões.

P.S. Após a publicação do post da semana recebi e-mail de meu dileto amigo Magnus Bardela. Tece reflexões a partir da afirmação de Servenière pela qual “não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo”, pois somos irremediavelmente por ele subjugados. Pertinente, insiro, dias após a postagem, as considerações de Magnus:

“Concordo com o Servenière. Como já bem explicitado, é mais fácil se esconder nas sombras da técnica fria. Nem todos possuem luz própria – até no espaço sideral é assim… Sob outro aspecto, comentaria sobre o processo criativo de ‘tentativa-e-erro’ (trial and error, termo bastante usado em inglês em tantas áreas do conhecimento).

Depreendi do texto que há no método de compor do Servenière esse processo iterativo do ‘fazer – julgar/analisar – refazer’, até que se atinja um patamar de aceitabilidade. O parâmetro do aceitável é a autocrítica, o acervo técnico e a consciência do Belo e do prazer – como ele próprio escreveu. Entendo que esse procedimento criativo seja natural no homem, presente no artesão mais simplório e até nos mestres que reverenciamos. Pode ser uma obviedade, mas, para mim, é esse o processo original, movido pela curiosidade e criatividade/inventividade, resultando na expressão verdadeira do indivíduo. É uma construção de “baixo para cima”, em que as experiências se somam, se agregam, atingindo novas alturas. Por sua vez, os métodos (as ‘matemáticas’), se adotados às cegas e de maneira obtusa, sem a bagagem da experimentação, como se fossem ‘atalhos’ ou ‘fumaças’ para distração, só trariam resultados desprovidos de qualquer identidade, absolutamente vazios e sem significado. Impossível a aplicação ‘de cima para baixo’. Não há fundamento! Pergunto: Não seria essa a evidência da indiscutível necessidade dos 90% de transpiração (leia-se trabalho, empenho, interesse, dedicação, vocação direcionada) para que proporcionem, se tivermos sorte, a existência dos 10% restantes de inspiração?”

For the past years I’ve been receiving feedback from readers. One in special, the French composer François Servenière, often honors me with valuable comments on the subjects I address. His messages enrich my blog thanks to the great depth of what he writes. It was not different with his e-mail about the self-proclaimed philosophers and composers, which I quote here so that readers may see the subject in a new light.

 

 

 

 

 

 

Música e Literatura em Período Efervescente

A interpretação mais perigosa
é certamente a ideia literária ou filosófica
penetrando os meios de expressão que lhe são exteriores,
na intenção absolutamente insuportável de comentá-los,
como se esses meios ou processos não bastassem a eles mesmos
em suas manifestações artísticas.
Georges Migot – compositor francês (1891-1976)

Os dois posts anteriores suscitaram mensagens eletrônicas e conversas informais com leitores atentos. Uma das perguntas que guardei referia-se à básica ausência do tema romantismo, em sua essencialidade, frise-se, nos debates acadêmicos, pois quando focalizado torna-se evidente o viés histórico, estético, social e ideológico. Atributos como emoção, sentimento, afeto e… coração passariam ao largo das discussões.

Mencionaria o livro referencial de Russel Jacoby (vide post “Os Últimos Intelectuais” – Realidades bem Próximas. 21/03/2009), em que o autor defende a ideia de que o desaparecimento da boêmia, que propiciava a reunião em torno de uma mesa descontraída de escritores, poetas, artistas e intelectuais, sustou a criatividade. Emergiam desses encontros os grandes conceitos que, sem intenções maiores, seriam aceitos, resultando normas e estéticas que passariam naturalmente, em princípio, a vigorar na sociedade. Acrescentaria que o espírito romântico na primeira metade do século XIX em França contempla essa visão mais “leve”, e o salão aristocrático, uma outra atitude frente à descontração do pensar, tem alguma semelhança, paradoxalmente, com a mesa de boêmia. Russell Jacoby enfaticamente acredita que o recolhimento do acadêmico universitário ao campus tenha sufocado o livre pensamento, pois o professor estaria preocupado com a sua sobrevivência e com a ascensão na carreira.

Outros leitores comentaram as citações de autores que escreveram sobre música, do século XIX a meados do século XX. Argumentaria que, apesar de farta literatura mais recente a respeito do período, onde desponta um excelente livro do pianista e musicólogo Charles Rosen (1927-2012) -  (“The Romantic Generation”, Harvard University Press e traduzido sob o título “Geração Romântica”, São Paulo,  Edusp, 2000), a apreensão de autores franceses que viveram o período ou posteriormente desvelaria o cerne da essência romântica através da tradição propiciada pela leitura ou pela oitiva. Como a focalização dos posts teve propósito específico, as posições desses críticos, musicólogos e musicógrafos franceses do passado encontram, pois, minha explicação devida para que a inserção se dê. Tenho imensa precaução quando me deparo com “análises” hodiernas sobre o período, utilizando seus autores ferramentas que prosperam durante certo período, para estiolarem-se tão logo outro ferramental surja. É fato da contemporaneidade, acalentado prioritariamente pela Academia.

Reflexão igualmente sensível sobre a eclosão desse “eu” interior está expressa pelo extraordinário musicólogo espanhol Adolfo Salazar (1890-1958) – (vide Resenhas e Comentários no menu).  Afirma sobre os primeiros decênios da “instauração” do romantismo: “A partir desse momento, o músico que não tenha um assunto pessoal que possa ser contado será um músico estéril.  A grandeza de sua obra estará relacionada com o modo segundo o qual passa a descrever a identidade de sua paixão com a paixão que move o Universo. L’Amor che muove il sole e l’altre stelle” (1941).

O posicionamento do compositor e pensador francês François Servenière, logo após o post de 21 de Junho último a respeito do romantismo a eclodir naquela primeira metade do século XIX em França, apenas ratifica todas as observações que foram assinaladas nos dois posts anteriores. Transmito-o aos leitores: “O romantismo não é uma época, mas um estado de espírito. O romantismo vivia no espírito dos humanos antes da fixação temporal no século XIX. Apenas deu-se nome a essa impregnação do espírito humano através dos séculos.  Continua a persistir sob quaisquer pressões e continuará no presente e no futuro. O romantismo está centrado sobre o extravasamento  dos sentimentos humanos, o “eu” permanente de cada ser confrontado com um outro. Não acredito que esse estado de espírito possa desaparecer no coração dos homens e das mulheres e, por extensão, nas obras criadas pelos humanos. Trata-se de uma permanência do espírito humano. Enquanto homem e mulher existirem, suas canções, suas grandes músicas, seus filmes, suas fotos, suas obras de arte e seus livros continuarão a falar do que é o epicentro da vida humana: a relação com o outro, os sentimentos, o amor. Não se trata de uma opinião, mas de um fato. Por que a música e a arte contemporânea são tão pouco populares? A razão é simples. Elas não falam mais do amor. Tentemos escrever uma canção de amor ou uma berceuse com o material da música contemporânea! Impossível. Seria como tentar construir uma casa de bonecas com cimento armado ou um vaso de porcelana com vigas metálicas. Resultado, essa arte não mais dialoga com o coração de homens e mulheres. O romantismo, como estado de espírito, nada tem de intelectual ou de científico como definição de uma época, pois não deveria ser datado, tampouco fixado a uma época determinada, pois fala ao coração dos homens e externa a emoção. Se as obras ditas contemporâneas têm sido tão secas em expressão, é porque os sentimentos foram proibidos de se manifestar. Há vida no deserto? Não! A vida existe em torno dos poços, de determinados pontos e cursos de água, em torno das ‘lágrimas da Terra’. Sem água não existe vida. Sem lágrimas, ausência de sentimentos e de relações afetivas. A Terra chora para nos alimentar. Quando o homem não mais versar lágrimas, estará distante da conformidade da Criação, do Universo. Nesse estado, os homens são inúteis para os outros. Vangloriam-se, sentindo-se superiores à natureza da qual eles saíram e que recusam. Tornam-se secos, estéreis e deixam de suprir os outros. Parece-me uma lógica fundamental” (tradução: JEM)

A mensagem de François Servenière, assim como o pensamento do filósofo Henry Beer mencionado no post de 21 de Maio, apenas consolidam o verso de Dante Alighieri citado por Adolfo Salazar. O espírito romântico que também poderia ser entendido como eterno: L’Amor che muove il sole e l’altre stelle, último verso do “Paradiso” (XXXIII, 145) da “Divina Commedia”.

The last two posts about Balzac’s “Illusions Perdues” and the French Romanticism in the first half of the 19th century had so much e-mail feedback from readers that I resume the subject once more, this time addressing some of the key issues raised by readers.


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