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Quando a Música Tem o Valor Totalizante

A música é parte essencial da dimensão física do espírito humano.
Daniel Baremboin

Há algum tempo resenhei “A Música a Despertar o Tempo”, do pianista, regente e pensador Daniel Barenboim, um dos mais notáveis músicos das últimas décadas (vide blog 17/09/2011). Em “La Musique est un Tout” (France, Fayard, 2014) Barenboim expõe conceitos que o tornaram o músico que é. Reúne o livro, publicado anteriormente na Itália em 2012, textos em forma de ensaios sobre música, a dar importância relevante a entrevistas concedidas ao musicólogo e crítico musical Enrico Girardi. Recorre igualmente, como o fez nas últimas publicações, à problemática Israel-Palestina. Portanto, dividi em dois posts o conteúdo do livro, o primeiro a abordar  o substancial ensaio inicial, “Éthique et Esthétique”.

Desde 2007 tenho colocado posição a respeito da necessidade do intérprete ter uma visão ampla do mundo que o cerca. Cultura abrangente é fundamental. Muitos artistas, consagrados nos palcos, prescindiram dessa prerrogativa essencial e talentos extraordinários, munidos de intuição clara, conseguiram ficar à margem de uma visão essencialmente cultural. Importava mais a recepção pública do que o aprofundamento humanístico. Se não indispensável para legião de profissionais que cultua a música popular, creio contudo significativa a edificação do músico sob o manto homogêneo da cultura. Enriquece o diálogo, tornando-se o intérprete arauto de procedimentos que poderão advir.

Seria em “Ética e Estética”, o capítulo mais importante do livro, a meu ver, que o pianista-regente apresenta sua concepção dessas palavras tão controvertidas. Preocupa-se em evidenciar aquilo que considera “o fosso crescente que separa o pensamento artístico do pensamento prático”. Apresenta como fulcral o respeito irrestrito à partitura, “obrigação moral”, como afirma. Barenboim assinala que “o primeiro dever de todo intérprete é o de recriar a obra com sinceridade e devoção, e não exprimir a sua própria personalidade”. Sim, respeita-a, mas dentro de limites que não interfiram na condução musical, pois tanto a negação de si mesmo como a arrogância não são louváveis.

Ao se referir ao repertório, entende maior a dificuldade em se familiarizar com obras contemporâneas do que com as de compositores do passado. Saliento que, se obras de períodos anteriores estiverem na penumbra quase absoluta, o trabalho para a edificação de uma interpretação também adquire o ineditismo e, portanto, grau maior de dificuldade, a se equiparar com as da contemporaneidade. Nos dois casos, a escuta não está familiarizada. Ao se referir às obras do passado, mas conhecidas e mantidas “na ponta dos dedos”, haveria, contudo, a necessidade de se conservar o frescor da primeira aproximação.

Considera Barenboim a problemática da manipulação e condena a busca de efeitos particulares, que levam à ausência da ética interpretativa e da autenticidade. O posicionamento que faz a respeito de obra de seu repertório interpretada no decurso de 60 anos seria exemplo de coerência e autenticidade. O YouTube nos apresenta, saliente-se, inúmeros intérpretes respeitados em execuções diferenciadas ao longo das décadas. Alterações existiriam? Quando há respeito à partitura, o que se ouve é mais uma interpretação autêntica. Em posts anteriores observei que o “tempo” para o compositor é finito pois, obra finda, é ela “atirada à roda”, na pena de Guerra Junqueiro. O tempo do intérprete dura enquanto perdurar sua atuação ao longo da carreira, e as mudanças interpretativas, sem desqualificar a partitura, evidenciam esse “tempo” infindável na busca da inatingível perfeição. E esse tempo da existência para o intérprete consciente “é o resultado do debruçar intenso sobre a obra, repetições e experimentações e do conhecimento de si mesmo como músico”, afirma Baremboin. Seria essa incontável parcela da vida dedicada à repetição atenta que levaria o intérprete alerta a poder executar diante do público a obra assimilada, incorporada, sem interrupção, mas referencial em seus intentos de divulgação. O zelo do pianista-regente-pensador mostra-se, portanto, integral. Justificar determinada mudança interpretativa é outra maneira dessa consciência cuidadosa, pois “a falta de ética é evidente quando um intérprete decide solução por puro capricho, simplesmente por lhe agradar e sem nenhum respeito pelo tempo objetivo, a hierarquia harmônica ou a frase musical”.

A respeito do repertório da denominada música antiga, Baremboin tem pensamento bem próximo àquele reiteradamente colocado por mim em textos desde o início dos anos 2000 (Gent, De Rode Pomp, 2001; Coimbra, IUC, 2004; Paris, Témoignage nº4 – Sorbonne, 2012) e ratificado pelo ilustre François Lesure, que considerava ultrapassado o debate cravo-piano, interessando-lhe sim a qualidade do intérprete. Menciono esses fatos que corroboram a guarida que meus cinco CDs lançados na Bélgica, privilegiando Jean-Philippe Rameau, Johann Kuhnau e Carlos Seixas, tiveram na Europa. Contudo, Barenboim vai mais ao fundo e, no texto em apreço, “Éthique et Esthétique”, considera que há entre os adeptos da música antiga aqueles mais dotados, frise-se, que fazem vir à luz seus estudos aprofundados, mas que “inversamente, há aqueles menos dotados de talento, que se submetem aos dogmas do movimento, como se esses pudessem substituir o pensamento individual, transformando sua prática musical em entreguismo que pretende muitas vezes oferecer respostas a perguntas que ninguém jamais colocou”. Curiosamente, François Lesure também utilizou-se em 2001 dos termos dogma e entreguismo. Barenboim ironiza o movimento, considerado progressista e moderno, “sistema de pensamento cujo objetivo é o de recriar circunstâncias que existiram há duzentos anos”. Menciona ainda o progresso técnico de tantos instrumentos e a recepção auditiva, pois as salas de concerto atuais são bem mais amplas. Em meus textos citados acima observei que o primordial entrave possa ter sido o silêncio de um século do cravo durante o transcorrer do século XIX. A tradição da escuta perdeu-se para sempre e os apegados aos “dogmas” citados por Baremboim e Lesure tiveram de buscar, na fonte impressa ou nos instrumentos “empoeirados” durante longo período, respostas a perguntas por vezes insondáveis.

Ao observar a condução das vozes em uma partitura, o autor evidencia todo o respeito à importância de cada uma, comparando-as ao “diálogo falado, quando interlocutores mais importantes têm durante mais tempo a palavra”.

Sobre gravações, pondera que “a qualidade da escuta é função do indivíduo”. Com certa dose de ceticismo, considera a escuta sem discernimento, ouvida em qualquer lugar, como barulho de fundo, apenas. A escuta atenta revestir-se-ia do sagrado: “a verdadeira escuta exige concentração, curiosidade e devotamento total àquilo que se está a ouvir”.

Barenboim considera a emoção, palavra tão anatematizada por estruturalistas. “A emoção não é inerente a uma peça musical. Será a percepção humana da repetição e das mudanças, entre outras, que confere emoção à música”. Ficaria confiado ao público “modificar seu estado de espírito e acolher o senso da música no momento de sua realização física”.

As últimas páginas de “Éthique et Esthétique” privilegiam a ascensão tecnológica. Contudo, mostra-se o autor pronto ao desafio: “O século XX distinguiu-se pela tendência à desconstrução, à fragmentação e à especialização e meus votos para o século XXI fixam como objetivo o papel não fácil da reconstrução, da reunificação e da expansão do saber”. Utópico? Talvez. Contudo, vê valores no progresso tecnológico e nas comunicações. Considera que a música (certamente a de concerto) viva ainda em torre de marfim, a abrigar intérpretes e público.

No próximo post comentarei os capítulos seguintes. Os dedicados ao conflito Israel-Palestina são pungentes. As entrevistas a Enrico Girardi, afeitas, infelizmente, a um quadro repertorial repetitivo, não permitem tantas expansões por parte do respeitado intérprete e pensador. Em dois outros instigantes artigos a abordar a área musical o músico comenta aspectos fulcrais da interpretação.

This post addresses the book “La Musique Est un Tout”, a series of essays in which the musician, intellectual and writer Daniel Baremboin explains in a very lucid way his ideas on music and on the Israeli-Palestinian conflict. For now I’ll confine myself to the section of the book devoted to music. The next post will deal with the Israeli-Palestinian issue and other music-related topics.


 

 

 

 

 

Idalete Giga e a intimidade poética

A música é poesia incorpórea.
Guerra Junqueiro

Todo o meu ser
é embalado
pela Mãe-Natureza
que canta baixinho
sempre mais baixinho
até me adormecer
Idalete Giga

Idalete Giga está sempre a me surpreender. Conheci-a em Lisboa no início dos anos 1980, quando assistente da saudosa e notável gregorianista Júlia d’Almendra (1903-1992). Não poucas vezes estive na Igreja de Santo Antônio em Lisboa e tanto como coralista, sob a direção da mestra, como a substituí-la, pude aferir o profundo senso de plasticidade musical durante o encantamento de inefáveis cantos gregorianos. A amiga esteve sempre presente aos meus recitais em Portugal, desde aqueles longínquos anos. Estreitou-se a amizade, estendida através dos anos à minha mulher Regina, filhas e netas. A semana em que passou em nossa casa durante tórrido verão em Fevereiro último ratificou a admiração pelo talento multidirecionado da musicista-poetisa (vide Idalete Giga – Visita que Marcou, 22/02/2014). Sua sátira para três jograis, Zoprotikaviform e o Reino da Quantidade, teve recepção calorosa em meu clã.

Acompanhar Idalete em sua fala sempre inflamada tanto no amor absoluto à música, como na crítica ardorosa à corrupção que infesta Brasil e Portugal, corroendo-os nas entranhas, surpreende o interlocutor. Idalete é sempre incisiva em suas posições, mercê de uma irretocável condução na existência. Íntegra. Paradoxalmente, a amiga, quando conduzida pelo devaneio à arte da poesia, transfigura-se, e essa metamorfose se dá de maneira surpreendente. É possível entender que essa alentejana da gema encontre sua tebaida na planura do Alentejo, na aldeia de Ciborro, lá se refugiando do entulho de toda espécie que as grandes cidades despejam sobre o cidadão diariamente. Céu translúcido, planura e horizonte infindo, silêncio, “asa protetora que me envolve”, segundo a poetisa em seu poema “Hino ao Silêncio”. Esses elementos integram um vasto acúmulo de sensações que foram somadas em camadas homogêneas, a formar o todo da harmonia. O amor ilimitado pela natureza tem sido substância essencial para a musicista-poetisa, exemplificado pela regente coral impecável em sua condução do Coro Capela Gregoriana Laus Deo e através da veia poética emergindo como magma vulcânico. No “Hino à Natureza” a poetisa não professaria seu amálgama absoluto? “Hoje/quero/apertar na alma/a Natureza toda/num abraço Infinito”.

Idalete não se utiliza do ferramental da pontuação. A ausência de vírgulas e pontos seria uma temeridade não fosse a autora especialista ilustre do canto gregoriano. Tem-se a fluência própria e a disposição dos poemas navega nas plácidas ondulações sonoras e vocalizadas. Transfere para seus poemas a magia flutuante e a “pontuação” se integra à respiração. Idalete tem a sabedoria da condução da frase que em todos os poemas segue seu curso melódico e sereno. Se utilizada, a rima tornar-se-ia amarra. As palavras apreendem o maravilhamento do canto. “Cantar é moralizar o som”, no conceito de Guerra Junqueiro.

A leitura de “Canto da Palavra” (Lisboa, Chiado, 2014) transporta aquele que percorre os singelos poemas de Idalete ao universo onírico e imaculado. Inexiste subterfúgio, tampouco a intenção de agradar, contudo a seduzir e muito o leitor.

Poder-se-ia afirmar que as longas sendas trilhadas por Idalete levaram-na ao que de mais sensível existe nas terras do Alentejo e a fizeram perpassar em versos experiências captadas pelos sentidos. A alma da poetisa vibra em consonância com as gradações depreendidas da terra, do mar, da luz, do espaço. A leitura, a obedecer a disposição dos conceitos, emana sonoridades, ritmo e respiração. Das profundezas do Alentejo apreende o significado do isolamento em “Alentejo Profundo”:

O Alentejo
é a pura solidão
total
vestida de silêncio

O Alentejo
é um mar
de sobreiros a sangrar
magoado
de profunda nostalgia

O Alentejo
é um choro de menino
abandonado
é um grito ancestral
estrangulado
perdido
no Infinito.

Em torno do mistério alentejano nunca desvelado por inteiro desfilam sentimentos da autora, em êxtase na sintonia contemplativa. Idalete em seu mundo metafórico torna lírico o rude, o inóspito quiçá,  dando-lhes a interação com o belo. O observar a entender a metamorfose da terra. Impossível não compartilhar todo o processo de transformação ofertado pela poetisa. O Alentejo irmana-se à Terra Prometida, ao Shangrilá dos sonhadores.

Pintora das palavras, Idalete filtra a luminosidade alentejana. Nada escapa ao olhar ávido do lirismo das cores: “Ao longe/muito ao longe/quase a perder de vista/uma faixa de luz rósea/a esmaecer/cingia o horizonte” em “Crepúsculo”, ou “A brancura das flores de esteva/ iluminando/o roxo rosmarinho/o amarelo vivo/das giestas/languidamente curvadas/à beira do caminho” do poema “Aquarela da minha infância”. Há sempre a pulsar uma alvura espontânea, característica dos autênticos. No silêncio, tão presente em tantos poemas como sereno leitmotiv, Idalete encontra luminosidade e “Hino ao Silêncio” testemunha a afeição pelo inaudível “És a Luz/transparente/onde me encontro/a asa protetora/que me envolve”.

Idalete tem plena empatia pela onomatopeia. Senti esse seu afeto sincero e natural nas muitas viagens que, ao longo dos anos, fiz com a amiga de Lisboa a Évora para recitais de piano, que apresento anualmente no Convento Nossa Senhora dos Remédios, promovidos pelo Eborae Musica, sob a dedicada direção da Profª Helena Zuber. Sons e ruídos não lhe escapam. Sensibilizava-me o seu maravilhamento ao ver cegonhas aninhadas nas torres de transmissão. Inundava-a entusiasmo  juvenil. Sob outro contexto, o canto dos pássaros têm efeito de sedução e Idalete deixa-se encantar. Emulação integral com os cantos de seu Coro Gregoriano Laus Deo, que flutuam nas naves das igrejas onde se apresenta. No poema “Aves Canoras”, a poetisa desvela-se por inteiro:

Pequeninos
deuses alados
vestidos
de graciosidade
e de leveza

Dádiva Divina
do Criador à Amada Mãe-Natureza

Sábios
Mestres cantores

Excelsos improvisadores
de ritmos incontáveis
e sons encantatórios

Músicos do céu

Símbolos vivos
do Espírito liberto
do peso da Terra

Idalete se refugia em seu mundo interior e essa viagem ao insondável torna-a sensível e, ao revelar frutos desse recolhimento, faz-nos entender parte de seus segredos. Em “Canto Breve” revela: “Por isso me escondo/no silêncio/na solidão acompanhada/e na nudez/da minha irreverência/e rebeldia”. As incursões no desconhecido ancestral e sobrenatural fazem parte do todo voltado ao silêncio e ao olhar interior, que descobre passados atemporais. “Morri de Saudades” é pungente exemplo:

Correm-me nas veias
sangue nómada

Fui cigana e cigano
noutras vidas

Morri de saudade
de solidão
amarga e doce
em eternas chegadas
e partidas

Em sua sabedoria, Idalete tem o dom do recato. Não se expande, não busca a sedutora e tantas vezes traiçoeira divulgação. Reconhece seu espaço e admira os bons, aqueles que deixaram exemplos em suas áreas através do saber e das qualidades intrínsecas. Presta homenagens em poemas despojados a Olivier Messiaen, Jorge Peixinho e à poetisa maior alentejana, Florbela Espanca, que foi fruto de um substancioso ensaio no livro “Mulheres do Alentejo na República” (vide post 28/01/2012). Essa pequena grande mulher da planura alentejana vive para a entrega plena ao Belo, à Música, à Poesia, à Amizade, ao próximo. Discretamente finaliza no poema “Nada sei”: “A alma e o coração/segregam-me baixinho/Ama e sonha/Ama e cria/Ama e confia”. Idalete Giga permanecerá.

On the book “O Canto da Palavra”, written by the Portuguese musicologist, choral conductor, poetess and also my personal friend Idalete Giga. In free verses, the poems are principally associated with nature, landscapes and sounds of her native Alentejo, carrying readers to a dreamlike and immaculate universe, at the same time unveiling the author’s inner feelings and reflecting on universal themes.

 

 


“Prefácio à  Segunda Edição” de “A Velhice do Padre Eterno”

A crença é como o luar que nas trevas flutua;
A razão é do céu o esplêndido farol:
Para a noite da morte é que Deus nos deu lua…
Para o dia da vida é que Deus fez o sol.
Guerra Junqueiro
(“A Velhice do Padre Eterno” – (quadra de “Aos Simples”)

Conversava com minha dileta amiga Jenny Aisenberg sobre epígrafes inseridas no blog semanal. Chegamos a Guerra Junqueiro (1850-1923) e às diversas citações que faço de seus livros. Ao comentar a respeito de uma de suas obras primas, “A Velhice do Padre Eterno”, falei-lhe do prefácio para a segunda edição, datado de 1887, e publicado postumamente (Porto, Lello,1926). Estudos aprofundados foram feitos sobre esse prefácio, mormente concernentes às argumentações de Junqueiro quanto às críticas que recebeu quando da primeira edição do livro. Teria dito ao seu amigo Luís de Oliveira Guimarães “Os políticos consideram-me um poeta; os poetas, um político; os católicos julgam-me um ímpio; os ateus, um crente”. Ater-me-ei ao texto introdutório às críticas que o autor recebeu, rebatidas com argumentações que clareiam seu pensamento quanto às intenções de “A Velhice do Padre Eterno”. Nesse, que entendo como preâmbulo, Junqueiro fixaria “doutrina” sobre seu pensar a respeito da obra conclusa, julgamento alheio, qualidade, temporalidade de um livro impresso, valor e mediocridade, podendo-se aferir conteúdo precioso nos muitos parágrafos. As Artes agradecem a lucidez desse texto inequívoco, que anatematiza a obra sem mérito iluminada temporariamente pelos holofotes. Aspecto fulcral que tenho há longos anos debatido neste espaço relaciona-se à perenidade de uma criação. O pouquíssimo qualitativo perdurará. Sob outra égide, aprofundamentos que se acentuam têm provocado a emersão de obras de absoluto valor rigorosamente desconhecidas.

Guerra Junqueiro, escritor, poeta, jornalista, alto funcionário público, político e colecionador de obras de arte, foi em vida o mais popular poeta português. “A Velhice do Padre Eterno” é uma de suas mais importantes e difundidas criações.  Teve longa gestação e seria publicada em 1885. Ao ser difundida, houve forte reação do clero português.

Em blog bem anterior já abordáramos o grande literato através da musicalidade que emana de seus poemas (vide “A Música de Junqueiro – A Música para Junqueiro”, 03/07/2010).

Do longo “Prefácio à segunda edição”, datado de 1887, exibirei o segmento que antecede as considerações específicas da “Velhice do Padre Eterno”. Guerra Junqueiro não é apenas um grande mestre da língua portuguesa, como um pensador de alta estirpe. No presente, em que a escrita e a fala têm sido tão ultrajadas em nosso país, por vezes deliberada e intencionalmente pelos senhores da política, que não tiveram a humildade de ao menos conhecer seus rudimentos, o texto que segue é o exemplo do respeito à língua mãe. Sob outra égide, Guerra Junqueiro frequenta com maestria o universo metafórico, jamais no sentido da erudição pela erudição, mas a substanciar argumentações.

“Nunca discuti, nem jamais discutirei com quem quer que seja, o valor literário duma obra minha.

Um livro atirado ao público equivale a um filho atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se o não for, também não verterei uma lágrima.

Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim.

Contudo, desde o momento em que ponho as minhas ideias à venda em todas as livrarias, equiparo-me a qualquer produtor que manda os seus produtos para o mercado.

Com uma diferença, no entanto: O artífice e o industrial podem encher de reclames bombásticos, de elogios próprios as esquinas das ruas ou a quarta página das gazetas. É esse o seu interesse. O artista, pelo contrário, perante os aplausos  ou perante as inventivas, deve manter-se absolutamente digno e silencioso. É esse o seu dever. Um poeta não é um marceneiro.

Enquanto a crítica, no uso dum legítimo direito, avalia livremente os meus versos, julgando-os ou ótimos ou medíocres ou detestáveis, eu, em vez de ir para os jornais defender a minha obra, provando que ela é uma maravilha e o seu autor um homem de gênio,  acho um bocadinho mais sensato e mais útil esquecer-me do livro feito para me lembrar unicamente do livro a fazer. Cortada a seara e recolhido o trigo, arrotea-se o campo e semeia-se de novo.

Cheio de luz ou cheio de sombra, alegre ou triste, que importa o dia de ontem? É um cadáver. Deixá-lo em paz. Pensemos no dia que há de vir, fitando o azul na direção da aurora. Só os viandantes exaustos é que se sentam de tarde à beira das estradas, medindo em silêncio, melancolicamente, o caminho percorrido.

Nós, os que temos ainda força, não descansemos um minuto. O dia é breve e a jornada é longa. E os que quedam, contemplativos, a olhar para trás, ficam muitas vezes, como a mulher de Loth, empedernidos em estátua.

A nossa obra é o nosso monumento. Não o cerquemos de grades de ferro, com sentinelas armadas para o proteger, nem desperdicemos a existência a dourá-lo constantemente de novo a ouro fino, a brunir-lhe as asperezas com o esmeril dulcíssimo do amor próprio e a sacudir-lhe as teias de aranha irreverentes com um espanador olímpico, feito de grandes caudas de pavão.

Ao contrário. Levantemos a nossa obra com toda a coragem, ao ar livre, na praça pública, sem muros que a vedem e sem granadeiros que a defendam. Batam-na os ventos, crestem-na os sóis, lasquem-na os raios, a ferrugem que a vermine, a lama que a conspurque e os cães que a mordam. E depois de exibida assim durante vinte ou trinta anos a todas as admirações e a todos os insultos – desde as coroas da apoteose até aos coices dos onagros – depois de lhe terem passado por cima o gelo de trinta invernos e o fogo de trinta estios, então, e só então, meus amigos, é que poderemos averiguar com segurança se o nosso monumento para a imortalidade era de bronze ou era de zinco, era de mármore ou era de gesso.

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, vêem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for a distância, mais imperceptíveis se irão tornando.

Não falo de mim, porque não sou vaidoso nem orgulhoso. A vaidade é o orgulho dos imbecis e o orgulho é a vaidade dos gênios. Ora eu francamente não pertenço a nenhuma dessas categorias. O triunfo, o aplauso público, a rajada de incenso não têm o dom de me embriagar. Não me estonteia o cérebro a vulgar monotonia das grandezas literárias.

Alexandre Dumas, nos últimos tenebrosos meses de sua vida, teve uma noite um pesadelo mortal, um pesadelo trágico.

Sonhou que no alto de um Himalaia monstruoso estava, soberba e resplandecente, a estátua vitoriosa, a estátua de ouro dum ídolo enorme. A estátua era a dele, e o pedestal, o Himalaia – as suas obras. De repente, num segundo, a grande montanha esboroou-se como uma montanha oca de pedra pome ou de caliça, e a estátua do ídolo, que não era de ouro mas de barro, partiu-se e esfarelou-se também, ficando sepultada debaixo dos escombros efêmeros do seu próprio pedestal.

E o sonho realizou-se. Alexandre Dumas, de quem Michelet dizia que era umas das forças da natureza: Alexandre Dumas, cuja glória atroadora encheu o mundo durante um quarto de século, hoje, tem sido um gigante, pode passar sem se curvar, que passará à vontade, por baixo das pernas de Balzac. Um cresceu, o outro diminuiu.

Ah! Quantos e quantos pseudo sublimes artistas duma hora, ex grandes gênios dum semestre, não têm assistido em vida ao enterro de 4ª classe da sua imortalidade, aos pobres e mesquinhos funerais da sua glória, que velha, calva, desdentada, coroada de louros secos e rosas tristes de boião de farmácia, foi dentro de um lençol de misericórdia para a vala comum, para o cemitério anônimo do esquecimento e do desprezo!

Os séculos são as montanhas do tempo. Cordilheira imensa, cordilheira titânica sem fim e sem princípio! E nos topos alcantilados e inacessíveis de cada um desses Horebes monstruosos ficam apenas, com o correr das idades, meia dúzia de gênios, faróis inextinguíveis, archotes crepitantes, incêndios imorredouros que, resplandecendo de montanha em montanha, de século em século, nos deixam estender os nossos olhos curiosos pela caverna profunda do passado, pelo abismo da noite, o insondável cemitério da vida que se chama a História!

Enquanto a nós, Shakespeares das nossas comarcas, Dantes do nosso concelho, Homeros da nossa freguesia, podemos estar perfeitamente descansados acerca do destino que nos espera. Somos uma via láctea de constelações da qual, volvidos meia dúzia de séculos, restará quando muito meia dúzia de pirilampos.

E é por estas considerações, duma imensa humildade cristã, que eu, apesar de ser incontestavelmente o primeiro poeta da minha terra – Freixo de Espada à Cinta – nunca discuti, nem discutirei com quer que seja, o valor literário de uma obra minha.

No entanto, como nisso não há imodéstia, estou sempre pronto a discutir imparcial e tranquilamente os princípios de filosofia, as ideias gerais, os pontos de vista críticos que serviram de base fundamental para qualquer dos meus livros.

Daí este prefácio”

Guerra Junqueiro, que permaneceu pela qualidade da opera omnia, segue num segundo momento a analisar a recepção crítica desfavorável à primeira edição de “A Velhice do Padre Eterno” e a rebatê-la.  Pormenoriza-a, sem faltarem ceticismo, livre arbítrio, humor sombrio e até desilusão altiva. Apesar do anti-clericalismo, Deus e o Cristo são constantes nesse turbilhão de ideias criativas. A sua formação católica não se faz negar.

In this post I transcribe part of the preface of the book A Velhice do Padre Eterno (The Old Age of the Eternal Father), by the Portuguese poet Guerra Junqueiro (1850-1923), a series of satiric and anticlerical poems criticizing conservatism and the Church. However, what interested me in particular was the first part of the preface, in which Junqueiro discusses with absolute clarity and perception the issue of mediocre and meritorious works, stating that only the latter will stand the test of time.