Navegando Posts em Literatura

Temas Esclarecedores

A vida de Debussy não tem nada de romanesco:
é aquela de um criador que sacrificou quase tudo por sua obra.
François Lesure

É comum a reunião de artigos apresentados em congressos, seminários e colóquios em formatações variadas, livros, revistas e online. Sempre me posicionei a respeito da qualidade homogênea desses trabalhos. É difícil mantê-la. Se estudos de grande importância são publicados, escritos por autênticos especialistas, há aqueles que, aceitos, denotam a índole carreirista daquele que escreve, não sendo difícil apreender intenções. Infelizmente, essa prática faz parte do todo. A depender da respeitabilidade internacional dos organizadores, resultados relevantes serão alcançados.

Comemorou-se em 2012 o sesquicentenário de nascimento de Claude Debussy. Um colóquio foi realizado em Paris e reuniu cerca de quarenta estudiosos. “Regards sur Debussy” (France, Fayard, 2013), sob a direção das competentes Myriam Chimènes e Alexandra Laederich, traz à público a maioria das contribuições apresentadas durante o colóquio. O prefácio substancioso de Pierre Boulez evidencia seu compromisso, desde o aprendizado, com a obra de Debussy. Estuda-a profundamente. “Quando analisamos o estilo harmônico de Debussy, há muito a se descobrir e é a partir desse momento que eu fiz minhas descobertas”. Entendeu sempre Debussy como o “único músico francês verdadeiramente universal”. Tem interesse a observação de Pierre Boulez sobre obras distanciadas de mais de uma década, pois “não discirno o que liga conceitualmente obras como Hommage à Rameau e as três últimas Sonates“. Para ele, Hommage à Rameau (2ª peça do 1º caderno de Images para piano- 1904) é “puramente Debussy”, sendo que “as Sonatas são mais curtas, mais concentradas”. A introdução estaria reservada a Myriam Chimènes e a Alexandra Laederich, aquela, secretária geral do Centre de documentation Claude Debussy, membro do comité de redação dos Cahiers Debussy e do comité científico da Edição crítica das obras completas de Debussy; esta, conservadora do Centre de Documentation Claude Debussy, membro do comité de redação dos Cahiers Debussy e responsável pela coleção fac-similada de manuscritos de Debussy editados pelo Centre de documentation Claude Debussy. Discorrem sumariamente sobre cada artigo publicado e evidenciam a unidade que buscaram encontrar.

A literatura sobre o compositor francês Claude Debussy é substanciosa e, em mais de um século de estudos, tem apresentado constantemente caminhos novos, discussões enriquecedoras a respeito de temas já conhecidos e ratificação mais encorpada de estudos realizados ao longo dos decênios.

A leitura de “Regards sur Debussy” é de grande interesse, pois o livro está subdividido em seções, a abordar aspectos fulcrais para a compreensão da criação de Claude Debussy. Política e Literatura, Teatro e Melodias, Interpretações, Pensar a Composição, Recepção e Herança abrigam os muitos artigos pertinentes. Devido ao espaço a que me proponho para o post semanal, pormenorizar-me-ei em alguns, que estariam mais próximos à minha área de estudos relacionados a Debussy.

Em “Debussy en Grande Guerre”, Annette Becker aborda o período crucial na vida do compositor. À doença fatal desse período soma-se a 1ª Grande Guerra (1914-1918). A correspondência de Debussy é reveladora e, à medida que obras da maior importância vão sendo criadas, frases do compositor não deixam dúvidas sobre seu estado de espírito. A articulista apreende a tragédia que se abaterá sobre Debussy. Tempos difíceis para a França submetida ao racionamento, o que não impede certa ironia do compositor, que reclama da  “falta de munições, ou seja, falta de papel para escrever música”, ou a menção a seu piano alemão Bechstein como presa de guerra, que precisa ser afinado para estar “em condições de soar à francesa”. A leitura e interpretação dessa rica correspondência em período crítico, físico e mental, corrobora o entendimento da feitura de obras essenciais, como as três Sonates, En Blanc et Noir para dois pianos e, sobretudo, os 12 Études, obra maior para piano de Debussy e fundamental na literatura pianística universal.

Debussy mostrar-se-ia discreto frente aos primeiros passos da indústria gramofônica. Data de 1904 sua primeira incursão. Apesar da precariedade da aparelhagem do início do século XX, é possível, através das gravações realizadas por Debussy ou de intérpretes que com ele conviveram,  apreender essencialidades voltadas à interpretação. Em artigo que escrevi para os “Cahiers Debussy” (“La technique pianistique et les doigtés dans les Études”. Paris, Centre de Documentation Claude Debussy, nº 19, 1995) salientei a facilidade que Debussy apresentava frente à técnica das mãos alternadas, focalizando Gradus ad Parnasum, da suíte Children’s Corner, quando o pianista compositor “dispara” do compasso 57 até o final en animant peu à peu, que apresenta desenho repartido entre as mãos nas proporções 3/1 e 2/2 (nº de notas para cada mão). O processo alternado é típico entre pianistas que improvisam e Debussy sabia fazê-lo. Revela esse registro fonográfico qualidades pianísticas do compositor. Quatro artigos, assinados por Élizabeth Giuliani, David Grayson, Roy Howat e Mylène Dubiau-Feuillerac, captam diversos aspectos relativos às gravações primevas da obra de Debussy. Temos desde a abordagem histórica à observação auditiva através de Debussy pianista e a primeira intérprete da ópera Pélleas et Mélisande, Mary Garden. Nesse quesito, Roy Howat (“Les enregistrements historiques des mélodies de Debussy”) estabelece interessantes parâmetros, que fazem melhor entender como o compositor realizava musicalmente determinadas frases musicais juntamente com Mary Garden. Sob outra égide, Élizabeth Giuliani (“Debussy et le disque”) enumera com acuidade desde as primeiras gravações da obra de Debussy, passando pelas 78 rotações, long plays e as mais recentes, tendo as revistas discográficas ajudado a “santificar” (segundo ela) certos intérpretes consagrados. Mencionando a discografia catalogada por Margaret Cobb, chama a atenção que, de 1309 gravações, 512 referem-se à obra para piano. E nem contemos as tantas gravações com obras de Debussy interpretadas por músicos notáveis, mas que não são mediáticos, lançadas por selos representativos, mas menores. Tema recorrente, pois menciono o fato em posts bem anteriores.

O artigo de Marie Duchêne-Thégarid e Diane Fanjul tem interesse a partir de uma reavaliação que pode ser feita da tradição interpretativa da obra de Debussy para piano “estabelecida” pelo Conservatório de Paris de 1920 a 1960. As autoras estariam preocupadas na maneira como alguns intérpretes-professores de renome, que receberam, direta ou indiretamente, conselhos do compositor, transmitiram a tradição nas salas do Conservatório. Sob aspecto outro, houve período em que as criações de Debussy, salvo as conhecidíssimas do público, não fizeram parte dos programas da famosa Escola, em parte pelo “desconhecimento” de alguns mestres quanto às novas conquistas estabelecidas por Debussy, que se mostravam diferenciadas frente ao vade mecum do repertório tradicional.

Paolo Dal Molin se debruça sobre tema fundamental, os esboços das últimas obras. Menciona frase do saudoso François Lesure: “Debussy só iniciava a composição de uma obra quando a tinha por inteiro em sua cabeça, e sem nenhum auxílio instrumental. No entanto, o tempo da incubação mental… era habitualmente muito longo…”. Dal Molin estabelece a relação entre o esboço e a definição de uma obra e incontáveis exemplos dão conta do preciosismo do compositor quanto à elaboração de uma criação. Estou a me lembrar de que os esboços autógrafos dos Études para piano de Debussy foram-me fundamentais para a gravação que realizei em 2005 para o selo belga De Rode Pomp. Sob outro aspecto, Debussy sugere aos intérpretes a busca dos dedilhados, como faziam os cravistas franceses do século XVIII, daí não ter colocado qualquer indicação a esse respeito na edição impressa pela Durand, advertindo com certa ironia no prefácio: cherchons nos doigtés. Contudo, pouquíssimas indicações quanto a esse mister podem ser encontradas nos esboços (Claude Debussy. Études pour le piano – Fac-simile des esquisses autographes (1915). Genève, Minkoff, 1989). Voltando ao artigo de Dal Molin, este adverte que a publicação facsimilada de uma obra esboçada de Debussy tem também a força de ser  “considerada como testemunho de um processo de composição que pode ser complexo”. Creio que o artigo em questão é um dos mais substantivos de “Regards sur Debussy”.

Richard Langham Smith apresenta tema de enorme importância, “L’art de Préluder. Quelques questions de taxonomie chez Debussy”. O autor busca entender títulos empregados pelo compositor em suas obras. Taxonomia, a parte da gramática que se preocupa com a classificação das palavras, adequa-se às preocupações de Langham Smith. Curiosa a resposta de Debussy a uma pergunta sobre o significado de uma de suas mais conhecidas criações para piano, L’Isle Joyeuse: “Se perguntássemos a François Couperin sobre Les barricades mystérieuses – uma de suas mais adoráveis peças para cravo – o que ele teria respondido”? Langham Smith classifica os títulos debussynianos, sentindo aqueles que “por vezes ambíguos, necessitam para a compreensão de um conhecimento do contexto, como Voiles, Bruyères ou Brouillards. Há outros em que seria necessário buscar um poema, um evento ou um lugar: La Cathédrale engloutie, La Puerta de Vino e, sobretudo, La Fille aux Cheveux de Lin“. O articulista preocupa-se com a ligação desses títulos sugestivos a poetas como Leconte de Lisle, Théodore de Banville e, principalmente, Stéphane Mallarmé. Traça comparações de interesse entre Diane au bois e Prélude à l’après midi d’un faune, esta uma das mais célebres obras de Debussy.

Sempre que me deparo com a palavra reavaliação histórica busco entendê-la com precauções necessárias, mas sem parti pris. Julien Dubruque e Jean-Claire Vançon, em “Pour une réevaluation critique du ramisme de Debussy”, estendem-se, durante todo o bem documentado artigo, sobre os escritos de Debussy em que Rameau é citado e mais o contexto musical ao qual estariam acoplados. Não me parece minimamente difícil perceber nítida idiossincrasia dos autores por Jean-Philippe Rameau. Já de início mencionam artigo de Anya Suschitzky (2002) em que a estudiosa afirma ter sido Debussy “o ‘ramista’ mais entusiasta de sua geração”. Antolha-se-me que os autores “interpretam” todas as menções de Debussy, buscando adequá-las ao “pré-julgamento”. Essa prática, aliás, pode ser aplicada a qualquer criador do passado, em qualquer área do conhecimento, a depender das intenções de “pesquisadores”.

François Anselmini aborda tema que sempre despertou interesse, “Incarner le génie français – Alfred Cortot et Claude Debussy”. Percorre desde um certo mal estar de Debussy frente ao então jovem pianista e regente, admirador confesso do repertório alemão, até uma aproximação maior e, por fim, o grande contributo do pianista nas décadas após a morte do compositor, não apenas apresentando, mas a gravar na excelência interpretativa algumas de suas mais importantes criações.

“Regards sur Debussy” têm um dedicatário, François Lesure, que foi diretor do departamento de Música da Bibliothèque Nationale de 1970 até sua aposentadoria, autor de livros referenciais sobre Debussy e, consensualmente, o nome mais expressivo entre seus especialistas da segunda metade do século XX. Após enumerarem com precisão o contributo extraordinário do notável musicólogo, de 1962 até sua morte em 2001, Myriam Chimènes e Alexandra Laederich finalizam: “Felizes beneficiários dos caminhos que ele abriu, todos os debussistas são hoje devedores a François Lesure, legitimando a homenagem que este livro lhe tributa”. De minha parte, tenho a maior gratidão pelo ilustre e saudoso amigo que, de 1981 até sua morte, jamais deixou de me dar incentivo, tanto para os vários artigos que escrevi para os “Cahiers Debussy”, como a prefaciar meus CDs contendo obras de Francisco de Lacerda e Debussy e a integral para cravo – executada ao piano – de Jean-Philippe Rameau, divulgados pelo selo De Rode Pomp da Bélgica. Convidou-me para seminários na École Pratique des Hautes Études e esteve por três vezes no Brasil, sendo que a última a participar de júri de um dos concursos a que me submeti na Universidade de São Paulo, que teve como tema “O idiomático técnico-pianístico na obra de Claude Debussy”. Merecidíssima a homenagem prestada pelas diretoras de “Regards sur Debussy”.

In 2012, a symposium was held in Paris, celebrating the 150th anniversary of Debussy’s birth. Some of the works presented were gathered in the book “Regards sur Debussy”, a collection of writings by different authors, each one addressing different aspects of the French composer’s work and life. Under the direction of Myriam Chimènes and Alexandra Laederich, respectively General Secretary and Curator of the Centre de Documentation Claude Debussy, the book was dedicated to the memory of its founder, musicologist François Lesure. In this post I give my views on some of the articles. For reasons of space, it was impossible to address all of them.

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Narrativa ao Conto

… os heróis desses quinze contos não deveriam jamais esquecer
que as leis do destino e as forças da natureza
são mais pujantes do que desejos e esperanças.
Não adianta o homem se agitar na luta pela existência,
pois a vida, mesmo quando não tem bom início,
termina sempre mal. Lembre-se,
uma lamentável queda vale mais do que um fim insignificante.
Sylvain Tesson

Uma das condições essenciais do conto é a brevidade e o espírito de síntese. Gênero específico da literatura, ao longo dos séculos escritores se notabilizaram no mister. Sob outra égide, o conto pode apresentar várias fontes de ideias. Entre essas poder-se-ia mencionar a criação “abstrata”, quando toda a trama do conto, personagens e situações vêm à mente do autor de maneira inédita, sem “contágios” imediatos. Uma outra temática pode advir de fato real que se passou na vida do contista, mas inédito, ou seja, não transmitido a um interlocutor. Uma terceira, entre tantas, refere-se ao outro, aquele que está a passar por momento hilariante ou trágico e que, retido na mente do contador, dimensiona-se através da pena. Nessa metamorfose, as situações observadas recebem tintas novas e a imaginação do contista dá a pintura final ao quadro.

Reunidos, contos podem ser ingeridos pelo leitor de maneira homeopática. Curtos e sem sequência, a leitura rápida pode ser feita no espaço temporal exato, a propiciar ao amante da leitura a possibilidade de que o cronômetro mental seja acionado em situações precisas: espera de consulta médica ou exames laboratoriais, viagens curtas, o aguardo em oficina mecânica, a proverbial paciência para atendimento em repartição pública, seja ela qual for. Nessas situações em que o tempo se nos afigura estanque, o conto é precioso companheiro e pode ser degustado sem pressa.

Foram muitos os livros de narrativas de Sylvain Tesson que resenhei ou comentei desde Maio de 2011. Andarilho na grande maioria das obras e “eremita” nas florestas da Sibéria, às margens do lago Baikal, Tesson revelar-se-ia pensador brilhante sobre as experiências vividas diuturnamente.

Em Une Vie à Coucher Dehors (France, Gallimard, 2009) Sylvain Tesson é contista. Obteve o festejado Prêmio Goncourt, categoria contos, em 2009. Nesse ano, Gallimard faria a edição econômica, selecionando cinco dos quinze contos do livro premiado, L’Éternel Retour.

Une Vie à Coucher Dehors foi lido ao longo de certo tempo, de maneira homeopática, entremeado a outros livros percorridos alopaticamente. Os interregnos serviram para melhor compreender as intenções do narrador, doublé de contista, nesse intrigante livro.

Parte considerável dos contos surge do destilar de incontáveis observações ao longo de dezenas de milhares de quilômetros caminhados. O acúmulo do olhar arguto estaria a demonstrar que o tempo do narrador nem sempre coincide com o hipotético tempo do personagem, real ou imaginado. O caráter dos figurantes deve certamente esbarrar na realidade observada. As asas da imaginação dão sentido e vida aos tantos que penetram os contos. Muitos deles vivendo na geografia que um dia abrigou os passos do narrador de aventuras.

Considere-se que todos os quinze contos têm final trágico ou infeliz, fazendo jus à epígrafe. Esse ceticismo quanto ao relacionamento humano, às distorções de pensares e ambições, ao desinteresse pela condição humana, ao conformismo, à ignorância são temas que perpassam o livro. Tem-se hilariantes histórias de homens do mar em La Chance, que não impedem a morte do anfitrião em queda acidental banal; a relação serena penetrada pelo ciúme e desconfiança afetiva,  levando à tragédia em La Crique; a ignorância de náufragos após tempos em ilha deserta, tornando-os irracionais, em L’île. Os personagens de L’Asphalte e Le Lac devem ter sido criados considerando-se as narrativas reais de Éloge de l’Energie Vagabonde e Dans les Forêts de Sibérie, pois o autor seguiu em bicicleta os caminhos do petróleo e do gás da alta Ásia à Turquia e permaneceu seis meses às margens do lago Baikal, respectivamente. Personagens que povoam l’Asphalte e situações inusitadas, relacionadas à construção de uma estrada de betume acalentada com ardor pela figura central, não deixam traços do desfecho duplamente trágico, pois o que é bom para a comunidade pode ser a desgraça para o idealizador da benfeitoria. Em Le Lac, o temido urso, sempre mantido à distância nas narrativas de Tesson, é o vilão da história que tenderia a final ao menos tranquilo.  Em La Particule, sob outro contexto, há semelhança no desenrolar da história com “A Voz de um livro”, de Edmondo de Amicis (vide post  A voz de um livro.19/02/2010). Se de Amicis escreve na primeira pessoa sobre as tantas mãos pelas quais um livro pode passar ao longo de sua duração, em La Particule Tesson engenhosamente historia, também na primeira pessoa, a “viagem” de uma partícula que sobe aos ares após deixar o corpo de um brâmane que acabara de ser cremado e incorpora-se, progressivamente, a outros seres vivos vegetais ou animais. Ao final, implora: “e eu, miserável partícula, célula anônima, pobre poeira de átomo, eu vos suplico, ó Deus do céu, de me dar repouso, de me libertar do ciclo e de me deixar ganhar o vazio…”.

Seria possível entender que ao criar figurantes, Tesson tenha se desviado de uma escrita espontânea, que brota do dia a dia da narrativa. O estar vivendo o instante do acontecido, como afirmava Vladimir Jankélèvitch, dá ao narrador, inclusive, o timing da pulsação. Preciso em suas anotações – pois Tesson tudo assinala em suas viagens – o fixado pelos sentidos e, por vezes, metaforizado em belas imagens, ganha uma naturalidade ocasionalmente perdida na  redação dos contos. Em outro contexto, o conto de Tesson adquire uma imaginária “veracidade”, pois o autor, em tantos textos desse gênero literário, conheceu lugares, costumes e pessoas as mais diversas. Sente-se, em alguns momentos, o amálgama ficção-realidade

A leitura de Une Vie à Coucher Dehors tem interesse. A configuração dos enredos, a descrição minuciosa dos personagens de culturas tão díspares e a brilhante redação teriam sido primordiais para o recebimento de uma das láureas mais cobiçadas em França, acima mencionada. O autor fez jus.

I have already reviewed many non-fiction books by the French explorer and writer Sylvain Tesson, describing his adventures in remote areas of the globe. This time I’ve read Une Vie à Coucher Dehors (translated into English as “A Life of a Mouthful”), winner of the Goncourt Prize for short story books in 2009. His stories, both good humored and pessimistic, wrestle with the big questions of life and, though fictional, it’s possible to say that Tesson brings to them many of the memories and experiences of his time spent in the wilderness.

 

 

 

 

 

 

Considerações sobre Criação e Descoberta, Arte e Aventura

O conceito “dois”
está estreitamente ligado ao conceito “semelhança”, “repetição”.
O conceito “outro”
com o conceito “diferenciação”, “novo”.
Alexandre Scriabine (Cahier II-91,  1904-1905)

Após o regresso da Europa escrevi posts sobre Sylvain Tesson e suas viagens através do planeta, assim como a respeito do longo estágio do wanderer às margens do lago Baikal, na Sibéria. Um outro foi dedicado à dileta amiga Idalete Giga, especialista amorosa do canto coral. Meu estimado amigo François Servenière, compositor e pensador, admira igualmente os livros de Tesson e a arte de Idalete. Dele recebi e-mail abrangente. Compartilho com o prezado leitor tópicos fundamentais.

“Há muito a dizer a respeito de seus últimos posts. Gostei muito da comparação (post de 15/02/2014) entre a pesquisa concernente às novas partituras (passado e presente) pelo intérprete musicólogo e a pesquisa de novos territórios (do pensamento) pelo geógrafo escritor. Ela causa impacto e estou absolutamente seguro que a sua tese é a coluna vertebral da pesquisa – do tempo perdido (Proust), dos territórios desconhecidos (Tesson), das partituras esquecidas (Martins), etc… Tive anteriormente discussões inflamadas sobre o aprofundamento e as grandes descobertas, que nos levaram a distinguir as buscas fundamentais (que descobrem ou inventam uma realidade, não se sabe), empreendidas por inventores, descobridores, geógrafos, pioneiros, aventureiros… Fiquei impressionado por todas as divergências de apreensões e de definições, acompanhando o propósito da discussão pelo conceito atribuído a Michelangelo Buonarroti. Pretendia ele, como você bem sabe, não estar a esculpir estátuas, mas sim a retirar das entranhas da pedra a criação existente que lá estava reclusa. A reflexão inusitada do imenso artista levou-me a compreender que a criação e as descobertas têm duplo sentido. Elas se abrem sob dedos, olhos, pernas ou espíritos de descobridores ou inventores – diz-se que um descobridor de sepulcros ou grutas pré-históricas é um ‘inventor’, – mas poderíamos também pretender evidentemente, para os espaços geográficos, que eles lá estavam antes de seus descobridores. Poderíamos igualmente afirmar o mesmo concernente à criação musical em geral. Estariam os compositores organizando a matéria segundo esquemas pré-concebidos do universo, aquela que está representada em suas mentes através de programações antediluvianas? Que eu saiba não há foto dessa evidência. Se pretendermos que a música nasça de nosso cérebro, o que é incontornável, colheríamos direitos autorais por ‘trabalho que merece salário’, como quaisquer outros esquemas de DNA – que são na realidade produtos das forjas do Universo -, e,   evidentemente, seríamos induzidos a uma linguagem universal (no sentido primeiro do termo), saída dessas programações primitivas. É para isso que a música serve, religar os seres vivos, todos os seres do Universo, sob uma mesma linguagem ‘universal’, a única, aliás. Idalete não diria o contrário, ela que acredita, como você, na universalidade da música e nos extraterrestres, crendo, ademais que a música será o único elo entre a Terra e outras civilizações, dia mais, dia menos. Julga-se que 50 milhões de planetas existam na Via Láctea e que a probabilidade de outras civilizações extra-terrestres segundo a Equação de Drake, é igual a 1.

Para mim, mesmo que não viva para esse encontro de ‘terceiro grau’, não entenderia uma comunicação com possíveis outros seres do espaço a não ser através da música. É fato que muitos músicos têm inteligência superior. Assim sendo, a música, que possui uma literatura inteligente, a mais avançada no domínio das áreas do conhecimento humanístico, diferentemente de gêneros mais vulgares no próprio segmento, como a música mal feita – esta fatalmente relegada ao esquecimento. A música denominada erudita será o primeiro vetor e testemunho para outros seres vivos do espaço. Como fazê-los compreender Voltaire, Rousseau? Mozart eles compreenderão imediatamente. In fine, os meios primitivos de destruição e de poderio que nos permitirão mudar de dimensão no espaço para a visita a outros sistemas solares saem das despesas militares. Isso é fato, como provaram estudos de economia e política sobre a matéria. Progresso técnico pressupõe, paralelamente, progresso militar ou de destruição. É estranho constatar os limites imediatos desses meios de destruição, se não associados imediatamente ao vetor da paz universal no mundo (e, seguramente, do universo), que é a música. Constatação que parece clara. Para que servem meios de destruição globais e totais, como as bombas mais modernas, se territórios atingidos são esvaziados de toda substância essencial inerente? Construir sobre o deserto destruído? O que restará de um planeta se arrasado pela potência de bombas tão poderosas como o sol? Eis o que me levou esta manhã a refletir sobre os blogs dedicados à Idalete Giga e a Sylvain Tesson. A Arte vocal, a ter Idalete como sacerdotisa, é a Arte fundamental do Universo. Sylvain Tesson faz-nos refletir sobre nossas origens de povos caminhantes e descobridores. Seus últimos posts transportam-nos às origens da vida, da essência do homem e dos povos”. Tradução JEM.

Consideraria que o grande compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1915) buscou com empolgação a união das Artes. Para tanto, imaginou um templo esférico que seria construído em um lago na India e onde todas as manifestações artísticas pudessem se manifestar. O projeto visionário tenderia a uma união totalizante com o Cosmo. A morte levou-o antes da concretização de  ideias com as quais se entusiasmara. Contudo, muitas delas podem ser apreendidas através do “L’Acte Préalable”, texto que introduziria a obra maior sobre o tema, “Mysthère”. Nesse Cosmo há profunda influência da teosofia e de textos de Friedrich Nietzsche (1844-1900), Annie Besant (1847-1933), Ana Blavatsky (1831-1891). O Universo idealizado por Scriabine não tem fronteiras espaciais. Não é extraordinário o fato de o compositor, em sua última fase criativa, escrever em 1912 uma obra tão instigante como Vers la Flamme, composição que, se escrita hoje, seria atualíssima? “Há muitas moradas na casa de meu Pai…” (João, cap. XIV, vers. 2).

Convido o leitor a ouvir Vers la Flamme na extraordinária interpretação de Vladimir Horowitz.

In this week’s post I publish an e-mail received from the French composer and intellectual François Servenière with his views on the subjects of similarities between venturing in unknown territories/unknown musical compositions and music as a universal language, understandable to all beings in the universe.