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“O Primeiro Português no Cume do Evereste”

Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.
Amyr Klink

Foram muitas as minhas leituras de narrativas concentradas no montanhismo, mormente aquelas referentes à cadeia do Himalaia. Testemunhei sempre o fascínio que as aventuras empreendidas por intrépidos alpinistas causam neste intérprete e atleta amador de corridas de 10km. Muitos os relatos corajosos e trágicos que percorri sempre com grande interesse. Inúmeros livros resenhei ou comentei. A leitura de mais uma história me fez voltar ao tema.

Quando da última viagem a Portugal recebi dos diletos amigos Ana Cristina e Joaquim, ela pianista e ele a ter como hobby a corrida,  um palpitante livro de João Garcia (A Mais Alta Solidão – O Primeiro Português no Cume do Evereste, Lisboa, Caderno, 2006). Meu conhecimento das façanhas de João Garcia era quase nulo. O livro em apreço, ora  na 12ª edição, fez-me compreender mais do que todos os anteriores sobre os problemas vividos por esses visionários. Confesso que iniciei a leitura ainda no voo de regresso ao Brasil e, à medida  que lia as narrativas, pude entender os antagonismos do pensar de um alpinista. A maior parte da literatura específica existente contém uma dose bem grande de ufanismo natural por êxitos obtidos. Os pequenos equívocos, as falhas que têm de ser reparadas, o desalento ficam majoritariamente à parte nos relatos desses heróis e amantes das grandes altitudes, nessa fronteira tênue entre a realização e a auto-destruição. Os limites fronteiriços existem, estão lá, sempre a apontar as únicas possibilidades, exceção à desistência, que se traduzirá ou na depressão ou no estímulo para outro ato visionário.

Para um leigo, seria possível admitir que, mais do que a transmissão triunfalista de um alpinista-narrador, haveria o interesse em acompanhar o sonho que leva ao projeto acalentado e às suas consequências: múltiplas dificuldades encontradas, longo tempo de aclimatação à altitude,  decorrentes mudanças de humor, declínio físico e a inquebrantável vontade de atingir cumes. Sabe-se que o alpinista tem sempre a morte à espreita, seja através do chamado mal da montanha – edemas pulmonar ou cerebral por redução drástica de oxigênio em grandes altitudes – seja por fendas que se  podem abrir nas geleiras, blocos de gelo ou seracs que tombam, ou a fatalidade do abismo. João Garcia consegue, em A Mais Alta Solidão, transmitir ao leitor todas essas vicissitudes de maneira franca, sem subterfúgio e a ter como referências a solidariedade de amigos que permanecem ou que se foram, perdidos nas alturas ou nos abismos.

Atingir o topo do Everest é o sonho de quase todo alpinista. João Garcia focaliza no livro sua tentativa frustrada de atingir o cume do Everest e a dramática conquista posterior, parte de seu ambicioso projeto já realizado. Façanhas absolutamente extraordinárias tem o alpinista português empreendido. Como se não bastasse, João Garcia conquista montanhas acima dos 8.000m sem auxílio de oxigênio suplementar e, como escreve, “ao utilizar oxigênio estamos a enganar a montanha e a nós próprios”. Em post anterior já me referira ao nosso notável alpinista Vítor Negrete (vide “Espírito Livre“, 21/04/12), primeiro brasileiro a subir o Everest sem oxigênio suplementar, mas que, em decorrência, encontraria a morte poucas dezenas de metros na infausta descida.

João Garcia, a fim de fundamentar razões que o levaram a enfrentar o Everest, historia vários acontecimentos, alguns trágico, como o das expedições de 1996, nas quais houve quantidade de mortes. De uma delas há o relato dramático de Jon Krakauer (No Ar Rarefeito), um clássico da literatura sobre o tema. Para seu intento maior, João Garcia se faz acompanhar de seu grande amigo, o alpinista belga Pascal Debrouwer, a quem o livro é dedicado. Pormenores  da estada em Katmandu, a descrição pormenorizada dos costumes da cidade, meca dos escaladores dos altos picos, e a crítica mordaz ao simples turista: “Muitos passeiam uma manhã pelos arredores de Katmandu, vão até umas montanhas de onde se veem alguns picos e dizem que já fizeram um trek”. Percebe-se no esportista português o distanciamento do amadorismo e sua profunda consciência profissional. Durante a permanência no Campo-Base (5.200m) João Garcia descreve suas criações para baratear a escalada. Inventa várias peças, tem o talento para compor uma tenda que seja prática, resistente às intempéries. Tudo é meticulosamente pensado.

Há em João Garcia a vontade de não esconder enganos. Após meses de preparação e duras subidas e descidas aos vários Campos Avançados para aclimatação, Garcia e Debrouwer sentem-se prontos para o ataque ao cume. João Garcia, sem auxílio do oxigênio suplementar, vai à frente. Reconhece erros cometidos. A certa altura abandona em lugar “seguro” a  lanterna presa à testa e, posteriormente, as luvas suplementares. Ao atingir o pico mais alto do planeta durante o dia, tem dúvidas sobre se realmente lá chegara devido às mínimas elevações existentes no local, certificando-se contudo: “Ao fim de um bom bocado acabo por me convencer que o cume era ali. Até porque era o mais sujo. Ironia amarga, não é? O ponto mais alto, mais remoto do mundo, é identificável por estar sujo…”. Deslumbra-se e permanece não os pouquíssimos minutos recomendáveis, mas um tempo muito maior. Exalta a visão magnífica e o estar lá. Confessa que, devido à altitude, “já estou, há que reconhecê-lo, num misto de alucinação e mau funcionamento do cérebro, devido ao ar rarefeito”. Logo após iniciar a descida vê seu amigo Pascal que buscava, sôfrego, atingir o cume. Este insiste junto a Garcia que o acompanhe, pois o português não se deixara fotografar quando no pico. Nova ascensão, novo erro. Nas alturas permanece mais um bom tempo e, ao descer, a noite já se anunciava. Vai à frente novamente, mas sempre a aguardar o amigo. Cochila por vezes devido à exaustão, caminha às escuras, recobra forças e continua a descer. Em determinado instante, confuso, acredita que Pascal deva ter por ele passado. Ledo engano.  Sem a lanterna na testa e sem luvas apropriadas, tem consciência da série de equívocos. “Avançava agarrado às cordas geladas e nesta altura já só usava as luvas de lã, já não tinha as luvas de nylon postas. Tinha as mãos insensíveis e já não havia discernimento para avaliar a gravidade do que estava a fazer, a estupidez que era andar àquela altitude, esgotado e desidratado, apenas com luvas de lã. Foi aí que acabei de gelar as mãos”. Ao ser encontrado por amigos, inquietos pela longa demora, soube que o amigo belga não chegara. Um abismo certamente o tragou. Destino igualmente trágico aconteceria a um membro de expedição polonesa, cuja tenda ficava próxima à de Garcia.  

Saliente-se a clareza do autor ao abordar o esforço despendido por um alpinista  após atingir a zona da morte, assim considerada a marca dos 8.000m, quando, para cada passo, várias aspirações e expirações são realizadas, pois a quantidade de oxigênio nessas circunstâncias é ínfima. Essa situação provoca pensamentos confusos, difícil raciocínio justamente quando mais aguda deveria estar a mente. A longa exposição às baixíssimas temperaturas, a ausência do oxigênio suplementar e das luvas de nylon sobre as de lã resultaram num drama comum que acomete muitos alpinistas de grandes altitudes. A descida é sempre mais temida e foi ainda mais dramática para João Garcia. Saber voltar. Com extrema dificuldade os vários Campos Avançados foram atingidos: C3, C2, C1, o Acampamento Avançado e o Acampamento Base, até a segurança de um hospital. A necrose instalou-se nas extremidades dos membros de  João Garcia, que perderia as pontas de alguns dedos das mãos e dos pés, assim como segmento do nariz. Ficaria internado durante meses.

A intrepidez desse notável alpinista fê-lo reiniciar as escaladas, completando os 14 picos acima dos 8.000m e os sete mais elevados dos continentes. Para quem admira a literatura sobre montanhismo, A mais Alta Solidão é livro recomendado e estaria a evidenciar a presença de João Garcia, um dos mais importantes alpinistas da atualidade.

Comments on the book “A Mais Alta Solidão” (The Highest Solitude), written by the mountain climber João Garcia, the first Portuguese alpinist to reach the summit of Mount Everest without supplementary oxygen in 1999. In this book he recounts this dramatic experience, in which his partner Pascal Debrouwer fell to his death and João himself suffered severe frostbite, having later part of his fingers and nose amputated.

        

Narrativa em Torno do Notável Henry Le Boursicauld

À loucura da peregrinação do meu antigo confrade,
Henry Le Boursicaud, quis eu juntar a minha peregrinação,
de esgarafunchar a história da “herética divinização” dos Papas.
Mas não vejam aqui senão uma crítica amiga.
Luís Guerreiro
(dedicatória manuscrita do autor e amigo no exemplar que nos foi enviado)

Luís Guerreiro é um escritor de convicções fortes.  Bem anteriormente, dediquei um post ao instigante romance Oitavo Dia da Criação (29/06/07). O presente, O Peregrino (Brasília, Ser, 2012), vem comprovar a preocupação maior do autor com os rumos da Igreja Católica Apostólica Romana. Para tanto, descreve com acuidade os passos sofridos do missionário redentorista francês, Henry Le Boursicaud (1920- ), em uma caminhada épica empreendida a pé pelo padre aos 75 anos de idade. Escritos de Le Boursicauld durante o trajeto são entremeados pela interpretação de Guerreiro, a dar movimento à narrativa, numa caracterização em que a veracidade pode ter eflúvios da inventiva do escritor, sem, contudo, fugir à certeza de um fato real.

Henry Le Boursicauld é uma figura notável. Padre da Ordem dos Missionários Redentoristas. À certa altura deixou o abrigo certo do convento e partiu para uma aventura que se prolonga aos nossos dias. Percorreu o mundo, a viver nas comunidades mais carentes, não apenas aquelas dos pobres e desvalidos, mas também a integrada pelos oprimidos, pelas populações desprovidas das necessidades básicas. Inicialmente viveria entre milhares de imigrantes portugueses em Champigny,  perto de Paris. Esteve prolongadamente em alguns dos guetos mais desfavorecidos deste planeta, a desenvolver ações comunitárias. Notáveis suas contribuições junto aos abandonados pelo poder público em Fortaleza e entre os catadores de lixo em São Paulo, assim como a prolongada ação junto aos pigmeus, na África, onde ensinou o plantio de inúmeros vegetais, que corroborariam o sobreviver da etnia africana. Seus livros são o resultado desses apelos interiores e de uma vida cristã realmente dignificada pela ação. E tudo teria acontecido quando recebeu um tapa em reunião de párocos, simplesmente por ter dito que não lhe parecia difícil encontrar a casa da paróquia em pequena localidade, pois esta era preferencialmente a melhor.

Luís Guerreiro, que em Oitavo Dia da Criação ratificava sua posição clara relacionada a alguns desvios da Igreja, e o personagem do livro, Deodato, apreendia o sentimento solidário relacionado àqueles oprimidos pelos poderosos, encontra no exemplo de Henry Le Boursicauld o herói vivo, palpável, admirado, mormente pelo fato de ter sido seu antigo confrade redentorista. Constrói uma história a partir de um feito inédito e excepcional empreendido pelo personagem.

Desiludido com a pompa existente em setores da Igreja e com a falta de dedicação plena aos menos favorecidos, Henry Le Boursicauld empreende uma viagem tida por tantos como um ato de loucura, de sonhador, de visionário. Segue a pé de Paris a Roma, a fim de entregar carta de seu punho e cinco livros do teólogo alemão Berhnard Häring ao Papa João Paulo II. Na missiva,  pede com firmeza uma ação maior voltada aos oprimidos e aos pobres segregados. Fá-lo aos 75 anos e de 18 de Junho a 23 de Setembro de 1995 caminha em direção ao Vaticano. Seriam 97 dias em que sequer pediu carona, pois o trajeto teria de ser completado a pé!!! Apenas aos sábados descansava. Quase sempre recebia acolhida para repouso em casas de moradores ou religiosos das pequenas localidades. Em França e na Itália. Transpôs os Alpes! Nas longas e perigosas subidas pelo acostamento das estradas alpinas, receberia convite de motoristas querendo levá-lo, pois sua peregrinação ganhara manchetes. Recusava sistematicamente. Tantos o têm como um Profeta. Creio que Luís Guerreiro soube captar essa vontade férrea de Le Boursicauld. Nessa epopeia, o missionário redentorista se faz – involuntariamente – acompanhar de um jovem alemão forte e alto que se sentiu impelido a segui-lo: “Henry, dou-te três meses da minha vida”. Guerreiro insere os textos fortes do missionário sobre episódios papais, alternando-os com os seus, colega redentorista, descritivos, romanceados. Essa técnica torna leve a interpretação do cotidiano da longa viagem, a possibilitar que as observações duras escritas pelo padre tornem-se referências aguardadas pelo leitor. Dos diálogos entre Jürgen, o jovem, e o velho missionário, Guerreiro sabe caracterizar a intrepidez do sacerdote nascido na Bretanha. Não por vezes há discordâncias entre os dois peregrinos, mas Guerreiro capta nesse “romance histórico” o lado altruístico do germânico companheiro de Henry e a sua admiração pelas características indomáveis de Le Boursicauld.

Nessa determinação, até certo aspecto visionária, a almejar que sua carta pudesse ser lida pelo Papa João Paulo II, reside o cerne do livro. Mostra-se Le Boursicaud obcecado por mudanças na Igreja, que na realidade pouca guarida poderiam ter por parte das autoridades eclesiásticas. Percebe-se, por parte do padre, uma revolta interior pelos desmandos dos papas, desde os primórdios da Igreja. Tece reflexões a respeito da célebre frase contida nos evangelhos “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. A interpretação, tomada à risca pelos papas, teria sido a responsável por tantas arbitrariedades cometidas por suas ações ao longo da história. Le Boursicaud historia em seus apontamentos o lado trágico e autoritário nessa milenar sucessão de papas. Essa constatação, somada à infalibilidade papal, apenas do Papa, proclamada durante o pontificado de Pio IX no século XIX, à ostentação ainda existente na cúpula da Igreja e à existência de determinado “sistema” elitista arcaico constantiniano (secreto?) a visar ao Poder iriam se chocar com a visão oposta voltada aos abandonados, à miséria, aos oprimidos, razão maior da cruzada apostólica do missionário. Diria que amor sincero e revolta, não ódio, frise-se, fazem-se presentes no transcorrer da obra. Ficaria claro que o amor é a essência na vida do missionário peregrino, mas a revolta estaria a apontar o caminho da denúncia.  Afirmaria Le Boursicauld: “Colossais despesas das viagens do papa pelo mundo endividam as dioceses. Ao mesmo tempo, João Paulo II é obrigado a colar-se aos ricos, por vezes pouco desejáveis. Em Bogotá, antes de sua chegada, retiraram da rua todas as crianças miseráveis, para que ele não as visse, e levantaram anteparas diante dos bairros de lata. O primeiro dos crentes parte dos palácios luxuosos para anunciar a Boa Nova aos pobres! Como se pode compreender isso”? Como afirma Luís Guerreiro, “supostos sucessores de Pedro, houve papas santos, alguns deles mártires. Noutros, Cristo não teria hipotecado a sua confiança”. O padre redentorista bretão teve a fortificá-lo em suas convicções o Abbé Pierre (1912-2007), fundador do Movimento Emaús, motivo maior para que Le Boursicauld fundasse posteriormente a sua comunidade “Emmaüs Liberté”. Influenciou-o e o estimularia posteriormente o ilustre teólogo Bernhard Häring (1912-1998).

A grande decepção de Henry Le Boursicaud, cuja peregrinação durara 97 dias, sempre a andar, e cuja repercussão na mídia antevia bem antecipadamente a sua chegada ao Vaticano, foi a de não ter sido recebido pelo Papa João Paulo II. Entregou sua carta e presentes ao Cardeal Etchegaray. Assim como duas cartas endereçadas ao papa nunca foram respondidas, essa em especial, após essa caminhada épica, também não seria.

O Peregrino é livro polêmico. Li-o com a devida cautela, cônscio da austeridade, probidade e competência teológica do autor e da extraordinária Missão Apostólica de Henry Le Boursicauld, que, às portas de seus 92 anos, foi morar com os mais pobres e oprimidos na favela Vila Velha, em Fortaleza. Ali pretende ficar, até que Deus o receba. Mistérios.

An appreciation of the book “O Peregrino” (The Pilgrim), in which writer Luís Guerreiro recounts, in a mixture of facts and fiction, the epic journey from Paris to Rome undertaken on foot by the Redemptorist Father Henry Le Boursicauld in 1995.

      

 

 

 

Entrevistas Antigas com Serge Nigg

Em arte, o erro afigura-se tão fecundo como os acertos.
É aos ziguezagues que a arte avança.
O que num momento se supunha erro
vem a revelar-se com frequência um manancial de virtualidades.
João José Cochofel

De meu grande amigo António Ferreirinho recebi  em Novembro último quando de tournée por terras lusíadas, Opiniões com data, de João José Cochofel (1919-1982). O conimbricense Cochofel foi poeta, ensaísta, crítico literário e musical muito respeitado em Portugal. Integrou o movimento neorrealista português e foi ativo organizador e colaborador de revistas e periódicos importantes para a vida cultural de Portugal.

Opiniões com data, que integra as obras completas de Cochofel,  estende-se de 1939 a 1954. É possível seguir o desenrolar intelectual do autor no conjunto de seus artigos publicados em Portugal. Mais interessante se torna ao compreendermos a necessidade de Cochofel de interagir bem posteriormente ao preservar os textos originais, mas a fazer comentários analisando a feitura dos escritos. Ferreirinho sabia de meu interesse por tudo o que se refere ao notável compositor e pensador Fernando Lopes-Graça (1906-1994), e João José Cochofel não apenas foi amigo do grande músico,  como autor dos poemas das Cinco canções de “Os dias Íntimos” para canto e piano (1950-1966) do compositor nascido em Tomar.

Estando a ler Opiniões com data homeopaticamente entre tantas outras leituras, torna-se revelador o pensamento inteligente, arguto e profético do autor. Certamente João José Cochofel será citado em posts futuros pelos conceitos que emitiu, sempre com raro interesse. Por ora fica a surpresa ao me deparar com interessante entrevista que Cochofel realizou em Paris em 1951 com o ilustre compositor Serge Nigg (1924-2008), que foi tema de um de meus posts do ano passado (vide Serge Nigg “Captar o Passado, Apreender o Presente, Pressentir o Futuro“, 04/03/2011). O jovem compositor, que teria escrito pela primeira vez em França, no ano de 1946, uma obra onde utilizou a técnica dodecafônica (Variations pour piano et 10 instruments), logo se tornou celebridade que não passaria desapercebida para Fernando Lopes-Graça, que o entrevistou em 1947 (Visita aos Músicos Franceses, Seara Nova, 1948), no período em que Serge Nigg surgia como um estímulo para a vanguarda musical em detrimento da música de ampla audiência, isso logo após a Segunda Grande Guerra. A uma das perguntas de Lopes-Graça sobre o possível coadunar dodecafonismo e a tradição musical francesa, Nigg responde: “Certamente. Não há incompatibilidade entre o dodecafonismo e a tradição musical francesa, antes de mais nada porque não se trata de estética quando se fala de dodecafonia, mas sim de técnica de composição, ao passo que, quando se fala de uma tradição musical (o que é muito vago) tem-se em mente sobretudo o apego a certos conceitos estéticos, frequentemente vazios de sentido”. Pois bem, por volta de 1950 Serge Nigg rompe com o “movimento” que apregoava o dodecafonismo em França. João José Cochofel, ao comentar bem tardiamente outra entrevista de Serge Nigg a ele concedida em Paris no ano de 1951, diz: “Em nome da generosa miragem da arte para todos, Nigg consentiu no maior sacrifício que a um artista é dado fazer, o sacrifício das suas tendências profundas, ao renegar o dodecafonismo” e conclui “De qualquer modo, foi Boulez, seu émulo e opositor, quem triunfou e se tornou conhecido”.

Cochofel, ao procurar Serge Nigg, tinha em mente elucidar várias questões, inclusive a da “ruptura” do compositor com a técnica que passava a ter guarida entre os jovens músicos franceses. Escreve que Nigg começava “a suspeitar da irredutibilidade do esoterismo daquela corrente aos seus ideais humanísticos”. Prossegue Cochofel: “E Nigg acaba realmente por abandonar a ortodoxia dodecafônica, levantando grande celeuma nos meios musicais, que fizeram por ignorar a honestidade e a coragem de que deu provas ao procurar novas formas de expressão quando começava a triunfar, e vencendo uma crise inevitavelmente dolorosa de desilusões e renúncias, mas que a sua consciência lhe impunha”. A uma incisiva pergunta do entrevistador sobre a razão de ter abandonado o dodecafonismo, Serge Nigg, aos 27 anos, responde: “Por este não levar a coisa nenhuma, destruindo o caráter nacional, fazendo uma música de receita, igual em todos os países, nivelando tudo. Há tempos assisti a um concerto de jovens compositores sul-americanos, mas em vez de encontrar o Brasil, encontrei música escrita em Viena de Áustria…”. Em 1965, Cochofel observaria que colocou em Opiniões com Data a entrevista concedida em 1951 por Nigg, apesar de asseverar que se tratava de “ideias mais alheias do que minhas”.  João José Cochofel comenta que “a experiência das duas últimas décadas veio mostrar cruelmente que os experimentalismos eram irreprimíveis e que não se pode travar o desenvolvimento natural da arte…”. Contudo, tem consciência de que deve ser combatida a rotina, mesmo em movimento de vanguarda.

As entrevistas pontuais que Fernando Lopes-Graça (1947) e João José Cochofel (1951) fizeram com Serge Nigg, atestando a adesão e a posterior “rejeição” ao dodecafonismo – fatos que ocorreram bem antes dos 30 anos do compositor – seriam, cinco décadas após, durante o longo depoimento mantido com Gérard Denizeau  (1998-2008) e publicado em 2010 na série Témoignages (nº 3), do Observatoire Musical Français da Université Paris Sorbonne, amplamente ratificadas por Serge Nigg. Vem  demonstrar a profunda coerência do ilustre compositor e pensador francês. Esse substancioso depoimento foi o material temático do post acima mencionado.

Seria possível entender que decênios transcorridos, realizações e vicissitudes advindas, assim como a longa maturação do pensar tivessem provocado em Serge Nigg a necessidade de deixar depoimento definitivo já nos estertores da existência. A coerência do compositor difere bem de determinadas autobiografias em que o passado se torna nebuloso ou, mais grave, fantasioso. É a integridade intelectual do depoente que estaria a comprovar a veracidade dos fatos. Apreendida a premissa, o que fica do memorialista íntegro é a condição de autenticidade, o que o tornará partícipe da História.

No extraordinário depoimento, tema do post sobre ele, Serge Nigg considerava que no crepúsculo da vida o músico terá construído seu mundo abstrato, fiel ao que almejou. Confessa ter sofrido “tentações da fantasia que podem permitir derivações” e que a inspiração deve nortear o compositor. Ao afirmar que o caminho de um criador é a lógica inevitável, considera, contudo, que há tributo a pagar, sendo este  a “solidão”. Não estaria a pensar na longa trajetória e naquele rompimento com o dodecafonismo no início dos anos 50? Que houve marginalização, sabe-se. Todavia, a coerência de Nigg, compondo com a maior competência, sem amarras ideológico-musicais e a confiar na “inspiração”, tornaram-no paradigma para tantos nas décadas que se seguiram. Próximo de seu fim existencial faz a autocrítica de seu desligamento do dodecafonismo após o entusiasmo inicial: “ignorava na época que a ‘repetição’ carregava a ornamentação” referindo-se aos compositores barrocos e clássicos, observando que “Schöenberg, no fim da vida, compreenderia o caráter desumano de seu método”. Afirmaria que, naqueles anos pós-guerra, infortunado o músico que não aderisse às novas tendências. Daí a dimensão incomensurável, com todos os tributos pagos posteriormente, de seu desligamento daquela avassaladora vanguarda, mormente quando estava a ser considerado um expoente da técnica dodecafônica em França. Teriam Lopes-Graça e João José Cochofel entrevistado Nigg não fosse ele referência?

Sob outra égide, Serge Nigg mostra-se avesso à obra aberta, aos modismos, à concessão, à proliferação de jovens compositores: “Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, ’80 criações mundiais’, tem-se frio na espinha”. Alérgico à música eletroacústica, exprime: “Para mim, os sons eletroacústicos são sons mortos, enquanto que nada me parece mais belo que o som do violoncelo, de um oboé ou de um violino… Sempre fui partidário da música instrumental pura, por gosto e temperamento. A ideia da máquina intrusa e da ciência puramente especulativa na música, expressão a mais profunda do gênio humano, é uma coisa que me aterroriza”. Ficaria implícita a ideia de novos caminhos trilhados por Nigg, livres da ortodoxia.

O notável compositor Serge Nigg revisitaria o dodecafonismo, sob outra égide, a partir de 1960, “quando toda aridez, toda sistemática já teriam sido dominadas” segundo Gérard Dénizeau. O autor de obras que se tornaram referenciais tem suas criações executadas por muitos dos mais importantes intérpretes, assim como por orquestras e conjuntos camerísticos vocais de excelência. As entrevistas realizadas nas fronteiras da segunda metade do século XX por dois pensadores fundamentais da música em Portugal apenas ratificam a grandeza de Serge Nigg e sua corajosa coerência, que perduraria através das décadas.

In March 2011 I wrote a post covering the booklet Témoignages – published by the Sorbonne University – of the great French composer Serge Nigg. Now I’ve just read the interviews given by Serge Nigg in 1947 and 1951 to two Portuguese intellectuals: the composer Fernando Lopes-Graça and the poet João José Cochofel. Both interviewed Nigg in two decisive moments of his career. In 1946 Nigg was the first composer in France to write a dodecaphonic work and in 1951 he was already moving away from the twelve-tone technique. Five decades later, the subject would be resumed by Nigg in his Témoignages, where he confirmed his uneasiness with the limitations of the purely abstract technique, proving the consistency of the choices of his youth.