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A Síntese no Pensamento de José Paulo Paes

O sapo saltou na sopa
de um sujeito que sem mais papo
deu-lhe um sopapo e gritou: Opa!
Não tomo sopa de sapo!
José Paulo Paes

Tive o privilégio de conviver, durante alguns anos na década de 90, com José Paulo Paes (1926-1998), escritor, crítico, poeta e tradutor. Integrávamos o Conselho Editorial da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, presidido durante certo período  pelo saudoso crítico, jornalista e editor Nilo Scalzo. Era motivo de imenso prazer conversar com José Paulo Paes. Temas que viajavam da literatura às artes eram abordados, e recebi de suas mãos alguns livros autografados. Daquele Conselho fazia parte, entre outras figuras acadêmicas, o ilustre sociólogo, escritor e amigo José de Souza Martins.

Quando da tournée de Novembro último pelas terras portuguesas ganhei, da expressiva poetisa Violeta Figueiredo, livros cuja temática era a do universo lúdico infantil. Alguns poemas serviram como inspiração para que o excelente compositor português Eurico Carrapatoso criasse as Six histoires d’enfants pour amuser un artiste, obras apresentadas nos sete recitais realizados (vide YouTube em gravação ao vivo realizada em Évora). Estava, pois, a colocar na estante pertinente dois livros de Violeta Figueiredo quando encontro Poesia para Crianças, de José Paulo Paes (São Paulo, Giordano, 1996), pequeno e substancioso opúsculo do poeta referente a depoimento proferido na V Jornada Nacional de Literatura em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 1993. O amigo comum Cláudio Giordano teve a feliz ideia de publicá-lo.

O texto é delicioso. José Paulo Paes revela-se sensível, competente, lúdico, confidente, amoroso. A síntese da síntese em poucas e expressivas páginas. Ao expressar elementos de sua “estratégia” para atingir o coração e entendimento dos miúdos, o autor demonstra  vocação pela ourivesaria poética. Para José Paulo importa a transmissão de um conceito, mais do que priorizar a feitura da rima e, ela, instaurada, o seu significado transcendente para a compreensão: “a rima, ou seja, a semelhança dos sons finais entre duas palavras sucessivas, obriga o leitor a voltar atrás na leitura. Esta passa então a ser feita não linha após linha, sempre para a frente, como na prosa, e sim num ir e vir entre o que está adiante e o que ficou atrás. Com isso, dezautomatiza-se a leitura e se direciona a atenção para o conjunto de significado do texto, não apenas para a sequência deles. O que é um convite e uma ajuda à memorização. É muito comum as pessoas que gostam de poesia decorarem seus poemas preferidos”.

Casado durante décadas com Dora, José Paulo não teve filhos. Sabia com acuidade incutir na mente de seus dois sobrinhos, quando crianças, conceitos para a reflexão, “brincadeiras verbais”, como dizia. Diante de um muro de cemitério, indagou aos pequeninos: “Sabem o que há aí dentro? Eles faziam que não e eu então explicava: Uma plantação de defuntos”. Essa técnica levava-os a entenderem o “ritual gesto da semeadura”. Da incursão a visar ao aguçamento da mente de uma criança, o poeta partiu para a criação de poemas a elas dedicados, mas nunca perdendo a intenção de provocar o instante do novo, da reflexão “mirim”. José Paulo Paes está sempre a fugir da rotina e o inusitado de sua poesia para os miúdos está nessa difícil missão de buscar interligar a realidade com a fantasia. Pura sedução. Não escreveria o poeta que um dos fundamentos da poesia está inerente  em “mostrar a perene novidade da vida e do mundo” naquilo que ele propõe como “estabelecer uma misteriosa unidade cósmica”?

Entende José Paulo Paes que é mais difícil escrever para crianças, mercê do vocabulário mais restrito e da escolha das referências, compreendendo, contudo, que o prazer dessa criação específica é maior para o poeta.

No substancioso opúsculo, José Paulo Paes insere alguns poemas, explicando a seguir a  proposta, no caso “Vida de Sapo”:

O sapo cai
num buraco
e sai.

Mas noutro buraco
cai.

É um buraco
a vida do sapo.
A vida do sapo
é um buraco

Buraco pra cá.
Buraco pra lá.
Tanto buraco
enche o sapo.

Lê-se que há a intenção do jogo de palavras, ficando oculta a popular expressão “encher o saco”. Portanto, uma brincadeira “sapo” e “saco”. Sob outra égide, não se descarte a grande admiração de Paes por Carlos Drummond de Andrade.

Em outro poema, José Paulo Paes confessa tê-lo escrito a partir de lição apreendida com os pequeninos, simplificar. Metamorfose é um exemplo

Um homem
que costumava achar toda gente estúpida
(menos ele próprio)
acordou certa manhã transformado em burro.
Ficou muito triste e durante três
dias não comeu coisa alguma.
Não achava mais gosto em comida de gente
e tinha vergonha de comer
comida de burro
Mas a fome o acabou forçando
a experimentar capim
que ele achou estranhamente saboroso.
Alguns dias mais tarde, já zurrava alegremente.
Passado um mês
puxava carroça pela rua
como a coisa mais natural do mundo.
E quando, muito tempo depois,
ele acordou de novo
transformado em gente
ficou muito triste
e se achou estúpido.

Em Poesia para Crianças, José Paulo Paes ainda discorre sobre uma de suas mais respeitadas atividades, a tradução. Autodidata, conseguiu, com a ajuda de gramáticas, dicionários e, sobretudo, dedicação, ser um tradutor em vários idiomas sem se expressar verbalmente, como bem afirma: “Gaguejo alguma coisa em inglês, nos restantes, sou pouco mais que mudo”. Contudo, graças à estrutura de um poema, “olhos e ouvidos atentos à sonoridade, à forma, aos matizes de significado das palavras, é que consigo compreendê-lo mais a fundo. A tradução é possivelmente a melhor via de acesso à compreensão crítica da literatura em geral e da poesia em particular”. Confessa que durante décadas chegou a traduzir cerca de cem livros, de ficção, de manuais e tantos mais outros por motivo de ordem econômica. Com amargura observou que nesse longo caminho a remuneração era aviltante, a mesma de um datilógrafo em trabalho menos responsável. Chega a dizer que o tradutor, nessas circunstâncias, é o bóia-fria da inteligência.

Só após a aposentadoria pode realizar  traduções por prazer e bem remuneradas, com direitos autorais. Daí surgiram traduções referenciais de obras de Laurence Sterne, de J.K. Huysmans. Escreve que teve “a temeridade de enfrentar para poder partilhar com o leitor brasileiro a minha descoberta pessoal da poesia de Pietro Aretino, Konstantinos Kavákis, W.H.Auden, William Carlos Williams, Friedrich Hölderlin, Paladas de Alexandria e numerosos poetas gregos deste século antologiados em Poesia moderna da Grécia e Poetas gregos contemporâneos”.

José Paulo Paes é referência. Pouco se fala a respeito desse notável intelectual, aliás como ele bem afirmava em 1996, “nestes tempos de tamanho aviltamento da expressão oral e escrita”. Mais e mais somos invadidos a todo instante, através dos meios televisivos, radiofônicos e impressos, por um “besteirol” inimaginável muitas décadas atrás. O poeta açoriano Hector H. Silva já escrevia em 1992 que os Açores estavam sendo tomados pelo linguajar chulo novelesco procedente do Brasil. Acrescentemos os famigerados programas de auditório, que apenas destroem conceitos éticos e da dignidade, a quantidade de outros tantos, com diferentes intenções profanas ou evangélicas, e o quadro está completo.

Que as mensagens de José Paulo Paes expressas em livros sejam lidas pelas novas gerações para que segmento de nossa história literária não seja esquecida.

On the book Poesia para Crianças (Poetry for Children) written by the poet, writer, literary critic and translator José Paulo Paes (1926-1998), whom I had the privilege of knowing personally in the nineties, when we both were members of the editorial board of the University of São Paulo’s Journal of the Brazilian Studies Institute (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros – USP).

 

Caminhos do Eterno Desafio

Quando escalo uma montanha
me sinto mais próximo de Deus.
Vitor Negrete

Vitor me avisou que não tinha medo da morte.
Ficava triste por ser filho único justamente por causa disso:
se ele morresse, o que aceitava como natural
dado o esporte que praticava e seu grau de envolvimento com ele,
causaria muita tristeza aos seus pais.
Marina Soler Jorge

Continua desde a adolescência meu fascínio pelos intrépidos aventureiros que neste planeta deparam-se com os mais difíceis desafios no mar, na terra e no ar. A ideia que leva à concretização de feitos heróicos por parte dessa parcela infinitesimal de visionários teria origem em exemplos familiares, reais, literários ou, presentemente, através da multiplicidade de documentários estimulantes. O homem a buscar seus limites físico-mentais. Desde o livro que meus pais me ofereceram nos meus 10 anos (Wilhelm Treue. A Conquista da Terra, Rio de Janeiro, Globo, 1945), o tema da aventura passou a ser recorrente e, desde então, em períodos especiais, não deixo de me “aventurar” nessas histórias vividas por tantos corajosos sonhadores, muitas vencedoras, outras trágicas. É também uma maneira de intermediar outras leituras de minha área, e esses interregnos sempre foram prazerosos.

Escrevi  diversos  posts sobre tentativas e conquistas na cadeia montanhosa do Himalaia, desde a heróica e trágica missão de George Mallory e Andrew Irvine (1924) ao buscarem o cume do Everest à chegada de Edmund Hillary e Tensay Norgay (1953), assim como outros êxitos e infortúnios. Contam-se às muitas dezenas aqueles que deixaram a vida indo ao encontro dessas moradas dos deuses. Em termos brasileiros, dediquei um post a Waldemar Nicklevicz que, tendo atingido mais de uma vez o Everest, conseguiu subir ao topo do K2, possivelmente a mais temida montanha do planeta. Minha filha Maria Beatriz, sabedora de meu encanto pela leitura das narrativas dramáticas nas montanhas, entre as quais a de Maurice Herzog (Annapurna, São Paulo, Companhia das Letras 2001), Jon Krakauer (No Ar Rarefeito, São Paulo, Companhia das Letras, 2002), Thomaz Brandolin, (Everest: Viagem à Montanha Abençoada, Floresta, L&PM, 2002) e outros tantos relatos, presenteou-me há alguns anos com livro que me interessava, a história de Vitor Negrete, excepcional esportista voltado às aventuras desafiadoras. Somente nessas últimas semanas tive o imenso prazer de ler Espírito Livre – Da Transamazônica ao Everest, escrito por sua esposa, Marina Soler Jorge (São Paulo, Editora Três, 2008).

Vitor Negrete é o exemplo típico do herói idealizado desde a antiguidade. Sua vida justificou plenamente, através da aventura com riscos acentuados e da ação generosa como homem, a figura do herói cujo destino já estaria traçado. A leitura de Espírito Livre, apesar do relato não desprovido de intensa emoção da autora, revela Vitor Negrete nas mais variadas atividades. Ei-lo  realizando com dois amigos a travessia da Transamazônica de bicicleta; a participar da Ecomotion Pro na Costa do Dendê; disputando o Mundial de corrida de aventura na Nova Zelândia, assim como em tantos outros desafios. Como bem assinala Marina Soler, ” a escalada era apenas uma das paixões de Vitor Negrete”.

A vida do grande montanhista Vitor Negrete, paradigma para tantos esportistas que buscam na aventura a motivação maior, poderia ficar circunscrita à própria atividade desafiadora. Contudo, o que tornou singular a sua existência extrapolou as altitudes e direcionou-se às ações humanitárias relevantes, entre as quais o projeto pela preservação digna dos quilombolas no Vale do Ribeira. No relato de Marina não faltam alusões à generosidade do esportista de absoluta vocação, que entendia “involuntariamente” sua passagem pelo planeta como um maravilhamento, pois tudo que o cercava ganhava a aura fraterna. Amizades, projetos, sonhos pareceriam ser acalentados por Vitor Negrete como algo natural, sem traumas possíveis.

A atividade como montanhista foi notável. As diversas subidas a outros picos ficariam minimizadas pela relação que teve com duas das mais temidas montanhas: Aconcágua (6959m) e Everest (8848m). Escalou o mais alto cume das Américas, ascendendo-o pelo maior número de vias, sendo que a mais perigosa delas, a Face Sul, juntamente com seu amigo de tantas aventuras, o também notável Rodrigo Raineri. O relato de Marina Soler não deixa dúvidas quanto às difíceis condições enfrentradas. Em um dos paredões da Face Sul encontraria os corpos de alpinistas brasileiros que pereceram após avalanche…. Igualmente guiou Ana Elisa Boscarioli em sua primeira tentativa ao cume do Aconcágua e dessa experiência a montanhista, que atingiria posteriormente tantos outros cumes, inclusive o Everest, não se esqueceria.

Se o relato de Marina Soler menciona as duas subidas ao teto do planeta, em 2005 e 2006, a primeira com tubos de oxigênio e a segunda a pleno pulmões, o encontro da morte durante a descida, aos 19 de Maio de 2006, bem evidencia esse “namoro”, consciente ou não, com o trágico, ingrediente característico de tantos heróis.

Vitor Negrete, ao atingir o topo do Everest, deixaria gravado em vídeo depoimentos pungentes. Algumas de suas frases: “Eu tô no ponto mais alto do planeta… Eu acabo de me tornar o primeiro brasileiro a pisar neste lugar sem utilizar oxigênio suplementar sem a ajuda de sherpa neste dia da escalada. Eu escalei sozinho, e foi animal. É muito difícil. Eu tô muito, muito cansado. Inclusive eu preciso descer logo, mas eu queria dedicar esta escalada ao Rodrigo Raineri, meu parceiro… Hoje o clima tá ruim, tá ventando e é prudente eu sair daqui logo porque mais de 80% dos acidentes ocorrem na descida. Hoje, enquanto eu subia, eu vi vários corpos desta temporada… Aí Caco (amigo dileto)! Consegui mais uma vez cara! … Então eu subi aqui, cara, esta montanha, muito por você, pela Marina, pelos meus filhos”.

Na descida, Vitor Negrete encontraria a morte. Pareceria estar contrário ao mors certa hora incerta. Seu companheiro Raineri escreve: “Dawa encontrou o Vitor a 8.500 metros, debilitado, com dor no peito, sem as luvas e bastante confuso. Começou a descer, mas estava difícil carregá-lo. Então Dawa acionou Pechumbi, nosso outro sherpa que havia subido do ABC para o acampamento 3 para tentar ajudar. Os dois conseguiram chegar com o Vitor na barraca do 3 à meia noite do dia 18 e continuaram a tentar reanimá-lo, hidratando-o com suco morno, que ele conseguiu beber, e ministrando oxigênio. Porém, ele não resistiu e, às duas horas da madrugada do dia 19 de maio (horário do Nepal), Vitor faleceu”. O pungente depoimento de Raineri ratifica o sentido épico da tragédia. O que o fez ascender as últimas dezenas de metros, solitário e sem tubos de oxigênio, verdadeira temeridade? A leitura do inconsciente será sempre um mistério. Tantos sinais a apontarem  cautela, entre eles o roubo de equipamentos e mantimentos seus e de Raineri da barraca dos alpinistas nesse caminho em direção ao topo, já não seriam suficientes para abortar a investida? A intrepidez fê-lo não desistir. Todos os riscos estavam traçados, faltando apenas a possibilidade da infausta estatística aumentar. Disso Negrete tinha consciência, mas a vontade de ser o primeiro brasileiro a subir ao cume do Everest sem tubo de oxigênio falou mais alto do que o teto do planeta. Atingiu o objetivo, mas o Poder Maior veio buscá-lo.  Em Espírito Livre, os depoimentos finais dos pais de Vitor Negrete, Roma Pytowski e Sílvio Negrete, não seriam a certeza de que o filho cumpriu uma missão, a dimensionar em plano transcendente as inéditas escaladas? São palavras simples, despojadas, que retratam Vitor na essencialidade dos escolhidos.

Tantos sucumbiram na escalada rumo ao Everest, mormente na descida. Contudo, permanecem na memória os poucos que pereceram como ato inédito. Vitor Negrete será sempre lembrado, e sua morte redentora após missão cumprida é o símbolo do heroísmo autêntico, imaculado. A pedido dos familiares e amigos, os sherpas cobriram seu corpo com  pedras. Permanece nas alturas. Fim supremo para um herói das montanhas.

This post is about the book Espírito Livre (Free Spirit), written by Marina Soler, wife of Vitor Negrete, the Brazilian mountain climber who died on the Everest in 2006. The book tells us about some of his adventures: reaching the top of Mount Aconcagua, the highest peak in South America; summiting the Everest twice; crossing the Trans-Amazonian highway on a bicycle, competing in the Adventure Racing World Championship in New Zealand. As Marina puts it, “climbing was just one of Vitor Negrete’s passions”. In 2006 he reached the summit of Everest without supplementary oxygen, but could not make his way down and died on 19 May at Camp 3. The book is the story of a man endowed with great courage and a generous heart, a hero for his special achievements.

 

 

 

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Extraordinária Travessia pelo Himalaia

Je ne connais qu’une manière de voyager
plus agréable que d’aller à cheval:
c’est d’aller à pied.
Jean Jacques Rousseau
(“Émile ou De l’éducation”)

Ao longo destes anos estou sempre a salientar meu fascínio pela região himalaia, não apenas pela extraordinária situação geográfica imersa em mistérios, como pelo pensamento budista em parte expressiva do entorno. Tenho inusitado prazer ao ler livros sobre essas duas características essenciais encontráveis nessa extensa cadeia montanhosa. O maravilhamento vem da adolescência e estou a me lembrar de uma primeira leitura de curtos textos, plenos de ilustrações, em O Mundo Pitoresco, essa fascinante coleção que encantou meus primeiros anos, assim como da revolta que senti ao ler, nos idos dos anos 50, um livro do Dalai Lama, já no exílio, sobre o massacre do povo tibetano empreendido sistematicamente  a partir da invasão chinesa. As décadas se passaram e milhões de tibetanos tiveram de fugir ou foram exterminados. O Ocidente diplomaticamente sempre se manteve silencioso.

Se de um lado essa admiração romântica pelo Himalaia faz parte de meu pensar em momentos de serenidade, mantive sempre uma recôndita vontade de um dia pisar essa região. Quem sabe no próximo ano, acompanhado de minha filha Maria Beatriz, possamos realizar esse sonho e visitar o Nepal e o Butão, empreender caminhadas albergando em monastérios e durante umas semanas ser “romanos em Roma”, como reza o ditado.

Em Janeiro de 2011 adquiri em Paris alguns livros do aventureiro solitário e corajoso Sylvain Tesson, tendo comentado em um post dois livros que me encantaram (vide As Incríveis Aventuras de um “Vagabond” – Sylvain Tesson. 28/05/2011) ). Nestes dois últimos meses tive como companhia, nessa leitura antes do sono reparador, a longa narrativa de Alexandre Poussin e Sylvain Tesson, que realizaram em 1997 uma extraordinária caminhada de 5.000km através da região do Himalaia. Toda a vasta área foi percorrida a pé pelos dois intrépidos andarilhos, numa aventura não sem grandes riscos e um tanto quanto visionária (La Marche dans le Ciel – 5.000km à Pied à travers l’Himalaya. Paris, Robert Laffont, 1998, 398 pgs.). O percurso pela Transhimaláia durou seis meses, exatos 174 dias, e os 5.000km sofreram desníveis de altitude inimagináveis, que corresponderam a 121.000 metros!!! Dezenas de vistos, clandestinidades por vezes, prisões breves em determinadas fronteiras, mas a travessia iniciada no Butão, a passar por tantos países montanhosos até a chegada ao Tadjikistão, bem demonstra a intrepidez e a determinação desses jovens andarilhos franceses. Os dois moços tiveram, inclusive, o destemor de atravessar o Tibete, hoje a pertencer lamentavelmente à República Popular da China, sem vistos, “driblando” pois todos os caminhos e atalhos que pudessem colocá-los frente a frente com autoridades chinesas!

Alexandre Poussin e Sylvain Tesson têm um passado marcado por incríveis travessias. Em 1994 os dois percorreram de bicicleta 25.000km pelo mundo e atravessaram 35 países. Desenvolveram separadamente, Alexandre com sua mulher Sonia e Sylvain sozinho, outros tantos percursos memoráveis a pé. Seus livros têm a maior acolhida entre aqueles que gostam desse gênero de literatura.

Essa longa travessia abrangeu as regiões do Butão, Sikkin – Estado ao norte da Índia -, Nepal, China (Tibete), Índia, Paquistão, Afeganistão e Tadjekistão. Minuciosamente, o prolongado percurso teve cálculos prévios, como o peso da mochila pensada a não conter nem um grama a mais dos cinco quilos. Essa sábia atitude teve seu tributo a pagar, pois tiveram de se contentar com alimentos que porventura pudessem encontrar nos seus – circa – 50km de caminhada diária.

Seguir as narrativas de Alexandre Poussin e Sylvain Tesson, que alternam a autoria dos textos em La Marche au Ciel, é agradável, pois o primeiro é mais dionisíaco. Não poucas vezes, metáforas e observações quanto às mudanças das incontáveis paisagens encantam Poussin num estilo a lembrar por vezes Saint-Exupéry, enquanto o segundo é mais pragmático em suas observações, apolíneo diria, e a extraordinária façanha solitária, a reviver epopéia a partir de um gulag na Sibéria ao golfo de Bengala, comentada no post mencionado, é exemplo típico. Essa alternância propicia uma harmonia no todo devido aos olhares diferenciados de cada percurso realizado. Sempre, a anteceder cada narrativa, local, data e altitudes flutuantes.

Um dos interesses do livro reside na resistência humana frente a tantas adversidades. Os desníveis da altimetria nesse incessante sobe-desce, das poucas centenas de metros, quando nos vales, aos 5.000 e tantos metros, adaptações rápidas; alimentação quase sempre precária à base de sopa de massa, biscoitos, chocolate e tsampa, comida característica do Nepal, Tibete e no entorno dessa vasta região; muita água. Por vezes dois ou três dias sem nada comer, mas sempre a caminhar. Poussin e Tesson revelam dados, até de ordem sociológica, ao comentar a hospitalidade dos habitantes encontrados, que nunca recusavam oferecer chá, dividiam as parcas refeições, propiciavam algum espaço para o descanso. Tão logo se apresentavam para budistas (Butão, Sikkin, Nepal, Tibete) ou muçulmanos, no caso nas regiões do Paquistão, Afeganistão ou Tadjikistão, havia a acolhida, pois sabiam-nos peregrinos. No isolamento dos grandes desfiladeiros ou ao percorrerem vales profundos, um só pensamento estava a pairar, ou seja, completar a longa marcha. Como bem escreve Poussin: “A cada terreno corresponde um caminhar diferente, uma abordagem nova”. Inúmeros rios e corredeiras foram transpostos, gelados ou menos gelados, encostas abruptas contornadas, gelo, neve, chuvas torrenciais, o andar à noite quando a lua poderia auxiliar com sua luminosidade artificial.

A comparação que Tesson faz entre Nepal e Tibete é digna de registro. “O Tibete se revela como tal: um planalto de vento. Caminhamos dez a doze horas diárias com vento pela frente e por trás. Por vezes 70km, não sabemos outra coisa que andar”. Continua: “O que nos droga é o horizonte sem limites. A imutabilidade dos panoramas. A fuga do espaço, à medida que avançamos. O caminhar no Nepal nos habituou, contrariamente, às perspectivas do sous bois. Víamos raramente mais do que dois ou  três quilômetros, exceção às encostas. Aqui, no Tibete, os espaços são consideráveis. Temos a impressão  de caminhar em um quadro. Cada horizonte instala-se como uma decoração petrificada, a ser necessário percorrer 50 a 60km para modificá-la”. Será Tesson que na Cachemira terá uma sensível observação sobre os seus sapatos de todos os dias. Digna do filósofo alemão Martin Heidegger ao estudar os de um camponês, eternizados em quadro de Van Gogh.  Escreve o aventureiro: “Como um convite para partir, um sapateiro flutuante nos traz em seu barco, uma manhã, os sapatos estourados que lhe confiamos há dias. Ele os deixou novos. Os reparos efetuados desde o Nepal se sobrepuseram: há peças de couro tibetano, costuras chinesas, ligaduras com fio de nylon – os patchs do norte da Índia – e, presentemente, os consertos da Cachemira. Não são mais sapatos, são cartas geográficas impressas em palimpsesto”.

Ambos os caminhantes, à la manière de pigmaleões, são budistas nas regiões onde a religião é majoritária e “seguidores” do Islã ao atravessarem territórios predominantemente sunitas. Fazem-se passar por muçulmanos bósnios, mas são sempre bem acolhidos, sentindo a imediata relação afetiva tão logo adentram quaisquer lares. Tesson tece interessante observação ao abordar in loco a problemática do conflito Índia-Paquistão: “Os muçulmanos indianos recusam, no caso de um conflito aberto contra o Paquistão, enfrentar outros muçulmanos e, para certos combatentes, a subordinação à nação se apaga diante do sentimento de uma disputa religiosa comum com o adversário”.

Chega mesmo a ser jocosa a narrativa dos inúmeros problemas que tiveram nas fronteiras do Tibete, da India – sempre receosa de uma incursão chinesa, segundo eles -, do Afeganistão e do Tadjequistão, país este com forte controle dos russos nos limites geográficos. Como não lutam com o tempo, “deixam-se” aprisionar e, após serem levados a algum centro distante das fronteiras, mas onde uma autoridade maior decide, são julgados, “presos” por dias ou horas e libertos. Contudo, preferem retornar ao ponto onde foram interceptados, a fim de realizar o trajeto, antes percorrido por jipe ou caminhão, a pé. Daí a satisfação da conclusão em Horog, no Pamir, dos 5.000km à pé.

Uma narrativa da pena de Alexandre Poussin ao narrar um aclive acentuado: “A elevação é fulgurante; o anfiteatro montanhoso, azulado pela luz do luar, nos invade pela grandeza e serenidade. O silêncio é espacial, o vazio, um mar de tranquilidade”. A descrição do vale do Wakhan, no Afeganistão é também plena de lirismo e emoção, ao lembrar-se Poussin de Alexandre,  Marco Polo, um vale “que pela primeira vez não se apresenta anônimo, pois nos fala da história, do choque das armas, lutas e conquistas. Estão tão longe nossos pequenos vales nepaleses!”

O não compromisso com veículo de comunicação dá-me a liberdade de resenhar e comentar. Se as resenhas surgem na medida em que obras novas chegam às minhas mãos, nem por isso deixo de ter a alegria ao comentar livros publicados bem anteriormente. Proporcionam-me o equilíbrio? Talvez. Agradam-me? Sempre.

An appreciation of the book “La Marche dans le Ciel”, written by the French adventurers and travel writers Alexandre Poussin and Sylvain Tesson. Both trekked across the whole length of the Himalayas, from Bhutan all the way to Tajikistan. The epic adventure – that even involved being arrested – was recorded in this book, describing the perils of the wilderness, their encounters with different cultures and characters and the beauty of remote lands.