Navegando Posts em Música

Tema que leva ao debate de ideias

Na civilização do espetáculo,
o intelectual só tem interesse
se seguir o jogo da moda,
tornando-se um bufão.
Mario Vargas Llosa

Dá-me alegria receber mensagens  comentando   determinados blogs. O anterior suscitou uma série de e-mails bem diversificados, pois leitores saudaram as posições de Fernando Pessoa e outros entenderam necessário frisar a presença dos críticos competentes que buscam sempre colocações independentes, não atreladas a grupos de opinião, tampouco às pressões da própria empresa que publica seus textos literários específicos.

Dessas mensagens, uma despertou-me para um pormenorizar maior. O professor Gildo Magalhães da USP estimula-me a voltar ao tema. Escreve: “Posso sugerir que, num próximo blog, você trate do outro lado da moeda: o esforço que, não obstante toda a verdade deste blog, deve dispender o crítico sério e honesto para exercer um julgamento o melhor possível, ainda que falível e circunstancial.”

Entendo lindamente a posição do professor Gildo Magalhães, tanto mais que expõe uma realidade rara, mas existente, a do crítico competente em nossas terras. Fernando Pessoa é bem claro, apesar dos múltiplos questionamentos que coloca em seu texto sobre o crítico competente. Acredito que há a necessidade imperiosa de o crítico ser conhecedor pleno de sua área. Deveria haver na universidade uma disciplina específica para a formação do crítico, e o ingressante deveria ser conhecedor de sua área específica da arte ou da literatura. Ter-se-ia uma disciplina que orientasse sobre a estrutura da crítica, as abordagens avaliativas, o método a ser empregado, a possível comparação histórica com outras obras e, a pairar sobre o texto crítico, a descoberta ou a ratificação da qualidade do talento em pauta. Não tenho conhecimento de que haja tal disciplina, salvo melhor juízo.

A professora universitária Jenny Aisenberg escreve: “Mais um primoroso post abordando a controversa questão da crítica, desta vez à altura do pensamento provocativo do grande poeta e crítico literário Fernando Pessoa! Parabéns, José Eduardo! A propósito, vale a pena conferir artigo do crítico Sydney Molina, publicado na Folha de São Paulo de 19 de janeiro. Entre outras considerações interessantes, dois CDS, dedicados respectivamente a Maury Buchalla e Cláudio Santoro, são analisados com bastante propriedade. Exceção à incompetência generalizada?”

Creio que a professora Jenny Aisenberg aborda tema fulcral já exposto reiteradas vezes em meus blogs. Li essa crítica e endosso as palavras da professora. Sidney Molina é músico de fato e de direito, pois violonista de mérito, mestre e doutor em música. Fundador do respeitado Quarteto de Violões Quaternaglia, já se apresentou com o ensemble em muitos países. Tem livros e artigos publicados sobre música. É professor universitário. Corresponde perfeitamente àquilo que considero crítico competente, pois do métier e com profundo senso de apreciação musical. Fá-lo com propriedade ao pormenorizar-se, mormente nos CDs “Santoro inédito”, com obras do ilustre Cláudio Santoro (1919-1989), e “Portrait”, com criações de Maury Buchala, hoje com carreira em bela ascensão como compositor e regente na Europa. Coincidentemente, Maury Buchala realizou-se dentro desse espírito tantas vezes por mim salientado nos blogs. Formou-se na Universidade de São Paulo com a nota máxima e tive o prazer de tê-lo como aluno durante os quatro anos do curso. Assim como Luiz de Godoy, hoje kapellmeister dos “Meninos Cantores de Viena”, Buchala tornou-se músico, essência essencial daquilo que almejei para os alunos que frequentaram minha classe de piano. Ambos têm domínio pleno do instrumento, frise-se, mas são, prioritariamente, Músicos na acepção.

A jornalista e escritora Lucita Briza escreve: “Gostei de seus comentários em cima do texto de Fernando Pessoa, sobre a avaliação de uma obra artística feita pelos críticos – e a diferença essencial entre sucesso momentâneo e sua permanência na posteridade. Na mesma direção, li hoje na página C6 da Folha de S. Paulo um artigo interessante de João Pereira Coutinho, que assim conclui: … os aplausos da crítica ou das massas podem fazer bem ao ego – ou à bolsa. Mas quem escreve para as massas ou para a crítica arrisca-se a perder a eternidade.”

Continuo a insistir, exemplificando minha área de atuação, a Música, que sem o embasamento pleno um “crítico” poderia se ajustar àquilo que em França é denominado o soi-disant. Na área do esporte, futebol mais especificamente, proliferam comentaristas preferencialmente jovens que opinam ex-catedra e que têm parco conhecimento das técnicas e das táticas do esporte bretão. É fato, e rádio e televisão exibem-nos cotidianamente em suas acaloradas elucubrações, tantas vezes verborragias vãs. Defenderei sempre a competência que existia sobejamente em meados do século XX. Já mencionei reiteradas vezes as presenças de críticos que tinham pleno conhecimento da área musical, exercendo a profissão de músicos e respeitados no meio artístico: Caldeira Filho, Dinorá de Carvalho, H.J.Koellreutter, Cyro Monteiro Brizola, L.C.Vinholes, Arthur Kauffmann e outros. Hoje, rarearam-se os espaços nos jornais e revistas para a crítica diária de música de concerto e houve queda acentuada da competência de seus redatores.

A quase desativação da crítica musical, no caso, e o reducionismo crítico em outras áreas da Arte, assim como as “camaradagens” de que nos escreve Fernando Pessoa, têm levado contingente apreciável de leitores ao desalento. Contrariamente, raridades existem entre os críticos, que não passam despercebidos em pareceres profundamente embasados.

Um cenário mais hermético pode ser encontrado na universidade e tantos textos críticos generalizados tornam-se ininteligíveis para leitores “extramuros”. Mario Vargas Llosa, em “La civilización del espectáculo”, escreve não apenas a considerar a desativação atual da crítica, o recolhimento nas universidades, como remonta ao passado. Escreve:

“Tampouco é casual que a crítica tenha pouco a pouco desaparecido dos nossos meios de informação, refugiando-se nesses conventos de clausura que são as Faculdades de Humanidades e, em especial, os Departamentos de Filologia, cujos estudos só estão acessíveis aos especialistas. É verdade que os diários e revistas mais sérios publicam todavia resenhas de livros, de exposições e concertos, mas quem lê esse paladinos solitários que tratam de colocar certa ordem hierárquica nessa promíscua selva que se converteu a oferta cultural de nossos dias? O certo é que a crítica, que na época de nossos avós e bisavós desempenhava um papel central no mundo da cultura, pois orientava os cidadãos nessa difícil tarefa de julgar o que ouviam, viam e liam, hoje é uma espécie em extinção com a qual ninguém se importa, salvo quando se converte também em diversão e espetáculo”. A corroborar a posição basilar de Vargas Llosa, diria que após meu recital no Teatro Colombo, aos 10 de Dezembro de 1954, os principais jornais de São Paulo publicaram críticas nos dias subsequentes.

Em posts bem anteriores já abordava posições de especialistas sobre a a crise da decadência cultural (vide: “Os últimos intelectuais”, de Russel Jacoby, 21/03/2009, e “Teoria da estupidez humana” e “A nova ordem estupidológica”, de Vítor J. Rodrigues, 14/08/2010).

Last week’s post with poet Fernando Pessoa’s thoughts about critics and their capacity to evaluating art got much feedback. Today I publish messages received from readers with their own ideas on the subject. Though sharing the poet’s disappointment with art critics, some point out there are exceptions to the rule and that professionals with the study and aesthetic sensibility required in the appreciation of art can still be found.

 

A realização maior de um músico de imenso talento

Que o querer tenha sua origem e seu apoio
em coração aberto à nobreza, à beleza e à justiça;
de outro modo é apenas gume fino e duro de faca;
por isso mesmo frágil,
na sua aparente penetração e resistência.
Agostinho da Silva
(“Considerações”)

O Talento é dom singular, a possibilitar contudo incontáveis destinações. Necessário em qualquer atividade, para que objetivos sejam alcançados em alto nível. Na área musical, o talento só resulta plenamente se houver harmonização de vários ingredientes que integram o músico completo. O compositor pode ser hábil ao escrever música, tudo está posto na partitura, mas se lhe faltar a criatividade, perder-se-á na poeira do tempo. O instrumentista pode ser habilíssimo sob a égide técnica, mas se não existir a essencial transmissão do que está a ser executado, faltar-lhe-á algo, ou muito. Há também o talento multidirecionado, raro, integralizado.

Durante minhas décadas como professor na Universidade de São Paulo tive o grato prazer de receber em minha classe de piano vários talentos amplos e quantidade de outros para os quais a música representava, hélas, apenas uma possibilidade de alguma realização profissional. Afirmei em muitos blogs, ao longo de quase dez anos, que não aceitava em minha sala alunos que tivessem como finalidade única participar de concursos pianísticos. Teria que conviver com discípulo com apenas uma fixação em mente, geralmente abstraído da verdadeira missão de um músico e de um aprimoramento humanístico necessário. Interessava-me, sim, formar o músico, não o simples tecladista. Dizia aos alunos que tocar bem é fulcral, mas não deve ser a única meta, pois a formação cultural homogênea possibilita o vislumbre de um norte, in conditio sine qua non. Sem a abertura da mente, lacunas são perceptíveis e podem tornar-se crônicas e irrecuperáveis.

Menos de dois anos antes de minha aposentadoria, em 2008, bateu à porta de minha sala na Universidade um aluno por quem tinha simpatia, mas não convívio. Em mais de uma oportunidade cheguei a ouvi-lo tocar, mercê da deficiência acústica notória existente àquela altura nas salas de aula do Departamento. Não sei se persiste. Sabia-o talentoso e, inclusive, promissor regente coral. Procurou-me por ter sido dispensado pelo professor que me antecedera em sua orientação pianística. Luiz Guilherme Godoy, olhar firme a não permitir tergiversação, cativou-me de imediato. Quis ouvi-lo e, à medida que tocava uma obra complexa e de grande interesse, o “Estudo nº 1″ de Osvaldo Lacerda, percebi de imediato que estava diante de um diamante raro em processo de lapidação. Logo após contou-me sua trajetória, pois, paralelamente ao curso universitário, estudava com o competente professor e pianista da Escola Municipal de Música, Renato Figueiredo. Durante muitos anos Renato foi mestre e, diria, mentor humanístico de Luiz Guilherme, pois ajudou-o a trilhar o longo caminho… O então aluno tem gratidão eterna a Renato e à sua esposa Fabiana, convidando-os, inclusive, para padrinhos de seu casamento, realizado em Viena. Gratidão, princípio fundamental para a harmonização de nosso interior. Externou-a também em relação à minha orientação, comovendo-me. Certamente guarda lembranças edificantes de outros mestres. Um belo caráter.

Foi com imenso gosto que acompanhei seus estudos até a brilhantíssima conclusão na universidade. Ele formado e eu aposentado, durante muitos meses ainda o assisti em minha casa com alegria e certeza de sua realização futura. Minha mulher Regina e eu conversávamos sobre essa “santa” altivez de Luiz Guilherme. Talento saindo pelos poros, execução firme, consciente, e o olhar sempre direto. Suas interpretações demonstravam a compreensão da obra musical além da partitura. Fiel ao texto, Luiz Guilherme demonstrava a rara qualidade da criatividade. Um pianista com reais méritos que se tornaria um ótimo pianista acompanhador, caminho indispensável para seu trilhar iluminado.

Lutou acirradamente pela subsistência. Orgulhava-se de sua origem. Seu dia era interminável, pois tinha pequenas atividades musicais para conseguir o prosseguimento de seus estudos. Renato Figueiredo e eu, nesse período difícil para Luiz Guilherme, demos esse apoio musical e externávamos plena amizade. Regina e eu tivemos o jovem promissor à nossa mesa em mais de um almoço, sempre nesse entendimento sereno.

Um belo dia, Luiz Guilherme chegou à aula muito sorridente. Obtivera bolsa para a Europa. Alegria plena do velho professor e igualmente de seu mestre Renato.

Luiz Guilherme singrou mares, sempre com o pensamento cônscio do  valor autêntico, mas a guardar qualidades ímpares, a simplicidade e a gratidão. Disciplina, concentração, dedicação extrema fariam com que, pouco a pouco, completasse cursos em Portugal, na Alemanha e na Áustria, aperfeiçoando-se com mestres irretocáveis, um deles brasileiro, o pianista Paulo Álvares.

A ascensão de Luiz Guilherme evidencia bem o talento extraordinário do músico de apenas 28 anos de idade. A base sólida instrumental fê-lo estagiário como pianista preparador da Wiener Singakademie, coro da Konzerthaus de Viena, nas programações do biênio 2013-2014  junto a maestros como Sir Simon Rattle, Valerye Gergiev e Gustavo Dudamel. Logo a seguir, em 2015, teria a indicação para assistente da direção artística da instituição, que o levou a apresentações em centros essenciais da Europa.

O grande talento, possuidor de mente privilegiada, extraordinária formação musical, friso, bom senso e vontade férrea, fez com que atingisse nesse 2016 cumeeira jamais alcançada por músico brasileiro. Após rigorosíssima seleção de nível internacional foi apontado para o cargo de Kapellmeister (mestre de capela) do mais famoso conjunto vocal de meninos do planeta, os “Meninos Cantores de Viena”. A crítica europeia não cessa de elogiá-lo e uma delas destaca sua interpretação “autenticamente vienense”. A agenda de Luiz de Godoy estende-se até 2019 e o jovem brasileiro estará a conduzir o célebre coro em turnês pela Europa, Ásia e América do Norte.

Noite Feliz pelos Meninos Cantores de Viena

Saliente-se que nesses três anos em um dos mais importantes centros musicais do mundo, Viena, Luiz Guilherme já acumula outras funções de extrema responsabilidade que lhe foram confiadas, mercê desse talento hors série que enfatizo sempre: regente na Wiener Songakademie, Konzerthaus e da Chorakademie da Ópera Estatal de Viena.

Em uma de suas últimas mensagens (05/12), respondendo a um e-mail que lhe enviara, escreve: “Ainda não havia respondido por ter ficado o dia todo envolvido com longos ensaios da Missa in Tempore Belli, de Haydn, na companhia agradabilíssima e sob a direção exemplarmente respeitosa de Zubin Mehta. Esse grande maestro trabalhou hoje pela primeira vez com as ‘minhas crianças’ para um concerto que se realizará na semana que vem. Tendo chegado em casa agora, vim direto para o computador para redigir este e-mail”.

Adeste Fideles pelos Meninos Cantores de Viena

Repasso ao leitor um fato do cotidiano que me foi transmitido pelo dileto amigo Carlos Augusto Souza Lima, que, em recente viagem à Europa, visitou-o em Viena. Luiz Guilherme fê-lo ouvir um ensaio com os Meninos Cantores. Este findo, pediu para que um dos meninos, de apenas 11 anos, permanecesse na sala, a fim de cantar uma música para Carlos Augusto. O miúdo, natural da Albânia, cantou de maneira angelical uma pequena peça, a emocionar o visitante.

Toda essa ascensão de Luiz Guilherme de Godoy teve reconhecimento extraordinário, pois recebeu no dia 10 de Dezembro, em Viena, o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido anualmente a uma só personalidade do universo coral europeu. A lista que vem desde 1988 não deixa dúvidas quanto ao mérito insofismável de Luiz de Godoy.

Quanto à Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy torna-se certamente, entre alguns que lá se formaram com méritos e desenvolvem carreiras brilhantes, o nome maior em sua história na área musical.

Ao bater à minha porta na universidade, Luiz Guilherme deixava ao largo mágoas que poderiam desviá-lo dos altos desígnios que já pululavam em sua  mente privilegiada. Tantos não resistem aos momentos difíceis… Vivendo em Viena de incontáveis tradições exemplares, totalmente diversa de nossa realidade, hélas, escreve Luiz Guilherme (22/12): ” Mesmo num país como a Áustria, onde música é matéria obrigatória nas escolas desde sempre, onde todo professor de ensino infantil tem que tocar um instrumento e cantar – no concurso de admissão! -, onde o ingresso para a ópera custa 3 euros… mesmo aqui há muitas medidas no sentido de tornar a arte ainda mais acessível, para atingir a todos os que possam se beneficiar dela. E a gente, por aí, indo na contramão disso, perdendo orquestras, perdendo festivais. Que tristeza!”. Nosso lamentável cotidiano cultural sem quaisquer perspectivas de melhoras!

Conhecendo o caráter íntegro de Luiz de Godoy, tenho a convicção de que o futuro revelará o sábio semeador das mensagens musicais. O diamante foi lapidado e já pertence aos teatros e salas espalhados pelo mundo. Renato Figueiredo e eu acompanharemos com felicidade interior intensa, essa luminosa carreira que se apresenta.

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Estava a inserir o post no presente blog, quando recebo de meu diletíssimo amigo e grande compositor português, Eurico Carrapatoso, um link que leva à sua criação “Dece do Ceo”, a partir de soneto do vate maior de nossa língua, Luiz Vaz de Camões. A obra foi estreada no último dia 17, no monumental Convento de Mafra, e teve como intérpretes: Joana Seara (soprano), Coro infantil, Coro misto e Coro de Câmara da Academia de Música de Santa Cecília, seis órgãos históricos comandados por Rui Paiva, Direção do maestro António Gonçalves (vide blog “Dece do Ceo” 28/05/16). Tão logo no YouTube indicarei o link aos leitores.

Nesse ambiente natalino insiro outra obra sublime de Eurico Carrapatoso interpretada pelos seguintes músicos: Angélica Neto – Soprano,  António José Carrilho e Sofia Norton – Flautas de Bisel, Jenny Silvestre – Cravo, Coro e Ensemble instrumental Olisipo sob a direção de Armando Possante.

Ó meu Menino (excerto do Magnificat em Talha Dourada)

A todo leitor que me tem acompanhado nessa longa jornada a observar as insólitas transformações por que passa o cotidiano mundial, desejo um Natal de intenso congraçamento em torno da data maior da cristandade.

This post is about the brilliant career of my former student at Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy. From a humble background, he has had to overcome countless difficulties to pursue his dreams. With unique talent, he got a scholarship to Europe, studying in Portugal, Germany and Austria. Today he is choral conductor of the best known choir in the world, the Vienna Boys’ Choir and has just received the Erwin Ortner Award, given annually for a personality active in the field of collective singing in Europe. Luiz Guilherme is no doubt the greatest name in the history of Universidade de São Paulo in the area of music education and matter of pride for his former mentors, pianist Renato Figueiredo (Municipal School of Music) and me.

 


 

 

 

Aspectos relativos ao recital piano solo

É melhor debater ideias sem regulamentá-las
do que regulamentá-las sem as ter debatido.
Joseph Joubert (1754-1824)

A recepção à epígrafe do post anterior, a abordar conceitos sobre a atividade “profissional” do pianista, causou-me surpresa. Reproduzo-a: “A carreira de pianista também é muito difícil. Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação, esse talento, essa vontade, nada seria compensador. A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é! A pessoa se dedica tanto! É uma experiência espiritual que eleva a pessoa. A pessoa penetra naquela música, e fica alheia do mundo por aquele período. Acaba levitando dentro daquela música.” Os inúmeros e-mails não deixaram de louvar, sem exceção, a pianista Eudóxia de Barros em seu trabalho cotidiano em prol da música brasileira e a epígrafe em apreço de Henrique Morelenbaum.

Considerando-se pianistas de minha geração, não é difícil concluir que havia no país uma maior oportunidade para recitais de piano, com cachets pertinentes. Apenas na cidade de São Paulo o pianista se apresentava algumas vezes ao ano e com salas abrigando bom público. Quase todos de minha geração tocaram, como exemplo, no Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, no Brás, que seria consumido pelas chamas em 1966. Naquele período havia menos entraves burocráticos e as instituições, públicas ou privadas, convidavam o músico, recolhiam os impostos devidos e pagavam o que lhe era devido. Quanto aos entraves burocráticos, Eudóxia de Barros, em “Valeu a Pena?”, apresenta generosamente os passos para um intérprete conseguir dar entrada no Ministério da Cultura, a fim de obter o registro necessário e daí partir em busca de patrocinadores!!! Eudóxia de Barros comenta: “Já me aconteceu de que quando consegui o patrocinador, o prazo de validade do registro no MINC tinha expirado. Voltamos à estaca zero e daí resolvi nunca mais cuidar dessa parte tão burocrática e cansativa. Enfim, é muito complexa a intermediação entre as entidades que contratam e o pianista que precisa se atualizar com todos esses procedimentos para manter sua carreira!”. Servindo-me de várias observações pontuadas no livro “Valeu a Pena?”, a pianista Eudóxia de Barros, que percorreu centenas de cidades e Estados brasileiros, exceção a Tocantins – certamente aquela que visitou o maior número de localidades do país para recitais em teatros e auditórios -, verifica-se sensível declínio da apresentação piano solo. Factível uma das considerações, a apontar que o recital solo atualmente tem menor apelo junto às instituições e promotores, em detrimento da apresentação conjunta. Eudóxia de Barros é enfática ao observar que “as Secretarias de Cultura não vêm se interessando muito por recitais de piano. Não está fácil conseguir concertos, porque as Secretarias de Cultura, que existem aos milhares no Brasil, quase não contratam mais recitalistas. O pianista depende, sobretudo, de patrocinadores ou do SESC e SESI”. Sob outra égide, bem menos causadora de impacto no imenso Brasil, as “Grandes” Sociedades de Concerto, quando agendam um pianista pátrio – contam-se estes nos dedos de uma apenas das mãos – fazem-no prioritariamente no formato piano e orquestra.

Henrique Morelenbaum tem extrema razão ao dizer que “a recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é!” Tirando-se os que “se contam nos dedos de uma apenas das mãos”, os pianistas residentes no país sabem que os cachets são bem menores do que antanho, pois o interesse diminuiu. Se amparada pela lei Rouanet e por poderosos patrocinadores, as possibilidades se apresentam. Considere-se que a música popular e as “celebridades ‘vocais’ popularescas” têm consideravelmente uma guarida extremamente mais ampla – público avassalador em gestual uniformizado – e, em acréscimo, casos de desvios vêm a público. A decadência da arte erudita, enfatizada por Mario Vargas Llosa no livro “La Civilización del Espectáculo”, e a certeza de promotores visando à quantidade de público e rarissimamente à qualidade do ouvinte, explicariam em parte a queda dos valores eruditos. O lucro a preponderar sobre a Cultura. Antolha-se-me que, na música erudita ou de concerto, a apresentação individual de um intérprete não pertencente à “seleta” elite bafejada pelo binômio patrocínio-holofote, estará a cada ano mais restrita a público diminuto, mas geralmente qualificado. Diria, audiência de resistência. Sem o fator formado pelo binômio acima, o intérprete individual estará a buscar a “recompensa espiritual” mencionada  por Morelenbaum. Comentei, em tantos blogs, que voluntariamente muitos pianistas altamente qualificados não têm propensão a situações necessárias para serem ungidos, como a constante viagem ou o holofote que pode obliterar intenções mais dignas. Mencionei várias vezes meu Mestre em França, o pianista Jean Doyen (1907-1982), pertencente a um nível de primeiríssima elite, mas que era avesso às “badalações” mediáticas.

Para o pianista que pratica repertório conhecido do grande público, que insere composições brasileiras e, por motivos tantos, obtém patrocínios, as chances de ser abrigado pelas leis de incentivo são maiores. A realidade, contudo, é mais dramática para aqueles que, sem acesso a poderosos patrocinadores e consequente “amparo” da Lei Rouanet, insistem no piano solo em apresentações fortuitas. Se convidados por Universidades no país, têm de se sujeitar aos pro labores apenas; se lembrados por entidades particulares, ficam a mercê do imponderável. A universidade surgiria como “refúgio” de sobrevivência e possibilidade até de rumos outros, devido ao “canto das sereias” administrativo.

Considerando parcela apreciável de pianistas docentes na universidade, a hipótese de drástica desmobilização quanto à eventual carreira artística é real. São necessárias disciplina férrea e perseverança para conciliar aulas, burocracia imensa na Academia e o estudo pianístico e, nesse aspecto, Eudóxia de Barros mostra-se bem cética em “Valeu a Pena?”, justamente pelo desvio de foco. Apenas não menciona, por desconhecer possivelmente as entranhas universitárias, que incontáveis reuniões intramuros são estéreis, como, aliás, majoritariamente na vida política do país.

O consagrado pianista francês Désiré N’Kaoua – meu colega durante curso na classe da legendária Marguerite Long – afirmou recentemente, em longa e substancial entrevista para o site “Pianodoux”, que “o que eu não diria, sob pena de ser acusado de ‘tentativa de desmoralização da legião’ de pianistas, é que sou bem pessimista no que concerne ao futuro do piano, pelo menos em sua formatação de recital público. Creio que o piano está intimamente ligado ao período romântico, durante o qual ele era essencialmente vocal e não destinado a se tornar o símbolo da destreza e da percussão, tal qual o é atualmente. Outro motivo da redução do público: uma visão geopolítica da música ocidental nos revela rapidamente os gigantescos territórios que não mais estão dispostos a receber essa música essencialmente europeia, que alimentou toda a nossa existência. A rapidez dos meios de transporte e a propagação de CDs de todas as origens pelo planeta tiveram como consequência uma incrível proliferação de aprendizes-pianistas, assim como de concursos, sendo que esses oferecem uma sobrevida de curta duração ao laureado – até a aparição de um novo ungido -, abandonando-o à própria sorte, tornando o primeiro, doravante, um pianista em busca de algum concerto. Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público que os acolhe encolheu drasticamente”. Em meu livro “Témoignages – Entretien avec le pianiste brésilien José Eduardo Martins” (Paris Sorbonne, 2012), abordava o tema e dizia que, anualmente, legião de pianistas do Extremo Oriente inunda concursos internacionais de piano, habilíssimos instrumentistas, mas na grande maioria com ausência de ideias precisas e criativas.

Pareceria evidente que há mercado para a quantidade de pianistas premiados em concursos internacionais, geralmente por período curto, raramente a ultrapassar um ano. A proliferação dos certames e a quantidade de primeiros prêmios agraciados por numerosos recitais e concertos, logo após a láurea máxima, não são garantias de carreira certa. Seriam as “leis da natureza” a minimizar o laureado anterior, a fim de promover o novo talento. Proliferam os exemplos. Essa assertiva ocorre basicamente em todas as áreas. Uma quantidade mínima consegue prosseguir com uma agenda de concertos preenchida. Vários fatores envolveriam o pianista eleito nesse desenvolvimento a ultrapassar a barreira do prazo vencido: talento indiscutível, patrocinadores relevantes, contatos certos e repertório. Muitos talentos sucumbem ao day after da premiação pelo fato da limitação de repertório e da impossibilidade de, em curto prazo, edificá-lo. O mercado é implacável e a depressão pode instaurar-se.

François Servenière elabora outra metáfora àquela que apresentei no livro citado. “Em seu livro da série ‘Témoignage’, publicado pela Sorbonne, do qual fui um dos entrevistadores, você estabelece metáfora em algumas páginas sobre a existência na ponta do iceberg do repertório super frequentado e na massa submersa, escondida, do repertório pouco tocado ou nunca programado. No âmbito da interpretação, proponho outra metáfora, da montanha. Há aqueles raríssimos, que conquistaram os 14 picos himalaios acima dos 8.000 metros e tantos outros que repartem os cerca de 200 picos na faixa dos 7.000m, também no Himalaia. Virtuosidade na ascensão, perigos enfrentados, risco mortal nas duas faixas de altitude evidenciam profundo valor. Todavia, a mídia apenas projeta todos os holofotes nos ungidos que realizaram o feito do acesso aos 14 picos, as cumeeiras, o Olimpo!!! Casta à parte e poderíamos considerar normal a atitude. Diria que a metáfora relativa ao Himalaia bem se aplica à elite na música, no caso, aos pianistas. A parte submersa do iceberg ou os dificílimos picos logo abaixo dos 8.000m não contam para a mídia. Ficam nas profundezas (iceberg) e na sombra (montanha), respectivamente. Apenas a elite tem o privilégio da unção, independentemente de talentos e qualidades individuais” (traduções: JEM). O certo é que, se aqueles que tiveram acesso aos picos próximos aos 8.000m têm pouca divulgação, menos ainda os que, meritórios, não atingiram os 7.000m. Lembremo-nos que a maior altitude abaixo dos 7.000m está distante da cordilheira do Himalaia. Trata-se do Aconcágua (6.962m) na Cordilheira dos Andes. Metáforas à parte, o recital de piano fora das condições de elite está em crise.

O tema é rico, polêmico e a ele darei espaço no próximo blog, aproveitando trechos da entrevista e da mensagem dos ilustres músicos Désiré N’Kaoua e François Servenière, respectivamente, que acrescentam, inclusive, outros temas significativos relativos à interpretação.

Nowadays space for soloists dwindles as sponsors focus primarily on pop shows and, in terms of classical music, on orchestras, since grandiose shows capture more public and bring in receipts in ticket sales. Only star soloists – in special foreign ones – have a chance and audiences get more of the same, for they keep hearing the same things again and again. Winners of international competitions may become overnight superstars, but just until the next winner is chosen. Profit prevails over culture and legions of excellent soloists remain unknown because financial backers prefer a handful of celebrated performers. As Vargas Llosa announced in his book “Notes on the Death of Culture: Essays on Spectacle and Society”, high culture is dying, replaced by mere entertainment.