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A pianista Eudóxia de Barros e a revelação por inteiro

A carreira de pianista também é muito difícil.
Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação,
esse talento, essa vontade, nada seria compensador.
A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa:
porque, material, certamente não é!
A pessoa se dedica tanto!
É uma experiência espiritual que eleva a pessoa.
A pessoa penetra naquela música,
e fica alheia do mundo por aquele período.
Acaba levitando dentro daquela música.
Maestro Henrique Morelenbaum

O que realmente importa em qualquer biografia
é o que a pessoa sente e não aquilo que fez.
Glenn Gould

Dentro das leituras existentes na ampla área musical destaca-se a biografia. Pode ser escrita pelo autor ou por outro, no caso, através de depoimentos ou material documental. Não poucas vezes a biografia adquire a roupagem de romance e todo o cuidado deve ser tomado para que equívocos não ganhem status de verdade.

Gosto do gênero biografia de músicos, mormente dos pianistas. Jamais as narrativas têm semelhanças, graças às categorias diferenciadas na abordagem.  Wilhelm Kempff  (1895-1991) narra com sensibilidade seus anos de juventude e cativa pela intensa visão espiritual (“Cette Note Grave – les années d’aprentissage d’un musicien”, Paris, Plon, 1955); Arthur Schnabel (1882-1951) aborda aspectos fundamentais relativos à interpretação e ao período em que viveu (“My life and music”, New York, Dover, 1988); Vladimir Horowitz (1903-1989) explora os muitos aspectos da carreira, comenta sobre pianistas coetâneos, evidencia suas preferências repertoriais (“Evenings with Horowitz” – entrevistas concedidas a David Dubal, New York, Citadel, 1994); Claudio Arrau (1903-1991) discorre sobre sua formação musical, carreira, repertório e, num anexo, tem longo e essencial texto em que aborda o intérprete frente à psicanálise (“Arrau Parle”, – entrevistas concedidas a Joseph Horowitz, Paris, Gallimard, 1985); Heinrich Neuhaus (1888-1964) realiza verdadeira explanação da sua metodologia de ensino, exemplificando processos técnicos, sem abandonar dados concernentes à sua trajetória de pianista e professor (“L’Art du Piano”, Tours, Van de Velde, 1971);  György Czifra (1921-1994) e Zhu Xiao Mei (1949- ) viveram experiências traumáticas. Aquele, prisioneiro dos nazistas e, após, de soviéticos durante a segunda grande guerra. Desde a infância, a trajetória pianística gloriosa teria lances dramáticos e, como toda a técnica pianística e a interpretação tiveram a mais absoluta naturalidade, pouco se refere a elas (“Des canons et des fleurs”, Paris, Laffont, 1977). Zhu Xiao Mei viveu a Revolução Cultural na China e descreve com agudeza os “campos de reeducação” onde esteve detida e sua prática digital-pianística sem piano, a visualização de fuzilamentos de seus mestres e todo o longo caminho até chegar a Paris e desenvolver carreira sólida (“La Rivière et son secret”, Paris, Laffont, 2007); Arthur Rubinstein (1887-1982), nas autobiografias “Les jours de ma jeunesse”, de 1973, e “Grand est la vie”, de 1980 (Paris, Laffont) e Magdalena Tagliaferro (1893-1986) em “Quase tudo” (Rio de Janeiro, 1979) permanecem preferencialmente nas exuberantes trajetórias, mas em abordagens nas quais as apresentações e o convívio social preponderam; João de Souza Lima (1898-1982) narra sua rica trajetória como pianista – dileto aluno de Marguerite Long -, maestro, professor e compositor (“Moto Perpétuo”, São Paulo, Ibrasa, 1982); João Carlos Martins (1940- ) esclarece seu envolvimento com a integral de J.S.Bach para teclado e os vários processos pianísticos criados, mercê de infortúnios que sofreu com as mãos (“Conversas com João Carlos Martins” – entrevistas concedidas a David Dubal, São Paulo, Green Forest do Brasil, 1999); Guiomar Novaes (1895-1979) apresenta-se em estudo multidirecionado onde não faltam depoimentos da pianista (“Uma arrebatadora história de amor” por Maria Stella Orsini, São Paulo, Editora C.I, 1992);   Glenn Gould (1932-1982) pormenoriza determinação consciente em suas interpretações, tantas delas polêmicas (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, contém inúmeros depoimentos colhidos por Otto Friedrich, Rio de Janeiro, Record, 2000); Daniel Barenboim (1942- ), pianista, pensador e maestro, tem na polivalência uma de suas marcas essenciais, evidentes em duas autobiografias (“La musique éveille le temps” e “La musique est un tout”, Paris, Fayard, 2000 e 2008, respectivamente); Marguerite Long (1874-1966), em seus livros sobre três compositores franceses fulcrais, Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, expõe não apenas o convívio com os notáveis músicos, mas aspectos interpretativos deles aprendidos (“Au piano avec Gabriel Fauré”, Paris, Julliard, 1963; “Au piano avec Claude Debussy”, Paris, Julliard, 1960; “Au piano avec Maurice Ravel”, Paris Julliard, 1971). Considere-se que as três obras de grande importância, mas escritas bem tardiamente contêm, por vezes, fatos não comprovados. Seria Janine Weil que, ao escrever uma biografia da legendária pianista e professora, levaria ao leitor sua trajetória de maneira mais totalizante (“Marguerite Long, une vie fascinante, Paris, Julliard, 1969).

Essa breve panorâmica apreende fatores essenciais para a compreensão do pianista consagrado e do longo caminho percorrido. Cada um aborda, à sua maneira, as causas que o conduziram ao reconhecimento planetário. Contudo, processos do estudo pianístico ficam por vezes nebulosos, pois estaria mais em evidência o todo do aprimoramento.

Em “Valeu a Pena? – Conversando com Eudóxia de Barros”, entrevistas formuladas e colhidas por Rosângela Paciello Pupo (Brasília, Musimed, 2016), a pianista Eudóxia de Barros narra sua trajetória desde a infância e sua vocação insofismável, demonstrada desde os tenros anos, é largamente exposta. Os estudos no Brasil, em França, nos Estados Unidos e na Alemanha deram-lhe base sólida para a carreira escolhida. Apresentou-se com recepção crítica elogiosa, em muitos países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. Carreira consolidada, pois. Contudo seria, como afirma, a sua ligação umbilical ao Brasil que determinaria durante décadas sua afirmação como pianista pátria, nitidamente ratificada. Caminho escolhido, importaria a Eudóxia expor o seu envolvimento com a Música e, ainda mais, com o piano. “Valeu a Pena?” se diferencia das biografias apontadas pela visão “regional” da pianista, voltada preferencialmente para cenário no Brasil, país que apresenta severas deficiências relativas à cultura musical erudita ou clássica. Mostra-se corajosa nesse trabalho dignificante ao levar música de qualidade aos rincões mais afastados do nosso território.

Largamente comenta todos os processos de sustentação nessa dualidade imprescindível para o intérprete, a prática e a apresentação pública. Não sem razão, no raciocínio de Eudóxia a palavra “estudo”, como necessidade imperiosa, está presente em todos os capítulos. Seria ela a chave mestra, verdadeira fixação, que levaria a pianista a se manter ativa durante tantos decênios. Disciplina espartana quanto ao estudo, preparação para as apresentações, preferência repertorial, cotidiano voltado à música, mas também ao vestuário, às relações humanas, à saúde, ao saudoso marido, o compositor Osvaldo Lacerda, e a um verdadeiro “guru”, que ainda ouve seus programas montados para apresentações a cada ano, o maestro Henrique Morelenbaum, reiteradas vezes são mencionados. Rosângela Paciello Pupo, de maneira extremamente organizada, soube orientar as “entrevistas” para que nada pudesse ficar à margem.

Consideraria “Valeu a Pena?” um livro testemunhal de ordem prática. Quantas não são as vezes que Eudóxia de Barros se expõe de maneira confidencial? Dessa assertiva vem parte do interesse do livro. Revelar-se por inteiro, a não ocultar ao leitor pormenores “laboratoriais” rigorosamente íntimos, demonstra certezas, coragem e até possibilita armadilhas. Há retornos constantes a verdadeiros “dogmas” relacionados ao mencionado estudo diário inflexível, a obedecer regras e de preferência com horários fixos; ao estudo permanente com as mãos separadas; à memorização; à colocação de dedilhados em toda a partitura, mais ainda, em cada figura da trama musical; à prática diária da técnica pura; à preparação no dia de recitais e concertos, dela fazendo parte o estudo prolongado a anteceder a apresentação; à carreira como eixo paradigmático primordial em sua vida. Exaustivamente Eudóxia responde às perguntas inteligentes de Rosângela e, em determinadas reflexões sobre música e interpretação, demonstra até franqueza constrangedora. O leitor poderia se perguntar se estaria aí uma falha. Diria que temos em seus depoimentos a mais absoluta sinceridade, o que é raríssimo entre os intérpretes em suas biografias. Essa sinceridade é porosa, faz jorrar em cada página a descoberta de Eudóxia de Barros por inteiro e não seria essa autenticidade um dos aspectos a tornar “Valeu a Pena?” um livro de forte interesse? A ausência desse desnudamento não faria falta em tantas biografias, entre as quais algumas das acima citadas?

Sob outra égide, basicamente inexiste nas biografias mencionadas o autoelogio. Por questões éticas, de modéstia – ou ausência dela -, de foro íntimo, dificilmente um intérprete em texto faz referência às suas qualidades. Eudóxia, não como vanglória, frise-se, mas como necessidade de expor suas virtudes, revela essa franqueza que pode ser apreendida como vontade de transmitir aos seus incontáveis ouvintes qualidades que eles já tinham captado e que o documental escrito apenas solidifica em suas mentes. Proliferam os superlativos voltados à excelência das oitavas, da velocidade, da compreensão e do fraseado, da memória. Todas essas exaltações transcorrem normalmente e Eudóxia transmite o que ela sente, entende e assiste ao verificar suas facilidades frente ao teclado. Quem teria essa coragem? Quanto à memória, não poucas vezes ressalta ser inadmissível a interpretação tendo-se à frente a partitura em recital solo. Nesse aspecto, entendo o conceito passível de interpretação. Nem todos tem a memória de Eudóxia e, como narra em “Valeu a Pena?”, há todo um científico trabalho para se decorar uma obra. Contudo, tem-se de ver caso a caso. O grande Sviatoslav Richter (1915-1997) confessaria que, nas últimas décadas da vida, apresentava-se com partitura à frente. Assim procedeu tardiamente Roberto Szidon (1941-2011), dessa maneira habitualmente desempenha brilhante carreira o pianista português Arthur Pizarro (1968-  ). Certamente todos tiveram ou têm as obras absolutamente digeridas e a presença da partitura serve certamente como um conforto, a fim de que nada de anormal possa ocorrer. Apenas isso. Sabe-se que ela lá está. Assisti a um sem número de excelentes pianistas na Bélgica interpretando ou integrais ou recitais com obras diversas com a partitura como ajuda. Pessoalmente, mormente nestes últimos anos, assim procedo. O grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro já afirmava que “o tempo é insubornável”.

Uma das qualidades inalienáveis de Eudóxia, exposta com insistência, é o culto à música brasileira. Revela inquestionável missão, cruzada sem trégua a que se dedica desde jovem, não apenas a cultuar compositores consagrados, como Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e seu discípulo e marido da pianista, Osvaldo Lacerda (1927-2011), mas também autores que eram desconhecidos do grande público. Dedicou-se igualmente ao repertório pátrio semi-erudito, clássico-ligeiro na visão de seu até hoje conselheiro musical, o Maestro Henrique Morelenbaum. Ernesto Nazareth (1863-1934) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) tiveram suas obras estudadas, interpretadas e propagadas pelos mais distantes rincões do país. Contam-se às centenas as cidades brasileiras visitadas pela pianista nessa hercúlea tarefa. Do clássico-ligeiro ao popular tem-se um passo e Eudóxia demonstraria em sua carreira intrínseca intimidade com a música de Zequinha de Abreu (1880-1935) ou com grupos que praticam o chôro, os denominados Chorões. Polivalência relativa à música brasileira, do erudito ao popular.

Não tendo trilhado carreira acadêmica, Eudóxia faz críticas ao trabalho dentro da universidade e suas obrigações. Crê que a sobrecarga intramuros impeça o desenvolvimento de uma carreira como a que empreendeu.

Um longo capítulo apresenta situações hilariantes pelas quais a pianista passou ao longo da carreira. Tem muita graça, realmente diverte o leitor.

Apêndices apresentam o enorme repertório de Eudóxia de Barros. Verifica-se que, após perpassar parcela das composições sacralizadas e comuns a todos os pianistas, mais e mais ela revelou esse notável trabalho voltado aos compositores brasileiros. Um mérito indiscutível. Também sua larga discografia, críticas recebidas no Brasil e no Exterior e uma instigante entrevista de seu conselheiro musical – Maestro Henrique Morelenbaum – que descreve o perfil pianístico de Eudóxia, complementam o copioso livro. Serve o depoimento do ilustre músico para evidenciar esse entendimento profícuo estabelecido entre ambos.

“Valeu a Pena?” é obra obrigatória na biblioteca de músicos e leigos, mormente dos estudantes que terão em mãos um verdadeiro vade mecum voltado ao cotidiano pianístico, do estudo à apresentação pública, a ratificar in adendo, com letras maiúsculas, a imperiosa dedicação e disciplina para que objetivos sejam atingidos. Essas palavras apenas corroboram o caminho meritório e consagrado da pianista Eudóxia de Barros.

Today’s post addresses the book “Valeu a Pena?”, a series of conversations between the Brazilian pianist Eudóxia de Barros and journalist Rosângela Paciello Pupo. With honesty and candor, Eudóxia talks about a lifetime devoted to music: the discipline required for her daily piano practice, performance preparation routines, the importance of playing from memory, choice of repertoire, recordings, her option for the promotion of Brazilian composers since the beginning of her career. In my opinion, a mandatory reading for music lovers and in special for students, since it makes clear that nothing can be accomplished without practice, discipline and hard work.

 


Um duo exemplar

Não nos tornamos poetas a partir de uma manhã primaveril,
mas sim pela exaltação do poema.
André Malraux

Quando do curso que ofereci em Goiânia sobre a obra para teclado de Jean-Philippe Rameau, em Setembro, tive o grato prazer de estar com a pianista Ana Flávia Frazão, professora da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás. Ofereceu-me DVD e CD em que apresenta, com o violinista alemão Laurent Albrecht Breuninger, obras importantes do repertório específico: Heitor Villa-Lobos, “Segunda Sonata-Fantasia”; Edino Krieger, “Sonâncias”; Henrique de Curitiba, “Sonata 87″ e  Camille Saint-Saëns, “Sonata op. 75 nº 1″.

Não poucas vezes neste espaço ressaltei a prevalência que existe de gravações realizadas em centros importantes do hemisfério norte. Há toda uma tradição voltada à arte de gravar, que vai desde a grande especialização dos engenheiros de som às salas escolhidas sob o aspecto acústico, à presença sempre de instrumentos – no caso o piano – de primeiríssima qualidade e o profissionalismo inerente a todos os envolvidos no processo. Essas também são as razões que me levam a gravar na Europa desde 1995. Não há parâmetro comparativo com o que temos no Brasil, apesar de esforços e da maior boa vontade dos envolvidos nesse mister. Sob outro aspecto, se oportunidade houver para o pianista brasileiro (no caso) estabelecer vínculos com  excepcionais instrumentistas de países onde a música erudita tem tradição e constância qualitativa, o aprimoramento se tornará mais acelerado devido, inclusive, ao ambiente e à salutar concorrência com maior número de músicos relevantes.

De há muito admiro a arte pianística voltada à música de câmara de Ana Flávia Frazão. Tive o prazer de participar do júri, juntamente com as ilustres professoras Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005) e Glacy Antunes de Oliveira, quando do ingresso de Ana Flávia na carreira docente junto à EMAC-UFG.  Já se apresentava como uma camerista de altíssima qualidade. Estudou em Goiânia com Ivana Carneiro e, na EMAC, na classe da professora Consuelo Quireze, tendo igualmente recebido a colaboração do pianista Luiz Medalha. Ana Flávia Frazão aperfeiçoou-se na Alemanha, de 1994 a 2002, como aluna da Escola Superior de Música de Karlsruhe. Na categoria Piano-Música de Câmara obteve a nota máxima no Konzertexamen.  Premiada em concursos internacionais, Ana Flávia já se apresentou no Japão, Estados Unidos, Europa, Argentina e em vários centros brasileiros.

Quanto ao violinista Laurent Albrecht Breuninger, trata-se um de instrumentista notável. Após estudos com Josef Rissin na Escola Superior de Música de Karlsruhe, aperfeiçoou-se com mestres absolutos: Henryk Szering, Ruggiero Ricci, Aron Rosand e Ivry Gitlis. Em 1997 obteve o segundo prêmio num dos mais importantes concursos do planeta, o Rainha Elizabeth, na Bélgica. Colecionou vários primeiros prêmios em outros significativos concursos na Europa e no Canadá.

Tive o grato prazer de ouvir e ver o DVD com as obras que também constam do CD mencionado. Encantou-me em todos os sentidos. Formam um duo rigorosamente entrosado e exibem, durante o transcurso do programa, todas as qualidades excelsas que encontramos nos mais destacados duos internacionais. Lirismo, virtuosismo abrangente sem jamais exceder os limites, fraseado impecável, senso profundo da agógica, da acentuação e da dinâmica, compreensão formal e estilística e, fundamental, a naturalidade sem qualquer artifício são algumas das muitas virtudes do duo.

Apraz-me considerar que Ana Flávia soube transmitir a Laurent Albrecht o gosto pela camerística brasileira. Independentemente da integral para violino e piano de Villa-Lobos, por eles gravada em 2012, constam do CD em apreço outras obras de autores pátrios significativos. Considere-se que pouco a pouco a qualitativa música de câmara brasileira penetra nos repertórios internacionais. Menciono a mesma integral de Villa-Lobos, anteriormente gravada pelo excelente violinista belga Paul Klinck com outro laureado no Concurso Rainha Elizabeth ao piano, Claude Coppens (Anvers, 1996). Em 1995 gravei em Bruxelas, para o selo PKP, a integral de Henrique Oswald para violino e piano com Paul Klinck.

A gravação de Ana Flávia e de Laurent Albrecht apreende todos os quesitos encontráveis na magnífica “Sonata-Fantasia nº 2″,  de Villa-Lobos. Uma plasticidade no tratamento da frase musical é explícita. Sob o aspecto de entrosamento, a impecabilidade mostra-se evidente entre os dois instrumentistas e corrobora a afirmação que ouvi certo dia, do renomado compositor mexicano Mario Lavista (1943- ), de que não é necessário usar um sombrero e enorme bigode para afirmar-se nascido no México. A compreensão de Laurent Albrecht da anima brasileira é integral.

Ninguém melhor do que o próprio compositor Edino Krieger (1928-  ) para opinar sobre a gravação de sua obra “Sonâncias II”: “É um privilégio para um compositor ter uma obra executada e perpetuada em CD por instrumentistas excepcionais como o violinista Laurent Albrecht Breuninger e a pianista Ana Flávia Frazão. Eles aliam à perfeição virtuosística da técnica uma compreensão musical que valoriza o conteúdo expressivo da obra”. “Sonâncias II”, composta em 1981, explora inúmeras capacidades do violino e do piano. Krieger entende-a como “uma grande cadência virtuosística em tempo livre, sem barras de compasso”. Há, em determinados trechos apontados na partitura, a intervenção livre do pianista. Sob outra égide, “Sonâncias” desenvolve-se nos limites extremos da dinâmica, mormente nos limites dos ffff dos clusters ou em momentos introspectivos nas baixas intensidades.

De Henrique de Curitiba (1934-2008) o duo apresenta a “Sonata 87″, dividida em três andamentos; “Allegro – de batuque”, “Lento e cantabile – de toada”, “Vivace – de xaxado”. A “Sonata 87″ (composta em 1987) é  estabelecida na pulsação, e a obra evolui ricamente a expor – os títulos assim demonstram -, a diversificação rítmica. Maiúscula interpretação da significativa “Sonata 87″. A versão para violino e piano deriva de composição anterior, a “Suíte Brasileira”, vertida para vários conjuntos camerísticos. Henrique de Curitiba é um desses nossos compositores que estariam a merecer divulgação maior. É triste verificar que alguns dos mais destacados criadores brasileiros são praticamente esquecidos post mortem.

A magnífica “Sonata op. 75, nº 1 em ré menor”, de Camille Saint-Saëns (1835-1921), finaliza o CD. Um dos maiores compositores do período, extraordinário pianista, primeiro verdadeiro globetrotter como músico, percorreu o mundo a tocar, inclusive no Brasil, onde se apresentou em duo pianístico com Henrique Oswald (1852-1931) aos 5 de Julho de 1899 no Salão Steinway em São Paulo. De sua vastíssima obra, destaca-se também a camerística. Compositor que percorreu parte da longa era romântica, tem inclinação ao virtuosismo não desprovido de intensa expressividade. A belíssima “Sonata op. 75 nº 1″ (1886) traduz esse envolvimento. Uma das melhores obras do período, tem todos os ingredientes para ser muitíssimo mais divulgada. Contudo, mercê dos repertórios repetitivos que se prolongam através das décadas, o público geralmente tem de ouvir a Sonata para violino e piano de Cesar Franck. Extraordinária obra, mas não única. A interpretação do duo Breuninger-Frazão da criação de Saint-Saëns é simplesmente empolgante, da mais absoluta qualidade.  O leitor poderá ouvir, ao acessar o link, o “elétrico” Allegro molto da Sonata op. 75 nº 1 de Camille-Saint-Saëns. A gravação foi realizada no interior da Escola Superior de Música de Karlsruhe, na Alemanha. Desnecessário ratificar sua qualidade.

Clique aqui para ouvir o Allegro Molto da Sonata op.75 no.1, de Camille Saint Saëns, com Laurent A. Breuninger ao violino e Ana Flávia Frazão ao piano. Gravação realizada na Alemanha, divulgada no CD “Sonâncias”.

Na longa conversa que mantive com Ana Flávia no mês de Setembro em Goiânia, após meu recital na cidade, mostrou-se ela com intenção de gravar a “Sonata” para violino e piano de Henrique Oswald, conhecedora da gravação que Paul Klinck e eu realizamos. Encorajei-a nesse sentido e vou propor-lhe uma excelente obra do período, a “Sonata Saudade”, de Óscar da Silva (1870-1958), compositor português de mérito e pianista virtuose, para compor, quem sabe, um belíssimo CD, pois há certa identidade entre as duas composições.

Aos 78 anos não mais tenho necessidade de causar melindres em afirmações. Contudo, acredito que Ana Flávia Frazão se apresenta hoje como a nossa mais representativa pianista dedicada à música de câmara, comparável, dúvidas não tenho, aos nomes mais significativos em termos mundiais. Quanto a Laurent Albrecht Breuninger, simplesmente um violinista da mais alta qualidade. Um Mestre.

My comments on the CD of the violin-piano duo formed by Laurent Albrecht (violin) and Ana Flávia Frazão (piano) with works by Camille Saint-Saëns, Edino Krieger, Henrique Curitiba and Villa-Lobos. I found it an extraordinary achievement in terms of artistry and technical qualities. The remarkable German violinist Laurent Albrecht Breuninger is a second prize winner in 1997 of the Queen Elizabeth Competition held in Brussels, and pianist Ana Flávia Frazão, first prize at the chamber ensemble competition in Kyoto in 2001, is in my view the best chamber music pianist in Brazil today.

 

 

 

O sarau diversificado na Sociedade Brasileira de Eubiose

En la civilización de nuestros dias
es normal y obligatorio que la cocina y la moda
ocupen buena parte de las secciones dedicadas a la cultura
y que los “chefs” y los “modistos” y “modistas”
tengan ahora el protagonismo
que antes tenían los científicos, los compositores y los filósofos.
Mario Vargas Llosa

Desde a segunda metade do XIX século a reunião de vários intérpretes num sarau em sala menor era amplamente ventilada. Amy Fay (1844-1928), em precioso livro, ratifica essa prática tão a gosto do romantismo (vide blog “Amy Fay – Missivas cativantes de musicista norte americana”, 29/12/2012). Professores e alunos mais adiantados se apresentavam e o congraçamento se dava. Na segunda metade do século passado era comum a denominada audição, palavra que se adequava ao recital. Ainda hoje é tradição no país. Numa outra direção, a apresentação de vários intérpretes consolidados é realizada, mormente em datas comemorativas.

O recital do dia 15 de Outubro, no aconchegante auditório da Sociedade Brasileira de Eubiose, atingiu plenamente seu fulcral objetivo, a inauguração do novo piano Yamaha, model C7, o conhecido 3/4 de cauda, dimensão adequada para a sala com pouco mais de 200 lugares

Seis pianistas se apresentaram e a recepção foi calorosa durante todo o longo recital. Na ordem: Maria José Carrasqueira, Fábio Luz, Gilberto Tinetti, JEM, Renato Figueiredo e Eudóxia de Barros. Várias propostas foram apresentadas. Foi possível aos ouvintes, que lotaram a sala da SBE, acompanharem repertório que se estendeu do austríaco F.J. Haydn ao contemporâneo Antônio Ribeiro. Entre os seis houve ligeira preferência pelo repertório brasileiro. As saudações do público não apenas visavam aos intérpretes, como também à organização, representada àquela altura pela figura de Carlos Augusto de Souza Lima e dirigentes da SBE.

Os pianistas escolhidos pela Sociedade eram conhecidos do público frequentador, pois regularmente se apresentam em seu auditório. Quando afirmo que houve o congraçamento, é fato real. Colegas que poucas vezes se encontravam pelas mais variadas razões tiveram a oportunidade do franco diálogo e do convívio pleno e sincero.

Acredito que a iniciativa do sarau revelou-se exitosa, mercê dessa fórmula pouco habitual. Escrevia no post anterior que a apresentação individual de músico erudito não ventilado na mídia está a sofrer praticamente um esvaziamento por parte dos adeptos dessa modalidade artística. Sem a divulgação necessária, reduzem-se as expectativas. Estou a me lembrar de que há anos fui levar a um veículo de divulgação da cidade material relativo a uma apresentação. Daria um recital em sala ampla, mas não pertencente àquelas habitualmente frequentadas. A resposta foi direta, objetiva e sem nenhuma intenção malévola, pois, segundo o interlocutor, a ausência de uma maior divulgação em seu veículo informativo devia-se ao fato de a sala “não pertencer ao circuito dos locais de concerto” (sic). Certamente divulgariam, se houvesse o contributo financeiro e, quão mais intenso fosse esse, maior espaço haveria. Transmitida a resposta aos organizadores, trataram eles de fazer propaganda via redes sociais e a sala teve lotação plena. O recital conjunto do dia 15 último também recebeu público numeroso graças às redes sociais e àquilo vulgarmente conhecido como “boca a boca”.

Essas considerações fazem-se necessárias, pois doravante, mais do que a busca de uma pequena “nota”, uma quase “esmola” em veículo de comunicação, terá o instrumentista não mediático, não acompanhado por patrocinadores e fortes holofotes, de buscar essa nova modalidade de ventilação de eventos. Num sentido mais abrangente, estaríamos voltando às origens cristãs, quando a “nova” era divulgada através da oralidade dos voluntários e fiéis. Se entendida como uma fórmula de resistência ao poderio da mídia, ela pode mostrar-se eficaz e mereceria um estudo mais aprofundado. Sob égide mais ampla, deveriam músicos na acepção iniciar a crítica online, tão difundida no hemisfério norte. Sem intitular-se crítico, esse músico externaria via internet (blog, redes sociais) sua opinião, mormente em se tratando de jovens instrumentistas que gostariam imenso, como certamente nós seis, que estivemos tocando naquela noite de 15 de Outubro, apreciávamos outrora, de ter essa importante recepção crítica, apreciada por articulistas online descompromissados e, friso, músicos. Tenho utilizado este espaço para resenhas de livros, algumas gravações e apreciação de recitais.

Não seria o alcance das redes sociais um dos fatores amplamente divulgado da diminuição da venda de jornais e revistas? O enxugamento de hebdomadários e revistas mensais não teria como causas os patrocínios, que ficaram reduzidos graças à crise por que passa o país, mas também pelo dirigismo ad nauseam dos mesmos personagens? Através das redes sociais e dessa divulgação através da fala não voltaríamos a ter audiências maiores para a apresentação individual? Se, de um lado, mais e mais a cultura erudita está a ser descartada pelos meios de comunicação, se premiam Bob Dylan com a láurea máxima da literatura em detrimento de tantos autores de mérito, entre os quais Haruki Murakami, do Japão, país que aguardava a premiação como certa, não estaria a própria Academia sueca seduzida pelo canto das sereias? Em nosso país alguns autodenominados intelectuais estão sugerindo letristas pátrios bem conhecidos do público para o Nobel de literatura (sic)!!! Portas foram abertas aos personagens “surrealistas” de Hieronymus Bosch (1450-1516). Tempos atuais que, sob o aspecto de pilhéria tropical, poderíamos até entender como “apocalípticos”.

Retornemos ao recital do dia 15. Poucas vezes senti uma tão plena  irmanação. Uma das alegrias foi verificar, sentados no palco, estudantes de música, pois a sala, como afirmei, estava lotada. Na minha apresentação teci pequeno comentário sobre o compositor português, nascido nos Açores, Francisco de Lacerda (1869-1934). Soubesse eu que na plateia estava Maria Josefina, pianista e viúva do grande compositor Francisco Mignone (1897-1986), teria feito menção ao seu hercúleo trabalho no sentido da preservação da obra de seu marido. Dele toquei os “Seis Estudos Transcendentais”. A pianista Eudóxia de Barros, viúva do também ilustre compositor Osvaldo Lacerda (1927-2011) e que se apresentou com brilhantismo, não tem com dedicação ímpar trilhado caminho paralelo na divulgação das obras lacerdianas? O certo é que todos os que lá estiveram, pianistas e público, viveram momentos de intensa confraternização. Se o piano Yamaha (C7) foi o motivo central, mostrou-se a ideia benfazeja. Oxalá apresentações nessa configuração recebam a acolhida não apenas da SBE como de outras salas de resistência, e que redes sociais e a oralidade, mostrem-se ainda bem mais ativas. Poderemos enfim, quiçá, ver ressurgir a apresentação do músico instrumentista diante de uma mais ampla audiência.

The presentation recital of the new Yamaha piano at Sociedade Brasileira de Eubiose in São Paulo was a huge success. Before a packed audience, the six pianists invited for the occasion played a varied repertoire that was enthusiastically received by the public. An additional pleasure was meeting fellow pianists I do not see very often. Without media coverage, the success of the event was due to online word of mouth (blogs, social networks) and to the efforts of SBE director, Carlos Augusto de Souza Lima, and board members. Let’s hope other music associations follow in their footsteps, adapting to the internet era and opening their doors to musicians struggling to find small and mid-size venues for hosting classical music of a very high standard.