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Livro recém lançado de François Servenière

Mais o mal existe no mundo,
mais há razões para fazer o belo.
É mais difícil, sem dúvida, mas também mais necessário.
Andreï Tarkovsky

Inúmeras vezes tive o prazer de inserir em meus Ecos, posts imediatos que testemunham apreciações de leitores ao precedente, considerações do compositor e pensador francês François Servenière. A guarida aos seus textos tem sido entusiasmante, pois propicia, aos que  generosamente seguem os blogs semanais, apreenderem parcela essencial de seu pensamento multidirecionado e competente.

“Bien Faire et Laisser Braire” (Blangy-le Chatêau: Esolem, 2015) desperta curiosidade a partir do título e também do subtítulo, “Crônica da água que corre sob as pontes sem jamais retornar rio acima, exceção à nascente mercê da evaporação”. Em tradução, poder-se-ia ter “Fazer bem feito e deixar zurrar ou ladrar” ou simplesmente “Os cães ladram e a caravana passa”. Somos conduzidos de muitos temas diversificados à polêmica que enriquece, aos conceitos originais, à convicção sem arrependimento de Servenière, à qualidade singular de seu pensamento que, corajoso, não hesita em buscar uma verdade na qual ele acredita. O autor reuniu uma série de crônicas que se estendem de 2000 ao presente. Publicados em seu blog, ou especialmente já a pensar na edição do livro. O universo  literário “politicamente correto”, em que tantos se abrigam a fim de evitar interpretações que possam ferir a aceitação mediática e, consequentemente, pública, inexiste para Servenière. Será possível entender que alguns capítulos atinjam o limite da corda esticada, tão veementemente o autor se empenha em expor seu pensamento. Não há condicional, e as ideias são expostas sem meio termo. Acredito que estar distante de Paris, centro em que fez sua formação musical e do pensar, mas que voluntariamente foi descartado para um “refúgio” na Normandia, tenha conduzido Servenière à liberdade de expressão, sem amarras que pudessem interferir. A postura independente não significa alienação. O autor está diariamente conectado com o mundo, e posso testemunhar a quantidade de informações que Servenière me envia sobre temas que nos são caros, a preponderar a Música e seus caminhos, que devem ser compreendidos, tantas vezes, sans issue.

“Bien Faire et Laisser Braire” divide-se em XXI capítulos em que não poucas vezes conceitos anteriormente apresentados ressurgem metamorforseados, mas que evidenciam não apenas o estilo de Servenière, mas sua necessidade de reforçar ou alargar temas que o interessam. Ajustam-se essas considerações aos capítulos que desfilam. Arte, política, música como essencialidade, religião e fanatismo, ciência, comentários de artigos ou resposta a um e-mail curto e desairoso recebido compõem o livro em questão.

Após breve narração das origens da família, da infância como observador atento, já no segundo capítulo Servenière apresenta uma espécie de “confissão”, portal que abre seu entendimento da música. Expô-lo torna-se necessário para a compreensão do todo:

“No meu trabalho como compositor destruo e reciclo. Mas, sobretudo, eu quero reconstruir, reassociar, mostrar de novo o contraste e a diversidade. Simplesmente pelo fato de que correspondem à realidade. Abandonando – evitando – as ‘igrejinhas’, as posições e o estatuário ideológico, fontes de bloqueios e retenções que produzem, salvo raras exceções, obras fechadas, estanques e indigestas, encontro-me no meio e não sou senão um filtro, um caminhante… testemunha que vibra no uníssono de todas as ondas. Essa atitude mental é não apenas uma necessidade psicológica, fisiológica, mas igualmente filosófica.

Tive a chance de encontrar na música o ferramental através do qual minha vida expressaria melhor essa simplicidade. Senti-me desde logo como o peixe no seu habitat. Descobri o significado de minha vida”.

As posições de Servenière são claras e polêmicas. Ele, que conheceu e dominou vários processos técnicos da música contemporânea e está a par das tendências multi direcionadas, não apenas da música instrumental, mas também da eletrônica, perceberia a tempo o impasse da criação ou, ao menos, a aparência da inventiva. Distanciou-se, como outrora fizera o primeiro compositor francês a compor música dodecafônica em França, Sérgio Nigg (1924-2008). Servenière teria chegado ao impasse: compor para estar no “modismo” ou escrever música a seguir seu de profundis? Optou por este caminho. Sua obra bem vasta, a abranger tantos gêneros, é testemunha de uma escrita precisa e de comunicabilidade singular. Teve tributo a pagar e disso tem plena consciência. Longe das “panelinhas” contemporâneas, Servenière revisitou formas e gêneros do passado como ferramentas para sua criação. O desprezo que “capitães” da música contemporânea de laboratório teriam pelas suas criações foi uma das causas de retirar-se para a Normandia e continuar a criar música a fazer sentido e que chega às mentes sensíveis e ao coração. Uma sua frase é incisiva: “A música contemporânea detesta a vida, é uma triste realidade”. Não se tome à risca a afirmação, pois há música contemporânea e música contemporânea. Aquela a que Servenière se refere seria a pertencente às “igrejinhas”, termo que se poderia entender como grupos fechados, donos da verdade para os quais o não respeito a credos outros determina o anátema definitivo. Menciona jornalista dos anos 1990 que, ao perguntar a músicos do EIC (Ensemble Intercontemporain – IRCAM) “qual a música que eles escutavam à noite de volta à casa ‘para puro prazer’, ouviu respostas unânimes: jazz“. Em outro segmento, expressa posição a mostrar origens precisas: “A música clássica, romântica, moderna – toda a que precede 1945 e continuou sob a forma neo, tudo o que consonante, dissonante, modal, tonal, atonal, desestruturada ou não, mas audível e sobretudo celeiro de emoções, seja ela organizada sobre papel, outro meio qualquer ou computador e interpretada por instrumentistas ou não – é uma linguagem universal que atinge os espíritos e os corações de maneira profunda. Eu continuarei a denominá-la música, aliás como todo mundo”. O posicionamento de Servenière me fez lembrar célebre frase de Arnold Schönberg (1874-1951): “há muita boa música que pode ser escrita em Dó Maior”. Também lembra-me frase de um compositor pátrio na juventude da idade madura que, em entrevista a uma revista especializada, afirmou que suas obras e de outros compositores de sua geração – pertencentes às “igrejinhas” – estavam destinadas a guetos. É Servenière que observa ironicamente “Dancem agora! Esqueci, estou desolado: a música contemporânea não se dança, não se canta, não se escuta, ela se pensa, unicamente”. Entenda-se, no sentido da natural e ampla aceitação.

Outro segmento que prende a atenção do leitor está relacionado à polêmica, tão a gosto de pensadores franceses. Servenière não deixa de colocar seu posicionamento quando entende necessário fazê-lo, mesmo que opiniões suas possam causar desavenças. Após a leitura de entrevista do baterista e escritor Marc Cerrone, na qual o compositor diz que a criação não tem tanta necessidade do talento, Servenière pormenoriza a crítica. Cerrone, autor de composições repetitivas, minimalistas, mas que, segundo Servenière, são desprovidas da aura, recebe por parte do autor de “Bien Faire… ” observações argutas. “Adoro a música repetitiva ou cíclica. Compus algumas. Porém, não confundo Marc Cerrone nem um techno, com Steve Reich ou György Ligeti. Desgraçadamente, indigência criativa ou de ideias e comércio fazem hoje um bom casamento. Quando não com a utilização de produtos falsificados”, afirma Servenière.

Ao receber e-mail de um cidadão a dizer “você é um idiota patético! Tente ter mais cultura e consciência política”, em seguida a um seu texto incluso em “Bien Faire… ” sob o título Paroles, Objets et Art Contemporains, Servenière responde ao ora denominado pessoa progressista da música contemporânea, a ratificar seu posicionamento e a dizer que recebeu muitos “falsos e-mails que se aparentavam à ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, que recomenda desestabilizar e enfraquecer o adversário através do perpétuo assédio moral e físico”. Servenière observa procedimentos da arte contemporânea, música inclusa, praticados pelas esquerdas. É incisivo: “Intelectual de esquerda é redundância! Alguns pretenderiam maliciosamente que a expressão está a caminho de se tornar um paradoxo… Um intelectual é forçosamente de esquerda, vejamos! Deduz-se então, implicitamente, que um homem da direita que pretenda refletir com a sua cabeça não pode racionalmente ser considerado intelectual. Ele teria de utilizar obrigatoriamente um outro órgão… Estamos em França, merde! Aqui, pois, ‘ter uma consciência política’ ou ‘estar politicamente engajado’ significa ‘ser de esquerda’. Ponto final”. Sobre o tema, já a excluir nominalmente o cidadão do e-mail ofensivo, Servenière se detém em outro capítulo “O idiota e seu domínio de competência, a idiotice”.

“Bien Faire et Laisser Blaire” tem vários segmentos a abordar a crise global, mormente a francesa, a problemática imigratória e a impossibilidade de várias etnias já existentes em França “suportarem” o país e a cultura que as abrigaram. É crítico severo às posições do governo socialista, hoje no poder, nele vendo aberturas que poderão levar ao impasse. Nos capítulos “O obscurantismo” e “Como lutar contra o obscurantismo”, seu pensamento não deixa margens a dúvidas quanto à sua coerência, individual, mas também à de milhões de franceses.

No capítulo “Épilogue”, Servenière argumenta sobre várias áreas da cultura, sempre de maneira incondicional. Após breves considerações sobre música e criação, política, ciência, religião e economia, tantas vezes a suscitarem polêmica, finaliza com certa esperança: “É necessário saber que a total liberdade tem um preço, a solidão. Poucos são capazes de assumi-la (…) Malgrado tudo, continuemos a fazer o que é melhor, deixemos ladrar a matilha, caminhemos para vislumbrar além do horizonte, aprendamos, escutemos, viajemos… pois são os únicos meios provados para evitarmos morrer idiotas. Logicamente os cães continuarão a ladrar… Deixemo-los ladrar, mas evitemos beber na mesma fonte”.

O capítulo XII é dedicado a um concerto “Concert à l’Atelier”. Refere-se ao recital que dei aos 29 de Janeiro de 2013 na Salle Godard, em Paris, quando apresentei, extraprograma, o Étude Cosmique Sinergie, de sua autoria. Fico-lhe grato pela inserção.

“Bien Faire et Laisser Braire” pode ser adquirido através do site www.amazon.fr . Recomendo-o vivamente.

This post is an appreciation of the book “Bien Faire et Laisser Braire” (in a totally free translation, “Dogs Bark and the Caravan Moves on”), chronicles written by the French composer François Servenière, in which, after a brief introduction shedding lights on his childhood and family origins, he addresses a myriad of subjects, such as arts, politics, religion, fanaticism, sciences and, most of all, music. Controversial as he may be, sometimes proposing radical solutions, Servenière concludes with at least a thread of hope, stating that, as a lone fighter, one has to go on doing its best whatever the cost.

 

 

 

Estímulo para Nova Categoria

Não force a arte, não force a vida,
nem o amor, nem a morte.
Deixe que tudo suceda como um fruto maduro
que se abre e lança no solo as sementes fecundas.
Que não haja em si, no anseio de viver,
nenhum gesto que lhe perturbe a vida.
Agostinho da Silva

É fato claro que determinada decisão somente surja após estímulo.  Seria possível entender que resoluções amadurecem a partir de simples sugestão ou até pelo acaso. Incontáveis as obras criadas através da história depois de impulso estimulante. É este incentivo que teria faltado a tantas criações que, estioladas, não chegaram à luz.

Fiquei surpreso com o número de e-mails recebidos, particularizando as apreciações que escrevi ultimamente sobre gravações. Até então não o fizera, a observar uma postura ética como intérprete frente às gravações de outros pianistas. Assim como abstive-me de escrever certas resenhas de livros que chegavam às minhas mãos enviados pelo saudoso Nilo Scalzo, e que teriam como destino o extinto suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”, assim também evito escrever em meu blog sobre livros recomendados que, às primeiras páginas, levam-me à desistência ou, então, sobre outras manifestações artísticas que não me atraem. O meu blog, ininterrupto há mais de oito anos e meio, sem qualquer apoio ou propaganda, dá-me as asas da não concessão que conduz às minhas próprias escolhas. Continuo a acreditar que a independência é sempre salvaguarda maior da consciência. Se a atitude é certa ou não, ela é pessoal e não sofre pressão alguma, sujeita unicamente à minha consciência. A lista de livros resenhados neste espaço é longa e o leitor tem acesso através do menu, no item “Livros – Resenhas e Comentários (lista)” . Todas as obras lidas pelo único motivo de querer lê-las. Nenhum outro.

Brevemente abrirei item novo, pois a guarida dos leitores a três recentes comentários de CDs entusiasma-me. Contudo, confesso, só escreverei se realmente entender tal registro fonográfico realmente inusitado quanto à interpretação, ao repertório e ao propósito ao qual se destina, entenda-se, qualitativo, sempre.

Quanto à periodização dos posts específicos e críticos relativos às gravações, tenciono escrevê-los com certa frequência, sem fixá-los no calendário, e a abranger, preferencialmente no momento atual, gravações que para mim tiveram a chama da revelação interpretativa. Refiro-me aos intérpretes do passado que mais e mais estão sendo lembrados em ótimos lançamentos e que revelam a tradição mantida em seu nível mais elevado. Se a gravação recente for de meu inteiro agrado, certamente escreverei, como o fiz para os CDs de Sérgio Monteiro, Sebastian Benda e António Rosado.

Os comentários estimulantes sobre críticas e observações recentes que escrevi sobre gravações e que chegaram à minha caixa de e-mails majoritariamente são curtos,  trazendo-me o prazer da descoberta por parte do leitor e votos de continuidade. A todos fica meu profundo agradecimento. Igualmente, minha gratidão ao dileto amigo Magnus Bardela, que há anos apontava o direcionamento a que me proponho doravante.

O CD Oswald, gravado pelo pianista Sérgio Monteiro (vide: Obras para piano de Henrique Oswald, 07/11/2015), mereceu, entre outros comentários, os de dois bisnetos de Henrique Oswald.

Escreve Thomaz Oswald:

“Temos a satisfação de fazê-lo saber de que o CD, que recebemos do Sérgio Monteiro, já foi incluído na relação (incompleta) de gravações H.Oswald, no site da família. Belíssima apreciação (blog). Obrigado. Também gostei muito do CD e dois movimentos do op. 3 estão disponíveis para audição: um no próprio site (www.oswald.com.br) e outro no mini-site do CD (através do link). A propósito, o quadro de Henrique Oswald (que está comigo) e que está no livreto interno do CD (e foi colocado por você no blog) foi por mim enviado ao Sérgio. Também gostei muito da qualidade da gravação e do resultado final do CD, assim como do virtuosismo que o Sergio imprimiu em certas passagens – principalmente no op. 3. Concordo com você em tudo”.

Sinto-me lisonjeado com as palavras da filha de minha dileta e saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor. Escreve Maria Clara Porto:

“Vi que você gostou muito do CD gravado pelo Sergio Monteiro…! Parece que é muito bonito, ainda não escutei… ele ficou feliz com sua crítica, pelo que meu primo Thomaz me passou, te nomeia ‘maior sumidade em Henrique Oswald’! E você é!”

Do excelente pianista Sérgio Monteiro recebi o e-mail:

“Obrigado pelo apoio desde o início deste projeto e pelo carinho da recomendação do CD. Espero que este contribua para a divulgação e apreciação da obra de Oswald. Aqui nos EUA, o público vem apreciando imensamente. As pessoas estão ávidas por ouvir obras novas de real beleza, e isso faz com que se abra um espaço grande para os românticos pouco conhecidos”.

Selecionei dois e-mails relativos ao comovente álbum de CDs com gravações do ilustre pianista suíço Sebastian Benda (vide Sebastian Benda – 1926-2003, 21/11/2015).

A dedicada viúva do pianista, Luzia Benda, envia notícias:

“A sua apreciaçāo detalhada sobre a interpretaçāo das obras gravadas demonstra um grande conhecimento, tanto histórico como estilístico, e também uma grande sensibilidade, reconhecendo os valores musicais e humanos inerentes à personalidade de Sebastian”.

Do compositor e pensador francês François Servenière, que frequenta meu blog sempre de maneira arguta, recebi a mensagem:

“Acabo de ler o seu artigo sobre Sebastian Benda, que eu conhecia de nome, mas nada de sua brilhante carreira. Personalidade de forte interesse e de enorme talento. Suas interpretações são magníficas, plenas de virtuosidade e de clareza. Particularmente apreciei a sua concepção agógica em In der Nacht das Fantasiestücke op. 12, de Robert Schumann. Seu domínio e pulsação rítmica na peça de Villa-Lobos, Dança do índio branco, do Ciclo Brasileiro, impressionam (links conduzem à audição dessas obras no blog acima mencionado). Causou-me impacto o percurso musical de Sebastian Benda. Há muitos artistas célebres, sobretudo hoje com a força da mídia e dos mecanismos do show business. Quantos são essenciais, quantos apreendem a fonte milenar, quantos são autênticos em seu caminhar humanístico? Espanta-me sempre a sua capacidade de encontrar e estar em contato com personalidades marcantes de nossa arte e de nossa época contemporânea. Não tenho dúvidas de que, se você tivesse vivido no começo do século XX, teria encontrado Fauré, Debussy e Ravel… Você tem o senso da verdade em arte e essa intuição permite-lhe nunca errar sobre a essência, sobre o objetivo último da música. A idolatria, permanente tentação de traição do essencial, resultado do abusivo incenso sobre artistas stars, mostra-se sempre atual, hélas. É, pois, fundamental o que o amigo faz, lembrar os exemplos dignificantes, a entender que o dinheiro é necessário, mas não pode ser o centro, apenas o meio. Quando ele se torna o eixo, a sociedade se corrompe e os povos acabam mal.

É necessário continuar ardentemente a encorajar a genealogia dos artistas essenciais, nem sempre os mais célebres, mas certamente aqueles que sustentam as principais vertentes das artes. Aquelas de que nossos sucessores continuarão a utilizar-se para aceder à excelência, esse farol potente que ilumina a humanidade” (tradução: JEM).

Sobre o último blog (“Músicas Festivas” de Fernando Lopes-Graça), duas mensagens vindas de Portugal apenas enriquecem o que foi exposto.

Sílvia Camilo, uma das organizadoras do projeto “Músicas Festivas” para piano, escreve:

“Foi com imensa alegria que recebemos a notícia deste artigo no seu blogue. Muito obrigada! Ficamos muito orgulhosos por merecer essa atenção, claro. Espero não estar enganada quando afirmo que na ‘minha’ música, a nº 2, ‘Para os 3 anos da Sílvia’ está lá, na parte mais melancólica, o ‘Epitáfio para uma donzela’, de 1930. Também acha? Vamos aproveitar para divulgar o seu blogue e website. Mais uma vez obrigada!

Um forte abraço,
A equipa das Músicas Festivas,
Sílvia”.

Quanto à semelhança das “músicas”, seria possível entender certa aproximação, pois estruturas e determinados contornos melódicos integram o idiomático de Lopes-Graça. Reinventa-os constantemente durante a efervescência criativa.

Maria Celestina Leão Gomes, Presidente da Associação Lopes-Graça sediada em Lisboa, assim se pronuncia, a esclarecer, inclusive, um dos temas marciais utilizados pelo compositor, que se encontra no link postado no blog “Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”:

“Comentários excelentes os seus. As músicas são celestiais. A inclusão de um excerto de ‘Grândola Vila Morena’ na ‘Música Festiva nº 20′ – ‘Para os 70 anos de Vasco Gonçalves’ marca bem a gratidão de um pelo outro. Dois grandes homens como que a se abraçarem numa despedida transitória e cheia de esperança. Imortalizados deveriam ser os que, com o seu trabalho, saber, talento e amor, entregam-se às coisas e causas que enobrecem as pessoas, as sociedades ou mesmo a Humanidade”.

Sobre o último blog, que abordou as “Músicas Festivas”, de Fernando Lopes-Graça, Servenière tece reflexões, como habitualmente o faz:

“Endosso sua admiração por Lopes-Graça. Evidentemente não é meu universo estético, pois ele corresponde a uma outra época, aquela situada entre 1945 e 1980. As ideias artísticas deviam lutar contra outras forças, no seu caso, o Estado Novo (1933-1974). Os tempos mudaram, mas admiro sua escrita musical, a força de suas ideias e suas articulações. Elas só são possíveis num grande mestre, mesmo que o conjunto de sua obra tenha um viés que eu diria sombrio e torturado, por vezes. Faz-me pensar em alguns pontos encontráveis na produção de Olivier Messiaen. Os dois foram submetidos a pressões que permanecem em suas criações, Lopes-Graça, monitorado durante décadas pelos agentes salazaristas e sofrendo o constrangimento das prisões; Messiaen, prisioneiro em um stalag (1940-1941). Nas situações ditatoriais que vivem certos países no curso da história, a ignomínia ronda de perto os indivíduos, sobretudo aqueles independentes, livres e solitários. A sociedade tem necessidade de encontrar bodes-expiatórios. Creio que Graça e Messiaen jamais puderam, consequência dessas horríveis condições, distanciar-se dessa realidade em suas composições e foram por elas condicionados. Como lutar contra? A arte permite dizer o inefável. Os dois mestres denunciaram os crimes a que foram submetidos através do estilo idôneo, preciso. Nossa geração e aquelas que virão deverão mostrar, até próximos cataclismos que certamente virão, que existe também um caminho iluminado e que tudo não é sombrio na vida, que existe a esperança e que a vida acaba sempre por vencer o niilismo e a morte”.

Ratifico meu agradecimento a todos os que enviaram mensagens alentadoras. Não me esquecerei da preciosa motivação.

My brief overview of music albums in recent blogs got much feedback from readers, serving as an incentive to add a new category to my posts: comments about great masters of the past or high quality present and past repertoires, sometimes forgotten nowadays. Today I transcribe e-mail messages from readers with their own views on the albums addressed in newly published posts.

 

 


CDs, DVDs e Partituras

As obras de Lopes-Graça são enigmas.
Por isso o seu fascínio aumenta com o decurso do tempo.
É extraordinária a resistência que oferecem à interpretação -
não só interpretação musical
no sentido da execução (performance),
mas também interpretação
no plano da recepção pelo ouvinte (aesthesis).
Não se deixam apreender ou captar no já conhecido.
Daí a energia que delas se vai libertando,
de audição para audição, de execução para execução.
Há sempre uma nova perspectiva que antes nos escapara,
uma nova dimensão por descobrir.
Mário Vieira de Carvalho

Não foram poucas as vezes que abordei neste espaço a obra do grande compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). O autor deixou uma produção das mais significativas, incursionando em inúmeros gêneros destinados à música instrumental, camerística, orquestral e coral, mormente à música para piano, seu instrumento eleito. Infelizmente pouquíssimo conhecido no Brasil, Lopes-Graça tem granjeado renome acentuado nos últimos anos no hemisfério norte,  que o coloca entre os maiores compositores dos três últimos quartos do século XX.

Todo autor de talento tem suas impressões digitais impregnadas em cada criação, caracterizando a identidade insofismável e o estilo. Os que permanecem na história têm essas marcas inconfundíveis. A obra do notável é distinguida logo aos primeiros acordes e toda a inventiva que se segue apenas ratifica a certeza do gênio ou do grande talento. Há a necessidade imperiosa do domínio da escrita, precedido do almejo, compartimento este onde fluem as ideias que são rigorosamente distintas em cada compositor maior. Este elege preferências, estrutura sua arquitetura musical, acalenta-a em suas vestimentas diversas, privilegiando o abstrato ou o imagético que possa insistentemente acompanhá-lo, não se descartando o acaso.

Lopes-Graça é um caso típico do amálgama. Se a austeridade voltada ao abstrato quanto aos títulos percorre um sem número de suas obras, como as seis extraordinárias Sonatas e os 24 Prelúdios para piano, numa exemplificação sumária, o olhar de Graça tem a argúcia e o ato amoroso do guardar. A observação será o motivo a impulsionar a ideia musical, a criação e o versar para o papel pautado a genialidade. Dir-se-ia, num plano metafórico, que esse olhar alia o precisão fixada pelo lince ao multidirecionamento característico do periscópio de que é munido o camaleão. Lopes-Graça apreende o au-delà da imagem, metamorfoseia um local físico, dando-lhe grandeza, perscruta a alma de personagens, dimensionando a caminhada dessas figuras queridas – familiares ou amigas – pela História. Assim agiu ao compor os dois cadernos de Natais Portugueses ou os quatro das Músicas Rústicas. Assim também procedeu ao criar Viagens na Minha Terra, a partir da leitura de livro homônimo de Almeida Garrett, ou ainda, numa expansão geográfica extrafronteiras portuguesas, Cosmorama. Assim agiria em duas coleções fundamentais voltadas aos que pulsam ou àqueles que se foram.

No substancial repertório pianístico de Lopes-Graça encontram-se duas séries antagônicas, distintas na criação, no conteúdo, na destinação e no mood. Uma reverencia a vida desde o nascimento, glorificando as núpcias e saudando companheiros de trajetória. Refiro-me às coletâneas das 23 Músicas Festivas (1962-1994) e das nove Músicas Fúnebres (1981-1991), estas  rendendo homenagem a diletos amigos e admiradas figuras que partiram. Ambas as coleções, transcendentais na feitura.

As 23 Músicas Festivas, contraste absoluto às Músicas Fúnebres, são obras de invulgar textura. Gravadas em 2012 pelo notável pianista António Rosado, que anteriormente já prestara essencial contributo à criação de Fernando Lopes-Graça ao registrar fonograficamente as oito suítes In Memoriam Bela Bartok e as seis Sonatas, aceitou o singular desafio e apresenta em magnífica interpretação a coletânea completa (2 CDs). Sempre com o incentivo da incansável Sílvia Camilo, dedicatária de uma das peças da coleção, houve por bem a organização dos CDs – produção Nuno Cardoso -, o lançamento de dois DVDs contendo, o primeiro, o magnífico recital de António Rosado, precedido da apresentação do professor Ruy  Vieira Nery, evento realizado no Centro Cultural de Belém aos 16 de Dezembro de 2012. Num segundo DVD, há entrevistas com os dedicatários, descendentes e amigos. Alguns excertos históricos, filmados com a presença de Lopes-Graça em circunstâncias do cotidiano, enriquecem o projeto, que teve o corolário representado pelas partituras impressas em quatro cadernos (AvA Musical Editions, 2012).

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para as bodas de José Pedro e da Paula”

Comecemos pela obra editada criteriosamente e com a revisão de Rosado. O texto do pianista e musicólogo João Espírito Santo elucida a divisão em quatro volumes a partir dos dedicatários. O número um, “Para crianças”, contém seis Músicas, a focalizar miúdos beirando até o primeiro lustro, e mais a intrigante Para um “canarito” recém nascido. Sílvia Camilo, filha do saudoso Viriato Camilo, é lembrada na Música 3, Para os três anos da Sílvia. O segundo volume, “Para Bodas e outros Festejos”, agrupa sete Músicas Festivas. Claude Debussy, em La Boîte à Joujoux para piano (1913), introduz a assim conhecida Marcha Nupcial de Mendelssohn, a comemorar o casamento da boneca com o soldado. Em sua 21ª peça, Para as Bodas de José Pedro e da Paula, Lopes-Graça também irá lembrar-se da consagrada marcha. José Pedro, festejado pelo compositor em seu primeiro natalício (Música 3), é-o também na dedicada à celebração que dá início ao convívio conjugal. O agrupamento do terceiro volume leva o título “No aniversário de jovens amigos”. Lopes-Graça sempre estimulou o músico emergente. Não desmente a assertiva ao se lembrar de Maria Alina, Nuno Barroso, do próprio João Espírito Santo em seus 15 anos e os 18 do também pianista Miguel Borges Coelho. Estímulo que teve consequências exitosas. Como esquecer o convite de Lopes-Graça ao jovem que eu fui para um primeiro recital em Lisboa na Academia de Amadores de Música, aos 14 de Julho de 1959? Num quarto volume, “No aniversário de velhos companheiros”, lembrar-se-á de amigos de longa data em seus natalícios, que vão dos 66 aos 90 anos de idade, caso da grande amiga e ilustre crítica e musicóloga Francine Benoît, pranteada que será na Música Fúnebre número 7, Moimento a Francine Benoît. Quanto à dedicada a Vasco Gonçalves, general que foi Primeiro-ministro de Portugal (1974-1975), Lopes-Graça recordar-se-á de Jornada, poesia de José Gomes Ferreira musicada pelo compositor e que faz parte das Marchas, Danças e Canções (Seara Nova, 1946). O tema da marcha também é encontrado na Música Fúnebre nº 3, Morto, José Gomes Ferreira, vais ao nosso lado”

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”

Músicas Festivas apresentam uma armadilha. O título poderia sugerir obras de circunstância apenas, mercê das dedicatórias, por vezes singelas, mas nunca desprovidas de razão. A coletânea tem cumeeiras da mais absoluta virtuosidade, e elas são muitas, possíveis de serem realizadas por pianistas da mais alta estirpe. A transcendência em tantos segmentos, o lirismo inerente em não poucas passagens, a puerilidade latente quando se volta à criança e o domínio absoluto e multi-direcionado de uma escrita pessoal, mas que não esquece compositores eleitos e expressamente admirados em sua pena como literato, fazem-no o nome maior da música em Portugal do século XX, quiçá de sua história.

A escolha de António Rosado para projeto tão ambicioso que resultou amplamente, não poderia ser mais adequada. Certamente um dos mais importantes pianistas de toda a trajetória do piano em Portugal, intérprete respeitado do repertório sacralizado e que tem prestado contributo insofismável, através de gravações referenciais, ao grande Fernando Lopes-Graça.

Quanto às mencionadas Músicas Fúnebres, obra de profunda austeridade, foram por mim gravadas na Bélgica (2010) para o selo PortugalSom/Numérica em álbum (2CDs) com outras composições de Lopes-Graça e lançado em 2012 em Portugal.

Finalizo a ratificar o desconhecimento quase absoluto que se tem no Brasil da monumental obra de Fernando Lopes-Graça. As Sociedades de Concerto insistem na mesmice e apenas a complacência as faz introduzir alguma obra nova que, geralmente, não será mais repetida. A profícua e importante obra coral do ilustre compositor português não frequenta repertórios e os pianistas pátrios passam ao largo por uma das mais significativas produções para piano do século XX. É preciso que mentes se abram…

This post addresses the album (two CDs and two DVDs) recorded by the great Portuguese pianist António Rosado with the 23 Músicas Festivas (Festive Pieces) composed for piano by Fernando Lopes-Graça and dedicated to friends to celebrate special occasions. Interviews with the pieces’ dedicatees or their descendants enrich Rosado’s work.