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A longevidade do Intérprete, uma Dádiva

Com a verdade da minha vida
me posso condecorar ou me condenar;
sinal de que a vivo bem vivo.
Agostinho da Silva
(“Espólio”)

Neste espaço, reiteradas vezes comentei estar sempre atento aos esportes, e não em poucas oportunidades entendi pertinentes e aplicáveis muitas das formulações propostas por técnicos das várias modalidades, pois, sob outra égide, próximas às práticas musicais técnico-interpretativas. Considere-se que o intérprete de instrumentos de música utiliza-se das mãos, que têm de estar preparadas para o mister. Essa associação esporte-música, nesse aspecto eminentemente técnico, não têm a menor correlação com a faixa etária. Sob aspecto outro, se o esporte tem como característica o aprimoramento técnico e tático, a atividade do músico intérprete, au delà do essencial estado técnico de excelência, tem como característica fulcral a transmissão da obra de arte configurada através dos séculos, e essa atribuição inalienável necessita de um desenvolvimento mental que, ao longo dos anos, sofre aprimoramento. Sem o nível técnico o desempenho do intérprete musical será pífio, mas sem o conhecimento profundo, também o será.

Reflexões afloraram após o grande nadador César Cielo, medalhista em Olimpíadas e campeonatos mundiais, detentor de recordes espantosos, não conseguir, aos 29 anos, índice para as Olimpíadas que serão realizadas no Rio de Janeiro em Agosto. Justamente na prova dos 50 metros livres em que foi, durante um bom período, o mais rápido do mundo. Todavia, Michael Phelps, o extraordinário nadador norte-americano, virá para as Olimpíadas do Rio em forma, aos 30. Não nos esqueçamos da magnífica nadadora Dara Torres, também dos Estados Unidos, que obteve 12 medalhas, sendo quatro de ouro, e que aos 40 anos participou de sua última Olimpíada. A ginástica olímpica assiste, a cada certame quadrienal, à aparição de fenômenos na tenra idade que se estiolam na competição seguinte. Futebolistas ultrapassam a barreira dos 30 já com a desconfiança de críticos e torcedores e raramente vão além dos 35 anos. Ricardo Oliveira (Santos), Marcos (Palmeiras), Rogério Ceni (São Paulo), Gianluigi Buffon (Juventus e seleção italiana) e, incrivelmente, Zé Roberto (Palmeiras) passaram essa marca, sendo que este último mantém qualidade aos 41 anos de idade, após jogar na minha desacreditada Portuguesa, na seleção brasileira e, sobretudo, no portentoso Bayern de Munique, entre outras agremiações! Poder-se-ia dizer que seria essa a faixa etária limite para um atleta de ponta, considerando-se as várias modalidades esportivas. “O tempo insubornável”, na pena do grande Guerra Junqueiro.

Vê-se que, ao chegar o momento de ter de parar a prática profissional, nem todo atleta aceita com amadurecimento a despedida, e tantos, por motivos outros, como vida desregrada, sequer estão preparados para o day after.  Diria que o encerramento de carreiras em tempo certo é irreversível. Quando advém, aqueles poucos anos “miraculosos” se esvaem e pouco resta a não ser lembranças e glórias cultuadas pelos aficionados que acariciarão egos feridos. O atleta profissional, na busca de novos horizontes, terá caminho que poderá ser árduo.

A premissa se faz necessária na medida em que a atividade do intérprete musical em sua rigorosa prática diária que mantém a destreza física, nesse amálgama apontado acima sobre preparo técnico-teórico, ultrapassa a barreira etária e permite ao músico não visualizar o fim, geralmente configurado na morte física. Não há limite de idade para o músico intérprete no que tange a seus dedos, a não ser problemas físicos que possam surgir durante a trajetória. Tantos foram os ótimos músicos que tiveram de interromper carreiras brilhantes por adversidades ou males surgidos. O grande pianista Mieczyslaw Horzowsky (1892-1993) apresentou recital de alto nível no Carnegie Hall em Nova York, aos 98 de idade!!! Atravessou o palco amparado, mas, ao iniciar a récita, deu-se a magia!!! Participo de corridas de rua desde 2008, e há figura emblemática, Tuplet Seabra Vasconcellos, que morreria aos 99 anos. Aos 97 participou de competição pertinente à idade, o mundial na Itália, obtendo o 3º lugar nos 5.000 metros e o 1º nos 10.000. Exceções!!! Contudo, na arte da interpretação pianística inúmeros grandes mestres ultrapassaram facilmente os 80 anos tocando em altíssimo nível.

Certo dia conversava com notável cirurgião que me dizia que em seu ofício também se utilizava das mãos. Concordei plenamente, mas observei que essa prática dava-se na sala de cirurgia e que nós, intérpretes, temos de praticar todos os dias, na solidão, a destreza dos dedos – sem contar todo o conjunto corporal que resulta nessa aplicação digital. É justamente nesse quesito que a nossa atividade se aproxima da prática esportiva, pois todo o aspecto cognitivo-musical amalgama-se a essa indispensável manutenção física.

Preparo-me para mais uma travessia no início de Maio. Serão quatro recitais em Portugal e entrevista na respeitada Antena 2 da RDP (dia 4). Inicialmente Cascais (Casa da Cultura), em evento promovido pelo Museu da Música Portuguesa e pela Câmara Municipal de Cascais (6). A seguir, Évora, a “Cidade Esotérica e Misteriosa”, título do livro de meu saudoso amigo Joaquim Palminha Silva. O concerto tem o patrocínio da Escola de Música Eborae Musica e do Centro Ward de Lisboa e será realizado no Convento Nossa Senhora dos Remédios (9). Teremos após concerto em Tomar, a cidade dos Templários, berço de Fernando Lopes-Graça. A récita se dará na Escola de Música Canto Firme (11). O último recital será apresentado na Almada, no Convento dos Capuchos, com patrocínio da Associação Lopes-Graça e da Câmara Municipal de Almada (14). Chega-se ao Convento atravessando a ponte 25 de Abril, na outra margem do magnífico Tejo para quem sai de Lisboa. Friso, as entidades privadas e as Escolas de Música envolvidas nas récitas que recebem subvenções do governo lutam com enormes dificuldades, mas batalham e realizam. Comovente!!!

O programa será inteiramente dedicado a Fernando Lopes-Graça (1906-1994), o maior nome da música portuguesa de concerto, clássica ou erudita do século XX. O que desperta interesse maior nessa tournée é a apresentação, em primeira audição em Portugal, da magnífica coletânea constituída pelos 12 Cantos Sefardins para canto e piano do notável compositor. Apresentamo-la em primeira audição mundial em São Paulo em Outubro último, num ciclo de três dias consagrados a Lopes-Graça e promovido pela UNIBES Cultural e pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo. A mezzo-soprano Rita Morão Tavares, pertencente ao Coro Gulbenkian, que cantou a obra em nossa cidade, será também a solista dos Cantos Sefardins. Completarei o programa com a extraordinária criação Canto de Amor e de Morte e o conjunto de 19 peças que constituem a joia rara representada pelas Viagens na Minha Terra, título homônimo do romance de Almeida Garrett. Para esse precioso caderno, o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso preparou para a apresentação em São Paulo, e que se repetirá em Portugal, um datashow de raro interesse, pois à medida que Lopes-Graça percorre aldeias e vilas, o ouvinte terá oportunidade de seguir a caminhada musical do compositor por essas localidades por ele tão amadas.

Em blogs bem anteriores, assinalei que, para mim, toda travessia tem de ter o cunho do inusitado. Quantas não foram as vezes que resenhei com afeto livros de viajantes intrépidos que buscam, nessas terras desconhecidas, a razão para tantos questionamentos, mesmo os de ordem interior? Sentir-me-ia desconfortável em atravessar o Atlântico ou outros solos tendo que me repetir ad aeternum. Se revisito uma obra em determinada geografia, faço-o a atender grande recuo do tempo, o que enseja uma “redescoberta”. Bato-me contra a repetição repertorial, luta inglória, pois rigorosamente pessoal. Lógico que sempre tive tributo a pagar, situação que considero benfazeja, pois a essência essencial é transmitida. Organizações e patrocinadores poderosos abominam sair da rotina e, se o fazem homeopaticamente, é apenas para passar a ideia, ao público habitual, de que também pensam no inusitado, desde o passado à contemporaneidade. Fato.

No pórtico dos 78 anos sinto que a atividade do intérprete musical é uma dádiva preciosa. São décadas que, somadas, correspondem a várias gerações de atletas profissionais a se estiolarem.

Os dois próximos blogs serão redigidos em Portugal. Mais curtos pelas circunstâncias, abordarão a caminhada musical, os personagens portugueses que integram meus afetos e os pormenores que encantam o viajante.

As 2016 Olympic Games to be held in Rio de Janeiro draw nearer, one hears of renowned athletes who have failed to achieve olympic qualification standards. This post reflects on the importance of knowing the right time to leave the stage. In my view, a pianist is privileged. Since daily practice routine and good health are maintained, he may live past 80 and still give exceptional high level performances.

The next two posts will be written in Portugal, to where I’m flying at the beginning of May with recitals scheduled in Cascais, Évora, Tomar and Almada.

 

 

 

Comentários abrangentes a partir de uma epígrafe

A natureza e o canto dos pássaros,
são minhas paixões, meus refúgios.

Só os pássaros são grandes artistas,
os verdadeiros autores de minhas obras.

Olivier Messiaen (1908-1992)

O post publicado no último dia 20 suscitou manifestações competentes. Leitores entenderam os esforços da equipe da Revista Glosas em manter, já há alguns anos, padrão ascensional. Não é fácil o prolongamento de uma revista especializada, mormente quando a equipe evita publicidades que podem envolver comprometimento. A busca de uma pretendida excelência, almejo real, implica sacrifícios, empenho e despojamento. Ao dedicar posts à Revista Glosas, faço-o na certeza de que temos um exemplo que poderia bem ser seguido em nossas terras. Fui editor chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo (1990-2007) e sei das dificuldades na manutenção de um padrão de qualidade, apesar das pressões existentes voltadas às concessões acadêmicas, mais explicitamente ao denominado carreirismo, pois publicar é necessário e tantos são aqueles que buscam um item a mais no currículo movidos pela ascensão docente. Quando isso ocorre, padrões de excelência despencam.

As mensagens, majoritariamente curtas, louvaram a escolha das matérias de Glosas (nº 13), as justas homenagens a Gilberto Mendes, Madalena de Sá e Costa e aos quatro músicos da família Napoleão. Destes, Arthur viveria muitos anos no Brasil.

O compositor e pensador francês François Servenière uma vez mais faz-se presente através de rica mensagem, transmitida após a publicação do post sobre a Revista Glosas. Separei alguns segmentos, a partir de suas reflexões sobre a epígrafe de Fernando Corrêa de Oliveira inserida no post em questão: “A música é uma actividade do intelecto. Não foi inventada pelo Homem, foi criada com o Homem”. Imaginava que a curta sentença poderia gerar polêmica, mercê de conceituação forte, incondicional. Gerou.

“Raramente discordo de seus blogs, mas desta vez dissocio-me da epígrafe de Corrêa de Oliveira. A música não foi criada pelo homem e as duas frases do enunciado deixaram-me em dúvidas. Resultado de introspecções, tenho que a música esteja ligada ao DNA, este, produto das nuvens estelares. O tema tem sido pouco estudado pelas observações de telescópios os mais potentes. Minhas intuições estavam a me dizer que a música era produto do Universo e que a encontramos em todos os lugares onde há vida. Dizer que ‘a música foi criada com o Homem’ supõe também orgulho antropomórfico, pois os animais sabem usá-la de maneira engenhosa. Em nossa primavera, e durante todo o ano em seu país, os concertos dos vários animais nas florestas, parques e jardins deixam-nos sem voz, graças à prática do contraponto e da harmonia com a facilidade exemplar dos virtuoses. Quantas vezes, durante passeios campestres, não me sentei para ouvir essas maravilhas não escritas e com duração apropriada, respirações necessárias, discursos incompreensíveis para nós, mas que para eles, mais do que um jogo, revestem-se em verdadeira comunicação, alegria nessa observação do som repercutido e no divertimento, resultado do eco. Diria mais, uma faculdade de utilizar a técnica do revezamento orquestral que lhes é instintiva e que se torna natural ao humano nas discussões, nos cantos e nas partituras”. Observaria que são tantos os compositores que ficaram extasiados com o canto dos pássaros. Para citar apenas alguns: Clément Janequin (1485-1558), Le chant des oiseaux; Jean-Philippe Rameau (1683-1764), Le rappel des oiseaux; Robert Schumann (1810-1856), O pássaro profeta; Franz Liszt (1811-1886), São Francisco de Assis a falar aos pássaros; Igor Stravinsky (1882-1971), O pássaro de fogo; Maurice Ravel (1875-1937), L’oiseau triste; Olivier Messiaen (1908-1992), Catalogue des oiseaux. Tenho notado, ao longo das décadas, que sempre que inicio meus estudos pianísticos os canários começam a cantar. Invariavelmente. Simbiose? Osmose? Continua Servenière: “Bach não iria me contradizer quando eu sinto a base do Cantus Firmus e do Coral nesses cantos fascinantes dos pássaros. Não posso, pois, aceitar que ‘a música foi criada com o Homem’. Para mim ela precede o humano e muito antecipadamente. Sim, todas as formas documentadas e complexas de nossas bibliotecas e repertórios são fruto inequívoco do espírito do homem, sua realização. Não obstante, entendo arrogância o homem sentir-se o único inventor, sabendo-se que a complexidade da cosmologia nos precede e que nós não fazemos outra coisa que reproduzir, reconstruir e transmitir essas mensagens universais inclusas no DNA através da vida, pelas nossas observações matemáticas originárias do céu. Compreendamos que a inventiva não é o único produto de nosso espírito. Acredito firmemente que a humanidade terá surpresas no dia em que tiver a possibilidade de conhecer outras civilizações extraterrestres. Assim como a Terra não é o centro do universo, a humanidade, por consequência, não deve ser a única representante da inteligência. Trata-se de questão estatística  que deve ter uma solução certa: não somos os únicos no universo e nossa música não é, pois, ‘criação do homem’ C.Q.F.D. (aquilo que seria necessário demonstrar).

Sobre seu grande amigo Gilberto Mendes, homenageado na revista Glosas, diria que é a cruel aventura da vida que nos faz sentir a ausência dos que nos são caros. Quando Gilberto diz que Darmstadt era lugar planificado para conferências, ‘panelinha bem urdida’ entre os compositores, e que nada aprendeu nessas sessões, lembro-me bem do que diziam de Pierre Boulez em seu discurso, quando de sua admissão no Collège de France: ‘seis minutos de música, seis horas de discurso’. Para o material publicado sobre Gilberto Mendes, diria que conheço pouco suas obras, assim como criações brasileiras e portuguesas, exceções ao que encontro no YouTube e as que você interpreta ao piano. Do que eu conheço, posso afirmar que se trata de um compositor sedutor, mestre de um estilo aberto, feliz, aéreo, esclarecido, que se diverte com a música, a transparecer alegria de viver. Qual a razão de, sendo francês, sentir-me tão próximo de suas mensagens traduzidas através das composições? Tenho certeza de que pelo fato de termos o mesmo prisma. A música é uma linguagem complexa, mas como transmitir prazer a quem ouve se nós não tivermos a chama ao praticá-la, compondo. Para nós dois, compositores, e para você, evidentemente, ‘não há teoria: basta escutar. O prazer é a regra’. É o que penso”. (Tradução: JEM).

O pensamento do compositor François Servenière não foi exposto por outro motivo a não ser, primordialmente, sua inclinação clara e inequívoca voltada às manifestações da natureza e à contemplação do universo. Fino observador, passou para o papel pautado obras que traduzem essa admiração: Vertige des saisons, Promenade sur la voie Lactée, Tribulations d’un écureuil Lambda, Études Cosmiques entre outras.

Não fossem as frases do professor Fernando Corrêa de Oliveira inseridas no artigo de Glosas (13º), de autoria de Carla Nogueira e Helena Santana, não teríamos as reflexões instigantes de François Servenière. Basta uma frase para a mente viajar.

The post addressing issue nº 13 of the classical music magazine “Glosas” received much feedback, all praising the quality of the articles published. I transcribe here excerpts from the message with comments by the French composer François Servenière, in particular his thought-provoking analysis of the post’s epigraph, a quotation from Fernando Corrêa de Oliveira: “Music is an intellectual activity. It was not invented by man, it was created with man”.

 

 

 

Outras reflexões sobre o tema

O piano ou é fácil ou impossível.
Arthur Rubinstein (1887-1982)
(frase atribuída ao notável pianista)

Conversava com um amigo, músico amador, a respeito de vários temas ligados à área musical. Veio uma pergunta bem pertinente referente à interpretação e às tantas leituras diferenciadas frente à execução. Durante um curto que tomamos em nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, tentei explicar ao João Paulo algumas considerações de músicos renomados e minha posição pessoal sobre relevantes questões.

Hoje temos o YouTube a divulgar ad infinitum intérpretes de todos os níveis. Nome do compositor e título da obra servem para abertura de extenso leque que expõe um sem número de executantes para as composições consagradas, mas também vasto repertório basicamente desconhecido do grande público, tendo, logicamente, raras performances.

João Paulo quis saber a razão de a mesma obra, por vezes, ter interpretações antagônicas, mesmo se considerarmos grandes músicos a tocar. Sob outra roupagem já tratei desse tema, que se está a acentuar hodiernamente. Questão intrincada. As transformações tecnológicas que se deram a partir, sobremaneira, da segunda metade do século XX  influenciaram mais aceleradamente posturas diferenciadas frente à interpretação. Glenn Gould (1932-1982) foi um pianista que rompeu tradições expressamente, razão a acrescer à grande popularidade que o pianista canadense granjeou. Teve e ainda tem admiradores pelo mundo, mas deixou um legado rigorosamente individual. O extraordinário pianista evidencia acurada consciência em todas as suas interpretações, endossadas  em tantos depoimentos colhidos por Otto Friedrich (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, 2000). Estimulam opiniões polêmicas tributadas à sua postura frente à obra. Imitações sempre carregam viés caricato, e seu exemplo tenderia a ser único. Sob outra égide, poder-se-ia aventar até que, com o passar das décadas, a discografia de Glenn Gould possa estiolar-se, permanecendo sua herança musical como fato característico de uma época. Talvez. Numa outra leitura, não estaria a interpretação hodierna a romper as amarras da tradição, o que valeria a dizer que Glenn Gould tenda a se fixar no panteão glorioso dos pioneiros? Suposições. Os caminhos por que trilha a Cultura como um todo são imprevisíveis e a mídia sempre esteve atenta às figuras que se destacam muito acima de seus pares, mas também é iconoclasta tão logo revelações denigram esses eleitos.

Vieram a propósito, durante nosso curto, considerações de dois grandes músicos a respeito da interpretação e seus elementos integrantes, como flexibilização de andamentos, dinâmica, percepção auditiva, gestual,  “atualização” da leitura da partitura. Neste último caso, mais e mais está a ser aceita certa arbitrariedade que causa impacto. Dir-se-ia estar havendo um determinado “temor” por parte de intérpretes na manutenção da traditio. Há público caloroso, irreverente até, e concorde com a postura que faz entender a Música de Concerto, Clássica ou Erudita como parte integrante da grande transformação por que passa a Arte no planeta. Mario Vargas Llosa não deixa de denunciar sistematicamente essa ação, que provoca resultados díspares na civilização. Artistas consagrados fazem permanentemente concessão quanto ao repertório não de concerto, gravam obras de cunho popular com roupagem “erudita” e prosseguem carreiras triunfantes.

A uma pergunta de João Paulo sobre andamentos das músicas consagradas, comentei que não é difícil constatar que mais e mais intérpretes, pianistas hodiernos como tipicidade, têm dado mostras de que os tempi das obras executadas, quando rápidas, tendem à aceleração ainda maior. Por várias vezes em meus posts referi-me ao exemplo dos esportes, que encontram no cronômetro a aferição que leva às premiações. Recordes são batidos para gáudio de atletas, patrocinadores e multidões. Impossível não perceber veracidade nessa comparação. Os tantos concursos de piano espalhados pelo mundo dão mostras dessa assertiva. Habilíssimos executantes  extasiam  público e jurados através da impecabilidade da interpretação e performances, por vezes acrobáticas e alucinantes no que tange à virtuosidade. Lógico que há que se considerar tantos outros fatores, como a musicalidade, a compreensão estilística, o respeito à forma. Todavia, o jamaicano Usain Bolt e sua incrível marca de 9,58 segundos para os 100 metros rasos (Berlim 2009) é exemplo em tantas atividades. Impossível não considerar que a intensa concentração mediática em torno de recordes não produza efeitos nas mais diversas áreas. Estou a me lembrar de que anos atrás assisti a um concerto no qual os músicos finalizavam com uma obra rápida. Calorosamente aplaudidos, os intérpretes regressaram para a tradicional música extraprograma e um deles, ao se dirigir ao público, disse que tocariam essa última peça de concerto, muito conhecida, aliás, em tempo ainda mais rápido. A performance foi razoável, mas o numeroso público ao final se levantou e aos berros saudou os “virtuoses”. Outros tempos. Saí cabisbaixo. Nada a fazer. A música apenas a serviço do aplauso fácil!!!

O cronômetro a fixar Usain Bolt é exato, irreversível, mas a interpretação musical velocista pode prejudicar a transparência. Há magia e simulação que anuviam nossa percepção. Daniel Barenboim é preciso ao afirmar que o excesso de “velocidade” está contra a possibilidade da percepção auditiva. A consideração do pianista-regente-pensador tem fundamento. Basta o ouvinte comparar as interpretações da Valsa Mefisto, de Franz Liszt, nas execuções da georgiana Khatia Buniatishvili e do russo Daniil Trifonov para tirar suas deduções. Indico os links (fonte YouTube):

Clique para ouvir as duas interpretações:

Buniatishvili

Trifonov

Na de Trifonov tudo está lá extraordinariamente exposto e a compreensão da partitura é plena. Virtuosidade a serviço essencialmente da música. Na interpretação de Buniatishvili, a virtuosidade extrapola, e os dons incríveis da velocista estariam a serviço de seu impulso a visar ao impacto. Quem sofre? A diabólica criação de Liszt certamente, pois nem tudo é rigorosamente transparente e, nesse élan, passagens técnicas ficam comprometidas pela não certeza auditiva de que tudo da partitura lá esteja exatamente transcrito na execução da pianista. Vê-se que haveria, por parte de Buniatishvili, a necessidade de bater recordes. O que é mais preocupante é a recepção calorosa que a pianista recebe do “grande público”. Nunca é demais mencionar a célebre frase francesa épater les bourgeois. Falecido recentemente, Humberto Eco não considerava idiota a legião de seguidores das redes sociais pela internet? Paralelismos? Há que se pensar.

E os compositores barrocos ao piano, questionou-me João Paulo? A nossa extraordinária pianista Antonieta Rudge (1885-1974), em opinião recolhida pelo ilustre compositor Gilberto Mendes (1922-2016), faria menção às escolhas interpretativas no repertório barroco para teclado: “Lembro-me de minha professora de piano, a grande Antonieta Rudge – tive este privilégio – me dizendo que podemos tocar Bach em qualquer andamento, qualquer instrumento, de qualquer jeito, porque a música está na partitura, na sua escrita, no pensamento musical. Sua Arte da Fuga nem especifica a instrumentação. São as notas escritas no papel que devem soar na nossa mente” (“Viver sua Música”, 2014). No que se refere ao andamento, desde que se escolha um determinado, certamente.  Seria o insigne François Lesure (1923-2001) que nos ensinaria com sábias palavras: “não é o instrumento que assegura aprioristicamente a autenticidade da obra, mas o estilo do intérprete”.

Desde minha gravação da integral para tecla de Jean-Philippe Rameau executada ao piano, reitero em textos que a única tradição válida de toda a extensa criação para cravo entre os séculos XVII-XVIII vem da transmissão oral mestre-aluno, a ter como instrumentos pianoforte, inicialmente, e piano a seguir. Prolongou-se do final do século XVIII afora, pois o instrumento cravo ficou no ostracismo. Nenhum compositor que permaneceu na história escreveu para cravo durante o século do silêncio para o cravo. Essa tradição da escuta tem certamente ingredientes que podem, por vezes, alterar os tempi, mas não a essência de conquistas inalienáveis obtidas pela interpretação das obras escritas para teclado nos século XVII e XVIII executadas ao piano, como agógica, acentuações, legato e dinâmica, esta última soberana na interpretação, pois possibilitou a oitiva elástica. A afirmação de Antonieta Rudge, mencionada acima, vem ao encontro dessa liberdade que se pode dar à interpretação, desde que elementos básicos da tradição não sejam aviltados. Em situação também próxima, Daniel Barenboim escreveria: “É necessário ser muito rigoroso com aqueles tendentes ao excesso de liberdade, mas de mostrar-se bem livre com aqueles que não têm a imaginação para sê-lo” (“La musique est un tout”, 2014).

Durante mais de meia hora ficamos a conversar. João Paulo finalizaria suas compras no supermercado e eu, as minhas, já a pensar num tema para o blog.

A chat with a friend was the starting point of this post, a reflection upon some aspects of musical interpretation, in particular that of the same pieces played by different performers and how unlike they may sound. In my view, the performer is free to breathe new life into a work since the basic elements of tradition and the composer’s intentions are not betrayed.