Navegando Posts em Música

Uma das Obras Essenciais Apresentadas no Ciclo da Unibes

Assim o povo,
que tem sempre melhor gosto

e mais puro do que essa escuma descorada
que anda ao de cima das populações,
e que se chama a si mesma por excelência a Sociedade,
os seus passeios favoritos são a Madre-de-Deus
e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas.
Almeida Garrett (1799-1854)
(Viagens na Minha Terra)

No blog anterior apresentamos o texto impecável do musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso sobre os 12 Cantos Sefardins, de Fernando Lopes-Graça. A obra fundamental do compositor teve a primeira audição mundial neste último dia 15 de Outubro. Às melodias tradicionais sefarditas, Lopes-Graça estabelece como acompanhamento uma escritura por vezes transcendente no aspecto de entrosamento, pois propõe uma série de soluções complexas nessa combinação simplicidade melódica e refinadíssima composição pianística. O que poderia parecer antagonismo insolúvel resulta numa qualidade ímpar quanto à possível “união dos contrários”.

Os três textos que constam do opúsculo distribuído graciosamente pela Unibes não são propriamente notas de programa, geralmente textos informativos retirados de enciclopédias ou livros afins. Resultam dos aprofundamentos a que se propuseram Pedrosa Cardoso (Cantos Sefardins) e este músico para as obras mencionadas no título do post. Transcrevo, pois, excertos do texto sobre Viagens na Minha Terra, obra apresentada no programa que incluía os 12 Cantos Sefardins, interpretados em primeira audição mundial com recepção calorosa por parte do seleto público.

Apresentei Viagens na Minha Terra em São Paulo no ano de 2003 e em várias cidades portuguesas no mesmo ano, tendo gravado a magnífica coletânea, juntamente com outras importantes obras de Lopes-Graça, para CD do selo Portugaler. Escrevi o texto do encarte que reproduzo no presente blog. No recital do último dia 15 de Outubro tivemos datashow preparado pelo competente musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso (Universidade de Coimbra), a particularizar “didaticamente” cada uma das 19 aldeias e vilas percorridas por Lopes-Graça.

Viagens na Minha Terra, cujo título e expressiva epígrafe são extraídos da obra homônima de Almeida Garrett, serve como homenagem ao grande escritor português e pretexto para o compositor penetrar Portugal em uma de suas essencialidades. Tão logo aceitas as iniciais, Lopes-Graça empreende outras viagens, percorrendo caminhos geográficos sob a égide da observação sensível e evocativa, sempre a ter esse povo da tradição como desiderato maior. Sente a grandeza de Portugal, como escreve em fevereiro de 1959: “[...] estímulo para novas partidas, para novas viagens neste continente ainda tão mal conhecido que é a música portuguesa”.

Viagens na Minha Terra expõe, em segmento expressivo da coletânea, o culto voltado ao religioso. Sete das dezenove “pequenas peças para piano sobre melodias tradicionais portuguesas”, subtítulo do álbum, têm a participação do povo da pequena cidade, do vilarejo ou da aldeia no intrínseco histórico de sua religiosidade, nessa prática dos ritos populares, acalentada diariamente pelo campesino ou citadino mais simples, no aguardo do evento que sempre ocorrerá, mesmo que seja anual. Existindo a preservação da tradição, o tempo escoa sem ser sentido. Procissões, rezas, folguedos sacroprofanos incorporam-se à série de peças, dando-lhes homogeneidade. Nessa atmosfera objetivo-subjetiva, Lopes-Graça descreve sugerindo, como a convidar o ouvinte àquilo que foi captado pelos sentidos e reinterpretado pela técnica apurada.

O ouvinte seguirá a procissão de penitência em São Gens de Calvos; a romaria do Senhor da Serra de Semide e mesmo a romaria de Póvoa de Val de Lobo, onde troam os adufes profanos; acompanhará o gestual e os sons do lundum em Figueira da Foz e também o fandango em Alcobaça; ouvirá o Bendito em São Miguel d’Acha; os cantos dos festejos de Reis em Rezende ou a velhinha de Pegarinhos em sua solidão, a expressar-se através de antiga canção de roca; contemplará o singelo Natal no Ribatejo; lançará um olhar às faldas da Serra da Estrela, à Citânia de Briteiros e às terras do Douro, e ainda ao ritmo da barcarola, conhecerá a Ria de Aveiro; presenciará as cenas campesinas em Monsanto da Beira, quando apanham a margaça; em Setúbal, onde comem a bela laranja, e em Vinhais, quando escutam um velho romance; constatará a ausência das que foram moiras encantadas em Silves. Todo esse mágico desfilar guiado pelas mãos de um autor autêntico.

Quanto ao idiomático técnico-pianístico, há profunda consistência intervalar e a utilização constante de oitavas paralelas nos movimentos lentos, enfatizando melodias, quintas, segundas maiores ou menores; apojaturas expressivas; o elemento percussivo, como rítmica complexa, a aparente aridez do rústico, rudeza poética, configurando determinadas características estilísticas do autor.

Viagens na Minha Terra foram dedicadas ao grande pianista brasileiro Arnaldo Estrela (1909-1980), que comungava de ideais sociopolíticos com o compositor português.

Há que se considerar, sempre, o entusiasmo de Lopes-Graça quanto às viagens em Portugal para recolha do material da música popular tradicional. Tinha em mente, no decênio da criação das Viagens…, a difusão dessa recolha: “[...] tendo eu regressado com um pequeno pecúlio de canções saborosíssimas, umas, outras de uma profundidade de expressão rara, todas oferecendo mais ou menos, por este ou aquele aspecto, matéria de meditação aos estudiosos do assunto”.

A revisitação às Viagens… dar-se-á em 1969, quando Lopes-Graça orquestrará todas as pequenas peças do álbum. Estaria a demonstrar o carinho para com a obra e esse novo debruçar propicia o descortino de todo um universo timbrístico, quiçá existente em 1953-1954, mas que, mercê do “processo de amadurecimento progressivo”, enriquece-se de concepções imaginárias outras. Maurice Ravel voltou-se para os Quadros de uma Exposição, de Moussorgsky, deles oferecendo uma leitura orquestral. Lopes-Graça faz o mesmo consigo próprio. Em ambos os casos, temos pequenos quadros musicais. Nas duas situações, a orquestra apenas ratifica a qualidade das obras pianísticas.

Lembrar Lopes-Graça é a certeza de nos depararmos com o grande gênio musical português do século XX em sua absoluta abrangência multifacetada, um dos vultos que melhor soube amar as terras e o povo de Portugal.

Brief considerations on the great composer Fernando Lopes-Graça’s works “Viagens na Minha Terra” e “12 Cantos Sefardins”, both presented at my piano recital held last 15 October in São Paulo, the latter with the participation of the Portuguese mezzo soprano Rita Morão Tavares and the professor José Maria Pedrosa Cardoso.


Portugal, Aldeias, Vilas e Música Sefardita

Não sei se tenho muita razão:
mas o que é certo é que quase sempre me causa revolta
(e eu já por lá passei pessoalmente) este sacrifício,
esta imolação, que o mundo faz do homem ao artista,
ignorando aquele para egoisticamente se rever na obra deste,
e depois cantar loas à grandeza e à glória do Homem,
do Espírito e não sei que mais coisas escritas com maiúsculas.
Lopes-Graça

Nestes oito anos e meio de existência do blog, inúmeras vezes escrevi posts sobre a música portuguesa, sua importância e divulgação. Fernando Lopes-Graça (1906-1994), o grande compositor português do século XX, tem sido um dos temas preferenciais. Sua criação imensa abordou quase todos os gêneros musicais e sua pena arguta, inteligente e criativa legou cerca de 20 livros realmente preciosos sobre os mais variados temas da área. Em torno de Lopes-Graça nasceria, em fins de 2014, um projeto a visar eventos especiais em São Paulo.

Bruno Assami, competente diretor executivo da Unibes Cultural e adido cultural do Consulado Geral de Portugal em São Paulo, convidou-me para uma reunião em que discutimos a música sefardita em Portugal e a possibilidade da realização de apresentações para promover a difusão dessa manifestação artística. Foi lembrada a coleção dos 12 Cantos Sefardins (1969) para canto e piano de Lopes-Graça, ainda não apresentada em público. Em torno dessa obra um projeto foi montado e, entre os dias 13 e 15 de Outubro próximos, a Unibes Cultural e o Consulado Geral de Portugal em São Paulo sediarão um ciclo de palestras e recitais a abordar a obra e o pensamento de Lopes-Graça, a enfatizar os 12 Cantos Sefardins.

A palavra sefardi, de origem hebraica, aplica-se aos judeus originários de Portugal e Espanha. A tradição remonta, possivelmente, à época dos fenícios e é mais documentada a partir do Império Romano. Os sefaradis mantiveram tradições e sua cultura resistiu às muitas outras culturas majoritárias através dos tempos, como a cristã, a dos bárbaros e a dos mouros. Durante a Inquisição foram perseguidos na Península Ibérica e expulsos nos séculos XV e XVI, estabelecendo-se em comunidades na África do Norte, Brasil, México… Os sefarditas da nação portuguesa também são denominados sefarditas ocidentais. Quanto à sua música, tem ela forte influência das culturas do Médio Oriente.

Abre o ciclo o Prof. Dr. José Maria Pedrosa Cardoso, que realizou extensa pesquisa a respeito dos Cantos Sefarditas compostos por Fernando Lopes-Graça. Foi às origens dos temas escolhidos e encontrou fontes preciosas, que o ajudaram nesse desvelamento. Sua palestra no dia 13 de Outubro versará sobre esse aprofundamento. Extraí alguns pontos do artigo que será publicado brevemente pela revista portuguesa Glosas em Portugal e que será um dos três textos que irão compor um opúsculo a ser distribuído durante o ciclo promovido pela Unibes Cultural. Pedrosa Cardoso dá uma panorâmica da gestação dos Cantos Sefardins.

“Com o título de Cantos sefardins, op. 181, compôs Fernando Lopes-Graça, entre 1969 e 1971, um ciclo de 12 peças  para voz e piano as quais, segundo Romeu Pinto da Silva e outros observadores autorizados, bem como Conceição Correia do Museu da Música Portuguesa, ainda não foram executadas em público.

Em ambos os casos, trata-se de composições importantes, que vale a pena considerar no seu justo valor. Nada se sabe da versão para canto e piano, a não ser que foi alguma vez ensaiada pelo próprio compositor na sua casa  diante de Manuel Cadafaz de Matos, que diz ter recebido o autógrafo   oferecido pelo compositor: ‘Quanto às Canções Sefarditas de Lopes-Graça, informo que o CEHLE é o actual detentor do manuscrito autógrafo do compositor, que por ele nos foi cedido em retribuição de uma (que ele entendeu ser) dádiva de amizade. Tal ocorreu quando – no Verão de 1979 – eu fui o responsável, entre 5 de Abril e 12 de Outubro desse ano, na Rádio Comercial, na Rua Sampaio e Pina, em Lisboa, de um programa semanal (de uma hora cada) intitulado A Linguagem e o Mito na Música Portuguesa.’ (Informação pessoal, que muito se agradece, prestada pelo Prof. Doutor Manuel Cadafaz de Matos).

Mais importante do que as vicissitudes da estreia ou não estreia de Cantos sefardins é a questão de saber-se o motivo que levou Lopes-Graça a escrever sobre música sefardim, isto é, música de tradição judaica hispano-portuguesa. Parece certo que nunca o compositor escreveu nada que fosse sobre música tradicional judaica. Donde lhe veio o interesse por tais assuntos? Segundo o musicólogo Sérgio Azevedo, ‘a música popular dos judeus sefarditas não podia deixar de interessar Lopes-Graça, nascido (muito próximo da Sinagoga local) numa terra de grandes tradições judaicas: Tomar’ (encarte da gravação da versão para canto e orquestra de seis dos doze cantos sefardins em questão). Por sua vez, Mário Vieira de Carvalho refere-se às raízes de uma tradição hebraica ‘a que a casa natal do compositor bem como as suas origens familiares também se encontram ligadas’ (2006).

Todavia, e partindo deste pressuposto, poder-se-ia conjecturar apenas que Lopes-Graça se tenha imbuído de alguma tradição judaica vivida na sua infância ou até que alguma fímbria judaizante lhe corresse no sangue, o que ele jamais confessou. Nada seria de estranhar que o avô paterno de Lopes-Graça, de nome Elisiário da Graça, para além de sempre ter vivido ‘na Judiaria, mais tarde Rua Nova (actual Rua Dr. Joaquim Jacinto)…’ (cf. António de Sousa, A Construção de uma Identidade: Tomar na vida e obra de Fernando Lopes-Graça, Chamusca, Edições Cosmos, 2006), aparentemente na mesma casa onde nasceu o compositor, não devesse o seu nome uma efectiva filiação judaica.

Para se explicar o interesse de Lopes-Graça pela música sefardim poderíamos ainda invocar amizades com judeus que lhe marcaram a vida, um dos quais foi Louis Saguer. O que é certo é que o compositor, por volta de 1969, se interessou seriamente pela música tradicional judaica. Como tomou conhecimento daquelas melodias sefardins? Neste momento, é possível declarar que foi através de um livro da colecção de M. Giacometti: Chants Sephardis, uma colecçao recolhida e notada pelo célebre judeu francês, Léon Algazi, e publicada em 1958 pela World Sephard Federation. Ali foi possível encontrar, nas pp. 27, 45, 48, 52, 55, 56, 57,65, 66, 74, 75 e 79, as 12 peças que constituem o cancioneiro sefardim de Lopes-Graça, a saber, pela ordem mencionada: Un Cavritico, Cuando el Rey Nimrod, A la Nana, Noches, Noches, Una Noche yo me armi, A la una naci yo, Durmo la Nochada, Arvolera, Arvoles yoran, Morenica sos, El sasento e Si savias gioya mía.  Pode ser que M. Giacometti tenha recomendado estas, e não outras, canções, razão pela qual Lopes-Graça lhe dedicou as suas composições.

É certo que Lopes-Graça se dedicou de alma e coração, escrevendo, entre 1969 e 1971, as 12 peças de antologia que constituem o seu op. 181. Segundo Sérgio Azevedo, ‘nada nestas peças se fica pela banal harmonização, mera roupagem erudita de cantos populares simples. Ao invés, é um ciclo de poderosos lieder, por vezes próximos das vanguardas da época (podemos compará-los com as obras semelhantes de Berio, ou do último Britten), cujo sabor oriental e complexa profusão polifónica e orquestral fazem por vezes lembrar Szymanowski, na sua fase de fascínio arábico. Fechando o ciclo, o rítmico, obsessivo e quase salmódico el cavriti (o cabrito) transforma tudo numa dança popular desenfreada, de uma virtuosidade orquestral  (e vocal) estonteante.’

E agora que o mundo se prepara para escutar pela primeira vez a versão original para canto e piano, tal como se encontra depositada no Museu da Música Portuguesa, no dia 15 de Outubro p.f., em São Paulo, na Unibes Cultural, pela voz de Rita Morão Tavares e pelas mãos de José Eduardo Martins, apeteceria passar a pente fino o conteúdo musical das 12 melodias eleitas por Lopes-Graça da tradição sefardim. É o que será apresentado antes, no dia 13 de Outubro e no mesmo local, pelo signatário deste artigo em conferência com o título de ‘Os Cantos sefardins de Lopes-Graça: origem e panorâmica analítica’. Aquelas melodias, recolhidas maioritariamente em Paris por Léon Algazi, são as que o compositor português, prestando preito aos seus possíveis antepassados e, de qualquer modo, gloriosos filhos enjeitados de Portugal, revestiu sacralmente de uma arte pianística de  eleição. Sem o fazer, por simples premura de espaço, seja lícito salientar que, para além do respeito intocável pelas melopeias, já langorosas e cheias de saudade, já alegres e mesmo jocosas, Lopes-Graça colocou nelas o seu estilo inconfundível, que faz das mesmas modelo de virtuosismo e, ao mesmo tempo, de um tratamento musical absolutamente ímpar, que lhe merece, certamente, ser inscrito no quadro dos maiores compositores de música judaica dos tempos modernos”.

No próximo post apresentarei excertos de minha palestra “Em torno de ‘Canto de Amor e de Morte’ de Lopes-Graça – Mors Certa Hora Incerta“, em que o compositor evidencia nítida atração pelo tema desde Epitáfio para o Autor, terceiro dos três epitáfios compostos em 1930. Interpretarei essa obra, duas das nove Músicas Fúnebres e Canto de Amor e de Morte. Igualmente, postarei segmentos do terceiro texto que compõe o pequeno opúsculo a ser distribuído durante o ciclo e que aborda Viagens na Minha Terra, obra fundamental de Lopes-Graça, cujo título, homônimo ao do romance de Almeida Garrett, testemunha afeições às terras lusíadas. A execução das 19 peças das Viagens na Minha Terra será substanciada pelo datashow preparado pelo prof. Pedrosa Cardoso que visitou nestes últimos meses as aldeias, freguesias e vilas contempladas pelas Viagens… Na segunda parte do programa do dia 15 teremos a esperada primeira audição mundial dos 12 Cantos Sefardins do grande mestre nascido em Tomar. Também apresentarei no blog testemunhos referentes à recepção do valioso repertório a ser interpretado.

This post addresses the cycle of lectures and recitals sponsored by Unibes Cultural – a non-profit organization – and the Portuguese Consulate-General, addressing the work and thought of the composer Fernando Lopes-Graça, with focus on the world premiere of his 12 Sephardic songs for voice and piano. The event will take place from October 13 to 15 in São Paulo, with the participation of the Portuguese musicologist José Maria Pedrosa Cardoso, the Portuguese mezzo soprano Rita Morão Tavares and myself.

 

 

 

 

Mário Vieira de Carvalho em Livro Instigante

A música é poesia incorpórea.
Guerra Junqueiro

A relação entre a vida e a morte
é a mesma que existe entre o silêncio e a música
- o silêncio precede a música e sucede-lhe.
Daniel Baremboin

Ensaios do notável musicólogo português Mário Vieira de Carvalho, Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa, estão reunidos em “Escutar a Literatura – Universos Sonoros da Escrita” (Lisboa, Colibri – C.E.S.E.M., Outubro de 2014). Os textos, que se prolongam de 1996 e 2012, são resultado de apresentações realizadas em congressos e colóquios e publicados posteriormente em revistas acadêmicas. Tem-se, pois, a abrangência do pensamento de Mário Vieira de Carvalho em tema instigante, a cultura da escuta na literatura portuguesa.

Se a poesia sempre esteve através dos tempos intimamente ligada às sonoridades, e a história tem infindável lista de lieds magistrais, em que compositores apreenderam a essência essencial do verso, mormente na Alemanha e em França, se libretos de óperas, adaptados de textos em prosa, resultaram em óperas europeias, tantas delas extraordinárias, empreender o caminho secreto existente no romance ou na narrativa na tentativa de encontrar o apelo sonoro “inaudível” assevera-se da maior complexidade.

Vieira de Carvalho, nessa busca identificadora som-ruído/texto, perpassa panorâmica da poesia, da modinha e da ópera portuguesas, encontrando subsídios determinantes que nos remetem à própria índole do povo português, afeita às sonoridades, ao canto. Pertinente a menção a Almeida Garrett, que traduz essa tradição: “Bem sabes, amigo leitor, que nós não fazemos revoluções, contra revoluções ou coisa que o valha, sem hino. Somos uma nação harmónica, essencialmente harmónica, harmónica a ponto que, tanto mais se acha tudo em desarmonia e desacordo entre nós, tanto mais precisamos de nos mover ao som e compasso de patrióticas cadências”.

Diria que a seleção de textos segue um critério didático. Apesar do distanciamento temporal dos ensaios, Vieira de Carvalho expõe nas duas primeiras partes uma visão basicamente doutrinária e que leva à compreensão plena dos quatro segmentos seguintes, que penetram profundamente no universo sonoro de pelo menos duas obras essenciais da literatura portuguesa: “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett (em Outubro um blog será dedicado ao romance e à coletânea homônima do grande compositor português Fernando Lopes-Graça) e “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, não descartando os outros dois, enfatizando “Os Teclados”, de Teolinda Gersão, e “A Noite das Mulheres Cantoras”, de Lídia Jorge, esses com títulos nítidos.

A leitura de uma obra, tendo-se objetivo preciso e realizada com a mais absoluta experiência e competência pelo autor, resulta numa dissecação subjetiva de materiais sonoros inerentes aos textos estudados, a estabelecer patamares de qualificação e seleção. O leitor habitual não faz esse trajeto e o que lhe interessa é a trama do romance ou narrativa. Culturalmente assim tem sido. Essa visão perscrutadora de Vieira de Carvalho provoca o desvelamento enriquecido de obra percorrida pelo leitor. Penetra-se em outro compartimento, descobrem-se intenções aparentemente submersas de um escritor, pois inconscientemente até este poderia estar alheio ao direcionamento da escuta. Ficaria claro, nos autores estudados por Vieira de Carvalho, um conhecimento musical, mesmo que superficial, que os faz com muita frequência sugerirem sons ou ruídos ou o silêncio. Há que se entender que narrativas ou romances dificilmente prescindem de uma quase imperiosa presença dessas tipificações.

O espaço a que me proponho para os blogs limita-me a abrangência. Mas, para o leitor, exemplos extraídos dos romances de Almeida Garrett e Eça de Queirós podem dar a dimensão da pesquisa realizada pelo autor de “Escutar a Literatura”.


No ensaio “A Cultura da Escuta na Novelística de Garrett: Viagens na Minha Terra“, Vieira de Carvalho apreende subjetivismos da escuta, como os determinados pelo arguto ouvir da avó cega da personagem Joaninha ao distinguir passadas individuais. Escreve: “…que pelo facto de ter cegado, desenvolve uma hipersensibilidade auditiva que lhe permite ‘ver’ aquilo que transcende o alcance do olhar da neta”, e retoma a narrativa de Almeida Garrett “Mas ouço eu… Espera, é Frei Diniz: conheço-lhe os passos”. Vieira de Carvalho em seu ensaio capta todas as possibilidades automáticas (passos) e outras mais que apreendem a presença do audível, seja ele de qual natureza for. A voz de Frei Diniz, que o estudioso menciona em sua multiplicidade de entonações, é analisada a partir das várias interpretações que Garrett dá à fala do frade: “voz fraca e tênue, mas vibrante e solene, do íntimo do peito”, “falas sepulcrais”. Entende Vieira de Carvalho ser esse personagem sinistro – também em sua dimensão “sonora” -, a figura mais escutada de “Viagens…”, pois dele “escuta-se o terror da Inquisição”. Em oposição absoluta, a voz de Joaninha, personagem da trama amorosa com Carlos, traduz segundo Garrett, “doçura”, “pureza” e “que retinem dentro da alma e que não esquecem nunca mais”. Vieira de Carvalho, ao se debruçar sobre a interpretação que Garrett oferece às tantas vozes desses dois personagens e outras mais de outros protagonistas do romance, apreende o que considera “atributos de caráter”, a evidenciar a maestria do autor do romantismo português. Tantas outras manifestações sonoras são evocadas por Vieira de Carvalho, que observa: “E, na cultura da escuta que desse modo revela, a sua própria experiência de escutar as aves, o vento, a natureza, o meio envolvente, funde-se com a sua experiência de expectador de ópera e de teatro”. Ficaria evidente a identidade de Almeida Garrett com as artes, a música e o humanismo, qualidades que são transparentes em “Viagens na Minha Terra”.

Ao escrever “O Som e a Escuta na Emergência do Estilo Queirosiano: O Crime do Padre Amaro“, revela-nos o autor compartimentos próximos ao ensaio anterior, mas em um deles Vieira de Carvalho demonstra “virtuosidade” na apreciação: o silêncio. Quantos não foram os estudos sobre o tema silêncio escritos por autores de áreas tão diversas? Importa considerar no caso a riqueza do pormenor, e o silêncio adquire fundamento essencial no romance de Eça de Queirós. Após reler a edição crítica de duas versões da obra (1876 e 1880), Vieira de Carvalho faz comparações pertinentes, a evidenciar diferenças por vezes sensíveis entre as duas. Num segmento do ensaio “Escutar o silêncio” o autor se impressiona pela quantidade de citações desse silêncio dimensionado, mercê da pluralidade. Busca reuni-los para que não percamos a sua adequação às situações, díspares por vezes. Eis algumas das incursões no romance de Eça de Queirós, pois há os silêncios adjetivados: silêncio “comovido”, o “grande silêncio” , silêncio “chocado”, “silenciozinho desconsolado”, silêncio “repreensivo”, silêncio “intratável”, silêncio “sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona”, silêncio “rancoroso”. Vieira de Carvalho enumera aqueles silêncios não adjetivados, sugeridos, e os silêncios partilhados, como o “chá silencioso”. Tantos outros exemplos de silêncio pululam no romance. Cataloga-os: silêncio ambiente, “silêncio como sintoma contextual que interfere com os estados psicológicos das personagens”. Não se atém apenas a esse tópico essencial no romance, pois o ilustre professor, nesse exercício da escuta, penetra em outros universos sonoros de “O Crime do Padre Amaro”, tratados com a mesma profundidade.

Essa breve resenha visa fundamentalmente a apresentar a riqueza que se pode extrair de uma leitura, desde que haja um interesse precípuo. A leitura de um romance pode ser pormenorizada, a depender do autor e da temática exposta, em áreas de interesse: mobiliário, vestuário, gastronomia, fauna e flora, cultura da leitura dos personagens e tantas mais áreas. Exemplos existem, e nas Academias espalhadas pelo mundo teses têm focalizado esse caminho desvelador.  Em “Escutar a Literatura”, Mário Vieira de Carvalho  abre um campo extraordinário para infindáveis “outras leituras”, que possibilitam tantas outras viagens perscrutadoras. Um livro exemplar.

The book “Escutar a Literatura” (Listening to Literature), written by the distinguished Portuguese musicologist Mário Vieira de Carvalho, addresses a niche still little explored by academic researchers and readers: the world of sounds in literature. With focus on Portuguese novels, he offers a fresh perspective on a subject generally ignored by readers, opening the way to a wide range of “new readings” of a literary work.