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Estímulo para Nova Categoria

Não force a arte, não force a vida,
nem o amor, nem a morte.
Deixe que tudo suceda como um fruto maduro
que se abre e lança no solo as sementes fecundas.
Que não haja em si, no anseio de viver,
nenhum gesto que lhe perturbe a vida.
Agostinho da Silva

É fato claro que determinada decisão somente surja após estímulo.  Seria possível entender que resoluções amadurecem a partir de simples sugestão ou até pelo acaso. Incontáveis as obras criadas através da história depois de impulso estimulante. É este incentivo que teria faltado a tantas criações que, estioladas, não chegaram à luz.

Fiquei surpreso com o número de e-mails recebidos, particularizando as apreciações que escrevi ultimamente sobre gravações. Até então não o fizera, a observar uma postura ética como intérprete frente às gravações de outros pianistas. Assim como abstive-me de escrever certas resenhas de livros que chegavam às minhas mãos enviados pelo saudoso Nilo Scalzo, e que teriam como destino o extinto suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”, assim também evito escrever em meu blog sobre livros recomendados que, às primeiras páginas, levam-me à desistência ou, então, sobre outras manifestações artísticas que não me atraem. O meu blog, ininterrupto há mais de oito anos e meio, sem qualquer apoio ou propaganda, dá-me as asas da não concessão que conduz às minhas próprias escolhas. Continuo a acreditar que a independência é sempre salvaguarda maior da consciência. Se a atitude é certa ou não, ela é pessoal e não sofre pressão alguma, sujeita unicamente à minha consciência. A lista de livros resenhados neste espaço é longa e o leitor tem acesso através do menu, no item “Livros – Resenhas e Comentários (lista)” . Todas as obras lidas pelo único motivo de querer lê-las. Nenhum outro.

Brevemente abrirei item novo, pois a guarida dos leitores a três recentes comentários de CDs entusiasma-me. Contudo, confesso, só escreverei se realmente entender tal registro fonográfico realmente inusitado quanto à interpretação, ao repertório e ao propósito ao qual se destina, entenda-se, qualitativo, sempre.

Quanto à periodização dos posts específicos e críticos relativos às gravações, tenciono escrevê-los com certa frequência, sem fixá-los no calendário, e a abranger, preferencialmente no momento atual, gravações que para mim tiveram a chama da revelação interpretativa. Refiro-me aos intérpretes do passado que mais e mais estão sendo lembrados em ótimos lançamentos e que revelam a tradição mantida em seu nível mais elevado. Se a gravação recente for de meu inteiro agrado, certamente escreverei, como o fiz para os CDs de Sérgio Monteiro, Sebastian Benda e António Rosado.

Os comentários estimulantes sobre críticas e observações recentes que escrevi sobre gravações e que chegaram à minha caixa de e-mails majoritariamente são curtos,  trazendo-me o prazer da descoberta por parte do leitor e votos de continuidade. A todos fica meu profundo agradecimento. Igualmente, minha gratidão ao dileto amigo Magnus Bardela, que há anos apontava o direcionamento a que me proponho doravante.

O CD Oswald, gravado pelo pianista Sérgio Monteiro (vide: Obras para piano de Henrique Oswald, 07/11/2015), mereceu, entre outros comentários, os de dois bisnetos de Henrique Oswald.

Escreve Thomaz Oswald:

“Temos a satisfação de fazê-lo saber de que o CD, que recebemos do Sérgio Monteiro, já foi incluído na relação (incompleta) de gravações H.Oswald, no site da família. Belíssima apreciação (blog). Obrigado. Também gostei muito do CD e dois movimentos do op. 3 estão disponíveis para audição: um no próprio site (www.oswald.com.br) e outro no mini-site do CD (através do link). A propósito, o quadro de Henrique Oswald (que está comigo) e que está no livreto interno do CD (e foi colocado por você no blog) foi por mim enviado ao Sérgio. Também gostei muito da qualidade da gravação e do resultado final do CD, assim como do virtuosismo que o Sergio imprimiu em certas passagens – principalmente no op. 3. Concordo com você em tudo”.

Sinto-me lisonjeado com as palavras da filha de minha dileta e saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor. Escreve Maria Clara Porto:

“Vi que você gostou muito do CD gravado pelo Sergio Monteiro…! Parece que é muito bonito, ainda não escutei… ele ficou feliz com sua crítica, pelo que meu primo Thomaz me passou, te nomeia ‘maior sumidade em Henrique Oswald’! E você é!”

Do excelente pianista Sérgio Monteiro recebi o e-mail:

“Obrigado pelo apoio desde o início deste projeto e pelo carinho da recomendação do CD. Espero que este contribua para a divulgação e apreciação da obra de Oswald. Aqui nos EUA, o público vem apreciando imensamente. As pessoas estão ávidas por ouvir obras novas de real beleza, e isso faz com que se abra um espaço grande para os românticos pouco conhecidos”.

Selecionei dois e-mails relativos ao comovente álbum de CDs com gravações do ilustre pianista suíço Sebastian Benda (vide Sebastian Benda – 1926-2003, 21/11/2015).

A dedicada viúva do pianista, Luzia Benda, envia notícias:

“A sua apreciaçāo detalhada sobre a interpretaçāo das obras gravadas demonstra um grande conhecimento, tanto histórico como estilístico, e também uma grande sensibilidade, reconhecendo os valores musicais e humanos inerentes à personalidade de Sebastian”.

Do compositor e pensador francês François Servenière, que frequenta meu blog sempre de maneira arguta, recebi a mensagem:

“Acabo de ler o seu artigo sobre Sebastian Benda, que eu conhecia de nome, mas nada de sua brilhante carreira. Personalidade de forte interesse e de enorme talento. Suas interpretações são magníficas, plenas de virtuosidade e de clareza. Particularmente apreciei a sua concepção agógica em In der Nacht das Fantasiestücke op. 12, de Robert Schumann. Seu domínio e pulsação rítmica na peça de Villa-Lobos, Dança do índio branco, do Ciclo Brasileiro, impressionam (links conduzem à audição dessas obras no blog acima mencionado). Causou-me impacto o percurso musical de Sebastian Benda. Há muitos artistas célebres, sobretudo hoje com a força da mídia e dos mecanismos do show business. Quantos são essenciais, quantos apreendem a fonte milenar, quantos são autênticos em seu caminhar humanístico? Espanta-me sempre a sua capacidade de encontrar e estar em contato com personalidades marcantes de nossa arte e de nossa época contemporânea. Não tenho dúvidas de que, se você tivesse vivido no começo do século XX, teria encontrado Fauré, Debussy e Ravel… Você tem o senso da verdade em arte e essa intuição permite-lhe nunca errar sobre a essência, sobre o objetivo último da música. A idolatria, permanente tentação de traição do essencial, resultado do abusivo incenso sobre artistas stars, mostra-se sempre atual, hélas. É, pois, fundamental o que o amigo faz, lembrar os exemplos dignificantes, a entender que o dinheiro é necessário, mas não pode ser o centro, apenas o meio. Quando ele se torna o eixo, a sociedade se corrompe e os povos acabam mal.

É necessário continuar ardentemente a encorajar a genealogia dos artistas essenciais, nem sempre os mais célebres, mas certamente aqueles que sustentam as principais vertentes das artes. Aquelas de que nossos sucessores continuarão a utilizar-se para aceder à excelência, esse farol potente que ilumina a humanidade” (tradução: JEM).

Sobre o último blog (“Músicas Festivas” de Fernando Lopes-Graça), duas mensagens vindas de Portugal apenas enriquecem o que foi exposto.

Sílvia Camilo, uma das organizadoras do projeto “Músicas Festivas” para piano, escreve:

“Foi com imensa alegria que recebemos a notícia deste artigo no seu blogue. Muito obrigada! Ficamos muito orgulhosos por merecer essa atenção, claro. Espero não estar enganada quando afirmo que na ‘minha’ música, a nº 2, ‘Para os 3 anos da Sílvia’ está lá, na parte mais melancólica, o ‘Epitáfio para uma donzela’, de 1930. Também acha? Vamos aproveitar para divulgar o seu blogue e website. Mais uma vez obrigada!

Um forte abraço,
A equipa das Músicas Festivas,
Sílvia”.

Quanto à semelhança das “músicas”, seria possível entender certa aproximação, pois estruturas e determinados contornos melódicos integram o idiomático de Lopes-Graça. Reinventa-os constantemente durante a efervescência criativa.

Maria Celestina Leão Gomes, Presidente da Associação Lopes-Graça sediada em Lisboa, assim se pronuncia, a esclarecer, inclusive, um dos temas marciais utilizados pelo compositor, que se encontra no link postado no blog “Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”:

“Comentários excelentes os seus. As músicas são celestiais. A inclusão de um excerto de ‘Grândola Vila Morena’ na ‘Música Festiva nº 20′ – ‘Para os 70 anos de Vasco Gonçalves’ marca bem a gratidão de um pelo outro. Dois grandes homens como que a se abraçarem numa despedida transitória e cheia de esperança. Imortalizados deveriam ser os que, com o seu trabalho, saber, talento e amor, entregam-se às coisas e causas que enobrecem as pessoas, as sociedades ou mesmo a Humanidade”.

Sobre o último blog, que abordou as “Músicas Festivas”, de Fernando Lopes-Graça, Servenière tece reflexões, como habitualmente o faz:

“Endosso sua admiração por Lopes-Graça. Evidentemente não é meu universo estético, pois ele corresponde a uma outra época, aquela situada entre 1945 e 1980. As ideias artísticas deviam lutar contra outras forças, no seu caso, o Estado Novo (1933-1974). Os tempos mudaram, mas admiro sua escrita musical, a força de suas ideias e suas articulações. Elas só são possíveis num grande mestre, mesmo que o conjunto de sua obra tenha um viés que eu diria sombrio e torturado, por vezes. Faz-me pensar em alguns pontos encontráveis na produção de Olivier Messiaen. Os dois foram submetidos a pressões que permanecem em suas criações, Lopes-Graça, monitorado durante décadas pelos agentes salazaristas e sofrendo o constrangimento das prisões; Messiaen, prisioneiro em um stalag (1940-1941). Nas situações ditatoriais que vivem certos países no curso da história, a ignomínia ronda de perto os indivíduos, sobretudo aqueles independentes, livres e solitários. A sociedade tem necessidade de encontrar bodes-expiatórios. Creio que Graça e Messiaen jamais puderam, consequência dessas horríveis condições, distanciar-se dessa realidade em suas composições e foram por elas condicionados. Como lutar contra? A arte permite dizer o inefável. Os dois mestres denunciaram os crimes a que foram submetidos através do estilo idôneo, preciso. Nossa geração e aquelas que virão deverão mostrar, até próximos cataclismos que certamente virão, que existe também um caminho iluminado e que tudo não é sombrio na vida, que existe a esperança e que a vida acaba sempre por vencer o niilismo e a morte”.

Ratifico meu agradecimento a todos os que enviaram mensagens alentadoras. Não me esquecerei da preciosa motivação.

My brief overview of music albums in recent blogs got much feedback from readers, serving as an incentive to add a new category to my posts: comments about great masters of the past or high quality present and past repertoires, sometimes forgotten nowadays. Today I transcribe e-mail messages from readers with their own views on the albums addressed in newly published posts.

 

 


CDs, DVDs e Partituras

As obras de Lopes-Graça são enigmas.
Por isso o seu fascínio aumenta com o decurso do tempo.
É extraordinária a resistência que oferecem à interpretação -
não só interpretação musical
no sentido da execução (performance),
mas também interpretação
no plano da recepção pelo ouvinte (aesthesis).
Não se deixam apreender ou captar no já conhecido.
Daí a energia que delas se vai libertando,
de audição para audição, de execução para execução.
Há sempre uma nova perspectiva que antes nos escapara,
uma nova dimensão por descobrir.
Mário Vieira de Carvalho

Não foram poucas as vezes que abordei neste espaço a obra do grande compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). O autor deixou uma produção das mais significativas, incursionando em inúmeros gêneros destinados à música instrumental, camerística, orquestral e coral, mormente à música para piano, seu instrumento eleito. Infelizmente pouquíssimo conhecido no Brasil, Lopes-Graça tem granjeado renome acentuado nos últimos anos no hemisfério norte,  que o coloca entre os maiores compositores dos três últimos quartos do século XX.

Todo autor de talento tem suas impressões digitais impregnadas em cada criação, caracterizando a identidade insofismável e o estilo. Os que permanecem na história têm essas marcas inconfundíveis. A obra do notável é distinguida logo aos primeiros acordes e toda a inventiva que se segue apenas ratifica a certeza do gênio ou do grande talento. Há a necessidade imperiosa do domínio da escrita, precedido do almejo, compartimento este onde fluem as ideias que são rigorosamente distintas em cada compositor maior. Este elege preferências, estrutura sua arquitetura musical, acalenta-a em suas vestimentas diversas, privilegiando o abstrato ou o imagético que possa insistentemente acompanhá-lo, não se descartando o acaso.

Lopes-Graça é um caso típico do amálgama. Se a austeridade voltada ao abstrato quanto aos títulos percorre um sem número de suas obras, como as seis extraordinárias Sonatas e os 24 Prelúdios para piano, numa exemplificação sumária, o olhar de Graça tem a argúcia e o ato amoroso do guardar. A observação será o motivo a impulsionar a ideia musical, a criação e o versar para o papel pautado a genialidade. Dir-se-ia, num plano metafórico, que esse olhar alia o precisão fixada pelo lince ao multidirecionamento característico do periscópio de que é munido o camaleão. Lopes-Graça apreende o au-delà da imagem, metamorfoseia um local físico, dando-lhe grandeza, perscruta a alma de personagens, dimensionando a caminhada dessas figuras queridas – familiares ou amigas – pela História. Assim agiu ao compor os dois cadernos de Natais Portugueses ou os quatro das Músicas Rústicas. Assim também procedeu ao criar Viagens na Minha Terra, a partir da leitura de livro homônimo de Almeida Garrett, ou ainda, numa expansão geográfica extrafronteiras portuguesas, Cosmorama. Assim agiria em duas coleções fundamentais voltadas aos que pulsam ou àqueles que se foram.

No substancial repertório pianístico de Lopes-Graça encontram-se duas séries antagônicas, distintas na criação, no conteúdo, na destinação e no mood. Uma reverencia a vida desde o nascimento, glorificando as núpcias e saudando companheiros de trajetória. Refiro-me às coletâneas das 23 Músicas Festivas (1962-1994) e das nove Músicas Fúnebres (1981-1991), estas  rendendo homenagem a diletos amigos e admiradas figuras que partiram. Ambas as coleções, transcendentais na feitura.

As 23 Músicas Festivas, contraste absoluto às Músicas Fúnebres, são obras de invulgar textura. Gravadas em 2012 pelo notável pianista António Rosado, que anteriormente já prestara essencial contributo à criação de Fernando Lopes-Graça ao registrar fonograficamente as oito suítes In Memoriam Bela Bartok e as seis Sonatas, aceitou o singular desafio e apresenta em magnífica interpretação a coletânea completa (2 CDs). Sempre com o incentivo da incansável Sílvia Camilo, dedicatária de uma das peças da coleção, houve por bem a organização dos CDs – produção Nuno Cardoso -, o lançamento de dois DVDs contendo, o primeiro, o magnífico recital de António Rosado, precedido da apresentação do professor Ruy  Vieira Nery, evento realizado no Centro Cultural de Belém aos 16 de Dezembro de 2012. Num segundo DVD, há entrevistas com os dedicatários, descendentes e amigos. Alguns excertos históricos, filmados com a presença de Lopes-Graça em circunstâncias do cotidiano, enriquecem o projeto, que teve o corolário representado pelas partituras impressas em quatro cadernos (AvA Musical Editions, 2012).

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para as bodas de José Pedro e da Paula”

Comecemos pela obra editada criteriosamente e com a revisão de Rosado. O texto do pianista e musicólogo João Espírito Santo elucida a divisão em quatro volumes a partir dos dedicatários. O número um, “Para crianças”, contém seis Músicas, a focalizar miúdos beirando até o primeiro lustro, e mais a intrigante Para um “canarito” recém nascido. Sílvia Camilo, filha do saudoso Viriato Camilo, é lembrada na Música 3, Para os três anos da Sílvia. O segundo volume, “Para Bodas e outros Festejos”, agrupa sete Músicas Festivas. Claude Debussy, em La Boîte à Joujoux para piano (1913), introduz a assim conhecida Marcha Nupcial de Mendelssohn, a comemorar o casamento da boneca com o soldado. Em sua 21ª peça, Para as Bodas de José Pedro e da Paula, Lopes-Graça também irá lembrar-se da consagrada marcha. José Pedro, festejado pelo compositor em seu primeiro natalício (Música 3), é-o também na dedicada à celebração que dá início ao convívio conjugal. O agrupamento do terceiro volume leva o título “No aniversário de jovens amigos”. Lopes-Graça sempre estimulou o músico emergente. Não desmente a assertiva ao se lembrar de Maria Alina, Nuno Barroso, do próprio João Espírito Santo em seus 15 anos e os 18 do também pianista Miguel Borges Coelho. Estímulo que teve consequências exitosas. Como esquecer o convite de Lopes-Graça ao jovem que eu fui para um primeiro recital em Lisboa na Academia de Amadores de Música, aos 14 de Julho de 1959? Num quarto volume, “No aniversário de velhos companheiros”, lembrar-se-á de amigos de longa data em seus natalícios, que vão dos 66 aos 90 anos de idade, caso da grande amiga e ilustre crítica e musicóloga Francine Benoît, pranteada que será na Música Fúnebre número 7, Moimento a Francine Benoît. Quanto à dedicada a Vasco Gonçalves, general que foi Primeiro-ministro de Portugal (1974-1975), Lopes-Graça recordar-se-á de Jornada, poesia de José Gomes Ferreira musicada pelo compositor e que faz parte das Marchas, Danças e Canções (Seara Nova, 1946). O tema da marcha também é encontrado na Música Fúnebre nº 3, Morto, José Gomes Ferreira, vais ao nosso lado”

Clique para ouvir, com António Rosado ao piano, de Fernando Lopes-Graça:

“Para os 70 anos de Vasco Gonçalves”

Músicas Festivas apresentam uma armadilha. O título poderia sugerir obras de circunstância apenas, mercê das dedicatórias, por vezes singelas, mas nunca desprovidas de razão. A coletânea tem cumeeiras da mais absoluta virtuosidade, e elas são muitas, possíveis de serem realizadas por pianistas da mais alta estirpe. A transcendência em tantos segmentos, o lirismo inerente em não poucas passagens, a puerilidade latente quando se volta à criança e o domínio absoluto e multi-direcionado de uma escrita pessoal, mas que não esquece compositores eleitos e expressamente admirados em sua pena como literato, fazem-no o nome maior da música em Portugal do século XX, quiçá de sua história.

A escolha de António Rosado para projeto tão ambicioso que resultou amplamente, não poderia ser mais adequada. Certamente um dos mais importantes pianistas de toda a trajetória do piano em Portugal, intérprete respeitado do repertório sacralizado e que tem prestado contributo insofismável, através de gravações referenciais, ao grande Fernando Lopes-Graça.

Quanto às mencionadas Músicas Fúnebres, obra de profunda austeridade, foram por mim gravadas na Bélgica (2010) para o selo PortugalSom/Numérica em álbum (2CDs) com outras composições de Lopes-Graça e lançado em 2012 em Portugal.

Finalizo a ratificar o desconhecimento quase absoluto que se tem no Brasil da monumental obra de Fernando Lopes-Graça. As Sociedades de Concerto insistem na mesmice e apenas a complacência as faz introduzir alguma obra nova que, geralmente, não será mais repetida. A profícua e importante obra coral do ilustre compositor português não frequenta repertórios e os pianistas pátrios passam ao largo por uma das mais significativas produções para piano do século XX. É preciso que mentes se abram…

This post addresses the album (two CDs and two DVDs) recorded by the great Portuguese pianist António Rosado with the 23 Músicas Festivas (Festive Pieces) composed for piano by Fernando Lopes-Graça and dedicated to friends to celebrate special occasions. Interviews with the pieces’ dedicatees or their descendants enrich Rosado’s work.

 

 

 

 

Pianista e Professor Notável

Mais eu avanço no trabalho artístico
mais eu percebo
que, além de todos os conhecimentos que possamos ter,
é, em última análise, a nossa concepção sonora
que influenciará de maneira a mais importante a nossa recriação.
Sebastian Benda

Não poucas vezes comentei neste espaço a respeito de intérpretes extraordinários que edificaram carreiras fora do grande circuito, da mídia e da necessidade dos holofotes. Nunca me esqueço de que, certo dia, o ilustre pianista e professor francês Jean Doyen (vide blog: Jean Doyen – 1907-1982 – A Interpretação Inefável, 31-08-2007) disse-me,  durante os estudos em Paris sob sua orientação (1959-1962), “ser um bom ou ótimo pianista não significa amar o brilho e as viagens”. Ficou gravado.

Tinha eu 17 anos e participei do Curso Internacional de Férias organizado pela Pró-Arte em Teresópolis. Estávamos em 1955. Ano em que lá compareceram, também como alunos, o saudoso Ney Salgado, Isaac Karabtchevsky, Henrique Gregory, Sandino Hohagen, Manuel Veiga, Clara Sverner, Júlio Medaglia (sucessivos anos) e tantos jovens que prosseguiram suas carreiras vitoriosas. Certo dia, ao ouvir Estudos de Chopin magnificamente interpretados, cheguei-me à janelinha de vidro da porta de uma sala de aulas e passei a escutar Sebastian Benda, pianista suíço que se radicara há pouco no Brasil. Estava a ouvir a tradição, e Benda se preparava para recital durante o Curso de Férias. Até seu regresso à terra natal em 1981, ao lado da esposa, professora e pedagoga Luzia do Eirado Dias e de seus cinco filhos músicos, dedicou-se com amor e competência à atividade musical, obedecendo a um DNA sonoro que remonta aos tempos de J.S.Bach.

Sebastian Benda deu contributo valiosíssimo ao nosso meio musical. Como pianista, atuou seguidamente em recitais solo, como solista de concertos com orquestra e como camerista. Quantas não foram suas apresentações com a irmã violinista Lola Benda? Incontáveis. Como professor, colaborou efetivamente junto às Universidades Federais de Santa Maria (Rio Grande do Sul) e da Bahia. Ao fixar residência em São Paulo, empenhou-se para o aprimoramento de nossas programações e pela formação de jovens pianistas.

Quão poucos se lembram de Sebastian Benda no Brasil, apesar de seus 29 anos aqui vividos, a contribuir com nossa “ascensão”? Louve-se a Universidade Federal de Santa Maria ao promover o Concurso para Jovens Músicos em muitas edições e a homenagear o ilustre professor da Instituição durante anos. Faz-se necessário um breve apanhado biográfico de Sebastian Benda. Nascido na Suíça, desde a infância dedicou-se ao piano e à composição. Músicos notáveis, como Arthur Honegger (1892-1955), Frank Martin (1890-1974), Alfredo Casella (1883-1947) e Joaquin Nin (1879-1949) saudaram criações do adolescente. Aos 11 anos já se apresentava com a irmã Lola em recitais solo, sendo que dois anos mais tarde ingressaria no Conservatório de Música de Genebra. Após findar seus estudos no renomado Instituto com a obtenção do “Prix de virtuosité”, a convite do extraordinário pianista Edwin Fischer (1886-1960) passaria a estudar com essa lenda do piano durante sete anos, apresentando-se inúmeras vezes com o mestre em ciclos de concertos. Iniciava brilhante carreira que o levaria a 40 países da Europa, Ásia e Américas.

Após quase três décadas no Brasil, o desencanto com os rumos que o país trilhava e a violência crescente – a família sofreu assalto – motivaram o retorno à Europa em 1981, juntamente com todos os seus. Nomeado professor na Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Graz, Áustria, tornar-se-ia Reitor até 1994. A segunda fase europeia é marcada por intensa atividade como pianista, professor de cursos de interpretação e gravações.

O álbum a conter dois CDs com registros fonográficos, que se estendem de 1961 a 1994, gentilmente enviado pela viúva do artista, privilegia autores que lhe foram caros. Toda a tradição que lhe foi passada por Edwin Fischer, e a ter como ascendentes Martin Krause (1853-1918), Franz Liszt (1811-1886), Carl Czerny (1791-1857) e Ludwig van Beethoven (1770-1827), pode ser aferida através de magistrais interpretações de Sebastian Benda. Os 33 anos que separam as gravações apenas ratificam uma notável coerência interpretativa, voltada ao absoluto rigor quanto às estruturas da escrita, liberdade sem jamais ultrapassar o limite que pode conduzir à arbitrariedade, lirismo intenso e comovente, virtuosidade natural, também sem qualquer sentido de exibicionismo. Há continuada transparência de uma personalidade que apreende a essência e revela a ligação amorosa com as obras gravadas. Realmente, dois CDs que entendo magníficos e que contêm algumas obras fundamentais do repertório para piano.

O primeiro CD apresenta inicialmente as célebres 32 Variações sobre um tema original em dó menor (1806), de Ludwig van Beethoven. Obra quase que “obrigatória” nos repertórios, mormente em meados do século XX, as brevíssimas e contrastantes variações são sempre um desafio para o pianista nessa constante mudança de moods. Benda não apenas capta a essência de uma diversificada escrita, como revela dado fundamental, o respeito à tradição, friso sempre. Reflexivas, virtuosísticas, dinamicamente bem elásticas, todas as características da obra lá estão e a gravação serve como um modelo a ser seguido, se a compararmos com outros registros impecáveis deixados por alguns de seus ascendentes.

Comovente a leitura que Sebastian Benda realiza da Sonata em Si Bemol Maior (D. 960), de Franz Schubert (1797-1828). Obra de síntese (1828), essa magistral Sonata, uma das obras essenciais da literatura pianística em todos os tempos, tem por parte de Benda uma das mais comoventes interpretações registradas, comparáveis às legadas por Wilhelm Kempff (1895-1991), Arthur Rubinstein (1887-1982) ou à contemplativa de Sviatoslav Richter (1915-1997), esta, sobretudo no primeiro andamento, Molto moderato. Se Benda tivesse apenas registrado uma só obra em sua bela trajetória, a Sonata em questão, bastaria essa gravação para fixá-lo na história da interpretação musical. O equilíbrio que o pianista evidencia em toda a longa Sonata é notável. Execução rigorosamente inefável durante o transcorrer dos quatro andamentos. Primoroso o controle do extenso e sublime Molto moderato. A concentração expressiva contida no Andante Sostenuto - a manutenção da atmosfera nos movimentos lentos é sempre um desafio – é seguida pela jocosidade do Scherzo, Allegro vivace con Delicatezza. Temos por parte de Benda o mais absoluto domínio estilístico. O Allegro ma non troppo tem compreensão plena. Humor, vitalidade e modulações finamente tratadas estão presentes nesse andamento final. Friso, execução referencial para a geração que queira incorporar essa Sonata escrita no ano da morte do compositor, em que todos os atributos apreendidos da vasta produção schubertiana lá estão.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Franz Schubert: Scherzo, Allegro vivace com delicatezza da Sonata em Si bemol maior (D. 960)

Dos Tre Sonetti de Petrarca (1304-1374), Benda apresenta o 104, possivelmente o mais frequentado pelos pianistas. O artista suíço cria uma atmosfera rara, lírica e intensa, a proporcionar à excelsa obra uma leitura que faz jus à qualidade literária. Sebastian Benda comenta: “Liszt não descreve o poema, mas pinta os estados d’alma que sentiu na leitura do poema”.

Do universo pianístico de Robert Schumann (1810-1856), uma de suas mais sensíveis criações é o conjunto das oito Fantasiestücke, op 12 (1838). Pode-se aferir a identidade absoluta que Sebastian Benda tem com o compositor alemão. Uma compreensão impecável dessa dualidade soberana no pensamento de Schumann: de Eusebius, lírico, poeta e sonhador, e do arrebatado e extrovertido Florestan, personagens do ideário do possivelmente mais romântico entre os compositores. Tradição e talento singular podem ser aferidos na totalidade interpretativa da coletânea. Realmente comove a qualidade do tratamento que Benda imprime à agógica e às tantas gradações dinâmicas finamente dosadas, só possíveis, nesse nível, em um grande mestre do piano.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Os 29 anos vividos no Brasil fizeram-no integrar-se à criação de alguns compositores brasileiros. Villa-Lobos (1887-1959), Camargo Guarnieri (1907-1993) e Cláudio Santoro (1919-1989) tiveram obras presentes em recitais de Benda. Foi solista do Concerto para piano e orquestra de João de Souza Lima (1898-1982). Sebastian Benda inicia o segundo CD com algumas das mais célebres criações de Villa-Lobos: Alma Brasileira, Festa no Sertão, Lenda do Caboclo, Impressões Seresteiras e Dança do Índio Branco. Sempre defendi a posição de que a geografia pode ajudar o intérprete na execução de obras de seu país, mas jamais será determinante. Sebastian Benda soube apreender as rítmicas ricas e os moods inerentes nas composições de Villa-Lobos.  A leitura que o pianista suíço faz do repertório em apreço é intensa, plena de luminosidade, esfuziante, das mais autênticas na discografia de Villa-Lobos.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

De seu ilustre conterrâneo Frank Martin, professor e grande amigo, Sebastian Benda tem registrado, no álbum “Memoires”, oito Préludes para piano. O intérprete jamais deixou de prestar tributo à obra do compositor e gratidão ao grande mestre. Gravaria a integral para piano de Frank Martin, inclusive a Balada para piano e orquestra sob a regência do compositor. Benda se expressa sobre o mestre: “Frank Martin foi para mim não somente o compositor incomparável cujas obras sensibilizam, por sua emoção, os públicos mais diversos de diferentes continentes, mas também o mestre, o professor, o conselheiro, o amigo e, enfim, o regente de suas obras, com o qual eu tive a honra de colaborar. Martin foi um compositor que, apesar da sua constante pesquisa, não se deixou levar pelas correntes, ficando fiel a si próprio e aos seus princípios estéticos”.

Clique para ouvir Sebastian Benda ao piano:

Finaliza o preciosíssimo álbum “Memoires” a monumental obra do compositor russo Modest Moussorgsky (1839-1881), Quadros de uma Exposição. Interpretação maiúscula, viril, expressiva, a apresentar o profundo senso estilístico do intérprete. Da tradição austro-germânica em obras de Schubert e Schumann, Benda nos lega, sob outra égide, uma visão grandiosa dos Quadros... Referencial.

Há que se lamentar a memória supérflua que se acentua em nosso meio cultural. O Brasil teve a honra de ter em seu solo, durante quase três décadas, um artista da magnitude de Sebastian Benda, que honraria, sob outros aspectos, o país que o abrigou, casando-se com professora e musicista brasileira, tendo cinco filhos que se tornaram músicos e formando gerações de pianistas e professores no Brasil. Seu nome é pouco lembrado. Não aconteceu o mesmo com o excelente pianista e professor alemão Fritz Jank (1910-1970), radicado em São Paulo, que se notabilizou a interpretar diversas vezes na cidade as 32 Sonatas e os cinco Concertos para piano e orquestra de Beethoven, assim como pela qualidade plena no segmento acompanhamento, inclusive dialogando com alguns dos mais renomados artistas internacionais que se exibiam em nossas terras? Se a Academia abrigou estudos mais aprofundados sobre Fritz Jank, fundamental para a cultura paulistana, hélas, esses trabalhos finalizam nos arquivos das universidades e geralmente são olvidados ad eternum.

Finalizaria a dizer que nossos contatos com Sebastian Benda sempre foram cordiais. Ele e a família moraram nos últimos anos, antes do regresso à Suíça, em nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Nesse período várias vezes nos visitamos. Tivemos, Regina e eu, o prazer e a alegria de participar com Benda da série dos concertos de J.S.Bach para dois, três e quatro pianos, no Teatro São Pedro, sob a direção de Eleazar de Carvalho, na década de 1970.

Fica neste espaço meu registro a lembrar o grande músico Sebastian Benda, após ouvir o extraordinário álbum “Memoires” (Genuin classics  – Artist Consort, Germany, 2013). Frise-se, em bela apresentação e a ter encarte substancioso em inglês, alemão e português. Recomendo-o vivamente.

This post is my tribute to the great Swiss pianist and composer Sebastian Benda, who lived in Brazil from 1952 to 1981. His widow very kindly has sent me his double album Memories, with works by Beethoven, Schubert, Schumann, Liszt, Villa-Lobos, Frank Martin and Mussorgsky. Remarkable performances, with rigor as to writing structures, freedom without arbitrary choices, intense and moving lyricism, virtuosity without overplaying. A fascinating listening of an outstanding interpreter, an authority on the great art of the piano, unfortunately highly underestimated in the country he adopted for almost three decades.