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O Final de um Projeto de Longa Duração

O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência,
mas somente a falta de curiosidade.
Agostinho da Silva

Como intérprete de quatro séculos de música
busco sempre nas partituras as respostas que os compositores defuntos não me podem mais transmitir.
Paradoxalmente, quando trabalho a obra de um compositor ainda vivo,
recorro ao mesmo método de análise
e instauro com a composição o mesmo diálogo interior.
A diferença entre o trabalho sobre uma obra-prima célebre de compositor morto
e aquele sobre obra de um músico contemporâneo
consiste na dificuldade de se adquirir o grau de familiaridade
necessário com a obra nova, enquanto que,
para a aproximação que mantemos com a obra-prima que conhecemos na ponta dos dedos,
torna-se essencial manter o frescor do primeiro contato.
Daniel Barenboim

Ao ser questionado pela dileta amiga, professora Jenny Aisenberg, sobre a sensação que se pode sentir ao verificar que projeto acalentado durante três décadas chega a termo, lembrei-lhe que, no blog anterior, deixei de mencionar o motivo de maior gosto nesse final já anunciado nos primórdios da coletânea de Estudos, em 1985. Que o leitor não me interprete despojado de surdo orgulho. Contudo, o prazer maior deriva da motivação. Convencer um compositor a escrever Estudo, Homenagem ou Peça outra para piano adquire transcendência na medida em que “prenuncia” gestação. A metáfora é pertinente, pois a semente, essa essência essencial que desperta no compositor a ideia, a criação e a obra finda, assim que inserida revolve o limbo, tornando realidade precisa e particularizada parte do acúmulo depositado na mente de um criador. Que maior satisfação pode ter um intérprete ao verificar que, das bem mais de uma centena de composições provocadas – Estudos e outras mais criações -, muitas delas já percorrem o planeta através da interpretação de tantos pianistas do Exterior, tendo, em acréscimo, gravações, algumas referenciais? Ter ajudado a emergir do interior do compositor uma obra, que por vezes nem no seu de profundis constava, essa é a realização primordial do projeto. Provocar. Provoquei. De minha parte, ao executar essas obras, apenas cumpri e cumpro minha função de intérprete, diga-se, aquele que transmite mensagens a outros. Não poucas vezes fiz a comparação – como corredor de rua que sou – do compositor e do intérprete, este preparado para corridas de revezamento, aquele, maratonista, treinado para corridas sem fim, quando sua obra tiver a aura da perenidade.

Não poucas vezes escrevi que raramente me apresento no Brasil. São vários os motivos, entre os quais destaco o fato de jamais ter tido empresário, de me dedicar preferencialmente ao repertório pouco frequentado ou inédito e também pela natural aversão à tendência, bem humana, de estar próximo dos holofotes. Não tenho o menor constrangimento de assim pensar, pois é a realidade, essa tendência existe e traz a paz interior aos seus cultores, mormente na atualidade, onde a busca incessante do brilho pode turvar anseios mais dignificantes. Reinterpretada tantas vezes, a máxima de Buffon (1753), “Le style c’est l’homme même”, não apenas fixaria na origem a obra literária bem escrita, mas também escolhas que  definem o estilo de entender a vida. O mundo continua seu curso sem se importar com preferências individuais. E isso é bom. A escolha pessoal tem seus motivos.

A guarida que encontro em alguns países europeus dá-me a certeza de estar sempre atualizado no que concerne aos meus propósitos e, anualmente, apresentações, cursos e gravações acontecem. Faz-me bem e sempre retorno oxigenado pelo que vi, ouvi e respirei.

O final de um de meus projetos de vida musical, a visão panorâmica do técnico-escritural-pianístico, chega ao fim, após trinta anos de longa gestação. Coloquei no post anterior que o nascimento do projeto, em 1985, teve como desiderato “edificar” uma coletânea a abranger a criação de Estudos, esse gênero abstrato ou não, mas multidirecionado, com o propósito de duração de trinta anos, justamente nas fronteiras dos milênios.

O recital de Estudos, que será oferecido no próximo dia 11 de Abril no auditório da Sociedade Brasileira de Eubiose, expõe com muita nitidez tendências rigorosamente distintas sob o aspecto composicional e da técnica pianística. No final do mês estarei a gravá-los na minha tebaida, a capela Sint-Hilarius em Mullem, perdida na planura da Bélgica flamenga. É lá que meu de profundis se amalgama com as pedras que sustentam o Templo datado do século XI. É lá que minha alma encontra a tranquilidade para o registro fonográfico sob a tutela de um dos mais experientes engenheiros de som do planeta, Johan Kennivé.

Não poucas vezes o compositor contemporâneo agrega à composição sua visão sobre a obra recém-criada. Há inclusive exceções, quando esses comentários excedem, e muito, a dimensão da obra e se tornam verdadeiros ensaios. A percepção inovadora de uma composição, a técnica empregada, aspectos sócio-musicais podem, inclusive, estimular o autor nessa direção literária, estimulando e orientando o intérprete. O convívio com um compositor e o auscultar  “seu pensar” é uma das mais raras oportunidades que o intérprete pode ter.

O blog desta semana segue o roteiro do programa a ser apresentado.

Ao convidar o notável compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ) a escrever um Estudo para a coletânea, fui surpreendido pela “Missa sem Palavras – Cinco Estudos Litúrgicos”. Carrapatoso, nessa obra dividida em cinco partes que constituem a Missa, lega-nos uma obra de profunda meditação, a expor um domínio absoluto da trama polifônica. O texto em latim da Missa lá está na partitura, a corroborar, inclusive, a justeza da acentuação prosódia-música. Extraio segmento do texto de Eurico Carrapatoso que antecede a partitura: “Nesta peça, o conceito de Estudo está longe da asserção convencional do termo, tantas vezes associada à extroversão do elemento virtuosístico ou à exploração de determinados domínios técnicos de um dado instrumento. Trata-se, antes, de uma viagem pelo mundo interior, introspectiva, ao sabor das inflexões produzidas pela leitura de um texto expresso na partitura. Este texto sacro refulge no fragor bronzino do latim. Escrito na partitura, faz dela parte intrínseca. Mas não será verbalizado, no sopro da voz. Está lá para dele ser feita uma leitura íntima, secreta. O intérprete cantará os mistérios do texto canônico através dos seus dedos e não da sua voz. Os dedos serão como os de Pepino, o Breve, rei dos franceses: taumatúrgicos, operando prodígios pelo toque. Penso, por isso, que estão reunidas as condições para se lhe poder chamar Estudos, não tanto pelo desafio técnico, que sempre esteve, aliás, muito longe de ser minha intenção, mas pelo desafio místico, dado todo o universo metalinguístico que lhe subjaz” (Lisboa, 22 de Fevereiro de 2012).

Conheci Gheorghi Arnaoudov (1957- ) após meu recital em Sófia, na Bulgária, em 1996. Encontros posteriores fizeram-me compreender que estava diante de um músico da maior competência. Compositor, interessa-se por todos os caminhos da música, da Grécia Antiga ao presente. Tínhamos temas fulcrais em comum, como Rameau, Debussy e Scriabine, que compunham o programa de meu recital e, coincidentemente, de seu universo interior. Ao longo do tempo conheci suas preciosas contribuições literárias em torno da estética moderna e pós-moderna, da semiótica e da música contemporânea. Na capital búlgara, em casa de nossa amiga comum, a pianista Angela Tosheva, conheci suas composições. Convidei-o a participar do projeto, e “Et Iterum Venturus”, de 1997, é um exemplo magnífico de sua produção. Curiosamente, “Et Iterum Venturus” (e de novo há de vir) pertence ao Credo da Missa em latim e “silenciosamente” está expresso no Credo da “Missa sem Palavras” de Carrapatoso. Em torno de poucos acordes, Arnaoudov cria um universo timbrístico extraordinário e notas som, rítmica exuberante, emprego de quintas e quartas, contrastes violentíssimos de acentuações e utilização “científica” da pedalização dimensionam essa obra singular, que enriqueceu sobremaneira a coletânea de Estudos.

Em blogs bem anteriores abordei a intensa amizade compartilhada por três amigos: o saudoso artista plástico e designer Luca Vitali (1940-2013), o compositor e pensador francês François Servenière e eu. Poucos meses antes da morte de Luca, as sete telas que compõem a magnífica “Série Cósmica” – acrílico sobre tela – causariam impacto definitivo em Servenière, daí terem germinado os “Sept Études Cosmiques”. A morte repentina do amigo pintor, dois dias após a criação do “Automne Cosmique”, estabeleceria para a série de Estudos, 7 + 1. Servenière e eu ficamos profundamente abalados. Luca Vitali dedicou sua oitava tela ao compositor. O Estudo “Automne Cosmique” in memoriam Luca Vitali foi escrito sob forte emoção logo a seguir.

Servenière comenta, como introdução à magnífica coleção de Estudos: “Em Julho de 2012, José Eduardo, maravilhado diante da fabulosa série de pinturas cósmicas de Luca Vitali, escreve-me: ‘Conversei com Magnus e este repentinamente me questiona sobre a possibilidade de Servenière incursionar nessa série cósmica extraordinária, espaço do universo onde a corrupção inexiste. O piano, o piano, meus dedos sempre à busca de novos horizontes, no caso, o mistério do Universo. Provocação? Talvez. A genialidade do amigo também não pode ser mensurável e compreenderá minha mensagem. Grande François!!! O Universo é infinito e o tempo não conta!!! As ideias, como as vinhas, amadurecem na lentidão…’ “. Servenière prossegue, a abordar a técnica de escritura e simbolismo: “A utilização da escritura ternária sobre a cifras 3,6,9,12 será o principal vetor para evocar a teoria dos ciclos, fenômeno central de rotação nos sistemas celestes. O ambiente e a cor sonora dos Études Cosmiques apreendidos nessa acústica ou dimensão espacial – ou aquática -, como se os sons fossem lançados sem retorno no Universo…”. Os Sete “Études Cosmiques + Automne Cosmique” terão primeira apresentação mundial neste 11 de Abril. Data a não ser esquecida em futuros catálogos.

Gilberto Mendes (1922-  ) escreve a respeito do Estudo a ser apresentado: “Considero ‘Um Estudo? Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul’ uma de minhas peças mais originais destes últimos tempos, dentro da tentativa de uma nova textura, de uma nova linguagem musical pianística. Em ‘Um Estudo?…’, Eisler e Webern deixam um rastro harmônico na areia de uma praia nos mares do Sul, suas pegadas em notas iguais que se sucedem, desenhando uma melodia sempre em frente, algumas vezes transpondo pequenos acordes/obstáculos, num desfilar de muitas, muitas e diferentes frases musicais; ‘equalizadas’ como se fossem todas uma só, sem conexões, sem pontos perceptíveis de ligação, ‘road to Singapura, Manakoora, Burma’, as imagens de Bing Crosby, Dorothy Lamour e Bob Hope evocadas na ressonância de toda uma caminhada… Ressonância em que encontramos os sons de Eisler e Webern reconciliados numa identificação dos universos tonal e atonal, de que os dois compositores foram os porta-vozes mais representativos na música germânica de nosso século. Na verdade, a peça é uma sínteses de minha própria tentativa de reconciliação desses dois universos sonoros” (Gilberto Mendes. “Uma Odisséia Musical”. São Paulo, Giordanus/EDUSP, 1992, págs. 211-212).

Para o “Étude V Die Reihe Courante”, o compositor português Jorge Peixinho escreveu, a meu pedido, um magnífico ensaio, no qual afirma: ” OEstudo V Die Reihe-Courante’ herda qualquer coisa de obras minhas anteriores e deixa traços em obras posteriores. Como qualquer Estudo que se preze, e tomando como referência histórica os exemplos magistrais de Chopin, Liszt ou Debussy, uma peça com este título deve conter dois vectores fundamentais, a saber: ser um ‘estudo’, simultaneamente de execução para o instrumento respectivo (neste e naqueles casos, o piano) e, para o compositor, igualmente, como laboratório de novas experiências e dilatação dos seus limites técnico-expressivos… Trata-se de um estudo sobre uma visão da série como objeto e sujeito, uma perspectiva abrangente, que compreende tanto a concepção schönberguiana da série-tema como a concepção weberniana da série, enquanto princípio estrutural e estruturante, ordenador e motor da organização da obra”. Ao leitor não familiarizado com o termo Die Reihe (a série), diria que o serialismo é uma técnica de composição baseada numa sucessão pré-estabelecida de sons denominada série. Foi Arnold Schönberg (1874-1951) que sistematizou o processo através do emprego de doze sons, dodecafonismo. O Estudo de Jorge Peixinho amplia o conceito “a série dodecafônica é exposta logo de início, num segmento que compreende, para além dos doze sons, uma sequência de outros vinte”. Após análise pormenorizada do processo e indicações precisas quanto à interpretação, conclui o compositor: “O Étude Die Reihe-Courante fecha e abre simultaneamente velhas e novas etapas, criando uma ponte entre duas margens de um rio; um rio sempre vivo e em movimento, uma corrente ininterrupta em direcção a um novo infinito, metáfora da impossível utopia da perfeição e da liberdade criadora” (Jorge Peixinho. Introdução a um estudo sobre o Estudo V. Die Reihe-Courante – para piano. In: Jorge Peixinho in Memoriam, organização de José Machado. Lisboa, Caminho, 2002, pgs. 203-222).

Finalizando o programa, apresentarei “Vers la Flamme”, de Alexander Scriabine (1872-1915). Um dos meus compositores eleitos, o compositor russo nessa obra maiúscula de 1912, estabelece a ponte em direção à atemporalidade. Hoje, “Vers la Flamme” é atualíssima e serve como exemplo antecipado da criação contemporânea. Estaremos a prestar justa homenagem a Alexandre Scriabine no ano do centenário de sua morte.

This week’s post addresses the programme of my recital to be held on 11 April in São Paulo with works by  Eurico Carrapatoso, Gheorghi Arnaoudov, François Servenière, Gilberto Mendes, Jorge Peixinho and Alexandre Scriabine. It includes precious comments written by the composers themselves – with the exception of Scriabine – on their newly created etudes, useful to inspire and guide interpreters.

 

 

 

 

 

 

 

 

Projeto de Trinta Anos que Chega a Termo (1985-2015)

Há o real e há o irreal.
Além do real e além do irreal há o profundo.
Henry de Montherlant

O grão de areia não impede o fluxo das ondas.
Sylvain Tesson

Na transição das décadas de 1960-1970, após três anos voluntários longe do piano, retomei os estudos. Esse tempo foi determinante. Trabalhara anteriormente parte expressiva do repertório tradicional, mas a perspectiva das décadas futuras, a ter de repetir infinitamente as mesmas obras, causava-me até mal estar. Foi essa a causa essencial de minha interrupção. Ao retornar ao piano após o período “sabático”, que me levou à reflexão sobre o prosseguir, amadurecia a ideia de não apenas tocar aquilo de que gostava, mas preferencialmente também penetrar no repertório altamente meritório e pouco explorado. Estendia-se essa reflexão à criação competente da atualidade. Esse posicionamento não excluiu o repertório tradicional. Fez-me apenas um visitante homeopático. Paralelamente, interessaram-me as integrais, e compositores como Jean-Philippe Rameau, Claude Debussy e Moussorgsky povoaram meus almejos a visar à apresentação da opera omnia para piano. Todavia, o trabalho “arqueológico” chamou-me e, em 1978, iniciava a pesquisa moderna em torno do nosso compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931), que me daria dois gostos imensos: o redescobrir e verificar que, a partir dessa caminhada, quantidade expressiva de estudiosos surgiu. Abria-se, concomitantemente ao debruçamento perene sobre a criação oswaldiana,  um leque que me levaria à apresentação de inúmeras obras extraordinárias do passado europeu relegadas ao ocultamento. Neste espaço sempre insisti em pontos que entendo precisos: o público tem necessidade da comparação, sentindo-se inseguro frente ao desconhecido; empresários e sociedades de concerto apostam basicamente no repertório super ventilado, que traz audiência e, consequentemente, lucro; a crítica, sem formação específica, louva os que se rotularam perpetuadores do repertório consagrado e o intérprete, que preferencialmente se dedica ao repetitivo, tem lá suas razões para que o extraordinário acervo repertorial – jamais o desmereceria – siga seu curso.

Em 1985, quando de um caderno com oito composições em Homenagem a Henrique Oswald publicado pela USP, conversei com um dos compositores, o americano Stephen Hartke  (1952- ), que no futuro desenvolveria brilhante carreira nos Estados Unidos. Nascia “Template”, estruturado a partir do “Sherzo-Étude” (1902) de Oswald, a primeira obra de um projeto. Ricardo Tacuchian (1939- ), com o “Il Fait de Soleil”, seria o segundo a compor Estudo para uma sequência a abranger três décadas. Frise-se que esta obra de 1981 receberia o título de Estudo tardiamente.

Ao descrever o esboço do projeto ao compositor Gilberto Mendes, o respeitado músico incentivou-me, citando seu outro amigo, o pianista e compositor norte-americano Ivar Mikhashoff (1941-1993), que encomendou, entre 1983 e 1991, 127 Tangos para 127 compositores. Considerei em nossa conversa que o Estudo por possibilitar o multidirecionamento, pois um gênero abstrato, poderia motivar uma liberdade não encontrável no Tango, devida à tipificação deste. E haveria sempre a possibilidade da virtuosidade que caracteriza incontáveis Estudos através da História.

Sob outra égide, intrigava-me a técnica pianística do Estudo. Sendo ele, em princípio, o depositário de processos específicos que cada compositor imagina para o modelo, nada mais significativo do que apreender num espaço de trinta anos, fronteira do milênio, a panorâmica do Estudo. Aonde teriam chegado as formulações? Tradição e inovação poderiam caminhar juntas? Pouco a pouco, de 1985 a 2015, recebi Estudos das mais diversas procedências. Alguns compositores foram convidados, outros escreveram espontaneamente. Um aspecto é fulcral nesse universo acadêmico em que a imensa maioria dos projetos têm mais de uma assinatura e são financiados pelo Estado, por Fundações ou pela Universidade. Jamais solicitei apoio e jamais os compositores que abraçaram a causa falaram-me em remuneração. Sob outra égide, o imediatismo torna irreal um projeto tão longo. O carvalho só é exemplo mercê do tempo de crescer, o vinho, da paciente maturação.

Um outro aspecto essencial. Como estava a pensar na técnica pianística tradicional e renovada por tantos compositores de mérito, só não quis, voluntariamente, receber contribuições com o auxílio da eletrônica ou, então, destinadas ao piano preparado. A visão in loco de um piano no Reino Unido, basicamente destruído na noite anterior ao meu recital por um intérprete que “preparou” o instrumento de tal maneira que afetou cordas, martelos e até a tábua harmônica, deixou-me chocado. Felizmente, a sala de concertos tinha três pianos à disposição. Estaríamos, nestes casos, em outro compartimento, que não atenderia a desideratos precisos. Conheço inúmeras criações que recebem a colaboração da eletroacústica. Sem entrar no mérito, o piano acústico é suficientemente rico para abrigar, ainda, incontáveis contribuições, independentemente das tendências técnico-composicionais de seus autores.

Dos mais de oitenta Estudos recebidos, provenientes de vários países – Bélgica, Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Bulgária, Japão – e inúmeros outros Estudos de nossos compositores, a maioria foi apresentada, mormente no Exterior. Considero que determinados Estudos da coletânea estarão futuramente no patamar mais elevado, junto daqueles considerados obras primas, pois não apenas apresentaram inovações técnico-pianísticas como articularam com maestria processos tradicionais acumulados desde o início do século XIX.

A edificação foi lenta, como também aquela voltada às gravações. Tendo perpassado, como a maioria dos pianistas, as excelsas coleções de Estudos de Chopin e Liszt, que têm quantidade enorme de gravações, muitas delas hors concours, importavam-me os Estudos compostos do final do século XIX às primeiras décadas do século XX. Como Alexandre Scriabine (1872-1915) e Claude Debussy (1962-1918) eram e são constantes temas de meus aprofundamentos, gravei na Bélgica a integral desses Estudos para o selo De Rode Pomp. Anos após, foram lançados no Brasil pelo selo Clássicos. Os derradeiros de Scriabine (Três Estudos op. 65) e os 12 de Debussy (1915) contêm ainda a mais precisa modernidade. Pierre Boulez, em entrevista ao jornal “Le Monde” (24/03/2000, p. 35), afirmaria que os Estudos de Debussy, juntamente com obras de Stravinsky (“Sagração da Primavera”), Schönberg (“Pierrot Lunaire”) e Bela Bartok (“Quarteto nº 4″), se fossem compostas hoje, seriam modernas, tão grande as inovações propostas. Em “Témoignages” nº 4 (Université Paris-Sorbonne, 2012), acrescentei “Vers la Flamme”, de Alexandre Scriabine.

Interessou-me gravar na Bélgica seleção dos Estudos que enriqueciam o projeto. Nascia o CD de Estudos Contemporâneos Belgas (selo De Rode Pomp), quando 10 compositores expressivos do país entenderam a dimensão do projeto. Fi-lo logo após em relação aos Estudos Brasileiros (selo da Academia Brasileira de Música), tendo como primeira obra do CD os magníficos “Estudos Transcendentais” (1931), de Francisco Mignone, que a meu ver são os pioneiros do gênero nesse aspecto da modernidade no Brasil. No final de Abril estarei a gravar na Bélgica CD com Estudos franceses, portugueses, da Bulgária e do Brasil. Teremos assim, nesses três CDs mencionados, uma panorâmica do gênero Estudo nessa transição tumultuada dos milênios. Digo panorâmica, pequena aliás, pois repertoriar o que foi criado nesse período pelo mundo seria impensável. Os cerca de oitenta Estudos atenderam a objetivos precisos e entendo que esses foram amplamente atingidos, graças à colaboração dos compositores que acreditaram no projeto.

À guisa de exemplificação, mencionaria compositores que, ao longo desses trinta anos, privilegiaram o projeto mais de uma vez. Da Bélgica, Raoul De Smet (1936-  ) entendeu que a proposta não se extinguiria com apenas um Estudo. Conversamos a cada ida minha ao país e dos seus polidirecionados 15 Estudos transcendentais, apresentei os seis primeiros em Gent e na Antuérpia. Boudewijn Buckinx (1945- ), numa visão totalmente oposta, criou sete instigantes e curtos Estudos pós-modernos, que fazem parte do CD já mencionado. Gilberto Mendes (1922- ), nosso compositor referencial, elaborou sete Estudos ao correr dos anos. Foram surgindo após entendimentos e, desses, dois são versões para piano solo de obras camerísticas.  O saudoso Almeida Prado (1943-2011) compôs os já célebres “Três Profecias em Forma de Estudo” (1988) e o Estudo in memoriam Alexandre Scriabine. As profecias tiveram gravação na Bélgica para o CD de Estudos brasileiros. Podem ser acessados através do YouTube. Paulo Costa Lima (1954- ), da Bahia, enriqueceu a coletânea com quatro Estudos significativos, sendo que três foram gravados em Sofia, na Bulgária, para CD lançado na Bahia. H.J. Koellreutter (1915-2005), Willy Corrêa de Oliveira (1938- ) e Celso Mojola (1960- ) comporiam três Estudos; Mário Ficarelli (1935-2014) e Ricardo Tacuchian (1939- ) criaram dois cada e as obras também integram o CD de Estudos brasileiros. De Tacuchian, a “Avenida Paulista” está no YouTube. Salientaria que Estudos de Gilberto Mendes (“Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos Mares do Sul”), Almeida Prado (“Três Profecias em forma de Estudo”), Willy Corrêa de Oliveira (“Etüde für klavier – Hanns Eiler in memoriam: für das Volk der DDR”), entre outros Estudos Contemporâneos, foram apresentados em recitais nas cidades de Potsdam e Berlin, cinco meses antes da queda do famigerado muro em 1989, pois criados para os eventos. Há uma curiosidade que transmito ao leitor. Quando recebi o programa do recital no Palácio Sanssouci, em Potsdam, indaguei ao Diretor do Hans-Otto-Theater da cidade o porquê de terem excluído “ao povo da DDR”, expresso por Corrêa de Oliveira. A resposta foi imediata e vinda de um cidadão que acumulava o exercício como deputado: “Há dois regimes diferentes, o deles e o nosso (referindo-se à Alemanha dividida). Contudo, só há um povo alemão, pois não existe um povo da República Democrática da Alemanha. Daí termos retirado a menção”.

Os Sete “Études Cosmiques + Automne Cosmique”, do françês François Servenière (1961- ), a “Missa sem Palavras (cinco Estudos Litúrgicos)”, do compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), o Estudo “Et Iterum Venturus”, do búlgaro Gheorghy Arnaoudov (1957- ), o consagrado “Étude V – Die Reihe Courante”, do também português Jorge Peixinho (1940-1995) e “Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos Mares do Sul” de Gilberto Mendes serão objeto de comentários no próximo blog, que abordará o recital na mesma Sociedade Brasileira de Eubiose, marcado para o dia 11 de Abril.

O projeto chega a termo com a gravação do CD mencionado acima, em fins de Abril, na Bélgica. Sinto-me feliz ao verificar que mais de 20 Estudos, dos mais de 80 recebidos, foram editados no Exterior. Creio que o tempo fará compreender que permanecerão.

Nestes oito anos de blogs ininterruptos tenho salientado de maneira repetitiva, mas a atender  convicções essencialmente pessoais, que a grande dádiva de minha trajetória musical foi ter encontrado sendas diferenciadas, não me esquecendo dos percursos. Estes sedimentaram projetos nunca abandonados e propiciaram-me algo inefável, estar sempre a redescobrir a joia rara repertorial ou a apresentar hic et nunc o que está a brotar dos cérebros de compositores bafejados pelas musas.

This post addresses my Etude project, a three decade-long work that began in 1985 with the North-American composer Stephen Hartken’s “Template” and ends in 2015. With more than 80 etudes received for the project, it gives a panoramic view of this musical genre at the turn of the 20th to 21st century. In a recital to be held on 11 April next in São Paulo, I will present etudes written by composers François Servenière, Eurico Carrapatoso, Gheorghy Arnaoudov, Jorge Peixinho and Gilberto Mendes.

 

 

 

 

 

 

 

O Texto como Respiração

Todo o homem é diferente de mim e único no Universo;
não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele,
não sou eu quem sabe o que é melhor para ele,
não sou eu quem tem de traçar o caminho;
com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever:
o de ajudar a ser ele próprio;
como o dever essencial que tenho comigo é o de ser o que sou,
por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros.
Agostinho da Silva

Aos dois de Março de 2007 nascia o primeiro post publicado no blog. Já comentei anteriormente que nada teria acontecido não fosse uma observação de meu ex-aluno Magnus Bardela. No final de Fevereiro daquele ano, após conversa amistosa a rememorar fatos,  ele – que frequentou durante quatro anos minha classe de piano na USP, formando-se brilhantemente -, propôs-me a construção de um blog. Hesitei instantaneamente, mas a argumentação de Magnus foi convincente e dias após, sem que eu soubesse, durante conselhos que me dava sobre internet, construiu o blog, dizendo-me: “Está pronto, é só inserir seus textos”. Atônito, ainda hesitei, mas aos 2 de Março “Praeambulum” dava início ao caminhar com os leitores.

Mencionei várias vezes que a não interrupção desde 2007 jamais foi um problema. Certo dia o amigo Daniel Marcos me questionou “Você não se dá férias, ao menos um mês?”. A resposta foi imediata: “Nunca dei férias para minha respiração”. O ato de escrever, de  estudar piano ou de correr faz parte desse respirar, cotidiano ativo. Quanto aos blogs, a não interrupção uma semana sequer (o post entra aos sábados às 00h05min) durante esses oito anos é fruto do pensar enquanto realizo treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, já mencionado em tantos blogs anteriores. A aceleração cardíaca age sobre os neurônios e as ideias fluem com naturalidade. Focalizado um tema, é só desenvolvê-lo na primeira madrugada e o texto desliza, corrente. Problemas técnicos adiaram por um ou dois dias uns poucos textos.

A pressão de ter de escrever tantos caracteres para a uma determinada publicação em tempo previamente fixado não daria resultado em meu caso particular. Essa liberdade não me impõe restrições quanto à dimensão, quiçá conteúdo. Observando os pássaros, dificilmente eles obedecem a roteiros, salvo os pombos – mormente o pombo correio ou as aves migratórias. A temática simplesmente acontece e tem acontecido sem interrupção. Música, sempre, cotidiano e suas surpresas, resenhas de livros que me atraem, impressões colhidas durante viagens e que se processam no de profundis, tardiamente quantas vezes. Diria que a observação “viajar é olhar”, da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser interior. Todos os impactos que diariamente vivemos se acumulam e ficam numa espécie de álbum interior, pleno de figuras e observações. Basta um impulso, sugestão que seja, e aquela determinada página escondida no álbum interior ressurge por inteiro. “Viajar é olhar”, seja externa ou internamente. Meu celular é daqueles jurássicos, só recebe ou transmite ligações. Nada mais. Certa vez em que minhas netas se divertiam tirando fotos e selfies com aparelhos sofisticados, disse à Emanuela, a menor, que iria tirar uma foto mental simulando uma foto com tão antigo celular. Pôs-se a rir. Horas após, enviei-lhe e-mail com a imagem de meu celular e escrevi: “feche os olhos e lembre-se daquele momento, pois ele está gravado em sua mente”. Valeu como descontração, mas Emanuela guardou o episódio.

Raramente visito o universo nebuloso da política, mormente nestes últimos anos em que a mentira é vendida como verdade e a corrupção enlameia o cotidiano. Por vezes, sem o desejar, emito considerações. Jornalistas que costumo frequentar pela leitura ou escuta radiofônica têm exercido com competência a denúncia como alerta, o confronto como dialética necessária e saneadora. Há esperanças. O país não se submeterá à primazia que está a fazer sucumbir democracias latinas. Não merece.

Temas fluem e nosso universo depende invariavelmente dos tópicos atrativos. Eles lá estão. Buscamo-los à maneira de um peregrino que, ao caminhar, pormenoriza-se naquilo que já está “pré-moldado” em sua mente. Sim, há o acaso. Não o desprezo, nunca.

Para que a sequência não tenha sofrido uma interrupção sequer ao longo dos tantos sábados, há a necessidade de querer. Meu saudoso e sábio pai nos ensinou básicos princípios que serviram aos quatro filhos: disciplina, perseverança, constância, concentração e fé naquilo em que acreditamos. Esses tópicos foram aplicados diferentemente pelos irmãos de sangue, a depender da visão individual das coisas.

Nada teria acontecido não fosse Magnus ter pressentido a ideia. Continuava a reter textos mentais em ebulição permanente, como sempre, desde meus primeiros anos. A memória tem esse poder mágico de manter o que os olhos viram externa e internamente, amalgamar olhares sem perder a precisão e, quando acionada, revelar por inteiro experiências vividas. O arquivo mental é uma de nossas dádivas maiores.

Este blog não existiria sem colaboradores dedicados que, ao longo destes anos, jamais hesitaram em ajudar-me, ignorante que sou dessa parafernália tecnológica a todo instante renovada. Difícil, nos meus 76 anos, acompanhar essas transições rápidas, sempre em direção a uma outra inovação. Desisti. Conheço o básico do básico e, graças aos amigos diletos, supro a não atualização internética.

Regina Pitta, Magnus Bardela, François Servenière, Elson Otake e Luca Vitali (in memoriam). É um privilégio tê-los a me dar suporte em esferas distintas. Desde o primeiro post, minha dileta amiga e vizinha, Regina Pitta, lê os textos e faz revisão impecável. O compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931) escreveria ao seu amigo, Furio Franceschini, que o pior revisor é o autor e, entre esses, era ele o pior. Assertiva. O texto flui  num impulso nas madrugadas e as duas ou três leituras não são suficientes para sanar gralhas (assim os portugueses definem incorreções) que parecem querer se ocultar. E como se escondem!  É humano. Regina passa a lupa, mercê de seu conhecimento de nossa gramática. Quando dúvidas pairam, recorre à Filologia. Sinto-me seguro. Após as devidas correções e sugestões – nem sempre aceitas, mas é bom ter uma outra opinião -, escreve um resumo em inglês, devido aos leitores acima do Equador que me honram com a leitura dos blogs, traduzidos sofrivelmente pelo programa do Google.

Magnus tem sido meu guru internético. Foi ele que me ensinou o que sei, isso em 2003. Só não aprendi mais por total descaso com a aceleração infalível da tecnologia. O básico possibilita-me o convívio com teclado e tela e os acessos que consigo atingir. Quando um impasse surge, é Magnus que me socorre, pois de seu computador pode acessar o meu e sempre, até agora, tudo se resolveu. Mente privilegiada a deste amigo que diariamente envia-me gravações fabulosas que dia a dia têm enriquecido o bom lado do YouTube, a contrastar com o besteirol que infesta esse meio de comunicação.

Elson Otake, não diretamente ligado ao meu blog, tem sido o responsável pela introdução no YouTube de cerca de 80 músicas por mim gravadas no Exterior. Preciosista, tem o dom da concisão e suas montagens são louvadas aqui e alhures. Maratonista, em muitas corridas de rua abdica de sua velocidade para correr ao meu lado. Um estímulo.

François Servenière. Compositor e pensador francês de altíssimo mérito, Servenière privilegia-me com mensagens de extraordinário teor. Nossa correspondência, nascida em 2008, é abastecida semanalmente. Todos os posts têm sua leitura acurada. Se a tradução Google tem tantas falhas, Servenière consegue sempre apreender a essência dos blogs e seus comentários enriquecem meus textos, pois o amigo insere leituras paralelas e reflexões profundas sobre o tema. Tão ricas são suas mensagens que o considero, hoje, um partner de meu blog. O leitor tem acompanhado, através dos Ecos, que ele está sempre presente. Fundamental é a possibilidade de novo olhar de um autêntico intelectual francês. Estimula a comparação, faz-nos apreender aspectos que por vezes nos passam desapercebidos. Privilégio.

Rendo tributo ao meu saudosíssimo amigo e extraordinário artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Durante anos, Luca foi colaborador dedicado. Tantas vezes mencionei que o amigo tinha um lápis no cérebro. Ao conhecer um texto, um ou dois dias após enviava-me um desenho alusivo ao tema. Alguns eram charges de humor bem refinado. Faz-me muita falta o convívio semanal que mantinha com Luca. Arte era nosso assunto fulcral. François Servenière, ao ver as ilustrações da magnífica Série Cósmica (acrílico sobre tela) do artista, ficou tão impactado que escreveu sete Études Cosmiques para piano e, após a partida de Luca, mais um Estudo, Outono Cósmico. Em Abril voltarei ao tema, pois deverei gravá-los na Bélgica juntamente com Estudos Contemporâneos de outros compositores.

A família. Sem a harmonia que nos faz unidos indelevelmente, confesso que dificilmente conseguiria empreender trajetórias. Ela me traz a serenidade necessária. Epicentro essencial.

Se já ultrapassamos os 600.000 acessos, devo esse estímulo unicamente aos leitores que têm prestigiado minha coluna. Continuarei. É o que sei fazer.

This week my blog completes eight years of nonstop work, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor.