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Recital na “Maison Natale” do Compositor


Meu convívio familiar com a babá
iniciou-me desde a tenra infância a todos os contos russos.
Era ainda um miúdo
e esses contos impediam-me tantas vezes de dormir à noite.
Modest Moussorgsky (notas autobiográficas)

Ninguém falou àquilo que de melhor existe em nós
com um acento mais terno e mais profundo.
Claude Debussy (sobre o ciclo de melodias “Quarto de Crianças”, de Moussorgsky)

Entre 1911 e 1913 Claude Debussy (1862-1918) escreveria três obras para encenação, criações distintas: “Khamma”, “Jeux” e “La Boîte à Joujoux”, esta última um ballet pour enfants. Profícuo período antes do longo calvário que sofreria com a detectação de um câncer que o levaria à morte.

Ao longo dos posts, reiteradas vezes afirmei que um intérprete tende a ter uma apreensão maior do corpus de um compositor se trabalhar a integral ou parcela substancial de sua obra. A visão do todo torna mais tangível o entendimento das muitas transformações da linguagem de um autor através de sua trajetória. O idiomático, esse arquivo mental de um criador, apesar de alterações que podem caracterizar-se como sensíveis, mantém, contudo, traços reconhecíveis nos extremos da produção criativa. A transformação, por exemplo, da linguagem escritural do compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1918) é de tal dimensão que torna difícil compreender obras cronologicamente extremas terem sido escritas pelo mesmo músico. Em artigos publicados no Exterior nas décadas de 1970-1980, considerei que elementos desse código estão contidos nesses limites, como a quase absoluta ausência da passagem do polegar nas obras para piano e a progressiva presença de motivos neurótico-obsessivos ao longo da criação.

“La Boîte à Joujoux” é um caso singular na produção de Debussy. Dir-se-ia que nela se faz presente um aparente multum in minimo de tantas propostas de composições anteriores, que teriam  condensação plena nos Douze Études de 1915. A obra é sensível, a respirar a transcendência do universo infantil. Inspirada nas aquarelas e texto do pintor, decorador, criador de brinquedos de madeira e de histórias infantís André Hellé (1871-1945), “La Boîte…” é uma das realizações mais amalgamadas que se conhece nesse compartimento música, texto, ilustrações. Nada é supérfluo, tratando-se de obra lúdica. A apreensão de Debussy das criações de Hellé e a captação dos sentimentos mais íntimos da mente de uma criança, no caso sua única filha, Claude-Emma ou Chouchou (1905-1919), faz-se por inteiro. “Retiro as confidências das velhas bonecas de Chouchou”, escreveria Debussy ao seu editor Durand aos 25 de Julho de 1913.

Resultados de aprofundamento que expus em artigos publicados nos anos 1980-1990 foram aceitos pela comunidade musical em França. O que considera “La Boîte… ” como criação original para piano e não redução de partitura orquestral. O termo réduction está presente em muitos textos sobre a obra escritos ao longo do século XX. Para os dois outros ballets acima citados, “Khamma” et “Jeux”, Debussy realizaria a redução para piano, e os termos “Partition pour le Piano réduite par l’Auteur” estã0 fixados nas respectivas páginas de rosto da edição da A.Durand et Fils do período, sendo que as duas reduções são absolutamente impossíveis de ser tocadas, pois por vezes há quatro pentagramas. No caso de “La Boîte à Joujoux”, não apenas inexiste a palavra, como é rigorosamente pianística. Fosse apenas réduction, a Maison Durand teria realizado edição tão primorosa com todas as aquarelas de André Hellé? Réduction é preferencialmente entendida como realização menor, uma espécie até de “memento”. Desde que considerada original para piano e não redução, “La Boîte… ” torna-se a mais longa obra monolítica para o instrumento escrita por Debussy, pois sequencial nos seus quatro quadros. Sob outra égide, temos que considerar que a partitura para piano, original doravante, é de cunho absoluto de Debussy, pois parte considerável da orquestração, escrita durante período de declínio físico do autor, entre 1914-1917, foi completada pelo amigo e regente André Caplet (1878-1925) após a morte do compositor. Se há todo um vasto dossier a respeito da montagem de “La Boîte à Joujoux”, que teria a primeira audição do ballet no Théatre lyrique du Vaudeville, aos 10 de Dezembro de 1919 sob a direção de D.E. Inghelbrecht, frise-se que seria a partitura para piano solo, a que integraria com o passar dos anos gravações e apresentações em público da obra completa para piano de Debussy.

Uma outra conclusão refere-se ao desdobramento do affaire Moussorgfsky-Debussy. Durante um século debateu-se muito – a literatura sobre a obra de Debussy é riquíssima nesse item – sobre a influência nítida de “Boris Goudnov”, a extraordinária ópera de Modest Moussorgsky (1839-1881), encontrável na ópera “Pélleas et Mélisande”, do compositor francês. Confessadamente, Debussy escreve a respeito dessa admiração que se estende ao ciclo de canções “Quarto de Crianças”, de Moussorgsky, que teria nítida influência sobre “Childrens’s Corner” para piano, coleção que o pai amoroso dedica à Chouchou.

Um dos mais fiéis amigos de Debussy, Robert Godet (1866-1950), escreveu: “Já a conviver com doença fatal, uma das últimas alegrias veio dos ‘Quadros’ “. Procurei evidenciar em artigo publicado nos Cahiers Debussy, “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy” (1985), que Debussy teria sido igualmente influenciado pela magistral obra quando antolhou-se-lhe a possibilidade de escrever um ballet pour enfants, que seria “La Boîte à Joujoux”.

Fator externo evidente, que faz entender o apreço de Debussy pela obra de Moussorgsky, já se configura na inspiração, pois ambas partiram de imagens contidas em aquarelas. No caso de Moussorgsky, as expostas na exposição dedicada a Viktor Hartmann (1834-1873), seu amigo falecido recentemente. Quanto a Debussy, as ideias brotaram a seguir às aquarelas e história contínua de André Hellé. Os “Quadros…” e “La Boîte..” são enderaçados ao universo lúdico, pois, apesar da grandiosidade da primeira, metade das aquarelas escolhidas por Moussorgsky para a edificação dos “Quadros…” destina-se ao imaginário da criança. Em carta de 23 de Julho de 1913 ao seu editor, Jacques Durand, Debussy faz referência aos brinquedos da filha ao abordar “La Boîte…”: “arranco confidências das velhas bonecas de Chouchou”. Quanto a determinadas aproximações escriturais e de mood, em vários segmentos do ballet pour enfants podem ser sentidas influências moussorgskianas. São inúmeras as identidades. No aprofundamento realizado constatei que o tema principal de “A Grande Porta de Kiev”, monumentalmente tratado, não deixa de ser outro que Frère Jacques, tão conhecido mundialmente, com a redundância de Moussorgsky evocar também sinos. Portanto, a frase sonnez les matines da canção popular francesa ganha maior sentido na apreensão moussorgskiana. Conscientemente ou não, o autor russo aplicou o tema que teria passado incólume por mais de um século! E de pensar que a ideia me veio, na edificação da integral para piano do compositor, ao constatar, através das cartas de Moussorgsky ao amigo Stassov, que a Niania (babá) de sua infância não apenas contava-lhe histórias que, por vezes, “impediam-me de dormir”, como cantava-lhe canções do populário. Considere-se a forte influência francesa na Rússia entre os séculos XVIII e XIX, que propiciava à aristocracia russa a presença de governantas vindas de França, primeiras preceptoras de seus filhos. Por sua vez, Debussy utilizará também, conscientemente no caso, temas de canções populares francesas como Il pleut, il pleut, bergère e Fanfan la tulipe, assim como aludirá a temas de Charles Gounod (1818-1893) e Felix Mendelssohn (1809-1847).

A grandeza dos “Quadros de uma Exposição” não esconde a fina destinação lúdica. Epilepsia e alcoolismo deprimiam o compositor e voltar-se para as reminiscências da infância poderia traduzir o regresso ao universo infantil perdido, redimido pela música. Saliente-se que Moussorgsky foi bom pianista e que, entre muitas pequenas peças para piano, tantas evocam lembranças tantas, a infância e Niania, a babá.

Paradoxalmente, as duas criações apresentam resultados diversos. Poder-se-ia afirmar que “La Boîte…” é intimista, tem dinâmica a permanecer basicamente nas baixas intensidades e a escritura é mais “horizontal”. Frise-se que se está diante de obra programática, pois há uma história e os quatro quadros de “La Boîte…” contam as peripécias de três personagens centrais: a boneca, o soldado e Polichinelo. Outros tantos personagens surgem e até batalha entre polichinelos e soldados enriquece a criação. Essa visão de um ballet pour enfants, com drama sequencial e temas precisos (leitmotivs) para os personagens, dá coerência e unidade à obra. Quanto aos “Quadros… “, o leimotiv está afirmado em todas as “Promenades” (Passeios) que ligam a maioria dos quadros. Na obra de Moussorgsky tem-se preferencialmente a presença “vertical”, constituída de massa de acordes e também de sonoridades que chegam ao limite extremo das intensidades. Não por acaso a obra, de grande difusão mundial, sofreria transcrições para orquestra, sendo a mais conhecida a realizada por Maurice Ravel. Entre outros, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone também transcreveram os “Quadros de uma Exposição”. Deste, significativa é a opinião datada de 1947 (A Parte do Anjo – autocrítica de um cinquentenário): “Originalidade está na lógica da criação e se Debussy é feito de uma terça parte de franceses (até de Massenet!), e uma terça parte de Moussorgsky, lhe bastou botar uma parte de Debussy na sua criação para ser original e chefe de escola!”

Foi, pois, com imensa alegria que recebi o convite do Musée Debussy, sediado na casa em que o compositor nasceu em Saint-Germain-en-Laye, para festejar o centenário de “La Boîte à Joujoux”. Digo que é uma emoção grande, pois parte considerável de meus aprofundamentos deu-se em torno do grande mestre da música. Mais intenso será o acontecimento, pois a envolver igualmente os “Quadros de uma Exposição”, mercê de dados por mim levantados relacionando Debussy a Moussorgsky no direcionamento das duas extraordinárias criações para piano.

Soma-se a todo o exposto uma grata relação em torno de “La Boîte à Joujoux”. Alexandre Martin-Varroy, cantor lírico, comediante e “metteur en scène” profissional, realizou magnífico memorial para o CRD de Pantin, na França. Escolheu como tema “La Boîte à Joujoux” e, para maiores aprofundamentos, buscou o Centre de Documentation Claude Debussy em Paris. Quis conhecer dois artigos meus sobre o ballet pour enfants mencionados na extraordinária biografia crítica de François Lesure (Claude Debussy. Paris, Klincksieck, 1994; reedição, Fayard, 2003). Entrou em contacto e durante meses trocamos e-mails dirimindo dúvidas. O memorial, acompanhado de apresentação da obra em sua prova por pianista francesa e três atores-dançarinos, teve recepção que não poderia ser melhor. Pois bem, Alexandre Martin-Varroy deverá fazer uma exposição do ballet pour enfants, explicando a plasticidade de “La Boîte à Joujoux” e suas possíveis múltiplas caracterizações. Lembremos que em 1913 Debussy pensou na apresentação de “La Boîte…” com marionetes, certamente com as aquarelas de André Hellé em mente. Também foi imaginada para atores, dançarinos e orquestra, apenas narrador e piano e, presentemente, a integrar todas as performances em que a obra completa para piano é apresentada.

O post que deveria ser publicado na madrugada do dia 11 sofrerá um possível atraso de no máximo dois dias, pois o recital do sábado será tema do texto em questão.

On my recital in France next 11 at the house where Claude Debussy was born in Saint-Germain-en-Laye (Musée Claude Debussy). I will play Debussy’s La Boîte à Joujoux and one of Modest Moussorgsky’s masterpieces, Pictures at an Exhibition, a work that, conciously or not, would have influenced the French composer. On the occasion of the recital, the French actor Alexandre Martin-Varroy will explain the plasticity of La Boîte… and its several ways of artistic expression.

 

 

 

 

 

 

Quando Lembrança é Bem-Vinda

Espelho, amigo verdadeiro, 
Tu refletes as minhas rugas, 
Os meus cabelos brancos, 
Os meus olhos míopes e cansados. 
Espelho, amigo verdadeiro, 
Mestre do realismo exato e minucioso, 
Obrigado, obrigado! 

Mas se fosses mágico, 
Penetrarias até o fundo desse homem triste, 
Descobririas o menino que sustenta esse homem, 
O menino que não quer morrer, 
Que não morrerá senão comigo, 
O menino que todos os anos na véspera do Natal 
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Manuel Bandeira  (Lira dos cinquent’anos)

Aproxima-se mais um Natal. Para o cristão que apreendeu, através de ascendentes, o espírito do nascimento do Cristo, há sensíveis motivos para que a comemoração represente um repensar o ano que está a findar, experiências boas ou menos favoráveis que foram percorridas e, entre os seus mais caros, congraçar-se de maneira fraterna. Sob outra égide, mais e mais antecipa-se a propaganda natalina, a descaracterizar por completo a essência do evento. Publicidades já em fins de Agosto!!! Uma total irreverência. Estou a me lembrar de que em minha infância-adolescência todo o pensamento voltado ao Natal iniciava-se no dia 1º de Dezembro. Comércio e Mídia conseguiram banalizar a festividade maior da cristandade, mormente para quem não vive intensamente o nascer de Cristo.

Estou a me lembrar de episódio que ficaria registrado para sempre. Nas décadas de 1980-1990 foram várias as viagens a Paris para aprofundamentos na obra de Claude Debussy. Em uma delas, ainda no aeroporto de Guarulhos, encontro-me casualmente com o competente historiador e estudioso de uma das vertentes da musicologia, Arnaldo Contier, então professor da FFLCH da Universidade de São Paulo. Coincidentemente viajávamos na mesma aeronave para pesquisas na Bibliothèque Nationale, ele a buscar subsídios para a sua área. Durante duas semanas encontrávamo-nos na BN e algumas vezes almoçamos no entorno.

Nesse profícuo período, o ilustre musicólogo e amigo François Lesure – quase que consensualmente o mais importante especialista em Claude Debussy num plano mundial na segunda metade do século XX – dirigia o Departamento de Música da BN. Propiciou-me o privilégio de poder trabalhar durante as duas semanas os manuscritos originais para piano do grande mestre. Recolhia-me a uma sala individual e, à medida que findava o estudo de determinada partitura, uma funcionária a retirava e colocava à mesa outro manuscrito. Munido de luvas e de um sistema para virar páginas amarelecidas pelo tempo, percorri com reverência cada compasso, a entender a escrita precisa, não desprovida de certas rasuras. Debussy escreveria em 1915 ao seu editor Jacques Durand, ao concluir os “Douze Études” para piano: “a mais minuciosa estampa japonesa é uma brincadeira de criança ao lado do grafismo de certas páginas, mas estou contente, foi um bom trabalho”!

Certa noite François Lesure convidou-me para jantar em seu apartamento. Noite muito agradável em que a adorável Anik Lesure e François mostraram-se impecáveis anfitriões. Estava presente dirigente da importante livraria Aux Amateurs de Livres, Alain Baudry, que, após relato de François a respeito de meu longo envolvimento com a obra de Debussy, mostrar-se-ia interessado pelos estudos que eu estava a realizar. Comentei que faltavam à minha biblioteca particular determinados livros sobre o compositor, mormente escritos na primeira metade do século XX. Convidou-me a visitar a livraria-editora, pois não apenas trabalhavam com  edições raras abrangendo várias áreas, como também exportavam obras francesas relevantes, em edições cuidadosas, para  universidades da América do Norte e do Japão. Editavam igualmente teses meritórias de séculos precedentes. A livraria mantinha  importante acervo de livros de arte e de literatura não mais encontráveis no mercado.

Manhã fria de um 24 de Dezembro, véspera de Natal. Convidei Arnaldo Contier para me acompanhar à livraria, situada no 62 da Avenue de Suffren, bem próxima à Tour Eiffel. Atônito e encantado, encontrei a maioria dos títulos que buscava, desde o livro do amigo de Debussy e seu biógrafo, Louis Laloy, editado em 1909 e tendo o número 17 de uma tiragem de 200 exemplares, assim como um dos compêndios (1926) de um dos mais importantes estudiosos do compositor, Léon Vallas, com dedicatória do punho do autor à “Ouvreuse du Cirque d’Été”, a célebre romancista francesa Colette. Cerca de vinte livros dessa rica bibliografia da primeira metade do século XX foram por mim selecionados. Ainda era a época dos francos franceses e a soma foi além dos 1.500 euros de hoje. Fui ao caixa para saber quais livros levar, pois teria de adequá-los ao meu orçamento econômico. Perguntei à senhora que me atendeu pelo senhor Alain Baudry. Avisado, desceu as escadarias com um grande cão labrador, a dizer que acabara de ler meu artigo publicado nos Cahiers Debussy, “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy” (1985). A senhora apresentou-lhe a elevada conta com a relação completa. Alain Baudry leu o papel, olhou-me e, apertando minha mão, disse: “C’est l’esprit de Noël”. Ofereceu-me ainda livros recentes sobre música, publicados pelas Éditions Klincksieck, também sob sua direção.  Fiquei estupefato e essas obras vieram enriquecer meu conhecimento sobre o grande mestre francês. Arnaldo e eu saímos maravilhados com o gesto de tamanha generosidade.  À noite, Contier e eu, fomos comemorar o Natal em restaurante italiano em Montparnasse. Ao comentar com François Lesure sobre o ato do amigo, disse-me: “esse é Alain Baudry”.

O Espírito de Natal pode estar traduzido nas mais diversas ações de generosidade. Tem ela de ser natural, daquele que entende a dádiva  como extensão. Entidades religiosas ou laicas, sem contágio político, têm apreendido, ao longo dos tempos, o evento maior da cristandade como congraçamento pleno. Contudo, é no seio familiar que a semente de solidariedade torna-se planta e frutifica. Que a família continue como o bem maior! A todos leitores envio votos de paz e congraçamento nesta data maior da Cristandade.

On Christmas season and commercial interests transforming the date into a secular holiday for the celebration of materialistic consumerism. This reminded me of a Xmas spent in Paris. Visiting the bookshop of editor Alain Baudry, I selected a pile of books about Debussy I could not afford. While trying to sort out the ones I needed most, Alain Baudry, who was aware of my research on Claude Debussy’s works, shook my hand and offered me all the books as a gift, saying: c’est l’esprit de Noël.

Romance de Época – Variantes

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade

Luiz Gonzaga é bom amigo e vizinho. Encontramo-nos sempre pelas calçadas mal tratadas de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, pouco a pouco sendo frequentado pelos sem teto, pessoas a quem a Prefeitura de São Paulo prefere não dar destino claro, a escolher, à maneira do avestruz, mergulhar a cabeça do “poder” sob a terra, quando de decisões que possam provocar incômodos à administração pública. Num desses dias fomos tomar um curto no Natural da Terra. Bom momento para descontração. Política, futebol, cotidiano e o descaso das gestões da Prefeitura, mormente a atual, pelos problemas cruciais da cidade-bairro e da urbe como um todo.

A certa altura, Luiz Gonzaga disse-me que encontrou em um alfarrabista o romance de João Silvério Trevisan, “Ana em Veneza”. Folheou-o e prontamente comprou-o. Gostou imenso da leitura, apesar de ter ficado desorientado com o final, que lhe causou uma sensação de desequilíbrio devido à situação delirante do personagem central, “transmigrado” para a modernidade. Disse-lhe que li o romance, gostei, mas tive sensação muito próxima à sua.

Conversamos sobre a obra, que teve publicação em 1994 (São Paulo, Best Seller), e lá pelas tantas Luiz Gonzaga indagou-me sobre a menção, no romance, ao compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852-1931). A fim de esclarecimento para o leitor que porventura desconheça a obra, mencionaria o enredo básico de “Ana em Veneza”. Estamos diante de romance de época, que permeia a segunda metade do século XIX e adentra o XX. Ficção e realidade se amalgamam, abordando personagens como Júlia da Silva Bruhns Mann (1851-1923), nascida em Parati e mãe do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955); a mucama de Júlia, a negra Ana; o ilustre compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920) e tantos outros mais. Tem-se desde a apresentação do bucólico vivido em Parati às infiltrações, na Europa, de conteúdos  culturais outros,  que tenderiam a modificar posturas dos figurantes.

Toda essa premissa para louvar a seriedade de João Silvério Trevisan na “fixação” histórica que leva a um hipotético encontro de Nepomuceno com Henrique Oswald, em Florença, onde este último vivia com sua família constituída na Península. Sabedor de minha tese de doutorado sobre Oswald, a primeira realizada sobre o compositor, quis saber pormenores. Conversamos e emprestei-lhe o volume que correspondia ao compartimento biográfico. Trevisan inteirou-se do tema e, com raríssima acuidade, realizou o “encontro” entre os dois mestres. Inicialmente fixa o autor a data de 12 de Agosto de 1890, e Nepomuceno relataria nesse imaginário criado: “Já estou em casa do Henrique Oswald, o compositor amigo do Miguez. Fui muito bem recebido. O Oswald mora com a mulher, Signora Laudomia, e os filhos numa villa modesta mas muito agradável, com um jardinzinho cheio de rosas, hortências e gerânios. A quinta chama-se Villino San Paolo e fica no alto da colina de Fiesole, em meio a vilas luxuosas onde moram muitos estrangeiros abastados”. Trevisan menciona os quatro filhos, mas ressalva que “a mais nova, Nini, é ainda de colo e tem saúde bem fraca”. Há sutileza, pois Nini morreria logo após. Na ficção, Nepomuceno mencionaria que “À noite, o Oswald tocou algumas de suas peças para piano. São obras cheias de elegância e colorido, esplendidamente elaboradas”. A exacerbação quanto à feitura tem procedência, pois realmente elas excedem na escritura, como argumentei na tese. Arguta a afirmação, “atribuída” a Nepomuceno, que “tocou também trechos de um concerto para piano e orquestra, que está terminando de escrever”. A essa altura, Oswald estava em plena elaboração do Concerto para piano e orquestra op. 10. Como curiosidade, a neta do compositor, minha saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, presenteou-me com o manuscrito autógrafo da versão para quinteto de cordas e piano que o autor fez do Concerto em menção. A gravação na íntegra, a partir desse manuscrito, está no YouTube (Quarteto Rubio, contrabaixo, e JEM ao  piano). Importa considerar, entre tantas outras situações de “Ana em Veneza”, a consciência de Trevisan em saber encontrar a fórmula que permitisse a fusão do fato real com a sua imaginação criativa. Luiz Gonzaga e eu ainda trocamos considerações sobre outras situações propostas por Trevisan, mormente a sócio-econômica de Parati nos anos 1860.

Entre incontáveis exemplos de romances de época, tantas vezes biográficos, mencionaria um pequeno e delicioso livro de Jean Echenoz sobre o compositor francês Maurice Ravel (Ravel. Paris, Minuit, 2006). O autor realizou extenso aprofundamento sobre a vida do músico, mormente os dez últimos anos. Pormenoriza os gostos voltados ao dandismo, possivelmente para atenuar a sua estatura bem pequena; atenta aos estados de ânimo do compositor; descreve os cuidadosos ambientes em que morava; relata, nesse “imaginário”, a célebre desavença real que teve em Nova York com o afamado regente italiano Arturo Toscanini em torno do célebre Bolero: “Quando Toscanini regeu à sua maneira, duas vezes mais rápido e accelerando, Ravel, aborrecido, foi vê-lo no camarim. Este não é o meu movimento, observou o compositor. Quando eu toco no movimento indicado, respondeu Toscanini, nenhum efeito se dá. Bem, retruca Ravel, então não mais conduza minha obra. Mas o senhor não conhece nada de sua música, continuou Toscanini, essa foi a única maneira que encontrei de agradar ao público. Ravel escreveria a Toscanini e o teor da carta é desconhecido”. O compositor, tendo sofrido problema degenerativo de origem neurológica, que o fez  afastar-se progressivamente do contato social, sofreria delicada intervenção cirúrgica que constataria a nítida diminuição de seu cérebro (não teria sido o que mais tarde ficaria conhecido como Mal de Alzheimer?). Echenoz, certamente após pesquisas na área, pormenoriza os lances do procedimento cirúrgico.   

Se a “fidelidade” ao real depende da intenção do autor em sua narrativa, há que se entender que o desvio da veracidade de maneira até acintosa é geralmente a norma em um romance ou filme. Neste, fatos até hilariantes e distorcidos podem influenciar incautos que entendem, falta de outra opção, a fantasia plena como autenticidade absoluta. O romance de época, ao centralizar figura relevante, pode desenvolver o simulacro, o caricato ou a busca do real. Nos dois romances mencionados, essa última via teria sido a intenção dos autores, fator meritório. Ao longo da trajetória da narrativa, desde a antiga Grécia deparamo-nos com o real e o imaginário. A mitologia está plena dessa mescla e os relatos sacros também. Creio que o leitor, munido das ferramentas para separar as opções propostas por um autor, estará apto a distinguir, no desenrolar do relato, o real e o ficcional. 

The idea for this week’s post came after a chat with a friend about characters in historical novels: authors may mix historical characters and settings with sheer fantasy. It is for the reader to find out, as the story unfolds, what is history and what is fiction.