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Uma Obra Prima

O Passionário Polifónico de Guimarães

Pero la gran novedad de este manuscrito,
única o casi, en la tradición de estos Pasionarios,
es la música,
tanto la de las pasiones como la del “Exsultet” y la de las lecciones,
que no es la oficial de la Iglesia,
sino una nueva, derivada de una tradición portuguesa,
cuyos orígenes son, hoy por hoy, desconocidos.
José López-Calo

Ao longo desses anos de convívio com o leitor tenho salientado a necessidade imperiosa de um pesquisador persistir em suas investigações após dissertações e teses acadêmicas defendidas. Elegemos temas de vida e quão mais temas são aprofundados, maiores as possibilidades de ideias originais e convincentes surgirem na trajetória de um estudioso. Se uma pesquisa é abandonada, após finda a “missão” acadêmica, poder-se-ia aventar a relação meramente protocolar do interessado, jamais a ligação amorosa com a escolha. Simulacro e embuste são termos que podem estar camuflados na origem das intenções, assim como, em sentido contrário, entusiasmo e aprofundamento.

Quatro são os livros do notável musicólogo e professor português, José Maria Pedrosa Cardoso, que resenhei neste espaço (vide relação completa no menu do blog: Livros – resenhas e comentários – lista). Minha admiração confessa pela profunda investigação musicológica de Pedrosa Cardoso tem no “O Passionário Polifónico de Guimarães” motivo maior para louvação.

Pedrosa Cardoso já revelara em substancioso livro, “O Canto da Paixão nos séculos XVI e XVII – a singularidade portuguesa” (2006), os caminhos que o levaram a considerar a importância do “Passionário” existente em Guimarães. Poder-se-ia dizer que tanto o manuscrito existente em Coimbra, como o de Guimarães, basicamente escritos no mesmo período, são extremamente relevantes. O de Guimarães apresenta-se na presente edição de maneira integral. Buscou Pedrosa Cardoso os apoios necessários para torná-lo público em magnífica edição fac-similada, a revelar, efeitos da tinta ferrogálica e matizes de cor da cuidadosa caligrafia musical enriquecida pelos arabescos das iluminuras, esse todo artesanal altamente especializado e resplandecente desde a Idade Média. Estamos diante de uma verdadeira obra de arte editorial (250x350mm), na qual o leitor pode pormenorizar-se no conteúdo musical de alta qualidade e no manuscrito característico do período (Guimarães, Edição da Sociedade Martins Sarmento, Publicada pela Fundação Cidade de Guimarães, 2013). Edição bilíngue em capa dura (português-inglês). Após a exposição das folhas manuscritas do “Passionário”, a sua transcrição integral  em notação moderna enriquece o livro e possibilita cotejamentos de raro interesse. Esse é o aspecto extraordinário e “físico” da magistral investigação de Pedrosa Cardoso. Mas é uma impecável parte do todo. A edição só foi possível por estar entregue ao insigne especialista em Arte Sacra Musical dos séculos XVI e XVII em Portugal e emérito latinista. Se o estudo, transcrição e revisão estiveram sob os cuidados de Pedrosa Cardoso, louve-se o trabalho de musicografia de Eduardo Magalhães.

O presente manuscrito musical de 1580, aproximadamente, escrito no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, pertence à Sociedade Martins Sarmento. Denomina-se “Passionário”, pois desde o século XVI assim é nomeado. Nele estava contida a música cantada representativa da Paixão de Cristo nas interpretações dos quatro Evangelistas: São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. No volume em questão foram incluídas, na época da feitura, outras peças relativas à Semana Santa.

Pedrosa Cardoso aprofunda-se nas origens históricas desse códice, “descreve” os caminhos musicais e sua natureza, entendendo seu significado dentro do contexto da prática polifônica em Portugal “A esta abundância de polifonias, todas elas baseadas no cantus firmus tradicional português, que põem de relevo a importância do canto da Paixão em Portugal, não é estranho o impacto verificado entre nós pela Devotio Moderna, pelos ‘místicos do Norte’, pela espiritualidade das Ordens Religiosas, sobretudo a Cisterciense e a Franciscana, bem como o culto da cruz herdado de antigamente pela lenda de Ourique e projectado nas caravelas e na arte manuelina, ao que é lícito acrescentar, a coincidir com a expansão daquelas polifonias, o sofrimento do povo português sob o domínio espanhol e com a consciência da decadência nacional”. O estudioso, em sua análise histórico-musical, examina pormenorizadamente a importância da tradição melódica nos Passionários, a “dimensão rítmica do accentus da Paixão”, a tradição polifônica preservada, a disposição dos cantores no ato da representação, entre tantos outros preciosos compartimentos investigativos. Comenta que “A escrita apresenta-se com um tratamento formal cuidado, denunciando alguma influência da técnica do contraponto flamengo, o que faz supor a boa preparação dos cónegos regrantes e também o talento dos seus compositores”.

O eminente musicólogo espanhol e professor catedrático emérito da Universidade de Santiago de Compostela, José López-Calo, fez a apresentação do “Passionário Polifónico de Guimarães” no dia 11 de Outubro na cidade berço da nacionalidade portuguesa. Observa em seu elucidativo e brilhante texto:  “a importância desse Passionário de Guimarães, que hoje é apresentado, vai muito além das fronteiras, não as locais, tampouco as nacionais portuguesas, pelo que, para entendê-lo adequadamente, deva ser estudado nesse duplo aspecto: o contexto histórico e litúrgico, e em ambos, num contexto igualmente universal”. Referindo-se ao professor José Maria Pedrosa Cardoso, afirma “… o volume que hoje apresentamos significa a culminação de um processo, de imensa amplitude, cujas bases ele já fixara em sua esplêndida tese de doutorado defendida em 1998 junto à Universidade de Coimbra, da qual participei como membro do júri, tendo ele recebido a mais alta qualificação, e que hoje resulta nessa magnífica edição do Passionário de Guimarães”.

No âmbito do Festival «Música em São Roque» realizar-se-á, na igreja do Convento da Encarnação em Lisboa, concerto com o ensemble “Voces Caelestes”, sob o título “As Paixões de Guimarães”. A apresentação está marcada para o dia 30 de Novembro às 15h30. A direção do evento é de Sérgio Fontão. O lançamento de “O Passionário Polifónico de Guimarães” na capital portuguesa será no dia 11 de Abril na Biblioteca Nacional.

“A Passionary, at least from the 16th century onwards, is a liturgical book containing music according to which was sung the Passion of Christ according to the Evangelists, St Matthew, St Mark, St Luke and St John. The finding of the documental importance of the Guimarães’s Polyphonic Passional and its comparative study with a similar codex from Coimbra University’s General Library allowed us to get to know the way how to chant the Passion in the Portuguese liturgy of the end of the 16th century, revealing its singularity in the European context. We owe this finding and study to José Maria Pedrosa Cardoso, whose work contributed to the perception of a spiritual and original presence in the festivities of the Holy Week in Portugal” (Excerpt from the English version of the book).

Preservação da Memória Musical de uma Cidade

Temos, sobretudo, de aprender duas coisas:
aprender o extraordinário que é o mundo
e aprender a ser bastante largo por dentro,
para o mundo todo poder entrar.
Agostinho da Silva

Uma cidade que não preserva seu passado é como uma árvore estéril. Não há frutos, tampouco flores. Estiola-se sem ter deixado rastros de sua história, ou sementes que possam rememorar suas origens. Cresce desprovida de alma pois olvidou o longo percurso empreendido. Guardar os traços da urbe pode ter várias vertentes. Em uma delas, sob o olhar acadêmico, resgata-se o passado, mas tantas vezes o texto se torna árido, previsível, enfadonho e não se sente a aura das gerações que se foram. Um dos males da Academia é não ter o olhar e os ouvidos para essa vibração, só perceptível se houver envolvimento do cuore. Fatos e personagens longínquos revivem, participam de nosso cotidiano e servem de exemplo para os pósteros. Não importa a dimensão da cidade. Grande ou pequena, teve suas figuras humanas que ajudaram a edificá-la sob muitos aspectos. Quando o gravador, escritor e idealista português Sérgio Sá escreve “Memórias de uma Aldeia” (1990), retrata  preferencialmente o pulsar musical de Cidadelha, aldeia que remonta ao século XIII. Amorosamente, Sérgio Sá recupera a respiração musical e artística a partir dos primórdios do século XX. É um passo. Uma fatia da história permanecerá imorredoura, pois fixada. O multum in minimo está preservado e Cidadelha ressurge sonora e no cotidiano da gente que lá viveu.

Maria Amélia de Toledo Piza é vocacionada ao aprofundamento. Artista plástica sensível, musicista e interessada na história artística da cidade de Botucatu, empreendeu preciosas incursões no campo de acervos depositados na cidade. Seu caminho acadêmico levou-a a dois trabalhos referenciais. Um primeiro, mestrado, em que se detém nos magníficos afrescos realizados por Henrique Bicalho Oswald e encomendados pelo saudoso arcebispo de Botucatu, D. Henrique Golland Trindade (“O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu”, UNESP, 1997) e o consequente doutorado na mesma Universidade a versar sobre temática afim, pois estuda pormenorizadamente a obra do pai de Henrique, Carlos, pioneiro da gravura em metal no Brasil (“A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald”, UNESP, 2004). A continuidade desse aprofundar nas obras do neto e do filho, respectivamente, do grande compositor romântico brasileiro Henrique Oswald bem demonstra a trajetória coerente, sem subterfúgios de Maria Amélia. A visão onírica da pintura, que é uma de suas linguagens, concentrar-se-ia inicialmente nos afrescos da Capela botucatuense da Santíssima Trindade e daí para a universalidade contida nas criações de Carlos Oswald.

Trabalho hercúleo estava ainda a ser feito. Se a Capela da Santíssima Trindade com seus afrescos está a revelar, possivelmente, a mais sensível obra de arte de Botucatu; se o estudo relacionado à criação de Carlos Oswald evidencia a “origem” do pensamento pictórico do autor das pinturas no templo sagrado, seria, contudo, no levantamento e na ênfase relativa à importância da música para a cidade de Botucatu que Maria Amélia cresce ainda mais, pois através do amálgama de seu acervo cultural encontraria a harmonia absoluta do aprofundamento. Seu livro “Botucatu – Notas Musicais”, livre das amarras e do ranço acadêmico que tantas vezes oblitera a espontaneidade – não é o seu caso nos dois trabalhos mencionados -, entrelaça as temáticas. O texto desliza amorosamente, a trazer ao leitor a história, os personagens, a vivência, as escolas de música, a ação de professores dedicados e proles através das décadas que perpetraram o cultivo da música como verdadeira respiração. Tem-se a impressão de que essas figuras – tantas que partiram – caminham lado a lado com o leitor, legando a dedicação carinhosa à arte musical.

Maria Amélia perpassa a trajetória de Botucatu bem antes de ter sido erigida cidade e esse caminhar dá sentido pleno à temática, centralizada nas diversas manifestações voltadas à música. O imenso aprofundamento através da ação de músicos que atuaram e atuam em Botucatu, assim como a busca incansável de iconografia riquíssima, testemunham a qualidade de “Botucatu – Notas Musicais”.

Maria Amélia, após ter pacientemente coletado todo o material, transpôs para o texto não apenas os fatos musicais que ocorreram e a ação contínua de professores, alunos, intérpretes e conjuntos, mas os revive, mercê, em parte, dessa ruptura das amarras – necessárias na Academia -, a propiciar ao leitor conviver, participar, entrar em ambientes físico- musicais que se foram, mas que permanecerão registrados ad eternum no texto e na imagem. O debruçar “arqueológico” a que se propôs Maria Amélia abriga carinhosamente  manifestações eruditas e populares. Seu olhar abrange o todo musical, sem distinção. Se o erudito prevalece, certamente estaria caracterizado o ensino, as Escolas de Música que se instalaram na urbe ao longo da história. Maria Amélia se detém nas origens que levaram à instauração do Conservatório Musical Santa Marcelina em 1959. Significativa a erudição que a ordem das Marcelinas demonstrava, trazendo para Botucatu parte da metodologia professada na Itália. Nesse período, a cidade, que tivera a primeira menção de um piano em 1865, contava com 80! Centrado no instrumento, desenvolveu-se no lugar um verdadeiro culto ao piano. No salão nobre das Marcelinas apresentei-me inúmeras vezes nos anos 1950-1970 a convite de D. Henrique Golland Trindade. Na década de 1960, durante anos, mensalmente dei aulas de piano no Conservatório, podendo atestar o verdadeiro entusiasmo que os jovens botucatuenses tinham pela música, pelo aprimoramento pianístico e por repertórios. Ficou gravada para sempre a dedicação da Superiora, irmã Fedele Nuzzacci, e das irmãs Lúcia de Castro Alves e Lilia Aguiar Ayres.

Impressiona o interesse de Botucatu pelos conjuntos em suas múltiplas configurações: orquestras abrangendo vários agrupamentos,  bandas, orfeões escolares, corais… Maria Amélia traz ao conhecimento do leitor todo esse comovente pulsar da cidade, confessadamente vocacionada.

“Botucatu – Notas Musicais”, da erudita Maria Amélia Blazi de Toledo Piza, não desvia o olhar de todas as sensíveis manifestações populares. O folclore, a moda-de-viola e aqueles que criaram na cidade uma genuína música caipira. É o debruçar da autora imparcial nas escolhas? É-o, sobremaneira pelo fato de, com uma cultura abrangente, Maria Amélia, nesse livro felizmente não acadêmico, friso bem, em nenhum instante  demonstrar sua preferência. É-o, na medida em que, carinhosamente, músicos eruditos e populares se confraternizam sob a pena da autora. Todos cultuam o Belo, e Maria Amélia entende como poucos, em seu significativo tributo, a mensagem musical como uma dádiva. Passado e presente de mãos dadas. Amálgama.

Ao inserir, como apêndice, “Semeadores”, “Sementes” e “Frutos”, a autora relaciona todos aqueles, radicados ou não, que tiveram  relação com a vida musical em Botucatu. Sob outra égide, a autora conseguiu reunir uma preciosíssima iconografia relativa a professores e seus alunos, conjuntos musicais, edificações relacionadas à música.

Apesar da modéstia de Maria Amélia, característica da autora “Só fizemos uma pequena parte. Outros botucatuenses farão outras”, é inegável que temos em “Botucatu – Notas Musicais” um extraordinário documento sobre a vida musical da ybytucatu, vocábulo tupi que daria origem ao nome da cidade dos “bons ares, bons ventos”. E que o livro sirva de estímulo maior à continuação sonora de Botucatu.

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O evento do dia 26 de Outubro, realizado no auditório do Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, foi intenso no congraçamento. Recital de piano assistido por público numeroso e atento, que correspondeu às expectativas. Após minha apresentação houve um momento que me levou à comoção. Os menores da Vila dos Meninos Sagrada Família subiram ao palco para me entregar um mimo. Meu apreço pela meritória Vila vem de 1954. Após aqueles instantes, Maria Amélia Blasi de Toledo Piza autografou seu belo livro. A renda integral do recital e dos livros foi entregue ao Presidente da Vila dos Meninos, Robert Muller. Maria Amélia e eu apreendemos intensamente os instantes mágicos vividos.

Last week I went to Botucatu for a recital, followed by the launch of the book “Botucatu – Notas Musicais” (literally: Botucatu – Musical Notes), written by Maria Amélia Blasi de Toledo Piza. This post is about her book, the result of a research about the history of the city since its founding, alongside with an investigation of the musical events that kept pace with the development of the place.

Boas Lembranças não Faltam

Je te l’ai dit de la prière
qui  est exercice de l’amour,
grâce au silence de Dieu.
Si tu avais trouvé Dieu
tu te fonderais en Lui,
désormais accompli.
Saint-Exupéry (Citadelle – LIV)

Convidado pela pintora, escritora e professora doutora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza para uma apresentação em Botucatu, de imediato aquiesci, ainda mais pelo fato de o convite envolver o prefácio do novo livro de Maria Amélia, a contar a história da música na cidade (Botucatu – Notas Musicais. Botucatu, Santana, 2013). Li com raro interesse o pormenorizado e carinhoso livro, a narrar desde as origens de Botucatu, à trajetória das manifestações musicais na bela cidade do interior do Estado de São Paulo.

Foi em 1952 que, a convite de Ditinha Vasconcelos, verdadeira secretária da insigne pianista Guiomar Novaes, conheci D.Frei Henrique Golland Trindade (1897-1974), então bispo de Botucatu. Meu irmão e eu nos apresentamos na Igreja de São Francisco, no largo do mesmo nome em São Paulo, num recital com a presença do ilustre prelado e freis da ordem franciscana. E começou a partir desse recital uma amizade que se prolongaria até o último suspiro de D.Henrique.

Durante os anos que se seguiram, anualmente nos apresentávamos em Botucatu e, posteriormente, em várias oportunidades toquei recitais solo no auditório do Conservatório Santa Marcelina. A renda se destinou sempre, integralmente, à Vila dos Meninos Sagrada Família. A única exceção se deu quando reverteram a bilheteria para os magníficos sinos que chegavam à Catedral. Durante o bispado e arcebispado de D.Henrique hospedava-me no Palácio Episcopal. Devo ao ilustre prelado, sacerdote que teve uma vida santa e que um dia deverá estar no altar, o aprimoramento da fé, o sentir no mais humilde o verdadeiro irmão em Cristo. D.Henrique foi meu padrinho de crisma e celebrou, em Campinas, meu casamento com Regina, em 1963. Orador sacro excepcional – considerado primus inter pares por tantos ilustres sacerdotes – autor de inúmeros livros, alguns traduzidos, ensinou-me caminhos inusitados da arte. Tinha um “santo orgulho”, como costumava dizer, ao apresentar a Capela da Santíssima Trindade, de alvenaria e com tijolos à vista, despojada de artifícios, que se situa no interior do Seminário. Na ábside localiza-se o magnífico afresco do pintor Henrique Oswald – neto do grande compositor do mesmo nome – e que faz alusão à Santíssima Trindade. O artista teve a colaboração efetiva de sua esposa Jacyra.  A pintura foi-me pormenorizada em cada traço por D.Henrique. A dissertação de mestrado de Maria Amélia Blasi de Toledo Piza junto à UNESP-Bauru estuda com profundidade as pinturas da singular capela. Participei da banca examinadora.

Estou a me lembrar de três episódios marcantes. Estávamos nos anos 1950. O quarto em que D.Henrique dormia no Palácio Episcopal tinha um leito estreito com uma madeira, ao invés de colchão, coberta e travesseiro. Perguntei-lhe se era essa a sua cama. Respondeu-me que o mínimo de penitência que poderia oferecer era esse sacrifício. D.Henrique sempre chegava “atrasado” ao café da manhã, pois ao raiar o dia já estava a visitar necessitados botucatuenses.  Em 1973, após uma apresentação em Botucatu, fui visitá-lo antes de regressar a São Paulo. Era uma manhã gélida e brumosa e D.Henrique já residia na Vila dos Meninos Sagrada Família. Encontrei-o ajoelhado no jardim, a cabeça coberta pelo capuz, a podar rosas. Ajudei-o a  levantar-se, mas antes indaguei-lhe sobre seu estado de saúde. Abaixou o tradicional capuz franciscano, levantou as mãos ao alto e disse com sua voz grave e inconfundível: “Enquanto puder glorificar a Deus, sou um homem feliz”. Após tomamos o pequeno almoço. Foi nosso último encontro. Lembro ao leitor que D.Henrique foi o primeiro Arcebispo de Botucatu, sendo que dez anos após, em 1968, tornou-se resignatário. A partir dessa decisão recolheu-se à Vila dos Meninos, que ele fundou.

A ligação com a cidade ficaria mais intensa quando passei a dar aulas no Conservatório Santa Marcelina. Entre as décadas de 1960-1970, por sete anos, uma vez ao mês visitava Botucatu para aulas que se prolongavam durante os sábados. Duas dedicadas irmãs, Lília Aguiar Ayres e a saudosa Lúcia de Castro Alves, sempre atentas, acompanhavam o desenvolver das alunas, algumas internas do Colégio das Irmãs Marcelinas.

Em inúmeros posts tenho me posicionado quanto à ausência da crítica musical competente, hoje, na megalópole São Paulo. Em seminário na Université Sorbonne pronunciei-me sobre esse fato, aliás a ocorrer também em grandes centros europeus. Entretanto, tem-se, como ficou patente naquele encontro, a crítica tantas vezes de valor através da internet. Na fronteira da segunda metade do século XX, São Paulo tinha 12 ou 13 críticos, muitos deles músicos, como J.H.Koellreutter, Caldeira Filho, Dinorá de Carvalho, Cyro Brisolla. O que de mais significativo representava essa crítica era a presença de quem escrevia nos concertos e recitais de jovens que iniciavam o longo percurso… Todo o estímulo para tantos intérpretes daquela geração veio dessa crítica, que apontava talentos ou, “diplomaticamente”, não dava maiores esperanças. Sessenta anos após, o jovem que está a dar os primeiros passos na difícil carreira não mais tem essa palavra abalizada sobre seu desempenho público. Dirige-se a “crítica” ao consagrado pátrio ou de alhures.

Essas considerações se fazem necessárias, pois em Botucatu na década de 1950, após os recitais, três ou quatro críticos escreviam. Alguns padres que regiam corais e leigos cultos colocavam suas opiniões no Monitor Diocesano, na Folha e no Correio de Botucatu. Posso afirmar que algumas das críticas que mais marcariam o meu já longo caminhar musical vieram de Botucatu. O Padre João Dias Ramalho, do Monitor Diocesano, traçaria o perfil do jovem de 16 anos sem o menor equívoco. Diria que 90% do que sou já estavam sendo apontados pelo crítico, apenas a partir da interpretação musical! Não o conheci, mas ao reler ultimamente essa crítica fiquei impactado. No mesmo jornal, em outra secção, o Dr. Aleixo Delmanto foi preciso em suas observações, e a captação da personalidade através da execução ficaria registrada. Entendo essas críticas, para jovens que despontavam, como farol a guiar o navegante. De onde viria a auto-confiança, a não ser do acúmulo de estímulos espontâneos? Essa crítica, que se estiolou nas décadas posteriores pelo Brasil, era fundamental e evidenciava a competência de quem escrevia. Saudar o consagrado é tarefa tão fácil!!!

No programa do recital inseri obras que me são caras. Carlos Seixas (duas Sonatas), Modest Moussorgsky (Quadros de uma Exposição), Henrique Oswald (Valse-Caprice op. 11 nº 1), Claude Debussy (L’Isle Joyeuse) e Alexander Scriabine (Vers la Flamme). Duas criações recentes do notável compositor francês François Servenière serão apresentadas em primeira audição mundial, o Étude Cosmique nº 4 – Níquel e Outono Cósmico In Memoriam Luca Vitali, o grande artista plástico e designer que nos deixou neste ano.

Quase sessenta anos se passaram… Retornar a Botucatu para o recital, na mesma sala em que me apresentei tantas vezes, leva-me necessariamente à emoção. Tornamo-nos mais sensíveis com o passar dos anos. Reverter toda a renda para a Vila dos Meninos Sagrada Família é a continuação de minha admiração pelo estandarte empunhado por D.Henrique. Estar presente no lançamento do belíssimo livro de Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, uma grande alegria.

On my return to the city of Botucatu for a benefit concert. As many times in the past, funds raised will be fully directed to the Vila dos Meninos, a home for poor children founded by the late archbishop of Botucatu, Dom Henrique Golland Trindade.